História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo II

O declínio espiritual do metodismo americano: a heresia de Zinzendorf

Por volta de meados do século XIX, o metodismo nos Estados Unidos já começava a mostrar “o abandono dos ideais heroicos dos tempos antigos” num grau muito lamentável, e de modo quase universal.

A Igreja Metodista Episcopal daquela época tinha passado a aceitar em grande parte a visão morávia da santidade, ou santificação, ensinada pelo conde Zinzendorf, cujo núcleo é, como o expõe o Sr. Wesley, que “somos inteiramente santificados no momento em que somos justificados, e não somos nem mais nem menos santos até o dia da nossa morte; a inteira santificação e a justificação acontecem num só e mesmo instante”.1

[N. do T.: o conde Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760) foi o líder dos morávios. Wesley discutiu com ele, em 1741, a respeito da santificação.]

O ensino original do metodismo sobre esse ponto é exposto pelo Sr. Wesley da seguinte maneira:

“P. Quando começa a santificação interior?

“R. No momento em que o homem é justificado. (Contudo, o pecado permanece nele, sim, a semente de todo pecado, até que ele seja inteiramente santificado.) Daquele momento em diante, o crente vai morrendo gradualmente para o pecado e crescendo na graça.”2

“P. Essa morte para o pecado e renovação no amor é gradual ou instantânea?

“R. Um homem pode estar morrendo por algum tempo; contudo, propriamente falando, ele não morre até o instante em que a alma se separa do corpo; e nesse instante ele vive a vida da eternidade. Do mesmo modo, ele pode estar morrendo para o pecado por algum tempo; contudo, não está morto para o pecado até que o pecado se separe da sua alma; e nesse instante ele vive a vida plena do amor. E, assim como a mudança que acontece quando o corpo morre é de natureza diferente, e infinitamente maior do que qualquer outra que tivéssemos conhecido antes, sim, tal que até então é impossível concebê-la, assim também a mudança operada quando a alma morre para o pecado é de natureza diferente, e infinitamente maior do que qualquer outra anterior, e do que alguém pode conceber até experimentá-la. Contudo, ele continua a crescer na graça, no conhecimento de Cristo, no amor e na imagem de Deus; e continuará assim não só até a morte, mas por toda a eternidade.”3

[N. do T.: as perguntas e respostas são da Clara Explicação da Perfeição Cristã, de Wesley, já traduzida neste site; aqui foram traduzidas diretamente do inglês citado por Hogue.]

Temos aqui uma afirmação clara e definida, do próprio imortal fundador do metodismo, daquela doutrina que, mais do que qualquer outra, sempre distinguiu o credo do metodismo dos credos de todos os outros corpos evangélicos. Nos seus padrões doutrinários, a Igreja Metodista ainda conservava essa doutrina na sua forma verbal; mas, embora a doutrina permanecesse inalterada nos diversos padrões da igreja, tinha havido um afastamento prático geral dela em todo o seu seio, e especialmente entre o seu ministério.

Ao pregar o sermão do cinquentenário perante a Conferência Anual de Oneida, da Igreja Metodista Episcopal, na celebração dos seus cinquenta anos, em abril de 1864, o Rev. E. Bowen, doutor em teologia, falando das mudanças ocorridas ultimamente entre os metodistas, disse:

“Mas agora a velha heresia morávia da identidade dos dois estados [isto é, da justificação e da inteira santificação] é abraçada de modo bastante geral entre nós; e os seus defensores, lamentamos dizer, mostram, na sua oposição à visão wesleyana da santificação, uma virulência que revela com clareza demais a causa da mudança por que passaram: uma evidente falta do Espírito de Cristo e a aversão que sentem por aqueles que têm uma piedade viva.”

Esse foi o testemunho de um dos homens mais veneráveis do metodismo no seu tempo, homem que não costumava fazer afirmações precipitadas, mas que pesava bem as palavras e se mantinha nos limites da verdade e da sobriedade. Além disso, a declaração acima nunca foi contestada com êxito nos mais de cinquenta anos que se passaram desde então. Ela é citada aqui como prova da afirmação de que, embora o metodismo se mantivesse nominalmente fiel ao padrão wesleyano primitivo de doutrina sobre a santificação, tinha havido uma deriva prática geral em direção à visão de Zinzendorf, de que santificação e justificação são idênticas. Mais provas desse fato aparecerão em abundância nos capítulos seguintes desta obra.

Com esse afastamento prático da sua doutrina e experiência mais características veio, como consequência, o rebaixamento do tom do metodismo a respeito de tudo o que é vital para a experiência, a disciplina, o caráter e a fecundidade cristãos. Tão grande e geral era a desolação espiritual que homens e mulheres de espírito voltado para Deus achavam na lamentação de Jeremias a expressão do sentimento que os oprimia e lhes pesava: “Como se escureceu o ouro! Como o ouro refinado perdeu o seu brilho! Como estão espalhadas as pedras do santuário pelas esquinas de todas as ruas! Os nobres filhos de Sião, comparáveis a ouro puro, agora são tratados como simples objetos de barro, obra das mãos de oleiro!” (Lm 4.1-2).

Na sua pureza primitiva, o metodismo tinha sido bíblico e rigoroso no cuidado com a disciplina da igreja. As Regras Gerais, o voto batismal, o pacto da igreja e as regras de conduta do pregador; as orientações da igreja sobre o vestuário, as reuniões de classe e a frequência aos cultos; e também os conselhos sobre os bancos gratuitos nos templos, bem como sobre a economia e a simplicidade na construção desses edifícios, eram em geral considerados partes do Livro de Disciplina a serem observadas e, onde não fossem observadas espontaneamente, a serem aplicadas de maneira bíblica e disciplinar. Na verdade, a Disciplina era em geral vista não apenas como um monumento aos “ideais heroicos dos tempos antigos”, mas como um livro de regras para a vida santa, aplicável igualmente a pregadores e leigos, e que só podia ser penoso para os não regenerados e os desviados. Eram coisas que, segundo a ideia primitiva do metodismo, contribuíam para fortalecer e edificar o caráter cristão no indivíduo e na igreja como um todo: frutos da santidade, cuja ausência, ou a indiferença para com os quais, indicava o afastamento do coração em relação a Deus.

Fossem esses princípios bíblicos ou não, certos ou errados, sábios ou não, o fato é que o metodismo foi originalmente edificado, e também alcançou aquelas vitórias ilustres dos primeiros tempos, sobre concepções da experiência e da disciplina cristãs como as que acabamos de descrever; e os metodismos das gerações posteriores estão obrigados, por pretenderem estar em linha de sucessão direta com o metodismo original, e também por crerem professadamente que “o seu Espírito escreve todas elas nos corações verdadeiramente despertados”, a tratá-las com a máxima seriedade e a “andar de acordo com a mesma regra e ter o mesmo modo de pensar”.

[N. do T.: a frase “o seu Espírito escreve todas elas nos corações verdadeiramente despertados” é das Regras Gerais de Wesley. A última citação alude a Fp 3.16, na forma da versão inglesa do rei Tiago.]

Contudo, na época de que escrevemos, o metodismo, tal como se via na Igreja Metodista Episcopal, estava muito afastado da justiça original nesses pontos. A doutrina wesleyana da inteira santificação como segunda obra da graça, que todos os crentes podem alcançar e são obrigados a buscar na vida presente, era em geral ignorada e, por não poucos, até no ministério, tratada com zombaria e desprezo. Isso levou naturalmente a grande frouxidão a respeito das doutrinas do novo nascimento, do testemunho do Espírito e da santidade prática em muitos dos seus detalhes mais importantes. O tipo predominante de experiência cristã tornou-se decididamente raso, e o fervor e a espiritualidade que antes tinham sido as principais características do culto metodista tornaram-se tão raros que, quando apareciam de vez em quando, eram em geral vistos e tratados como explosões de fanatismo, que era perigoso permitir e sensato menosprezar e combater. Tais manifestações estavam mais sujeitas a provocar disciplina eclesiástica do que as violações mais claras das Regras Gerais.

Além disso, o pior aspecto do caso era que não só os bispos em geral, mas também a Conferência Geral, apesar de todo pregador metodista ordenado estar solenemente comprometido a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance “para afastar e expulsar todas as doutrinas errôneas e estranhas, contrárias à Palavra de Deus”, permitiram-se sancionar o surgimento da heresia de Zinzendorf no seio do metodismo e até encarar com complacência o consequente afastamento da igreja dos seus padrões primitivos de disciplina, experiência e vida não mundana. A situação era pelo menos uma aproximação da de Judá no tempo de Jeremias, a respeito da qual o profeta testemunhou: “Coisa espantosa e horrenda se anda fazendo na terra: os profetas profetizam falsamente, e os sacerdotes dominam de mãos dadas com eles. E é o que o meu povo deseja” (Jr 5.30-31).

O período de que escrevemos foi um período de transição na história da Igreja Metodista Episcopal. Ela ainda conservava, em vários lugares, uma boa medida daquela religião vital, do fervor, da simplicidade, da modéstia e da não conformidade geral com o mundo que a caracterizaram nos tempos primitivos e que eram a única justificativa da sua existência como denominação religiosa separada. Mas, logo no início do período, começou o declínio espiritual e iniciou-se uma tendência para o mundo. Esse afastamento “foi acelerado quando o censo dos Estados Unidos revelou que a Igreja Metodista Episcopal era a maior denominação protestante do país e tinha o maior volume de propriedades eclesiásticas. Essa notícia agradável era muitas vezes comentada nos periódicos da igreja e em discursos nas Conferências e em outras grandes reuniões”.

A autocongratulação logo tornou visíveis os seus maus efeitos. Por que um povo que se tornara tão numeroso, forte, rico e influente continuaria a ser tão singular? Por que construir casas de culto tão simples como fizera nos tempos antigos? Por que insistir na modéstia e na simplicidade do vestuário? Por que continuar tão diferente das nações ao redor? Por que provocar o desagrado dos que ocupavam posições elevadas, dos que tinham riqueza em abundância, dos que eram a elite da sociedade, que de outra forma poderiam frequentar os seus cultos e ser atraídos à sua comunhão? Não tinham sido até então estreitos e exclusivos demais? Não seria sensato ampliar o metodismo para adaptá-lo melhor às classes sociais mais altas? Esses parecem ter sido os raciocínios tácitos de líderes importantes e influentes nas fileiras metodistas, a julgar pelas mudanças que logo aconteceram.

Ainda em 1846, a Disciplina metodista episcopal continha as seguintes perguntas e respostas:

“Há algo aconselhável a respeito da construção de templos?”

“Que todos os nossos templos sejam construídos simples e decentes, e com bancos gratuitos, mas não mais caros do que for absolutamente inevitável; do contrário, a necessidade de levantar dinheiro tornará os ricos necessários para nós. E, se for assim, dependeremos deles, sim, e seremos governados por eles. E então adeus à disciplina metodista, se não também à doutrina.”

As orientações sobre o vestuário eram tão explícitas e categóricas quanto as relativas à construção de templos:

“Devemos insistir nas regras a respeito do vestuário?”

“Sem dúvida. Este não é tempo de incentivar o excesso no vestir. Portanto, não receba ninguém na Igreja enquanto não tiver deixado os enfeites supérfluos.” “Ao visitar as classes, seja muito brando, mas muito rigoroso.” “Não admita nenhuma exceção; é melhor que um sofra do que muitos.”

Embora a Disciplina fosse tão clara, categórica e obrigatória a respeito dessas coisas, ela logo começou a ser praticamente ignorada por ministros e leigos influentes, como ultrapassada nessas exigências; então a conformidade com o mundo nessas e em outras direções cresceu rapidamente, até que, por fim, se fizeram com facilidade as mudanças na Disciplina que tornaram seções como as citadas acima não mais obrigatórias, mas apenas recomendações, e isso sem nenhuma possibilidade de fazer cumprir os conselhos dados. O efeito dessas mudanças foi “paralisar o braço da igreja na educação dos seus filhos para o céu e abrir a porta para a licenciosidade e o orgulho espirituais”, de modo que, como disse o Dr. Bowen no seu sermão do cinquentenário, “‘o mundo, a carne e o diabo’ podiam agora lançar o seu ataque contra nós e fazer festa nos nossos altares sagrados, sem nenhuma proibição penal que detivesse as suas depredações”.

Notas do autor

  1. Wesley’s Works (Obras de Wesley), vol. VI, p. 22. ↩
  2. Idem, vol. VI, p. 496. ↩
  3. Works, vol. VI, p. 505. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.