História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XVI

A religião dos chamados nazaritas (continuação)

No mesmo ano realizou-se em Black Creek, perto de Belfast, Nova York, e não longe da terra onde o autor passou a infância, um acampamento que teve caráter histórico. Por mais de meio século temos ouvido pessoas se referirem ao “acampamento de Black Creek” como o início da sua experiência, seja de conversão, seja de inteira santificação. O próprio pai do autor era desta última classe. Ele mal sabia, porém, que a sua presença naquele acampamento lhe custaria o seu lar eclesiástico; mas foi o que aconteceu. No domingo seguinte, ele foi como de costume à Igreja Metodista em Cadiz, Nova York, e ali ouviu o seu próprio nome ser “lido” com outros catorze, como de pessoas que se tinham retirado da igreja, coisa que ele nunca pensara fazer; e tudo por ter estado no chamado “acampamento nazarita”.

Dois relatos desse acampamento merecem ser inseridos aqui: o primeiro, escrito por um membro de outra denominação; o segundo, por um pregador local da cidade de Nova York.

ACAMPAMENTO DOS LEIGOS

Estive há pouco num acampamento dos leigos, realizado perto de Belfast, no condado de Allegany, Nova York, dirigido com competência pelo Rev. C. D. Burlingham. Ouvi a pregação do Rev. B. T. Roberts e do Rev. J. McCreery, que são acusados de fanatismo e entusiasmo. Eles estão empenhados em que a igreja ganhe o céu e busque a plena salvação de todo pecado. Esses homens são abençoados por Deus. Cheguei ao acampamento no domingo à noite. As estrelas brilhavam sobre a terra sorridente; a voz da oração soava como música no templo de folhas; uma torrente de luz celestial descia do céu; o espírito de louvor inspirava cada cristão com a plenitude da melodia divina; uma reverência solene enchia o coração do povo; uma voz do céu falava aos impenitentes e rasgava o véu do pecado. Dezenas foram restaurados e convertidos a Deus. Houve grandes e poderosas manifestações. Esses homens de Deus se conformavam, nos seus ensinos, à sabedoria de Deus, que descia sobre eles como uma corrente dourada de luz do céu. “Prevalecerão eles no combate contra os elementos do mal?” Apesar de toda a oposição e das combinações secretas dos homens, “eles prevalecerão”. Jesus diz: “Não tenham medo, eu estou com vocês.”

Phillipsville, 25 de julho de 1859.
Ira A. Weaver,
wesleyano.

O relato seguinte, do mesmo acampamento e também do de Bergen, foi escrito por um pregador local de Nova York:

METODISMO À MODA ANTIGA

Esse é o nome mais apropriado que conheço para dar à pregação, às exortações e aos exercícios que ouvi e vi num acampamento que começou no dia seis e terminou no dia treze deste mês, perto de Black Creek, no oeste de Nova York, e também num acampamento em Bergen, N. Y., que começou no dia vinte e três do mês passado. Estive nos dois e ouvi a bênção da inteira santificação ser pregada e aplicada como costumavam fazer Wilbur Fisk, B. C. Eastman, A. D. Merrill, Asa Kent e outros dos velhos tempos. Observou-se ordem perfeita, e os ímpios, quando chegavam ao terreno com os seus grandes porretes, pareciam tomados de reverência pelo poder do Espírito que prevalecia. Muitos encontraram o Salvador, alguns dos quais nos contaram que tinham vindo para zombar, mas Deus respondeu à oração, convenceu-os e converteu-os; e muitos atenderam aos convites calorosos dos servos de Deus e buscaram e encontraram a plena redenção no sangue do Cordeiro. Ah, que a religião do oeste de Nova York se espalhe por estas terras!

J. PALMER.

Outro acampamento dos leigos realizou-se no outono de 1858, desta vez dentro dos limites do distrito de Niágara. Um pregador que, segundo se diz, era da Conferência de Filadélfia publicou o seguinte relato dele:

ACAMPAMENTO GIGANTESCO

2 de setembro de 1858. Chegamos a Gasport por volta de uma hora e tomamos condução particular até o grande, o gigantesco acampamento, a cerca de duas milhas da estação. Esse acampamento tinha começado na véspera e ficava no condado de Niágara, a cerca de vinte e cinco milhas das cataratas do Niágara. Havia umas sessenta ou setenta tendas armadas no terreno, que é bem elevado e está bem sombreado por belos bordos-açucareiros e carvalhos de terra alta.

Tive o prazer de ser apresentado a numerosos irmãos e passei alguns momentos proveitosos com os irmãos Roberts, McCreery e Jenkins, e também com o irmão Johnson, da Conexão Wesleyana.

A pregação dos irmãos foi eminentemente experimental e prática. Ouviam-se orações, louvores e brados de todas as partes do terreno. No domingo, calculou-se que havia dez mil pessoas no terreno. Não vi nenhuma baderna durante o acampamento. Fiquei surpreso ao saber que os acampamentos eram coisa nova naquelas imediações. No domingo de manhã, depois que o irmão Roberts terminou o seu sermão, a senhorita Hardy, membro da nossa igreja e formada pelo Genesee College, levantou-se e fez uma exortação comovente diante do vasto auditório. Alegro-me ao ver esse traço do metodismo reavivado entre nós. Quando o metodismo era jovem e vigoroso, tínhamos mulheres como líderes de classe e exortadoras. O irmão Ives pregou à tarde e, apesar do vento forte, a sua voz esplêndida, de acampamento, prendeu a atenção de milhares. Na segunda-feira de manhã partimos para as cataratas do Niágara, e o acampamento devia continuar até quarta-feira. Não ouvi o resultado final; mas sem dúvida foi glorioso.

J. D. Long.

O texto seguinte é um relato pormenorizado da dedicação da Igreja Congregacional Metodista Livre de Albion, Nova York, publicado no Buffalo Morning Express:

Alegramo-nos com toda providência tomada para pregar o evangelho às massas. A tendência do sistema exclusivista sob o qual funciona a maioria das igrejas das cidades e das vilas grandes do oeste de Nova York é afastar as massas do culto religioso. Numa igreja em que alguns poucos têm os seus bancos, que ocupam por direito, a maioria não se sentirá à vontade para entrar como intrusa, nem consentirá em anunciar a sua pobreza, domingo após domingo, ocupando assentos reservados aos pobres. Por isso temos o prazer de registrar o êxito que coroou os esforços para construir uma igreja livre em Albion. O Rev. L. Stiles, que, com outros, foi expulso pela Conferência de Genesee na sua última sessão por cumprir o seu dever de ministro cristão, foi convidado pela grande maioria da igreja de Albion, que ele servira com grande aceitação nos dois anos anteriores, a continuar o seu trabalho entre eles como ministro de Jesus Cristo, e ele aceitou o convite. Para evitar qualquer perturbação, eles abriram mão da propriedade da igreja, a que tinham direito legal, e passaram imediatamente a comprar um terreno e a construir uma casa de culto. Essa casa foi ontem dedicada ao culto de Deus pelo Rev. E. Bowen, doutor em teologia, da Conferência de Oneida da Igreja Metodista Episcopal. O seu sermão sobre a santidade, baseado em 1Co 6.20, “Porque vocês foram comprados por preço” etc., foi muito competente e marcante e causou profunda impressão na vasta congregação presente. À noite, o Rev. B. L. Ives fez um dos seus apelos poderosos com base nas palavras: “Queremos ir com vocês, porque ouvimos que Deus está com vocês” (Zc 8.23). Os brados vibrantes do povo mostraram que a verdade caía em ouvidos capazes de apreciá-la. A casa ficou lotada ao máximo, com umas 1.300 pessoas presentes, e muitos foram embora sem conseguir entrar. A casa assim dedicada é uma construção sólida, de 101 pés por 55. O salão de culto, o maior da localidade, agradável e espaçoso, acomoda cerca de mil pessoas. Um subsolo do tamanho de todo o edifício, inteiramente acima do nível do chão, oferece salas agradáveis e convenientes para as reuniões de classe e de oração e para a escola dominical. O salão de conferências do subsolo comporta seiscentas pessoas. A casa é mobiliada com simplicidade e capricho e iluminada a gás. O custo total foi, em números redondos, de cerca de 10.000 dólares. Tudo foi pago ou garantido. Cerca de 4.500 dólares foram levantados ontem e ontem à noite. Por esse resultado, o mérito é do Rev. B. L. Ives, por cujo esforço incansável se garantiu toda a quantia pedida. O Sr. Stiles reuniu uma congregação grande e inteligente, uma igreja dedicada, piedosa e trabalhadora, e, com as facilidades de que agora dispõem para fazer o bem, podem-se esperar os melhores resultados. A reunião continuou durante o domingo, e o Rev. B. L. Ives pregou com poder ainda maior do que o habitual. A ceia foi ministrada a uns quatrocentos ou mais comungantes, e foi uma ocasião que será lembrada por muito tempo. À noite, o altar ficou cheio de penitentes.

Com referência à acusação geral de fanatismo feita contra os que participavam da obra de avivamento e reforma dentro da Conferência de Genesee, o Rev. Asa Abell publicou o seguinte no Northern Independent:

Sou membro da Igreja Metodista Episcopal há mais de quarenta e três anos e pregador, indigno, do evangelho há quase ou mesmo exatamente quarenta anos; e, quer eu saiba quer não, tenho certeza de que deveria saber o que é essa forma de cristianismo chamada metodismo. E, embora a pressão que alguns sentiram sobre si, por causa das circunstâncias estranhas e infelizes que existem entre nós há vários anos, tenha, a meu ver, modificado desfavoravelmente, em alguns poucos casos (mas, ao que me lembro, em grau relativamente pequeno), o espírito manifestado por alguns, sou obrigado a declarar que, no meu entender, não há nada entre nós, onde tenho conhecimento, que justifique a acusação de um novo tipo de metodismo. Considero a acusação falsa e indelicada, a menos que, além dos limites do meu conhecimento, se sustentem e pratiquem ideias muito diferentes de quaisquer que eu conheça. Desejo, enquanto Deus me der fôlego, fazer o que, com as minhas fracas forças, puder fazer para preservar sem degeneração, e em plena força e virtude, as verdadeiras ideias wesleyanas sobre a doutrina, a experiência e a prática cristãs, e ajudar a propagá-las tão amplamente quanto possível entre os homens.

Não conheço nenhum desígnio político eclesiástico. Se alguém tem tais desígnios, não achou por bem confiá-los a mim. Tenho estado muitas vezes associado àqueles que, suponho, são os visados pelas acusações de terem tais desígnios, e não consigo lembrar nenhuma expressão que aponte nessa direção. Penso que o único grande desígnio dessas pessoas sérias, pregadores e outros, é espalhar a religião vital entre os homens, isto é, um cristianismo real, não um cristianismo diluído e sem poder.

O Rev. B. T. Roberts, em Why Another Sect?, diz:

Homens de Deus que estavam longe, vendo tanta coisa publicada nos jornais contra nós, chegaram a suspeitar que o grito de “fanatismo” era apenas uma nova forma da velha oposição à piedade vital, e muitos vieram até nós para ver e ouvir por si mesmos. Assim, o venerável Dr. Elliott, autor de Elliott on Romanism, embora inteiramente desconhecido nosso, veio de propósito para nos ver e assistir às nossas reuniões. Passou vários dias conosco, na nossa família, deu à obra o seu mais caloroso endosso público e ajudou-a pregando e exortando “em demonstração do Espírito” (1Co 2.4).

As descrições dos cultos religiosos dos chamados nazaritas, dadas neste capítulo e nos anteriores, foram escritas por pessoas que não eram do grupo deles; que não eram, salvo num único caso, membros da Conferência a que eles pertenciam; e algumas das quais eram decididamente hostis a eles. Com exceção das quatro primeiras, que são manifestamente caricaturas grosseiras e investidas desdenhosas, elas trazem na própria face as marcas da veracidade. Não se nota nenhum esforço para exagerar ou para esconder coisa alguma. Além disso, essas reuniões eram as mais ofensivas para o poder da “Regência” de todas de que ela jamais se queixou; e, se fossem meras cenas de gritaria sem sentido, de fanatismo desvairado e de espetáculos geralmente indecentes como os de que foram acusadas, não é estranho que nenhum dos escritores, de várias Conferências e de diferentes denominações, que as relataram para os periódicos religiosos, tenha julgado que valia a pena mencionar tais excessos e excrescências?

Tome-se até o artigo do Medina Tribune, escrito por um doutor em teologia da Regência: não são o tom zombeteiro, amargo e desdenhoso do artigo, a sua linguagem grosseira e indecente e o fato de o autor ter escondido a sua identidade sob um nome fictício, ao menos uma prova presuntiva de que era um caso de Caim perseguindo Abel, de Ismael perseguindo Isaque, daquele que nasceu segundo a carne perseguindo o que nasceu segundo o Espírito (Gl 4.29), o que há de ser a ordem invariável até que raie a dispensação milenar? O artigo se parece muito com os muitos ataques grosseiros e vis que se fizeram pela imprensa contra os metodistas do tempo de John Wesley, e que foram provocados por aquela fidelidade destemida que fez dos primeiros metodistas um bando tão poderoso para desmascarar o formalismo e a falsa religião e para repreender o pecado, tanto fora como dentro da igreja nominal. Tal fidelidade não poupa os ídolos de ninguém; e, quando se expõem a vaidade, a falsidade e o caráter diabólico da idolatria de um homem, seja a idolatria que adora deuses de madeira, de pedra, de bronze ou de outro material, seja a idolatria da riqueza, da fama, da moda, do prazer, da sociedade ou das relações de fraternidade, esse homem ou romperá com a sua idolatria, ou, “entregue aos ídolos” (Os 4.17), se tornará um perseguidor maldoso dos que expuseram a sua perversidade idólatra.

Considere-se também que muitos desses irmãos perseguidos viveram anos depois de publicadas essas coisas caluniosas. Durante esses anos ocuparam posições de tal destaque que os levaram ao reconhecimento geral. Além disso, alguns deles ainda vivem e ocupam tais posições; e, durante todo esse tempo, nem os que já morreram nem os que ainda vivem mostraram qualquer tendência ao fanatismo de gritaria ou ao entusiasmo desvairado. A sua obra foi sempre construtiva e permanente, e disso a Igreja Metodista Livre, na nossa terra e em outras, é prova. Essas coisas, sustentamos, demonstraram o caráter falso e calunioso de todas as alegações e publicações como o artigo citado do Medina Tribune e outras semelhantes.

[N. do T.: “relações de fraternidade” (“fraternity relations”) parece referir-se às sociedades secretas, como a maçonaria, mencionadas no Cap. XIV.]

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.