História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XXXVI
A Conferência de Susquehanna foi honrada em 1869 com a adesão do Rev. Elias Bowen, doutor em teologia, que disse, ao entrar, que era metodista livre havia mais de cinquenta anos (querendo dizer que a Igreja Metodista Livre a que agora se unia era, no caráter e no espírito, a mesma igreja a que originalmente se unira); que esse era o povo a que se unira originalmente; e que não podia correr o risco de perder a alma por parecer, mesmo de longe, aprovar as inovações contrárias às Escrituras que se tinham entrincheirado com tanta firmeza na igreja a que originalmente pertencera.
Estava avançado demais em anos para assumir trabalho regular, embora as suas faculdades estivessem intactas. Por isso lhe foi concedida a condição de jubilado. A sua permanência entre o povo a que se unira havia pouco não pôde ser longa, porém, pois em 25 de outubro de 1870 fechou os olhos às cenas mortais e passou para além do véu.
Embora tenha sido membro da comunhão por pouco tempo, esteve tão ligado à organização da Igreja Metodista Livre, e teve nela tanta influência, que a história do movimento não estaria completa sem um esboço da sua vida e do seu caráter.
O Dr. Bowen foi de fato um homem notável. Converteu-se quando era menino de treze anos, mas por algum tempo perdeu o seu apego a Cristo. Foi restaurado pela graça, porém, aos vinte, e começou a pregar o evangelho aos vinte e dois. Pouco depois se uniu à Conferência de Oneida da Igreja Metodista Episcopal, na qual trabalhou com grande aceitação e eficiência.
Esteve em destaque diante do público metodista por mais de cinquenta anos. Ocupou nomeações importantes, mesmo num período inicial do seu ministério, não por escolha própria, mas contra a sua vontade. Serviu como presbítero presidente durante vinte e quatro anos, e teria sido eleito para o cargo mais cedo se não fosse o seu protesto vigoroso. Foi eleito sete vezes delegado à Conferência Geral e, em certa ocasião, foi instado com insistência a ser candidato ao episcopado.
O Dr. Bowen era abolicionista declarado quando o abolicionismo era a causa mais impopular do metodismo americano. Pregou, escreveu e trabalhou com zelo para salvar a Igreja Metodista da cumplicidade com a escravidão, “essa soma de todas as vilanias”, mas em vão. Foi um dos onze, contra cento e vinte e dois membros da Conferência Geral de 1836, que votaram contra as resoluções que censuravam Orange Scott e outro irmão por darem palestras contra a escravidão e condenavam o movimento antiescravagista em geral, na primeira leitura; e um dos catorze, contra cento e trinta, que se opuseram às mesmas resoluções na segunda leitura.
[N. do T.: “a soma de todas as vilanias” é expressão de John Wesley sobre o tráfico de escravos (Diário, 12 de fevereiro de 1772), já citada por Hogue num capítulo anterior.]
Quando começaram as perseguições que levaram à expulsão de Roberts, Stiles e outros da Conferência de Genesee e da igreja, ele declarou abertamente a sua simpatia pelos irmãos perseguidos, repreendeu com coragem e força a política da Regência de Buffalo e escreveu e falou em termos inequívocos em defesa dos irmãos que eram alvo da ira eclesiástica. Depois de formada a Igreja Metodista Livre, escreveu uma História da origem da Igreja Metodista Livre, a primeira exposição pormenorizada do caso jamais dada ao público. Foi também autor de um volume intitulado A escravidão na Igreja Metodista Episcopal, publicado em 1859.
Como pregador, diz-se que o Dr. Bowen era “forte, claro, vigoroso e inteiramente evangélico. Era tranquilo nas maneiras, mas no púlpito muitas vezes mostrava o mais profundo sentimento. Era ousado e destemido. O seu sermão de jubileu de cinquenta anos, pregado perante a Conferência de Oneida [que a Conferência nunca lhe fez a justiça de publicar], é um dos melhores exemplos de coragem e fidelidade no púlpito que já encontramos. A Conferência o tratara com a bondade e a consideração mais marcantes, e no entanto ele lhes mostrou, com a maior franqueza, os seus afastamentos de Deus e do metodismo.”1
Embora implacável na denúncia do pecado, o Dr. Bowen estava longe de ser áspero e pouco caridoso. Era a personificação da ternura e da bondade, tanto no púlpito como na vida diária. Era muito amado pelos que viviam nas relações mais próximas com ele. A sua piedade era profunda, constante e coerente. Estava plenamente preparado para o fim quando ele chegou. “O último dia da sua vida foi de grande paz, e ele muitas vezes, durante o dia, louvou a Deus em voz alta.” Adormeceu em Jesus na idade madura de setenta e nove anos.
Ao mesmo tempo que o Dr. Bowen se uniu à Conferência de Susquehanna, outro ministro veterano da Igreja Metodista também lançou a sua sorte com esse corpo. Esse ministro era o Rev. Epenetus Owen. Embora passado da meia-idade, ainda era forte o bastante para prestar mais de vinte anos de serviço eficaz à igreja. Era um tanto alto, de ombros levemente curvados e de semblante marcante, que irradiava bondade em todos os traços. Era intelectual, espiritual, afável com todos, e tinha um humor singular e espontâneo na conversa comum, e até na pregação, que o tornava muito interessante de conversar ou de ouvir e dava sempre uma originalidade agradável aos seus discursos públicos.
“Os seus sermões eram sempre evangélicos, despertadores, interessantes, instrutivos e edificantes. Os seus serviços eram procurados pelos nossos melhores cargos, e o seu trabalho tinha sempre êxito.” Era de disposição tão amável, tranquila e pacífica que fazia amigos calorosos em toda parte; e, no entanto, era homem de convicções positivas e fortes, e também da coragem de declará-las e mantê-las com a firmeza de Gibraltar. Mas, por mais forte que fosse nas suas convicções, era difícil para os que divergiam dele brigar com ele.
O Sr. Owen era escritor admirável, além de pregador capaz e eloquente. Colaborava com frequência nas colunas dos periódicos da igreja e foi eleito redator do Free Methodist na Conferência Geral de 1882, mas renunciou ao cargo na tarde do mesmo dia. Foi também autor de Things New and Old (Coisas novas e velhas) e Struck by Lightning (Atingido por um raio), dois volumes que foram uma bênção para muitas almas.
Representou várias vezes a sua Conferência na Conferência Geral, e sempre com competência e dignidade.
Na época da sua morte pregava o evangelho havia cerca de cinquenta e dois anos, tendo pregado o seu sermão de jubileu na Conferência de Rome, Nova York, em setembro de 1888, e o seu último sermão na Conferência Anual de Susquehanna em Binghamton, Nova York, em 6 de setembro de 1889. Morreu de pneumonia, que terminou em tuberculose, em Spring Hill, Pensilvânia, onde fora visitar o irmão, em 10 de janeiro de 1890.
Num período inicial do desenvolvimento da obra dentro dos limites da Conferência de Susquehanna, organizou-se a Sociedade Metodista Livre de Syracuse, e junto com ela entrou na igreja o Sr. Charles T. Hicks, leigo que se tornou depois um fator importante e influente na obra do metodismo livre. A Terceira Igreja Metodista Episcopal de Syracuse ficara muito insatisfeita com as condições espirituais da denominação de que fazia parte e decidira procurar alguém que lhe pregasse o evangelho na sua pureza e plenitude. Cultuavam num prédio conhecido como “A Igreja de Cicuta”, porque fora construído de modo barato, com tábuas de cicuta (hemlock) postas na vertical e depois cobertas com ripas. Os membros tinham pertencido a outras sociedades de Syracuse, mas se tinham retirado, unido e formado a Terceira Igreja Metodista Episcopal, como meio de ter a pregação que julgavam necessária ao seu crescimento espiritual. Diferentes pregadores os supriram por algum tempo, entre eles G. W. Henry, um virginiano cego, mais conhecido dos sobreviventes do metodismo livre primitivo do oeste de Nova York como “o cego Henry”, autor de Shouting in All Ages (O brado de louvor em todas as épocas), que era muito querido entre eles.
[N. do T.: “hemlock” é o nome de uma conífera norte-americana (Tsuga), de madeira barata; não se trata da planta venenosa.]
Entre os membros principais dessa igreja estava o Sr. Charles T. Hicks, homem que costumava ter o nome escrito dentro do chapéu, seguido das palavras “Morte ao rum, ao tabaco e à escravidão”, e também outro homem de destaque chamado Gordon. Quando começou o movimento metodista livre, os membros dessa Terceira Igreja naturalmente simpatizaram com ele, e alguns deles assistiram ao velho acampamento de Bergen. Por volta da época em que se organizou a Igreja Metodista Livre, o Rev. B. T. Roberts os visitou, acompanhado da sua dedicada esposa, da Sra. W. C. Kendall (depois Sra. T. S. LaDue), de Ellen Fuller (depois esposa do Rev. James Mathews), de outra irmã que se tornou depois esposa do Rev. A. B. Burdick e da Sra. Esther Preston, a única do grupo ainda viva (1915).
Nessa época, o Rev. William Gould, que depois teve papel de destaque durante muitos anos no movimento metodista livre, era pastor interino de uma Igreja Metodista Independente que saíra em enxame da Primeira Igreja Metodista Episcopal sob a sua liderança, por causa dos princípios e práticas escravagistas do seu pastor. Ele assistiu aos cultos realizados pelo Sr. Roberts e pelo seu grupo na “Igreja de Cicuta” e convidou o Sr. Roberts a pregar para ele, o que este fez, num salão que a sociedade alugara como lugar de culto; e nessa ocasião o Sr. Roberts também dedicou o salão para o povo da Igreja Independente.
Por essa época surgiu uma espécie de rivalidade entre o Sr. Hicks e o Sr. Gordon, da Terceira Igreja, conhecida como “a Igreja de Cicuta”, e alguns membros saíram com o Sr. Hicks, presumivelmente com a intenção de formar uma Sociedade Metodista Livre. O Sr. Gordon, como líder dos que ficaram, passou a organizá-los numa classe metodista livre. O Sr. Roberts logo visitou Syracuse de novo, mas se recusou a reconhecer os seguidores do Sr. Gordon como metodistas livres e, por outro lado, reconheceu os que seguiam o Sr. Hicks. Estes formaram o núcleo a partir do qual se desenvolveu a Sociedade Metodista Livre de Syracuse. O Sr. Gordon e os seus seguidores por fim se ligaram à Igreja Metodista Protestante.2
O Sr. Hicks tornou-se um dos leigos mais influentes da Conferência de Susquehanna. Nasceu em Nova Jersey e cedo na vida se mudou para Buffalo, Nova York, onde se dedicou ao comércio. Em 1830 mudou-se para Syracuse, no mesmo estado, e pouco depois entrou no cartório do condado, onde ficou como escrivão adjunto e escrivão do condado cerca de quarenta anos. Foi eleito escrivão do condado em 1840 e reeleito em 1843. Foi também admitido a advogar no Tribunal de Causas Comuns e, na última eleição municipal antes da sua morte, foi eleito juiz de paz para toda a cidade. Era homem de integridade inflexível e gozava em alto grau da confiança dos seus concidadãos. Todos os que o conheciam sabiam muito bem que era um homem que não se podia comprar por preço nenhum.
O Sr. Hicks converteu-se em 1835 e pouco depois se uniu à Primeira Igreja Metodista Episcopal de Syracuse. Ocupou o cargo de líder de classe nessa igreja durante muitos anos. Sob o trabalho do Dr. Redfield e de Fay H. Purdy, foi por fim levado à experiência da inteira santificação e declarou abertamente o que Deus fizera por ele nessa experiência. A sua experiência ia muito além da santidade (?) da moda daquele tempo, e o seu testemunho sobre ela e os seus frutos incomodava o grosso dos professos conformados com o mundo na igreja. Por fim, sentindo que não podia aprovar o orgulho e a popularidade mundana da igreja a que pertencia, agora que os seus olhos se tinham aberto para a pecaminosidade disso, permanecendo na sua comunhão e contribuindo com os seus recursos para mantê-la, ele, com outros de convicções e espiritualidade semelhantes, rompera com a Primeira Igreja e formara a Terceira Igreja Metodista Episcopal de Syracuse.
Assim que se organizou a Igreja Metodista Livre, o Sr. Hicks uniu-se a ela e continuou membro fiel e dedicado até ser chamado à igreja do alto. A sua influência contribuiu muito para edificar a Igreja Metodista Livre em Syracuse e na Conferência de Susquehanna. Apoiou calorosamente B. T. Roberts nas primeiras lutas do metodismo livre e foi também generoso e hospitaleiro ao receber os pregadores e os “peregrinos” em geral.
Foi enfraquecendo aos poucos durante cerca de dois anos antes do fim, mas ficou de pé até umas duas semanas antes da morte. A sua vontade resoluta lutou bravamente contra a doença, até que a longa duração dela por fim o venceu. Pouco antes da partida, disse à esposa que ia para casa, para a glória. O seu céu estava limpo, e ele passou vitorioso para a sua recompensa na quinta-feira, 2 de novembro de 1871.
Um dos personagens mais singulares e interessantes da Conferência de Susquehanna durante muitos anos foi Moses N. Downing. Era o que na linguagem coloquial se chamaria “um fio desencapado”. Era homem que sempre animava tudo à sua volta, homem que não podia nem queria viver numa atmosfera de morte espiritual. Foi um dos que assistiram à Convenção de pregadores e leigos em Pekin, Nova York, em 1860, na qual se formou a Igreja Metodista Livre, e ajudou na sua formação. Uniu-se à nova denominação poucos dias antes da sessão da primeira Conferência Anual e permaneceu em plena comunhão com ela até o fim da vida. Era pregador e escritor de capacidade acima do comum e às vezes decididamente eloquente no púlpito. Serviu fielmente a igreja durante trinta e oito anos, e muito fruto precioso do seu trabalho permanece. O seu trabalho foi principalmente nas Conferências de Susquehanna, Nova York, Genesee e Sul da Califórnia, onde os que o conheceram guardam com carinho a sua memória. Foi várias vezes delegado à Conferência Geral. Morreu nos triunfos da fé em Cristo, na sua casa em Whittier, Califórnia, em 30 de junho de 1913. Uma das suas últimas palavras foi: “Digam a todo o povo que vou para a glória.”
Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.