Escritos do Século III · Cipriano de Cartago

A Oração do Senhor

A oração que o próprio Senhor ensinou, explicada pedido por pedido, com a disposição de quem ora e as horas de oração.

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Argumento. O tratado de Cipriano sobre a Oração do Senhor compreende três partes, divisão em que imita Tertuliano no seu livro sobre a oração. Na primeira parte, mostra que a Oração do Senhor é a mais excelente de todas as orações, profundamente espiritual e a mais eficaz para alcançarmos o que pedimos. Na segunda parte, empreende a explicação da Oração do Senhor e, seguindo ainda os passos de Tertuliano, percorre as suas sete petições principais. Por fim, na terceira parte, considera as condições da oração e nos diz como a oração deve ser.1

1. Os preceitos do evangelho, irmãos amados, não são outra coisa senão ensinamentos divinos: alicerces sobre os quais se edifica a esperança, apoios que fortalecem a fé, alimentos que reanimam o coração, lemes que orientam o nosso caminho, guardas que nos fazem alcançar a salvação. Enquanto instruem na terra a mente dócil dos que creem, eles os conduzem aos reinos celestiais. Deus quis, além disso, que muitas coisas fossem ditas e ouvidas por meio dos profetas, seus servos; mas quanto maiores são as que o Filho fala, as que o Verbo de Deus, que estava nos profetas, testifica com a sua própria voz! Já não manda preparar o caminho para a sua vinda, mas vem ele mesmo, abre-nos o caminho e o mostra, para que nós, que antes andávamos errantes nas trevas da morte, imprevidentes e cegos, iluminados pela luz da graça, guardemos o caminho da vida, tendo o Senhor por nosso governante e guia.

2. Entre as demais advertências salutares e preceitos divinos com que aconselha o seu povo para a salvação, ele mesmo deu também uma forma de orar; ele mesmo nos advertiu e instruiu sobre o que devemos pedir. Aquele que nos fez viver ensinou-nos também a orar, com a mesma benignidade, isto é, com que se dignou dar e conceder todas as outras coisas, para que, falando ao Pai com a oração e a súplica que o Filho nos ensinou, sejamos ouvidos mais facilmente. Ele já havia predito que vinha a hora “em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.23); e assim cumpriu o que antes prometera, para que nós, que pela sua santificação2 recebemos o Espírito e a verdade, também pelo seu ensino adoremos com verdade e espiritualmente. Pois que oração pode ser mais espiritual do que aquela que nos foi dada por Cristo, por quem também nos foi dado o Espírito Santo? Que súplica ao Pai pode ser mais verdadeira do que aquela que nos foi entregue pelo Filho, que é a Verdade, saída da sua própria boca? De modo que orar de outra forma que não a que ele ensinou não é apenas ignorância, mas também pecado, pois ele mesmo estabeleceu e disse: “Vocês rejeitam o mandamento de Deus para guardarem a própria tradição” (Mc 7.9).

3. Oremos, pois, irmãos amados, como Deus, nosso Mestre, nos ensinou. É oração amiga e familiar suplicar a Deus com as palavras dele, chegar aos seus ouvidos com a oração de Cristo. Que o Pai reconheça as palavras do seu Filho quando fazemos a nossa oração; e que aquele que habita dentro do nosso peito habite ele mesmo também na nossa voz. E, já que o temos como Advogado junto ao Pai pelos nossos pecados, quando nós, pecadores, suplicamos pelos nossos pecados, apresentemos as palavras do nosso Advogado. Pois, se ele diz que “tudo o que pedirmos ao Pai em seu nome, ele nos concederá” (Jo 16.23), quanto mais eficazmente obteremos o que pedimos em nome de Cristo, se o pedirmos com a sua própria oração!

4. Mas que a nossa palavra e a nossa súplica, quando oramos, tenham disciplina, guardando o sossego e a modéstia. Pensemos que estamos de pé diante de Deus. Devemos agradar aos olhos divinos tanto pela postura do corpo quanto pela medida da voz. Pois, assim como é próprio do desavergonhado fazer barulho com gritos, ao homem modesto, ao contrário, convém orar com pedidos moderados. Além disso, no seu ensino o Senhor nos mandou orar em secreto, em lugares escondidos e afastados, no nosso próprio quarto, o que é mais apropriado à fé, para que saibamos que Deus está presente em toda parte, ouve e vê tudo e, na plenitude da sua majestade, penetra até nos lugares escondidos e secretos, como está escrito: “Eu sou Deus de perto, e não Deus de longe. Se alguém se esconder em lugares secretos, acaso não o verei? Não encho eu o céu e a terra?” (Jr 23.23-24). E também: “Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons” (Pv 15.3). E quando nos reunimos com os irmãos num mesmo lugar e celebramos os sacrifícios divinos com o sacerdote de Deus, devemos lembrar-nos da modéstia e da disciplina: não espalhar as nossas orações a esmo, com vozes descontroladas, nem lançar a Deus, com palavrório tumultuoso, uma petição que deveria ser recomendada a Deus pela modéstia; porque Deus não ouve a voz, mas o coração. Nem é preciso lembrá-lo aos gritos, pois ele vê os pensamentos dos homens, como o Senhor nos prova quando diz: “Por que vocês estão pensando o mal em seu coração?” (Mt 9.4). E em outro lugar: “E todas as igrejas saberão que eu sou aquele que sonda mentes e corações” (Ap 2.23).

5. É isso que Ana, no primeiro livro dos Reis, ela que era figura da Igreja, sustenta e observa, pois orou a Deus não com petição barulhenta, mas em silêncio e com modéstia, no mais íntimo do seu coração. Falava com oração escondida, mas com fé manifesta. Falava não com a voz, mas com o coração, porque sabia que é assim que Deus ouve; e obteve com eficácia o que buscava, porque o pediu com fé. A Escritura divina o afirma quando diz: “Ela falava no seu coração, os seus lábios se moviam, e a sua voz não se ouvia; e Deus a ouviu” (1Sm 1.13). Lemos também nos Salmos: “Falem no coração de vocês e nos seus leitos, e sejam compungidos” (Sl 4.4).3 O Espírito Santo, além disso, sugere estas mesmas coisas por meio de Jeremias e ensina, dizendo: “Mas é no coração que Deus deve ser adorado por você” (Br 6.6, Carta de Jeremias).4

6. E que aquele que adora, irmãos amados, não ignore de que modo o publicano orou junto com o fariseu no templo. Não com os olhos levantados ousadamente para o céu, nem com as mãos erguidas com orgulho; mas, batendo no peito e confessando os pecados encerrados lá dentro, implorava o socorro da misericórdia divina. E, enquanto o fariseu se comprazia em si mesmo, este, que assim pedia, mereceu antes ser santificado, porque não pôs a esperança da salvação na confiança da própria inocência, já que não há ninguém inocente; mas, confessando que era pecador, orou com humildade, e aquele que perdoa os humildes ouviu quem lhe suplicava. E o Senhor registra estas coisas no seu evangelho, dizendo: “Dois homens foram ao templo para orar: um era fariseu e o outro era publicano. O fariseu ficou em pé e orava de si para si mesmo, desta forma: ‘Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, injustos, roubadores e adúlteros, nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo o que possuo.’ O publicano, estando em pé, longe, nem mesmo ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, tem pena de mim, que sou pecador!’ Digo a vocês que este desceu justificado para a sua casa, e não o fariseu. Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18.10-14).

7. Tendo aprendido estas coisas, irmãos amados, na leitura sagrada, e tendo compreendido de que maneira devemos nos aproximar da oração, conheçamos também, pelo ensino do Senhor, o que devemos pedir. “Portanto”, diz ele, “orem assim:

“Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra; o pão nosso de cada dia nos dá hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; e não permitas que sejamos levados à tentação, mas livra-nos do mal. Amém” (Mt 6.9-13).

8. Antes de tudo, o Mestre da paz e da unidade não quis que a oração fosse feita de modo isolado e individual, como se quem ora pedisse só por si mesmo. Pois não dizemos “Pai meu, que estás nos céus”, nem “o pão meu de cada dia me dá hoje”; nem cada um pede que só a sua dívida lhe seja perdoada, nem pede só para si que não seja levado à tentação e que seja livrado do mal. A nossa oração é pública e comum; e, quando oramos, não oramos por um só, mas pelo povo inteiro, porque nós, o povo inteiro, somos um. O Deus da paz e o Mestre da concórdia, que ensinou a unidade, quis que assim cada um orasse por todos, assim como ele mesmo carregou a todos nós num só. Essa lei da oração observaram os três jovens quando foram encerrados na fornalha ardente, falando juntos na oração e sendo de um só coração na concordância do espírito. É o que a fé da Escritura sagrada nos assegura e, ao nos contar como oraram esses homens, dá um exemplo que devemos seguir nas nossas orações, para que sejamos como eles foram: “Então aqueles três”, diz ela, “como que de uma só boca, cantavam um hino e bendiziam o Senhor” (Dn 3.51, na Septuaginta). Falavam como que de uma só boca, embora Cristo ainda não lhes tivesse ensinado a orar. E por isso, enquanto oravam, a sua palavra foi valiosa e eficaz, porque uma oração pacífica, sincera e espiritual mereceu o favor do Senhor. Assim também vemos que os apóstolos, com os discípulos, oravam depois da ascensão do Senhor: “Todos estes”, diz a Escritura, “perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele” (At 1.14). Perseveravam unânimes em oração, declarando, tanto pela insistência quanto pelo acordo5 da sua oração, que Deus, “que faz os homens habitarem unânimes numa casa” (Sl 68.6), só admite na morada divina e eterna aqueles entre os quais a oração é unânime.

9. Mas que realidades de profundo alcance6 estão contidas na Oração do Senhor! Quantas e quão grandes, resumidas brevemente em palavras, mas espiritualmente abundantes em poder! De modo que não fica absolutamente nada de fora que não esteja compreendido nestas nossas preces e petições, como num compêndio da doutrina celestial. “Portanto”, diz ele, “orem assim: Pai nosso, que estás nos céus.” O homem novo, nascido de novo e restituído ao seu Deus pela graça dele, diz em primeiro lugar “Pai”, porque já começou a ser filho. “Veio”, diz ele, “para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.11-12). Quem, portanto, creu no seu nome e se tornou filho de Deus deve, a partir daí, começar tanto a dar graças quanto a professar-se filho de Deus, declarando que Deus é seu Pai nos céus; e também testemunhar, entre as primeiras palavras do seu novo nascimento, que renunciou ao pai terreno e carnal e que começou a conhecer e a ter como pai somente aquele que está nos céus, como está escrito: “Os que dizem a seu pai e a sua mãe: ‘Não te conheço’, e que não reconheceram os próprios filhos, esses observaram os teus preceitos e guardaram a tua aliança” (Dt 33.9). Também o Senhor, no seu evangelho, mandou que não chamássemos “ninguém de pai na terra, porque só temos um Pai, aquele que está nos céus” (Mt 23.9). E ao discípulo que tinha falado do pai morto respondeu: “Deixe que os mortos sepultem os seus mortos” (Mt 8.22); pois ele tinha dito que o seu pai estava morto, ao passo que o Pai dos que creem está vivo.

10. E não devemos, irmãos amados, apenas observar e entender que chamamos Pai àquele que está nos céus; mas acrescentamos e dizemos Pai nosso, isto é, Pai dos que creem, daqueles que, santificados por ele e restaurados pelo nascimento da graça espiritual, começaram a ser filhos de Deus. Essa palavra, além disso, repreende e condena os judeus, que não só desprezaram com incredulidade a Cristo, anunciado a eles pelos profetas e enviado primeiro a eles, mas também cruelmente o mataram; e estes já não podem chamar a Deus de seu Pai, pois o Senhor os confunde e refuta, dizendo: “Vocês são do diabo, que é o pai de vocês, e querem satisfazer os desejos dele. Ele foi assassino desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade” (Jo 8.44). E pelo profeta Isaías Deus clama com ira: “Gerei filhos e os criei, mas eles me desprezaram. O boi conhece o seu dono, e o jumento, a manjedoura do seu senhor; mas Israel não me conheceu, e o meu povo não me entendeu. Ai da nação pecadora, povo carregado de pecados, descendência perversa, filhos corrompidos!7 Vocês abandonaram o Senhor; provocaram à ira o Santo de Israel” (Is 1.2-4). Repudiando a esses, nós, cristãos, quando oramos, dizemos Pai nosso, porque ele começou a ser nosso e deixou de ser Pai dos judeus, que o abandonaram. Nem pode um povo pecador ser filho; mas o nome de filhos é atribuído àqueles a quem é concedida a remissão dos pecados, e a eles é prometida de novo a imortalidade, nas palavras do próprio Senhor: “Todo o que comete pecado é escravo do pecado. O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, fica para sempre” (Jo 8.34-35).

11. Mas quão grande é a indulgência do Senhor! Quão grande a sua condescendência e a abundância da sua bondade para conosco, pois quis que orássemos na presença de Deus de modo a chamar a Deus de Pai e a chamar a nós mesmos de filhos de Deus, assim como Cristo é o Filho de Deus! Nenhum de nós ousaria arriscar esse nome na oração, se ele mesmo não nos tivesse permitido orar assim. Devemos, pois, irmãos amados, lembrar e saber que, quando chamamos a Deus de Pai, devemos agir como filhos de Deus, para que, na mesma medida em que nos alegramos em considerar a Deus como Pai, também ele possa alegrar-se em nós. Vivamos como templos de Deus, para que fique claro que Deus habita em nós. Que as nossas ações não degenerem do Espírito, para que nós, que começamos a ser celestiais e espirituais, não pensemos nem façamos senão coisas espirituais e celestiais, pois o próprio Senhor Deus disse: “Aos que me honram, eu honrarei; e quem me despreza será desprezado” (1Sm 2.30). Também o bem-aventurado apóstolo estabeleceu na sua carta: “Vocês não pertencem a vocês mesmos, pois foram comprados por alto preço. Glorifiquem e levem a Deus no corpo de vocês” (1Co 6.19-20).

12. Depois disso, dizemos: “Santificado seja o teu nome”; não que desejemos para Deus que ele seja santificado pelas nossas orações, mas pedimos a ele que o seu nome seja santificado em nós. Pois por quem Deus é santificado, se é ele mesmo quem santifica? Ora, porque ele diz: “Sejam santos, assim como eu sou santo” (Lv 19.2), pedimos e suplicamos que nós, que fomos santificados no batismo, perseveremos naquilo que começamos a ser. E isso pedimos diariamente; pois temos necessidade de santificação diária, para que nós, que diariamente caímos, lavemos os nossos pecados por uma santificação contínua. E qual é a santificação que nos é conferida pela condescendência de Deus, o apóstolo declara quando diz: “Nem os imorais, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os afeminados, nem os que se corrompem com homens, nem os ladrões, nem os enganadores, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o Reino de Deus. E tais vocês eram de fato; mas foram lavados, mas foram justificados, mas foram santificados no nome do nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.9-11). Ele diz que somos santificados no nome do nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. Pedimos que essa santificação permaneça em nós; e, porque o nosso Senhor e Juiz adverte o homem que ele curou e vivificou a não pecar mais, para que não lhe aconteça coisa pior, fazemos essa súplica nas nossas orações constantes, pedimos isso dia e noite: que a santificação e a vivificação recebidas da graça de Deus sejam preservadas pela proteção dele.

13. Segue-se na oração: Venha o teu Reino. Pedimos que o Reino de Deus se manifeste a nós, assim como também pedimos que o seu nome seja santificado em nós. Pois quando é que Deus não reina, ou quando começa nele aquilo que sempre foi e nunca deixa de ser? Pedimos que venha o nosso reino, que nos foi prometido por Deus e adquirido pelo sangue e pela paixão de Cristo; para que nós, que primeiro somos seus súditos no mundo, reinemos depois com Cristo quando ele reinar, como ele mesmo promete e diz: “Venham, benditos de meu Pai, recebam o Reino que foi preparado para vocês desde o princípio do mundo” (Mt 25.34). Mas, irmãos caríssimos, o próprio Cristo pode ser o Reino de Deus, cuja vinda desejamos dia após dia, cujo advento ansiamos que se manifeste a nós em breve. Pois, como ele mesmo é a Ressurreição,8 já que nele ressuscitamos, assim também se pode entender que ele mesmo é o Reino de Deus, já que nele reinaremos. E fazemos bem em buscar o Reino de Deus, isto é, o reino celestial, porque existe também um reino terreno. Mas quem já renunciou ao mundo é, além disso, maior do que as honras e o reino dele. Por isso, quem se consagra a Deus e a Cristo não deseja reinos terrenos, mas celestiais. Mas é preciso oração e súplica contínuas, para que não caiamos do reino celestial, como caíram os judeus, a quem essa promessa fora feita primeiro, conforme o Senhor declara e prova: “Muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus. Mas os filhos do Reino serão lançados para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 8.11-12). Ele mostra que os judeus eram antes filhos do Reino, enquanto continuavam a ser também filhos de Deus; mas, depois que o nome de Pai deixou de ser reconhecido entre eles, cessou também o Reino. Por isso nós, cristãos, que na nossa oração começamos a chamar a Deus de nosso Pai, pedimos também que o Reino de Deus venha a nós.

14. Acrescentamos também e dizemos: “Seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra”; não para que Deus faça o que quer, mas para que nós possamos fazer o que Deus quer. Pois quem resiste a Deus, para que ele não faça o que quer? Mas, como somos impedidos pelo diabo de obedecer à vontade de Deus em todas as coisas com o pensamento e com as obras, oramos e pedimos que a vontade de Deus seja feita em nós; e, para que seja feita em nós, temos necessidade da boa vontade de Deus, isto é, do seu auxílio e da sua proteção, porque ninguém é forte pelas próprias forças, mas está seguro pela graça e pela misericórdia de Deus. E mais: o Senhor, mostrando a fraqueza da humanidade que assumiu, diz: “Pai, se é possível, que passe de mim este cálice!”; e, dando exemplo aos seus discípulos de que não fizessem a própria vontade, mas a de Deus, acrescentou: “Contudo, não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). E em outro lugar diz: “Eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Ora, se o Filho obedeceu para fazer a vontade do Pai, quanto mais o servo deve obedecer para fazer a vontade do seu Senhor! Assim também João, na sua carta, nos exorta e instrui a fazer a vontade de Deus, dizendo: “Não amem o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo o que há no mundo, o desejo da carne, o desejo dos olhos e a ambição da vida, não procede do Pai, mas procede do desejo do mundo. E o mundo passará, bem como o seu desejo; mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre, assim como Deus também permanece para sempre” (1Jo 2.15-17). Nós, que desejamos permanecer para sempre, devemos fazer a vontade de Deus, que é eterno.

15. Ora, a vontade de Deus é aquilo que Cristo fez e ensinou: humildade no trato, firmeza na fé, modéstia nas palavras, justiça nas ações, misericórdia nas obras, disciplina nos costumes; não ser capaz de fazer uma injustiça e ser capaz de suportar a injustiça sofrida; manter a paz com os irmãos; amar a Deus de todo o coração; amá-lo porque é Pai; temê-lo porque é Deus; não antepor absolutamente nada a Cristo, porque ele nada antepôs a nós; apegar-se inseparavelmente ao seu amor; permanecer junto à sua cruz com coragem e fidelidade; quando houver alguma luta em favor do seu nome e da sua honra, mostrar nas palavras a constância com que o confessamos, nas torturas a confiança com que combatemos, na morte a paciência pela qual somos coroados. Isso é querer ser coerdeiros com Cristo; isso é cumprir o mandamento de Deus; isso é realizar a vontade do Pai.

16. Além disso, pedimos que a vontade de Deus seja feita tanto no céu como na terra, e uma coisa e outra dizem respeito ao cumprimento da nossa segurança e salvação. Pois, como temos o corpo da terra e o espírito do céu, nós mesmos somos terra e céu; e em ambos, isto é, tanto no corpo como no espírito, pedimos que se faça a vontade de Deus. Porque entre a carne e o espírito há uma luta, e há um combate diário enquanto discordam um do outro, de modo que não fazemos aquilo mesmo que queremos, já que o espírito busca as coisas celestiais e divinas, enquanto a carne cobiça as terrenas e temporais. Por isso pedimos9 que, com o auxílio e a assistência de Deus, se faça a concórdia entre essas duas naturezas, para que, fazendo-se a vontade de Deus tanto no espírito quanto na carne, seja preservada a alma que por ele nasceu de novo. É o que o apóstolo Paulo declara aberta e claramente com as suas palavras: “A carne”, diz ele, “cobiça contra o espírito, e o espírito contra a carne, porque são opostos entre si, para que vocês não façam o que querem. Ora, as obras da carne são conhecidas e são estas: adultérios, imoralidades, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçaria, homicídios, ódios, contendas, rivalidades, iras, rixas, sedições, dissensões, heresias, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas. Declaro a vocês, como antes já os preveni, que os que praticam tais coisas não herdarão o Reino de Deus. Mas o fruto do espírito é amor, alegria, paz, magnanimidade, bondade, fé, mansidão, continência, castidade” (Gl 5.17-23). E por isso fazemos a nossa oração em súplicas diárias, e até contínuas, para que a vontade de Deus a nosso respeito seja feita tanto no céu como na terra; porque esta é a vontade de Deus: que as coisas terrenas deem lugar às celestiais, e que prevaleçam as espirituais e divinas.

17. E também se pode entender assim, irmãos amados: como o Senhor nos manda e nos exorta até a amar os nossos inimigos e a orar até pelos que nos perseguem, devemos pedir também pelos que ainda são terra e ainda não começaram a ser celestiais, para que também a respeito deles se faça a vontade de Deus, que Cristo realizou ao preservar e renovar a humanidade. Pois, uma vez que os discípulos já não são chamados por ele de terra, mas de sal da terra, e o apóstolo diz que o primeiro homem é do pó da terra, mas o segundo, do céu, nós, que devemos ser semelhantes a Deus, nosso Pai, que faz nascer o seu sol sobre bons e maus e faz chover sobre justos e injustos, com razão oramos e pedimos, pela exortação de Cristo, de tal modo que façamos a nossa oração pela salvação de todos; para que, assim como no céu, isto é, em nós, pela nossa fé, foi feita a vontade de Deus, a fim de que fôssemos do céu, assim também na terra, isto é, nos que não creem,10 se faça a vontade de Deus, para que aqueles que, pelo primeiro nascimento, ainda são da terra, nascidos da água e do Espírito, comecem a ser do céu.

18. Prosseguindo a oração, pedimos e dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” E isso pode ser entendido tanto espiritual quanto literalmente, porque uma e outra maneira de entender são ricas em utilidade divina para a nossa salvação. Pois Cristo é o pão da vida; e esse pão não é de todos, mas é nosso. E assim como dizemos “Pai nosso”, porque ele é Pai dos que entendem e creem, também o chamamos “pão nosso”, porque Cristo é o pão dos que estão em união com o seu corpo.11 E pedimos que esse pão nos seja dado diariamente, para que nós, que estamos em Cristo e diariamente recebemos a Eucaristia como alimento de salvação, não sejamos separados do corpo de Cristo pela interposição de algum pecado grave, sendo impedidos, como afastados e sem comungar, de participar do pão celestial; como ele mesmo prediz e adverte: “Eu sou o pão da vida que desceu do céu. Se alguém comer do meu pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é a minha carne, pela vida do mundo” (Jo 6.51). Quando, pois, ele diz que quem comer do seu pão viverá eternamente, assim como é manifesto que estão vivos os que participam do seu corpo e recebem a Eucaristia pelo direito da comunhão, assim também, por outro lado, devemos temer e orar para que ninguém que, afastado da comunhão, esteja separado do corpo de Cristo permaneça longe da salvação, como ele mesmo ameaça e diz: “Se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, não terão vida em vocês mesmos” (Jo 6.53). E por isso pedimos que o nosso pão, isto é, Cristo, nos seja dado diariamente, para que nós, que permanecemos e vivemos em Cristo, não nos afastemos da sua santificação e do seu corpo.

19. Mas também se pode entender assim: nós, que renunciamos ao mundo e lançamos fora as suas riquezas e pompas pela fé na graça espiritual, devemos pedir para nós apenas o alimento e o sustento, pois o Senhor nos instrui e diz: “Qualquer um de vocês que não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33). Ora, quem começou a ser discípulo de Cristo, renunciando a tudo segundo a palavra do seu Mestre, deve pedir o alimento do dia e não estender os desejos da sua petição a um longo prazo, como o Senhor de novo prescreve e diz: “Não se preocupem com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal” (Mt 6.34). Com razão, então, o discípulo de Cristo pede para si o alimento do dia, já que está proibido de pensar no amanhã; porque seria contraditório e incoerente procurarmos viver muito tempo neste mundo, quando pedimos que o Reino de Deus venha depressa. Assim também o bem-aventurado apóstolo nos exorta, dando consistência e força à firmeza da nossa esperança e da nossa fé: “Nada trouxemos”, diz ele, “para este mundo, nem coisa alguma podemos levar dele. Tendo, pois, alimento e roupa, fiquemos contentes com isso. Mas os que querem ficar ricos caem em tentação e em armadilha, e em muitos desejos nocivos, que afogam os homens na perdição e na ruína. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, cobiçando-o, naufragaram na fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores” (1Tm 6.7-10).

20. Ele nos ensina que as riquezas não só devem ser desprezadas, mas também estão cheias de perigo; que nelas está a raiz de males sedutores, que enganam a cegueira da mente humana com engano oculto. Por isso também Deus repreende o rico insensato, que pensa nas suas riquezas terrenas e se gaba da abundância das suas colheitas transbordantes, dizendo: “Louco! Esta noite lhe pedirão a sua alma; e o que você tem preparado, para quem será?” (Lc 12.20). O insensato que ia morrer naquela mesma noite se alegrava com as suas provisões, e aquele a quem a vida já faltava pensava na abundância dos seus alimentos. Mas, por outro lado, o Senhor nos diz que se torna perfeito e completo quem vende todos os seus bens e os distribui para o sustento dos pobres, e assim ajunta para si um tesouro no céu. Diz que é capaz de segui-lo e de imitar a glória da paixão do Senhor aquele que, livre de impedimentos e com os lombos cingidos, não se acha enredado em nenhum embaraço de bens terrenos, mas, solto e livre, acompanha os seus bens, que antes já foram enviados a Deus. Para que cada um de nós possa preparar-se para isso, aprenda a orar assim e saiba, pelo teor da oração, o que deve ser.

21. Pois o pão de cada dia não pode faltar ao justo, já que está escrito: “O Senhor não matará de fome a alma do justo” (Pv 10.3); e ainda: “Fui moço e agora sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão” (Sl 37.25). E o Senhor também promete e diz: “Não se preocupem, dizendo: ‘Que comeremos?’, ‘Que beberemos?’ ou ‘Com que nos vestiremos?’ Porque os gentios é que procuram todas estas coisas. O Pai de vocês sabe que vocês precisam de todas elas. Mas busquem em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.31-33). Aos que buscam o Reino e a justiça de Deus, ele promete que todas as coisas serão acrescentadas. Pois, como todas as coisas são de Deus, nada faltará a quem possui a Deus, se o próprio Deus não lhe faltar. Assim, uma refeição foi providenciada divinamente para Daniel: quando, por ordem do rei, foi encerrado na cova dos leões, no meio de feras famintas que, no entanto, o pouparam, o homem de Deus foi alimentado. Assim Elias, na sua fuga, foi nutrido tanto pelos corvos que o serviam na solidão quanto pelas aves que lhe traziam alimento na perseguição. E (ó crueldade detestável da malícia humana!) as feras poupam, as aves alimentam, enquanto os homens armam ciladas e se enfurecem!

22. Depois disso, suplicamos também pelos nossos pecados, dizendo: “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores.” Depois do sustento do alimento, pede-se também o perdão do pecado, para que quem é alimentado por Deus viva em Deus, e para que se proveja não só a vida presente e temporal, mas também a eterna, à qual podemos chegar se os nossos pecados forem perdoados. A estes o Senhor chama dívidas, como diz no seu evangelho: “Eu lhe perdoei aquela dívida toda porque você me implorou” (Mt 18.32). E quão necessária, quão providente e salutarmente somos advertidos de que somos pecadores, pois somos obrigados a suplicar pelos nossos pecados, e, enquanto se pede perdão a Deus, a alma recorda a consciência que tem do próprio pecado! Para que ninguém se lisonjeie de ser inocente12 e, exaltando-se, se perca mais profundamente, é instruído e ensinado que peca todos os dias, já que lhe é ordenado suplicar todos os dias pelos seus pecados. Assim também João, na sua carta, nos adverte e diz: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós; mas, se confessarmos os nossos pecados, o Senhor é fiel e justo para nos perdoar os pecados” (1Jo 1.8-9). Na sua carta ele juntou as duas coisas: que devemos suplicar pelos nossos pecados e que obtemos o perdão quando pedimos. Por isso disse que o Senhor é fiel para perdoar os pecados, guardando a fidelidade à sua promessa; porque aquele que nos ensinou a orar pelas nossas dívidas e pecados prometeu que a sua misericórdia e o seu perdão paternos se seguiriam.

23. Ele juntou a isso claramente e acrescentou a lei, e nos prendeu a uma condição e a um compromisso determinados: que pedíssemos que as nossas dívidas nos fossem perdoadas na mesma medida em que nós mesmos perdoamos aos nossos devedores, sabendo que aquilo que buscamos para os nossos pecados não pode ser obtido se nós mesmos não tivermos procedido de modo semelhante com os nossos devedores. Por isso também diz em outro lugar: “Com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos” (Mt 7.2). E o servo que, depois de ter recebido do seu senhor o perdão de toda a dívida, não quis perdoar ao seu conservo, é lançado de volta à prisão; por não querer perdoar ao conservo, perdeu a indulgência que o seu senhor lhe havia mostrado. E Cristo expõe estas coisas com ainda mais insistência nos seus preceitos, com força ainda maior na sua repreensão: “Quando estiverem orando”, diz ele, “se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem, para que o Pai de vocês, que está nos céus, perdoe as ofensas de vocês. Mas, se vocês não perdoarem, também o Pai de vocês, que está nos céus, não perdoará as ofensas de vocês” (Mc 11.25-26). Não resta nenhum pretexto de desculpa no dia do juízo, quando você será julgado segundo a sua própria sentença; e o que você tiver feito, isso também sofrerá. Pois Deus nos manda ser pacificadores, concordes e unânimes na sua casa; e quer que, tais como nos faz pelo segundo nascimento, assim permaneçamos depois de renascidos, para que nós, que começamos a ser filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus e, tendo um só espírito, tenhamos também um só coração e uma só mente. Assim, Deus não recebe o sacrifício de quem está em discórdia, mas manda que se retire do altar e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão, para que também Deus seja aplacado pelas orações de um pacificador. A nossa paz e a concórdia fraterna são o sacrifício maior para Deus, e um povo unido em um só, na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

24. Pois também nos sacrifícios que Abel e Caim ofereceram pela primeira vez, Deus não olhou para as suas ofertas, mas para o seu coração, de modo que foi aceito na sua oferta aquele que era aceito no seu coração. Abel, pacífico e justo ao sacrificar a Deus com inocência, ensinou também os outros, quando levam a sua oferta ao altar, a virem assim: com o temor de Deus, com coração simples, com a lei da justiça, com a paz da concórdia. Com razão aquele que assim procedeu no sacrifício a Deus tornou-se depois ele mesmo um sacrifício a Deus; de modo que ele, que primeiro mostrou o martírio e inaugurou a paixão do Senhor com a glória do seu sangue, tinha tanto a justiça quanto a paz do Senhor. Enfim, são esses os coroados pelo Senhor, são esses os que serão vingados13 com o Senhor no dia do juízo; mas o briguento e desunido, e quem não tem paz com os seus irmãos, conforme testificam o bem-aventurado apóstolo e a Santa Escritura, ainda que tenha sido morto pelo nome de Cristo, não poderá escapar ao crime da discórdia fraterna, porque, como está escrito, “quem odeia o seu irmão é assassino” (1Jo 3.15), e nenhum assassino chega ao Reino dos Céus nem vive com Deus. Não pode estar com Cristo quem prefere ser imitador de Judas a ser imitador de Cristo. Quão grande é o pecado que nem sequer um batismo de sangue pode lavar! Quão hediondo o crime que nem o martírio pode expiar!

25. Além disso, o Senhor necessariamente nos adverte a dizer na oração: “E não permitas que sejamos levados à tentação.” Nessas palavras se mostra que o adversário nada pode contra nós se Deus não o tiver permitido antes; de modo que todo o nosso temor, devoção e obediência se voltem para Deus, já que nas nossas tentações nada é permitido ao mal se o poder não lhe for dado por ele. Isso é provado pela Escritura divina, que diz: “Nabucodonosor, rei da Babilônia, veio a Jerusalém e a sitiou; e o Senhor a entregou nas mãos dele” (Dn 1.1-2). Mas o poder é dado ao mal contra nós segundo os nossos pecados, como está escrito: “Quem entregou Jacó ao despojo e Israel aos que o saqueiam? Não foi o Senhor, contra quem pecaram, e em cujos caminhos não quiseram andar, nem ouvir a sua lei? E ele trouxe sobre eles a ira do seu furor” (Is 42.24-25). E também, quando Salomão pecou e se afastou dos mandamentos e caminhos do Senhor, está registrado: “E o Senhor suscitou Satanás contra o próprio Salomão” (1Rs 11.14).

26. Ora, o poder contra nós é dado de dois modos: ou para castigo, quando pecamos, ou para glória, quando somos provados, como vemos que aconteceu com Jó, segundo o próprio Deus declara, dizendo: “Eis que tudo o que ele tem eu entrego nas suas mãos; mas cuidado para não tocar nele” (Jó 1.12). E o Senhor, no seu evangelho, diz no tempo da sua paixão: “O senhor não teria nenhuma autoridade sobre mim se de cima não lhe fosse dada” (Jo 19.11). Mas, quando pedimos não cair em tentação, somos lembrados, por esse mesmo pedido, da nossa enfermidade e fraqueza, para que ninguém se vanglorie com insolência, ninguém atribua a si mesmo coisa alguma com soberba e arrogância, ninguém tome para si como própria a glória da confissão ou do sofrimento, quando o próprio Senhor, ensinando a humildade, disse: “Vigiem e orem, para que não caiam em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mc 14.38); de modo que, vindo primeiro uma confissão humilde e submissa, e sendo tudo atribuído a Deus, tudo o que se pede com súplica, com temor e honra a Deus, seja concedido pela sua própria bondade.

27. Depois de todas estas coisas, na conclusão da oração vem uma cláusula breve, que resume de modo conciso e abrangente todas as nossas petições e preces. Pois concluímos dizendo: “Mas livra-nos do mal”, abrangendo todas as coisas adversas que o inimigo trama contra nós neste mundo, das quais pode haver proteção fiel e segura se Deus nos livrar, se ele der o seu auxílio a nós que o pedimos e imploramos. E, quando dizemos: Livra-nos do mal, nada mais resta que se deva pedir. Uma vez que pedimos a proteção de Deus contra o mal e a obtivemos, ficamos firmes e seguros contra tudo o que o diabo e o mundo tramam contra nós. Pois que temor há nesta vida para o homem cujo guardião nesta vida é Deus?

28. Que admira, irmãos amados, que seja tal a oração que Deus ensinou, já que no seu ensino condensou toda a nossa oração numa só frase salvadora? Isso já havia sido predito pelo profeta Isaías quando, cheio do Espírito Santo, falou da majestade e da bondade de Deus: “Consumando e abreviando a sua palavra”,14 diz ele, “em justiça, porque uma palavra abreviada15 o Senhor fará em toda a terra” (Is 10.22-23). Pois, quando o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, veio para todos e, reunindo igualmente sábios e ignorantes, anunciou a todo sexo e a toda idade os preceitos da salvação, fez um grande compêndio dos seus preceitos, para que a memória dos alunos não ficasse sobrecarregada no ensino celestial, mas aprendesse depressa o que é necessário a uma fé simples. Assim, quando ensinou o que é a vida eterna, abarcou o sacramento da vida numa grande e divina brevidade, dizendo: “E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Também, quando quis reunir da Lei e dos Profetas os primeiros e maiores mandamentos, disse: “Escute, ó Israel: o Senhor, teu Deus, é um só Deus; e amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. Este é o primeiro mandamento. E o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mc 12.29-31). “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40). E também: “Tudo o que de bom vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7.12).

29. E não foi só com palavras, mas também com obras, que o Senhor nos ensinou a orar, orando ele mesmo com frequência e suplicando, e mostrando-nos assim, pelo testemunho do seu exemplo, o que devíamos fazer, como está escrito: “Ele, porém, retirava-se para um lugar solitário e ali orava” (Lc 5.16). E também: “Saiu para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus” (Lc 6.12). Ora, se orava aquele que era sem pecado, quanto mais devem orar os pecadores! E, se ele orava continuamente, vigiando a noite inteira em súplicas ininterruptas, quanto mais devemos nós vigiar de noite em oração frequentemente repetida!

30. Mas o Senhor orava e suplicava não por si mesmo (pois por que haveria de orar em seu próprio favor quem era sem culpa?), mas pelos nossos pecados, como ele mesmo declarou quando disse a Pedro: “Eis que Satanás pediu para peneirar vocês como trigo! Eu, porém, orei por você, para que a sua fé não desfaleça” (Lc 22.31-32). E depois suplica ao Pai por todos, dizendo: “Não peço somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por meio da palavra que eles falarem, a fim de que todos sejam um. E como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, também eles sejam um em nós” (Jo 17.20-21). Grande é a bondade do Senhor, não menos que a sua misericórdia, para a nossa salvação, pois, não contente em nos remir com o seu sangue, ainda orou por nós. Vejam agora qual foi o desejo da sua petição: que, assim como o Pai e o Filho são um, também nós permaneçamos na mais perfeita unidade; de modo que daí se possa entender quão gravemente peca quem divide a unidade e a paz, já que por isso mesmo também o Senhor suplicou, desejando sem dúvida que o seu povo fosse assim salvo e vivesse em paz, pois sabia que a discórdia não pode entrar no Reino de Deus.

31. Além disso, irmãos amados, quando estamos de pé em oração, devemos estar vigilantes e aplicados de todo o coração, atentos às nossas preces. Que se afaste todo pensamento carnal e mundano, e que a alma, naquele momento, não pense em nada a não ser somente no objeto da sua oração. Por isso também o sacerdote, à maneira de prefácio antes da oração, prepara o espírito dos irmãos dizendo: “Corações ao alto”, para que, ao responder o povo: “Nós os elevamos ao Senhor”, ele seja lembrado de que ele próprio não deve pensar em nada senão no Senhor. Que o peito se feche ao adversário e se abra somente a Deus, e não deixe que o inimigo de Deus se aproxime dele no tempo da oração. Pois muitas vezes ele se insinua em nós, penetra lá dentro e, com astúcia enganosa, desvia de Deus as nossas orações, de modo que tenhamos uma coisa no coração e outra na voz, quando não é o som da voz, mas a alma e a mente que devem orar ao Senhor com intenção simples. Mas que descuido é deixar-se distrair e arrastar por pensamentos tolos e profanos quando você está orando ao Senhor, como se houvesse algo em que devesse pensar mais do que no fato de estar falando com Deus! Como você pode pedir para ser ouvido por Deus, se nem você mesmo se ouve? Você quer que Deus se lembre de você quando pede, se nem você mesmo se lembra de si? Isso é não tomar absolutamente nenhuma precaução contra o inimigo; isso é, ao orar a Deus, ofender a majestade de Deus com o descuido da sua oração; isso é estar vigilante com os olhos e dormindo com o coração, quando o cristão, ainda que esteja dormindo com os olhos, deve estar acordado com o coração, como está escrito na pessoa da Igreja que fala no Cântico dos Cânticos: “Eu dormia, mas o meu coração estava acordado” (Ct 5.2). Por isso o apóstolo nos adverte com solicitude e cuidado, dizendo: “Continuem a orar, vigiando em oração” (Cl 4.2), ensinando, isto é, e mostrando que obtêm de Deus o que pedem aqueles que Deus vê vigilantes na oração.

32. Além disso, os que oram não devem chegar-se a Deus com orações estéreis ou nuas. É ineficaz a petição quando é uma súplica estéril que implora a Deus. Pois, assim como toda árvore que não dá fruto é cortada e lançada no fogo, assim também, certamente, as palavras que não dão fruto não podem merecer nada de Deus, porque não são fecundas em nenhum resultado. E assim a Santa Escritura nos instrui, dizendo: “Boa é a oração com jejum e esmola” (Tb 12.8). Pois aquele que no dia do juízo nos dará recompensa pelos nossos trabalhos e esmolas é, já nesta vida, ouvinte misericordioso de quem se achega a ele em oração acompanhada de boas obras. Assim, por exemplo, o centurião Cornélio, quando orava, tinha direito a ser ouvido. Pois costumava dar muitas esmolas ao povo e orava sempre a Deus. A este homem, quando orava por volta da hora nona, apareceu um anjo que dava testemunho dos seus trabalhos e dizia: “Cornélio, as suas orações e as suas esmolas subiram para memória diante de Deus” (At 10.3-4).

33. Sobem depressa a Deus as orações que os méritos dos nossos trabalhos apresentam com insistência a Deus. Assim também o anjo Rafael foi testemunha da oração constante e das constantes boas obras de Tobias, dizendo: “É honroso revelar e confessar as obras de Deus. Pois, quando você orava, e também Sara, eu levei a lembrança das suas orações diante da santidade de Deus. E quando você sepultava os mortos com simplicidade, e porque não tardou em levantar-se e deixar o seu jantar, mas saiu e cobriu o morto, fui enviado para pô-lo à prova; e de novo Deus me enviou para curar você e Sara, sua nora. Pois eu sou Rafael, um dos sete santos anjos que estão de pé e entram e saem diante da glória de Deus” (Tb 12.11-15). Também por Isaías o Senhor nos lembra e ensina coisas semelhantes, dizendo: “Desate todo nó de iniquidade, solte as opressões dos contratos que não têm valor, deixe ir em paz os perturbados e rompa todo compromisso injusto. Reparta o seu pão com o faminto e recolha em casa os pobres desabrigados. Quando vir o nu, vista-o; e não despreze os da mesma família e da mesma raça que você. Então a sua luz romperá a seu tempo, e as suas vestes brotarão depressa; a justiça irá adiante de você, e a glória de Deus o envolverá. Então você clamará, e Deus o ouvirá; e enquanto você ainda estiver falando, ele dirá: Eis-me aqui” (Is 58.6-9). Ele promete que estará perto e diz que ouvirá e protegerá aqueles que, desatando do coração os nós da injustiça e dando esmolas aos membros da casa de Deus segundo os seus mandamentos, ao ouvirem o que Deus manda fazer, também eles mesmos merecem ser ouvidos por Deus. O bem-aventurado apóstolo Paulo, socorrido pelos irmãos na necessidade da aflição, disse que as boas obras praticadas são sacrifícios a Deus. “Estou suprido”, diz ele, “desde que Epafrodito me entregou o que vocês me mandaram, que é uma oferta de aroma agradável, um sacrifício que Deus aceita e que lhe agrada” (Fp 4.18). Pois quem tem compaixão do pobre empresta a Deus; e quem dá ao menor dá a Deus, oferece espiritualmente a Deus um sacrifício de aroma agradável.

34. E, no cumprimento dos deveres da oração, vemos que os três jovens com Daniel, fortes na fé e vitoriosos no cativeiro, observavam a terceira, a sexta e a nona hora, como que num sacramento da Trindade, que devia ser manifestada nos últimos tempos. Pois tanto a primeira hora, avançando até a terceira, mostra o número consumado da Trindade, como também a quarta, prosseguindo até a sexta, declara outra trindade; e, quando da sétima se completa a nona, a Trindade perfeita é contada a cada três horas. Esses intervalos de horas, os adoradores de Deus de outrora, tendo-os fixado espiritualmente, usaram como tempos determinados e legítimos para a oração. E depois ficou manifesto que essas coisas eram sacramentos desde antigamente, pois desse modo oravam os justos de outrora. Pois sobre os discípulos, na hora terceira, desceu o Espírito Santo, que cumpriu a graça da promessa do Senhor. Além disso, na hora sexta, Pedro, subindo ao terraço, foi instruído tanto pelo sinal quanto pela palavra de Deus, que o advertia a receber a todos para a graça da salvação, quando antes ele hesitava quanto a admitir os gentios ao batismo. E, da hora sexta até a nona, o Senhor, crucificado, lavou os nossos pecados com o seu sangue; e, para nos remir e vivificar, consumou então a sua vitória pela sua paixão.

35. Mas para nós, irmãos amados, além das horas de oração observadas antigamente, aumentaram agora em número tanto os tempos quanto os sacramentos. Pois devemos orar também de manhã, para que a ressurreição do Senhor seja celebrada pela oração matinal. E isso o Espírito Santo indicou outrora nos Salmos, dizendo: “Meu Rei e meu Deus, porque a ti clamarei; ó Senhor, de manhã ouvirás a minha voz; de manhã me apresentarei diante de ti e olharei para ti” (Sl 5.2-3). E também o Senhor fala pela boca do profeta: “De madrugada vigiarão à minha espera, dizendo: Vamos e voltemos para o Senhor, nosso Deus” (Os 5.15; 6.1). Também ao pôr do sol e no declinar do dia é necessário orarmos de novo. Pois, como Cristo é o verdadeiro sol e o verdadeiro dia, quando o sol e o dia deste mundo se vão e nós oramos e pedimos que a luz volte a nós, oramos pela vinda de Cristo, que nos dará a graça da luz eterna. Além disso, o Espírito Santo nos Salmos manifesta que Cristo é chamado o dia. “A pedra”, diz ele, “que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a pedra angular. Isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos. Este é o dia que o Senhor fez; andemos e alegremo-nos nele” (Sl 118.22-24). Também o profeta Malaquias testifica que ele é chamado o Sol, quando diz: “Mas para vocês que temem o nome do Senhor nascerá o Sol da justiça, e há cura nas suas asas” (Ml 4.2). Ora, se nas Santas Escrituras o verdadeiro sol e o verdadeiro dia é Cristo, não há nenhuma hora excetuada para os cristãos em que Deus não deva ser adorado com frequência e sempre; de modo que nós, que estamos em Cristo, isto é, no verdadeiro Sol e no verdadeiro Dia, devemos perseverar o dia inteiro em súplicas e orar; e quando, pela lei do mundo, sucede a noite que volta em giro, alternando as suas mudanças, nenhum dano pode vir das trevas da noite aos que oram, porque os filhos da luz têm o dia até mesmo na noite. Pois quando está sem luz quem tem luz no coração? Ou quando não tem o sol e o dia aquele cujo Sol e cujo Dia é Cristo?

36. Nós, portanto, que estamos em Cristo, isto é, sempre na luz, não deixemos de orar nem mesmo durante a noite. Assim a viúva Ana, orando e vigiando sem cessar, perseverou em merecer o favor de Deus, como está escrito no evangelho: “Ela não deixava o templo”, diz, “mas servia noite e dia, com jejuns e orações” (Lc 2.37). Atentem para isso os gentios, que ainda não foram iluminados, ou os judeus, que permaneceram nas trevas por terem abandonado a luz. Nós, irmãos amados, que estamos sempre na luz do Senhor, que lembramos e retemos o que começamos a ser pela graça recebida, contemos a noite como dia; creiamos que andamos sempre na luz, e não nos deixemos impedir pelas trevas de que escapamos. Que não haja falta de orações nas horas da noite, nem desperdício ocioso e negligente das ocasiões de oração. Recriados e renascidos do Espírito pela misericórdia de Deus, imitemos o que um dia havemos de ser. Já que no Reino teremos somente o dia, sem a interrupção da noite, vigiemos de noite como se fosse à luz do dia. Já que havemos de orar e dar graças a Deus para sempre, não deixemos de orar e dar graças também nesta vida.

Notas

1. 1º, perseverante e contínua, a exemplo de Cristo, nosso Senhor; 2º, vigilante e derramada do coração, a exemplo do sacerdote que, no prefácio que antecede a oração, prepara o espírito dos irmãos dizendo Sursum corda, ao que o povo responde Habemus ad Dominum; 3º, acompanhada de boas obras e de esmolas, como a de Tobias e a de Cornélio; 4º, a toda hora do dia, e especialmente nas três horas marcadas pela Igreja para a oração, a saber, a terceira, a sexta e a nona; e, além disso, devemos orar de manhã e ao entardecer.

2. “Satisfação.”

3. “Transpungimini.”

4. Ou: “No coração, ó Deus, devemos adorar-te.”

5. “Tanto a insistência quanto o acordo.”

6. Sacramenta.

7. “Uma descendência muito má, filhos sem lei.”

8. Ou: “a nossa ressurreição”.

9. Alguns acrescentam “com insistência”.

10. Algumas edições omitem este “não”.

11. Esta passagem é lida de outra forma, assim: “E assim como dizemos Pai nosso, também chamamos a Cristo pão nosso, porque ele é nosso na medida em que tocamos o seu corpo.”

12. Aqui alguns acrescentam: “embora ninguém seja inocente”.

13. Ou: “julgarão”.

14. Verbum.

15. Sermonem.

Tradução para o português a partir das versões inglesas da coleção Ante-Nicene Fathers (Buffalo, 1885): Clemente de Alexandria por William Wilson (vol. 2), Tertuliano por S. Thelwall (vol. 3) e Cipriano por Ernest Wallis (vol. 5), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta, pela antiga versão latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.