Escritos do Século III · Cipriano de Cartago
Há uma só Igreja, como há um só Deus e um só Cristo; quem se separa dela, pelo cisma ou pela heresia, não pode ter Deus por Pai.
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Argumento. Por ocasião do cisma de Novaciano, para afastar dele os cartagineses, que já não lhe eram contrários por causa de Novato e de alguns outros presbíteros da sua igreja, que tinham dado origem a toda a perturbação, Cipriano escreveu este tratado. E, antes de tudo, fortalecendo-os contra os enganos dessas pessoas, exorta-os à constância e ensina-lhes que as heresias existem porque não se olha para Cristo, a Cabeça da Igreja, porque se despreza o encargo comum confiado primeiro a Pedro e porque se abandonam a Igreja única e o episcopado único. Depois prova a unidade da Igreja, tanto pelas Escrituras como pelas figuras do Antigo e do Novo Testamento.1
1. Visto que o Senhor nos adverte, dizendo: “Vocês são o sal da terra” (Mt 5.13), e visto que nos manda ser simples até a inocência e, ainda assim, ser prudentes na nossa simplicidade, que outra coisa nos convém, irmãos amados, senão usar de previdência e vigiar com coração atento, tanto para perceber como para evitar as ciladas do inimigo astuto, a fim de que nós, que nos revestimos de Cristo, a sabedoria de Deus Pai, não pareçamos carecer de sabedoria naquilo que diz respeito a cuidar da nossa salvação? Pois não é só a perseguição que se deve temer, nem aquilo que avança em ataque aberto para esmagar e derrubar os servos de Deus. A cautela é mais fácil quando o perigo é manifesto, e o espírito se prepara de antemão para a luta quando o adversário se declara. O inimigo é mais de temer e dele mais devemos nos guardar quando rasteja sobre nós às escondidas; quando, enganando com aparência de paz, avança furtivamente por caminhos ocultos, razão pela qual também recebeu o nome de Serpente.2 Essa é sempre a sua astúcia; esse é o seu artifício obscuro e furtivo para enredar o ser humano. Assim enganou desde o próprio princípio do mundo e, lisonjeando com palavras mentirosas, desencaminhou almas inexperientes por uma credulidade incauta. Assim procurou tentar o próprio Senhor: aproximou-se dele em segredo, como se quisesse de novo rastejar sobre ele e enganá-lo; mas foi percebido, rechaçado e, por isso, abatido, porque foi reconhecido e descoberto.
2. Nisso nos é dado um exemplo para evitarmos o caminho do velho homem e permanecermos nas pegadas de Cristo vencedor,3 para que não voltemos a cair, por descuido, nas redes da morte, mas, prevendo o nosso perigo, possuamos a imortalidade que recebemos. Mas como podemos possuir a imortalidade, se não guardarmos aqueles mandamentos de Cristo pelos quais a morte é expulsa e vencida, quando ele mesmo nos adverte e diz: “Se você quer entrar na vida, guarde os mandamentos” (Mt 19.17)? E ainda: “Se vocês fizerem o que eu lhes ordeno, já não os chamo servos, mas amigos” (Jo 15.14-15). Enfim, a esses ele chama fortes e firmes; a esses declara fundados com segurança robusta sobre a rocha, estabelecidos com firmeza imóvel e inabalável contra todas as tempestades e furacões do mundo. “Todo aquele”, diz ele, “que ouve as minhas palavras e as pratica, eu o compararei a um homem sábio que construiu a sua casa sobre a rocha: desceu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e bateram contra aquela casa, e ela não caiu, porque estava fundada sobre a rocha” (Mt 7.24-25). Devemos, pois, permanecer firmes nas suas palavras, aprender e fazer tudo o que ele ensinou e fez. Mas como pode alguém dizer que crê em Cristo, se não faz o que Cristo lhe mandou fazer? Ou de onde alcançará a recompensa da fé quem não quer guardar a fidelidade ao mandamento? Ele há de necessariamente vacilar e vaguear e, arrebatado por um espírito de erro, como o pó que o vento sacode, ser levado de um lado para outro; e não fará nenhum progresso no caminho da salvação, porque não guarda a verdade do caminho da salvação.
3. Mas, irmãos amados, não devemos nos precaver apenas do que é aberto e manifesto, mas também do que engana pela astúcia de uma fraude sutil. E que pode haver de mais astuto ou de mais sutil do que isto: esse inimigo, descoberto e abatido pela vinda de Cristo, depois que a luz chegou às nações e raios salvadores brilharam para a preservação dos homens, para que os surdos recebessem o ouvido da graça espiritual, os cegos abrissem os olhos para Deus, os fracos se fortalecessem de novo com saúde eterna, os coxos corressem para a igreja, os mudos orassem com vozes e preces claras, vendo os seus ídolos abandonados e os seus santuários e templos desertos pela numerosa afluência dos que creem, inventou uma nova fraude, para enganar os incautos sob o próprio título do nome cristão? Ele inventou heresias e cismas, para com eles subverter a fé, corromper a verdade e dividir a unidade. Aqueles que não consegue manter nas trevas do caminho antigo, ele os enreda e engana com o erro de um caminho novo. Arrebata homens da própria Igreja; e, enquanto lhes parece que já se aproximaram da luz e escaparam da noite do mundo, ele derrama de novo sobre eles, sem que o percebam, novas trevas; de modo que, embora não permaneçam firmes no evangelho de Cristo e na observância e na lei de Cristo, ainda assim se chamam cristãos e, andando nas trevas, pensam que têm a luz, enquanto o adversário os lisonjeia e engana; ele que, segundo a palavra do apóstolo, se transforma em anjo de luz e equipa os seus ministros como se fossem ministros da justiça, os quais sustentam a noite em lugar do dia, a morte em lugar da salvação, o desespero sob a oferta da esperança, a perfídia sob o pretexto da fé, o anticristo sob o nome de Cristo; de modo que, enquanto simulam coisas semelhantes à verdade, anulam a verdade com a sua sutileza. Isso acontece, irmãos amados, enquanto não voltamos à fonte da verdade, enquanto não buscamos a cabeça nem guardamos o ensino do Mestre celestial.
4. Se alguém considerar e examinar estas coisas, não há necessidade de longa discussão e de argumentos. Há prova fácil para a fé num breve resumo da verdade. O Senhor fala a Pedro, dizendo: “Eu lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu lhe darei as chaves do Reino dos Céus; o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus; e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 16.18-19). E, ao mesmo Pedro, diz de novo depois da sua ressurreição: “Apascente as minhas ovelhas” (Jo 21.17).4 E, embora depois da sua ressurreição dê a todos os apóstolos igual poder e diga: “Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês. Recebam o Espírito Santo. Se de alguns vocês perdoarem os pecados, são-lhes perdoados; mas, se os retiverem, são retidos” (Jo 20.21-23), ainda assim, para manifestar a unidade, dispôs por sua autoridade a origem dessa unidade, como começando de um só. Certamente os demais apóstolos eram também o mesmo que Pedro, dotados de igual participação tanto na honra como no poder; mas o começo procede da unidade.5 Essa Igreja única também o Espírito Santo, no Cântico dos Cânticos, designou na pessoa do nosso Senhor, quando diz: “Uma só é a minha pomba, a minha imaculada. Ela é a única de sua mãe, a eleita daquela que a deu à luz” (Ct 6.9). Quem não mantém essa unidade da Igreja pensa que mantém a fé? Quem se opõe e resiste à Igreja6 confia que está na Igreja, quando, além disso, o bem-aventurado apóstolo Paulo ensina a mesma coisa e expõe o sacramento da unidade, dizendo: “Há um só corpo e um só Espírito, uma só esperança da vocação de vocês, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus” (Ef 4.4-6)?
5. E essa unidade devemos mantê-la e defendê-la com firmeza, sobretudo nós, os bispos, que presidimos na Igreja, para provarmos também que o próprio episcopado é uno e indiviso. Ninguém engane a irmandade com uma mentira; ninguém corrompa a verdade da fé com uma prevaricação pérfida. O episcopado é um só, e cada um detém uma parte dele pelo todo. Também a Igreja é uma só, e ela se estende por toda parte numa multidão, pelo aumento da sua fecundidade. Assim como há muitos raios do sol, mas uma só luz; e muitos ramos de uma árvore, mas um só vigor, firmado na sua raiz tenaz; e assim como de uma só fonte correm muitos regatos, e, embora a multiplicidade pareça espalhar-se na generosidade de uma abundância transbordante, a unidade se conserva na origem. Separe um raio do sol do seu corpo de luz: a unidade não admite divisão da luz. Quebre um ramo da árvore: uma vez quebrado, não poderá brotar. Corte o regato da sua fonte: o que foi cortado seca. Assim também a Igreja, banhada pela luz do Senhor, estende os seus raios pelo mundo inteiro; contudo, é uma só a luz que se difunde por toda parte, e não se separa a unidade do corpo. A sua abundância fecunda estende os seus ramos pelo mundo inteiro. Ela espalha amplamente os seus rios, que correm com generosidade; contudo, a cabeça é uma só, a origem uma só, e ela é uma só mãe, rica nos frutos da sua fecundidade: do seu ventre nascemos, com o seu leite somos nutridos, pelo seu espírito somos animados.
6. A esposa de Cristo não pode ser adúltera; ela é incorrupta e pura. Conhece uma só casa; guarda com casto pudor a santidade de um só leito. Ela nos conserva para Deus. Destina ao Reino os filhos que gerou. Quem quer que se separe da Igreja e se una a uma adúltera fica separado das promessas da Igreja; e quem abandona a Igreja de Cristo não pode alcançar as recompensas de Cristo. É um estranho, um profano, um inimigo. Já não pode ter a Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Se alguém que estava fora da arca de Noé pôde escapar, então também poderá escapar quem estiver fora da Igreja. O Senhor adverte, dizendo: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt 12.30). Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo age contra Cristo; quem ajunta em outro lugar que não na Igreja espalha a Igreja de Cristo. O Senhor diz: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30); e, de novo, está escrito do Pai, do Filho e do Espírito Santo: “E estes três são um” (cf. 1Jo 5.8). E alguém crê que essa unidade, que assim procede da firmeza divina e se mantém coesa nos sacramentos celestes, possa ser dividida na Igreja e separada pelo dilaceramento de vontades em conflito? Quem não mantém essa unidade não mantém a lei de Deus, não mantém a fé do Pai e do Filho, não mantém a vida e a salvação.
7. Esse sacramento da unidade, esse vínculo de uma concórdia inseparavelmente coesa, é apresentado quando, no evangelho, a túnica do Senhor Jesus Cristo de modo nenhum é dividida nem cortada, mas é recebida como veste inteira, e é possuída como manto intacto e indiviso por aqueles que lançaram sortes sobre a veste de Cristo, os quais antes deveriam revestir-se de Cristo.7 A Sagrada Escritura fala, dizendo: “Quanto à túnica, porém, por não ser costurada, mas tecida de alto a baixo, disseram uns aos outros: Não a rasguemos, mas tiremos a sorte para ver de quem será” (Jo 19.23-24). Aquela túnica trazia consigo uma unidade que descia do alto, isto é, que vinha do céu e do Pai, a qual de modo nenhum devia ser rasgada por quem a recebesse e possuísse, mas é sem separação que obtemos a integridade plena e sólida. Não pode possuir a veste de Cristo quem fende e divide a Igreja de Cristo. Por outro lado, quando, na morte de Salomão, o seu reino e o seu povo foram divididos, o profeta Aías, encontrando-se no campo com o rei Jeroboão, dividiu a sua capa em doze pedaços, dizendo: “Tome para você dez pedaços, porque assim diz o Senhor: Eis que rasgarei o reino das mãos de Salomão e darei a você dez cetros; e dois cetros ficarão com ele, por amor a Davi, meu servo, e por amor a Jerusalém, a cidade que escolhi para nela pôr o meu nome” (1Rs 11.31-32,36). Como as doze tribos de Israel foram divididas, o profeta Aías rasgou a sua capa. Mas, porque o povo de Cristo não pode ser rasgado, a sua túnica, tecida e unida de alto a baixo, não é dividida por aqueles que a possuem; indivisa, unida, ligada, ela mostra a concórdia coesa do nosso povo, que se revestiu de Cristo. Pelo sacramento e sinal da sua veste, ele declarou a unidade da Igreja.
8. Quem, pois, é tão perverso e infiel, quem é tão insano com a loucura da discórdia, que creia que a unidade de Deus possa ser dividida, ou ouse rasgá-la, a veste do Senhor, a Igreja de Cristo? Ele mesmo, no seu evangelho, nos adverte e ensina, dizendo: “E haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16). E alguém crê que num só lugar possa haver muitos pastores ou muitos rebanhos? O apóstolo Paulo, além disso, insistindo conosco sobre essa mesma unidade, suplica e exorta, dizendo: “Irmãos, peço-lhes, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos falem a mesma coisa e que não haja cismas entre vocês; pelo contrário, que vocês sejam unidos no mesmo modo de pensar e num mesmo parecer” (1Co 1.10). E diz ainda: “Suportando uns aos outros em amor, fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4.2-3). Você pensa que pode ficar de pé e viver se se afastar da Igreja, construindo para si outras casas e uma morada diferente, quando a Raabe, em quem a Igreja foi prefigurada, se diz: “Reúna com você, em sua casa, o seu pai, a sua mãe, os seus irmãos e toda a família de seu pai; e acontecerá que todo aquele que sair para fora da porta da sua casa, o seu sangue cairá sobre a sua própria cabeça” (Js 2.18-19)? Também o sacramento da Páscoa, na lei do Êxodo, não contém outra coisa senão que o cordeiro, morto como figura de Cristo, seja comido numa só casa. Deus fala, dizendo: “Numa só casa vocês o comerão; não levarão a sua carne para fora da casa” (Êx 12.46). A carne de Cristo, a coisa santa do Senhor, não pode ser levada para fora, e não há para os que creem outra casa senão a Igreja única. Essa casa, essa morada8 da unanimidade, o Espírito Santo a designa e aponta nos Salmos, dizendo: “Deus, que faz os homens habitarem numa casa com um só sentimento” (Sl 68.6). Na casa de Deus, na Igreja de Cristo, os homens habitam com um só sentimento e perseveram na concórdia e na simplicidade.
9. Por isso também o Espírito Santo veio em forma de pomba, criatura simples e alegre, sem o amargor do fel, sem crueldade na mordida, sem a violência das garras que dilaceram; que ama as moradas humanas e conhece a convivência de uma só casa; que, quando tem filhotes, os cria em comum; que, quando sai a voar, permanece no voo ao lado das companheiras; que passa a vida em convívio mútuo, reconhecendo a concórdia da paz com o beijo do bico e cumprindo em tudo a lei da unanimidade. Essa é a simplicidade que deve ser conhecida na Igreja, essa é a caridade que se deve alcançar, para que o amor da irmandade imite as pombas, e a sua mansidão e brandura sejam como as dos cordeiros e das ovelhas. Que faz a ferocidade dos lobos no peito cristão? Que faz a selvageria dos cães, o veneno mortal das serpentes e a crueldade sanguinária das feras? Devemos nos felicitar quando pessoas assim se separam da Igreja, para que não devastem as pombas e as ovelhas de Cristo com o seu contágio cruel e venenoso. A amargura não pode subsistir nem associar-se com a doçura, as trevas com a luz, a chuva com o céu limpo, a guerra com a paz, a esterilidade com a fecundidade, a seca com as fontes, a tempestade com a calmaria. Ninguém pense que os bons podem afastar-se da Igreja. O vento não leva o trigo, nem o furacão arranca a árvore firmada numa raiz sólida. As palhas leves são agitadas pela tempestade; as árvores fracas são derrubadas pelo ímpeto do redemoinho. O apóstolo João amaldiçoa e ataca severamente essas pessoas, quando diz: “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1Jo 2.19).
10. Por isso as heresias não só surgiram com frequência, mas continuam a surgir, enquanto a mente pervertida não tem paz, enquanto a infidelidade discordante não mantém a unidade. Mas o Senhor permite e tolera que essas coisas existam, preservando-se a escolha da própria liberdade, para que, enquanto o discernimento da verdade prova os nossos corações e as nossas mentes, a fé sã dos aprovados brilhe com luz manifesta. O Espírito Santo previne e diz por meio do apóstolo: “É necessário também que haja heresias, para que os aprovados se tornem conhecidos entre vocês” (1Co 11.19). Assim os fiéis são aprovados, assim os pérfidos são descobertos; assim, já aqui, antes do dia do juízo, as almas dos justos e dos injustos são separadas, e a palha é separada do trigo. Esses são os que, por conta própria, sem nenhuma disposição divina, se põem a presidir os estranhos temerários que se reúnem, que se fazem prelados sem nenhuma lei de ordenação, que tomam para si o nome de bispo, embora ninguém lhes dê o episcopado; a quem o Espírito Santo aponta nos Salmos como os que se assentam na cadeira da pestilência, pragas e manchas da fé, enganando com língua de serpente e hábeis em corromper a verdade, vomitando venenos mortais de línguas pestilentas; cuja palavra se alastra como câncer, cujo discurso forma um veneno mortal no coração e no peito de cada um.
11. Contra gente dessa espécie o Senhor clama; destes ele afasta e chama de volta o seu povo extraviado, dizendo: “Não deem ouvidos às palavras dos falsos profetas, porque as visões do seu coração os enganam. Falam, mas não pela boca do Senhor. Dizem aos que rejeitam a palavra de Deus: Vocês terão paz; e a todo aquele que anda segundo a própria vontade, a todo aquele que anda no erro do seu coração: Nenhum mal lhe sobrevirá. Eu não lhes falei, e eles profetizaram. Se tivessem permanecido no meu fundamento (substantia, hupostasei), e tivessem ouvido as minhas palavras, e ensinado o meu povo, eu os teria desviado dos seus maus pensamentos” (Jr 23.16-22). De novo o Senhor aponta e designa esses mesmos, dizendo: “Abandonaram a mim, a fonte de água viva, e cavaram cisternas, cisternas rachadas, que não retêm as águas” (Jr 2.13). Embora não possa haver outro batismo senão um só, eles pensam que podem batizar; embora abandonem a fonte da vida, prometem a graça da água viva e salvadora. Entre eles os homens não são lavados, mas antes sujados; nem os pecados são purificados, mas até acumulados. Tal nascimento não gera filhos para Deus, mas para o diabo. Nascem de uma mentira e não recebem as promessas da verdade. Gerados da perfídia, perdem a graça da fé. Não podem alcançar a recompensa da paz, pois romperam a paz do Senhor com a loucura da discórdia.
12. Nem se enganem alguns com uma interpretação vã a respeito do que o Senhor disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Corruptores e falsos intérpretes do evangelho citam as últimas palavras e deixam de lado as primeiras, lembrando uma parte e suprimindo outra com astúcia: assim como eles mesmos estão separados da Igreja, assim cortam a substância de uma única passagem. Pois o Senhor, querendo recomendar aos seus discípulos a unanimidade e a paz, disse: “Eu lhes digo que, se dois de vocês, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será concedido por meu Pai, que está nos céus. Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou com eles” (Mt 18.19-20); mostrando que se concede mais, não à multidão, mas à unanimidade dos que oram. “Se”, diz ele, “dois de vocês concordarem sobre a terra”: pôs em primeiro lugar a concordância; fez da concórdia da paz uma condição prévia; ensinou que devemos concordar com firmeza e fidelidade. Mas como pode concordar com alguém quem não concorda com o próprio corpo da Igreja e com toda a irmandade? Como podem dois ou três reunir-se em nome de Cristo, se é evidente que estão separados de Cristo e do seu evangelho? Pois não fomos nós que nos afastamos deles, mas eles de nós; e, como as heresias e os cismas surgiram depois, por terem estabelecido para si lugares de culto diferentes, abandonaram a Cabeça e a Fonte da verdade. Mas o Senhor fala a respeito da sua Igreja, e fala àqueles que estão na Igreja: se estiverem em concordância, se, conforme ele ordenou e advertiu, ainda que apenas dois ou três, reunidos com unanimidade, orarem, ainda que sejam só dois ou três, poderão obter da majestade de Deus o que pedem. “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu”, diz ele, “estou com eles”, isto é, com os simples e pacíficos, com os que temem a Deus e guardam os mandamentos de Deus. Com estes, ainda que apenas dois ou três, disse que estava, do mesmo modo como esteve com os três jovens na fornalha ardente; e, porque permaneciam simples diante de Deus e unânimes entre si, ele os animou, no meio das chamas que os cercavam, com um sopro de orvalho; do mesmo modo como, com os dois apóstolos encerrados na prisão, porque eram simples e de um só sentimento, ele mesmo esteve presente; ele mesmo, tendo soltado os ferrolhos do cárcere, os pôs de novo na praça, para que anunciassem à multidão a palavra que fielmente pregavam. Quando, portanto, nos seus mandamentos estabelece e diz: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, eu estou com eles”, não separa os homens da Igreja, visto que ele mesmo instituiu e fez a Igreja; mas, repreendendo os infiéis pela sua discórdia e recomendando com a sua palavra a paz aos fiéis, mostra que está antes com dois ou três que oram com um só sentimento do que com muitíssimos que discordam, e que mais se pode obter pela oração concorde de poucos do que pela súplica discordante de muitos.
13. Assim também, quando deu a lei da oração, acrescentou, dizendo: “E, quando estiverem orando, se tiverem alguma coisa contra alguém, perdoem, para que o Pai de vocês, que está nos céus, perdoe as ofensas de vocês” (Mc 11.25). E chama de volta do altar quem vem ao sacrifício em contenda, e lhe manda primeiro reconciliar-se com o seu irmão e depois voltar em paz e oferecer a sua oferta a Deus; pois Deus não se agradou das ofertas de Caim, porque não podia ter Deus em paz consigo quem, por discórdia invejosa, não tinha paz com o seu irmão. Que paz, então, prometem a si mesmos os inimigos dos irmãos? Que sacrifícios pensam celebrar os rivais dos sacerdotes? Julgam ter Cristo consigo quando se ajuntam, se estão reunidos fora da Igreja de Cristo?
14. Ainda que tais homens fossem mortos na confissão do Nome, essa mancha não é lavada nem mesmo pelo sangue: a culpa grave e inexpiável da discórdia não é purificada nem mesmo pelo sofrimento. Não pode ser mártir quem não está na Igreja; não pode chegar ao Reino quem abandona aquela que nele há de reinar. Cristo nos deu a paz; mandou que estivéssemos em concordância e tivéssemos um só sentimento. Ordenou que os laços do amor e da caridade fossem guardados incorruptos e invioláveis; não pode apresentar-se como mártir quem não manteve o amor fraterno. O apóstolo Paulo ensina isso e testifica, dizendo: “E ainda que eu tenha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver caridade, nada sou. E ainda que eu dê todos os meus bens para alimentar os pobres, e ainda que entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, isso de nada me aproveita. A caridade é magnânima; a caridade é bondosa; a caridade não inveja; a caridade não age com leviandade, não se ensoberbece, não se irrita facilmente, não pensa o mal; tudo ama, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais acaba” (1Co 13.2-5,7-8). “A caridade”, diz ele, “jamais acaba”. Pois ela estará sempre no Reino, permanecerá para sempre na unidade de uma irmandade unida a ela. A discórdia não pode chegar ao Reino dos Céus; às recompensas de Cristo, que disse: “O meu mandamento é este: que vocês amem uns aos outros, assim como eu os amei” (Jo 15.12), não pode chegar9 quem violou o amor de Cristo com uma dissensão infiel. Quem não tem caridade não tem Deus. A palavra do bem-aventurado apóstolo João é esta: “Deus”, diz ele, “é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4.16). Não podem permanecer com Deus os que não quiseram ter um só sentimento na Igreja de Deus. Ainda que ardam, entregues às chamas e ao fogo, ou deem a vida, lançados às feras, isso não será a coroa da fé, mas o castigo da perfídia; nem será o fim glorioso de uma coragem religiosa, mas a ruína do desespero. Tal homem pode ser morto; coroado não pode ser. Professa ser cristão do mesmo modo como o diabo muitas vezes finge ser Cristo, conforme o próprio Senhor nos previne, dizendo: “Muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos” (Mc 13.6). Assim como este não é Cristo, embora engane quanto ao nome, assim também não pode parecer cristão quem não permanece na verdade do seu evangelho e da fé.
15. Pois profetizar, expulsar demônios e realizar grandes feitos na terra é, sem dúvida, coisa sublime e admirável; mas não alcança o Reino dos Céus quem se acha em todas essas coisas, se não anda na observância do caminho reto e justo. O Senhor denuncia e diz: “Muitos, naquele dia, vão me dizer: Senhor, Senhor, nós não profetizamos em seu nome? E em seu nome não expulsamos demônios? E em seu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi claramente: Eu nunca conheci vocês. Afastem-se de mim, vocês que praticam o mal” (Mt 7.22-23). É necessária a justiça, para que alguém mereça bem de Deus, o Juiz; devemos obedecer aos seus preceitos e advertências, para que os nossos méritos recebam a sua recompensa. O Senhor, no seu evangelho, querendo orientar o caminho da nossa esperança e da nossa fé num breve resumo, disse: “O Senhor, seu Deus, é um só Deus; e você amará o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. Este é o primeiro mandamento; e o segundo é semelhante a ele: Você amará o seu próximo como a si mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mc 12.29-31; Mt 22.38-40). Ensinou, ao mesmo tempo, o amor e a unidade com a sua instrução. Encerrou todos os profetas e a lei em dois preceitos. Mas que unidade guarda, que amor mantém ou leva em conta quem, enfurecido pela loucura da discórdia, divide a Igreja, destrói a fé, perturba a paz, dissipa a caridade, profana o sacramento?
16. Este mal, irmãos fidelíssimos, começou há muito tempo, mas agora cresceu a destruição nociva desse mesmo mal, e a peste venenosa da perversidade herética e dos cismas começou a brotar e a germinar de novo; porque assim mesmo tem de ser no declínio do mundo, pois o Espírito Santo o prediz e nos previne por meio do apóstolo, dizendo: “Nos últimos dias”, diz ele, “sobrevirão tempos difíceis, e os homens serão amantes de si mesmos, orgulhosos, arrogantes, avarentos, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, convencidos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, tendo uma espécie de forma10 de religião, mas negando o poder dela. Desta espécie são os que se infiltram nas casas e levam cativas mulheres tolas, sobrecarregadas de pecados, que são levadas por todo tipo de desejos; que estão sempre aprendendo e nunca chegam ao conhecimento da verdade. E do mesmo modo que Janes e Jambres resistiram a Moisés, também estes resistem à verdade;11 mas não irão adiante, porque a insensatez deles ficará evidente a todos, como também aconteceu com a deles” (2Tm 3.1-9). Tudo o que foi predito se cumpre; e, aproximando-se o fim do mundo, essas coisas vieram para a prova tanto dos homens como dos tempos. O erro engana enquanto o adversário se enfurece cada vez mais; a insensatez exalta, a inveja inflama, a cobiça cega, a impiedade deprava, o orgulho envaidece, a discórdia exaspera, a ira arrasta com precipitação.
17. Contudo, que a infidelidade excessiva e precipitada de muitos não nos abale nem perturbe, mas antes fortaleça a nossa fé na veracidade daquele que predisse o fato. Assim como alguns se tornaram tais, porque essas coisas foram preditas de antemão, assim os demais irmãos se guardem de coisas semelhantes, porque também estas foram preditas de antemão, conforme o Senhor nos instrui, dizendo: “Mas vocês, fiquem atentos: eis que eu lhes predisse todas as coisas” (Mc 13.23). Evitem, eu lhes suplico, irmãos, homens dessa espécie, e afastem do seu lado e dos seus ouvidos, como se fosse contágio de morte, a conversa nociva deles; como está escrito: “Cerque os seus ouvidos com espinhos e não queira ouvir a língua perversa” (Eclo 28). E ainda: “As más companhias corrompem os bons costumes” (1Co 15.33). O Senhor nos ensina e adverte a nos afastarmos de tais pessoas. Diz ele: “São cegos, guias de cegos. Ora, se um cego guiar outro cego, ambos cairão num buraco” (Mt 15.14). Deve ser repelido e evitado, seja quem for, aquele que está separado da Igreja. Tal pessoa está pervertida e peca, e está condenada por si mesma. Pensa ter Cristo quem age contra os sacerdotes de Cristo, quem se separa da companhia do seu clero e do seu povo? Ele empunha armas contra a Igreja, combate contra a ordenação de Deus. Inimigo do altar, rebelde contra o sacrifício de Cristo, infiel quanto à fé, profano quanto à religião, servo desobediente, filho ímpio, irmão hostil, desprezando os bispos e abandonando os sacerdotes de Deus, ousa levantar outro altar, fazer outra oração com palavras não autorizadas, profanar a verdade da oferta do Senhor com falsos sacrifícios, e não12 saber que quem luta contra a ordenação de Deus é castigado pela visitação divina por causa da ousadia da sua temeridade.
18. Assim Coré, Datã e Abirão, que procuraram reivindicar para si o poder de sacrificar em oposição a Moisés e ao sacerdote Arão, sofreram castigo imediato pelas suas tentativas. A terra, rompendo as suas junturas, abriu-se num abismo profundo, e a fenda do solo que se afastava engoliu os homens de pé e vivos. E a ira do Deus indignado não feriu apenas os que tinham sido os promotores (da sedição); mas também a duzentos e cinquenta participantes e cúmplices daquela loucura, que se tinham misturado com eles naquela ousadia, o fogo que saiu do Senhor os consumiu com rápida vingança; sem dúvida para advertir e mostrar que tudo o que aqueles homens perversos tinham tentado, para derrubar pela vontade humana a ordenação de Deus, fora feito contra Deus. Assim também o rei Uzias, quando tomou o incensário e reivindicou para si com violência o direito de sacrificar contra a lei de Deus e, resistindo-lhe o sacerdote Azarias, não quis obedecer e ceder, foi confundido pela indignação divina e manchado na testa pela mancha da lepra: foi marcado pelo Senhor ofendido naquela parte do corpo em que são assinalados os que merecem bem do Senhor. E os filhos de Arão, que puseram fogo estranho sobre o altar, o que o Senhor não tinha ordenado, foram imediatamente aniquilados na presença do Senhor vingador.
19. A esses, sem dúvida, imitam e seguem os que, desprezando a tradição de Deus, buscam doutrinas estranhas e introduzem ensinos de instituição humana; a esses o Senhor repreende e censura no seu evangelho, dizendo: “Vocês rejeitam o mandamento de Deus para guardarem a própria tradição” (Mc 7.9). Esse é um crime pior do que aquele em que os caídos parecem ter incorrido; estes, contudo, apresentando-se como penitentes pelo seu crime, suplicam a Deus com satisfações plenas. Neste caso, a Igreja é buscada e rogada; naquele, a Igreja é combatida. Aqui é possível que tenha havido necessidade; ali a vontade está empenhada na maldade. De um lado, quem caiu prejudicou só a si mesmo; de outro, quem procurou provocar uma heresia ou um cisma enganou a muitos, arrastando-os consigo. No primeiro caso, é a perda de uma só alma; no segundo, o perigo de muitas. Certamente, o primeiro entende que pecou, e lamenta e chora o seu pecado; o outro, inchado no coração e comprazendo-se nos próprios crimes, separa os filhos da sua Mãe, desvia as ovelhas do seu pastor, perturba os sacramentos de Deus; e, enquanto o caído pecou uma só vez, este peca todos os dias. Enfim, o caído que depois alcançou o martírio pode receber as promessas do Reino; ao passo que o outro, se for morto fora da Igreja, não pode alcançar as recompensas da Igreja.
20. Nem se admire alguém, irmãos amados, de que até alguns dos confessores cheguem a esse ponto, e de que, por isso, também alguns outros pequem de modo tão perverso, tão grave. Pois a confissão não torna o homem livre das ciladas do diabo, nem defende o homem que ainda está posto no mundo com segurança perpétua contra as tentações, os perigos, os assaltos e os ataques do mundo; do contrário, nunca veríamos nos confessores as fraudes, as fornicações e os adultérios posteriores que agora, com gemidos e tristeza, presenciamos em alguns. Seja quem for esse confessor, ele não é maior, nem melhor, nem mais querido a Deus do que Salomão, que, enquanto andou nos caminhos de Deus, conservou a graça que tinha recebido do Senhor, mas, depois que abandonou o caminho do Senhor, perdeu também a graça do Senhor.13 E por isso está escrito: “Conserve o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa” (Ap 3.11). Mas certamente o Senhor não ameaçaria com a perda da coroa da justiça, se não fosse que, quando a justiça se vai, também a coroa tem de ir-se.
21. A confissão é o começo da glória, não o mérito pleno da coroa; não aperfeiçoa o nosso louvor, mas inicia a nossa dignidade; e, como está escrito: “Aquele que ficar firme até o fim, esse será salvo” (Mt 10.22), tudo o que houver antes do fim é um degrau pelo qual subimos ao cume da salvação, não um termo em que já se alcançou o resultado pleno da subida. Ele é confessor; mas depois da confissão o seu perigo é maior, porque o adversário fica mais provocado. Ele é confessor; por isso mesmo deve permanecer ainda mais do lado do evangelho do Senhor, pois foi pelo evangelho que alcançou a glória da parte do Senhor. Pois o Senhor diz: “A quem muito é dado, muito lhe será exigido; e a quem mais dignidade é atribuída, dele se requer mais serviço” (Lc 12.48). Ninguém pereça pelo exemplo de um confessor; ninguém aprenda a injustiça, ninguém aprenda a arrogância, ninguém aprenda a deslealdade pelos costumes de um confessor. Ele é confessor: seja humilde e tranquilo; seja modesto e disciplinado no seu procedimento, para que quem é chamado confessor de Cristo imite o Cristo que confessa. Pois, visto que ele diz: “Todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18.14), e visto que ele mesmo foi exaltado pelo Pai, porque, sendo o Verbo, o poder e a sabedoria de Deus Pai, se humilhou na terra, como pode amar a arrogância aquele que, pela sua própria lei, nos ordenou a humildade e recebeu ele mesmo do Pai o nome mais alto como recompensa da sua humildade? Ele é confessor de Cristo, mas só se a majestade e a dignidade de Cristo não forem depois blasfemadas por ele. Que a língua que confessou a Cristo não seja maldizente; não seja turbulenta; não se ouça ressoando com injúrias e contendas; não lance, depois de palavras de louvor, veneno de serpentes contra os irmãos e os sacerdotes de Deus. Mas, se alguém depois se tornar culpável e merecedor de censura; se tiver desperdiçado a sua confissão com um mau procedimento; se tiver manchado a sua vida com torpeza vergonhosa; se, enfim, abandonando a Igreja na qual se tornou confessor e rompendo a concórdia da unidade, tiver trocado a sua primeira fé por uma incredulidade posterior, não se lisonjeie por causa da sua confissão, como se fosse eleito para a recompensa da glória, quando por isso mesmo o castigo que merece se tornou maior.
22. Pois o Senhor escolheu também a Judas entre os apóstolos, e, no entanto, depois Judas traiu o Senhor. Nem por isso faltou a fé e a firmeza dos apóstolos, porque o traidor Judas se apartou da comunhão deles; assim também, no caso em questão, a santidade e a dignidade dos confessores não fica logo diminuída, porque a fé de alguns deles se quebrou. O bem-aventurado apóstolo Paulo, na sua carta, fala desta maneira: “Pois quê, se alguns deles se afastaram da fé? Será que a incredulidade deles anulará a fidelidade de Deus? De modo nenhum! Pois Deus é verdadeiro, ainda que todo ser humano seja mentiroso” (Rm 3.3-4). A maior e melhor parte dos confessores permanece firme na força da sua fé e na verdade da lei e da disciplina do Senhor; nem se afastam da paz da Igreja aqueles que se lembram de ter obtido a graça na Igreja pela condescendência de Deus; e por isso mesmo alcançam um louvor mais alto da sua fé, por se terem separado da infidelidade daqueles que estiveram associados a eles na comunhão da confissão e por se terem afastado do contágio do crime. Iluminados pela verdadeira luz do evangelho, banhados pelo brilho puro e alvo do Senhor, são tão dignos de louvor por manterem a paz de Cristo quanto foram vitoriosos no seu combate contra o diabo.
23. Eu desejo, irmãos amados, e igualmente me esforço e exorto, que, se possível, nenhum dos irmãos pereça, e que a nossa Mãe, cheia de alegria, encerre no seu seio o corpo único de um povo em concórdia. Contudo, se um conselho salutar não conseguir chamar de volta ao caminho da salvação certos líderes de cismas e autores de dissensões, que permanecem numa loucura cega e obstinada, vocês, os demais, se foram apanhados na sua simplicidade, ou induzidos pelo erro, ou enganados por alguma astúcia de uma esperteza enganosa, livrem-se das redes do engano, libertem dos erros os seus passos extraviados, reconheçam o caminho reto da estrada celeste. A palavra do apóstolo que dá testemunho é esta: “Ordenamos a vocês”, diz ele, “em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, que se afastem de todos os irmãos que vivem de forma desordenada e não segundo a tradição que receberam de nós” (2Ts 3.6). E diz ainda: “Não se deixem enganar com palavras vazias, porque a ira de Deus vem sobre os filhos da desobediência por causa dessas coisas. Portanto, não sejam participantes com eles” (Ef 5.6-7). Devemos afastar-nos, ou melhor, fugir dos que caem, para que ninguém, associado aos que andam perversamente e seguindo por caminhos de erro e de pecado, desviando-se ele mesmo da senda do caminho verdadeiro, seja achado em culpa semelhante. Deus é um só, e Cristo é um só, e a sua Igreja é uma só, e a fé é uma só, e o povo14 está unido pelo cimento da concórdia numa sólida unidade de corpo. A unidade não pode ser cortada; nem um só corpo pode ser separado pela divisão da sua estrutura, nem despedaçado, com as entranhas arrancadas pela dilaceração. Tudo o que se separou do ventre materno não pode viver e respirar no seu estado separado, mas perde a substância da saúde.
24. O Espírito Santo nos adverte e diz: “Quem é o homem que deseja a vida e quer ver dias felizes? Refreie a língua do mal e os lábios de falarem palavras enganosas. Afaste-se do mal e pratique o bem; procure a paz e empenhe-se por alcançá-la” (Sl 34.12-14). O filho da paz deve procurar a paz e empenhar-se por alcançá-la. Quem conhece e ama o vínculo da caridade deve refrear a língua do mal da dissensão. Entre os seus mandamentos divinos e os seus ensinos salutares, o Senhor, quando já estava muito perto da sua paixão, acrescentou este, dizendo: “Deixo com vocês a paz, a minha paz lhes dou” (Jo 14.27). Deu-nos isto como herança; prometeu todos os dons e recompensas de que falou mediante a preservação da paz. Se somos coerdeiros com Cristo, permaneçamos na paz de Cristo; se somos filhos de Deus, devemos ser pacificadores. “Bem-aventurados”, diz ele, “os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9). Convém aos filhos de Deus ser pacificadores, mansos de coração, simples no falar, concordes no afeto, fielmente ligados uns aos outros pelos laços da unanimidade.
25. Essa unanimidade prevalecia outrora entre os apóstolos; e assim a nova assembleia dos que criam, guardando os mandamentos do Senhor, mantinha a sua caridade. A divina Escritura o prova quando diz: “Da multidão dos que creram era um o coração e a alma” (At 4.32). E ainda: “Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele” (At 1.14). E assim15 oravam com orações eficazes; assim podiam obter com confiança tudo o que pediam à misericórdia do Senhor.
26. Mas em nós a unanimidade diminuiu na mesma proporção em que decaiu a generosidade nas obras. Naquele tempo, vendiam casas e propriedades e, para ajuntar para si tesouros no céu, apresentavam aos apóstolos o preço delas, para que fosse distribuído para uso dos pobres. Mas agora nem sequer damos os dízimos do nosso patrimônio; e, enquanto o nosso Senhor nos manda vender, nós antes compramos e aumentamos as nossas posses. Assim definhou entre nós o vigor da fé; assim se enfraqueceu a força dos que creem. E por isso o Senhor, olhando para os nossos dias, diz no seu evangelho: “Quando o Filho do Homem vier, será que ainda encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18.8). Vemos que se cumpriu o que ele predisse. Não há fé no temor de Deus, na lei da justiça, no amor, no trabalho; ninguém considera o temor das coisas futuras, e ninguém leva a sério o dia do Senhor, a ira de Deus, os castigos que virão sobre os incrédulos e os tormentos eternos decretados para os infiéis. Aquilo que a nossa consciência temeria se cresse, não o teme porque não crê de modo nenhum. Mas, se cresse, também se acautelaria; e, se se acautelasse, escaparia.
27. Despertemos, irmãos amados, quanto pudermos; e, rompendo o sono da nossa antiga indolência, vigiemos para observar e cumprir os preceitos do Senhor. Sejamos tais como ele mesmo nos mandou ser, dizendo: “Estejam cingidos os seus lombos e acesas as suas lâmpadas;16 e sejam vocês semelhantes a homens que esperam o seu senhor, quando ele voltar das bodas, para que, quando vier e bater, logo lhe abram. Bem-aventurados aqueles servos a quem o senhor, quando vier, encontrar vigilantes” (Lc 12.35-37). Devemos estar cingidos, para que, quando chegar o dia da partida, não nos encontre sobrecarregados e embaraçados. Que a nossa luz brilhe em boas obras e resplandeça de tal modo que nos conduza da noite deste mundo à claridade do esplendor eterno. Esperemos sempre, com solicitude e cautela, a vinda repentina do Senhor, para que, quando ele bater, a nossa fé esteja vigilante e receba do Senhor a recompensa da nossa vigilância. Se esses mandamentos forem observados, se essas advertências e preceitos forem guardados, não poderemos ser surpreendidos no sono pelo engano do diabo, mas reinaremos com Cristo no seu Reino como servos que vigiam.
1. Descrevendo em poucas palavras a ambição e a dissimulação de Novaciano ao invadir o episcopado de Roma, ele argumenta longamente que, de um lado, a passagem de Mateus 18 em nada lhes vale para compensar o seu pequeno número diante da Igreja: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome” etc.; e, de outro, que o martírio de nada lhes poderia aproveitar fora da Igreja. Depois lhes diz que não precisam se admirar de que as heresias florescessem, pois tinham sido preditas por Cristo; nem de que certos confessores romanos tivessem aderido ao cisma, porque ninguém é bem-aventurado antes da morte, e o traidor Judas se achava no próprio grupo dos apóstolos. Ainda assim, ordena-lhes que evitem a companhia dos cismáticos e hereges e, por fim, os exorta pelas Escrituras à paz e à unanimidade.
2. A coisa que rasteja e se insinua furtivamente.
3. Ou: “vivo”.
4. Aqui se lê, por interpolação: “Sobre ele, sendo um só, edifica a sua Igreja e lhe confia as suas ovelhas para apascentar.”
5. Aqui se lê, por interpolação: “E o primado é dado a Pedro, para que se mostre uma só Igreja de Cristo e uma só cátedra; e todos são pastores, e o rebanho é um só, o qual é apascentado por todos os apóstolos em unânime acordo.” Esta passagem, assim como a que vem poucas linhas antes, é sem dúvida nenhuma espúria.
6. Aqui se lê, por interpolação: “Quem abandona a cátedra de Pedro, sobre quem a Igreja está fundada.” Também esta passagem é sem dúvida espúria.
7. A leitura acima desta passagem parece irremediavelmente obscura; e não parece melhorar muito com a substituição de Christum por “ipsam”, a menos que se omita “potius”, como em algumas edições; nesse caso, deveríamos ler: “os quais deveriam vesti-la”.
8. “Hospitium”.
9. Segundo algumas leituras, “a Cristo” ou “às recompensas de Cristo”.
10. Deformationem religionis.
11. Alguns acrescentam: “homens de sentimentos corrompidos, reprovados quanto à fé”.
12. Segundo alguns, “não se digna” ou “desdenha saber”.
13. Alguns leem: “Como está escrito: E o Senhor levantou um adversário (Satanás) contra Salomão; e por isso, no Apocalipse, o Senhor adverte solenemente a João.”
14. “é um só”.
15. Alguns interpolam “porque”.
16. Alguns leem: “nas mãos de vocês”.
Tradução para o português a partir das versões inglesas da coleção Ante-Nicene Fathers (Buffalo, 1885): Clemente de Alexandria por William Wilson (vol. 2), Tertuliano por S. Thelwall (vol. 3) e Cipriano por Ernest Wallis (vol. 5), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta, pela antiga versão latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.