Escritos do Século III · Tertuliano

A Paciência

A paciência que vem de Deus e se vê em Cristo, contra a impaciência que vem do diabo, nas perdas, nas ofensas, no luto e no corpo.

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Capítulo I. A paciência em geral; e a indignidade do próprio Tertuliano para tratar dela

Confesso plenamente ao Senhor Deus que foi bastante temerário, se não até atrevido, de minha parte ousar compor um tratado sobre a Paciência, para cuja prática sou de todo inapto, por ser homem sem bondade alguma;1 pois seria conveniente que os que se dedicam a demonstrar e recomendar alguma coisa fossem eles próprios os primeiros a se destacar na prática dela, e regulassem a constância de suas exortações pela autoridade de sua conduta pessoal, para que suas palavras não corassem diante da falta de obras. E quem dera esse “corar” trouxesse remédio, de modo que a vergonha de não praticar aquilo que vamos sugerir aos outros se tornasse uma escola para praticá-lo; só que a grandeza de certos bens, assim como também a de certos males, é insuportável, de maneira que somente a graça da inspiração divina é eficaz para alcançá-los e praticá-los. Pois o que é sumamente bom está sobretudo em Deus; e ninguém o distribui senão Aquele que o possui, conforme julga conveniente a cada um. Assim, discorrer sobre aquilo que não nos é dado desfrutar será como um consolo, à maneira dos enfermos, que, por estarem privados da saúde, não sabem calar-se sobre os seus benefícios. Do mesmo modo eu, miserabilíssimo, sempre doente com as febres da impaciência, devo por necessidade suspirar por essa saúde da paciência que não possuo, invocá-la e pleitear por ela com insistência, enquanto trago à memória e, na contemplação da minha própria fraqueza, digiro esta verdade: a boa saúde da fé e a integridade da disciplina do Senhor não se acrescentam facilmente a ninguém, a menos que a paciência se assente ao seu lado. A paciência está de tal modo posta à frente das coisas de Deus que ninguém pode obedecer a preceito algum, nem cumprir obra alguma agradável ao Senhor, se estiver alheio a ela. Até os que vivem fora dela2 honram o seu bem com o nome de virtude suprema. Os filósofos, de fato, que são tidos por animais de considerável sabedoria, atribuem-lhe lugar tão elevado que, embora estejam em mútua discórdia pelas diversas fantasias de suas seitas e pelas rivalidades de suas opiniões, ainda assim, tendo em comum a estima unicamente pela paciência, concordaram em fazer as pazes neste único de seus interesses: por ela conspiram; por ela se aliam; a ela, em sua afetação de3 virtude, perseguem unânimes; a respeito da paciência exibem toda a ostentação de sua sabedoria. Grande testemunho é este em favor dela, que incita até as escolas vãs do mundo4 ao louvor e à glória! Ou será antes uma injúria, que uma coisa divina seja agitada entre as ciências mundanas? Mas cuidem disso aqueles que em breve se envergonharão de sua sabedoria, destruída e desonrada juntamente com o mundo5 (em que vive).

Capítulo II. O próprio Deus, exemplo de paciência

A nós6 não é alguma afetação humana de equanimidade canina,7 moldada8 pela insensibilidade, que dá o fundamento para exercer a paciência; mas sim a disposição divina de uma disciplina viva e celeste, que nos apresenta, em primeiríssimo lugar, o próprio Deus como exemplo de paciência. Ele espalha igualmente sobre justos e injustos a flor desta luz; permite que os bons serviços das estações, os préstimos dos elementos, os tributos da natureza inteira cheguem ao mesmo tempo a dignos e indignos; suporta as nações mais ingratas, que adoram os brinquedos das artes e as obras de suas próprias mãos e perseguem o seu Nome juntamente com a sua família; suporta a luxúria, a avareza, a iniquidade, a malignidade, que crescem em insolência a cada dia;9 de modo que, por sua própria paciência, Ele se diminui a si mesmo; pois a causa de muitos não crerem no Senhor é que passam tanto tempo sem saber10 que Ele está irado com o mundo.11

Capítulo III. Jesus Cristo, em sua encarnação e em sua obra, exemplo mais imitável dela

E essa espécie de paciência divina, por estar como que à distância, talvez possa ser considerada entre as “coisas elevadas demais para nós”;12 mas o que dizer daquela que, de certo modo, foi apalpada com as mãos (1Jo 1.1) entre os homens, abertamente, sobre a terra? Deus permite ser concebido no ventre de uma mãe e espera o tempo do nascimento; e, nascido, suporta a demora de crescer; e, crescido, não tem pressa de ser reconhecido, mas ainda se humilha a si mesmo e é batizado por seu próprio servo; e repele apenas com palavras os ataques do tentador; enquanto, de “Senhor”, se faz “Mestre”, ensinando o homem a escapar da morte, tendo sido exercitado na prática da tolerância absoluta da paciência ofendida.13 Não contendeu; não gritou; nem ninguém ouviu a sua voz nas ruas. Não quebrou a cana esmagada; o pavio que fumegava Ele não apagou (Is 42.2-3; Mt 12.19-20); pois o profeta, ou melhor, o testemunho do próprio Deus, que pôs o seu Espírito, juntamente com a paciência em sua inteireza, no seu Filho, não havia falado falsamente. Não houve ninguém desejoso de se unir a Ele que Ele não recebesse. Não desprezou a mesa nem o teto de ninguém; antes, Ele mesmo serviu na lavagem dos pés dos discípulos; não repeliu pecadores nem publicanos; nem com aquela cidade que se recusara a recebê-lo Ele se irou (Lc 9.51-56), quando até os discípulos queriam que fogos celestes fossem imediatamente lançados sobre uma cidade tão insolente. Cuidou dos ingratos; cedeu aos que lhe armavam ciladas. Isso seria pouco, se não tivesse tido em sua companhia até mesmo o seu traidor e se abstido firmemente de apontá-lo. Além disso, enquanto é traído, enquanto é levado “como ovelha para o sacrifício” (pois “assim Ele não abre a boca, tanto quanto um cordeiro sob o poder do tosquiador”) (Is 53.7), Ele, a quem, se o quisesse, legiões de anjos se teriam apresentado dos céus a uma só palavra, não aprovou a espada vingadora nem de um só discípulo. A paciência do Senhor foi ferida (na ferida) de Malco. E assim Ele também amaldiçoou para o tempo futuro as obras da espada; e, restituindo a saúde, deu satisfação àquele a quem Ele mesmo não ferira, por meio da Paciência, mãe da Misericórdia. Passo em silêncio (o fato de) que Ele é crucificado, pois esse era o fim para o qual viera; mas a morte que tinha de ser sofrida precisava também de afrontas?14 Sim, porque, estando para partir, Ele quis saciar-se do prazer da paciência. É cuspido, açoitado, escarnecido, vestido de modo vil, coroado de modo ainda mais vil. Admirável é a fé da equanimidade! Aquele que se propusera ocultar-se em forma humana nada imitou da impaciência humana! Por isso, mais do que por qualquer outro traço, vocês, fariseus, deviam ter reconhecido o Senhor. Paciência como esta nenhum homem alcançaria. Provas tais e tão poderosas, cuja própria grandeza se mostra entre as nações motivo para rejeitar a fé, mas entre nós a sua razão e o seu alicerce, demonstram com bastante clareza (não só pelos sermões do Senhor, ao ordenar, mas também por seus sofrimentos, ao suportar), àqueles a quem é dado crer, que a paciência é a natureza de Deus, como efeito e excelência de uma propriedade que lhe é inerente.

Capítulo IV. O dever de imitar o nosso Senhor ensinado pelos escravos, e até pelos animais. A imitação obediente se funda na paciência

Portanto, se vemos todos os servos de probidade e de bom sentimento moldarem a sua conduta conforme a disposição de seu senhor; se, isto é, a arte de merecer favor é a obediência,15 e a regra da obediência é uma sujeição dócil: quanto mais nos convém ser achados com um caráter conforme ao nosso Senhor, servos que somos do Deus vivo, cujo juízo sobre os seus servos não versa sobre um grilhão ou um barrete de liberdade, mas sobre uma eternidade de pena ou de salvação! Para fugir daquela severidade ou para buscar esta liberalidade, é necessária uma diligência na obediência16 tão grande quanto as próprias ameaças que a severidade profere ou as promessas que a liberalidade faz generosamente.17 E, no entanto, exigimos obediência18 não só dos homens, que têm o laço da escravidão sob o queixo19 ou de qualquer outra forma legal são devedores de obediência,20 mas até do gado,21 até dos animais irracionais,22 entendendo que eles foram providos e entregues pelo Senhor para o nosso uso. Serão então as criaturas que Deus nos sujeita melhores do que nós na disciplina da obediência?23 Afinal, (as criaturas) que obedecem reconhecem os seus donos. E nós hesitamos em ouvir com diligência Aquele a quem somente estamos sujeitos, isto é, o Senhor? Mas quão injusto é, e quão ingrato também, não retribuir de sua parte, àquele por meio de quem você o obtém, o mesmo que, pela condescendência do seu próximo, você obtém dos outros! Nem são necessárias mais palavras sobre a demonstração da obediência24 que devemos ao Senhor Deus; pois o reconhecimento25 de Deus entende o que lhe cabe. Para que, porém, não pareça que inserimos considerações sobre a obediência26 como algo fora de propósito, (lembremos) que a própria obediência27 nasce da paciência. Jamais o impaciente a presta, nem o paciente deixa de encontrar prazer28 nela. Quem, então, poderia tratar com (suficiente) amplitude do bem daquela paciência que o Senhor Deus, Aquele que demonstra e aceita todas as coisas boas, levou consigo em sua própria pessoa?29 A quem, por outro lado, seria duvidoso que todo bem, por pertencer30 a Deus, deve ser buscado com empenho e de todo o coração pelos que pertencem a Deus? Por meio dessas (considerações), tanto o elogio quanto a exortação31 a respeito da paciência ficam estabelecidos brevemente e como que no resumo de uma regra prescritiva.

Capítulo V. Assim como Deus é o autor da paciência, o diabo o é da impaciência

Contudo, o andamento32 de uma discussão sobre as coisas necessárias da fé não é ocioso, porque não é infrutífero. Na edificação nenhuma loquacidade é vergonhosa, se é que alguma vez o é.33 Assim, se o discurso trata de algum bem particular, o assunto exige que examinemos também o contrário desse bem. Pois você lançará mais luz sobre aquilo que se deve buscar se primeiro fizer um resumo daquilo que se deve evitar.

Consideremos, portanto, a respeito da Impaciência, se, assim como a paciência em Deus, a sua qualidade contrária nasceu e foi descoberta em nosso adversário, para que dessa consideração se veja quão fundamentalmente contrária ela é à fé. Pois aquilo que foi concebido pelo rival de Deus não é, evidentemente, amigo das coisas de Deus. A discórdia das coisas é a mesma que a discórdia de seus autores. Além disso, sendo Deus o melhor dos seres, e o diabo, ao contrário, o pior, pela sua própria diversidade testemunham que nenhum deles age em favor34 do outro; de modo que não pode parecer que algum bem seja feito para nós pelo Maligno, assim como nenhum mal pelo Bom. Por isso descubro o nascimento da impaciência no próprio diabo, naquele mesmo tempo em que ele suportou com impaciência que o Senhor Deus sujeitasse todas as obras que fizera à sua própria imagem, isto é, ao homem (Sl 8.4-6). Pois, se ele tivesse suportado (isso), não se teria afligido; e não teria invejado o homem se não se tivesse afligido. Por isso o enganou, porque o invejara; mas invejara porque se afligira; e se afligira porque, evidentemente, não suportara com paciência. O que aquele anjo de perdição35 foi primeiro, se malicioso ou impaciente, desdenho investigar, pois é manifesto que ou a impaciência surgiu juntamente com a malícia, ou a malícia nasceu da impaciência; que depois elas conspiraram entre si; e que cresceram inseparáveis num só seio paterno. Mas, tendo sido instruído por sua própria experiência sobre quão grande auxílio para pecar era aquilo que ele fora o primeiro a sentir, e por meio do qual entrara em sua carreira de delito, chamou-o em seu socorro para empurrar o homem ao crime. A mulher,36 logo que foi abordada por ele (posso dizê-lo sem temeridade), foi, pela própria conversa dele com ela, bafejada por um espírito infectado de impaciência; tão certo é que ela jamais teria pecado se tivesse honrado o decreto divino, mantendo a sua paciência até o fim. E o que dizer (do fato) de que ela não suportou ter sido abordada sozinha, mas, na presença de Adão, que ainda não era seu marido, ainda não obrigado a lhe dar ouvidos (1Co 7.3; cf. 1Pe 3.7), fica impaciente por guardar silêncio e faz dele o transmissor daquilo que ela bebera do Maligno? Assim, também outro ser humano perece pela impaciência de um só; e logo perece também por si mesmo, pela sua própria impaciência, cometida sob ambos os aspectos, tanto em relação à advertência de Deus como em relação ao embuste do diabo, não suportando observar aquela nem refutar este. Daí, de onde veio a origem do delito, surgiu a primeira origem do juízo; daí, de onde o homem foi induzido a ofender, Deus começou a irar-se. De onde (veio) a primeira indignação em Deus, daí (veio) a sua primeira paciência; pois, contentando-se naquele momento apenas com a maldição, absteve-se, no caso do diabo, da imposição imediata37 do castigo. De outro modo, que crime, antes dessa culpa de impaciência, se imputa ao homem? Inocente ele era, e em íntima amizade com Deus, e lavrador38 do paraíso. Mas, assim que sucumbiu à impaciência, deixou por completo de ter bom sabor39 para Deus; deixou por completo de ser capaz de suportar as coisas celestes. Daí em diante, criatura40 entregue à terra e expulsa da presença de Deus, ele começa a ser facilmente desviado pela impaciência para todo uso ofensivo a Deus. Pois imediatamente aquela impaciência, concebida da semente do diabo, produziu, na fecundidade da malícia, a ira como seu filho; e, depois de dá-lo à luz, instruiu-o em suas próprias artes. Pois aquilo mesmo que mergulhara Adão e Eva na morte ensinou também o filho deles a começar pelo homicídio. Seria inútil eu atribuir isso à impaciência se Caim, aquele primeiro homicida e primeiro fratricida, tivesse suportado com equanimidade, e não com impaciência, a recusa de suas oferendas pelo Senhor; se não se irasse contra o próprio irmão; se, enfim, não tirasse a vida de ninguém. Visto, então, que não poderia ter matado se não se tivesse irado, nem se ter irado se não tivesse sido impaciente, ele demonstra que o que fez por ira deve ser atribuído àquilo pelo qual a ira foi sugerida, durante esse tempo de berço da impaciência, então (em certo sentido) em sua infância. Mas quão grandes foram logo depois os seus crescimentos! E não é de admirar. Se ela foi a primeira a delinquir, segue-se que, por ter sido a primeira, ela é também a única matriz41 de todo delito, derramando de sua própria fonte veios variados de crimes.42 Do homicídio já falamos; mas, sendo desde o princípio fruto da ira,43 quaisquer outras causas que logo encontrou para si ele as lança, em conjunto, na conta da impaciência, como à sua própria origem. Pois, quer por inimizades particulares, quer por causa de despojo, alguém cometa essa maldade,44 o passo anterior é tornar-se impaciente45 do ódio ou da avareza. Seja o que for que impele o homem, não é possível que, sem impaciência, isso se consume em ato. Quem jamais cometeu adultério sem impaciência da concupiscência? Além disso, se nas mulheres a venda do pudor é forçada pelo preço, é evidentemente pela impaciência de desprezar o lucro46 que essa venda se regula.47 Estes (menciono) como os principais delitos aos olhos do Senhor;48 pois, para falar em resumo, todo pecado se deve atribuir à impaciência. O “mal” é a “impaciência do bem”. Nenhum impudico deixa de ser impaciente com o pudor; nenhum desonesto com a honestidade; nenhum ímpio com a piedade;49 nenhum inquieto com a quietude. Para que cada um se torne mau, será incapaz de perseverar50 em ser bom. Como, então, uma tal hidra de delitos deixaria de ofender o Senhor, que reprova os males? Não é manifesto que foi pela impaciência que o próprio Israel sempre faltou ao seu dever para com Deus, desde o tempo em que,51 esquecido do braço celeste pelo qual fora tirado da aflição do Egito, exige de Arão “deuses que fossem seus guias” (Êx 32.1; At 7.39-40), quando derrama para um ídolo as contribuições do seu ouro? Pois suportara com impaciência as tão necessárias demoras de Moisés, enquanto este se encontrava com Deus. Depois da chuva comestível do maná, depois da água que os seguia, saída52 da rocha, eles desesperam do Senhor, não suportando uma sede de três dias;53 pois também isso lhes é imputado pelo Senhor como impaciência. E, para não percorrer casos individuais, não houve ocasião em que não tenham perecido por faltar ao dever por impaciência. Como, além disso, puseram as mãos sobre os profetas, senão por impaciência de ouvi-los? E sobre o próprio Senhor, senão também por impaciência de vê-lo? Mas, se tivessem entrado no caminho da paciência, teriam sido libertados.54

Capítulo VI. A paciência, anterior e posterior à fé

Assim, é a paciência que vem tanto depois como antes da fé. Em suma, Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado por justiça (Gn 15.6; Rm 4.3, 9, 22; Gl 3.6; Tg 2.23); mas foi a paciência que provou a sua fé, quando lhe foi ordenado imolar o filho, em vista (não diria da tentação, mas) do testemunho figurado da sua fé. Mas Deus conhecia aquele a quem creditara a justiça.55 Um preceito tão pesado, cuja execução completa nem sequer agradava ao Senhor, ele o ouviu com paciência e (se Deus o quisesse) o teria cumprido. Com razão, pois, foi “bendito”, porque era “fiel”; com razão “fiel”, porque “paciente”. Assim a fé, iluminada pela paciência, quando estava sendo propagada entre as nações por meio da “descendência de Abraão, que é Cristo” (Gl 3.16), e sobrepunha a graça à lei (Jo 1.17; Rm 6.14-15), fez da paciência a sua principal auxiliar para ampliar e cumprir a lei, porque só ela faltara à doutrina da justiça. Pois os homens de outrora costumavam exigir “olho por olho, dente por dente” (Mt 5.38) e retribuir com usura “mal por mal”; porque ainda não havia paciência na terra, já que tampouco havia fé. Naturalmente, nesse meio-tempo, a impaciência desfrutava das oportunidades que a lei lhe dava. Isso era fácil enquanto o Senhor e Mestre da paciência estava ausente. Mas, depois que Ele sobreveio e uniu56 a graça da fé à paciência, já não é lícito agredir nem mesmo com palavras, nem sequer chamar alguém de “tolo”57 sem “estar sujeito a julgamento”. A ira foi proibida, os nossos ânimos refreados, a petulância da mão contida, o veneno da língua (Sl 140.3; Rm 3.13; Tg 3.8) extraído. A lei ganhou mais do que perdeu, quando Cristo diz: “Amem os seus inimigos pessoais, abençoem os que os amaldiçoam e orem pelos que os perseguem, para que sejam filhos do seu Pai celestial” (Mt 5.44-45). Você vê quem a paciência nos ganha como Pai? Neste preceito principal está resumida de forma sucinta toda a disciplina da paciência, já que nem mesmo quando é merecido se concede o fazer o mal.

Capítulo VII. As causas da impaciência e os preceitos correspondentes

Agora, porém, enquanto percorremos as causas da impaciência, também todos os demais preceitos responderão em seus devidos lugares. Se o nosso ânimo se agita pela perda de bens, ele é exortado pelas Escrituras do Senhor, em quase todo lugar, ao desprezo do mundo;58 e não há exortação mais poderosa ao desprezo do dinheiro posta59 (diante de nós) do que (o fato de) o próprio Senhor não ser encontrado no meio de riqueza alguma. Ele sempre justifica os pobres e condena de antemão os ricos. Assim Ele preparou de antemão para a paciência a “perda”, e para a opulência o “desprezo” (como sua parte),60 demonstrando, por meio de seu (próprio) repúdio às riquezas, que também os danos feitos a elas não devem ser muito considerados. Daquilo, portanto, que não temos a menor necessidade de buscar, porque o Senhor também não o buscou, devemos suportar sem desgosto o corte ou a retirada. A “cobiça”, o Espírito do Senhor declarou pelo apóstolo “uma raiz de todos os males” (1Tm 6.10).61 Não interpretemos essa cobiça como consistindo apenas no desejo do que é alheio; pois até o que parece nosso é alheio, já que nada é nosso, uma vez que todas as coisas são de Deus, de quem também nós mesmos somos. E assim, se, ao sofrer uma perda, nos sentimos impacientes, lamentando o que se perdeu daquilo que não é nosso, seremos descobertos como vizinhos da cobiça: buscamos o que é alheio quando suportamos mal perder o que é alheio. Quem se agita muito pela impaciência diante de uma perda, ao dar às coisas terrenas a precedência sobre as celestes, peca diretamente62 contra Deus; pois perturba gravemente, por causa de um assunto mundano, o Espírito que recebeu do Senhor. De boa vontade, portanto, percamos as coisas terrenas, guardemos as celestes. Pereça o mundo inteiro,63 contanto que eu faça da paciência o meu lucro! Na verdade, não sei se quem não se decidiu a suportar com constância a perda de algo seu, seja por furto, seja por violência, seja até por descuido, poria ele mesmo, pronta ou cordialmente, a mão em seus próprios bens por causa da esmola; pois quem, não suportando de modo algum ser cortado por outro, desembainha ele mesmo a espada contra o próprio corpo? A paciência nas perdas é um exercício do dar e do repartir. Quem não teme perder não acha penoso dar. Do contrário, como alguém que tem duas túnicas dará uma delas ao que está nu (Lc 3.11), se não for também homem capaz de oferecer a quem lhe tira a túnica também a capa (Mt 5.40; Lc 6.29)? Como faremos para nós amigos com Mamom (Lc 16.9), se o amamos tanto que não suportamos a sua perda? Pereceremos junto com o Mamom perdido. Por que achamos aqui, onde o nosso negócio é perder?64 Mostrar impaciência diante de todas as perdas é coisa dos gentios, que talvez deem ao dinheiro precedência sobre a própria alma; pois assim fazem quando, na sua cobiça de lucro, enfrentam os perigos lucrativos do comércio no mar; quando, por dinheiro, até no foro não há nada, mesmo o que a própria condenação temeria, que hesitem em tentar; quando se alugam para os jogos e para o acampamento militar; quando, à maneira de feras, praticam o banditismo ao longo das estradas. Mas a nós, segundo a diferença que nos distingue deles, convém entregar não a alma pelo dinheiro, mas o dinheiro pela alma, seja espontaneamente ao dar, seja pacientemente ao perder.

Capítulo VIII. A paciência diante da violência pessoal e da maldição

Nós, que levamos a nossa própria alma e o nosso próprio corpo expostos neste mundo65 à injúria de todos, e mostramos paciência diante dessa injúria, haveremos de nos ferir com a perda66 de coisas menos importantes?67 Longe de um servo de Cristo tal mancha, que a paciência preparada para tentações maiores o abandone nas frívolas. Se alguém tentar provocá-lo com violência física, a advertência do Senhor está à mão: “A quem”, diz Ele, “lhe bater no rosto, ofereça também a outra face” (Mt 5.39). Que a insolência68 se canse diante da sua paciência. Seja qual for esse golpe, unido69 à dor e à afronta, ele70 receberá do Senhor um golpe mais pesado. Você fere mais aquele insolente71 suportando; pois ele será golpeado por Aquele por cuja causa você suporta. Se a amargura da língua irromper em maldição ou injúria, olhe para trás, para o dito: “Quando os amaldiçoarem, alegrem-se” (Mt 5.11-12; Lc 6.22-23). O próprio Senhor foi “maldito” aos olhos da lei,72 e, no entanto, só Ele é o Bendito. Sigamos, pois, nós, servos, de perto o nosso Senhor, e sejamos amaldiçoados com paciência, para que possamos ser abençoados. Se ouço com pouca equanimidade alguma palavra petulante ou perversa dita contra mim, necessariamente ou eu mesmo revido a amargura, ou serei atormentado por uma impaciência muda. Quando, então, ao ser amaldiçoado, eu golpeio (com a língua), como serei achado fiel à doutrina do Senhor, na qual foi ensinado que “o homem é contaminado,73 não pelas impurezas dos vasos, mas pelas coisas que saem da sua boca”? Também se diz que “a acusação74 nos espera por toda palavra vã e supérflua” (Mt 12.36).75 Segue-se que, daquilo de que o Senhor nos guarda, Ele nos adverte a suportar com paciência da parte de outro. Acrescentarei (algo) sobre o prazer da paciência. Pois toda injúria, seja infligida pela língua ou pela mão, quando encontra a paciência, será despachada76 com a mesma sorte de uma arma lançada contra uma rocha de dureza firmíssima e nela embotada. Pois cairá inteiramente ali mesmo, com trabalho vão e infrutífero; e às vezes ricocheteará e descarregará a sua fúria sobre quem a lançou, com ímpeto devolvido. Sem dúvida, a razão pela qual alguém o fere é para que você sofra; porque o prazer de quem fere consiste na dor de quem é ferido. Quando, então, você frustra o prazer dele não sofrendo, ele necessariamente sofrerá com a perda do seu prazer. Então você não só sai ileso, o que por si só já lhe basta, mas, além disso, satisfeito com a decepção do seu adversário e vingado pela dor dele. Esta é a utilidade e o prazer da paciência.

Capítulo IX. A paciência no luto

Nem mesmo aquela espécie de impaciência diante da perda dos nossos entes queridos se desculpa, quando alguma alegação de direito ao pesar se faz sua advogada. Pois deve ser posta diante de nós a consideração da declaração do apóstolo, que diz: “Não se deixem abater pela tristeza por causa do adormecimento de alguém, como as nações que não têm esperança” (1Ts 4.13).77 E com justiça; pois, crendo na ressurreição de Cristo, cremos também na nossa, por causa de quem Ele morreu e ressuscitou. Visto, então, que há certeza quanto à ressurreição dos mortos, o pesar pela morte é desnecessário, e a impaciência do pesar é desnecessária. Pois por que você se lamentaria, se crê que (o seu ente querido) não pereceu? Por que suportaria com impaciência a retirada temporária daquele que você crê que voltará? Aquilo que você pensa ser morte é partida. Quem vai adiante de nós não deve ser lamentado, embora certamente deva ser objeto de saudade.78 Também essa saudade deve ser temperada com paciência. Pois por que suportaria sem moderação o fato de ter partido alguém a quem em breve você seguirá? Além disso, a impaciência em assuntos dessa natureza é mau presságio para a nossa esperança e é um modo de lidar sem sinceridade com a fé. E ferimos a Cristo quando não aceitamos com equanimidade que Ele chame alguém para fora deste mundo, como se fossem dignos de pena. “Desejo”, diz o apóstolo, “ser recebido já e estar com Cristo” (Fp 1.23).79 Quanto melhor desejo ele mostra! Se, então, lamentamos com impaciência os que alcançaram o desejo dos cristãos, mostramos que nós mesmos não queremos alcançá-lo.

Capítulo X. A vingança

Há ainda outro estímulo principal da impaciência, o desejo de vingança, que trata do interesse da glória ou então da malícia. Mas a “glória”, por um lado, é em toda parte “vã” (Gl 5.26; Fp 2.3); e a malícia, por outro, é sempre80 odiosa ao Senhor, e neste caso mais do que nunca, quando, provocada pela malícia do próximo, se constitui superior81 ao levar adiante a vingança e, pagando a maldade, duplica aquilo que uma vez foi feito. A vingança, no juízo do erro,82 parece um consolo da dor; no juízo da verdade, ao contrário, é condenada como malignidade. Pois que diferença há entre o que provoca e o provocado, senão que aquele é descoberto como o primeiro a fazer o mal, e este como o segundo? No entanto, ambos estão acusados de ferir um homem aos olhos do Senhor, que proíbe e condena toda maldade. No fazer o mal não se leva em conta a ordem, nem a posição separa o que a semelhança une. E o preceito é absoluto: não se deve pagar o mal com o mal (Rm 12.17). Ato igual implica mérito igual. Como observaremos esse princípio, se em nossa aversão83 não tivermos aversão à vingança? Que honra, além disso, prestaremos ao Senhor Deus se arrogarmos a nós mesmos o arbítrio da vingança? Somos corruptos (Is 64.6), vasos de barro (Is 64.8; 2Co 4.7). Com os nossos próprios servos,84 se eles tomam para si o direito de vingar-se de seus companheiros de serviço, ficamos gravemente ofendidos; ao passo que aos que nos oferecem a sua paciência não só aprovamos como lembrados da humildade e da servidão, zelosos com afeto pelo direito da honra de seu senhor, mas lhes damos uma satisfação mais ampla do que eles teriam exigido de antemão85 para si mesmos. Há algum risco de um resultado diferente no caso de um Senhor tão justo em avaliar, tão poderoso em executar? Por que, então, o cremos Juiz, se não também Vingador? É isso que Ele promete ser para nós em retribuição, dizendo: “A mim pertence a vingança; eu é que retribuirei” (Dt 32.35; Sl 94.1; Rm 12.19; Hb 10.30); isto é: Deixem a paciência comigo, e eu recompensarei a paciência. Pois, quando Ele diz: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados” (Mt 7.1; Lc 6.37), não está exigindo paciência? Pois quem se absterá de julgar o outro, senão aquele que for paciente em não se vingar? Quem julga para perdoar? E, se perdoar, ainda assim terá tido o cuidado de satisfazer a impaciência de quem julga e terá tirado a honra do único Juiz, que é Deus. Em quantos infortúnios costumava cair uma impaciência desse tipo! Quantas vezes se arrependeu da sua vingança! Quantas vezes a sua veemência se mostrou pior do que as causas que a provocaram! Pois nada empreendido com impaciência pode realizar-se sem ímpeto; e nada feito com ímpeto deixa de tropeçar, ou de cair de todo, ou de se precipitar de cabeça. Além disso, se você se vingar de menos, ficará louco; se de mais, terá de carregar o peso.86 Que tenho eu a ver com a vingança, cuja medida, pela impaciência da dor, não sou capaz de regular? Ao passo que, se eu repousar na paciência, não sentirei dor; se não sentir dor, não desejarei vingar-me.

Capítulo XI. Outras razões para praticar a paciência. A sua ligação com as bem-aventuranças

Depois dessas principais causas materiais da impaciência, registradas da melhor maneira possível, por que haveríamos de nos desviar do caminho por entre as demais, as que se acham em casa, as que se acham fora? Ampla e difusa é a ação do Maligno, que lança múltiplas irritações ao nosso ânimo, ora insignificantes, ora muito grandes. Mas as insignificantes você pode desprezar pela sua própria pequenez; às muito grandes você pode ceder em razão de sua força esmagadora. Onde a injúria é menor, não há necessidade de impaciência; mas, onde a injúria é maior, ali é mais necessário o remédio para a injúria: a paciência. Esforcemo-nos, portanto, por suportar os golpes do Maligno, para que o zelo contrário da nossa equanimidade escarneça do zelo do inimigo. Se, porém, nós mesmos, por imprudência ou por vontade própria, atrairmos sobre nós alguma coisa, enfrentemos com igual paciência aquilo de que temos de culpar a nós mesmos. Além disso, se cremos que alguns golpes nos são enviados pelo Senhor, a quem deveríamos mostrar mais paciência do que ao Senhor? Mais ainda, Ele nos ensina87 a dar graças e a alegrar-nos, por cima de tudo, por sermos considerados dignos da correção divina. “A quem amo”, diz Ele, “eu castigo” (Pv 3.11-12; Hb 12.5-6; Ap 3.19). Ó servo bem-aventurado, em cuja emenda o Senhor se empenha! Com quem Ele se digna irar-se! A quem não engana dissimulando as suas repreensões! Por toda parte, pois, estamos obrigados ao dever de exercitar a paciência, seja de onde for que, por nossos próprios erros ou pelas ciladas do Maligno, incorramos nas repreensões do Senhor. Grande é a recompensa desse dever, a saber, a bem-aventurança. Pois a quem, senão aos pacientes, o Senhor chamou bem-aventurados, ao dizer: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5.3)? Ninguém, certamente, é “pobre em espírito” se não for humilde. Ora, quem é humilde, se não for paciente? Pois ninguém pode humilhar-se sem paciência para, em primeiro lugar, suportar o próprio ato de humilhação. “Bem-aventurados”, diz Ele, “os que choram e os que se lamentam” (Mt 5.4). Quem, sem paciência, tolera tais infelicidades? E por isso a esses são prometidos “consolo” e “riso”. “Bem-aventurados os mansos” (Mt 5.5): sob esse termo, certamente, os impacientes não podem de modo algum ser classificados. Do mesmo modo, quando Ele marca “os pacificadores” (Mt 5.9) com o mesmo título de felicidade e os chama “filhos de Deus”, será que os impacientes têm alguma afinidade com a “paz”? Até um tolo percebe isso. Quando, porém, Ele diz: “Alegrem-se e exultem, todas as vezes que os amaldiçoarem e perseguirem; porque muito grande é a recompensa de vocês no céu” (Mt 5.11-12),88 evidentemente não é à impaciência da exultação89 que Ele faz essa promessa; porque ninguém “exultará” nas adversidades se primeiro não tiver aprendido a desprezá-las; ninguém as desprezará se não tiver aprendido a praticar a paciência.

Capítulo XII. Outros preceitos divinos. A descrição apostólica da caridade. A sua ligação com a paciência

Quanto à regra da paz, que90 tanto agrada a Deus, quem, no mundo propenso à impaciência,91 perdoará a seu irmão ao menos uma vez, não direi “sete vezes”, ou92 “setenta e sete vezes” (Mt 18.21-22)?93 Quem, tendo em vista uma demanda contra o seu adversário, resolverá a questão por acordo (Mt 5.25), se antes não começar cortando o desgosto, a dureza de coração e a amargura, que são na verdade os brotos venenosos da impaciência? Como você “perdoará, e lhe será concedido perdão” (Lc 6.37), se a falta de paciência o torna apegado a uma ofensa? Ninguém que esteja em desavença com o irmão em seu íntimo terminará de oferecer a sua “oferta devida no altar” se antes, com a intenção de “reconciliar-se com o seu irmão”, não voltar à paciência (Mt 5.23-24). Se “o sol se puser sobre a nossa ira”, estamos em perigo (Ef 4.26);94 não nos é permitido ficar um só dia sem paciência. Mas, visto que a Paciência está à frente de95 toda espécie de disciplina salutar, que admira que ela sirva também ao Arrependimento (acostumado como é o Arrependimento a socorrer os que caíram), quando, numa separação conjugal (por aquela causa, quero dizer, que torna lícito, seja ao marido, seja à mulher, perseverar na observância perpétua da viuvez),96 ela97 espera, anseia e persuade com as suas súplicas o arrependimento em todos os que um dia hão de entrar na salvação? Que grande bênção ela confere a cada um! A um ela impede de se tornar adúltero; ao outro ela corrige. Assim também ela se encontra naqueles santos exemplos sobre a paciência nas parábolas do Senhor. A paciência do pastor busca e encontra a ovelha extraviada (Lc 15.3-6); pois a Impaciência facilmente desprezaria uma só ovelha, mas a Paciência assume o trabalho da busca, e o paciente carregador leva para casa sobre os ombros a pecadora abandonada.98 Também aquele filho pródigo a paciência do pai recebe, veste, alimenta e desculpa diante da impaciência do irmão irado (Lc 15.11-32). Assim, aquele que “estava perdido” é salvo, porque entrou no caminho do arrependimento. O Arrependimento não perece, porque encontra a Paciência (para acolhê-lo). Pois por quais ensinamentos, senão pelos da Paciência, é formada a Caridade,99 o mais alto sacramento da fé, o tesouro do nome cristão, que o apóstolo recomenda com toda a força do Espírito Santo? “A Caridade”, diz ele, “é longânime”; assim ela aplica a paciência; “é benfazeja”; a Paciência não faz mal algum; “não é invejosa”; esta é certamente uma marca própria da paciência; “não age com violência”;100 ela tirou da paciência o seu domínio próprio; “não se ensoberbece; não é violenta”;101 pois isso não pertence à paciência; “nem busca o que é seu”, se oferece o que é seu, contanto que possa beneficiar o próximo; “nem se irrita” (1Co 13.4-5); se se irritasse, o que teria deixado para a Impaciência? Por isso ele diz: “A Caridade suporta todas as coisas; tolera todas as coisas” (1Co 13.7); evidentemente porque é paciente. Com razão, pois, “jamais falhará”;102 pois todas as outras coisas serão anuladas, terão o seu fim. “As línguas, as ciências, as profecias se esgotam; a fé, a esperança, a caridade permanecem” (1Co 13.8, 13): a Fé, que a paciência de Cristo introduziu; a esperança, que a paciência do homem aguarda; a caridade, que a Paciência acompanha, tendo Deus por Mestre.

Capítulo XIII. A paciência corporal

Até aqui, enfim, sobre a paciência simples e uniforme, tal como existe somente na mente; embora também no corpo, sob muitas formas, eu me esforce por ela, a fim de “ganhar o Senhor” (Fp 3.8), visto que é uma qualidade que o próprio Senhor manifestou também na virtude corporal; se é verdade que a mente que governa comunica facilmente os dons103 do Espírito à sua habitação corporal. Qual é, então, a tarefa da Paciência no corpo? Em primeiro lugar, é a aflição104 da carne, vítima105 capaz de aplacar o Senhor por meio do sacrifício da humilhação, ao oferecer ao Senhor como libação vestes sórdidas,106 juntamente com a escassez de alimento, contente com uma dieta simples e com a bebida pura da água, ao juntar a tudo isso os jejuns, ao acostumar-se ao pano de saco e à cinza. Esta paciência corporal acrescenta graça às nossas orações pelo bem e força às nossas orações contra o mal; ela abre os ouvidos de Cristo, nosso Deus,107 dissipa a severidade, atrai a clemência. Assim aquele rei babilônio (Dn 4.33-37),108 depois de ter sido exilado da forma humana em seus sete anos de imundície e abandono, por ter ofendido o Senhor, pela imolação corporal da paciência não só recuperou o seu reino, mas, o que é mais desejável para um homem, deu satisfação a Deus. Além disso, se dispusermos em ordem os graus mais altos e mais felizes da paciência corporal, (veremos que) é a ela que a santidade confia o cuidado da continência da carne: ela guarda a viúva (1Tm 5.3, 9-10; 1Co 7.39-40), põe o selo sobre a virgem (1Co 7.34-35) e eleva ao reino dos céus aquele que se fez eunuco por si mesmo (Mt 19.12). Aquilo que nasce de uma virtude da mente se aperfeiçoa na carne; e, por fim, pela paciência da carne, combate na perseguição. Se a fuga aperta, a carne luta contra109 o incômodo da fuga; se a prisão nos surpreende,110 a carne (estava) em cadeias, a carne no grilhão, a carne na solidão,111 e naquela falta de luz, e naquela paciência diante dos maus-tratos do mundo. Quando, porém, é conduzida à prova final da bem-aventurança,112 à ocasião do segundo batismo (Lc 12.50), ao ato de subir ao trono divino, nenhuma paciência é ali mais necessária do que a paciência corporal. Se “o espírito está pronto, mas a carne”, sem paciência, “é fraca” (Mt 26.41), onde, senão na paciência, está a segurança do espírito e da própria carne? Mas, quando o Senhor diz isso a respeito da carne, declarando-a “fraca”, mostra quanta necessidade há de fortalecê-la, isto é, pela paciência, para enfrentar113 toda preparação destinada a subverter ou a punir a fé; para que ela suporte com toda a constância açoites, fogo, cruz, feras, espada; tudo isso que profetas e apóstolos venceram suportando!

Capítulo XIV. O poder dessa dupla paciência, a espiritual e a corporal, exemplificado nos santos de outrora

Com essa força da paciência, Isaías é serrado ao meio e não cessa de falar a respeito do Senhor; Estêvão é apedrejado e ora pedindo perdão para os seus inimigos (At 7.59-60). Oh, feliz também aquele que enfrentou toda a violência do diabo com o esforço de toda espécie de paciência!114 A ele nem o roubo do seu gado, nem aquelas suas riquezas em ovelhas, nem a perda de seus filhos num só golpe de ruína, nem, por fim, a agonia do seu próprio corpo numa (só e total) ferida o afastaram da paciência e da fé que empenhara ao Senhor; a ele o diabo feriu com toda a sua força, em vão. Pois, com todas as suas dores, ele não foi arrancado da reverência para com Deus; mas foi posto como exemplo e testemunho para nós, para o pleno cumprimento da paciência tanto no espírito como na carne, tanto na mente como no corpo; para que não sucumbamos nem aos danos dos nossos bens mundanos, nem à perda dos que nos são mais queridos, nem mesmo às aflições corporais. Que féretro115 para o diabo Deus levantou na pessoa daquele herói! Que estandarte ergueu sobre o inimigo da sua glória, quando, a cada notícia amarga, aquele homem nada pronunciou pela boca senão ações de graças a Deus, enquanto repreendia a sua mulher, já de todo cansada dos males e que o instigava a recorrer a remédios tortuosos! Como Deus sorriu (Sl 2.4), como o maligno foi despedaçado,116 enquanto Jó, com grande equanimidade, raspava (Jó 2.8) o fluxo imundo da sua úlcera, enquanto, como em brincadeira, devolvia os vermes que dali saíam às mesmas cavernas e pastagens de sua carne esburacada! E assim, quando todos os dardos das tentações se embotaram contra a couraça e o escudo de sua paciência, aquele instrumento117 da vitória de Deus não só recuperou logo de Deus a saúde do corpo, mas possuiu em dobro o que havia perdido. E, se quisesse ter também os filhos restituídos, poderia de novo ter sido chamado pai; mas preferiu que lhe fossem restituídos “naquele dia”.118 Tal alegria, tão inteiramente seguro a respeito do Senhor, ele a adiou; nesse meio-tempo, suportou uma privação voluntária, para não viver sem algum (exercício de) paciência.

Capítulo XV. Resumo geral das virtudes e dos efeitos da paciência

Tão plenamente suficiente Depositário da paciência é Deus. Se é uma ofensa que você deposita aos seus cuidados, Ele é Vingador; se uma perda, é Restaurador; se uma dor, é Médico; se a morte, é Aquele que devolve a vida. Que honra é concedida à Paciência, ter Deus como seu Devedor! E não sem razão: pois ela guarda todos os seus decretos; ela tem que ver com todos os seus mandamentos. Ela fortalece a fé; é a piloto da paz; ajuda a caridade; firma a humildade; espera longamente o arrependimento; põe o seu selo na confissão; governa a carne; preserva o espírito; refreia a língua; contém a mão; pisa as tentações; afasta os escândalos; dá a coroa de graça aos martírios; consola o pobre; ensina moderação ao rico; não sobrecarrega o fraco; não esgota o forte; é a alegria do crente; atrai o gentio; recomenda o servo ao seu senhor, e o senhor a Deus; adorna a mulher; torna o homem aprovado; é amada na infância, louvada na juventude, respeitada na velhice; é bela em ambos os sexos, em todas as idades da vida. Vejamos agora se119 temos uma ideia geral do seu semblante e do seu porte. O seu rosto é tranquilo e pacífico; a sua fronte, serena,120 não contraída por ruga alguma de tristeza ou de ira; as sobrancelhas, igualmente relaxadas de modo alegre, com os olhos baixos em humildade, não em infelicidade; a boca, selada com o honroso sinal do silêncio; a cor, como a dos que estão sem preocupação e sem culpa; o movimento da cabeça, frequente contra o diabo, e o seu riso, ameaçador;121 as suas vestes, além disso, em torno do peito, brancas e bem ajustadas ao corpo, como que nem infladas nem desarrumadas. Pois a Paciência se assenta no trono daquele Espírito calmíssimo e mansíssimo, que não se encontra no turbilhão do redemoinho, nem na cor de chumbo da nuvem, mas é de suave serenidade, aberto e simples, aquele que Elias viu na sua terceira tentativa.122 Pois onde está Deus, ali está também a sua filha adotiva, a saber, a Paciência. Quando o Espírito de Deus desce, a Paciência o acompanha inseparavelmente. Se não lhe dermos entrada juntamente com o Espírito, permanecerá (Ele) sempre conosco? Antes, não sei se permaneceria por mais tempo. Sem a sua companheira e serva, Ele necessariamente se sentiria apertado em todo lugar e em todo tempo. Qualquer golpe que o seu inimigo lhe desferisse, Ele não poderia suportá-lo sozinho, estando privado do instrumento para suportar.

Capítulo XVI. A paciência dos pagãos, muito diferente da paciência cristã. A deles, destinada à perdição; a nossa, destinada à salvação

Esta é a regra, esta a disciplina, estas as obras da paciência celeste e verdadeira, isto é, da paciência cristã, não falsa e vergonhosa, como é aquela paciência das nações da terra. Pois, para que também nisto o diabo rivalizasse com o Senhor, ele, como que em pé de igualdade (exceto que a própria diferença entre o mal e o bem é exatamente igual à sua grandeza),123 ensinou também aos seus discípulos uma paciência própria dele; aquela, quero dizer, que, tornando os maridos venais por causa do dote e ensinando-os a negociar com a alcovitice, os sujeita ao poder de suas mulheres; que, com afeto fingido, se submete a todo trabalho de condescendência forçada,124 com o fim de enredar os que não têm filhos;125 que faz os escravos do ventre126 se submeterem a um patronato afrontoso, sujeitando a sua liberdade à sua garganta. Tais práticas de paciência os gentios conhecem; e se apoderam avidamente de um nome de tão grande bondade para aplicá-lo a práticas torpes: vivem pacientes com os rivais, com os ricos e com os que os convidam; impacientes somente com Deus. Mas que a paciência deles e a do seu chefe cuidem de si mesmas, paciência que o fogo subterrâneo espera! Nós, ao contrário, amemos a paciência de Deus, a paciência de Cristo; paguemos a Ele a paciência que Ele pagou por nós! Ofereçamos a Ele a paciência do espírito, a paciência da carne, nós que cremos na ressurreição da carne e do espírito.

Notas

1. “Nullius boni”; compare-se Rm 7.18.

2. Isto é, os que são estranhos a ela.

3. Ou: “esforço por”.

4. Ou: “do paganismo”; sæculi.

5. Sæculo.

6. Isto é, a nós, cristãos.

7. Isto é, cínica; kynikos significa “canino”. Mas Tertuliano parece usar “caninæ” de propósito, e por isso conservei a palavra em vez de substituí-la (como faz o sr. Dodgson) por “cínica”.

8. Isto é, a afetação é moldada pela insensibilidade.

9. Veja-se o Sl 74.23 na versão inglesa autorizada. Na Septuaginta é o Sl 73.

10. Porque não veem prova visível disso.

11. Sæculo.

12. Assim o sr. Dodgson; e La Cerda, citado por Oehler. Veja-se o Sl 131.1, que na Septuaginta é o Sl 130.

13. Segui a leitura de Oehler nesta passagem muito difícil e muito discutida. Para a expressão “tendo sido exercitado” etc., compare-se Hb 5.8.

14. Ou: “mas havia necessidade também de afrontas para sofrer a morte?”

15. “Obsequium”, que Döderlein distingue de “obedientia” como algo mais voluntário e espontâneo, fundado menos na autoridade do que no respeito e no amor.

16. Obsequii.

17. “Pollicetur”, e não “promittit”.

18. Obedientiam.

19. “Subnixis.” Talvez seja este o sentido, como em Virgílio, Eneida, IV, 217. Mas Oehler registra “subnexis” como conjectura de José Escalígero, muito plausível, que significaria quase o mesmo. O sr. Dodgson traduz “sustentados por sua escravidão”; e Oehler toma “subnixis” por “præditis”, “instructis”.

20. Obsequii.

21. “Pecudibus”, isto é, o gado doméstico, manso.

22. “Bestiis”, criaturas irracionais, em oposição a “homines”; aqui, ao que parece, os animais selvagens.

23. Obsequii. Quanto ao pensamento, compare-se Is 1.3.

24. Obsequii.

25. Veja-se acima: “as criaturas… reconhecem os seus donos”.

26. Obsequio.

27. Obsequio.

28. “Oblectatur” é a leitura de Oehler, com os manuscritos. Os editores, como ele diz, emendaram para “Obluctatur”, que é a leitura do sr. Dodgson.

29. Veja-se o capítulo anterior.

30. Veja-se o capítulo anterior.

31. Veja-se o capítulo I.

32. “Procedere”: assim lê Oehler, que, no entanto, registra uma engenhosa conjectura de José Escalígero, “procudere”, o martelar ou forjar.

33. Tertuliano talvez queira insinuar: na oração. Veja-se Mt 6.7.

34. Facere. Mas Fúlvio Ursino (como nos informa Oehler) sugeriu uma elegante emenda: “favere”, favorecer.

35. Compare-se a expressão em A Idolatria, 4, “perdição de sangue”, isto é, “perdição sangrenta”. Assim, aqui “anjo de perdição” pode significar “anjo perdido”.

36. Mulier. Veja-se A Oração, 22.

37. Impetu.

38. Colonus. Gn 2.15.

39. Sapere. Veja-se A Idolatria, 1, perto do fim.

40. Homo.

41. Matrix. O sr. Dodgson traduz “ventre”, o que é admissível; mas as outras passagens citadas por Oehler, em que Tertuliano usa essa palavra, parecem combinar melhor com a tradução dada no texto.

42. Compare-se uma expressão semelhante em A Idolatria, 2, no início.

43. A qual, como Tertuliano acaba de mostrar, é resultado da impaciência.

44. Isto é, o homicídio.

45. Isto é, incapaz de se conter.

46. Isto é, falta de força ou de paciência para desprezar o lucro.

47. “Ordinatur”; mas se conjecturou, com muita plausibilidade, “orditur”.

48. O sr. Dodgson remete ao tratado À Esposa, I, 5, perto do fim.

49. Ou: “nenhum desobediente com o dever filial”.

50. Isto é, impaciente.

51. Afastei-me aqui ligeiramente da pontuação de Oehler.

52. Isto é, a água que os seguia depois de ter jorrado da rocha ferida. Veja-se 1Co 10.4.

53. Veja-se Nm 20.1-6. Mas Tertuliano parece ter confundido esta passagem com Êx 15.22, que parece ser o único lugar onde se menciona “uma sede de três dias”.

54. Libertados, isto é, da escravidão da impaciência e do pecado.

55. Isto é, a prova era necessária não para mostrar a sua fé a Deus, que conhece todos os que considera justos, mas para nós, em “figura”.

56. Composuit.

57. Veja-se Mt 5.22; e Wordsworth sobre a passagem, que julga provável que o sentido seja “apóstata”.

58. Sæculo.

59. Subjacet.

60. Este parece ser o sentido desta passagem dificílima, tal como Oehler a lê, e da interpretação de Francisco Júnio, que Oehler aprova.

61. Veja-se A Idolatria, 11, no início.

62. De proximo. Veja-se acima, cap. V: Deo de proximo amicus, “amigo íntimo de Deus”.

63. Sæculum.

64. “Alusão às palavras de Cristo em Mt 10.39” (Rigault, citado por Oehler).

65. Sæculo.

66. Delibatione.

67. Isto é, o dinheiro e coisas semelhantes. Compare-se Mt 6.25; Lc 12.23.

68. Improbitas.

69. Constrictus. Traduzi segundo Oehler; mas não poderia o sentido ser “cerrado”, como a mão que desfere o golpe?

70. Como diz Oehler, diz-se que “o golpe” “recebe” aquilo que, a rigor, recebe quem o desfere.

71. Improbum.

72. Dt 21.23; Gl 3.13. As citações de Tertuliano aqui são um tanto livres. Ele traduz por uma mesma palavra latina termos que são distintos no grego.

73. Communicari, em grego koinousthai. Veja-se Mc 7.15: “tornado comum”, isto é, profano, impuro. Compare-se At 10.14-15 no grego.

74. Reatum. Veja-se A Idolatria, 1, no início: “a mais alta acusação do século”.

75. Tertuliano traduziu argon por “vani et supervacui”.

76. Dispungetur: palavra que, na voz ativa, significa tecnicamente “fechar contas”, e daí “dar quitação” etc.

77. Traduzido não muito rigorosamente.

78. Desiderandus.

79. De novo, traduzido livremente: por exemplo, analysai, “levantar âncora”, é traduzido por Tertuliano “recipi”.

80. Nunquam non.

81. Isto é, talvez, superior em grau de malícia.

82. Isto é, do mundo e de suas filosofias errôneas.

83. Fastidientes, isto é, a nossa aversão ou repulsa ao pecado. Talvez a referência seja a Rm 12.9.

84. Servulis.

85. Præsumpsissent.

86. Isto é, a pena que a lei infligirá.

87. Docet. Mas fez-se a conjectura plausível “decet”, “convém-nos”.

88. Citado sem exatidão.

89. Exultationis impatientiæ.

90. Isto é, a paz.

91. Impatientiæ natus: literalmente, “nascido para a impaciência”. Compare-se O Arrependimento, 12, no fim: “nec ulli rei nisi pænitentiæ natus”.

92. Oehler lê “sed”, mas o “vel” adotado no texto é uma conjectura de Latínio, que Oehler menciona.

93. Septuagies septies. Compare-se A Oração, 7, no fim.

94. Compare-se A Oração, 11.

95. Gubernet.

96. Discute-se qual seja essa causa. As opiniões se dividem sobre se Tertuliano quer dizer o “casamento com um pagão” (que, como lembra o sr. Dodgson, Tertuliano, em À Esposa, II, 3, chama de “adultério”) ou o caso em que nosso Senhor permitiu o divórcio. Veja-se Mt 19.9.

97. Isto é, a paciência.

98. Peccatricem, isto é, a ovelha.

99. Dilectio, em grego agape. Veja-se Trench, Sinônimos do Novo Testamento, verbete agape; e, para o restante deste capítulo, compare-se atentamente, no grego, 1Co 13.

100. Protervum, em grego perpereuetai.

101. Proterit, em grego aschemonei.

102. Excidet.

103. “Invecta”, geralmente “bens móveis”, a mobília da casa.

104. Ou: mortificação, “adflictatio”.

105. Isto é, a mortificação da carne é uma “vítima” etc.

106. Ou: “de luto”. Compare-se O Arrependimento, 9.

107. Christi dei.

108. Compare-se O Arrependimento, 12.

109. Ad. Parece significar que a carne recebe da paciência força para enfrentar as durezas da fuga. Compare-se o pros plesmonen tes sarkos de São Paulo em Cl 2.23.

110. Præveniat: “nos previne”, isto é, nos alcança antes que tenhamos tempo de fugir.

111. Solo.

112. Isto é, o martírio.

113. “Adversus”, como o “ad” do trecho sobre a fuga, pouco acima.

114. Jó. Veja-se Jó 1 e 2.

115. “Feretrum”, usado para carregar os troféus num triunfo, os corpos dos mortos e as suas efígies etc.

116. Isto é, de raiva e de decepção.

117. Operarius.

118. Veja-se 2Tm 4.8. Não há autoridade na Escritura para esta afirmação de Tertuliano.

119. Si. É a leitura de Oehler, que toma “si” por “an”. Mas talvez seja melhor “sis” (isto é, “si vis”), correção de Francisco Júnio: “Vamos agora, se você quiser, fazer um esboço geral do seu semblante e do seu porte.”

120. Pura; talvez “lisa”.

121. Compare-se, quanto a este traço singular, Is 37.22.

122. Isto é, como explica Rigault (citado por Oehler), depois das duas visões dos anjos que lhe apareceram e disseram: “Levante-se e coma”. Veja-se 1Rs 19.4-13.

123. Uma é finita; a outra, infinita.

124. Obsequii.

125. E assim obtendo um lugar em seus testamentos.

126. Isto é, os “comensais” profissionais, que vivem de jantar à mesa alheia. Compare-se Fp 3.19.

Tradução para o português a partir das versões inglesas da coleção Ante-Nicene Fathers (Buffalo, 1885): Clemente de Alexandria por William Wilson (vol. 2), Tertuliano por S. Thelwall (vol. 3) e Cipriano por Ernest Wallis (vol. 5), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta, pela antiga versão latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.