Escritos do Século III · Tertuliano

A Oração

O Pai-nosso explicado frase por frase, seguido de conselhos sobre a maneira, o lugar e o tempo de orar, e sobre o poder da oração.

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Capítulo I. Introdução geral

O Espírito de Deus, a Palavra de Deus e a Razão de Deus (Palavra da Razão, e Razão e Espírito da Palavra), isto é, Jesus Cristo, nosso Senhor, que é tanto uma coisa como a outra,1 determinou para nós, discípulos do Novo Testamento, uma nova forma de oração; pois também neste ponto era necessário que o vinho novo fosse guardado em odres novos e que um pano novo fosse costurado em veste nova (Mt 9.16-17; Mc 2.21-22; Lc 5.36-37). Além disso, tudo o que existia nos dias passados ou foi inteiramente mudado, como a circuncisão; ou foi completado, como o restante da Lei; ou foi cumprido, como a profecia; ou foi aperfeiçoado, como a própria fé. Pois a nova graça de Deus renovou todas as coisas, do carnal ao espiritual, trazendo o Evangelho, que apagou todo o antigo sistema já passado; nele, nosso Senhor Jesus Cristo foi reconhecido como o Espírito de Deus, a Palavra de Deus e a Razão de Deus: o Espírito, pelo qual era poderoso; a Palavra, pela qual ensinava; a Razão, pela qual veio.2 Assim, a oração composta por Cristo foi composta de três partes. Na palavra,3 pela qual a oração é enunciada, e no espírito, o único pelo qual ela prevalece, também João havia ensinado seus discípulos a orar;4 mas tudo o que João fez foi lançado como alicerce para Cristo, até que, quando “ele cresceu” (assim como o mesmo João costumava anunciar de antemão “que era necessário” que “ele crescesse e ele mesmo diminuísse”) (Jo 3.30), toda a obra do precursor passou, junto com o próprio espírito dele, para o Senhor. Por isso não se conservou com que forma de palavras João ensinou a orar, porque as coisas terrenas deram lugar às celestiais. “Quem vem da terra”, diz João, “fala das coisas da terra; e quem está aqui vindo dos céus fala daquilo que viu” (Jo 3.31-32). E o que há do Senhor Cristo (como é este modo de orar) que não seja celestial? Portanto, irmãos abençoados, consideremos a sua sabedoria celestial. Primeiro, quanto ao preceito de orar em secreto, pelo qual ele exigiu a fé do homem, para que tivesse confiança de que a vista e o ouvido do Deus Todo-Poderoso estão presentes debaixo dos telhados e alcançam até o lugar secreto; e exigiu modéstia na fé, para que ela oferecesse sua homenagem religiosa somente àquele que ela crê que vê e ouve em toda parte. Além disso, como a sabedoria continuou no preceito seguinte, que ele também diga respeito à fé e à modéstia da fé: que não pensemos que se deve chegar ao Senhor com um cortejo de palavras, ele que, temos certeza, já provê por si mesmo, sem que se lhe peça. E, no entanto, essa mesma brevidade (e seja este o terceiro grau da sabedoria) se apoia na substância de uma grande e bendita interpretação, e é tão ampla no sentido quanto é concisa nas palavras. Pois abrange não só os deveres próprios da oração, seja a adoração de Deus, seja a petição do homem, mas quase todo o discurso do Senhor, todo o registro da sua Disciplina; de modo que, de fato, na Oração está contido um resumo de todo o Evangelho.

Capítulo II. A primeira petição

A oração começa com um testemunho a Deus e com a recompensa da fé, quando dizemos: “Pai nosso, que estás nos céus”; pois, ao dizer isso, ao mesmo tempo oramos a Deus e damos valor à fé, cuja recompensa é esse título. Está escrito: “Aos que creram nele, deu o poder de serem chamados filhos de Deus” (Jo 1.12). Aliás, nosso Senhor muitas vezes nos proclamou Deus como Pai; mais ainda, deu até o preceito “de que a ninguém na terra chamemos pai, senão ao Pai que temos nos céus” (Mt 23.9); e assim, orando dessa maneira, obedecemos também ao preceito. Felizes os que reconhecem o seu Pai! Esta é a censura feita a Israel, para a qual o Espírito toma por testemunhas o céu e a terra, dizendo: “Gerei filhos, e eles não me reconheceram” (Is 1.2). Além disso, ao dizer “Pai”, também o chamamos “Deus”. Esse título é ao mesmo tempo de afeto filial e de poder. Também no Pai é invocado o Filho; “pois eu”, diz ele, “e o Pai somos um” (Jo 10.30). Nem sequer a nossa mãe, a Igreja, é deixada de lado, se é verdade que no Pai e no Filho se reconhece a mãe, da qual se originam tanto o nome de Pai como o de Filho. Num só termo geral, portanto, ou numa só palavra, honramos a Deus juntamente com os seus,5 lembramos o preceito e marcamos os que se esqueceram do seu Pai.

Capítulo III. A segunda petição

O nome de “Deus Pai” não havia sido revelado a ninguém. Até Moisés, que lhe perguntara exatamente sobre isso, ouvira outro nome (Êx 3.13-16). A nós foi revelado no Filho, pois o Filho é agora o novo nome do Pai. “Eu vim”, diz ele, “em nome do Pai” (Jo 5.43); e também: “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.28); e mais abertamente: “Manifestei o teu nome aos homens” (Jo 17.6). Por isso pedimos que esse nome “seja santificado”. Não que convenha aos homens desejar o bem a Deus, como se houvesse algum outro6 por quem ele pudesse receber bons votos, ou como se ele fosse sofrer caso não lhe desejássemos isso. Evidentemente, convém de modo universal que Deus seja bendito (Sl 103.22) em todo lugar e tempo, por causa da lembrança dos seus benefícios, sempre devida por todo ser humano. Mas esta petição serve também como bênção. De outro modo, quando é que o nome de Deus não é “santo” e “santificado” por si mesmo, já que é ele próprio quem santifica todos os demais, ele a quem aquele círculo de anjos ao redor não cessa de dizer: “Santo, santo, santo”? (Is 6.3; Ap 4.8) Do mesmo modo, portanto, também nós, candidatos à condição de anjos, se conseguirmos merecê-la, começamos já aqui na terra a aprender de cor aquele cântico que um dia será erguido a Deus e o ofício da glória futura. Isso quanto à glória de Deus. Por outro lado, quanto à nossa própria petição, quando dizemos “Santificado seja o teu nome”, pedimos isto: que ele seja santificado em nós, que estamos nele, e também em todos os outros por quem a graça de Deus ainda espera (Is 30.18); para obedecermos também a este preceito, de “orar por todos” (1Tm 2.1), até pelos nossos inimigos pessoais (Mt 5.44). E por isso, com a frase em suspenso, sem dizer “seja santificado em nós”, dizemos: “em todos”.

Capítulo IV. A terceira petição

Segundo esse modelo,7 acrescentamos: “Seja feita a tua vontade nos céus e na terra”;8 não que exista algum poder que resista para impedir que a vontade de Deus se faça, e nós peçamos em favor dele o bom êxito da sua vontade; mas pedimos que a sua vontade se faça em todos. Pois, por interpretação figurada de carne e espírito, nós somos o “céu” e a “terra”; ainda que, mesmo entendida em sentido simples, o sentido da petição continua o mesmo: que em nós a vontade de Deus se faça na terra, para que seja possível, isto é, que se faça também nos céus. Além disso, o que Deus quer, senão que andemos segundo a sua Disciplina? Pedimos, então, que ele nos dê a substância da sua vontade e a capacidade de cumpri-la, para que sejamos salvos tanto nos céus como na terra; porque a suma da sua vontade é a salvação daqueles que ele adotou. Há também aquela vontade de Deus que o Senhor cumpriu pregando, agindo, suportando; pois, se ele mesmo proclamou que não fazia a sua própria vontade, mas a do Pai, sem dúvida as coisas que fazia eram a vontade do Pai (Jo 6.38); e a essas coisas, como a modelos, somos agora estimulados:9 a pregar, a agir, a suportar até a morte. E precisamos da vontade de Deus para podermos cumprir esses deveres. Também, ao dizer “Seja feita a tua vontade”, estamos até desejando o bem a nós mesmos, visto que na vontade de Deus não há nada de mau, ainda que, conforme o merecimento de cada um, algo diferente nos seja imposto. Assim, com essa expressão, prevenimos a nós mesmos para a paciência. Também o Senhor, quando quis nos mostrar, em sua própria carne, a fraqueza da carne pela realidade do sofrimento, disse: “Pai, afasta este teu cálice”; e, lembrando-se de si mesmo, acrescentou: “contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita” (Lc 22.42). Ele mesmo era a Vontade e o Poder do Pai; e, no entanto, para demonstrar a paciência que era devida, entregou-se à Vontade do Pai.

Capítulo V. A quarta petição

“Venha o teu Reino” também se refere àquilo a que se refere “Seja feita a tua vontade”, isto é, a nós. Pois quando é que Deus não reina, ele em cuja mão está o coração de todos os reis? (Pv 21.1) Mas tudo o que desejamos para nós, auguramos para ele, e a ele atribuímos o que dele esperamos. Assim, se a manifestação do Reino do Senhor diz respeito à vontade de Deus e à nossa ansiosa expectativa, como é que alguns pedem certo prolongamento do século,10 quando o Reino de Deus, cuja chegada pedimos, tende para a consumação do século?11 Nosso desejo é que o nosso reinado se apresse, e não que a nossa servidão se prolongue. Ainda que não estivesse prescrito na Oração que pedíssemos a vinda do Reino, nós, sem que ninguém nos mandasse, teríamos lançado esse clamor, apressando-nos para a realização da nossa esperança. As almas dos mártires debaixo do altar12 clamam com zelo ao Senhor: “Até quando, Senhor, não vingas o nosso sangue sobre os habitantes da terra?” (Ap 6.10); pois, naturalmente, a vingança deles se regula pelo13 fim do século. Sim, Senhor, venha o teu Reino com toda a pressa, ele que é a oração dos cristãos, a confusão dos pagãos, a exultação dos anjos, por causa do qual sofremos, ou melhor, por causa do qual oramos!

Capítulo VI. A quinta petição

Mas com quanta graça a Sabedoria divina dispôs a ordem da oração, de modo que, depois das coisas celestiais, isto é, depois do “Nome” de Deus, da “Vontade” de Deus e do “Reino” de Deus, desse lugar também às necessidades terrenas para uma petição! Pois o Senhor já havia14 promulgado também o seu edito: “Busquem primeiro o Reino, e então até estas coisas serão acrescentadas” (Mt 6.33); se bem que podemos antes entender espiritualmente “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”. Pois Cristo é o nosso Pão, porque Cristo é a Vida, e o pão é vida. “Eu sou”, diz ele, “o pão da vida” (Jo 6.35); e, um pouco antes: “O Pão é a Palavra do Deus vivo, que desceu dos céus” (Jo 6.33). Depois encontramos também que o seu corpo é tido por pão: “Isto é o meu corpo” (Mt 26.26). Assim, ao pedir o “pão de cada dia”, pedimos a permanência perpétua em Cristo e a inseparabilidade do seu corpo. Mas, como essa palavra admite também sentido carnal, não pode ser usada assim sem a lembrança religiosa também da Disciplina espiritual; pois o Senhor manda que se peça o pão, que é o único alimento necessário aos fiéis; porque “todas as outras coisas, os gentios é que as procuram” (Mt 6.32). Essa mesma lição ele tanto inculca por exemplos como trata repetidas vezes em parábolas, quando diz: “Será que um pai tira o pão dos filhos e o entrega aos cães?”15 e também: “Será que um pai dá uma pedra ao filho quando este lhe pede pão?” (Mt 7.9) Pois assim mostra o que os filhos esperam do pai. Mais ainda: até aquele que batia à porta de noite batia por causa de “pão” (Lc 11.5-9). Além disso, com razão acrescentou “nos dá hoje”, visto que antes dissera: “Não se preocupem com o dia de amanhã, com o que vão comer”.16 A esse assunto ele adaptou também a parábola do homem que pensava em ampliar seus celeiros para os frutos que viriam e em longas temporadas de segurança; mas naquela mesma noite ele morre (Lc 12.16-20).

Capítulo VII. A sexta petição

Era conveniente que, depois de contemplar a liberalidade de Deus,17 nos dirigíssemos também à sua clemência. Pois de que nos servirão os alimentos,18 se de fato estivermos entregues a eles como um touro destinado ao sacrifício?19 O Senhor sabia que só ele era sem culpa, e por isso ensina que peçamos “que nos sejam perdoadas as nossas dívidas”. O pedido de perdão é uma confissão completa, porque quem pede perdão admite plenamente a sua culpa. Assim também se mostra que o arrependimento é aceitável a Deus, que o deseja mais do que a morte do pecador (Ez 18.23, 32; 33.11). Além disso, a dívida é, nas Escrituras, figura da culpa, porque igualmente é devida à sentença do juízo e é cobrada por ela; e não escapa à justiça da cobrança, a não ser que a cobrança seja perdoada, assim como o senhor perdoou a dívida àquele servo da parábola (Mt 18.23-35); pois é para aí que tende o alcance de toda a parábola. Pois também o fato de que o mesmo servo, depois de libertado pelo seu senhor, não poupa igualmente o seu próprio devedor e, sendo por isso acusado diante do seu senhor, é entregue ao carrasco para pagar até o último centavo, isto é, toda culpa, por pequena que seja, corresponde à nossa declaração de que “nós também perdoamos aos nossos devedores”. Aliás, em outro lugar também, em conformidade com esta Forma de Oração, ele diz: “Perdoem e serão perdoados” (Lc 6.37). E, quando Pedro perguntou se o perdão deveria ser concedido a um irmão sete vezes, “Não”, diz ele, “mas setenta e sete vezes” (Mt 18.21-22), para remodelar a Lei para melhor; porque no Gênesis se atribuiu vingança “sete vezes” no caso de Caim, mas no de Lameque, “setenta e sete vezes” (Gn 4.15, 24).

Capítulo VIII. A sétima e última petição

Para completar uma oração tão breve, ele acrescentou, para que suplicássemos não apenas o perdão, mas o completo afastamento das culpas: “Não nos conduzas à tentação”, isto é, não permitas que sejamos conduzidos a ela por aquele (naturalmente) que tenta; mas longe de nós pensar que o Senhor pareça tentar (cf. Tg 1.13), como se ele ignorasse a fé de alguém ou estivesse ansioso por derrubá-la. A fraqueza20 e a malícia21 são próprias do diabo. Pois Deus ordenara até a Abraão que oferecesse o filho em sacrifício, não para tentar, mas para provar a sua fé; a fim de fazer dele um exemplo para aquele seu preceito pelo qual, mais tarde, haveria de mandar que ninguém tivesse penhor de afeto mais querido do que Deus.22 Ele mesmo, quando tentado pelo diabo, mostrou quem é que preside e dá origem à tentação (cf. Mt 4.10; Lc 4.8). Essa passagem ele confirma com outras posteriores, dizendo: “Orem para que não sejam tentados” (Lc 22.40; Mt 26.41; Mc 14.38); e, no entanto, foram tentados, como mostraram ao abandonar o seu Senhor, porque se entregaram mais ao sono do que à oração.23 A petição final, portanto, está em harmonia com isso e interpreta o sentido de “Não nos conduzas à tentação”; pois o sentido é este: “Mas tira-nos para longe do Maligno”.

Capítulo IX. Recapitulação24

Em resumos de tão poucas palavras, quantas sentenças dos profetas, dos Evangelhos, dos apóstolos, quantos discursos, exemplos e parábolas do Senhor são tocados! Quantos deveres são cumpridos ao mesmo tempo! A honra de Deus, no “Pai”; o testemunho da fé, no “Nome”; a oferta da obediência, na “Vontade”; a lembrança da esperança, no “Reino”; o pedido da vida, no “Pão”; o pleno reconhecimento das dívidas, na oração pelo seu “Perdão”; o temor ansioso da tentação, no pedido de “Proteção”. Que admira? Só Deus podia ensinar como queria que se orasse a ele. O rito religioso da oração, portanto, ordenado por ele mesmo e animado pelo seu próprio Espírito já no momento em que saía da boca divina, sobe ao céu por sua própria prerrogativa, recomendando ao Pai o que o Filho ensinou.

Capítulo X. Podemos acrescentar à oração do Senhor orações nossas

Visto, porém, que o Senhor, que prevê as necessidades humanas (cf. Mt 6.8), disse à parte, depois de entregar a sua Regra de Oração: “Peçam e receberão” (Mt 7.7; Lc 11.9); e visto que há pedidos que se fazem conforme as circunstâncias de cada um, as nossas necessidades adicionais têm o direito de, depois de começar pelas orações legítimas e costumeiras como por um alicerce, levantar por cima um edifício exterior de pedidos, mas lembrando-se dos preceitos do Mestre.

Capítulo XI. Ao orar ao Pai, não se deve estar irado com um irmão

Para que não estejamos tão longe dos ouvidos de Deus quanto estamos dos seus preceitos,25 a lembrança dos seus preceitos abre às nossas orações um caminho até o céu; e, desses preceitos, o principal é que não subamos ao altar de Deus26 antes de resolver qualquer discórdia ou ofensa que tenhamos contraído com os nossos irmãos (Mt 5.23-24). Pois que espécie de ato é aproximar-se da paz de Deus27 sem paz? Pedir o perdão das dívidas28 enquanto você as retém? Como aplacará o seu Pai quem está irado com o seu irmão, quando desde o princípio “toda ira” nos é proibida?29 Pois até José, ao despedir os seus irmãos para que fossem buscar o pai, disse: “E não se irem pelo caminho”.30 Ele nos advertia, sem dúvida, já naquele tempo (pois em outro lugar a nossa Disciplina é chamada “o Caminho”31), que, quando postos “no caminho” da oração, não fôssemos ao “Pai” com ira. Depois disso, o Senhor, “ampliando a Lei” (cf. Mt 5.17), acrescenta abertamente a proibição da ira contra o irmão à do homicídio (Mt 5.21-22). Nem mesmo com uma palavra má ele permite que ela seja desabafada (Mt 5.21-22; 1Pe 3.9). Mesmo que tenhamos de nos irar, a nossa ira não deve durar além do pôr do sol, como adverte o apóstolo (Ef 4.26). Mas que temeridade é passar um dia sem oração, enquanto você se recusa a dar satisfação ao seu irmão; ou então, perseverando na ira, perder a sua oração!

Capítulo XII. Devemos estar livres também de toda perturbação do ânimo

Não apenas da ira, mas de toda e qualquer perturbação do ânimo deve estar livre o exercício da oração, proferida por um espírito semelhante ao Espírito a quem é enviada. Pois um espírito contaminado não pode ser reconhecido por um Espírito santo (Ef 4.30), nem um espírito triste por um alegre (Jo 17.13; Rm 14.17), nem um espírito acorrentado por um livre (Sl 51.12). Ninguém dá acolhida ao seu adversário; ninguém dá entrada senão ao seu semelhante.

Capítulo XIII. Sobre lavar as mãos

Mas que razão há em ir à oração com as mãos lavadas, sim, mas com o espírito sujo? Pois às nossas próprias mãos são necessárias purezas espirituais, para que sejam “erguidas puras” (1Tm 2.8) da mentira, do homicídio, da crueldade, dos envenenamentos,32 da idolatria e de todas as outras manchas que, concebidas pelo espírito, são executadas pela ação das mãos. Estas são as verdadeiras purezas (cf. Mt 15.10-11, 17-20; 23.25-26); não aquelas com que a maioria se preocupa supersticiosamente, tomando água a cada oração, mesmo quando vem de um banho do corpo inteiro. Quando eu investigava escrupulosamente a fundo essa prática e procurava a sua razão, verifiquei que é um ato comemorativo, relacionado com a entrega33 do nosso Senhor. Nós, porém, oramos ao Senhor; não o entregamos; mais ainda, devemos até nos opor ao exemplo daquele que o entregou e, por isso mesmo, não lavar as mãos. A não ser que alguma contaminação contraída no trato humano seja motivo de consciência para lavá-las, elas estão de resto suficientemente limpas, pois junto com o corpo inteiro nós as lavamos de uma vez em Cristo.34

Capítulo XIV. Apóstrofe

Ainda que Israel lave diariamente todos os membros, nunca está limpo. As suas mãos, pelo menos, estão sempre impuras, eternamente tintas com o sangue dos profetas e do próprio Senhor; e por isso, como culpados hereditários por serem cúmplices dos crimes dos seus pais (cf. Mt 23.31; Lc 11.48), não ousam nem sequer levantá-las ao Senhor,35 com medo de que algum Isaías clame (Is 1.15), com medo de que Cristo estremeça de horror. Nós, porém, não só as levantamos, mas até as estendemos; e, tomando por modelo a paixão do Senhor,36 também na oração confessamos37 Cristo.

Capítulo XV. Sobre tirar o manto

Mas, já que tocamos num ponto particular de observância vazia,38 não será enfadonho marcar também os outros pontos aos quais se pode, com justiça, imputar a censura de vaidade; isto é, se são observados sem a autoridade de nenhum preceito, seja do Senhor, seja dos apóstolos. Pois as coisas desse tipo não pertencem à religião, mas à superstição, sendo afetadas, forçadas e de cerimonial mais curioso que racional;39 e merecem ser contidas, pelo menos, já por este motivo: nos põem no mesmo nível dos gentios.40 Por exemplo, é costume de alguns fazer a oração com o manto tirado, porque assim os pagãos se aproximam dos seus ídolos. Ora, se essa prática fosse conveniente, os apóstolos, que ensinam sobre o traje da oração (cf. 1Co 11.3-16), a teriam incluído nas suas instruções; a não ser que alguém pense que foi durante a oração que Paulo deixou o seu manto com Carpo! (2Tm 4.13) Deus, com certeza, não ouviria suplicantes de manto, ele que claramente ouviu os três santos que oravam na fornalha do rei babilônio com seus calções e turbantes (Dn 3.21).

Capítulo XVI. Sobre sentar-se depois da oração

Também quanto ao costume que alguns têm de se sentar quando a oração termina, não vejo nenhuma razão, a não ser a que as crianças dão.41 Pois, se aquele Hermas, cujo escrito costuma ter o título de O Pastor, depois de terminar a oração não se tivesse sentado na cama, mas feito outra coisa, deveríamos defender isso também como algo a ser observado? Claro que não. Ora, mesmo como está, a frase “Depois de orar e de me sentar na cama” foi posta simplesmente em vista da ordem da narrativa, e não como modelo de disciplina. Do contrário, não poderemos orar em nenhum lugar onde não haja cama! Mais ainda: quem se sentar numa cadeira ou num banco agirá contra aquele escrito. Além disso, como os pagãos fazem o mesmo, sentando-se depois de adorar os seus idolozinhos, já por isso a prática merece ser censurada em nós, porque é observada no culto dos ídolos. A isso se soma ainda a acusação de irreverência, compreensível até para os próprios pagãos, se tivessem algum juízo. Se, por um lado, é irreverente sentar-se sob o olhar, e diante do olhar, daquele a quem você mais reverencia e venera, quanto mais, por outro lado, é esse ato extremamente irreligioso sob o olhar do Deus vivo, enquanto o anjo da oração ainda está de pé ao lado,42 a não ser que estejamos censurando a Deus porque a oração nos cansou!

Capítulo XVII. Sobre as mãos erguidas

Mas recomendamos melhor as nossas orações a Deus quando oramos com modéstia e humildade, sem erguer as mãos alto demais, mas erguendo-as com moderação e decoro, e sem levantar o rosto com ousadia excessiva. Pois aquele publicano que orou com humildade e abatimento, não só na súplica, mas também no semblante, foi embora “mais justificado” do que o fariseu desavergonhado (Lc 18.9-14). Também o som da nossa voz deve ser contido; do contrário, se tivermos de ser ouvidos pelo barulho, de que gargantas enormes precisaríamos! Mas Deus ouve não a voz, e sim o coração, assim como é o seu examinador. O demônio do oráculo pítico diz:

“E eu entendo o mudo e ouço claramente aquele que não fala.”43

Será que os ouvidos de Deus esperam pelo som? Como, então, a oração de Jonas pôde achar saída até o céu, desde o fundo do ventre da baleia, através das entranhas de um animal tão enorme, desde os próprios abismos, através de tão imensa massa de mar? Que vantagem a mais terão os que oram alto demais, senão incomodar os que estão perto? Mais ainda: tornando audíveis os seus pedidos, que erro menor cometem do que se orassem em público?44

Capítulo XVIII. Sobre o beijo da paz

Outro costume tornou-se agora comum. Os que estão jejuando deixam de dar o beijo da paz, que é o selo da oração, depois da oração feita com os irmãos. Mas quando se deve firmar mais a paz com os irmãos do que quando, por ocasião de alguma observância religiosa,45 a nossa oração sobe com mais aceitação, para que eles mesmos participem da nossa observância e assim se abrandem para tratar com o seu irmão da sua própria paz? Que oração é completa se separada do “beijo santo”? (cf. Rm 16.16; 1Co 16.20; 2Co 13.12; 1Ts 5.26; 1Pe 5.14) A quem a paz atrapalha quando presta serviço ao seu Senhor? Que espécie de sacrifício é aquele do qual se sai sem paz? Seja qual for a nossa oração, ela não será melhor do que a observância do preceito que nos manda esconder os nossos jejuns (Mt 6.16-18); pois agora, por nos abstermos do beijo, somos reconhecidos como quem jejua. Mas, mesmo que haja alguma razão para essa prática, ainda assim, para não ofender esse preceito, você talvez possa adiar a sua “paz” em casa, onde não é possível manter o seu jejum inteiramente em segredo. Mas, em qualquer outro lugar onde puder esconder a sua observância, deve lembrar-se do preceito; assim você poderá satisfazer as exigências da Disciplina fora de casa e do costume em casa. Assim também no dia da Páscoa,46 quando a observância religiosa do jejum é geral e como que pública, com razão deixamos o beijo, sem nos importarmos de esconder algo que fazemos em comum com todos.

Capítulo XIX. Sobre as estações

Do mesmo modo, quanto aos dias de Estação,47 a maioria pensa que não deve estar presente às orações do sacrifício, sob o pretexto de que a Estação seria dissolvida pela recepção do Corpo do Senhor. Será, então, que a Eucaristia anula um serviço dedicado a Deus, ou o une mais a Deus? Não será a sua Estação mais solene se você tiver estado também diante do altar de Deus?48 Quando o Corpo do Senhor foi recebido e guardado,49 fica assegurado cada ponto: tanto a participação no sacrifício como o cumprimento do dever. Se a “Estação” recebeu o nome do exemplo da vida militar (pois também nós somos a milícia de Deus) (cf. 2Tm 2.1-4), certamente nenhuma alegria ou tristeza que sobrevenha ao acampamento suprime as “estações” dos soldados; pois a alegria cumprirá a disciplina com mais boa vontade, e a tristeza, com mais cuidado.

Capítulo XX. Sobre o traje das mulheres

Quanto ao traje das mulheres, porém, a variedade de observâncias nos obriga, a nós, homens sem importância alguma, a tratar do assunto depois do santíssimo apóstolo (cf. 1Co 11.1-16; 1Tm 2.9-10), com presunção, sem dúvida, a não ser na medida em que não será presunção se tratarmos do assunto de acordo com o apóstolo. Quanto à modéstia no vestir e nos enfeites, de fato, também a prescrição de Pedro (1Pe 3.1-6) é clara: com a mesma boca, porque com o mesmo Espírito que Paulo, ele reprime a vaidade das roupas, o orgulho do ouro e o arranjo do cabelo próprio de meretrizes.

Capítulo XXI. Sobre as virgens

Mas é preciso tratar daquele ponto que é observado de modo desigual nas igrejas: se as virgens devem ou não usar véu. Pois os que concedem às virgens a isenção de cobrir a cabeça parecem apoiar-se nisto: que o apóstolo não designou as “virgens” pelo nome, mas as “mulheres” (1Co 11.5), como as que devem “usar véu”; nem o sexo em geral, de modo a dizer “fêmeas”, mas uma classe do sexo, ao dizer “mulheres”; pois, se tivesse nomeado o sexo dizendo “fêmeas”, teria tornado o seu limite absoluto para toda mulher; mas, ao nomear uma classe do sexo, separa outra classe pelo silêncio. Pois, dizem eles, poderia ter nomeado especificamente as “virgens”, ou, de modo geral, por um termo abrangente, as “fêmeas”.

Capítulo XXII. Resposta aos argumentos anteriores

Os que fazem essa concessão50 deveriam refletir sobre a natureza da própria palavra, sobre o significado de “mulher” desde os primeiros registros dos escritos sagrados. Ali verão que é o nome do sexo, e não de uma classe do sexo; se é verdade que Deus deu a Eva, quando ela ainda não havia conhecido homem, o sobrenome de “mulher” e de “fêmea”51 (“fêmea”, com que se designa o sexo em geral; “mulher”, com que se designa uma classe do sexo).52 Assim, já que naquele tempo Eva, ainda não casada, foi chamada pela palavra “mulher”, essa palavra tornou-se comum também à virgem.53 Nem é de admirar que o apóstolo, guiado, naturalmente, pelo mesmo Espírito pelo qual foi redigida toda a Escritura divina e também aquele livro do Gênesis, tenha usado a mesmíssima palavra ao escrever “mulheres”, a qual, pelo exemplo de Eva não casada, se aplica também à “virgem”. De fato, todas as outras passagens estão em harmonia com isso. Pois, pelo próprio fato de não ter nomeado as “virgens” (como faz em outro lugar, 1Co 7.34, onde ensina sobre o casamento), ele indica suficientemente que a sua observação se refere a toda mulher e a todo o sexo, e que não se faz distinção entre a “virgem” e qualquer outra, já que ele não a nomeia em absoluto. Pois quem em outro lugar, isto é, onde a diferença o exige, se lembra de fazer a distinção (e a faz designando cada espécie pelo nome próprio), quer que, onde não faz distinção (já que não nomeia cada uma), não se entenda diferença alguma. E que dizer do fato de que, na língua grega, em que o apóstolo escreveu as suas cartas, é costume dizer “mulheres” em vez de “fêmeas”, isto é, gynaikas em vez de thēleias? Portanto, se essa palavra,54 que pela tradução representa o que “fêmea” (femina) representa,55 é usada com frequência em lugar do nome do sexo,56 ele nomeou o sexo ao dizer gynaika; e no sexo também a virgem está incluída. Mas, além disso, a declaração é clara: “Toda mulher”, diz ele, “que ora ou profetiza com a cabeça descoberta57 desonra a sua própria cabeça” (1Co 11.5). Que é “toda mulher”, senão a mulher de toda idade, de toda posição, de toda condição? Ao dizer “toda”, ele não exclui nada do que é feminino, assim como também não exclui nada do que é masculino da obrigação de não se cobrir; pois do mesmo modo diz: “Todo homem” (1Co 11.4). Portanto, assim como no sexo masculino, sob o nome de “homem”, até ao “moço” se proíbe o véu, assim também no feminino, sob o nome de “mulher”, até à “virgem” se manda usar véu. Igualmente em cada sexo, que a idade mais jovem siga a disciplina da mais velha; ou então que também as “virgens” do sexo masculino58 usem véu, se as virgens do sexo feminino não usam véu por não serem mencionadas pelo nome. Que “homem” e “moço” sejam coisas diferentes, se “mulher” e “virgem” são diferentes. Pois é de fato “por causa dos anjos” (1Co 11.10) que ele diz que as mulheres devem usar véu, porque, por causa das “filhas dos homens”, anjos se rebelaram contra Deus.59 Quem, então, sustentaria que somente as “mulheres”, isto é,60 as que já eram casadas e haviam perdido a virgindade, foram objeto da concupiscência dos anjos, a não ser que as “virgens” sejam incapazes de se destacar em beleza e de encontrar amantes? Antes, vejamos se não foram somente as virgens que eles cobiçaram; visto que a Escritura diz “as filhas dos homens” (Gn 6.2), quando poderia ter dito indiferentemente “esposas dos homens” ou “fêmeas”.61 Do mesmo modo, quando diz “E as tomaram para si como esposas” (Gn 6.2), diz isso por este motivo: naturalmente, são “tomadas como esposas” as que ainda não têm esse título. Mas ela se teria expressado de outro modo a respeito das que não estivessem nessa condição. Assim, aquelas que são nomeadas estão tão desprovidas da viuvez quanto da virgindade. Tão completamente Paulo, ao nomear o sexo em geral, misturou no gênero tanto as “filhas” como as espécies. Além disso, quando diz que “a própria natureza” (1Co 11.14), que deu às mulheres o cabelo como cobertura e ornamento, “ensina que usar véu é dever das fêmeas”, não foi dada também às virgens a mesma cobertura e a mesma honra da cabeça? Se “é vergonhoso” para a mulher ser tosquiada, igualmente o é para a virgem. Daquelas, portanto, às quais foi dada uma única e mesma lei da cabeça,62 exige-se uma única e mesma disciplina63 da cabeça, e isso se estende até àquelas virgens que a infância protege,64 pois desde o princípio65 a virgem foi chamada “fêmea”. Esse costume,66 enfim, até Israel o observa; mas, se Israel não o observasse, a nossa Lei,67 ampliada e completada, reivindicaria para si o acréscimo; que se lhe perdoe impor o véu também às virgens. Na nossa dispensação, que a idade que ainda ignora o seu sexo68 conserve o privilégio da simplicidade. Pois tanto Eva como Adão, quando lhes aconteceu tornarem-se “sábios” (Gn 3.6), logo cobriram o que tinham aprendido a conhecer (cf. Gn 3.7, 10-11). Em todo caso, quanto àquelas em quem a meninice já deu lugar à maturidade, a sua idade deve lembrar-se dos seus deveres, tanto para com a natureza como para com a disciplina; pois estão passando à categoria de “mulheres”, tanto na pessoa como nas funções. Ninguém é “virgem” a partir do momento em que é capaz de se casar, visto que nela a idade já se casou com o seu próprio marido, isto é, com o tempo.69 “Mas certa virgem se consagrou a Deus. Desde esse exato momento ela muda o feitio do cabelo e converte todo o seu traje no de uma mulher.” Então, que ela mantenha inteiramente o caráter e cumpra toda a função de “virgem”: o que ela esconde70 por amor a Deus, que o cubra por completo.71 Cabe a nós confiar somente ao conhecimento de Deus aquilo que a graça de Deus opera em nós, para que não recebamos dos homens a recompensa que esperamos de Deus.72 Por que você descobre diante de Deus73 o que cobre diante dos homens?74 Será você mais modesta em público do que na igreja? Se a sua consagração é uma graça de Deus e você a recebeu, “por que se gloria”, diz ele, “como se não o tivesse recebido?” (1Co 4.7) Por que, exibindo a si mesma, você julga as outras? Será que, com a sua jactância, você convida as outras ao bem? Pelo contrário, você mesma corre o risco de perder, se se gloriar, e empurra as outras para os mesmos perigos! O que se assume por amor à jactância facilmente se destrói. Cubra-se com o véu, virgem, se virgem você é; pois deve corar. Se você é virgem, fuja do olhar de muitos olhos. Que ninguém admire o seu rosto; que ninguém perceba o seu fingimento.75 Você faz bem em assumir falsamente a condição de casada, se cobre a cabeça com o véu; ou melhor, nem parece assumi-la falsamente, pois você é casada com Cristo: a ele entregou o seu corpo; aja como convém à disciplina do seu Esposo. Se ele manda que as noivas dos outros usem véu, quanto mais as suas. “Mas cada um76 não deve pensar em derrubar a instituição do seu predecessor.” Muitos entregam o seu próprio juízo, e a coerência dele, ao costume dos outros. Admitindo que as virgens não sejam obrigadas a usar véu, pelo menos as que o usam voluntariamente não devem ser proibidas; elas que, de resto, não podem negar que são virgens,77 contentes, na segurança de uma boa consciência diante de Deus, em prejudicar a sua própria reputação.78 Quanto às que estão noivas, porém, posso com firmeza, “acima da minha pequena medida”,79 declarar e atestar que devem usar véu a partir do dia em que estremeceram ao primeiro toque corporal de um homem, pelo beijo e pela mão. Pois nelas tudo já foi casado de antemão: a idade, pela maturidade; a carne, pela idade; o espírito, pela consciência; o pudor, pela experiência do beijo; a esperança, pela expectativa; a mente, pela vontade. E Rebeca nos basta como exemplo: quando lhe apontaram o seu noivo, cobriu-se com o véu para o casamento, só por reconhecê-lo (Gn 24.64-65).

Capítulo XXIII. Sobre ajoelhar-se

Também quanto a ajoelhar-se, a oração está sujeita a diversidade de observância, por causa de alguns poucos que se abstêm de ajoelhar-se no sábado; e, como essa divergência está sendo particularmente examinada perante as igrejas, o Senhor dará a sua graça para que os que discordam ou cedam, ou então sigam a sua opinião sem escândalo para os outros. Nós, porém (assim como recebemos), somente no dia da Ressurreição do Senhor devemos evitar não só o ajoelhar-se, mas toda postura e todo ofício de aflição, adiando até os nossos negócios, para não darmos lugar algum ao diabo (Ef 4.27). Do mesmo modo também no período de Pentecostes, que distinguimos pela mesma solenidade de exultação.80 Mas quem hesitaria em prostrar-se cada dia diante de Deus, pelo menos na primeira oração com que entramos na luz do dia? Além disso, nos jejuns e nas Estações, nenhuma oração deve ser feita sem ajoelhar-se e sem os demais sinais costumeiros de humildade; pois então81 não estamos apenas orando, mas suplicando que se afaste o castigo e dando satisfação a Deus, nosso Senhor.82 Quanto aos tempos de oração, nada absolutamente foi prescrito, a não ser, evidentemente, “orar em todo tempo e em todo lugar” (Ef 6.18; 1Ts 5.17; 1Tm 2.8).

Capítulo XXIV. Sobre o lugar da oração

Mas como “em todo lugar”, se somos proibidos83 de orar em público? Em todo lugar, quer dizer ele, que a oportunidade ou mesmo a necessidade tenham tornado adequado; pois o que fizeram os apóstolos84 (que, na prisão, ouvindo-os os presos, “começaram a orar e a cantar a Deus”) não se considera feito contra o preceito; nem o que fez Paulo,85 que no navio, na presença de todos, “deu graças a Deus”.86

Capítulo XXV. Sobre o tempo da oração

Quanto ao tempo, porém, não será sem proveito a observância extrínseca87 de certas horas; refiro-me àquelas horas comuns que marcam os intervalos do dia, a terceira, a sexta e a nona, que podemos achar nas Escrituras como mais solenes do que as outras. A primeira efusão do Espírito Santo sobre os discípulos reunidos aconteceu à “hora terceira” (At 2.1-4, 14-15). Pedro, no dia em que teve a visão da Comunhão Universal,88 mostrada naquele pequeno recipiente,89 tinha subido à parte mais alta da casa para orar, “à hora sexta” (At 10.9). O mesmo apóstolo ia ao templo com João “à hora nona”,90 quando restituiu a saúde ao paralítico. Ainda que essas práticas existam simplesmente sem nenhum preceito que as mande observar, pode-se admitir que é bom estabelecer alguma norma definida, que tanto dê mais rigor à exortação a orar como, por assim dizer, por uma lei, nos arranque dos nossos negócios para esse dever; de modo que, como lemos que também Daniel observava,91 naturalmente de acordo com a disciplina de Israel, oremos pelo menos não menos de três vezes por dia, devedores como somos dos Três, Pai, Filho e Espírito Santo; isso, naturalmente, além das nossas orações regulares, que são devidas, sem nenhuma exortação, à chegada da luz e da noite. Mas convém também aos fiéis não tomar alimento nem ir ao banho antes de intercalar uma oração; pois os refrigérios e alimentos do espírito devem ter precedência sobre os da carne, e as coisas celestiais sobre as terrenas.

Capítulo XXVI. Sobre a despedida dos irmãos

Você não despedirá sem oração um irmão que entrou em sua casa. “Você viu”, diz a Escritura, “um irmão? Viu o seu Senhor”;92 especialmente “um estrangeiro”, para que não seja, talvez, “um anjo”. Mas também, quando você mesmo for recebido por irmãos, não porá93 os refrigérios terrenos antes dos celestiais, pois a sua fé será logo julgada. Ou, de outro modo, como dirá, segundo o preceito, “Paz seja nesta casa!” (Lc 10.5), se não trocar a paz mútua com os que estão na casa?

Capítulo XXVII. Sobre acrescentar um salmo

Os mais diligentes na oração costumam acrescentar às suas orações o “Aleluia”94 e salmos desse tipo, em cujos finais a assembleia responde. E, naturalmente, é excelente toda instituição que, para exaltar e honrar a Deus, procura de comum acordo levar-lhe uma oração enriquecida como vítima escolhida.

Capítulo XXVIII. Sobre a vítima espiritual, que é a oração

Pois esta é a vítima espiritual (1Pe 2.5) que aboliu os sacrifícios antigos. “Para que”, diz ele, “me trazem a multidão dos seus sacrifícios? Estou farto de holocaustos de carneiros, e não quero a gordura de carneiros nem o sangue de touros e de bodes. Pois quem requereu essas coisas das mãos de vocês?”95 O que Deus requereu, então, o Evangelho ensina. “Virá a hora”, diz ele, “em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. Pois Deus é Espírito, e por isso requer que os seus adoradores sejam assim” (Jo 4.23-24). Nós somos os verdadeiros adoradores e os verdadeiros sacerdotes,96 que, orando em espírito (1Co 14.15; Ef 6.18), sacrificamos em espírito a oração, vítima própria e aceitável a Deus, que ele certamente requereu, que ele previu97 para si! Esta vítima, consagrada de todo o coração, alimentada pela fé, cuidada pela verdade, íntegra na inocência, pura na castidade, coroada de amor,98 devemos conduzi-la com o cortejo99 das boas obras, entre salmos e hinos, até o altar de Deus,100 para que ela obtenha para nós todas as coisas da parte de Deus.

Capítulo XXIX. Sobre o poder da oração

Pois o que Deus, que a exige, já negou101 à oração que vem “em espírito e em verdade”? Que exemplos tão poderosos da sua eficácia lemos, ouvimos e cremos! A oração dos tempos antigos, de fato, livrava do fogo (Dn 3), das feras (Dn 6) e da fome (1Rs 18; Tg 5.17-18); e, no entanto, ainda não havia recebido de Cristo a sua forma. Mas quanto mais amplamente eficaz é a oração cristã! Ela não põe o anjo do orvalho no meio do fogo,102 nem fecha a boca dos leões, nem leva aos famintos o pão dos camponeses (2Rs 4.42-44); não tem graça delegada para afastar todo sentimento de sofrimento;103 mas dá perseverança aos que sofrem, aos que sentem e aos que se afligem; amplia a graça com a força, para que a fé saiba o que obtém do Senhor, compreendendo o que sofre por causa do nome de Deus. Mas nos dias passados a oração também fazia cair104 pragas, dispersava os exércitos dos inimigos, retinha as influências salutares das chuvas. Agora, porém, a oração da justiça afasta toda a ira de Deus, monta guarda em favor dos inimigos pessoais, suplica em favor dos perseguidores. É de admirar que saiba arrancar as chuvas do céu,105 ela que um dia foi capaz de fazer descer dele o fogo? (cf. 2Rs 1) Só a oração vence Deus. Mas Cristo quis que ela não operasse nenhum mal; conferiu-lhe toda a sua força em favor do bem. E assim ela não sabe senão chamar de volta as almas dos mortos do próprio caminho da morte, transformar os fracos, restaurar os doentes, purificar os possessos, abrir as grades das prisões, soltar as correntes dos inocentes. Também lava as faltas, repele as tentações, extingue as perseguições, consola os desanimados, alegra os animosos, acompanha os viajantes, acalma as ondas, deixa os ladrões atônitos, sustenta os pobres, governa os ricos, levanta os caídos, segura os que estão caindo, firma os que estão de pé. A oração é a muralha da fé, as suas armas e os seus projéteis106 contra o inimigo que nos vigia por todos os lados. Assim, nunca andemos desarmados. De dia, lembremo-nos da Estação; de noite, da vigília. Sob as armas da oração, guardemos o estandarte do nosso General; aguardemos em oração a trombeta do anjo (1Co 15.52; 1Ts 4.16). Também os anjos, todos, oram; toda criatura ora; o gado e os animais selvagens oram e dobram os joelhos; e, quando saem dos seus estábulos e covis,107 olham para o céu com a boca não ociosa, fazendo vibrar o seu fôlego108 à sua maneira. Mais ainda: também as aves, ao saírem do ninho, elevam-se para o céu e, em lugar de mãos, estendem a cruz das suas asas e dizem algo que parece uma oração. Que mais, então, sobre o ofício da oração? O próprio Senhor orou; a ele sejam a honra e o poder pelos séculos dos séculos!

Notas

1. Segue-se aqui a pontuação de Oehler. A frase é difícil e deixou bastante perplexos editores e comentadores.

2. Routh sugere “fortasse quâ sensit”, remetendo ao Contra Práxeas, cap. 5.

3. Sermone.

4. Esta é a pontuação de Oehler. A edição de Pamélio diz: “Assim, a oração composta por Cristo foi composta de três partes: da palavra, pela qual é enunciada; do espírito, o único pelo qual prevalece; da razão, pela qual é ensinada”. Rigalcio e os editores posteriores leem: “da razão, pela qual é concebida”; mas esta última oração falta nos manuscritos, e a leitura de Oehler parece, como ele diz, “ter curado as palavras”.

5. “Isto é, juntamente com o Filho e o Espírito Santo” (Oehler); “seu Filho e sua igreja” (Dodgson).

6. Isto é, “algum outro deus”.

7. O sr. Dodgson traduz: “logo depois desta petição”; mas a “forma” mencionada parece ser, pelo que Tertuliano acrescenta em seguida, o que ele dissera acima: “não que convenha desejar o bem a Deus” etc.

8. Por esta e por outras passagens sabemos que o advérbio comparativo faltava em algumas fórmulas antigas da Oração do Senhor.

9. Para este sentido do verbo, ver Hb 10.24.

10. Ou “mundo”, sæculo.

11. Ou “mundo”, sæculi. Ver Mt 24.3, especialmente no grego. Com “pedir certo prolongamento do século”, Tertuliano parece referir-se a alguns que costumavam orar para que o fim fosse adiado (Rigalcio).

12. Altari.

13. Assim traduz Dodgson, com acerto, “dirigitur a”.

14. Este é um pequeno engano de Tertuliano. As palavras mencionadas, “Busquem primeiro” etc., só aparecem no fim do capítulo em que se encontra a oração, de modo que o seu mais-que-perfeito está fora de lugar.

15. Tertuliano parece referir-se a Mt 15.26 e Mc 7.27.

16. Parece haver referência a Mt 6.34 e Lc 12.29; mas vale a mesma observação da nota 14.

17. Na petição anterior: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje”.

18. Como o “pão de cada dia”.

19. Isto é, se formos apenas alimentados e engordados por eles no corpo, como acontece ao touro destinado ao sacrifício, e depois, como ele, mortos, entregues à morte.

20. Implicada na primeira hipótese: a ignorância.

21. Implicada na outra: o desejo de derrubar a fé.

22. Isto é, nem mesmo os filhos. A referência parece ser a Mt 10.37 e Lc 14.26, com os quais se podem comparar Dt 13.6-10 e 33.9. Se a leitura de Oehler, que segui, estiver correta, o preceito, que só foi dado em palavras séculos depois de Abraão, passa a ter força retroativa sobre ele.

23. Routh remete ao Do Batismo, cap. 20, onde Tertuliano se refere ao mesmo episódio.

24. Aqui começa o Códice Ambrosiano, com o título: “Aqui começa um tratado de Tertuliano sobre diversas coisas necessárias”; e dele se tiram os títulos dos capítulos restantes. (Ver Oehler e Routh.)

25. Oehler divide estes dois capítulos como acima. A divisão geralmente adotada junta esta frase ao capítulo anterior e começa o novo capítulo com “A lembrança dos seus preceitos”; e talvez esta seja a divisão preferível.

26. Altare.

27. Talvez haja aqui uma alusão a Fp 4.6-7.

28. Ver o capítulo VII, acima, e comparar Mt 6.14-15.

29. “Ab initio” refere-se provavelmente ao livro de Gênesis, o initium, ou início da Escritura, ao qual ele vai referir-se. Mas ver também Ef 4.31 e Mt 5.21-22.

30. Gn 45.24, assim na Septuaginta.

31. Ver At 9.2; 19.9, 23, no grego.

32. Ou “feitiçarias”.

33. Por Pilatos. Ver Mt 27.24.

34. Isto é, no batismo.

35. Não sei em que autoridade Tertuliano se apoia para esta afirmação. Certamente Salomão levantou as mãos (1Rs 8.54), e Davi, ao que parece, as suas (ver Sl 143.6; 28.2; 63.4 etc.). Compare-se também Êx 17.11-12. Mas provavelmente ele fala apenas do Israel do seu próprio tempo.

36. Isto é, das mãos estendidas na cruz.

37. Ou “louvamos”.

38. Isto é, a lavagem das mãos.

39. Ou “culto racional”. Ver Rm 12.1.

40. Ou “práticas gentílicas”.

41. Isto é, que viram fazer assim; pois as crianças imitam toda e qualquer coisa (Oehler).

42. Routh e Oehler (seguindo Rigalcio) remetem a Tb 12.12. Também eles, com Dodgson, remetem a Lc 1.11. Talvez haja uma referência a Ap 8.3-4.

43. Heródoto, I.47.

44. O que é proibido em Mt 6.5-6.

45. Como o jejum.

46. Isto é, a “Sexta-feira Santa”, como hoje geralmente se chama.

47. A palavra Statio parece ter sido usada em mais de um sentido na Igreja antiga. Uma passagem do Pastor de Hermas (Similitude 5) parece fazê-la equivaler a “jejum”.

48. “Ara”, e não “altare”.

49. Ao que parece, para receber em casa, quando a estação tiver terminado.

50. Quanto à distinção entre “mulheres” e “virgens”.

51. Gn 2.23. Na Septuaginta e na versão inglesa há uma só palavra, “mulher”.

52. Estas palavras são tidas por espúrias pelo dr. Routh, e não sem razão. O sr. Dodgson também as omite e remete a Do Véu das Virgens, caps. 4 e 5.

53. Em Do Véu das Virgens, 5, Tertuliano fala de modo ainda mais forte: “E assim você tem o nome, não digo já comum, mas próprio da virgem; um nome que desde o princípio uma virgem recebeu”.

54. Gynē.

55. O sr. Dodgson parece pensar que há aqui alguma transposição; e à primeira vista assim pode parecer. Mas, olhando mais de perto, talvez não haja necessidade de criar dificuldade: a ênfase está antes nas palavras “pela tradução”, que, naturalmente, é coisa diferente do “uso”; e, pela tradução, gynē parece aproximar-se mais de “femina” do que de “mulier”.

56. Thēleia.

57. Ou “sem véu”.

58. Para um uso semelhante da palavra “virgem”, ver Ap 14.4.

59. Ver Gn 6.2 na Septuaginta, com a variante da edição de Tischendorf de 1860; e comparar Tertuliano, Da Idolatria, cap. 9, e a nota ali. O sr. Dodgson remete também a Do Véu das Virgens, cap. 7, onde se trata mais a fundo desse curioso assunto.

60. Isto é, segundo a definição daqueles que Tertuliano está refutando.

61. Isto é, se se tratasse de mulheres casadas, qualquer das duas palavras, “uxores” ou “feminæ”, poderia ter sido usada indiferentemente.

62. Isto é, o cabelo longo.

63. Isto é, o uso do véu.

64. Isto é, “isenta”.

65. Isto é, desde a sua criação.

66. O do “uso universal do véu pelas mulheres”.

67. Isto é, como acima, o Sermão do Monte.

68. Isto é, a simples infância.

69. Routh remete a Do Véu das Virgens, cap. 11.

70. Isto é, a abundância do seu cabelo.

71. Isto é, com um véu.

72. Isto é, diz Oehler, “para não pospormos o favor eterno de Deus, que esperamos, à veneração temporal dos homens; risco que pareciam correr aquelas virgens que, consagradas a Deus, costumavam andar de véu em público, mas de cabeça descoberta na igreja”.

73. Isto é, na igreja.

74. Isto é, em público; ver a nota 72, acima.

75. Isto é, como diz Muratori, citado por Oehler, a sua fraude “piedosa” (?) de fingir ser casada quando é virgem; porque as virgens “consagradas” costumavam vestir-se e usar véu como as mulheres casadas, por serem consideradas “casadas com Cristo”.

76. Isto é, cada presidente de uma igreja, ou bispo.

77. Isto é, “são conhecidas como tais pela castidade dos seus modos e da sua vida” (Oehler).

78. “Aparecendo em público como mulheres casadas, enquanto no coração são virgens” (Oehler).

79. Será que Tertuliano se refere a 2Co 10.13? Ou “modulus” significa, como pensa Oehler, “minha regra”?

80. Isto é, abstendo-nos de ajoelhar; sendo o ajoelhar-se mais “uma postura de aflição” e de humildade, e o estar de pé, de “exultação”.

81. Isto é, nos jejuns e nas Estações.

82. Para o sentido de “satisfação” no uso dos Pais, ver Hooker, Eccl. Pol. VI.5.

83. Mt 6.5-6, que proíbe orar em público.

84. Paulo e Silas (At 16.25).

85. Segui aqui a leitura de Muratori.

86. O sr. Dodgson traduz “celebrou a Eucaristia”; mas essa tradução parece muito duvidosa. Ver At 27.35.

87. O sr. Dodgson supõe que esta palavra signifique “exterior, em contraste com o orar sempre, que é interior”. Oehler interpreta “ex vita communi”. Mas talvez o que Tertuliano diz mais abaixo no capítulo, “ainda que existam simplesmente sem nenhum preceito que mande observá-las”, nos dê a verdadeira chave do seu sentido; de modo que “extrinsecus” equivaleria a “extrínseco a qualquer ordem direta do nosso Senhor ou dos seus apóstolos”.

88. Communitatis omnis (Oehler). O sr. Dodgson traduz “de toda espécie de coisa comum”. Talvez, como sugere Routh, se deva ler “omnium”.

89. Vasculo. Mas em Atos se lê skeuos ti hōs othonēn megalēn.

90. At 3.1; mas não se diz que o homem era “paralítico”, e sim “coxo de nascença”.

91. Dn 6.10; comparar Sl 55.17 (na Septuaginta, 54.18).

92. Arrisquei-me a transformar em pergunta a primeira parte da frase. Que “escritura” seja esta, ninguém sabe. Talvez, além das passagens de Gn 18 e Hb 13.2, a que os editores naturalmente remetem, Tertuliano aluda a passagens como Mc 9.37 e Mt 25.40, 45.

93. Segui a conjectura de Routh, “feceris” em vez de “fecerit”, que Oehler nem sequer menciona.

94. Talvez “o grande Aleluia”, isto é, os cinco últimos salmos.

95. Is 1.11-12. Ver a Septuaginta.

96. Sacerdotes; comparar Exortação à Castidade, cap. 7.

97. Ou “providenciou”.

98. “Ágape”, talvez “a festa do amor”.

99. Ou “procissão”.

100. Altare.

101. Routh leria: “O que Deus negará?”

102. Isto é, “o anjo que preservou na fornalha os três jovens, como que aspergidos por uma chuva de orvalho” (Muratori, citado por Oehler).

103. Isto é, em resumo, as suas operações milagrosas, como são chamadas, ficam suspensas nesses casos.

104. Ou “infligia”.

105. Ver Apologia, cap. 5 (Oehler).

106. Ou “a sua armadura defensiva e ofensiva”.

107. Ou “currais e tocas”.

108. Como se orassem.

Tradução para o português a partir das versões inglesas da coleção Ante-Nicene Fathers (Buffalo, 1885): Clemente de Alexandria por William Wilson (vol. 2), Tertuliano por S. Thelwall (vol. 3) e Cipriano por Ernest Wallis (vol. 5), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta, pela antiga versão latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.