Escritos do Século III · Clemente de Alexandria

Quem é o rico que se salva? (seções 25 a 42)

O amor a Deus e ao próximo, o bom uso da riqueza na esmola, o arrependimento depois do batismo e a história de João e do jovem salteador.

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XXV. E no mesmo sentido vai também o que segue: “Agora, no tempo presente, não ter campos, nem dinheiro, nem casas, nem irmãos, com perseguições” (Mc 10.30). Pois não são os sem dinheiro, nem os sem casa, nem os sem irmãos que o Senhor chama à vida, já que chamou também os ricos; mas, como dissemos acima, também irmãos, como Pedro com André, e Tiago com João, os filhos de Zebedeu, unidos, porém, num mesmo sentir entre si e com Cristo. E a expressão “com perseguições” rejeita a posse de cada uma dessas coisas. Há uma perseguição que vem de fora, de homens que atacam os fiéis, seja por ódio, seja por inveja, seja por avareza, seja por ação diabólica. Mas a mais dolorosa é a perseguição interior, que procede da própria alma de cada um, atormentada por desejos ímpios, prazeres diversos, esperanças vis e sonhos destrutivos; quando, sempre ávida de mais, enlouquecida por amores brutais e inflamada pelas paixões que a assediam como aguilhões e ferrões, ela se cobre de sangue, (sendo impelida) a buscas insensatas, ao desespero da vida e ao desprezo de Deus.

Mais grave e dolorosa é essa perseguição que nasce de dentro, que está sempre com o homem e da qual o perseguido não pode escapar; pois ele carrega o inimigo consigo por toda parte. Assim também o fogo que ataca de fora produz provação, mas o que vem de dentro produz a morte. A guerra movida contra alguém também se encerra com facilidade, mas a que está na alma continua até a morte.

Com tal perseguição, se você tem riqueza mundana, se tem irmãos unidos pelo sangue e por outros laços, abandone toda a riqueza dessas coisas, que conduz ao mal; obtenha a paz para si mesmo, livre-se de perseguições prolongadas; afaste-se delas e volte-se para o evangelho; escolha, acima de tudo, o Salvador, o Advogado e o Paráclito da sua alma, o Príncipe da vida. “Porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas” (2Co 4.18). E no tempo presente as coisas são passageiras e inseguras, mas no tempo vindouro está a vida eterna.

XXVI. “Os primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros” (Mc 10.31). Isto é fecundo em sentido e em explicação,1 mas não exige investigação no momento; pois se refere não só aos ricos, mas claramente a todos os homens que uma vez se entregaram à fé. Deixemos, pois, isto de lado por ora. Mas penso que a nossa proposição foi demonstrada de modo nada inferior ao que prometemos: que o Salvador de modo nenhum excluiu os ricos por causa da própria riqueza e da posse de bens, nem lhes fechou a salvação com uma cerca, desde que possam e queiram submeter a sua vida aos mandamentos de Deus e preferi-los às coisas transitórias, e olhem para o Senhor com olhar firme, como os que esperam o aceno de um bom piloto: o que ele deseja, o que ordena, o que indica, que sinal dá aos seus marinheiros, para onde e de onde dirige o curso do navio. Pois que mal faz aquele que, antes da fé, aplicando a mente e poupando, juntou um patrimônio suficiente? Ou, o que é muito menos repreensível que isso, se desde o início Deus, que lhe deu a vida, lhe deu também um lar na casa de tais homens, entre gente rica, poderosa em bens e destacada em opulência? Pois, se em consequência de ter nascido involuntariamente na riqueza um homem é banido da vida, antes é ele injustiçado por Deus, que o criou, por lhe ter concedido um gozo temporário e por ele ser privado da vida eterna. E por que a riqueza teria brotado da terra, se ela é autora e patrona da morte?

Mas, se alguém é capaz, em meio à riqueza, de se desviar do seu poder, de ter sentimentos moderados, de exercer o domínio próprio, de buscar só a Deus, de respirar a Deus e andar com Deus, tal pobre se submete aos mandamentos, sendo livre, invicto, são, não ferido pela riqueza. Mas, se não, “mais depressa entrará um camelo pelo fundo de uma agulha do que tal rico chegará ao Reino de Deus” (Mc 10.25).

Que o camelo, então, passando por um caminho estreito e apertado antes do rico, signifique algo mais elevado; esse mistério do Salvador deve ser aprendido na “Exposição dos Primeiros Princípios e da Teologia”.2

XXVII. Pois bem, apresente-se primeiro o sentido da parábola, que é evidente, e a razão por que foi dita. Que ela ensine os prósperos a não descuidarem da própria salvação, como se já estivessem condenados de antemão, nem, por outro lado, a lançarem a riqueza ao mar ou a condená-la como traidora e inimiga da vida, mas a aprenderem de que modo e como usar a riqueza e alcançar a vida. Pois, uma vez que ninguém perece de modo algum por ter medo por ser rico, nem é salvo de modo algum por confiar e crer que será salvo, vejam eles, então, que esperança o Salvador lhes atribui, e como o inesperado pode tornar-se firme, e o que se espera pode tornar-se posse.

O Mestre, então, quando lhe perguntam: “Qual é o maior dos mandamentos?”, diz: “Ame o Senhor, seu Deus, de toda a sua alma e de toda a sua força” (Mt 22.36-38); que nenhum mandamento é maior do que este (diz ele), e com excelente razão; pois dá ordem a respeito do Primeiro e do Maior, o próprio Deus, nosso Pai, por meio de quem todas as coisas vieram a ser e existem, e para quem retorna o que é salvo. Tendo sido, pois, amados por ele de antemão e dele recebido a existência, é ímpio considerarmos qualquer outra coisa mais antiga ou mais excelente; rendendo-lhe apenas este pequeno tributo de gratidão pelos maiores benefícios; sendo incapazes de imaginar qualquer outra coisa como retribuição a Deus, que de nada precisa e é perfeito; e alcançando a imortalidade pelo próprio exercício de amar o Pai na medida das próprias forças e capacidade. Pois quanto mais alguém ama a Deus, tanto mais penetra em Deus.

XXVIII. O segundo na ordem, e em nada menor do que este, diz ele, é: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mt 22.39); e, por consequência, a Deus acima de si mesmo. E, quando o seu interlocutor perguntou: “Quem é o meu próximo?” (Lc 10.29), ele não especificou, como os judeus, o parente de sangue, ou o concidadão, ou o prosélito, ou aquele que fora igualmente circuncidado, ou o homem que segue uma só e mesma lei. Mas apresenta alguém que descia da região alta, de Jerusalém para Jericó, e o mostra ferido por salteadores, lançado semimorto no caminho, ignorado pelo sacerdote, olhado de esguelha pelo levita, mas socorrido com compaixão pelo samaritano, desprezado e excomungado; o qual não passou por acaso, como aqueles, mas veio provido das coisas de que o homem em perigo precisava, como óleo, ataduras, um animal de carga, dinheiro para o hospedeiro, parte dado na hora e parte prometido. “Qual deles”, disse ele, “foi o próximo daquele que sofreu essas coisas?” E, respondendo o outro: “O que usou de misericórdia para com ele” (Lc 10.36-37), (replicou): Vá, pois, você também e faça o mesmo, já que o amor floresce em boas obras.

XXIX. Em ambos os mandamentos, então, ele introduz o amor, mas o distingue pela ordem. Num deles atribui a Deus a primeira parte do amor, e no outro destina a segunda ao nosso próximo. Quem mais pode ser este senão o próprio Salvador? Ou quem, mais do que ele, teve compaixão de nós, que pelos dominadores das trevas fomos quase mortos com muitas feridas: temores, desejos, paixões, dores, enganos, prazeres? Dessas feridas o único médico é Jesus, que corta as paixões inteiramente pela raiz; não como a lei, que corta os meros efeitos, os frutos das plantas más, mas aplica o seu machado às raízes da maldade. É ele quem derramou vinho nas nossas almas feridas (o sangue da videira de Davi), quem trouxe o óleo que flui das compaixões do Pai3 e o concedeu copiosamente. É ele quem produziu as ataduras da saúde e da salvação que não se desatam: o Amor, a Fé, a Esperança. É ele quem sujeitou anjos, principados e potestades a nos servir, por uma grande recompensa. Pois também eles serão libertos da vaidade do mundo por meio da revelação da glória dos filhos de Deus. Devemos, portanto, amá-lo do mesmo modo que a Deus. E ama a Cristo Jesus aquele que faz a sua vontade e guarda os seus mandamentos. “Pois nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai” (Mt 7.21). E: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor!’, e não fazem o que eu mando?” (Lc 6.46). “E bem-aventurados são vocês, que veem e ouvem o que nem justos nem profetas” (viram nem ouviram) (Mt 13.16-17), se fizerem o que eu digo.

XXX. É primeiro, então, aquele que ama a Cristo; e segundo, aquele que ama e cuida dos que creram nele. Pois tudo o que se faz a um discípulo o Senhor aceita como feito a si mesmo, e considera tudo como seu. “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino que está preparado para vocês desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e vocês me deram de comer; tive sede, e vocês me deram de beber; eu era forasteiro, e vocês me hospedaram; eu estava nu, e vocês me vestiram; enfermo, e me visitaram; preso, e foram me ver. Então os justos perguntarão: ‘Quando foi que vimos o senhor com fome e lhe demos de comer? Ou com sede e lhe demos de beber? E quando foi que vimos o senhor como forasteiro e o hospedamos? Ou nu e o vestimos? E quando foi que vimos o senhor enfermo ou preso e fomos visitá-lo?’ O Rei, respondendo, lhes dirá: ‘Em verdade lhes digo que, sempre que o fizeram a um destes meus pequeninos irmãos, foi a mim que o fizeram'” (Mt 25.34-40).

Por outro lado, aos que não fizeram essas coisas: “Em verdade lhes digo que, sempre que o deixaram de fazer a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixaram de fazer” (Mt 25.45). E em outro lugar: “Quem recebe vocês é a mim que recebe; e quem não recebe vocês rejeita a mim” (Mt 10.40; Lc 10.16).

XXXI. A esses ele chama filhos, e crianças, e filhinhos, e amigos, e pequeninos aqui, em vista da sua futura grandeza no alto. “Não desprezem”, diz ele, “nenhum destes pequeninos; porque os anjos deles veem sempre a face de meu Pai nos céus” (Mt 18.10). E em outro lugar: “Não tenha medo, ó pequenino rebanho, porque o Pai de vocês se agradou em dar-lhes o Reino dos céus” (Lc 12.32). Semelhantemente, diz também que “o menor no Reino dos Céus”, isto é, o seu próprio discípulo, “é maior do que João, o maior entre os nascidos de mulher” (Mt 11.11). E ainda: “Quem recebe um justo ou um profeta, no caráter de justo ou de profeta, receberá a recompensa deles; e quem der de beber a um discípulo, por ser discípulo, um copo de água fria, não perderá a sua recompensa” (Mt 10.41-42). Por isso esta é a única recompensa que não se perde. E ainda: “Façam para vocês amigos com as riquezas da injustiça, para que, quando vocês vierem a faltar, eles os recebam nas moradas eternas” (Lc 16.9); mostrando que, por natureza, toda propriedade que alguém possui em seu próprio poder não é sua. E dessa injustiça é permitido realizar algo justo e salvador: dar alívio a algum daqueles que têm uma morada eterna junto ao Pai.

Veja, então, primeiro, que ele não ordenou que você esperasse ser solicitado ou importunado, mas que você mesmo procurasse os que devem ser beneficiados e são dignos discípulos do Salvador. Excelente, por isso, é também o dito do apóstolo: “Porque o Senhor ama quem dá com alegria” (2Co 9.7); quem se deleita em dar e não poupa, semeando de modo a também colher assim, sem murmuração, nem discussão, nem pesar, e repartindo, o que é pura4 beneficência. Mas melhor do que isto é o dito do Senhor em outro lugar: “Dê a todo o que lhe pedir” (Lc 6.30). Pois verdadeiramente tal é o deleite de Deus em dar. E este dito está acima de toda divindade,5 a saber: não esperar ser pedido, mas indagar por si mesmo quem merece receber a bondade.

XXXII. E então estabelecer tal recompensa para a liberalidade: uma morada eterna! Ó excelente comércio! Ó mercadoria divina! Compra-se a imortalidade com dinheiro; e, dando as coisas perecíveis do mundo, recebe-se em troca delas uma mansão eterna nos céus! Navegue para este mercado, se você é sábio, ó rico! Se for preciso, navegue ao redor do mundo inteiro.6 Não poupe perigos nem fadigas, para comprar aqui o Reino celestial. Por que pedras transparentes e esmeraldas o deleitam tanto, e uma casa que é combustível para o fogo, ou brinquedo do tempo, ou joguete do terremoto, ou ocasião para o ultraje de um tirano? Aspire a habitar nos céus e a reinar com Deus. Este Reino lhe dará um homem que imita a Deus. Recebendo pouco aqui, ali, por todos os séculos, ele fará de você um morador em sua companhia. Peça para receber; apresse-se; esforce-se; tema que ele o envergonhe. Pois não é a ele que se ordena receber, mas a você, dar. O Senhor não disse: Dê, ou traga, ou faça o bem, ou ajude, mas: Faça um amigo. Ora, um amigo se prova tal não por um só presente, mas por longa intimidade. Pois não é a fé, nem o amor, nem a esperança, nem a perseverança de um só dia, mas “aquele que ficar firme até o fim, esse será salvo” (Mt 10.22).

XXXIII. Como, então, o homem dá essas coisas? Pois darei não só aos amigos, mas aos amigos dos amigos. E quem é o amigo de Deus? Não julgue você quem é digno e quem é indigno. Pois é possível que você se engane em sua opinião. Assim, na incerteza da ignorância, é melhor fazer o bem aos que não merecem por causa dos que merecem do que, precavendo-se contra os menos bons, deixar de encontrar os bons. Pois, poupando e procurando pôr à prova quem receberá merecidamente ou não, é possível que você negligencie alguns7 que são amados por Deus; e a pena por isso é o castigo do fogo eterno. Mas, oferecendo a todos os necessitados, um após o outro, você necessariamente encontrará, de todo modo, algum daqueles que têm poder junto a Deus para salvar. “Não julguem, portanto, para que vocês não sejam julgados. Com a medida com que vocês tiverem medido vocês também serão medidos; boa medida, prensada, sacudida e transbordante será dada a vocês” (Mt 7.1-2; Lc 6.37-38). Abra a sua compaixão a todos os que estão inscritos como discípulos de Deus, sem olhar com desprezo a aparência pessoal, nem tratar com descaso idade alguma. Nem, se alguém parecer sem dinheiro, ou maltrapilho, ou feio, ou fraco, irrite-se você na alma com isso e dê as costas. Esta forma nos é lançada em volta por fora, ocasião da nossa entrada neste mundo, para que possamos entrar nesta escola comum. Mas por dentro habita o Pai oculto, e o seu Filho,8 que morreu por nós e ressuscitou conosco.

XXXIV. Esta aparência visível engana a morte e o diabo; pois a riqueza interior, a beleza, é invisível para eles. E eles se enfurecem em torno do corpo, que desprezam como fraco, cegos para a riqueza interior, sem saber que “tesouro em vaso de barro” (2Co 4.7) carregamos, protegido como está pelo poder de Deus Pai, pelo sangue de Deus Filho9 e pelo orvalho do Espírito Santo. Mas não se engane você, que provou a verdade e foi considerado digno da grande redenção. Antes, ao contrário do que fazem os demais homens, reúna para si um exército desarmado, não belicoso, sem sangue, sem paixões, sem mancha: anciãos piedosos, órfãos amados por Deus, viúvas armadas de mansidão, homens adornados de amor. Obtenha com o seu dinheiro tais guardas, para o corpo e para a alma, por causa dos quais um navio que afunda volta a flutuar, guiado apenas pelas orações dos santos; a doença no seu auge é vencida, posta em fuga pela imposição das mãos; o ataque dos salteadores é desarmado, despojado por orações piedosas; e a força dos demônios é esmagada, envergonhada em suas operações por ordens enérgicas.

XXXV. Todos esses guerreiros e guardas são fiéis. Nenhum é ocioso, nenhum é inútil. Um pode obter para você o perdão de Deus, outro consolá-lo quando estiver doente, outro chorar e gemer em compaixão por você diante do Senhor de todos, outro ensinar algumas das coisas úteis para a salvação, outro admoestar com franqueza, outro aconselhar com bondade. E todos podem amar verdadeiramente, sem engano, sem medo, sem hipocrisia, sem lisonja, sem fingimento. Ó doce serviço de [almas] que amam! Ó benditos pensamentos de [corações] confiantes! Ó fé sincera dos que temem só a Deus! Ó verdade de palavras nos que não podem mentir! Ó beleza de obras nos que foram encarregados de servir a Deus, de persuadir a Deus, de agradar a Deus, não de tocar a sua carne! de falar, mas10 ao Rei da eternidade que habita em você.

XXXVI. Todos os fiéis, então, são bons e semelhantes a Deus, e dignos do nome de que são cingidos como de um diadema. Há, além disso, alguns, os eleitos dos eleitos, mais ou menos distintos na medida em que se retiram, como navios puxados para a praia, da agitação do mundo e se põem em segurança; não querendo parecer santos e envergonhados se alguém assim os chama; escondendo no fundo da mente os mistérios inefáveis e desdenhando deixar que a sua nobreza seja vista no mundo; a quem o Verbo chama “a luz do mundo e o sal da terra” (Mt 5.13-14). Esta é a semente, a imagem e semelhança de Deus, e o seu verdadeiro filho e herdeiro, enviado aqui como que em peregrinação, pela alta administração e conveniente disposição do Pai, por quem foram criadas as coisas visíveis e invisíveis do mundo; umas para o seu serviço, outras para a sua disciplina, outras para a sua instrução; e todas as coisas se mantêm unidas enquanto a semente permanece aqui; e, quando ela for recolhida, essas coisas serão dissolvidas muito rapidamente.

XXXVII. Pois que mais necessidade tem Deus dos mistérios do amor?11 E então você contemplará o seio do Pai, a quem só o Deus Filho unigênito revelou. E o próprio Deus é amor; e por amor a nós tornou-se feminino.12 Em sua essência inefável ele é Pai; em sua compaixão para conosco tornou-se Mãe. O Pai, amando, tornou-se feminino; e a grande prova disso é aquele que ele gerou de si mesmo; e o fruto gerado pelo amor é amor.

Por isso também ele desceu. Por isso se revestiu do homem. Por isso se sujeitou voluntariamente às experiências dos homens, para que, rebaixando-se à medida da fraqueza de nós, a quem amava, nos elevasse correspondentemente à medida da sua própria força. E, prestes a ser oferecido e entregando-se em resgate, deixou-nos uma nova Aliança-testamento: Dou-lhes o meu amor. E qual é ele, e quão grande? Por cada um de nós ele deu a sua vida, o equivalente por todos. Isto ele exige de nós em troca, uns pelos outros. E, se devemos as nossas vidas aos irmãos e fizemos tal pacto mútuo com o Salvador, por que haveríamos ainda de acumular e trancar os bens do mundo, que são miseráveis, alheios a nós e transitórios? Haveremos de trancar, longe uns dos outros, o que daqui a pouco será propriedade do fogo? Divina e gravemente diz João: “Quem não ama o seu irmão é assassino” (1Jo 3.14-15), semente de Caim, cria do diabo. Ele não tem a compaixão de Deus. Não tem esperança de coisas melhores. É estéril; é infecundo; não é ramo da videira supraceleste, sempre viva. Está cortado; aguarda o fogo perpétuo.

XXXVIII. Mas aprenda você o caminho mais excelente, que Paulo mostra para a salvação. “O amor não busca os seus interesses” (1Co 13.5), mas se derrama sobre o irmão. Por ele se agita, por ele se entrega a uma sóbria loucura. “O amor cobre a multidão de pecados” (1Pe 4.8). “O perfeito amor lança fora o medo” (1Jo 4.18). “Não se envaidece, não é orgulhoso; não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba. As profecias são abolidas, as línguas cessam, os dons de cura desaparecem da terra. Mas permanecem estes três: a fé, a esperança, o amor. Porém o maior deles é o amor” (1Co 13.4-8, 13). E com razão. Pois a fé se vai quando somos convencidos pela visão, vendo a Deus. E a esperança se desvanece quando chegam as coisas esperadas. Mas o amor chega à plenitude e cresce ainda mais quando o que é perfeito nos for concedido. Se alguém o introduz em sua alma, ainda que tenha nascido em pecados e praticado muitas coisas proibidas, é capaz, aumentando o amor e adotando um arrependimento puro, de reparar os seus erros. Que isto, pois, não fique entregue por vocês ao desânimo e ao desespero, se aprenderem quem é o rico que não tem lugar no céu, e de que modo ele usa os seus bens.

XXXIX. Se alguém escapar da superfluidade das riquezas e da dificuldade que elas interpõem no caminho da vida, e for capaz de gozar os bens eternos, mas lhe acontecer, seja por ignorância, seja por circunstâncias involuntárias, depois do selo13 e da redenção, cair em pecados ou transgressões a ponto de ser inteiramente arrastado, tal homem é de todo rejeitado por Deus. Pois a todo aquele que se voltou para Deus em verdade e de todo o coração as portas estão abertas, e o Pai, três vezes alegre, recebe o seu filho verdadeiramente arrependido. E o verdadeiro arrependimento é não estar mais preso aos mesmos pecados pelos quais ele pronunciou contra si mesmo a sentença de morte, mas extirpá-los completamente da alma. Pois, uma vez extirpados, Deus volta a fazer morada em você. Pois se diz que há grande e extraordinária alegria e festa nos céus, junto ao Pai e aos anjos, quando um pecador se converte e se arrepende (Lc 15.10). Por isso também ele clama: “Quero misericórdia, e não sacrifício” (Os 6.6; Mt 9.13). “Não desejo a morte do pecador, mas o seu arrependimento” (Ez 18.23). “Ainda que os seus pecados sejam como lã escarlate, eu os tornarei brancos como a neve; ainda que sejam mais negros que as trevas, eu os lavarei e os tornarei como lã branca” (Is 1.18). Pois só Deus tem o poder de conceder o perdão dos pecados e de não imputar as transgressões; visto que também o Senhor nos ordena perdoar cada dia aos irmãos que se arrependem. “E, se nós, sendo maus, sabemos dar boas dádivas” (Lc 11.13), muito mais é da natureza do Pai das misericórdias, o bom Pai de toda consolação, cheio de compaixão, muito misericordioso, ser paciente e esperar os que se voltaram. E voltar-se é realmente cessar de pecar e não olhar mais para trás.

XL. O perdão dos pecados passados, então, Deus o concede; mas o dos futuros, cada um o concede a si mesmo. E isto é arrepender-se: condenar os atos passados e pedir o esquecimento deles ao Pai, o único de todos capaz de desfazer o que está feito, pela misericórdia que procede dele, e de apagar os pecados anteriores pelo orvalho do Espírito. “Pois no estado em que eu os encontrar, nesse os julgarei”,14 é também o que, em cada caso, o fim de todas as coisas proclama em alta voz. De modo que, mesmo no caso de alguém que praticou as maiores boas obras em sua vida, mas no fim se precipitou na maldade, todos os seus esforços anteriores lhe são inúteis,15 já que, no desfecho do drama, abandonou o seu papel; ao passo que é possível ao homem que antes levou uma vida má e dissoluta, arrependendo-se depois, vencer, no tempo que se segue ao arrependimento, a má conduta de muito tempo. Mas isso requer grande cuidado, assim como os corpos que sofreram de doença prolongada precisam de dieta e atenção especial. Ladrão, você quer obter perdão? Não roube mais. Adúltero, não arda mais. Fornicador, viva daqui em diante castamente. Você que roubou, devolva, e devolva mais do que [tomou]. Falsa testemunha, pratique a verdade. Perjuro, não jure mais, e extirpe o restante das paixões: ira, desejo, tristeza, medo; para que você seja achado, no fim, como quem já neste mundo se reconciliou com o adversário. Provavelmente é impossível, então, erradicar de uma só vez as paixões inatas; mas, pelo poder de Deus, pela intercessão humana, pela ajuda dos irmãos, pelo arrependimento sincero e pelo cuidado constante, elas são corrigidas.

XLI. Por isso, é absolutamente necessário que você, que é pomposo, poderoso e rico, ponha sobre si algum homem de Deus como treinador e guia. Reverencie, ainda que seja um só homem; tema, ainda que seja um só homem. Disponha-se a ouvir, ainda que seja um só a falar com franqueza, usando de dureza e ao mesmo tempo curando. Pois é bom para os olhos não continuarem sempre entregues ao deleite, mas chorarem e arderem às vezes, para maior saúde. Assim também nada é mais pernicioso para a alma do que o prazer ininterrupto. Pois ela fica cega, derretendo-se, se permanece intocada pela palavra ousada. Tema esse homem quando estiver irado; aflija-se com o gemido dele; reverencie-o quando fizer cessar a sua ira; e antecipe-se a ele quando estiver suplicando que o castigo seja afastado. Que ele passe muitas noites sem dormir por você, intercedendo por você junto a Deus, influenciando o Pai com o encanto de litanias familiares. Pois ele não resiste aos seus filhos quando estes imploram a sua compaixão. E por você ele orará com pureza, tido em alta honra como um anjo de Deus, e entristecido não por causa de você, mas em seu favor. Este é o arrependimento sincero. “De Deus não se zomba” (Gl 6.7), nem ele dá atenção a palavras vãs. Pois só ele sonda a medula e os rins do coração, e ouve os que estão no fogo, e escuta os que suplicam no ventre da baleia; e está perto de todos os que creem, e longe dos ímpios, se não se arrependerem.

XLII. E, para que você tenha ainda mais confiança de que, arrependendo-se assim verdadeiramente, resta para você uma esperança segura de salvação, ouça uma história,16 que não é história, mas um relato,17 transmitido e confiado à guarda da memória, acerca do apóstolo João. Pois, quando, após a morte do tirano, ele voltou da ilha de Patmos para Éfeso, ia, a convite, aos territórios vizinhos dos gentios, aqui para estabelecer bispos, ali para pôr em ordem Igrejas inteiras, acolá para ordenar os que eram indicados pelo Espírito.

Tendo chegado a uma das cidades não distantes (cujo nome alguns informam18), e tendo tranquilizado os irmãos quanto a outros assuntos, por fim, olhando para o bispo ali estabelecido e vendo um jovem de corpo vigoroso, de bela aparência e ardente, disse: “Este (jovem) eu confio a você com toda a seriedade, na presença da Igreja e tendo Cristo por testemunha.” E, tendo o bispo aceitado e prometido tudo, ele repetiu a mesma recomendação e o mesmo testemunho. E partiu para Éfeso. E o presbítero, levando para casa o jovem que lhe fora confiado, criou-o, guardou-o, cuidou dele e por fim o batizou. Depois disso afrouxou o seu cuidado e a sua tutela mais rigorosos, pensando que o selo do Senhor que pusera sobre ele era para ele uma proteção completa. Mas, tendo o jovem obtido uma liberdade prematura, alguns rapazes da sua idade, ociosos, dissolutos e versados nos maus caminhos, o corrompem. Primeiro o atraem com muitos banquetes dispendiosos; depois, saindo de noite para assaltar nas estradas, levam-no consigo. Então ousaram executar juntos algo maior. E ele, pouco a pouco, foi se acostumando; e, pela grandeza da sua natureza, tendo se desviado do caminho reto e, como um cavalo forte e de boca dura, tomado o freio nos dentes, precipitou-se com tanto mais força para os abismos. E, tendo desesperado inteiramente da salvação em Deus, já não pensava em coisas pequenas, mas, tendo perpetrado algum grande feito, uma vez que já estava perdido, resolveu ter a mesma sorte que os demais. Tomando-os e formando um bando de salteadores, tornou-se o chefe resoluto dos bandidos, o mais feroz, o mais sanguinário, o mais cruel.

O tempo passou e, tendo surgido alguma necessidade, mandam chamar João de novo. Ele, depois de resolver os outros assuntos pelos quais viera, disse: “Vamos, ó bispo, devolva-nos o depósito que eu e o Salvador confiamos a você diante da Igreja que você preside, tendo-a por testemunha.” O outro ficou a princípio confuso, pensando tratar-se de uma falsa acusação a respeito de dinheiro que não recebera; e não podia nem acreditar na alegação a respeito do que não tinha, nem desacreditar de João. Mas, quando ele disse: “Reclamo o jovem e a alma do irmão”, o ancião, gemendo profundamente e rompendo em lágrimas, disse: “Ele morreu.” “Como, e de que morte?” “Ele morreu”, disse, “para Deus. Pois se tornou mau e perdido, e por fim salteador; e agora ocupou o monte em frente à igreja, com um bando semelhante a ele.” Rasgando, então, as suas vestes e batendo na cabeça com grande lamentação, o apóstolo disse: “Belo guarda da alma de um irmão eu deixei! Mas tragam-me um cavalo, e que alguém me sirva de guia no caminho.” Partiu a cavalo, assim como estava, direto da igreja. Chegando ao lugar, é detido pela sentinela dos salteadores; não fugindo nem suplicando, mas clamando: “Foi para isto que vim. Levem-me ao seu chefe”; o qual, enquanto isso, esperava, armado como estava. Mas, quando reconheceu João, que se aproximava, voltou-se, envergonhado, para fugir. O outro o seguiu com todas as forças, esquecido da sua idade, clamando: “Por que, meu filho, foge de mim, o seu pai, desarmado e velho? Filho, tenha compaixão de mim. Não tenha medo; você ainda tem esperança de vida. Eu darei contas a Cristo por você. Se for preciso, suportarei de bom grado a sua morte, como o Senhor suportou a morte por nós. Por você entregarei a minha vida. Pare, creia; Cristo me enviou.”

E ele, quando ouviu, primeiro parou, olhando para o chão; depois lançou fora as armas, depois tremeu e chorou amargamente. E, aproximando-se o ancião, abraçou-o, falando em sua própria causa com lamentos, como podia, e batizado uma segunda vez com lágrimas, escondendo apenas a mão direita. O outro, empenhando a palavra e assegurando-lhe com juramento que ele encontraria perdão da parte do Salvador, suplicando e caindo de joelhos, e beijando a própria mão direita dele, como já purificada pelo arrependimento, reconduziu-o à igreja. Então, intercedendo com abundantes orações, lutando junto com ele em jejuns contínuos e subjugando a sua mente com variados discursos19 de palavras, não se retirou, como dizem, até restituí-lo à Igreja, apresentando nele um grande exemplo de verdadeiro arrependimento e um grande sinal de regeneração, troféu da ressurreição que esperamos; quando, no fim do mundo, os anjos, radiantes de alegria, cantando hinos e abrindo os céus, receberão nas moradas celestiais os que se arrependem verdadeiramente; e, antes de todos, o próprio Salvador vai ao encontro deles, acolhendo-os, estendendo-lhes a luz sem sombra e sem fim, conduzindo-os ao seio do Pai, à vida eterna, ao Reino dos céus.

Creia alguém nestas coisas, e nos discípulos de Deus, e em Deus, que é o fiador, nas Profecias, nos Evangelhos, nas palavras apostólicas; vivendo de acordo com elas, prestando-lhes ouvidos e praticando as obras, verá, na sua partida, o fim e a demonstração das verdades ensinadas. Pois quem neste mundo acolhe o anjo do arrependimento não se arrependerá no tempo em que deixar o corpo, nem se envergonhará quando vir o Salvador aproximar-se na sua glória e com o seu exército. Ele não teme o fogo.

Mas, se alguém prefere continuar e pecar perpetuamente nos prazeres, e estima a satisfação daqui acima da vida eterna, e se afasta do Salvador, que concede o perdão, não culpe mais nem a Deus, nem as riquezas, nem a sua queda, mas a sua própria alma, que perece voluntariamente. Mas àquele que dirige o olhar para a salvação e a deseja, e pede com ousadia e veemência que ela lhe seja concedida, o bom Pai que está nos céus dará a verdadeira purificação e a vida imutável. A ele, por meio de seu Filho Jesus Cristo, o Senhor dos vivos e dos mortos, e por meio do Espírito Santo, sejam a glória, a honra, o poder, a majestade eterna, agora e sempre, de geração em geração, e de eternidade em eternidade. Amém.

Notas

1. Lê-se aqui saphenismon, em lugar da leitura sophismon, que não dá sentido adequado.

2. Obra mencionada em outro lugar.

3. Combefisius lê “Espírito”.

4. kathara, segundo Segaar, em lugar de katha do manuscrito.

5. Esta, a leitura do manuscrito, foi alterada por vários editores, mas é defendida com razão por Segaar.

6. gen holen, em lugar do qual Fell lê ten holen.

7. tinon, em lugar do qual o texto traz timon.

8. pais.

9. paidos.

10. Talvez alla tenha sido deslocado, e devêssemos ler: “mas falar ao Rei” etc.

11. Segaar lê: Pois que mais direi? Eis os mistérios do amor.

12. Ethelunthe, que ocorre logo em seguida, foi sugerida como a leitura correta aqui. O texto traz etherathe.

13. Isto é, do batismo.

14. Citado com ligeira variação por Justino Mártir, Diálogo com Trifão, cap. XLVII, e considerado por Grabe uma citação do apócrifo Evangelho dos Hebreus.

15. Anonetoi, em lugar do qual o texto traz anoetoi.

16. muthos.

17. logos.

18. Diz-se que é Esmirna.

19. rhesesi logon, em lugar do qual o Cod. Reg. Gall. lê seiresi logon.

Tradução para o português a partir das versões inglesas da coleção Ante-Nicene Fathers (Buffalo, 1885): Clemente de Alexandria por William Wilson (vol. 2), Tertuliano por S. Thelwall (vol. 3) e Cipriano por Ernest Wallis (vol. 5), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta, pela antiga versão latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.