Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão

Capítulos 114 a 125

Regras para entender as profecias; o sacrifício puro de Malaquias; os cristãos são o povo santo prometido a Abraão e os filhos de Deus.

#T10

Capítulo cxiv. Algumas regras para discernir o que se diz a respeito de Cristo. A circuncisão dos judeus é muito diferente daquela que os cristãos recebem

“Pois o Espírito Santo às vezes fazia que algo, que era figura do futuro, fosse realizado de modo visível; outras vezes proferia palavras sobre o que havia de acontecer como se estivesse acontecendo naquele momento, ou já tivesse acontecido. E, se os que leem não perceberem esse modo de proceder, não conseguirão acompanhar como devem as palavras dos profetas. A título de exemplo, repetirei algumas passagens proféticas, para que você entenda o que digo. Quando ele fala por Isaías: ‘Foi levado como ovelha ao matadouro e como cordeiro diante do tosquiador’ (Is 53.7), fala como se o sofrimento já tivesse ocorrido. E quando diz ainda: ‘Estendi as mãos a um povo desobediente e rebelde’ (Is 65.2); e quando diz: ‘Senhor, quem creu em nossa pregação?’ (Is 53.1), as palavras são ditas como se anunciassem acontecimentos que já haviam ocorrido. Pois já mostrei que Cristo muitas vezes é chamado Pedra em parábola e, em linguagem figurada, Jacó e Israel. E de novo, quando diz: ‘Contemplarei os céus, obra dos teus dedos’ (Sl 8.3), se eu não entender o seu modo de usar as palavras,1 não entenderei com inteligência, mas exatamente como supõem os seus mestres, que imaginam que o Pai de todas as coisas, o Deus não gerado, tem mãos e pés, e dedos, e uma alma, como um ser composto; e por essa razão eles ensinam que foi o próprio Pai que apareceu a Abraão e a Jacó. Bem-aventurados, pois, somos nós, que fomos circuncidados pela segunda vez com facas de pedra. Pois a primeira circuncisão de vocês foi e é feita com instrumentos de ferro, porque vocês continuam de coração endurecido; mas a nossa circuncisão, que é a segunda, instituída depois da de vocês, nos circuncida da idolatria e de absolutamente toda espécie de maldade com pedras afiadas, isto é, com as palavras [pregadas] pelos apóstolos da pedra angular cortada sem auxílio de mãos. E assim o nosso coração é circuncidado do mal, de modo que temos alegria em morrer pelo nome da boa Rocha, que faz brotar água viva para o coração dos que por meio dela amaram o Pai de todas as coisas, e que dá a beber da água da vida aos que querem. Mas vocês não me compreendem quando digo essas coisas; pois não entenderam o que foi profetizado que Cristo faria, e não creem em nós, que chamamos a atenção de vocês para o que está escrito. Pois Jeremias clama assim: ‘Ai de vocês! Porque abandonaram a fonte viva e cavaram para si cisternas rachadas, que não podem reter água’ (Jr 2.13). ‘Haverá um deserto onde está o monte Sião, porque eu dei a Jerusalém carta de divórcio diante de vocês?’

Capítulo cxv. Predição sobre os cristãos em zacarias. A maneira maliciosa que os judeus têm de discutir

“Mas vocês deveriam crer em Zacarias, quando ele mostra em parábola o mistério de Cristo e o anuncia de modo velado. Estas são as suas palavras: ‘Alegre-se e regozije-se, ó filha de Sião, porque eis que venho e habitarei no meio de você, diz o Senhor. E muitas nações se juntarão ao Senhor naquele dia. E serão o meu povo, e habitarei no meio de você; e saberão que o Senhor dos Exércitos me enviou a você. E o Senhor herdará Judá, a sua porção na terra santa, e escolherá de novo Jerusalém. Tema toda carne diante do Senhor, porque ele se levantou das suas santas nuvens. E ele me mostrou Jesus (Josué), o sumo sacerdote, que estava diante do anjo [do Senhor2]; e o diabo estava à sua direita para se opor a ele. E o Senhor disse ao diabo: O Senhor, que escolheu Jerusalém, repreenda você. Eis que não é este um tição tirado do fogo?'” (Zc 2.10-13; 3.1-2)

Quando Trifão ia responder e me contradizer, eu disse: “Espere e ouça primeiro o que digo, pois não vou dar a explicação que você supõe, como se não tivesse havido nenhum sacerdote com o nome de Josué (Jesus) na terra da Babilônia, onde o povo de vocês estava cativo. Mas, mesmo que o fizesse, já mostrei que, se houve3 um sacerdote chamado Josué (Jesus) no meio do povo de vocês, o profeta, contudo, não o vira na sua revelação, assim como não vira o diabo nem o anjo do Senhor com os olhos e em estado de vigília, mas em êxtase, no momento em que a revelação lhe foi feita. Mas agora digo que, assim como [a Escritura] disse que o filho de Nave (Num), com o nome de Jesus (Josué), realizou obras poderosas e façanhas que proclamavam de antemão o que seria realizado pelo nosso Senhor, assim passo agora a mostrar que a revelação feita no meio do povo de vocês, na Babilônia, nos dias do sacerdote Jesus (Josué), foi um anúncio das coisas que seriam realizadas pelo nosso Sacerdote, que é Deus, e Cristo, o Filho de Deus, Pai de todas as coisas.

“Na verdade, admirei-me”, continuei, “de que há pouco vocês ficassem calados enquanto eu falava, e de que não me interrompessem quando eu disse que o filho de Nave (Num) foi o único dos contemporâneos que saíram do Egito a entrar na Terra Santa junto com os homens descritos como mais jovens que aquela geração. Pois vocês, como moscas, se ajuntam e pousam sobre as feridas. Porque, ainda que alguém diga bem dez mil palavras, se acontecer de haver uma só palavrinha que desagrade a vocês, por não ser bastante inteligível ou exata, vocês não fazem caso das muitas palavras boas, mas se agarram à palavrinha e se empenham muito em apresentá-la como algo ímpio e culpável; para que, quando forem julgados por Deus com esse mesmo juízo, tenham contas muito mais pesadas a prestar pelas suas grandes ousadias, sejam más ações, sejam más interpretações que vocês obtêm falsificando a verdade. Pois com o juízo com que vocês julgam é justo que vocês sejam julgados.

Capítulo cxvi. Mostra-se como essa profecia se aplica aos cristãos

“Mas, para dar a vocês a explicação da revelação do santo Jesus Cristo, retomo o meu discurso e afirmo que também aquela revelação foi feita para nós, que cremos em Cristo, o Sumo Sacerdote, a saber, este Crucificado; e, embora vivêssemos em fornicação e em toda espécie de conduta imunda, nós, pela graça do nosso Jesus, segundo a vontade do seu Pai, nos despojamos de todas aquelas imundas maldades de que estávamos impregnados. E, embora o diabo esteja sempre por perto para se opor a nós, e ansioso por seduzir todos para si, o Anjo de Deus, isto é, o Poder de Deus enviado a nós por meio de Jesus Cristo, o repreende, e ele se afasta de nós. E somos como que tirados do fogo, quando purificados dos nossos pecados anteriores e [livrados] da aflição e da prova de fogo com que o diabo e todos os seus cúmplices nos provam; delas Jesus, o Filho de Deus, prometeu de novo nos livrar4 e nos revestir de vestes preparadas, se cumprirmos os seus mandamentos; e se encarregou de [nos] proporcionar um reino eterno. Pois, assim como aquele Jesus (Josué), chamado sacerdote pelo profeta, evidentemente trazia vestes imundas porque se diz que tomou por esposa uma prostituta,5 e é chamado tição tirado do fogo porque recebera o perdão dos pecados quando foi repreendido o diabo que se opunha a ele; assim também nós, que pelo nome de Jesus cremos como um só homem em Deus, o Criador de todas as coisas, fomos despojados, pelo nome do seu Filho primogênito, das vestes imundas, isto é, dos nossos pecados; e, ardentemente inflamados pela palavra do seu chamado, somos a verdadeira raça sumo sacerdotal de Deus, como o próprio Deus testemunha, ao dizer que em todo lugar entre os gentios lhe são apresentados sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não recebe sacrifícios de ninguém, a não ser por meio dos seus sacerdotes.

Capítulo cxvii. A profecia de malaquias sobre os sacrifícios dos cristãos. Não pode ser entendida como referente às orações dos judeus da dispersão

“Assim, Deus, antecipando todos os sacrifícios que oferecemos por meio deste nome, e que Jesus, o Cristo, nos mandou oferecer, isto é, na Eucaristia do pão e do cálice, e que são apresentados pelos cristãos em todos os lugares do mundo, testemunha que lhe são agradáveis. Mas rejeita inteiramente os que são apresentados por vocês e por aqueles sacerdotes de vocês, dizendo: ‘E não aceitarei os sacrifícios das mãos de vocês; pois, desde o nascente do sol até o poente, o meu nome é glorificado entre os gentios (diz ele); mas vocês o profanam’ (Ml 1.10-12). E, no entanto, ainda agora, no seu amor à contenda, vocês afirmam que Deus não aceita os sacrifícios dos que habitavam então em Jerusalém e se chamavam israelitas, mas que diz agradar-se das orações dos indivíduos daquela nação que então estavam dispersos, e chama sacrifícios às orações deles. Ora, que as orações e as ações de graças, quando oferecidas por homens dignos, são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus, também eu admito. Pois só esses os cristãos se encarregaram de oferecer, também na memória que se faz com o seu alimento sólido e líquido, pela qual se recorda o sofrimento que o Filho de Deus6 suportou, cujo nome os sumos sacerdotes do povo de vocês e os seus mestres fizeram ser profanado e blasfemado por toda a terra. Mas essas vestes imundas, que vocês lançaram sobre todos os que se tornaram cristãos pelo nome de Jesus, Deus mostra que nos serão tiradas, quando ressuscitar todos os homens dentre os mortos e designar uns para serem incorruptíveis, imortais e livres de tristeza no reino eterno e imperecível, e mandar outros para o castigo eterno do fogo. Mas, quanto a vocês e aos seus mestres, que se enganam ao interpretar o que a Escritura diz como referente aos da sua nação que então estavam na dispersão, e ao sustentar que as orações e os sacrifícios deles, oferecidos em todo lugar, são puros e agradáveis, saibam que falam falsamente e procuram por todos os meios enganar a si mesmos. Pois, em primeiro lugar, nem mesmo agora o povo de vocês se estende do nascente ao poente do sol; ao contrário, há nações entre as quais nunca habitou ninguém da sua raça. Pois não há uma só raça de homens, sejam bárbaros, sejam gregos, seja qual for o nome que tenham, nômades, ou errantes, ou pastores que vivem em tendas, entre os quais não se ofereçam orações e ações de graças pelo nome de Jesus crucificado. E, além disso,7 como mostram as Escrituras, no tempo em que Malaquias escreveu isto, a dispersão de vocês por toda a terra, que agora existe, ainda não tinha acontecido.

Capítulo cxviii. Exorta ao arrependimento antes que Cristo venha; nele os cristãos, porque creem, são muito mais religiosos do que os judeus

“De modo que vocês deveriam antes desistir do amor à contenda e se arrepender antes que venha o grande dia do juízo, em que todos os das suas tribos que traspassaram este Cristo se lamentarão, como mostrei ter sido declarado pelas Escrituras. E expliquei que o Senhor jurou ‘segundo a ordem de Melquisedeque’ (Sl 110.4), e o que significa essa predição; e a profecia de Isaías que diz: ‘A sua sepultura foi tirada do meio’ (Is 53.8), já disse que se referia ao futuro sepultamento e à ressurreição de Cristo; e muitas vezes observei que este mesmo Cristo é o Juiz de todos os vivos e mortos. E Natã, igualmente, falando a Davi a respeito dele, prosseguiu assim: ‘Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho; e não retirarei dele a minha misericórdia, como fiz com os que foram antes dele; e o estabelecerei na minha casa e no seu reino para sempre’ (2Sm 7.14-16). E Ezequiel diz: ‘Não haverá outro príncipe na casa senão ele’ (Ez 44.3). Pois ele é o Sacerdote escolhido e o Rei eterno, o Cristo, visto que é o Filho de Deus; e não pensem que Isaías ou os outros profetas falam de sacrifícios de sangue ou de libações apresentados no altar na sua segunda vinda, mas de verdadeiros e espirituais louvores e ações de graças. E não foi em vão que cremos nele, nem fomos desencaminhados pelos que nos ensinaram tais doutrinas; mas isso aconteceu pela admirável presciência de Deus, para que nós, pelo chamado da nova e eterna aliança, isto é, de Cristo, fôssemos achados mais inteligentes e mais tementes a Deus do que vocês, que são tidos por amigos de Deus e homens de entendimento, mas não o são. Isaías, cheio de admiração diante disso, disse: ‘E os reis fecharão a boca; porque aqueles a quem nada foi anunciado a respeito dele8 verão, e os que não ouviram entenderão. Senhor, quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do Senhor?’ (Is 52.15; 53.1)

“E, ao repetir isto, Trifão”, continuei, “na medida do que é permitido, procuro fazê-lo por causa dos que vieram hoje com você, mas de forma breve e concisa.”

Ele então respondeu: “Você faz bem; e, ainda que repita as mesmas coisas com bastante extensão, tenha certeza de que eu e os meus companheiros o ouvimos com prazer.”

Capítulo cxix. Os cristãos são o povo Santo prometido a Abraão. Foram chamados como Abraão

Então eu disse de novo: “Vocês pensam, senhores, que poderíamos algum dia ter entendido essas coisas nas Escrituras, se não tivéssemos recebido a graça de discernir pela vontade daquele a quem isso agradou? Para que se cumprisse a palavra de Moisés:9 ‘Provocaram-me com [deuses] estranhos, provocaram-me à ira com as suas abominações. Sacrificaram a demônios que não conheciam; a deuses novos, que surgiram há pouco, que os seus pais não conheceram. Abandonaste o Deus que te gerou e esqueceste o Deus que te criou. E o Senhor viu, e teve ciúmes, e foi provocado à ira por causa do furor dos seus filhos e das suas filhas; e disse: Desviarei deles o meu rosto e mostrarei o que lhes sobrevirá no fim; porque é uma geração muito perversa, filhos em quem não há fé. Provocaram-me ciúmes com aquilo que não é Deus, provocaram-me à ira com os seus ídolos; e eu lhes provocarei ciúmes com aquele que não é povo, e os provocarei à ira com uma nação insensata. Porque um fogo se acendeu na minha ira e arderá até o Hades. Consumirá a terra e os seus frutos e incendiará os fundamentos dos montes; amontoarei males sobre eles’ (Dt 32.16-23). E, depois que aquele Justo foi morto, nós florescemos como outro povo e brotamos como trigo novo e viçoso; como disseram os profetas: ‘E muitas nações se acolherão ao Senhor naquele dia para serem um povo; e habitarão no meio de toda a terra’ (Zc 2.11). Mas não somos apenas um povo, mas também um povo santo, como já mostramos.10 ‘E os chamarão povo santo, remidos do Senhor’ (Is 62.12). Portanto, não somos um povo desprezível, nem uma raça bárbara, nem como as nações cária e frígia; mas Deus até nos escolheu, e se manifestou aos que não perguntavam por ele. ‘Eis que sou Deus’, diz ele, ‘para a nação que não invocava o meu nome’ (Is 65.1). Pois esta é aquela nação que Deus prometeu outrora a Abraão, quando declarou que o faria pai de muitas nações; não se referindo, porém, aos árabes, nem aos egípcios, nem aos idumeus, visto que Ismael se tornou pai de uma grande nação, e também Esaú; e há agora uma grande multidão de amonitas. Além disso, Noé foi pai de Abraão e, de fato, de todos os homens; e outros foram progenitores de outros. Que medida maior de graça, então, Cristo concedeu a Abraão? Esta: que o chamou com a sua voz por semelhante chamado, dizendo-lhe que deixasse a terra em que morava. E a todos nós ele chamou por aquela voz, e já abandonamos o modo de vida em que costumávamos passar os nossos dias, vivendo no mal segundo os costumes dos demais habitantes da terra; e, junto com Abraão, herdaremos a terra santa, quando recebermos a herança por uma eternidade sem fim, sendo filhos de Abraão pela fé semelhante. Pois, assim como ele creu na voz de Deus e isso lhe foi imputado para justiça, do mesmo modo nós, tendo crido na voz de Deus falada pelos apóstolos de Cristo e anunciada a nós pelos profetas, renunciamos até a morte a todas as coisas do mundo. Por isso ele lhe promete uma nação de fé semelhante, temente a Deus, justa e que agrada ao Pai; mas não são vocês, ‘em quem não há fé’.

Capítulo cxx. Os cristãos foram prometidos a isaque, a Jacó e a Judá

“Observem também como as mesmas promessas são feitas a Isaque e a Jacó. Pois assim ele fala a Isaque: ‘E na sua descendência serão benditas todas as nações da terra’ (Gn 26.4). E a Jacó: ‘E em você e na sua descendência serão benditas todas as famílias da terra’ (Gn 28.14). Ele não diz isso a Esaú, nem a Rúben, nem a nenhum outro; só àqueles dos quais o Cristo haveria de surgir, segundo a economia divina, por meio da Virgem Maria. Mas, se vocês considerassem a bênção de Judá, perceberiam o que digo. Pois a descendência se divide a partir de Jacó e desce por Judá, e Farés, e Jessé, e Davi. E isso era símbolo de que alguns do povo de vocês seriam achados filhos de Abraão e achados também na porção de Cristo; mas que outros, que são de fato filhos de Abraão, seriam como a areia da praia do mar, estéril e infrutífera, muita em quantidade e de fato sem número, mas que não produz fruto algum e só bebe a água do mar. E uma enorme multidão do povo de vocês fica demonstrada como sendo dessa espécie, absorvendo doutrinas de amargura e impiedade, mas desprezando a palavra de Deus. Ele diz, portanto, na passagem relativa a Judá: ‘Não faltará príncipe de Judá, nem chefe de entre as suas coxas, até que venha aquilo que está reservado para ele; e ele será a expectativa das nações’ (Gn 49.10). E é evidente que isso não foi dito de Judá, mas de Cristo. Pois todos nós, de todas as nações, não esperamos Judá, mas Jesus, que tirou do Egito os pais de vocês. Pois a profecia se referia também à vinda de Cristo: ‘Até que venha aquele para quem isto está reservado, e ele será a expectativa das nações.’ Jesus veio, portanto, como mostramos longamente, e espera-se que apareça de novo acima das nuvens; e vocês profanam o seu nome e se esforçam muito para que seja profanado por toda a terra. Seria possível para mim, senhores”, continuei, “discutir com vocês sobre a leitura que vocês interpretam assim, dizendo que está escrito: ‘Até que venham as coisas reservadas para ele’, embora os Setenta não o tenham traduzido assim, mas deste modo: ‘Até que venha aquele para quem isto está reservado.’ Mas, como o que se segue indica que a referência é a Cristo (pois diz: ‘e ele será a expectativa das nações’), não passo a travar com vocês uma mera disputa de palavras, assim como não procurei estabelecer a prova a respeito de Cristo com base nas passagens da Escritura que vocês não admitem, as quais citei das palavras do profeta Jeremias, e de Esdras, e de Davi, mas com base nas que ainda agora vocês admitem; as quais, se os seus mestres as tivessem compreendido, tenham certeza, eles as teriam suprimido, como fizeram com as que tratavam da morte de Isaías, a quem vocês serraram ao meio com uma serra de madeira. E isso era uma figura misteriosa de que Cristo haveria de cortar em dois o povo de vocês e de elevar os dignos dessa honra ao reino eterno, junto com os santos patriarcas e profetas; mas ele disse que mandará outros à condenação do fogo inextinguível, junto com homens igualmente desobedientes e impenitentes de todas as nações. ‘Pois virão’, disse ele, ‘do Ocidente e do Oriente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores’ (Mt 8.11-12). E mencionei estas coisas sem levar absolutamente nada em conta senão dizer a verdade, recusando-me a ser coagido por quem quer que seja, ainda que eu fosse imediatamente despedaçado por vocês. Pois não tive consideração alguma por ninguém do meu povo, isto é, os samaritanos, quando me comuniquei por escrito com César,11 mas declarei que eles erravam ao confiar no mago Simão, da sua própria nação, que, segundo dizem, é Deus acima de todo poder, autoridade e força.”

Capítulo cxxi. Do fato de que os gentios creem em Jesus, é evidente que ele é o Cristo

E, como eles ficaram calados, prossegui: “[A Escritura], falando por Davi a respeito deste Cristo, meus amigos, já não disse que ‘na sua descendência’ as nações seriam abençoadas, mas ‘nele’. Assim é aqui: ‘O seu nome se levantará para sempre acima do sol; e nele serão abençoadas todas as nações’ (Sl 72.17). Mas, se todas as nações são abençoadas em Cristo, e nós, de todas as nações, cremos nele, então ele é de fato o Cristo, e nós somos os abençoados por ele. Deus deu outrora o sol como objeto de culto,12 como está escrito, mas nunca se viu ninguém suportar a morte por causa da sua fé no sol; ao passo que, pelo nome de Jesus, vocês podem ver homens de todas as nações que suportaram e suportam todos os sofrimentos antes que negá-lo. Pois a palavra da sua verdade e sabedoria é mais ardente e mais luminosa do que os raios do sol, e penetra nas profundezas do coração e da mente. Por isso a Escritura também disse: ‘O seu nome se levantará acima do sol.’ E ainda Zacarias diz: ‘O seu nome é Oriente’ (Zc 6.12). E, falando do mesmo, diz que ‘cada tribo se lamentará’ (Zc 12.12). Mas, se ele de tal modo resplandeceu e foi tão poderoso na sua primeira vinda (que foi sem honra nem formosura, e muito desprezível), que não há nação em que ele seja desconhecido, e em toda parte os homens se arrependeram da antiga maldade no modo de vida de cada nação, de sorte que até os demônios se sujeitaram ao seu nome, e todos os poderes e reinos temeram o seu nome mais do que temiam todos os mortos, não destruirá ele, na sua vinda gloriosa, de todos os modos, todos os que o odiaram e que injustamente se afastaram dele, e não dará descanso aos seus, recompensando-os com tudo o que esperaram? A nós, portanto, foi concedido ouvir, e entender, e ser salvos por este Cristo, e reconhecer todas as [verdades reveladas] pelo Pai. Por isso ele lhe disse: ‘Grande coisa é para ti seres chamado meu servo, para levantar as tribos de Jacó e fazer voltar os dispersos de Israel. Eu te constituí luz para os gentios, para que sejas a salvação deles até os confins da terra’ (Is 49.6).

Capítulo cxxii. Os judeus, sem razão, entendem isto dos prosélitos

“Vocês pensam que essas palavras se referem ao estrangeiro13 e aos prosélitos, mas na verdade se referem a nós, que fomos iluminados por Jesus. Pois Cristo teria dado testemunho também a eles; mas agora vocês se tornaram duas vezes mais filhos do inferno, como ele mesmo disse (Mt 23.15). Portanto, o que foi escrito pelos profetas não foi dito daquelas pessoas, mas de nós, a respeito de quem a Escritura diz: ‘Guiarei os cegos por um caminho que não conheciam, e andarão por veredas que não conheceram. E eu sou testemunha, diz o Senhor Deus, e o meu servo, a quem escolhi’ (Is 42.16; 43.10). A quem, então, Cristo dá testemunho? Evidentemente, aos que creram. Mas os prosélitos não só não creem, como blasfemam o seu nome duas vezes mais do que vocês, e querem torturar e matar a nós, que cremos nele; pois em tudo se esforçam por ser semelhantes a vocês. E de novo, com outras palavras, ele clama: ‘Eu, o Senhor, te chamei em justiça, e tomarei a tua mão, e te fortalecerei, e te darei como aliança do povo, como luz dos gentios, para abrir os olhos dos cegos, para tirar das suas cadeias os presos’ (Is 42.6-7). Estas palavras, senhores, se referem também a Cristo e dizem respeito às nações iluminadas; ou dirão vocês de novo que ele lhes fala da lei e dos prosélitos?”

Então alguns dos que tinham vindo no segundo dia gritaram, como se estivessem num teatro: “Mas como? Ele não se refere à lei e aos que são iluminados por ela? Ora, estes são os prosélitos.”

“Não”, disse eu, olhando para Trifão, “porque, se a lei fosse capaz de iluminar as nações e os que a possuem, que necessidade haveria de uma nova aliança? Mas, como Deus anunciou de antemão que enviaria uma nova aliança e uma lei e um mandamento eternos, não entenderemos isto da antiga lei e dos seus prosélitos, mas de Cristo e dos seus prosélitos, a saber, nós, os gentios, a quem ele iluminou, como diz em algum lugar: ‘Assim diz o Senhor: No tempo aceitável te ouvi e no dia da salvação te socorri, e te dei como aliança do povo, para restaurar a terra e herdar o que estava abandonado’ (Is 49.8). Qual é, então, a herança de Cristo? Não são as nações? Qual é a aliança de Deus? Não é Cristo? Como diz em outro lugar: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você. Peça-me, e eu lhe darei as nações por herança e as extremidades da terra por sua possessão’ (Sl 2.7-8).

Capítulo cxxiii. Interpretações ridículas dos judeus. Os cristãos são o verdadeiro Israel

“Portanto, assim como todas essas últimas profecias se referem a Cristo e às nações, vocês deveriam crer que as primeiras se referem do mesmo modo a ele e a elas. Pois os prosélitos não têm necessidade de aliança, se, havendo uma só e mesma lei imposta a todos os que são circuncidados, a Escritura fala deles assim: ‘E também o estrangeiro se juntará a eles, e se unirá à casa de Jacó’ (Is 14.1); e porque o prosélito, que é circuncidado para ter acesso ao povo, se torna como um deles,14 ao passo que nós, que fomos considerados dignos de ser chamados povo, somos ainda gentios, porque não fomos circuncidados. Além disso, é ridículo vocês imaginarem que os olhos dos prosélitos hão de ser abertos e os de vocês não, e que vocês sejam entendidos como cegos e surdos enquanto eles são iluminados. E será ainda mais ridículo para vocês, se disserem que a lei foi dada às nações, mas vocês não a conheceram. Pois vocês teriam temido a ira de Deus e não seriam filhos sem lei e desgarrados, muito receosos de ouvir Deus dizer sempre: ‘Filhos em quem não há fé. E quem é cego senão os meus servos? E surdo senão os que dominam sobre eles? E os servos de Deus ficaram cegos. Vocês veem muitas vezes, mas não observaram; os seus ouvidos foram abertos, e vocês não ouviram’ (Dt 32.20; Is 42.19-20). É honroso para vocês esse elogio de Deus? E é conveniente para os seus servos esse testemunho de Deus? Vocês não se envergonham, embora ouçam muitas vezes estas palavras. Não tremem diante das ameaças de Deus, porque são um povo insensato e de coração endurecido. ‘Portanto, eis que passarei a remover este povo’, diz o Senhor; ‘e os removerei, e destruirei a sabedoria dos sábios, e esconderei o entendimento dos prudentes’ (Is 29.14). E com razão: pois vocês não são nem sábios nem prudentes, mas astutos e sem escrúpulos; sábios só para fazer o mal, mas inteiramente incapazes de conhecer o conselho oculto de Deus, ou a aliança fiel do Senhor, ou de descobrir as veredas eternas. ‘Portanto, diz o Senhor, suscitarei para Israel e para Judá semente de homens e semente de animais’ (Jr 31.27). E por Isaías ele fala assim a respeito de outro Israel: ‘Naquele dia haverá um terceiro Israel entre os assírios e os egípcios, abençoado na terra que o Senhor dos Exércitos abençoou, dizendo: Bendito seja o meu povo no Egito e na Assíria, e Israel, minha herança’ (Is 19.24-25). Visto, pois, que Deus abençoa este povo, e o chama Israel, e declara que é a sua herança, como é que vocês não se arrependem do engano que praticam contra si mesmos, como se só vocês fossem o Israel, e de amaldiçoar o povo que Deus abençoou? Pois, quando fala a Jerusalém e aos seus arredores, acrescentou assim: ‘E farei nascer homens sobre vocês, o meu povo Israel; e eles herdarão vocês, e vocês serão possessão deles; e nunca mais ficarão privados deles'” (Ez 36.12).

“Como assim?”, diz Trifão. “Vocês são Israel? E ele diz tais coisas a respeito de vocês?”

“Se, de fato”, respondi-lhe, “não tivéssemos entrado numa longa discussão sobre esses assuntos, eu poderia duvidar se você faz esta pergunta por ignorância; mas, visto que levamos a questão a uma conclusão por demonstração e com o seu assentimento, não creio que você ignore o que acabo de dizer, nem que deseje de novo uma simples contenda, mas que me está instando a apresentar a mesma prova a estes homens.” E, atendendo ao assentimento expresso nos seus olhos, continuei: “Também em Isaías, se você tem ouvidos para ouvir, Deus, falando de Cristo em parábola, o chama Jacó e Israel. Diz assim: ‘Jacó é o meu servo, eu o sustentarei; Israel é o meu escolhido, porei sobre ele o meu Espírito, e ele trará o juízo aos gentios. Não contenderá, nem clamará, nem ninguém ouvirá a sua voz na rua; não quebrará a cana machucada, nem apagará o pavio que fumega; mas trará o juízo para a verdade; ele resplandecerá15 e não será quebrado até que estabeleça o juízo na terra. E no seu nome os gentios esperarão’ (Is 42.1-4). Assim, pois, como de um só homem, Jacó, que recebeu o sobrenome de Israel, todo o povo de vocês foi chamado Jacó e Israel, assim também nós, por Cristo, que nos gerou para Deus, como Jacó, e Israel, e Judá, e José, e Davi, somos chamados e somos verdadeiros filhos de Deus, e guardamos os mandamentos de Cristo.”

Capítulo cxxiv. Os cristãos são filhos de Deus

E, quando vi que estavam perturbados porque eu disse que somos filhos de Deus, antecipei-me às suas perguntas e disse: “Ouçam, senhores, como o Espírito Santo fala deste povo, dizendo que todos são filhos do Altíssimo, e como este mesmo Cristo estará presente na assembleia deles, fazendo juízo a todos os homens. As palavras são ditas por Davi e são, segundo a versão de vocês, assim: ‘Deus está na congregação dos deuses; ele julga no meio dos deuses. Até quando julgarão injustamente e farão acepção de pessoas em favor dos ímpios? Julguem a causa do órfão e do pobre, e façam justiça ao humilde e ao necessitado. Livrem o necessitado e salvem o pobre da mão dos ímpios. Eles não sabem nem entenderam; andam em trevas; todos os fundamentos da terra serão abalados. Eu disse: Vocês são deuses e todos filhos do Altíssimo. Mas morrem como homens e caem como um dos príncipes. Levanta-te, ó Deus! Julga a terra, pois tu herdarás todas as nações’ (Sl 82.1-8). Mas na versão dos Setenta está escrito: ‘Eis que vocês morrem como homens e caem como um dos príncipes’,16 para mostrar a desobediência dos homens, quero dizer, de Adão e Eva, e a queda de um dos príncipes, isto é, daquele que foi chamado a serpente, que caiu com grande ruína, porque enganou Eva. Mas, como o meu discurso não pretende tocar nesse ponto, mas provar a vocês que o Espírito Santo censura os homens porque foram feitos semelhantes a Deus, livres de sofrimento e de morte, contanto que guardassem os seus mandamentos, e foram julgados dignos do nome de seus filhos, e, contudo, eles, tornando-se semelhantes a Adão e Eva, produzem a morte para si mesmos, entenda-se a interpretação do salmo como vocês quiserem; ainda assim fica demonstrado por ele que todos os homens são considerados dignos de se tornarem ‘deuses’ e de terem o poder de se tornarem filhos do Altíssimo; e cada um, por si mesmo, será julgado e condenado como Adão e Eva. Ora, já provei longamente que Cristo é chamado Deus.

Capítulo cxxv. Explica que força tem a palavra Israel e como ela se aplica a Cristo

“Gostaria, senhores”, disse eu, “de aprender de vocês qual é a força do nome Israel.” E, como ficaram calados, continuei: “Direi o que sei, pois não acho justo, sabendo, deixar de falar; nem, suspeitando que vocês sabem e, contudo, por inveja ou por ignorância voluntária enganam a si mesmos,17 ficar continuamente ansioso; mas digo todas as coisas com simplicidade e franqueza, como disse o meu Senhor: ‘O semeador saiu a semear a semente; e uma parte caiu à beira do caminho, e outra entre os espinhos, e outra em solo rochoso, e outra em boa terra’ (Mt 13.3-8). Devo falar, então, na esperança de encontrar boa terra em algum lugar; visto que aquele meu Senhor, como alguém forte e poderoso, vem reclamar de todos o que é seu, e não condenará o seu administrador se reconhecer que ele, sabendo que o Senhor é poderoso e que veio reclamar o que é seu, o entregou a todo banqueiro e não o enterrou por motivo algum. Assim, o nome Israel significa isto: homem que vence o poder; pois Isra é homem que vence, e El é poder. E que Cristo agiria assim quando se fizesse homem foi predito pelo mistério da luta de Jacó com aquele que lhe apareceu, visto que ele servia à vontade do Pai e, não obstante, é Deus, por ser o primogênito de todas as criaturas. Pois, quando se fez homem, como observei antes, o diabo veio a ele, isto é, aquele poder que é chamado serpente e Satanás, tentando-o e procurando causar a sua queda ao pedir-lhe que o adorasse. Mas ele destruiu e derrubou o diabo, provando que era mau, porque pedia para ser adorado como Deus, contra a Escritura; ele, que é apóstata da vontade de Deus. Pois responde-lhe: ‘Está escrito: Adore o Senhor, seu Deus, e preste culto somente a ele’ (Mt 4.10). Então, vencido e confundido, o diabo se retirou naquela ocasião. Mas, como o nosso Cristo havia de ficar entorpecido, isto é, pela dor e pela experiência do sofrimento, ele o deu a entender de antemão tocando a coxa de Jacó e fazendo-a encolher. Mas Israel era o seu nome desde o princípio, e para ele mudou o nome do bem-aventurado Jacó quando o abençoou com o seu próprio nome, proclamando com isso que todos os que por meio dele se refugiaram no Pai constituem o Israel bendito. Mas vocês, não tendo entendido nada disso e não estando dispostos a entender, esperam ser salvos com toda a certeza porque são filhos de Jacó segundo a descendência carnal. Mas que vocês se enganam em tais coisas, já provei com muitas palavras.

Notas

1. Literalmente, “a operação das suas palavras”. Editores mudaram ton logon (genitivo plural) para ton logon (acusativo singular) ou tou logou, mas não há necessidade de mudança.

2. Omitido por Justino neste lugar.

3. A leitura sugerida por Maranus, ei men en.

4. Maranus mudou apospa para apospan, emenda adotada na nossa tradução. Otto conserva a leitura do manuscrito: “das quais Jesus, o Filho de Deus, de novo nos arrebata. Prometeu que nos revestiria de” etc.

5. Justino ou confunde Josué, filho de Jozadaque, com o profeta Oseias, ou se refere à tradição judaica de que as “vestes imundas” significavam um casamento ilícito, ou os pecados do povo, ou a miséria do cativeiro.

6. Ou “Deus de Deus”.

7. eita de em lugar de eidotes.

8. Os manuscritos dizem “deles”. Otto mudou para “dele”.

9. Literalmente, “no tempo de Moisés”.

10. Veja o cap. CX.

11. Primeira Apologia, 26; Segunda Apologia, 15.

12. Assim conclui Justino de Dt 4.19; compare o cap. LV.

13. Geora ou Geiora. Encontra-se na LXX, Êx 12.19 e Is 14.1.

14. Literalmente, “um natural da terra”.

15. LXX analampsei, como acima. A leitura do texto é analepsei.

16. No texto não se faz, certamente, nenhuma distinção. Mas, se lermos hos anthropos (k’dm), “como um homem”, na primeira citação, poderemos acompanhar o argumento de Justino.

17. A leitura aqui é epistamai autos, que geralmente se abandona em favor de apatan heautous.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.