Justino Mártir, Diálogo com Trifão · Diálogo com Trifão
Os nomes de Cristo; o Verbo enviado como pessoa; o poder do nome de Jesus; Noé e o batismo; o apelo final e a despedida de Trifão.
#T11
“Mas, se você soubesse, Trifão”, continuei, “quem é aquele que ora é chamado Anjo do grande conselho, e Homem por Ezequiel, e semelhante ao Filho do Homem por Daniel, e Menino por Isaías, e Cristo e Deus digno de adoração por Davi, e Cristo e Pedra por muitos, e Sabedoria por Salomão, e José, Judá e Estrela por Moisés, e Oriente por Zacarias, e o Sofredor, Jacó e Israel, outra vez por Isaías, e Vara, Flor, Pedra angular e Filho de Deus, você não teria blasfemado contra aquele que agora já veio, nasceu, padeceu e subiu ao céu; que também virá de novo, e então as suas doze tribos se lamentarão. Pois, se vocês tivessem entendido o que foi escrito pelos profetas, não teriam negado que ele era Deus, Filho do único Deus, não gerado e inefável. Pois Moisés diz em certo lugar do Êxodo o seguinte: ‘O Senhor falou a Moisés e lhe disse: Eu sou o Senhor, e apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, sendo o Deus deles; e o meu nome não lhes revelei, e estabeleci com eles a minha aliança’ (Êx 6.2-4). E assim, de novo, ele diz: ‘Um homem lutou com Jacó’ (Gn 32.24), e afirma que era Deus, narrando que Jacó disse: ‘Vi Deus face a face, e a minha vida foi salva’ (Gn 32.30). E está registrado que ele chamou o lugar onde aquele lutou com ele, lhe apareceu e o abençoou de Face de Deus (Peniel). E Moisés diz que Deus apareceu também a Abraão junto ao carvalho de Manre, quando ele estava sentado à porta da sua tenda, ao meio-dia. Depois prossegue: ‘Ele levantou os olhos, olhou, e eis que três homens estavam em pé diante dele; e, ao vê-los, correu ao encontro deles’ (Gn 18.2). Pouco depois, um deles promete um filho a Abraão: ‘Por que Sara riu, dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo velha? Existe algo impossível para Deus? No tempo determinado voltarei a você, segundo o tempo da vida, e Sara terá um filho. E eles se afastaram de Abraão’ (Gn 18.13-14). De novo fala deles assim: ‘E os homens se levantaram dali e olharam para Sodoma’ (Gn 18.16). Então aquele que era e é fala de novo a Abraão: ‘Não esconderei de Abraão, meu servo, o que pretendo fazer’ (Gn 18.17).” E citei e expliquei o que vem a seguir nos escritos de Moisés; “pelo que demonstrei”, eu disse, “que aquele que é descrito como Deus e que apareceu a Abraão, a Isaque, a Jacó e aos outros patriarcas foi constituído sob a autoridade do Pai e Senhor e serve à sua vontade.” Então passei a dizer o que não tinha dito antes: “E assim, quando o povo desejou comer carne e Moisés perdeu a fé naquele que ali também é chamado Anjo e que prometeu que Deus lhes daria carne até a saciedade, é aquele que é ao mesmo tempo Deus e Anjo, enviado pelo Pai, que é descrito dizendo e fazendo essas coisas. Pois assim diz a Escritura: ‘E o Senhor disse a Moisés: Acaso a mão do Senhor não será suficiente? Agora você saberá se a minha palavra o encobrirá ou não’ (Nm 11.23). E de novo, em outras palavras, assim diz: ‘Mas o Senhor me disse: Você não passará este Jordão; o Senhor, seu Deus, que vai adiante de você, ele exterminará as nações’ (Dt 31.2-3).
“Estas e outras palavras semelhantes estão registradas pelo legislador e pelos profetas; e suponho ter dito o suficiente para que, onde quer1 que Deus diga: ‘Deus subiu de junto de Abraão’ (Gn 17.22), ou: ‘O Senhor falou a Moisés’ (Êx 6.29), e: ‘O Senhor desceu para ver a torre que os filhos dos homens tinham construído’ (Gn 11.5), ou quando ‘Deus fechou Noé na arca’ (Gn 7.16), vocês não imaginem que o próprio Deus não gerado desceu ou subiu de algum lugar. Pois o inefável Pai e Senhor de todas as coisas nem vai a lugar algum, nem anda, nem dorme, nem se levanta, mas permanece no seu próprio lugar, onde quer que seja, pronto para ver e pronto para ouvir, sem ter olhos nem ouvidos, mas sendo de um poder indescritível; e ele vê todas as coisas e conhece todas as coisas, e nenhum de nós escapa à sua observação; e ele não se move nem está confinado a um ponto do mundo inteiro, pois existia antes de o mundo ser feito. Como, então, poderia ele falar com alguém, ou ser visto por alguém, ou aparecer na menor porção da terra, quando o povo no Sinai não foi capaz de olhar nem mesmo para a glória daquele que foi enviado por ele; e o próprio Moisés não pôde entrar no tabernáculo que tinha erguido, quando este se encheu da glória de Deus; e o sacerdote não suportou ficar diante do templo quando Salomão levou a arca para a casa que tinha construído para ela em Jerusalém? Portanto, nem Abraão, nem Isaque, nem Jacó, nem qualquer outro homem viu o Pai e Senhor inefável de todas as coisas, e também de Cristo, mas [viu] aquele que, segundo a vontade dele, é o seu Filho, sendo Deus, e é Anjo porque serviu à sua vontade; aquele que também foi da vontade do Pai que nascesse homem por meio da Virgem; aquele que também foi fogo quando conversou com Moisés a partir da sarça. Pois, se não entendermos assim as Escrituras, seguir-se-á que o Pai e Senhor de todas as coisas não estava no céu quando aconteceu o que Moisés escreveu: ‘E o Senhor fez chover sobre Sodoma fogo e enxofre da parte do Senhor, desde o céu’ (Gn 19.24); e de novo, quando Davi diz assim: ‘Levantem as suas portas, ó governantes; e levantem-se, ó portas eternas, e entrará o Rei da glória’ (Sl 24.7); e de novo, quando ele diz: ‘O Senhor diz ao meu Senhor: Sente-se à minha direita, até que eu ponha os seus inimigos por estrado dos seus pés’ (Sl 110.1).
“E que Cristo, sendo Senhor, e Deus, Filho de Deus, e tendo aparecido outrora em poder como Homem e como Anjo, e na glória do fogo, como na sarça, assim também se manifestou no juízo executado sobre Sodoma, ficou plenamente demonstrado pelo que foi dito.” Então repeti mais uma vez tudo o que antes tinha citado do Êxodo sobre a visão na sarça e sobre o nome dado a Josué (Jesus), e continuei: “E não pensem, senhores, que falo de modo supérfluo quando repito estas palavras com frequência; é que sei que alguns querem antecipar-se a estas observações e dizer que o poder enviado pelo Pai de todas as coisas, que apareceu a Moisés, ou a Abraão, ou a Jacó, é chamado Anjo porque veio aos homens (pois por ele as ordens do Pai foram proclamadas aos homens); é chamado Glória porque às vezes aparece numa visão que não se pode suportar; é chamado Homem e ser humano porque aparece revestido das formas que o Pai quer; e o chamam Verbo porque leva as mensagens do Pai aos homens; mas sustentam que esse poder é indivisível e inseparável do Pai, assim como dizem que a luz do sol na terra é indivisível e inseparável do sol nos céus; e, assim como, quando o sol se põe, a luz se vai com ele, assim também o Pai, dizem eles, quando quer, faz o seu poder brotar e, quando quer, o faz voltar para si mesmo. Desse modo, ensinam, ele fez os anjos. Mas está provado que há anjos que existem sempre e nunca são reduzidos àquilo de onde surgiram. E que este poder, que a palavra profética chama Deus, como também já foi amplamente demonstrado, e Anjo, não é contado [como distinto] só de nome, como a luz do sol, mas é de fato algo numericamente distinto, discuti brevemente no que veio antes, quando afirmei que este poder foi gerado do Pai, pelo seu poder e vontade, mas não por amputação, como se a essência do Pai fosse dividida; pois todas as outras coisas que são repartidas e divididas não são as mesmas depois de divididas, como eram antes; e, para dar um exemplo, tomei o caso dos fogos acesos a partir de um fogo, que vemos serem distintos dele, e, no entanto, aquele do qual muitos podem ser acesos de modo nenhum fica diminuído, mas permanece o mesmo.
“E agora vou recitar de novo as palavras que disse para provar este ponto. Quando a Escritura diz: ‘O Senhor fez chover fogo da parte do Senhor, desde o céu’ (Gn 19.24), a palavra profética indica que eram dois em número: um sobre a terra, o qual, diz ela, desceu para ver o clamor de Sodoma; outro no céu, que é também Senhor do Senhor que está na terra, por ser Pai e Deus, causa do seu poder e de ele ser Senhor e Deus. De novo, quando a Escritura registra que Deus disse no princípio: ‘Eis que Adão se tornou como um de nós’ (Gn 3.22), essa expressão, ‘como um de nós’, também indica número; e as palavras não admitem um sentido figurado, como tentam atribuir-lhes os sofistas, que não são capazes nem de dizer nem de entender a verdade. E está escrito no livro da Sabedoria: ‘Se eu lhes contar os acontecimentos de cada dia, terei o cuidado de enumerá-los desde o princípio. O Senhor me criou como princípio dos seus caminhos para as suas obras. Desde a eternidade ele me estabeleceu, no princípio, antes de formar a terra, e antes de fazer os abismos, e antes que brotassem as fontes das águas, antes que os montes fossem firmados; ele me gera antes de todas as colinas’ (Pv 8.21-25).” Quando repeti estas palavras, acrescentei: “Vocês percebem, meus ouvintes, se prestarem atenção, que a Escritura declarou que este Gerado foi gerado pelo Pai antes de todas as coisas criadas; e qualquer um admitirá que aquele que é gerado é numericamente distinto daquele que gera.”
E, como todos tinham concordado, eu disse: “Quero agora apresentar algumas passagens que eu não tinha mencionado antes. Estão registradas em parábola pelo fiel servo Moisés e são as seguintes: ‘Alegrem-se, ó céus, com ele, e todos os anjos de Deus o adorem’ (Dt 32.43)”; e acrescentei o que se segue da passagem: “‘Alegrem-se, ó nações, com o seu povo, e todos os anjos de Deus se fortaleçam nele; pois ele vinga o sangue dos seus filhos, e o vingará, e retribuirá com vingança aos seus inimigos, e retribuirá aos que o odeiam; e o Senhor purificará a terra do seu povo.’ E com estas palavras ele declara que nós, as nações, nos alegramos com o seu povo, isto é, com Abraão, Isaque e Jacó, e com os profetas, e, em suma, com todos daquele povo que agradam a Deus, segundo o que já ficou acordado entre nós. Mas não o aceitaremos de toda a nação de vocês, pois sabemos por Isaías (Is 66.24) que os membros dos que transgrediram serão consumidos pelo verme e pelo fogo que não se apaga, permanecendo imortais, de modo que se tornarão um espetáculo para toda a carne. Mas, além destas”, eu disse, “quero, senhores, acrescentar outras passagens das próprias palavras de Moisés, pelas quais vocês podem entender que Deus, desde a antiguidade, dispersou todos os homens segundo as suas parentelas e línguas; e, dentre todas as parentelas, tomou para si a de vocês, geração inútil, desobediente e infiel; e mostrou que os escolhidos de todas as nações obedeceram à sua vontade por meio de Cristo, a quem ele também chama Jacó e denomina Israel; e esses, então, como mencionei amplamente antes, devem ser Jacó e Israel. Pois, quando diz: ‘Alegrem-se, ó nações, com o seu povo’, ele lhes atribui a mesma herança e não os chama pelo mesmo nome;2 mas, quando diz que eles, como gentios, se alegram com o seu povo, chama-os gentios para repreender vocês. Pois, assim como vocês o provocaram à ira com a sua idolatria, assim também ele julgou dignos de conhecer a sua vontade e de herdar a sua herança os que eram idólatras.
“Mas citarei a passagem pela qual se dá a conhecer que Deus dividiu todas as nações. É a seguinte: ‘Pergunte a seu pai, e ele lhe mostrará; aos seus anciãos, e eles lhe dirão: quando o Altíssimo dividia as nações, quando dispersava os filhos de Adão, fixou os limites das nações segundo o número dos filhos de Israel; e a porção do Senhor tornou-se o seu povo Jacó, e Israel foi a parte da sua herança’ (Dt 32.7-9).” E, dito isso, acrescentei: “Os Setenta traduziram: ‘Fixou os limites das nações segundo o número dos anjos de Deus’. Mas, como o meu argumento de novo em nada fica enfraquecido por isso, adotei a interpretação de vocês. E vocês mesmos, se quiserem confessar a verdade, têm de reconhecer que nós, que fomos chamados por Deus por meio do mistério desprezado e vergonhoso da cruz (por cuja confissão e obediência, e pela nossa piedade, castigos até a morte nos foram infligidos pelos demônios e pela hoste do diabo, com o auxílio que vocês lhes prestaram), e que suportamos todos os tormentos antes de negar a Cristo, mesmo só de palavra, por meio de quem somos chamados à salvação preparada de antemão pelo Pai, somos mais fiéis a Deus do que vocês, que foram resgatados do Egito com mão forte e uma manifestação de grande glória, quando o mar se abriu para vocês e foi deixada uma passagem seca, na qual [Deus] matou os que os perseguiam com um aparato enorme e carros esplêndidos, fazendo voltar sobre eles o mar que tinha sido feito caminho por amor de vocês; sobre os quais também brilhou uma coluna de luz, para que vocês, mais do que qualquer outra nação do mundo, possuíssem uma luz própria, que nunca falha e nunca se põe; para quem ele fez chover o maná como alimento, digno dos anjos celestiais, para que vocês não precisassem preparar a sua comida; e a água de Mara se tornou doce; e foi feito um sinal daquele que havia de ser crucificado, tanto no caso das serpentes que os mordiam, como já mencionei (antecipando Deus, antes dos tempos próprios, estes mistérios, para conceder graça a vocês, que sempre se mostram ingratos para com ele), como também na figura das mãos estendidas de Moisés e de Oseias, que recebeu o nome de Jesus (Josué), quando vocês lutaram contra Amaleque; incidente a respeito do qual Deus ordenou que fosse registrado e que o nome de Jesus fosse guardado no entendimento de vocês, dizendo que este é aquele que apagaria a memória de Amaleque de debaixo do céu. Ora, é claro que a memória de Amaleque permaneceu depois do filho de Nave (Num); mas ele deixa claro, por meio de Jesus, que foi crucificado, e de quem aqueles símbolos eram também anúncios prévios de tudo o que lhe aconteceria, que os demônios seriam destruídos e temeriam o seu nome, e que todos os principados e reinos o temeriam; e que os que creem nele, dentre todas as nações, se mostrariam homens tementes a Deus e pacíficos; e os fatos que já citei, Trifão, indicam isso. De novo, quando vocês desejaram carne, foi-lhes dada uma quantidade tão grande de codornas que não se podiam contar; para vocês também brotou água da rocha; e uma nuvem os seguia, como sombra contra o calor e abrigo contra o frio, anunciando o modo e o significado de outro céu, um céu novo; as correias das suas sandálias não se romperam, as suas sandálias não envelheceram e as suas roupas não se gastaram, mas até as das crianças cresciam com elas.
“Contudo, depois disso vocês fizeram um bezerro e foram muito zelosos em cometer fornicação com as filhas de estrangeiros e em servir aos ídolos. E de novo, quando a terra lhes foi entregue com tão grande demonstração de poder, que vocês viram o sol parar no céu por ordem daquele homem cujo nome era Jesus (Josué) e não se pôr durante trinta e seis horas, bem como todos os outros milagres que foram realizados para vocês conforme as ocasiões;3 e, entre estes, parece-me bom agora falar de mais um, porque contribui para que vocês conheçam por meio dele Jesus, que nós também sabemos ter sido o Cristo, o Filho de Deus, que foi crucificado, ressuscitou, subiu ao céu e virá de novo para julgar todos os homens, até o próprio Adão. Vocês sabem, então”, continuei, “que, quando a arca do testemunho foi tomada pelos inimigos de Asdode (1Sm 5) e uma doença terrível e incurável irrompeu entre eles, resolveram colocá-la num carro ao qual atrelaram vacas que tinham parido recentemente, para verificar por meio dessa prova se tinham sido castigados ou não pelo poder de Deus por causa da arca, e se Deus queria que ela fosse levada de volta ao lugar de onde tinha sido tirada. E, feito isso, as vacas, sem que ninguém as guiasse, não foram para o lugar de onde a arca tinha sido tirada, mas para os campos de um homem chamado Oseias, o mesmo nome daquele cujo nome foi mudado para Jesus (Josué), como já foi mencionado, o qual também introduziu o povo na terra e a repartiu entre eles; e, quando as vacas chegaram a esses campos, ali ficaram, mostrando a vocês com isso que eram guiadas pelo nome do poder;4 assim como antes o povo que sobreviveu dentre os que saíram do Egito foi conduzido à terra por aquele que tinha recebido o nome de Jesus (Josué) e que antes se chamava Oseias.
“Ora, embora essas e todas as outras obras inesperadas e maravilhosas tenham sido realizadas entre vocês e vistas por vocês em diferentes épocas, ainda assim vocês são acusados pelos profetas de terem chegado ao ponto de oferecer os seus próprios filhos aos demônios; e, além de tudo isso, de terem ousado fazer tais coisas contra Cristo; e ainda ousam fazê-las; e por tudo isso, que lhes seja concedido alcançar misericórdia e salvação da parte de Deus e do seu Cristo. Pois Deus, sabendo de antemão que vocês fariam tais coisas, pronunciou esta maldição contra vocês pelo profeta Isaías: ‘Ai da alma deles! Tramaram um mau conselho contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos é desagradável. Por isso comerão do fruto das suas próprias obras. Ai do ímpio! O mal lhe sobrevirá segundo as obras das suas mãos. Ó meu povo, os seus exatores despojam você, e os que lhe extorquem dominarão sobre você. Ó meu povo, os que o chamam bem-aventurado o fazem errar e desordenam o caminho das suas veredas. Mas agora o Senhor ajudará o seu povo no juízo e entrará em juízo com os anciãos do povo e com os seus príncipes. Mas por que vocês queimaram a minha vinha? E por que o despojo do pobre se acha nas suas casas? Por que vocês fazem mal ao meu povo e envergonham o rosto dos humildes?’ (Is 3.9-15). De novo, em outras palavras, o mesmo profeta falou no mesmo sentido: ‘Ai dos que puxam a sua iniquidade como com uma corda comprida, e os seus pecados como com os arreios do jugo de uma novilha; que dizem: Que a sua rapidez se aproxime, e venha o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos! Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal; que fazem da luz trevas e das trevas luz; que fazem do amargo doce e do doce amargo! Ai dos que são sábios aos seus próprios olhos e prudentes em seu próprio conceito! Ai dos poderosos entre vocês, que bebem vinho, dos homens de força, que misturam bebida forte; que por suborno justificam o ímpio e tiram a justiça do justo! Por isso, assim como a palha será queimada pela brasa de fogo e totalmente consumida pela chama ardente, a raiz deles será como lã, e a sua flor subirá como pó. Pois não quiseram a lei do Senhor dos Exércitos, mas desprezaram5 a palavra do Senhor, o Santo de Israel. E o Senhor dos Exércitos se irou muito, estendeu as mãos sobre eles e os feriu; e se indignou contra os montes, e os seus cadáveres ficaram no meio como esterco no caminho. E com tudo isto não se arrependeram,6 mas a sua mão ainda está erguida’ (Is 5.18-25). Pois, de fato, a mão de vocês está erguida para praticar o mal, porque mataram o Cristo e não se arrependem disso; muito ao contrário, odeiam e matam a nós, que por meio dele cremos no Deus e Pai de todas as coisas, todas as vezes que podem; e o amaldiçoam sem cessar, assim como aos que estão do lado dele; ao passo que todos nós oramos por vocês e por todos os homens, como o nosso Cristo e Senhor nos ensinou a fazer, quando nos ordenou orar até pelos nossos inimigos, amar os que nos odeiam e abençoar os que nos amaldiçoam.
“Se, então, o ensino dos profetas e dele mesmo os move, é melhor para vocês seguir a Deus do que aos seus mestres imprudentes e cegos, que até hoje permitem que cada homem tenha quatro ou cinco mulheres; e, se alguém vê uma mulher bonita e deseja tê-la, citam os atos de Jacó, [chamado] Israel, e dos outros patriarcas, e sustentam que não é errado fazer tais coisas; pois nesta matéria são miseravelmente ignorantes. Porque, como eu disse antes, certas dispensações de grandes mistérios se cumpriram em cada ato desse tipo. Pois, nos casamentos de Jacó, mencionarei que dispensação e que profecia se cumpriram, para que vocês saibam por isso que os seus mestres nunca olharam para o motivo divino que impeliu cada ato, mas somente para as paixões rasteiras e corruptoras. Prestem atenção, portanto, ao que digo. Os casamentos de Jacó eram figuras daquilo que Cristo havia de realizar. Pois não era lícito a Jacó casar-se com duas irmãs ao mesmo tempo. E ele serve a Labão por [uma das] filhas; e, enganado quanto à [obtenção da] mais nova, serviu de novo sete anos. Ora, Lia é o povo e a sinagoga de vocês; mas Raquel é a nossa Igreja. E por estas, e pelos servos de ambas, Cristo serve até agora. Pois, enquanto Noé deu aos dois filhos a descendência do terceiro como servos, agora, por outro lado, Cristo veio para restaurar tanto os filhos livres como os servos entre eles, conferindo a mesma honra a todos os que guardam os seus mandamentos; assim como os filhos das mulheres livres e os filhos das escravas, nascidos de Jacó, foram todos filhos e iguais em dignidade. E foi predito o que cada um seria segundo a posição e segundo a presciência. Jacó serviu a Labão por ovelhas salpicadas e malhadas; e Cristo serviu, até a escravidão da cruz, pelas raças da humanidade, variadas e de muitas formas, adquirindo-as pelo sangue e pelo mistério da cruz. Lia tinha olhos fracos; pois os olhos das almas de vocês são excessivamente fracos. Raquel furtou os deuses de Labão e os escondeu até hoje; e nós perdemos os nossos deuses paternos e materiais. Jacó foi odiado para sempre pelo seu irmão; e nós agora, e o próprio Senhor, somos odiados por vocês e por todos os homens, embora sejamos irmãos por natureza. Jacó foi chamado Israel; e foi demonstrado que Israel é o Cristo, que é e é chamado Jesus.
“E, quando a Escritura diz: ‘Eu sou o Senhor Deus, o Santo de Israel, que dei a conhecer Israel, o seu Rei’ (Is 43.15), vocês não entenderão que verdadeiramente Cristo é o Rei eterno? Pois vocês sabem que Jacó, filho de Isaque, nunca foi rei. E por isso a Escritura de novo, explicando-nos, diz que rei se entende por Jacó e Israel: ‘Jacó é o meu Servo, eu o sustentarei; e Israel é o meu Eleito, a minha alma o receberá. Dei-lhe o meu Espírito, e ele trará o juízo aos gentios. Não clamará, e a sua voz não será ouvida lá fora. Não quebrará a cana machucada e não apagará o pavio que fumega, até que leve o juízo à vitória. Ele brilhará e não será quebrado, até que estabeleça o juízo na terra. E no seu nome os gentios esperarão’ (Is 42.1-4). É, então, no patriarca Jacó que os gentios e vocês mesmos hão de esperar? Ou não é em Cristo? Assim, pois, como Cristo é o Israel e o Jacó, assim também nós, que fomos talhados das entranhas de Cristo, somos a verdadeira raça israelita. Mas prestemos atenção, antes, à própria palavra: ‘E farei sair’, diz ele, ‘a descendência de Jacó e de Judá; e ela herdará o meu santo monte; e os meus eleitos e os meus servos possuirão a herança e habitarão ali; e haverá apriscos de rebanhos no matagal, e o vale de Acor será lugar de repouso para o gado, para o povo que me buscou. Mas quanto a vocês, que me abandonam, e se esquecem do meu santo monte, e preparam uma mesa para os demônios, e enchem a taça para o demônio, eu os entregarei à espada. Todos vocês cairão na matança; pois eu os chamei, e vocês não me ouviram, e fizeram o mal diante de mim, e escolheram aquilo em que eu não tinha prazer’ (Is 65.9-12). Tais são as palavras da Escritura; entendam, portanto, que a descendência de Jacó aqui mencionada é outra coisa, e não, como se poderia supor, algo dito do povo de vocês. Pois não é possível que a descendência de Jacó deixe uma entrada para os descendentes de Jacó, nem que [Deus] tenha aceitado as mesmas pessoas que censurou como indignas da herança, e lhes prometa a herança de novo; mas, assim como ali o profeta diz: ‘E agora, ó casa de Jacó, venham e andemos na luz do Senhor; pois ele despediu o seu povo, a casa de Jacó, porque a terra deles estava cheia, como no princípio, de agoureiros e adivinhações’ (Is 2.5-6), assim também é necessário observarmos aqui que há duas descendências de Judá e duas raças, como há duas casas de Jacó: uma gerada pelo sangue e pela carne, a outra pela fé e pelo Espírito.
“Pois vocês veem como ele agora se dirige ao povo, dizendo um pouco antes: ‘Como a uva que se acha no cacho, e se diz: Não a destruam, pois há nela uma bênção, assim farei por amor do meu servo: por amor dele não os destruirei a todos’ (Is 65.8). E depois acrescenta: ‘E farei sair a descendência de Jacó e de Judá’ (Is 65.9). É claro, então, que, se ele assim se ira contra eles e ameaça deixar muito poucos deles, promete fazer sair certos outros, que habitarão no seu monte. Mas estes são as pessoas que ele disse que semearia e geraria. Pois vocês nem o suportam quando ele os chama, nem o ouvem quando ele lhes fala, mas fizeram o mal na presença do Senhor. Mas o auge da maldade de vocês está nisto: vocês odeiam o Justo e o mataram; e assim tratam os que dele receberam tudo o que são e têm, e que são piedosos, justos e humanos. ‘Por isso, ai da alma deles’, diz o Senhor, ‘porque tramaram um mau conselho contra si mesmos, dizendo: Tiremos do caminho o justo, porque ele nos é desagradável’ (Is 3.9). Pois, de fato, vocês não têm o costume de sacrificar a Baal, como os seus pais, nem de colocar bolos nos bosques e nos lugares altos para o exército do céu; mas não aceitaram o Cristo de Deus. Pois quem não o conhece não conhece a vontade de Deus; e quem o insulta e odeia insulta e odeia aquele que o enviou. E quem não crê nele não crê nas declarações dos profetas, que o pregaram e anunciaram a todos.
“Não digam nada de mal, meus irmãos, contra aquele que foi crucificado, e não tratem com desprezo as pisaduras pelas quais todos podem ser sarados, assim como nós somos sarados. Pois será bom se, persuadidos pelas Escrituras, vocês forem circuncidados da dureza de coração; não com aquela circuncisão que vocês têm segundo as doutrinas que lhes foram incutidas; pois aquela foi dada como sinal, e não como obra de justiça, como as Escrituras os obrigam [a admitir]. Concordem, portanto, e não lancem zombaria sobre o Filho de Deus; não obedeçam aos mestres fariseus, e não escarneçam do Rei de Israel, como os chefes das suas sinagogas os ensinam a fazer depois das suas orações; pois, se aquele que toca nos que não são agradáveis a Deus é como quem toca na menina dos olhos de Deus (Zc 2.8), quanto mais aquele que toca no seu amado! E que este é ele, já foi suficientemente demonstrado.”
E, como eles ficaram em silêncio, continuei: “Meus amigos, refiro-me agora às Escrituras conforme os Setenta as interpretaram; pois, quando as citei antes como vocês as possuem, pus vocês à prova [para verificar] qual era a disposição de vocês. Pois, mencionando a Escritura que diz: ‘Ai deles! Porque tramaram um mau conselho contra si mesmos, dizendo’ (como os Setenta traduziram, continuei): ‘Tiremos do caminho o justo, porque ele nos é desagradável’ (Is 3.9); ao passo que no começo da discussão acrescentei o que tem a versão de vocês: ‘Amarremos o justo, porque ele nos é desagradável’. Mas vocês estavam ocupados com algum outro assunto e parecem ter ouvido as palavras sem prestar atenção a elas. Mas agora, como o dia está chegando ao fim, pois o sol está para se pôr, acrescentarei uma observação ao que disse e concluirei. Já fiz, na verdade, essa mesma observação, mas penso que seria justo dar-lhe de novo alguma consideração.
“Vocês sabem, então, senhores”, eu disse, “que Deus disse em Isaías a Jerusalém: ‘Eu salvei você no dilúvio de Noé’.7 Com isto que Deus disse se queria indicar que o mistério dos homens salvos apareceu no dilúvio. Pois o justo Noé, junto com os outros mortais no dilúvio, isto é, com a sua própria mulher, os seus três filhos e as mulheres deles, sendo oito em número, foram símbolo do oitavo dia, no qual Cristo apareceu quando ressuscitou dos mortos, para sempre o primeiro em poder. Pois Cristo, sendo o primogênito de toda criatura, tornou-se de novo o princípio de outra raça, regenerada por ele mesmo por meio da água, da fé e do madeiro, que contém o mistério da cruz; assim como Noé foi salvo pelo madeiro quando navegou sobre as águas com a sua casa. Portanto, quando o profeta diz: ‘Eu salvei você nos tempos de Noé’, como já observei, ele se dirige ao povo que é igualmente fiel a Deus e possui os mesmos sinais. Pois, quando Moisés tinha a vara nas mãos, conduziu a nação de vocês através do mar. E vocês creem que isso foi dito somente à nação de vocês, ou à terra. Mas a terra inteira, como diz a Escritura, foi inundada, e a água subiu quinze côvados acima de todos os montes; de modo que é evidente que isto não foi dito à terra, mas ao povo que lhe obedeceu; para o qual também ele tinha preparado antes um lugar de repouso em Jerusalém, como foi demonstrado anteriormente por todos os símbolos do dilúvio; quero dizer que, pela água, pela fé e pelo madeiro, os que estão preparados de antemão e se arrependem dos pecados que cometeram escaparão do juízo iminente de Deus.
“Pois outro mistério se cumpriu e foi predito nos dias de Noé, do qual vocês não têm conhecimento. É este: nas bênçãos com que Noé abençoou os seus dois filhos e na maldição pronunciada sobre o filho do seu filho. Pois o Espírito de profecia não amaldiçoaria o filho que tinha sido abençoado por Deus juntamente com [os seus irmãos]. Mas, como o castigo do pecado se apegaria a toda a descendência do filho que zombou da nudez do pai, ele fez a maldição começar pelo filho deste. Ora, no que disse, predisse que os descendentes de Sem reteriam a propriedade e as moradas de Canaã; e, de novo, que os descendentes de Jafé tomariam posse da propriedade de que os descendentes de Sem tinham despojado os descendentes de Canaã, e saqueariam os descendentes de Sem, assim como estes saquearam os filhos de Canaã. E ouçam de que modo isso aconteceu. Pois vocês, que derivam a sua linhagem de Sem, invadiram o território dos filhos de Canaã pela vontade de Deus e o possuíram. E é manifesto que os filhos de Jafé, invadindo vocês por sua vez pelo juízo de Deus, tomaram de vocês a sua terra e a possuíram. Assim está escrito: ‘E Noé despertou do vinho e soube o que o seu filho mais novo lhe tinha feito; e disse: Maldito seja Canaã, o servo; servo será para os seus irmãos. E disse: Bendito seja o Senhor, Deus de Sem; e Canaã será seu servo. Que o Senhor engrandeça Jafé, e que ele habite nas casas de Sem; e Canaã seja seu servo’ (Gn 9.24-27). Portanto, assim como dois povos foram abençoados, os de Sem e os de Jafé, e assim como foi decretado que a descendência de Sem possuiria primeiro as moradas de Canaã, e foi predito que a descendência de Jafé receberia por sua vez as mesmas possessões, e aos dois povos foi entregue como servo o único povo de Canaã, assim também Cristo veio segundo o poder que lhe foi dado pelo Pai Todo-Poderoso e, chamando os homens à amizade, à bênção, ao arrependimento e à convivência, prometeu, como já foi provado, que haverá uma possessão futura para todos os santos nesta mesma terra. E por isso todos os homens, em toda parte, sejam escravos ou livres, que creem em Cristo e reconhecem a verdade nas palavras dele e nas dos seus profetas, sabem que estarão com ele naquela terra e herdarão os bens eternos e incorruptíveis.
“Por isso também Jacó, como observei antes, sendo ele mesmo figura de Cristo, casou-se com as duas servas das suas duas mulheres livres e delas gerou filhos, a fim de indicar de antemão que Cristo receberia até todos os que, entre a raça de Jafé, são descendentes de Canaã, igualmente com os livres, e teria os filhos como coerdeiros. E nós somos esses; mas vocês não conseguem compreender isso, porque não podem beber da fonte viva de Deus, mas de cisternas rachadas, que não retêm as águas, como diz a Escritura (Jr 2.13). Mas são cisternas rachadas e que não retêm água as que os seus próprios mestres cavaram, como também afirma expressamente a Escritura: ‘ensinando como doutrinas os mandamentos dos homens’ (Is 29.13). E, além disso, eles enganam a si mesmos e a vocês, supondo que o reino eterno será certamente dado aos da dispersão que são de Abraão segundo a carne, ainda que sejam pecadores, infiéis e desobedientes para com Deus, o que as Escrituras provaram não ser assim. Pois, se assim fosse, Isaías nunca teria dito isto: ‘E, se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado uma descendência, teríamos sido como Sodoma e Gomorra’ (Is 1.9). E Ezequiel: ‘Ainda que Noé, Jacó e Daniel orassem por filhos ou filhas, o pedido deles não seria atendido’ (Ez 14.18, 20). ‘Mas nem o pai perecerá pelo filho, nem o filho pelo pai; mas cada um pelo seu próprio pecado, e cada um será salvo pela sua própria justiça’ (Ez 18.20). E de novo Isaías diz: ‘Verão os cadáveres8 dos que transgrediram: o verme deles não cessará, e o seu fogo não se apagará; e serão um espetáculo para toda a carne’ (Is 66.24). E o nosso Senhor, segundo a vontade daquele que o enviou, que é o Pai e Senhor de todas as coisas, não teria dito: ‘Virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no Reino dos Céus. Mas os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores’ (Mt 8.11-12). Além disso, provei no que precedeu9 que os que foram previamente conhecidos como injustos, sejam homens ou anjos, não se tornam maus por culpa de Deus, mas cada um, por sua própria culpa, é o que se mostrará ser.
“Mas, para que vocês não tenham pretexto para dizer que Cristo tinha de ser crucificado, e que os transgressores tinham de estar entre a nação de vocês, e que a coisa não poderia ter sido de outro modo, eu disse brevemente, antecipando-me, que Deus, querendo que homens e anjos seguissem a sua vontade, resolveu criá-los livres para praticar a justiça; dotados de razão, para que soubessem por quem foram criados e por meio de quem eles, que antes não existiam, agora existem; e com uma lei pela qual seriam julgados por ele, se fizessem alguma coisa contrária à reta razão; e, por nós mesmos, nós, homens e anjos, seremos condenados por ter agido pecaminosamente, a não ser que nos arrependamos antes. Mas, se a palavra de Deus prediz que alguns anjos e homens serão certamente castigados, fê-lo porque sabia de antemão que eles seriam imutavelmente [maus], mas não porque Deus os tivesse criado assim. De modo que, se se arrependerem, todos os que quiserem podem alcançar misericórdia de Deus; e a Escritura prediz que serão bem-aventurados, dizendo: ‘Bem-aventurado é o homem a quem o Senhor não atribui pecado’ (Sl 32.2); isto é, tendo-se arrependido dos seus pecados, para que receba de Deus a remissão deles; e não como vocês enganam a si mesmos, e alguns outros que se parecem com vocês nisto, que dizem que, ainda que sejam pecadores, se conhecem a Deus, o Senhor não lhes atribuirá pecado. Temos como prova disso a única queda de Davi, que aconteceu por causa da sua jactância, e que foi perdoada quando ele assim pranteou e chorou, como está escrito. Mas, se nem mesmo a tal homem foi concedida remissão antes do arrependimento, e somente quando este grande rei, ungido e profeta pranteou e se portou desse modo, como podem os impuros e totalmente perdidos, se não choram, nem pranteiam, nem se arrependem, nutrir a esperança de que o Senhor não lhes atribuirá pecado? E esta única queda de Davi, no caso da mulher de Urias, prova, senhores”, eu disse, “que os patriarcas tiveram muitas mulheres, não para cometer fornicação, mas para que certa dispensação e todos os mistérios se cumprissem por meio deles; pois, se fosse permitido tomar qualquer mulher, ou tantas mulheres quantas se queira e como se queira, o que os homens da nação de vocês fazem por toda a terra, onde quer que residam ou para onde quer que tenham sido enviados, tomando mulheres sob o nome de casamento, muito mais se teria permitido a Davi fazer isso.”
Quando eu disse isso, caríssimo Marcos Pompeu, cheguei ao fim.
Então Trifão, depois de um breve silêncio, disse: “Você vê que não foi de caso pensado que viemos discutir estes pontos. E confesso que gostei muitíssimo desta conversa; e creio que estes aqui sentem exatamente o mesmo. Pois encontramos mais do que esperávamos, e mais do que seria possível esperar. E, se pudéssemos fazer isto com mais frequência, seríamos muito ajudados no exame das próprias Escrituras. Mas, já que”, disse ele, “você está de partida e espera embarcar a qualquer momento, não deixe de se lembrar de nós como amigos quando estiver longe.”
“Quanto a mim”, respondi, “se eu ficasse, gostaria de fazer isto todos os dias. Mas agora, como espero embarcar, pela vontade e com a ajuda de Deus, exorto vocês a empenharem toda a diligência nesta grandíssima luta pela sua própria salvação e a se esforçarem por dar mais valor ao Cristo do Deus Todo-Poderoso do que aos seus próprios mestres.”
Depois disso, eles se despediram de mim, desejando-me boa viagem e que eu fosse guardado de todo infortúnio. E eu, orando por eles, disse: “Nada melhor posso desejar a vocês, senhores, do que isto: que, reconhecendo por este caminho que a todo homem foi dado entendimento, vocês cheguem a pensar como nós e creiam que Jesus é o Cristo de Deus.”10
1. hotan pou em vez de hotan mou.
2. A leitura é: “e os chama pelo mesmo nome”. Mas toda a argumentação mostra que judeus e gentios se distinguem pelo nome.
3. O anacoluto está no original.
4. Ou: “pelo poder do nome”.
5. Literalmente, “provocaram”.
6. Literalmente, “se desviaram”.
7. Is 54.9 é o que mais se aproxima destas palavras; mas, ainda assim, a citação exata não está em Isaías nem em nenhuma outra parte da Escritura.
8. Literalmente, “membros”.
9. Caps. 88 e 102.
10. A última frase é muito duvidosa. Em vez de panti anthropinon noun, leia-se panti anthropo ton noun. Em vez de poiesete, leia-se pisteusete. E, por fim, em vez de to hemon, leia-se ton Iesoun.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Marcus Dods e George Reith (Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Justino cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.