Orígenes, Sobre os Princípios · Livro III
A sabedoria deste mundo, a dos príncipes deste mundo e a de Deus; se há no homem uma ou duas almas.
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1. O santo apóstolo, querendo nos ensinar uma verdade grande e oculta a respeito da ciência e da sabedoria, diz na primeira Epístola aos Coríntios: “Transmitimos sabedoria entre os que são perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem a dos príncipes deste mundo, que são reduzidos a nada; mas transmitimos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria oculta, que Deus predeterminou antes do mundo para a nossa glória; a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.6-8). Nessa passagem, querendo descrever as diferentes espécies de sabedoria, ele indica que há uma sabedoria deste mundo, uma sabedoria dos príncipes deste mundo e outra, a sabedoria de Deus. Mas, quando usa a expressão “sabedoria dos príncipes deste mundo”, não penso que se refira a uma sabedoria comum a todos os príncipes deste mundo, mas antes a uma que é própria de alguns deles em particular. E, de novo, quando diz: “Transmitimos a sabedoria de Deus em mistério, a sabedoria oculta, que Deus predeterminou antes do mundo para a nossa glória” (1Co 2.7), devemos investigar se o que ele quer dizer é que essa é a mesma sabedoria de Deus que esteve oculta em outros tempos e gerações e não foi dada a conhecer aos filhos dos homens, como agora foi revelada aos seus santos apóstolos e profetas; e se é também aquela sabedoria de Deus anterior à vinda do Salvador, por meio da qual Salomão obteve a sua sabedoria, e em relação à qual as palavras do próprio Salvador declararam que o que ele ensinava era maior do que Salomão, nestes termos: “E aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42). Essas palavras mostram que os que eram instruídos pelo Salvador recebiam instrução em algo mais elevado do que o conhecimento de Salomão. Pois, se alguém afirmasse que o Salvador de fato possuía, ele mesmo, um conhecimento maior, mas não comunicou aos outros mais do que Salomão comunicou, como isso concordaria com a afirmação que vem a seguir: “A rainha do Sul se levantará, no Juízo, e condenará os homens desta geração, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; e aqui está quem é maior do que Salomão” (Mt 12.42)? Há, portanto, uma sabedoria deste mundo, e provavelmente também uma sabedoria própria de cada príncipe deste mundo. Mas, quanto à sabedoria de Deus somente, percebemos que se indica isto: que ela operou em grau menor nos tempos antigos e passados e foi (depois) revelada e manifestada mais plenamente por meio de Cristo. Investigaremos, porém, a respeito da sabedoria de Deus no lugar apropriado.
2. Mas agora, como estamos tratando do modo pelo qual os poderes adversos suscitam aqueles combates por meio dos quais um falso conhecimento é introduzido na mente dos homens e as almas humanas são desencaminhadas, enquanto imaginam ter descoberto a sabedoria, julgo necessário nomear e distinguir a sabedoria deste mundo e a dos príncipes deste mundo, para que, desse modo, possamos descobrir quem são os pais dessa sabedoria, ou melhor, dessas espécies de sabedoria.1 Sou de opinião, portanto, como afirmei acima, de que há outra sabedoria deste mundo, além daquelas (diferentes espécies de) sabedoria2 que pertencem aos príncipes deste mundo, sabedoria pela qual parecem ser entendidas e compreendidas as coisas que pertencem a este mundo. Essa sabedoria, porém, não possui em si nenhuma aptidão para formar opinião alguma, seja sobre as coisas divinas,3 seja sobre o plano do governo do mundo, seja sobre quaisquer outros assuntos de importância, ou a respeito da formação para uma vida boa ou feliz; ela é de tal natureza que se ocupa inteiramente, por exemplo, da arte da poesia, ou da gramática, ou da retórica, ou da geometria, ou da música, entre as quais talvez se deva incluir também a medicina. Em todos esses assuntos devemos supor que está compreendida a sabedoria deste mundo. A sabedoria dos príncipes deste mundo, por outro lado, entendemos que é algo como a filosofia secreta e oculta, como a chamam, dos egípcios, e a astrologia dos caldeus e dos indianos, que fazem profissão de conhecer as coisas elevadas,4 e também aquela múltipla variedade de opiniões que prevalece entre os gregos a respeito das coisas divinas. Assim, nas santas Escrituras encontramos que há príncipes sobre nações individuais; como em Daniel (cf. Dn 10) lemos que havia um príncipe do reino da Pérsia e outro príncipe do reino da Grécia, os quais, pela própria natureza da passagem, são claramente mostrados como não sendo seres humanos, mas certos poderes. Também nas profecias de Ezequiel (cf. Ez 26) o príncipe de Tiro é inequivocamente mostrado como uma espécie de poder espiritual. Quando, pois, esses e outros do mesmo gênero, possuindo cada um a sua própria sabedoria e edificando as suas próprias opiniões e doutrinas, viram nosso Senhor e Salvador professar e declarar que tinha vindo ao mundo com o propósito de destruir todas as opiniões da ciência falsamente assim chamada, não sabendo o que estava oculto nele, logo lhe armaram uma cilada; pois “os reis da terra se levantam, e as autoridades conspiram contra o Senhor e contra o seu Ungido” (Sl 2.2). Mas, descobertas as suas ciladas e manifestos os planos que tinham tentado executar quando crucificaram o Senhor da glória, por isso o apóstolo diz: “Transmitimos sabedoria entre os que são perfeitos; não, porém, a sabedoria deste mundo, nem a dos príncipes deste mundo, que são reduzidos a nada, a qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.6-8).
3. Devemos, de fato, procurar averiguar se aquela sabedoria5 dos príncipes deste mundo, com a qual eles se esforçam por impregnar os homens, é introduzida em suas mentes pelos poderes adversos com o propósito de enredá-los e prejudicá-los, ou apenas com o propósito de enganá-los, isto é, sem a intenção de causar dano algum ao homem; mas, como esses príncipes deste mundo consideram verdadeiras tais opiniões, desejam transmitir aos outros o que eles mesmos creem ser a verdade. E essa é a opinião que estou inclinado a adotar. Pois, assim como, para dar um exemplo, certos autores gregos, ou os líderes de alguma seita herética, depois de terem absorvido um erro de doutrina em lugar da verdade e de terem concluído em suas próprias mentes que essa é a verdade, passam em seguida a esforçar-se por persuadir os outros da correção de suas opiniões, assim também devemos supor que é o procedimento dos príncipes deste mundo, nos quais a certos poderes espirituais foi atribuído o governo sobre certas nações, e que por isso são chamados príncipes deste mundo. Há, além disso, ao lado desses príncipes, certas energias6 especiais deste mundo, isto é, poderes espirituais, que produzem certos efeitos, os quais eles mesmos, em virtude da sua liberdade da vontade, escolheram produzir; e a esses pertencem os príncipes que praticam a sabedoria deste mundo. Há, por exemplo, uma energia e um poder particular que é o inspirador da poesia; outro, da geometria; e assim um poder separado que nos faz lembrar cada uma das artes e profissões desse gênero. Por fim, muitos escritores gregos foram de opinião que a arte da poesia não pode existir sem loucura;7 e daí também se conta várias vezes em suas histórias que aqueles a quem chamam poetas8 eram de repente tomados por uma espécie de espírito de loucura. E que devemos dizer também daqueles a quem chamam adivinhos,9 dos quais, pela ação dos demônios que os dominam, se dão respostas em versos cuidadosamente compostos? Também aquelas pessoas a quem chamam magos ou malfeitores,10 invocando demônios sobre meninos de tenra idade, muitas vezes os fizeram recitar composições poéticas que causavam a admiração e o espanto de todos. Ora, devemos supor que esses efeitos se produzem da seguinte maneira: assim como as almas santas e imaculadas, depois de se dedicarem a Deus com todo o afeto e pureza, e depois de se conservarem livres de todo contágio dos espíritos malignos,11 e depois de serem purificadas por prolongada abstinência e impregnadas de uma formação santa e religiosa, assumem por esse meio uma porção da divindade e alcançam a graça da profecia e outros dons divinos, assim também devemos supor que aqueles que se colocam no caminho dos poderes adversos, isto é, que de propósito admiram e adotam o seu modo de vida e os seus hábitos,12 recebem a inspiração deles e se tornam participantes da sua sabedoria e doutrina. E o resultado disso é que ficam cheios da ação daqueles espíritos a cujo serviço se sujeitaram.
4. Quanto àqueles que ensinam a respeito de Cristo de modo diferente do que a regra da Escritura permite, não é tarefa ociosa averiguar se foi por um propósito traiçoeiro que esses poderes adversos, em seus esforços para impedir a fé em Cristo, inventaram certas doutrinas fabulosas e ímpias; ou se, ao ouvirem a palavra de Cristo, não podendo expulsá-la do segredo da sua consciência, nem tampouco conservá-la pura e santa, introduziram, por meio de vasos convenientes ao seu uso13 e, por assim dizer, por meio dos seus profetas, diversos erros contrários à regra da verdade cristã. Ora, devemos antes supor que poderes apóstatas e fugitivos,14 que se afastaram de Deus pela própria maldade da sua mente e vontade,15 ou por inveja daqueles para os quais está preparada (quando chegam a conhecer a verdade) uma ascensão à mesma posição de onde eles próprios caíram, inventaram, a fim de impedir qualquer progresso desse tipo, esses erros e ilusões de falsa doutrina. Fica, pois, claramente estabelecido, por muitas provas, que, enquanto a alma do homem existe neste corpo, ela pode admitir diferentes energias, isto é, operações, de uma diversidade de espíritos bons e maus. Ora, dos espíritos malignos há um duplo modo de operação: ou quando se apoderam completa e inteiramente da mente,16 de modo que não deixam aos seus cativos17 a faculdade nem de entender nem de sentir, como acontece, por exemplo, com os comumente chamados possessos,18 que vemos privados da razão e insanos (como eram aqueles que, segundo o relato do Evangelho, foram curados pelo Salvador); ou quando, por meio de suas sugestões perversas, depravam uma alma que sente e entende com pensamentos de vários tipos, persuadindo-a ao mal. Disso Judas é um exemplo, que foi induzido, por sugestão do diabo, a cometer o crime da traição, segundo a declaração da Escritura de que “o diabo já tinha posto no coração de Judas Iscariotes que traísse Jesus” (Jo 13.2).
Mas o homem recebe a energia, isto é, a ação, de um espírito bom quando é movido e incitado ao bem e inspirado para as coisas celestiais ou divinas; assim como os santos anjos e o próprio Deus agiram nos profetas, despertando-os e exortando-os, por suas santas sugestões, a um modo de vida melhor, mas de tal maneira, sem dúvida, que permanecia na vontade e no juízo de cada um querer ou não querer seguir o chamado às coisas divinas e celestiais. E por essa distinção manifesta se vê como a alma é movida pela presença de um espírito melhor, isto é, se ela não sofre nenhuma perturbação ou alienação da mente por causa da inspiração que a sobrevém, nem perde o livre domínio da sua vontade; como acontece, por exemplo, com todos, sejam profetas ou apóstolos, que serviram aos oráculos divinos sem nenhuma perturbação da mente. Ora, que pelas sugestões de um espírito bom a memória do homem é despertada para a lembrança de coisas melhores, já o mostramos por exemplos anteriores, quando mencionamos os casos de Mardoqueu e de Artaxerxes.
5. Também isto, penso, deve ser investigado em seguida, a saber, quais são as razões pelas quais uma alma humana é movida ora por (espíritos) bons, ora por maus. Suspeito que as causas disso sejam mais antigas que o nascimento corporal do indivíduo, como João (Batista) mostrou ao saltar e exultar no ventre de sua mãe, quando a voz da saudação de Maria chegou aos ouvidos de sua mãe Isabel; e como declara o profeta Jeremias, que foi conhecido de Deus antes de ser formado no ventre de sua mãe, e antes de nascer foi por ele santificado, e ainda menino recebeu a graça da profecia (Jr 1.5-6). E, de novo, por outro lado, mostra-se sem sombra de dúvida que alguns foram possuídos por espíritos hostis desde o próprio começo da vida: isto é, alguns nasceram com um espírito maligno, e outros, segundo histórias dignas de crédito, praticaram a adivinhação19 desde a infância. Outros estiveram sob a influência do demônio chamado Píton, isto é, o espírito ventríloquo, desde o início da sua existência. A todos esses exemplos, os que sustentam que tudo no mundo está sob a administração da Divina Providência (como também é a nossa própria crença) não podem, ao que me parece, dar outra resposta que mostre que nenhuma sombra de injustiça recai sobre o governo divino, a não ser sustentar que houve certas causas de uma existência anterior, em consequência das quais as almas, antes do seu nascimento no corpo, contraíram certa medida de culpa em sua natureza sensitiva ou em seus movimentos, por causa da qual foram julgadas dignas, pela Divina Providência, de serem colocadas nessa condição. Pois a alma está sempre de posse do livre-arbítrio, tanto quando está no corpo como quando está fora dele; e a liberdade da vontade se dirige sempre ou para o bem ou para o mal. Nem pode existir ser algum racional e dotado de sentidos, isto é, uma mente ou alma, sem algum movimento, bom ou mau. E é provável que esses movimentos forneçam fundamentos para o mérito mesmo antes de fazerem qualquer coisa neste mundo; de modo que, por causa desses méritos ou fundamentos, eles são, logo ao nascer e até antes, por assim dizer, distribuídos pela Divina Providência para suportar ou o bem ou o mal.
Sejam essas, então, as nossas opiniões a respeito dos acontecimentos que parecem sobrevir aos homens, seja logo depois do nascimento, seja mesmo antes de virem à luz. Mas, quanto às sugestões que são feitas à alma, isto é, à faculdade do pensamento humano, por diferentes espíritos, e que despertam os homens para as boas ações ou para as contrárias, também nesse caso devemos supor que às vezes existiram certas causas anteriores ao nascimento corporal. Pois às vezes a mente, quando vigilante e lançando de si o que é mau, chama a si o auxílio dos bons; ou, se for, ao contrário, negligente e preguiçosa, abre espaço, por falta de cautela, a esses espíritos que, ficando à espreita em segredo como salteadores, tratam de se precipitar na mente dos homens quando veem que a preguiça lhes preparou alojamento; como diz o apóstolo Pedro: “O inimigo de vocês, o diabo, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8). Por isso nosso coração deve ser guardado com todo o cuidado, de dia e de noite, e não se deve dar lugar ao diabo; mas todo esforço deve ser feito para que os ministros de Deus, isto é, aqueles espíritos que foram enviados para servir aos que são chamados a ser herdeiros da salvação (Hb 1.14), encontrem lugar dentro de nós e tenham prazer em entrar no aposento de hóspedes20 da nossa alma e, habitando em nós, nos guiem com os seus conselhos, se de fato encontrarem a morada do nosso coração adornada pela prática da virtude e da santidade. Mas baste o que dissemos, como melhor pudemos, a respeito daqueles poderes que são hostis ao gênero humano.
1. E agora, a meu ver, não se deve passar em silêncio o tema das tentações humanas, que têm origem às vezes na carne e no sangue, ou na sabedoria da carne e do sangue, a qual se diz ser hostil a Deus. E se é verdadeira a afirmação que alguns fazem, a saber, que cada indivíduo tem como que duas almas, isso determinaremos depois de explicarmos a natureza daquelas tentações que se diz serem mais poderosas que qualquer uma de origem humana, isto é, as que sofremos da parte dos principados e potestades, dos dominadores das trevas deste mundo e das forças espirituais da maldade nas regiões celestes, ou às quais somos submetidos da parte dos espíritos malignos e dos demônios imundos. Ora, na investigação deste assunto, devemos, penso eu, indagar segundo um método lógico se há em nós, seres humanos, que somos compostos de alma, corpo e espírito vital, algum outro elemento que possua um impulso próprio e provoque um movimento em direção ao mal. Pois uma questão desse tipo costuma ser discutida por alguns deste modo: se, a saber, como se diz que duas almas coexistem em nós, uma é mais divina e celestial e a outra inferior; ou se, pelo próprio fato de estarmos inseridos em estruturas corporais que, segundo a sua natureza própria, são mortas e inteiramente desprovidas de vida (visto que é de nós, isto é, de nossas almas, que o corpo material recebe a sua vida, sendo ele contrário e hostil ao espírito), somos arrastados e atraídos à prática daqueles males que agradam ao corpo; ou se, em terceiro lugar (como foi a opinião de alguns filósofos gregos), embora a nossa alma seja uma só em substância, consta, todavia, de vários elementos, e uma parte dela se chama racional e outra irracional, e a que se chama parte irracional se divide, por sua vez, em duas afecções: a da cobiça e a da ira. Essas três opiniões, então, a respeito da alma, que expusemos acima, verificamos que são sustentadas por alguns; mas aquela delas que mencionamos como adotada por certos filósofos gregos, a saber, que a alma é tripartida, não vejo que seja muito confirmada pela autoridade da santa Escritura, ao passo que, quanto às outras duas, encontra-se nas santas Escrituras um número considerável de passagens que parecem poder aplicar-se a elas.
2. Ora, dessas opiniões, discutamos primeiro a que é sustentada por alguns, de que há em nós uma alma boa e celestial e outra terrena e inferior; e de que a alma melhor é implantada em nós desde o céu, como foi aquela que, estando Jacó ainda no ventre, lhe deu o prêmio da vitória ao suplantar seu irmão Esaú, e que no caso de Jeremias foi santificada desde o nascimento, e no de João foi cheia do Espírito Santo desde o ventre. Ora, aquela que chamam alma inferior é produzida, segundo alegam, juntamente com o próprio corpo, a partir da semente do corpo; donde dizem que ela não pode viver nem subsistir fora do corpo, e por isso também dizem que muitas vezes é chamada carne. Pois a expressão “A carne luta contra o Espírito” (Gl 5.17) eles a tomam como aplicável não à carne, mas a essa alma, que é propriamente a alma da carne. A partir dessas palavras, além disso, eles se esforçam, ainda assim, por confirmar a declaração do Levítico: “A vida de toda carne é o seu sangue” (Lv 17.14). Pois, pelo fato de que é a difusão do sangue por toda a carne que produz a vida na carne, afirmam que essa alma, que se diz ser a vida de toda carne, está contida no sangue. Essa afirmação, além disso, de que a carne luta contra o espírito e o espírito contra a carne, e a outra afirmação, de que “a vida de toda carne é o seu sangue”, não são, segundo esses escritores, senão chamar com outro nome a sabedoria da carne, porque esta é uma espécie de espírito material, que não está sujeito à lei de Deus, nem pode estar, porque tem desejos terrenos e apetites corporais. E é a respeito disso que pensam que o apóstolo proferiu as palavras: “Vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros” (Rm 7.23). E, se alguém lhes objetasse que essas palavras foram ditas da natureza do corpo, a qual, segundo a peculiaridade da sua natureza, é de fato morta, mas se diz ter um sentir, ou sabedoria,21 hostil a Deus, ou que luta contra o espírito; ou se alguém dissesse que, em certa medida, a própria carne possuía uma voz, que clamaria contra o suportar a fome, ou a sede, ou o frio, ou qualquer desconforto decorrente seja da abundância, seja da pobreza, eles se esforçariam por enfraquecer e diminuir a força de tais (argumentos), mostrando que havia muitas outras perturbações da mente22 que de modo algum têm origem na carne e contra as quais, no entanto, o espírito luta, como a ambição, a avareza, a rivalidade, a inveja, o orgulho e outras semelhantes; e, visto que contra elas a mente ou espírito humano trava uma espécie de combate, apresentam como causa de todos esses males nada mais que essa alma corporal, por assim dizer, de que falamos acima, e que é gerada da semente por um processo de traducianismo. Costumam também alegar, em apoio da sua afirmação, a declaração do apóstolo: “Ora, as obras da carne são conhecidas e são: imoralidade sexual, impureza, libertinagem, idolatria, envenenamentos,23 ódio, contendas, rivalidades, iras, rixas, dissensões, heresias, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a estas” (Gl 5.19-21), afirmando que nem todas essas coisas têm origem nos hábitos ou nos prazeres da carne, de modo que todos esses movimentos devessem ser considerados inerentes àquela substância que não tem alma, isto é, a carne. A declaração, além disso: “Irmãos, considerem a vocação de vocês. Não foram chamados muitos sábios segundo a carne” (1Co 1.26), pareceria exigir que se entendesse como se houvesse uma espécie de sabedoria carnal e material e outra segundo o espírito, a primeira das quais não pode de fato ser chamada sabedoria, a não ser que haja uma alma da carne, que é sábia segundo o que se chama sabedoria carnal. E, além dessas passagens, alegam a seguinte: “Porque a carne luta contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, de modo que não podemos fazer o que queremos” (Gl 5.17). Quais são agora essas coisas a respeito das quais ele diz “que não podemos fazer o que queremos”? É certo, respondem eles, que não se pode tratar do espírito, pois a vontade do espírito não sofre impedimento algum. Mas tampouco se pode tratar da carne, porque, se ela não tem alma própria, certamente também não pode ter vontade. Resta, então, que se trate da vontade dessa alma que é capaz de ter vontade própria e que certamente se opõe à vontade do espírito. E, se é assim, fica estabelecido que a vontade da alma é algo intermediário entre a carne e o espírito, obedecendo e servindo, sem dúvida, àquele dos dois a quem escolheu obedecer. E, se ela se entrega aos prazeres da carne, torna os homens carnais; mas, quando se une ao espírito, produz homens do Espírito, que por isso são chamados espirituais. E esse parece ser o sentido do apóstolo nas palavras: “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito” (Rm 8.9).
Temos, portanto, de averiguar o que é essa própria vontade (intermediária) entre a carne e o espírito, além daquela vontade que se diz pertencer à carne ou ao espírito. Pois tem-se por certo que tudo o que se diz ser obra do espírito é (produto da) vontade do espírito, e tudo o que se chama obra da carne (procede da) vontade da carne. Que outra coisa, então, além dessas, é aquela vontade da alma que recebe um nome à parte,24 e que vontade é essa que o apóstolo, opondo-se a que a executemos, diz: “Vocês não podem fazer o que querem”? Com isso pareceria indicar-se que ela não deve aderir a nenhuma dessas duas, isto é, nem à carne nem ao espírito. Mas alguém dirá que, assim como é melhor para a alma executar a sua própria vontade do que a da carne, assim também, por outro lado, é melhor fazer a vontade do espírito do que a sua própria. Como, então, diz o apóstolo “que vocês não podem fazer o que querem”? Porque, naquele combate que se trava entre a carne e o espírito, o espírito de modo algum tem a vitória garantida, sendo manifesto que em muitíssimos indivíduos a carne leva a melhor.
3. Mas, visto que o assunto de discussão em que entramos é de grande profundidade e é necessário considerá-lo sob todos os seus aspectos,25 vejamos se não se pode determinar algum ponto como este: que, assim como é melhor para a alma seguir o espírito quando este venceu a carne, assim também, se parece pior para ela seguir a carne em sua luta contra o espírito, quando este quer chamar a alma de volta à sua influência, pode, contudo, parecer um procedimento mais vantajoso que a alma esteja sob o domínio da carne do que permaneça sob o poder da sua própria vontade. Pois, visto que se diz que ela não é nem quente nem fria, mas permanece numa espécie de estado morno, achará a conversão um empreendimento lento e um tanto difícil. Se, de fato, ela se apegasse à carne, então, saciada por fim e cheia dos próprios males que sofre dos vícios da carne, e como que cansada dos pesados fardos do luxo e da concupiscência, poderia às vezes converter-se com maior facilidade e rapidez da imundícia da matéria ao desejo das coisas celestiais e (ao gosto pelas) graças espirituais. E deve-se supor que o apóstolo disse que “o Espírito luta contra a carne, e a carne contra o Espírito, de modo que não podemos fazer o que queremos” (aquelas coisas, sem dúvida, que se designam como estando fora da vontade do espírito e da vontade da carne), querendo dizer (como se o exprimíssemos com outras palavras) que é melhor para o homem estar ou num estado de virtude ou num de maldade do que em nenhum dos dois; mas que a alma, antes da sua conversão ao espírito e da sua união com ele,26 parece, durante a sua adesão ao corpo e a sua meditação das coisas carnais, não estar nem numa condição boa nem numa manifestamente má, mas assemelha-se, por assim dizer, a um animal. É melhor para ela, porém, se possível, tornar-se espiritual pela adesão ao espírito; mas, se isso não puder ser feito, é mais conveniente para ela seguir até a maldade da carne do que, posta sob a influência da sua própria vontade, conservar a posição de um animal irracional.
Esses pontos nós os discutimos agora, no desejo de considerar cada opinião individual, mais longamente do que pretendíamos, para que não se supusesse que nos tinham escapado aquelas opiniões que costumam ser apresentadas pelos que investigam se há em nós alguma outra alma além desta celestial e racional, a qual seria naturalmente oposta a esta e se chama ou carne, ou sabedoria da carne, ou alma da carne.
4. Vejamos agora que resposta costuma ser dada a essas afirmações pelos que sustentam que há em nós um só movimento e uma só vida, procedentes de uma única e mesma alma, cuja salvação e cuja perdição são atribuídas a ela própria, como resultado das suas próprias ações. E, em primeiro lugar, notemos de que natureza são aquelas comoções27 da alma que sofremos quando nos sentimos interiormente puxados em direções diferentes; quando surge em nossos corações uma espécie de combate de pensamentos e nos são sugeridas certas probabilidades, segundo as quais nos inclinamos ora para este lado, ora para aquele, e pelas quais às vezes somos convencidos de erro e às vezes aprovamos os nossos atos.28 Não é nada de extraordinário, porém, dizer dos espíritos malignos que têm um juízo variável e conflitante e em desacordo consigo mesmo, visto que isso se verifica em todos os homens sempre que, ao deliberarem sobre um acontecimento incerto, se toma conselho e os homens consideram e consultam o que se deve escolher como o caminho melhor e mais útil. Não é de admirar, portanto, que, se duas probabilidades se encontram e sugerem pontos de vista opostos, arrastem a mente em direções contrárias. Por exemplo, se um homem é levado pela reflexão a crer em Deus e a temê-lo, não se pode dizer então que a carne luta contra o Espírito; mas, em meio à incerteza sobre o que pode ser verdadeiro e vantajoso, a mente é puxada em direções opostas. Assim também, quando se supõe que a carne provoca à satisfação da concupiscência, mas conselhos melhores se opõem a atrativos desse tipo, não devemos supor que seja uma vida que resiste a outra, mas que é a tendência da natureza do corpo, que anseia por esvaziar e purificar os lugares cheios de umidade seminal; assim como, do mesmo modo, não se deve supor que seja algum poder adverso, ou a vida de outra alma, que excita em nós o apetite da sede e nos impele a beber, ou que nos faz sentir fome e nos leva a saciá-la. Mas, assim como é pelos movimentos naturais do corpo que o alimento e a bebida são desejados ou rejeitados,29 assim também a semente natural, acumulada com o passar do tempo nos diversos vasos, tem um desejo ansioso de ser expelida e lançada fora, e está tão longe de nunca ser removida a não ser pelo impulso de alguma causa excitante, que às vezes até é emitida espontaneamente. Quando, portanto, se diz que “a carne luta contra o Espírito”, essas pessoas entendem a expressão no sentido de que o hábito, ou a necessidade, ou os deleites da carne despertam o homem e o afastam das coisas divinas e espirituais. Pois, por sermos arrastados pela necessidade do corpo, não nos é permitido ter vagar para as coisas divinas, que hão de ser eternamente proveitosas. Assim também, por sua vez, a alma, dedicando-se às ocupações divinas e espirituais e estando unida ao espírito, diz-se que luta contra a carne, não permitindo que ela se relaxe pela indulgência e se torne instável sob a influência daqueles prazeres pelos quais sente um deleite natural. Desse modo também afirmam entender as palavras: “A sabedoria da carne é hostil a Deus” (Rm 8.7), não que a carne tenha realmente uma alma ou uma sabedoria própria. Mas, assim como costumamos dizer, por um abuso30 de linguagem, que a terra tem sede e quer beber água, e esse emprego da palavra “quer” não é próprio, mas catacrético, como se disséssemos ainda que esta casa quer ser reconstruída,31 e muitas outras expressões semelhantes, assim também se deve entender a sabedoria da carne, ou a expressão de que “a carne luta contra o Espírito”. Costumam ligar a essas a expressão: “A voz do sangue do seu irmão clama da terra a mim” (Gn 4.10). Pois o que clama ao Senhor não é propriamente o sangue que foi derramado; mas diz-se impropriamente que o sangue clama, quando se pede vingança contra aquele que o derramou. A declaração do apóstolo também: “Vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente” (Rm 7.23), eles a entendem como se ele dissesse que aquele que deseja dedicar-se à palavra de Deus é, por causa das suas necessidades e hábitos corporais, que como uma espécie de lei estão arraigados no corpo, distraído, dividido e impedido, para que, dedicando-se vigorosamente ao estudo da sabedoria, não possa contemplar os mistérios divinos.
5. Quanto, porém, a serem contadas entre as obras da carne as seguintes coisas, a saber, heresias, invejas, contendas ou outros (vícios), entendem a passagem no sentido de que a mente, tornada mais grosseira no sentir por se entregar às paixões do corpo, oprimida pela massa dos seus vícios e sem nenhum sentimento refinado ou espiritual, diz-se que se fez carne e tira o seu nome daquilo em que mostra mais vigor e força de vontade.32 Fazem também esta outra pergunta: “Quem se achará, ou quem se dirá ser, o criador desse mau sentir, chamado o sentir da carne?” Pois defendem a opinião de que não há outro criador da alma e da carne senão Deus. E, se afirmássemos que o Deus bom criou em sua própria criação algo hostil a si mesmo, isso pareceria um absurdo manifesto. Se, pois, está escrito que “a sabedoria carnal é inimizade contra Deus” (Rm 8.7), e se se declara que isso é resultado da criação, o próprio Deus parecerá ter formado uma natureza hostil a si mesmo, que não pode estar sujeita a ele nem à sua lei, como se fosse (supostamente) um ser vivo do qual se predicam tais qualidades. E, se se admite esse ponto de vista, em que parecerá ele diferir do daqueles que sustentam que são criadas almas de naturezas diferentes, as quais, segundo as suas naturezas,33 estão destinadas a perder-se ou a salvar-se? Mas essa é uma opinião só dos hereges, que, não podendo sustentar a justiça de Deus com fundamentos piedosos, compõem invenções ímpias desse tipo. E agora apresentamos, o melhor que pudemos, na pessoa de cada uma das partes, o que se poderia alegar em favor de cada opinião; e escolha o leitor, entre elas, por si mesmo, aquela que julga dever ser preferida.
1. Sapientiarum harum.
2. Sapientias illas.
3. De divinitate.
4. De scientiâ excelsi pollicentium.
5. Istæ sapientiæ.
6. Energiæ.
7. Insania.
8. Vates.
9. Divinos.
10. Magi vel malefici.
11. Dæmonum.
12. Id est, industria vita, vel studio amico illis et accepto.
13. Per vasa opportuna sibi.
14. Apostatæ et refugæ virtutes.
15. Propositi.
16. Penitus ex integro.
17. Eos quos obsederint.
18. Energumenos.
19. Divinasse.
20. Hospitium.
21. Sensum vel sapientiam.
22. Passiones animæ.
23. Veneficia. pharmakeia. “Witchcraft” (“feitiçaria”, na Versão Autorizada inglesa).
24. O texto aqui é muito obscuro e tem dado algum trabalho aos comentadores. As palavras são: “Quæ ergo ista est præter hæc voluntas animæ quæ extrinsecus nominatur”, etc. Redepenning entende “extrinsecus” no sentido de “seorsim”, “insuper”, e remete a uma nota de Orígenes sobre a Epístola aos Romanos (tom. i, p. 466): “Et idcirco extrinsecus eam (animam, corporis et spiritus mentione factâ, Rm 1.3-4) apostolus non nominat, sed carnem tantum vel spiritum”, etc. Schnitzer supõe que no grego as palavras fossem tes exo kaloumenes, onde exo se deve tomar no sentido de kato, de modo que a expressão significaria “anima inferior”.
25. In quâ necesse est ex singulis quibusque partibus quæ possunt moveri discutere.
26. Priusquam (…) unum efficiatur cum eo.
27. Passiones.
28. Quibus nunc quidem arguimur, nunc vero nosmet ipsos amplectimur.
29. Evacuantur.
30. Abusive = empregado impropriamente.
31. Recomponi vult.
32. Plus studii vel propositi.
33. Naturaliter.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.