Orígenes, Sobre os Princípios · Livro III

Capítulos 5 e 6: o começo e o fim do mundo

O mundo teve começo no tempo e terá fim; a consumação, quando Deus será tudo em todos.

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Capítulo V. O mundo teve início no tempo

1. E agora, visto que um dos artigos da Igreja1, sustentado principalmente em razão da nossa fé na verdade da história sagrada, é que este mundo foi criado e teve início em determinado tempo e que, conforme o ciclo do tempo2 decretado para todas as coisas, há de ser destruído por causa da sua corrupção, não parece absurdo discutir de novo alguns pontos ligados a esse assunto. E, no que toca à credibilidade da Escritura, as declarações sobre essa matéria parecem fáceis de provar. Até os hereges, embora muito divididos em várias outras coisas, neste ponto parecem estar de acordo, rendendo-se à autoridade da Escritura.

Quanto à criação do mundo, então, que parte da Escritura pode nos informar mais a respeito dela do que o relato que Moisés transmitiu sobre a sua origem? E, embora esse relato encerre matérias de significado mais profundo do que a simples narrativa histórica parece indicar, contenha muitíssimas coisas que devem ser entendidas espiritualmente e empregue a letra como uma espécie de véu ao tratar de assuntos profundos e místicos, a linguagem do narrador mostra, ainda assim, que todas as coisas visíveis foram criadas em determinado tempo. Quanto à consumação do mundo, porém, Jacó é o primeiro a dar alguma informação, quando se dirige aos filhos com estas palavras: “Ajuntem-se a mim, filhos de Jacó, para que eu lhes diga o que acontecerá nos últimos dias”, ou “depois dos últimos dias” (Gn 49.1)3. Se, pois, há “últimos dias”, ou um período “que se segue aos últimos dias”, é necessário que os dias que tiveram começo cheguem ao fim. Davi também declara: “Os céus perecerão, mas tu permaneces; todos eles envelhecerão como veste, como roupa os mudarás, e serão mudados. Tu, porém, és sempre o mesmo, e os teus anos jamais terão fim” (Sl 102.26-27). Nosso Senhor e Salvador, aliás, com as palavras “Aquele que os fez no princípio os fez homem e mulher” (Mt 19.4), dá ele mesmo testemunho de que o mundo foi criado; e, de novo, quando diz: “O céu e a terra passarão, mas a minha palavra não passará” (Mt 24.35), mostra que eles são perecíveis e hão de chegar ao fim. O apóstolo, além disso, ao declarar que “a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou na esperança, porque também a própria criação será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus” (Rm 8.20-21), anuncia claramente o fim do mundo; e o mesmo faz quando diz em outro lugar: “a aparência deste mundo passa” (1Co 7.31). Ora, pela expressão que emprega, “a criação foi sujeita à vaidade”, ele mostra que houve um começo para este mundo; pois, se a criação foi sujeita à vaidade por causa de alguma esperança, certamente foi sujeita por uma causa; e, se foi por uma causa, é necessário que tenha tido um começo. Porque, sem algum começo, a criação não poderia estar sujeita à vaidade, nem poderia esperar ser libertada do cativeiro da corrupção aquela (criação) que não tivesse começado a servir. Quem quiser pesquisar com vagar, porém, encontrará na santa Escritura numerosas outras passagens em que se diz que o mundo teve começo e espera um fim.

2. Ora, se houver alguém que queira aqui se opor à autoridade ou à credibilidade das nossas Escrituras4, nós lhe perguntaríamos se ele afirma que Deus pode ou não pode abarcar todas as coisas. Afirmar que não pode seria claramente uma impiedade. Se, então, ele responder, como é forçado a fazer, que Deus abarca todas as coisas, segue-se, do próprio fato de poderem ser abarcadas, que se entende que elas têm começo e fim, visto que aquilo que é inteiramente sem começo não pode, de modo algum, ser abarcado. Pois, por mais longe que o entendimento avance, tanto mais a faculdade de abarcar se afasta e se retira sem limite quando se sustenta que não há começo.

3. Mas esta é a objeção que costumam levantar: “Se o mundo teve início no tempo, que fazia Deus antes de o mundo começar? Porque é ao mesmo tempo ímpio e absurdo dizer que a natureza de Deus é inativa e imóvel, ou supor que a bondade, em algum momento, não fez o bem e que a onipotência, em algum momento, não exerceu o seu poder.” Essa é a objeção que costumam fazer à nossa afirmação de que este mundo teve início em determinado tempo e de que, segundo a nossa fé na Escritura, podemos calcular os anos da sua duração passada. A essas proposições, considero que nenhum dos hereges pode dar com facilidade uma resposta que esteja de acordo com a natureza das suas opiniões. Nós, porém, podemos dar uma resposta coerente, conforme a norma da religião5, quando dizemos que não foi então, pela primeira vez, que Deus começou a agir, quando fez este mundo visível; mas que, assim como depois da sua destruição haverá outro mundo, assim também cremos que outros existiram antes que o presente viesse a ser. E ambas as posições serão confirmadas pela autoridade da santa Escritura. Que haverá outro mundo depois deste é o que ensina Isaías, quando diz: “Haverá novos céus e nova terra, que farei permanecer diante de mim, diz o Senhor” (cf. Is 66.22); e que outros também existiram antes deste mundo o Eclesiastes mostra com estas palavras: “Que é o que foi? Aquilo mesmo que há de ser. E que é o que foi criado? Isto mesmo que há de ser criado; e não há absolutamente nada de novo debaixo do sol. Quem falará e dirá: Eis que isto é novo? Já existiu nos séculos que houve antes de nós” (cf. Ec 1.9-10)6. Por esses testemunhos fica estabelecido tanto que houve séculos7 antes do nosso como que haverá outros depois dele. Não se deve supor, contudo, que vários mundos existiram ao mesmo tempo, mas que, depois do fim deste mundo presente, outros terão início; a respeito disso é desnecessário repetir cada afirmação em particular, visto que já o fizemos nas páginas anteriores.

4. Não se deve passar por alto, aliás, o fato de que as santas Escrituras chamaram a criação do mundo por um nome novo e peculiar, denominando-a katabole, palavra muito impropriamente traduzida para o latim por “constitutio”; pois em grego katabole significa antes “dejicere”, isto é, lançar para baixo. Essa palavra, como já observamos, foi impropriamente traduzida para o latim pela expressão “constitutio mundi”, como no Evangelho segundo João, onde o Salvador diz: “E haverá tribulação naqueles dias, como não houve desde o princípio do mundo” (Mt 24.21); nessa passagem, katabole é traduzida por princípio (constitutio), o que se deve entender como acima se explicou. O apóstolo também, na Epístola aos Efésios, empregou a mesma linguagem, dizendo: “Que nos escolheu antes da fundação do mundo” (Ef 1.4); e a essa fundação ele chama katabole, que se deve entender no mesmo sentido de antes. Parece valer a pena, então, investigar o que significa esse termo novo; e sou de opinião8 que, assim como o fim e a consumação dos santos estarão naqueles (séculos) que não se veem e são eternos, devemos concluir (como muitas vezes se mostrou nas páginas anteriores), pela contemplação desse mesmo fim, que as criaturas racionais tiveram também um começo semelhante. E, se tiveram um começo como o fim que esperam, sem dúvida existiram desde o próprio princípio naqueles (séculos) que não se veem e são eternos. E, se é assim, houve então uma descida de uma condição mais alta para uma mais baixa, não só da parte daquelas almas que mereceram a mudança pela variedade dos seus movimentos, mas também da parte daquelas que, para servir ao mundo inteiro, foram trazidas daquelas esferas superiores e invisíveis para estas inferiores e visíveis, ainda que contra a sua vontade: “Porque a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou na esperança” (cf. Rm 8.20-21). Isso para que o sol, a lua, as estrelas e os anjos cumprissem o seu ofício para com o mundo e para com aquelas almas que, por causa dos seus excessivos defeitos de mente, precisavam de corpos de natureza mais grosseira e mais sólida; e foi por causa daqueles para quem esse arranjo era necessário que este mundo visível também foi chamado à existência. Daí se segue que pelo uso da palavra katabole parece indicar-se uma descida de uma condição mais alta para uma mais baixa, partilhada por todos em comum. A esperança da liberdade, na verdade, é nutrida pela criação inteira, a esperança de ser libertada da corrupção da escravidão, quando os filhos de Deus, que ou caíram ou foram dispersos9, forem reunidos em um só, ou quando tiverem cumprido neste mundo os seus outros deveres, conhecidos somente de Deus, o Ordenador de todas as coisas. Devemos supor, de fato, que o mundo foi criado com tal qualidade e capacidade que pudesse conter não só todas aquelas almas que se determinou fossem educadas neste mundo, mas também todos aqueles poderes que foram preparados para acompanhá-las, servi-las e ajudá-las. Pois está estabelecido por muitas declarações que todas as criaturas racionais são de uma só natureza: só com esse fundamento a justiça de Deus em todo o seu trato com elas pode ser defendida, visto que cada um tem em si mesmo a razão pela qual foi colocado nesta ou naquela posição na vida.

5. Esse arranjo das coisas, então, que Deus estabeleceu depois (pois ele, desde a própria origem do mundo, havia percebido com clareza as razões e as causas relativas àqueles que, por deficiências de mente, mereceram entrar em corpos, ou àqueles que foram arrastados pelo desejo das coisas visíveis, e também àqueles que, de bom grado ou contra a vontade, foram obrigados (por aquele que os sujeitou na esperança) a prestar certos serviços aos que haviam caído naquela condição), não foi compreendido por alguns. Estes, não percebendo que foi por causas anteriores, originadas no livre-arbítrio, que Deus instituiu essa variedade de arranjo, concluíram que todas as coisas neste mundo são dirigidas ou por movimentos fortuitos ou por um destino necessário, e que nada está em poder da nossa própria vontade. E, por isso mesmo, não foram capazes de mostrar que a providência de Deus está acima de toda censura.

6. Mas, assim como dissemos que todas as almas que viveram neste mundo precisavam de muitos ministros, ou governantes, ou auxiliares, assim também, nos últimos tempos, quando o fim do mundo já está iminente e próximo e todo o gênero humano se inclina para a destruição final, e quando não só os que eram governados por outros ficaram reduzidos à fraqueza, mas também aqueles a quem fora confiado o cuidado do governo, já não era de tal ajuda nem de tais defensores que se precisava, mas era necessária a ajuda do próprio Autor e Criador, para restituir a uns a disciplina da obediência, que fora corrompida e profanada, e a outros a disciplina do governo. E por isso o Filho unigênito de Deus, que era o Verbo e a Sabedoria do Pai, estando de posse daquela glória junto do Pai que tinha antes que o mundo existisse, despojou-se10 dela e, tomando a forma de servo, fez-se obediente até a morte, para ensinar a obediência àqueles que não podiam alcançar a salvação senão pela obediência. Restaurou também as leis do governo e do reinado11, que haviam sido corrompidas, submetendo todos os inimigos debaixo dos seus pés, a fim de, por esse meio (pois era necessário que ele reinasse até ter posto todos os inimigos debaixo dos seus pés e destruído o último inimigo, a morte), ensinar moderação no governo aos próprios governantes. Tendo, então, vindo restaurar a disciplina, não só do governo, mas também da obediência, como dissemos, realizando primeiro em si mesmo o que desejava que fosse realizado pelos outros, ele se fez obediente ao Pai não só até a morte de cruz, mas também, no fim do mundo, abraçando em si todos os que ele sujeita ao Pai e que por ele chegam à salvação, ele mesmo, com eles e neles, é dito também estar sujeito ao Pai; todas as coisas subsistem nele, ele mesmo é a Cabeça de todas as coisas, e nele estão a salvação e a plenitude dos que alcançam a salvação. E é isso, por consequência, o que o apóstolo diz dele: “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.28).

7. Não sei, na verdade, como os hereges, não entendendo o sentido do apóstolo nessas palavras, consideram o termo “sujeição” degradante quando aplicado ao Filho; pois, se a propriedade do título for posta em dúvida, ela pode ser facilmente averiguada pela suposição contrária. Porque, se não é bom estar em sujeição, segue-se que o oposto será bom, isto é, não estar em sujeição. Ora, a linguagem do apóstolo, segundo a opinião deles, parece indicar com estas palavras, “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou” (1Co 15.28), que aquele que agora não está em sujeição ao Pai se tornará sujeito a ele quando o Pai tiver primeiro submetido a ele todas as coisas. Mas me admira como se pode conceber que seja esse o sentido: que aquele que, enquanto todas as coisas ainda não lhe estão submetidas, não está ele mesmo em sujeição, deva ser tido como sujeito justamente quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, quando se tiver tornado Rei de todos os homens e exercer domínio sobre todas as coisas, visto que antes não estava em sujeição. Pois tais pessoas não entendem que a sujeição de Cristo ao Pai indica que a nossa felicidade chegou à perfeição e que a obra por ele empreendida foi levada a um termo vitorioso, uma vez que ele não só purificou o poder do governo supremo sobre toda a criação, mas também apresenta ao Pai os princípios da obediência e da sujeição do gênero humano em condição corrigida e restaurada12. Se, pois, se considera boa e salutar aquela sujeição pela qual se diz que o Filho está sujeito ao Pai, é uma conclusão extremamente racional e lógica deduzir que também a sujeição dos inimigos, que se diz ser feita ao Filho de Deus, deve ser entendida como igualmente salutar e útil; de modo que, assim como, quando se diz que o Filho está sujeito ao Pai, significa-se a perfeita restauração de toda a criação, assim também, quando se diz que os inimigos estão sujeitos ao Filho de Deus, entende-se que nisso consiste a salvação dos vencidos e a restauração dos perdidos.

8. Essa sujeição, porém, se realizará de certos modos, depois de certa disciplina e em certos tempos; pois não se deve imaginar que a sujeição será produzida pela pressão da necessidade (para que o mundo inteiro não pareça então submetido a Deus pela força), mas pela palavra, pela razão e pela doutrina; pelo chamado a um rumo melhor das coisas, pelos melhores métodos de educação, e também pelo emprego de ameaças convenientes e apropriadas, que com justiça pairarão sobre os que desprezam todo cuidado e atenção com a sua salvação e o seu proveito. Em suma, também nós, homens, ao educar os nossos escravos ou filhos, os refreamos com ameaças e medo enquanto, por causa da pouca idade, são incapazes de usar a razão; mas, quando começam a entender o que é bom, útil e honroso, passado o medo do chicote, aquiescem a tudo o que é bom pela persuasão das palavras e da razão. Mas de que modo, preservando-se a liberdade da vontade em todas as criaturas racionais, cada uma deve ser conduzida, isto é, quem são aqueles que a palavra de Deus encontra e educa, como se já estivessem preparados e capazes disso; quem são aqueles que ela adia para um tempo posterior; quem são aqueles de quem ela está inteiramente oculta e que estão situados de tal modo que ficam longe de ouvi-la; quem são, ainda, os que desprezam a palavra de Deus quando ela lhes é dada a conhecer e pregada, e que são impelidos à salvação por uma espécie de correção e castigo, e cuja conversão é, em certa medida, exigida e arrancada à força; quem são aqueles a quem se oferecem certas oportunidades de salvação, de modo que às vezes, provada a sua fé por uma só resposta13, alcançaram sem dúvida a salvação14; por que causas ou em que ocasiões essas coisas acontecem, ou o que a sabedoria divina vê neles, ou que movimentos da sua vontade levam Deus a dispor assim todas essas coisas, isso é conhecido somente dele, do seu Filho unigênito, por meio de quem todas as coisas foram criadas e restauradas, e do Espírito Santo, por meio de quem todas as coisas são santificadas, que procede do Pai15; a ele seja a glória para todo o sempre. Amém.

Capítulo VI. O fim do mundo

1. Ora, a respeito do fim do mundo e da consumação de todas as coisas, já expusemos nas páginas anteriores, segundo a nossa capacidade e na medida em que a autoridade da santa Escritura nos permitiu, o que julgamos suficiente para fins de instrução; e aqui acrescentaremos apenas algumas observações de advertência, já que a ordem da investigação nos trouxe de volta ao assunto. O sumo bem, então, a cuja conquista aspira toda a natureza racional, e que também é chamado o fim de todos os bens16, é definido por muitos filósofos da seguinte forma: o sumo bem, dizem eles, é tornar-se tão semelhante a Deus quanto possível. Mas não considero essa definição tanto uma descoberta deles quanto uma ideia tirada da santa Escritura. Pois isso é indicado por Moisés, antes de todos os outros filósofos, quando descreve a primeira criação do homem com estas palavras: “E Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26); e depois acrescenta: “Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou, e os abençoou” (Gn 1.27-28). Ora, a expressão “à imagem17 de Deus o criou”, sem nenhuma menção da palavra “semelhança”18, não transmite outro sentido senão este: que o homem recebeu a dignidade da imagem de Deus na sua primeira criação, mas que a perfeição da semelhança foi reservada para a consumação; isto é, que ele a adquirisse para si mesmo pelo exercício da sua própria diligência na imitação de Deus, sendo-lhe concedida no princípio a possibilidade de alcançar a perfeição por meio da dignidade da imagem divina, e alcançando-se no fim a perfeita realização da semelhança divina pelo cumprimento das obras (necessárias). Que é assim, o apóstolo João o mostra com mais clareza e sem margem de dúvida, quando faz esta declaração: “Filhinhos, ainda não sabemos o que seremos; mas, se nos for feita uma revelação da parte do Salvador, vocês dirão sem nenhuma dúvida: seremos semelhantes a ele” (cf. 1Jo 3.2). Com essa expressão ele mostra com a maior certeza que não só se devia esperar o fim de todas as coisas, que ele diz ainda lhe ser desconhecido, mas também a semelhança com Deus, que será conferida na proporção da plenitude dos nossos méritos. O próprio Senhor, no Evangelho, não só declara que essas mesmas coisas são futuras, mas que hão de ser realizadas pela sua própria intercessão, dignando-se ele mesmo obtê-las do Pai para os seus discípulos, quando diz: “Pai, quero que, onde eu estou, também estes estejam comigo; e, assim como tu e eu somos um, também eles sejam um em nós” (cf. Jo 17.24; 17.21). Nisso a própria semelhança divina já parece avançar, se assim podemos dizer, e de semelhante passar a ser o mesmo19, porque sem dúvida na consumação, ou no fim, Deus é “tudo em todos”. E, a esse respeito, alguns perguntam20 se a natureza da matéria corporal, embora limpa e purificada e tornada inteiramente espiritual, não parece oferecer um obstáculo, seja para alcançar a dignidade da semelhança (divina), seja para a propriedade da unidade21, porque nem uma natureza corpórea pode parecer capaz de alguma semelhança com uma natureza divina, que certamente é incorpórea, nem pode ser chamada, com verdade e com razão, uma só coisa com ela, sobretudo porque somos ensinados pelas verdades da nossa religião que aquilo que é o único uno, isto é, o Filho com o Pai, deve ser atribuído a uma peculiaridade da natureza (divina).

2. Visto, então, que se promete que no fim Deus será tudo em todos, não devemos, como é justo, supor que os animais, sejam ovelhas, sejam outros rebanhos, chegam àquele fim, para que não se dê a entender que Deus habitaria até nos animais, sejam ovelhas, sejam outros rebanhos; e o mesmo vale para pedaços de madeira ou pedras, para que não se diga que Deus está também nestes. Do mesmo modo, nada que seja mau deve ser suposto alcançar aquele fim, para que, dizendo-se que Deus está em todas as coisas, não se diga também que ele está num vaso de maldade. Pois, se agora afirmamos que Deus está em toda parte e em todas as coisas, com o fundamento de que nada pode estar vazio de Deus, nem por isso dizemos que ele é agora “todas as coisas” naqueles em quem está. E por isso devemos examinar com mais cuidado o que é aquilo que indica a perfeição da bem-aventurança e o fim das coisas, de que se diz não só que Deus está em todas as coisas, mas também que é “tudo em todos”. Investiguemos, então, que são todas aquelas coisas que Deus há de ser em todos.

3. Sou de opinião que a expressão pela qual se diz que Deus é “tudo em todos” significa que ele é “tudo” em cada pessoa individualmente. E ele será “tudo” em cada indivíduo deste modo: quando tudo o que qualquer inteligência racional, purificada das borras de toda espécie de vício e com toda nuvem de maldade completamente dissipada, puder sentir, entender ou pensar for inteiramente Deus; e quando ela já não contemplar nem retiver outra coisa senão Deus, mas Deus for a medida e a norma de todos os seus movimentos; e assim Deus será “tudo”, porque já não haverá nenhuma distinção entre o bem e o mal, visto que o mal não existirá em parte alguma; pois Deus é todas as coisas, e dele nenhum mal se aproxima. Nem haverá mais desejo de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal da parte daquele que está sempre de posse do bem e para quem Deus é tudo. Assim, então, quando o fim tiver sido restituído ao princípio e o término das coisas comparado com o seu começo, será restabelecida aquela condição das coisas em que a natureza racional foi colocada, quando não tinha necessidade de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal; de modo que, removido todo sentimento de maldade e estando o indivíduo purificado e limpo, aquele que é o único Deus bom se torna para ele “tudo”, e isso não no caso de uns poucos indivíduos, nem de um número considerável, mas ele mesmo é “tudo em todos”. E, quando a morte já não existir em parte alguma, nem o aguilhão da morte, nem mal algum, então verdadeiramente Deus será “tudo em todos”. Alguns, porém, são de opinião que aquela perfeição e bem-aventurança das criaturas, ou naturezas, racionais só pode permanecer naquela mesma condição de que falamos acima, isto é, que todas as coisas possuam Deus e Deus seja para elas todas as coisas, se elas não forem de modo algum impedidas pela sua união com uma natureza corpórea. De outro modo, pensam eles, a glória da suprema bem-aventurança fica impedida pela mistura de qualquer substância material22. Mas esse assunto nós o discutimos mais extensamente, como se pode ver nas páginas anteriores.

4. E agora, já que encontramos o apóstolo fazendo menção de um corpo espiritual, investiguemos, segundo a nossa capacidade, que ideia devemos formar de tal coisa. Até onde o nosso entendimento pode alcançar, pois, consideramos que o corpo espiritual é de tal natureza que deve ser habitado não só por todas as almas santas e perfeitas, mas também por todas aquelas criaturas que serão libertadas da escravidão da corrupção. A respeito do corpo, o apóstolo também disse: “Temos uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus” (2Co 5.1), isto é, nas moradas dos bem-aventurados. E, a partir dessa afirmação, podemos conjecturar quão puras, quão refinadas e quão gloriosas são as qualidades daquele corpo, se o compararmos com aqueles que, embora sejam corpos celestes e do mais brilhante esplendor, foram contudo feitos por mãos e são visíveis aos nossos olhos. Mas daquele corpo se diz que é uma casa não feita por mãos, mas eterna, nos céus. Visto, então, que “as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas” (2Co 4.18), todos aqueles corpos que vemos, seja na terra, seja no céu, e que podem ser vistos e foram feitos por mãos, mas não são eternos, são em muito excedidos em glória por aquele que não é visível, nem feito por mãos, mas é eterno. Por essa comparação se pode conceber quão grandes são a formosura, o esplendor e o brilho de um corpo espiritual, e quão verdadeiro é que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9; cf. Is 64.4). Não devemos duvidar, porém, de que a natureza deste nosso corpo presente pode, pela vontade de Deus, que o fez como é, ser elevada àquelas qualidades de refinamento, pureza e esplendor (que caracterizam o corpo mencionado), conforme o exigir a condição das coisas e o pedirem os méritos da nossa natureza racional. Enfim, quando o mundo precisou de variedade e diversidade, a matéria se entregou com toda docilidade, através das diversas aparências e espécies das coisas, ao Criador, como ao seu Senhor e Artífice, para que ele tirasse dela as várias formas dos seres celestes e terrestres. Mas, quando as coisas começarem a se apressar para aquela consumação em que todos sejam um, assim como o Pai é um com o Filho, pode-se entender, como conclusão racional, que, onde todos são um, já não haverá nenhuma diversidade.

5. O último inimigo, além disso, que se chama morte, diz-se que será destruído por este motivo: para que não reste nada de triste quando a morte não existir, nem nada de adverso quando não houver inimigo. A destruição do último inimigo, na verdade, deve ser entendida não como se a sua substância, que foi formada por Deus, houvesse de perecer, mas porque a sua mente e a sua vontade hostil, que não vieram de Deus, mas dele mesmo, hão de ser destruídas. A sua destruição, portanto, não será a sua não existência, mas o deixar de ser inimigo e (de ser) morte. Pois nada é impossível ao Onipotente, nem há nada que não possa ser restaurado23 pelo seu Criador; porque ele fez todas as coisas para que existissem, e as coisas que foram feitas para existir não podem deixar de ser. Por essa razão também admitirão mudança e variedade, de modo a serem colocadas, segundo os seus méritos, numa posição melhor ou pior; mas nenhuma destruição de substância pode atingir as coisas que foram criadas por Deus com o propósito de uma existência permanente24. Pois aquelas coisas que, segundo a opinião comum, se crê que perecem, a natureza da nossa fé ou da verdade não nos permite supor que sejam destruídas. Enfim, os ignorantes e os incrédulos supõem que a nossa carne é destruída depois da morte a tal ponto que não conserva resto algum da sua substância anterior. Nós, porém, que cremos na sua ressurreição, entendemos que a morte produziu apenas uma mudança, mas que a sua substância certamente permanece, e que, pela vontade do seu Criador e no tempo determinado, ela será restituída à vida; e que uma segunda vez se dará nela uma mudança, de modo que aquilo que a princípio era carne (formada) do solo terreno, e depois foi desfeito pela morte e de novo reduzido a pó e cinza (“Porque você é pó”, diz-se, “e ao pó voltará”) (Gn 3.19), será de novo levantado da terra e depois disso, segundo os méritos da alma que nele habita, avançará para a glória de um corpo espiritual.

6. A essa condição, então, devemos supor que toda esta nossa substância corpórea será levada quando todas as coisas forem restabelecidas num estado de unidade e quando Deus for tudo em todos. E esse resultado deve ser entendido como produzido não de repente, mas lenta e gradualmente, visto que o processo de emenda e correção se dará de modo imperceptível em cada caso individual, ao longo de séculos inumeráveis e sem medida: uns passando à frente de outros e tendendo por um curso mais veloz à perfeição25, enquanto outros os seguem de perto, e alguns ainda muito atrás; e assim, através das numerosas e incontáveis ordens de seres em progresso, que vão sendo reconciliados com Deus a partir de um estado de inimizade, chega-se por fim ao último inimigo, que se chama morte, para que também ele seja destruído e não seja mais inimigo. Quando, portanto, todas as almas racionais tiverem sido restauradas a uma condição desse tipo, então a natureza deste nosso corpo passará por uma mudança para a glória de um corpo espiritual. Pois, assim como vemos que não é o caso, quanto às naturezas racionais, de que umas tenham vivido em estado de degradação por causa dos seus pecados e outras tenham sido chamadas a um estado de felicidade por causa dos seus méritos, mas vemos que essas mesmas almas, que antes tinham sido pecadoras, foram ajudadas a chegar a um estado de felicidade depois da sua conversão e reconciliação com Deus, assim também devemos considerar, quanto à natureza do corpo, que aquele de que agora nos servimos em estado de baixeza, corrupção e fraqueza não é um corpo diferente daquele que possuiremos em incorrupção, em poder e em glória; mas que o mesmo corpo, quando tiver lançado fora as enfermidades em que agora está enredado, será transmudado numa condição de glória, tornado espiritual, de modo que aquilo que era um vaso de desonra possa, depois de purificado, tornar-se um vaso para honra e uma morada de bem-aventurança. E nessa condição também devemos crer que, pela vontade do Criador, ele permanecerá para sempre sem nenhuma mudança, como confirma a declaração do apóstolo quando diz: “Temos uma casa não feita por mãos humanas, eterna, nos céus” (2Co 5.1). Pois a fé da Igreja não admite a opinião de certos filósofos gregos de que existe, além do corpo composto dos quatro elementos, outro corpo, um quinto, diferente em todas as suas partes e diverso deste nosso corpo presente; visto que ninguém pode tirar da Escritura sagrada a menor sombra de prova para tal opinião, nem qualquer conclusão racional a partir das coisas permite aceitá-la, sobretudo quando o santo apóstolo declara claramente que não são corpos novos que se dão aos que ressuscitam dos mortos, mas que eles recebem aqueles mesmos que possuíam quando vivos, transformados de uma condição inferior para uma melhor. Pois as suas palavras são: “Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual; semeia-se na corrupção, ressuscitará na incorrupção; semeia-se em fraqueza, ressuscitará em poder; semeia-se em desonra, ressuscitará em glória” (1Co 15.42-44). Assim, pois, como há no homem uma espécie de progresso, de modo que, sendo primeiro um ser animal e não entendendo as coisas do Espírito de Deus, ele chega, por meio da instrução, ao estágio de ser feito um ser espiritual e de julgar todas as coisas, sem que ele mesmo seja julgado por ninguém, assim também, quanto ao estado do corpo, devemos sustentar que este mesmo corpo, que agora, por causa do seu serviço à alma, é chamado corpo animal, alcançará, por meio de certo progresso, quando a alma, unida a Deus, tiver sido feita um só espírito com ele (servindo então o corpo, por assim dizer, ao espírito), uma condição e qualidade espirituais; sobretudo porque, como muitas vezes mostramos, a natureza corpórea foi formada pelo Criador de tal modo que passa com facilidade a qualquer condição que ele quiser ou que a natureza do caso exigir.

7. Todo esse raciocínio, então, se resume nisto: Deus criou duas naturezas gerais, uma visível, isto é, corpórea, e outra invisível, que é incorpórea. Ora, essas duas naturezas admitem duas espécies diferentes de mudança. A natureza invisível e racional muda na mente e no propósito, porque é dotada de liberdade da vontade, e por isso se encontra às vezes ocupada na prática do bem e às vezes na do seu contrário. Mas a natureza corpórea admite mudança na substância; por isso também Deus, o ordenador de todas as coisas, tem esta matéria a seu serviço e sob o seu comando para modelar, fabricar ou retocar o que quiser, de modo que a natureza corpórea possa ser transmudada e transformada em quaisquer formas ou espécies, conforme o exigirem os méritos das coisas. É isso, evidentemente, o que o profeta tem em vista quando diz: “É Deus quem faz e transforma todas as coisas.”

8. E agora o ponto a investigar é se, quando Deus for tudo em todos, toda a natureza corpórea, na consumação de todas as coisas, consistirá de uma só espécie, e se a única qualidade de corpo será aquela que há de brilhar na glória indescritível que se deve considerar a posse futura do corpo espiritual. Pois, se entendemos bem a questão, é isso o que Moisés afirma no começo do seu livro, quando diz: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1). Pois este é o princípio de toda a criação: a esse princípio devem ser reconduzidos o fim e a consumação de todas as coisas, isto é, para que aquele céu e aquela terra sejam a habitação e o lugar de repouso dos piedosos; de modo que todos os santos e os mansos obtenham primeiro uma herança naquela terra, já que esse é o ensino da lei, dos profetas e do Evangelho. Nessa terra, creio eu, existem as formas verdadeiras e vivas daquele culto que Moisés transmitiu sob a sombra da lei; do qual se diz que “ministram em figura e sombra das coisas celestiais” (Hb 8.5), isto é, aqueles que estavam em sujeição debaixo da lei. Ao próprio Moisés também foi dada a ordem: “Tenha o cuidado de fazê-los segundo a forma e o modelo que lhe foram mostrados no monte” (Êx 25.40). Daí me parece que, assim como nesta terra a lei foi uma espécie de aio para aqueles que por ela haviam de ser conduzidos a Cristo, a fim de que, instruídos e educados por ela, recebessem com mais facilidade, depois da disciplina da lei, os princípios mais perfeitos de Cristo, assim também outra terra, que recebe em si todos os santos, pode primeiro imbuí-los e moldá-los pelas instituições da lei verdadeira e eterna, para que alcancem com mais facilidade a posse daquelas instituições perfeitas do céu, às quais nada se pode acrescentar; nelas haverá, de verdade, aquele Evangelho que é chamado eterno e aquela Aliança, sempre nova, que jamais envelhecerá.

9. Desse modo, então, devemos supor que, na consumação e restauração de todas as coisas, aqueles que fazem um progresso gradual e que sobem (na escala do aperfeiçoamento) chegarão, na devida medida e ordem, àquela terra e àquela disciplina que nela se contém, onde possam ser preparados para aquelas instituições melhores às quais nada se pode acrescentar. Pois, depois dos seus agentes e servos, o Senhor Cristo, que é Rei de todos, assumirá ele mesmo o reino; isto é, depois da instrução nas santas virtudes, ele mesmo instruirá aqueles que são capazes de recebê-lo enquanto é a sabedoria, reinando neles até que os tenha sujeitado ao Pai, que submeteu a si todas as coisas; isto é, para que, quando tiverem sido feitos capazes de receber a Deus, Deus seja para eles tudo em todos. Então, por consequência necessária, a natureza corpórea alcançará aquela condição suprema26 à qual nada mais se pode acrescentar. Tendo tratado até aqui da qualidade da natureza corpórea, ou do corpo espiritual, deixamos à escolha do leitor decidir o que considerar melhor. E aqui podemos dar por concluído o terceiro livro.

Notas

1. De ecclesiasticis definitionibus unum.

2. Consummationem sæculi.

3. A Vulgata traz “In diebus novissimis”; a Septuaginta, ep’ eschaton ton hemeron; o texto massorético, be’acharit.

4. Auctoritate Scripturæ nostræ, vel fidei.

5. Regulam pietatis.

6. O texto está de acordo com a Septuaginta: Ti to gegonos; Auto to genesomenon. Kai ti to pepoiemenon; Auto to poiethesomenon. Kai ouk esti pan prosphaton hupo ton helion. Hos lalesei kai erei. Ide touto kainon estin ede gegonen en tois aiosi tois genomenois apo emprosthen hemon.

7. Sæcula.

8. Esta é a versão de Jerônimo para esta passagem (Epístola a Avito): “Penso que se deve entender uma habitação divina e um verdadeiro repouso no alto (apud superos), onde habitam as criaturas racionais e onde, antes da sua descida a uma posição inferior, da sua passagem dos (mundos) invisíveis para os visíveis, da sua queda à terra e da necessidade de corpos grosseiros, elas gozavam de uma bem-aventurança anterior. Por isso Deus, o Criador, fez para elas corpos adequados à sua posição humilde, criou este mundo visível e enviou ao mundo ministros para a salvação e a correção dos que haviam caído; destes, uns deviam ocupar certos lugares e estar sujeitos às necessidades do mundo; outros deviam cumprir com cuidado e atenção, em todos os tempos, os deveres que lhes eram impostos e que eram conhecidos de Deus, o Ordenador (de todas as coisas). E, dentre estes, o sol, a lua e as estrelas, que o apóstolo chama ‘criação’, receberam os lugares mais elevados do mundo. Essa ‘criação’ foi sujeita à vaidade, por estar revestida de corpos grosseiros e exposta à vista; e, no entanto, foi sujeita à vaidade não voluntariamente, mas pela vontade daquele que a sujeitou na esperança.” E de novo: “Enquanto outros, que cremos serem anjos, em diferentes lugares e tempos, que só o Ordenador conhece, servem ao governo do mundo.” E um pouco adiante: “Essa ordem de coisas é regulada pelo governo providencial do mundo inteiro: alguns poderes caem de uma posição mais elevada, outros vão afundando aos poucos até a terra; uns caem voluntariamente, outros são lançados abaixo contra a sua vontade; uns assumem de livre vontade o serviço de estender a mão aos que caem, outros são obrigados a perseverar por longo tempo no dever que assumiram.” E de novo: “Daí se segue que, por causa dos vários movimentos, também são criados vários mundos e que, depois deste mundo que agora habitamos, haverá outro muito diferente. Mas nenhum outro ser, senão somente Deus, o Criador de todas as coisas, pode ordenar os méritos (de todos), tanto para o tempo vindouro como para o que passou, conforme as diferentes quedas e progressos (de cada um), e conforme as recompensas das virtudes ou o castigo dos vícios, tanto no presente como no futuro e em todos (os tempos), e conduzir todos de novo a um só fim; pois ele conhece as causas pelas quais permite que alguns gozem da sua própria vontade e caiam de uma posição mais alta para a condição mais baixa, e pelas quais começa a visitar outros e a trazê-los de volta pouco a pouco, como que lhes dando a mão, ao seu estado primitivo, colocando-os numa posição elevada” (Ruæus).

9. Dispersi.

10. Exinanivit semet ipsum.

11. Regendi regnandique.

12. Cum non solum regendi ac regnandi summam, quam in universam emendaverit creaturam, verum etiam obedientæ et subjectione correcta reparataque humani generis Patri offerat instituta.

13. Por uma profissão de fé no batismo.

14. Indubitatam ceperit salutem.

15. Foi só no terceiro Sínodo de Toledo, em 589 d.C., que a cláusula “Filioque” foi acrescentada ao Credo de Constantinopla; essa diferença constitui, como se sabe, um dos fundamentos dogmáticos da separação entre as Igrejas do Ocidente e do Oriente até os dias de hoje, pois esta última nega que o Espírito procede do Pai e do Filho.

16. Finis omnium: subentende-se “bonorum”.

17. Imago.

18. Similitudo.

19. Ex simili unum fieri.

20. Jerônimo, na sua Epístola a Avito, n.º 94, traz a passagem assim: “Visto que, como já observamos muitas vezes, o princípio é gerado de novo a partir do fim, pergunta-se se então também haverá corpos, ou se a existência se manterá em algum momento sem eles, quando tiverem sido aniquilados, e se, assim, se deve crer que a vida dos seres incorpóreos é incorpórea, como sabemos ser o caso de Deus. E não há dúvida de que, se todos os corpos que o apóstolo chama visíveis pertencem a este mundo sensível, a vida dos seres incorpóreos será incorpórea.” E um pouco depois: “Também aquela expressão do apóstolo, ‘A criação inteira será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus’ (Rm 8.21), nós a entendemos de modo a dizer que foi a primeira criação, a dos seres racionais e incorpóreos, que não está sujeita à corrupção, porque não estava revestida de corpos; pois onde quer que haja corpos, a corrupção vem logo em seguida. Mas depois ela será libertada do cativeiro da corrupção, quando tiverem recebido a glória dos filhos de Deus e Deus for tudo em todos.” E no mesmo lugar: “Que devemos crer que o fim de todas as coisas é incorpóreo, a própria linguagem do Salvador nos leva a pensar, quando diz: ‘Assim como eu e tu somos um, assim também eles sejam um em nós’ (Jo 17.21). Pois devemos saber o que Deus é e o que o Salvador será no fim, e como a semelhança do Pai e do Filho foi prometida aos santos; pois, assim como eles são um nele, assim também eles são um neles. Porque devemos adotar uma de duas posições: ou que o Deus de todas as coisas está revestido de um corpo e que, assim como nós estamos envolvidos em carne, assim também ele está em alguma cobertura material, para que a semelhança da vida de Deus seja no fim produzida também nos santos; ou, se essa hipótese é inconveniente, sobretudo no juízo daqueles que desejam, ainda que no menor grau, sentir a majestade de Deus e contemplar a glória da sua natureza incriada e que tudo excede, somos forçados a adotar a outra alternativa e a desesperar de alcançar qualquer semelhança com Deus, se havemos de habitar para sempre os mesmos corpos; ou, se nos é prometida a bem-aventurança da mesma vida com Deus, devemos viver no mesmo estado em que Deus vive.” Todos esses pontos foram omitidos por Rufino como errôneos, e afirmações de outro tipo foram inseridas em seu lugar aqui e ali (Ruæus).

21. Ad unitatis proprietatem.

22. “Aqui a honestidade de Rufino na sua tradução parece muito suspeita: pois a conhecida opinião de Orígenes sobre os pecados e as quedas dos espíritos bem-aventurados ele aqui a atribui a outros. Mais ainda: a própria opinião que ele apresenta Orígenes atribuindo a outros, ele o mostra refutando um pouco adiante, na seção 6, com estas palavras: ‘E nessa condição (de bem-aventurança) devemos crer que, pela vontade do Criador, ele permanecerá para sempre sem nenhuma mudança’ etc. Suspeito, portanto, que tudo isso se deve ao próprio Rufino e que ele o inseriu em lugar do que se encontra no começo do capítulo, na seção 1, e que na Epístola de Jerônimo a Avito aparece assim: ‘Nem há dúvida de que, depois de certos intervalos de tempo, a matéria existirá de novo, corpos serão formados e uma diversidade será estabelecida no mundo, por causa das vontades variáveis das criaturas racionais que, depois de (gozarem) a bem-aventurança perfeita até o fim de todas as coisas, foram caindo pouco a pouco para uma condição inferior e receberam em si tanta maldade que se converteram numa condição oposta, por não quererem conservar o seu estado original e preservar incorrupta a sua bem-aventurança. Nem se deve calar este ponto: que muitas criaturas racionais conservam a sua primeira condição (principium) até o segundo, o terceiro e o quarto mundos e não dão lugar a nenhuma mudança em si mesmas, enquanto outras, por sua vez, perderão tão pouco do seu estado primitivo que parecerão não ter perdido quase nada, e algumas serão precipitadas com grande ruína no abismo mais profundo. E Deus, o ordenador de todas as coisas, ao criar os seus mundos, sabe tratar cada um segundo os seus méritos, e conhece as ocasiões e as causas pelas quais o governo (gubernacula) do mundo é sustentado e iniciado; de modo que aquele que superou todos os outros em maldade e se rebaixou completamente até a terra é feito, em outro mundo que há de ser formado depois, um diabo, o princípio da criação do Senhor (Jó 40.19), para ser escarnecido pelos anjos que perderam a virtude da sua condição original’ (exordii virtutem).” Ruæus.

23. Insanabile.

24. Ut essent et permanerent.

25. Ad summa.

26. Jerônimo (Epístola a Avito, n.º 94) diz que Orígenes, “depois de uma discussão muito extensa, na qual afirma que toda a natureza corpórea há de ser transformada em corpos tênues e espirituais, e que toda substância há de ser convertida num só corpo de perfeita pureza, mais brilhante que todo esplendor (mundissimum et omni splendore purius), e tal que a mente humana não o pode conceber agora”, acrescenta por fim: “‘E Deus será tudo em todos’, de modo que toda a natureza corpórea seja reduzida àquela substância que é melhor que todas as outras, isto é, à divina, que nenhuma supera.” Disso, visto que parece seguir-se que Deus possui um corpo, ainda que de extrema tenuidade (licet tenuissimum), Rufino ou suprimiu essa opinião ou alterou o sentido das palavras de Orígenes (Ruæus).

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.