Orígenes, Sobre os Princípios · Livro IV
As leis e as narrativas que pedem leitura espiritual, o verdadeiro Israel e a Jerusalém do alto.
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17. E, se passarmos à legislação de Moisés, muitas das leis revelam a irracionalidade, e outras a impossibilidade, de sua observância literal.1 A irracionalidade (está nisto): proíbe-se ao povo comer abutres, embora ninguém, nem nas fomes mais terríveis, jamais tenha sido levado pela necessidade a recorrer a essa ave; e ordena-se que as crianças de oito dias que não foram circuncidadas sejam exterminadas do meio do seu povo, quando seria necessário, se a lei fosse cumprida literalmente em relação a elas, que se ordenasse a morte de seus pais ou daqueles com quem são criadas. Pois a Escritura diz: “Todo macho incircunciso, que não for circuncidado no oitavo dia, será eliminado do meio do seu povo” (Gn 17.14). E, se você quiser ver impossibilidades contidas na legislação, observemos que o bode-cervo é um daqueles animais que não podem existir, e, no entanto, Moisés nos ordena oferecê-lo como animal puro; ao passo que o grifo, do qual não se registra que alguma vez tenha sido domado pelo homem, o legislador proíbe que seja comido. Mais ainda: quem considerar com atenção (o famoso preceito relativo ao) sábado, “Fique cada um sentado em sua casa; ninguém saia do seu lugar no sétimo dia” (Êx 16.29), julgará impossível observá-lo literalmente, pois nenhum ser vivo é capaz de ficar sentado durante um dia inteiro sem se mover da posição em que está sentado. E por isso os da circuncisão, e todos os que não querem que se mostre nenhum sentido além do literal, não investigam de modo algum assuntos como os do bode-cervo, do grifo e do abutre, mas se entregam a falatórios tolos sobre certos pontos, multiplicando palavras e apresentando tradições insípidas;2 como, por exemplo, a respeito do sábado, dizendo que dois mil côvados são o limite de cada um.3 Outros, por sua vez, entre os quais está Dositeu, o samaritano, condenando essa interpretação, pensam que o homem deve permanecer até a tarde na posição em que se encontra no dia de sábado. Além disso, não carregar fardo no dia de sábado é uma impossibilidade; e por isso os mestres judeus caíram em incontáveis absurdos,4 dizendo que um calçado de certo tipo era fardo, mas o de outro tipo não; e que a sandália que tinha cravos era fardo, mas a que não os tinha não; e, da mesma forma, o que era levado sobre um ombro (era carga), mas não o que era carregado sobre os dois.
18. E, se formos ao Evangelho e fizermos um exame semelhante, o que seria mais irracional do que (tomar ao pé da letra o preceito) “não saúdem ninguém pelo caminho” (Lc 10.4), que as pessoas simples pensam que o Salvador ordenou aos apóstolos? A ordem, além disso, de que se ofereça a face direita para ser golpeada é das mais incríveis, pois todo aquele que bate, a não ser que tenha algum defeito físico,5 golpeia a face esquerda com a mão direita. E é impossível tomar (literalmente o que se diz) no Evangelho sobre o olho direito que “faz tropeçar”. Pois, mesmo admitindo a possibilidade de alguém “tropeçar” por meio do sentido da vista, como, havendo dois olhos que veem, a culpa seria lançada sobre o olho direito? E quem há que, condenando-se por ter olhado para uma mulher com intenção impura, transferiria racionalmente a culpa somente ao olho direito e o lançaria fora? O apóstolo, além disso, estabelece como lei: “Foi alguém chamado, estando circunciso? Não desfaça a circuncisão” (1Co 7.18). Em primeiro lugar, qualquer um verá que ele não diz essas palavras em conexão com o assunto que está tratando. Pois, ao dar preceitos sobre o casamento e a pureza, como não parecerá que introduziu essas palavras a esmo?6 Em segundo lugar, quem dirá que age mal o homem que se esforça por desfazer a circuncisão, se isso for possível, por causa da desonra que a maioria considera ligada à circuncisão?
Todas essas afirmações foram feitas por nós para mostrar que o propósito daquele poder divino que nos deu as Sagradas Escrituras é que não recebamos o que é apresentado apenas pela letra (pois tais coisas às vezes não são verdadeiras em sua acepção literal, mas absurdas e impossíveis), mas que certas coisas foram introduzidas na própria história e na legislação que são úteis em seu sentido literal.7
19. Mas, para que ninguém suponha que afirmamos, a respeito do todo, que nenhuma história é real8 porque certa história não o é; e que nenhuma lei deve ser observada literalmente porque certa lei, (entendida) segundo a letra, é absurda ou impossível; ou que o que se diz a respeito do Salvador não é verdadeiro de modo perceptível aos sentidos;9 ou que nenhum mandamento e preceito dele deve ser obedecido, temos de responder que, a respeito de certas coisas, é perfeitamente claro para nós que o relato histórico é verdadeiro; como que Abraão foi sepultado na caverna dupla em Hebrom, assim como Isaque e Jacó, e as mulheres de cada um deles; e que Siquém foi dada como porção a José (cf. Gn 48.22; Js 24.32); e que Jerusalém é a metrópole da Judeia, na qual o templo de Deus foi construído por Salomão; e inúmeras outras afirmações. Pois as passagens que são verdadeiras em seu sentido histórico são muito mais numerosas do que aquelas que estão entremeadas de significado puramente espiritual. E, por outro lado, quem não diria que o mandamento que ordena “honre o seu pai e a sua mãe, para que tudo corra bem com você” (cf. Êx 20.12; Ef 6.2-3) é útil, independentemente de qualquer sentido alegórico,10 e deve ser observado, tendo também o apóstolo Paulo empregado essas mesmas palavras? E que necessidade há de falar das (proibições) “Não cometa adultério”, “Não mate”, “Não furte”, “Não dê falso testemunho” (cf. Êx 20.13-16)? E, ainda, há mandamentos contidos no Evangelho que não admitem dúvida quanto a deverem ser observados segundo a letra ou não; por exemplo, o que diz: “Eu, porém, lhes digo que todo aquele que se irar contra o seu irmão” (Mt 5.22), e assim por diante. E também: “Eu, porém, lhes digo: não jurem de modo nenhum” (Mt 5.34). E nos escritos do apóstolo deve-se reter o sentido literal: “admoestem os que vivem de forma desordenada, consolem os desanimados, amparem os fracos e sejam pacientes com todos” (1Ts 5.14); embora seja possível aos que aspiram a um sentido mais profundo guardar as profundezas da sabedoria de Deus sem pôr de lado o mandamento em seu sentido literal.11 O leitor cuidadoso, porém, ficará em dúvida12 a respeito de certos pontos, sendo incapaz de mostrar sem longa investigação se esta ou aquela história, tida por tal, aconteceu literalmente ou não, e se o sentido literal desta ou daquela lei deve ser observado ou não. E por isso o leitor exato deve, obedecendo ao preceito do Salvador de “examinar as Escrituras” (Jo 5.39), averiguar com cuidado até que ponto o sentido literal é verdadeiro e até que ponto é impossível; e, tanto quanto puder, rastrear, por meio de afirmações semelhantes, o sentido espalhado por toda a Escritura daquilo que não pode ser entendido numa significação literal.
20. Visto, portanto, que, como ficará claro para os que leem, a conexão tomada literalmente é impossível, enquanto o sentido preferido13 não é impossível, mas é até o verdadeiro, nosso objetivo deve ser apreender o sentido inteiro, que liga de modo inteligível o relato do que é literalmente impossível ao que não só não é impossível, mas também é historicamente verdadeiro, e que é entendido alegoricamente naquilo que não aconteceu literalmente.14 Pois, quanto à Santa Escritura, nossa opinião é que toda ela tem um sentido “espiritual”, mas nem toda tem um sentido “corporal”, porque o sentido corporal se mostra impossível em muitos lugares. E por isso o leitor prudente deve dedicar grande atenção aos livros divinos, como escritos divinos que são; e o modo de entendê-los nos parece ser o seguinte. As Escrituras relatam que Deus escolheu certa nação sobre a terra, que elas chamam por vários nomes. Pois a nação inteira é chamada Israel, e também Jacó. E, quando ela foi dividida nos tempos de Jeroboão, filho de Nebate, as dez tribos que, segundo o relato, lhe estavam sujeitas foram chamadas Israel; e as duas restantes, junto com a tribo de Levi, governadas pelos descendentes de Davi, receberam o nome de Judá. E todo o território que o povo dessa nação habitava, dado a eles por Deus, recebe o nome de Judá, cuja metrópole é Jerusalém, metrópole, isto é, de numerosas cidades, cujos nomes se acham espalhados em muitas outras passagens (da Escritura), mas são enumerados juntos no livro de Josué, filho de Num.15
21. Sendo este, pois, o estado da questão, o apóstolo, elevando nossa capacidade de discernimento (acima da letra), diz em certo lugar: “Considerem o Israel segundo a carne” (1Co 10.18), como se houvesse um Israel “segundo o Espírito”. E em outro lugar diz: “não são os filhos da carne que são filhos de Deus” (Rm 9.8); nem “todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6); nem “é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é ‘circuncisão’ a que é somente na carne. Porém judeu é aquele que o é ‘interiormente’, e circuncisão é a do coração, pelo Espírito, não segundo a letra” (Rm 2.28-29). Pois, se se adotar o juízo a respeito do “judeu interiormente”, devemos entender que, assim como há uma raça “corporal” de judeus, assim também há uma raça de “judeus interiormente”, tendo a alma adquirido essa nobreza por certas razões misteriosas. Além disso, há muitas profecias que predizem a respeito de Israel e de Judá o que está para lhes acontecer. E as promessas que estão escritas a respeito deles, por serem pobres na expressão e não manifestarem nenhuma elevação (de pensamento) nem coisa alguma digna da promessa de Deus, não precisam de uma interpretação mística? E, se as promessas “espirituais” são anunciadas por sinais visíveis, então aqueles a quem as promessas são feitas não são “corporais”. E, para não nos demorarmos no ponto do judeu que é judeu “interiormente”, nem no do israelita segundo o “homem interior” (estas afirmações bastam para os que não são desprovidos de entendimento), voltamos ao nosso assunto e dizemos que Jacó é o pai dos doze patriarcas, e estes, dos chefes do povo; e estes, por sua vez, dos demais israelitas. Ora, não é verdade que os israelitas “corporais” remontam sua descendência aos chefes do povo, e os chefes do povo aos patriarcas, e os patriarcas a Jacó e aos que estão ainda mais acima; enquanto os israelitas “espirituais”, dos quais os israelitas “corporais” eram o tipo, procedem das famílias, e as famílias das tribos, e as tribos de um único indivíduo cuja descendência não é “corporal”, mas de uma espécie melhor, nascido ele também de Isaque, e este de Abraão, remontando todos a Adão, que o apóstolo declara ser Cristo? Pois todo princípio daquelas famílias que se relacionam com Deus como com o Pai de todos teve seu início mais abaixo, com Cristo, que vem logo depois do Deus e Pai de todos,16 sendo assim o Pai de toda alma, como Adão é o pai de todos os homens. E, se o apóstolo entende também que Eva se refere à Igreja, não é de admirar que Caim, que nasceu de Eva, e todos depois dele, cuja descendência remonta a Eva, sejam tipos da Igreja, visto que, num sentido eminente, todos descendem da Igreja.
22. Ora, se as afirmações que nos são feitas a respeito de Israel, de suas tribos e de suas famílias são próprias para nos impressionar, quando o Salvador diz: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15.24), não entendemos a expressão como os ebionitas, que são pobres de entendimento (tiram seu nome da pobreza de seu intelecto, pois “Ebion” significa “pobre” em hebraico), a ponto de supor que o Salvador veio especialmente para os israelitas “carnais”; pois “não são os filhos da carne que são filhos de Deus” (Rm 9.8). O apóstolo, por sua vez, ensina a respeito de Jerusalém o seguinte: “a Jerusalém lá de cima é livre e ela é a nossa mãe” (Gl 4.26). E em outra epístola: “Mas vocês chegaram ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a milhares de anjos. Vocês chegaram à assembleia festiva, a igreja dos primogênitos arrolados nos céus” (Hb 12.22-23). Se, então, Israel está entre a raça das almas,17 e se há no céu uma cidade de Jerusalém, segue-se que as cidades de Israel têm por metrópole a Jerusalém celestial, e ela é, por conseguinte, a metrópole de toda a Judeia. Tudo, portanto, o que se prediz de Jerusalém e o que dela se diz, se ouvirmos as palavras de Paulo como palavras de Deus e de alguém que fala sabedoria, devemos entender que as Escrituras o dizem da cidade celestial e de todo o território compreendido nas cidades da terra santa. Pois talvez seja a essas cidades que o Salvador nos remete quando, aos que conquistaram aprovação por terem administrado bem as suas “minas”, atribui o governo sobre cinco ou dez cidades. Se, portanto, as profecias relativas à Judeia, a Jerusalém, a Israel, a Judá e a Jacó, não sendo entendidas por nós num sentido “carnal”, indicam alguns mistérios desse tipo (como já mencionamos), segue-se também que as predições a respeito do Egito e dos egípcios, da Babilônia e dos babilônios, de Tiro e dos tírios, de Sidom e dos sidônios, ou das outras nações, são ditas não só desses egípcios, babilônios, tírios e sidônios “corporais”, mas também dos seus correspondentes “espirituais”. Pois, se há israelitas “espirituais”, segue-se que há também egípcios e babilônios “espirituais”. Pois o que se relata em Ezequiel a respeito de Faraó, rei do Egito, não se aplica de modo algum ao caso de certo homem que governou ou se dizia governar o Egito, como ficará evidente aos que o considerarem com atenção. Do mesmo modo, o que se diz do príncipe de Tiro não pode ser entendido de certo homem que governou Tiro. E o que se diz em muitos lugares, e especialmente em Isaías, de Nabucodonosor não pode ser explicado daquele indivíduo. Pois o homem Nabucodonosor nem caiu do céu, nem foi a estrela da manhã, nem se levantou sobre a terra pela manhã. Nem homem algum de entendimento interpretaria o que se diz em Ezequiel sobre o Egito (a saber, que por quarenta anos ficaria desolado, de modo que nele não se acharia pegada de homem, e que as devastações da guerra seriam tão grandes que o sangue correria por toda a sua extensão e subiria até os joelhos) como referente àquele Egito que fica junto aos etíopes, cujos corpos são enegrecidos pelo sol.
23. E talvez, assim como os que estão aqui, morrendo segundo a morte comum a todos, são dispostos, em consequência das obras feitas aqui, de modo a obter lugares diferentes segundo a proporção de seus pecados, se forem julgados dignos do lugar chamado Hades,18 assim também os que lá morrem, por assim dizer, descem a este Hades, sendo julgados merecedores de moradas diferentes (melhores ou piores) em todo este espaço da terra, e (de descender) de pais de diferentes espécies,19 de modo que um israelita pode às vezes cair entre os citas, e um egípcio descer à Judeia. E, no entanto, o Salvador veio reunir as ovelhas perdidas da casa de Israel; mas, como muitos dos israelitas não se renderam ao seu ensino, os dos gentios foram chamados…. E esses pontos, como supomos, foram ocultados nas histórias. Pois “o Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido no campo, que um homem achou e escondeu. Então, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13.44). Observemos, então, se o sentido aparente, superficial e óbvio da Escritura não se assemelha a um campo cheio de plantas de toda espécie, enquanto as coisas que nele estão, não visíveis a todos, mas enterradas, por assim dizer, sob as plantas que se veem, são os tesouros escondidos da sabedoria e do conhecimento; aos quais o Espírito, por meio de Isaías (cf. Is 45.3), chama de obscuros, invisíveis e ocultos, sendo só Deus capaz de quebrar as portas de bronze que os escondem e de romper as trancas de ferro que estão sobre as portas, para que se descubram todas as afirmações do livro de Gênesis que se referem às várias espécies genuínas e, por assim dizer, sementes de almas, que estão em parentesco próximo com Israel ou distantes dele; e a descida das setenta almas ao Egito, para que lá se tornem como as “estrelas do céu em multidão” (Dt 10.22). Mas, visto que nem todos os que deles procedem são a luz do mundo, porque “nem todos os de Israel são, de fato, israelitas” (Rm 9.6), de setenta almas eles se tornam como a “areia que está na praia do mar, inumerável” (Hb 11.12).
24. Essa descida dos santos pais ao Egito parecerá concedida a este mundo pela providência de Deus para a iluminação de outros e para a instrução do gênero humano, a fim de que, por esse meio, as almas de outros fossem ajudadas na obra da iluminação. Pois a eles foi concedido primeiro o privilégio de conversar com Deus, porque a deles é a única raça de que se diz que vê a Deus, sendo este o significado, por interpretação, da palavra “Israel” (cf. Gn 32.28-30). E agora se segue que, de acordo com essa visão, devem ser aceitos e explicados o relato de que o Egito foi açoitado com dez pragas para deixar partir o povo de Deus, ou o relato do que se fez com o povo no deserto, ou da construção do tabernáculo por meio das contribuições de todo o povo, ou do uso das vestes sacerdotais, ou dos utensílios do serviço público, porque, como está escrito, eles verdadeiramente contêm em si a “sombra e forma das coisas celestiais”. Pois Paulo diz abertamente a respeito deles que “ministram em figura e sombra das coisas celestiais” (Hb 8.5). Contêm-se, além disso, nessa mesma lei os preceitos e as instituições segundo os quais os homens devem viver na terra santa. Também se apresentam ameaças como iminentes sobre os que transgredirem a lei; além disso, prescrevem-se diferentes espécies de purificação para os que precisavam de purificação, como pessoas sujeitas a frequente contaminação, para que, por meio delas, cheguem finalmente àquela única purificação depois da qual nenhuma contaminação é mais permitida. O próprio povo é recenseado, embora não todos; pois as almas das crianças ainda não têm idade para serem contadas segundo a ordem divina; nem as almas que não podem tornar-se cabeça de outra, mas estão elas mesmas subordinadas a outras como a uma cabeça, as quais são chamadas “mulheres”, que certamente não estão incluídas naquele recenseamento ordenado por Deus; mas só são contados os que são chamados “homens”, pelo que se poderia mostrar que as mulheres não podiam ser contadas à parte,20 mas estavam incluídas nos que são chamados homens. Pertencem, porém, especialmente ao número sagrado os que estão preparados para sair às batalhas dos israelitas e são capazes de lutar contra aqueles inimigos públicos e privados21 que o Pai sujeita ao Filho, que está assentado à sua direita para destruir todo principado e potestade, e para que, por meio desses batalhões de seus soldados, que, empenhados numa guerra por Deus, não se embaraçam com os negócios do século, ele derrube o reino do seu adversário; por eles são levados os escudos da fé e brandidas as armas da sabedoria; entre eles também reluz o capacete da esperança e da salvação, e a couraça do esplendor fortalece o peito que está cheio de Deus. Tais soldados me parecem estar indicados, e preparados para guerras desse tipo, naquelas pessoas que, nos livros sagrados, são mandadas recensear por ordem de Deus. Mas, destes, mostram-se de longe mais perfeitos e distintos aqueles de quem se diz que até os cabelos da cabeça estão contados. Aqueles, de fato, que foram punidos por seus pecados, cujos corpos caíram no deserto, parecem ter semelhança com os que haviam feito progresso não pequeno, mas que, por várias razões, não puderam de modo algum alcançar o fim da perfeição; porque se relata que ou murmuraram, ou adoraram ídolos, ou cometeram imoralidade, ou praticaram alguma obra má que a mente nem deveria conceber. Não considero nem mesmo o seguinte isento de algum sentido místico:22 que certos (israelitas), possuindo muitos rebanhos e animais, tomam posse antecipadamente de uma terra apropriada para pastagem e criação de gado, que foi a primeira de todas que a mão direita dos hebreus conquistou na guerra.23 Pois, pedindo a Moisés que recebessem essa região, são separados pelas águas do Jordão e postos à parte de qualquer possessão na terra santa. E esse Jordão, segundo a forma das coisas celestiais, pode parecer regar e irrigar as almas sedentas e os sentidos que lhe são adjacentes.24 A propósito disso, nem esta afirmação parece supérflua: que Moisés ouve de Deus o que está descrito no livro de Levítico, ao passo que em Deuteronômio é o povo que ouve Moisés e aprende dele o que não podia ouvir de Deus. Pois Deuteronômio é chamado, por assim dizer, a segunda lei, o que a alguns parecerá transmitir este significado: que, quando a primeira lei, dada por meio de Moisés, chegou ao fim, assim parece ter sido promulgada uma segunda legislação, transmitida especialmente por Moisés ao seu sucessor Josué, que certamente se crê encarnar uma figura25 do nosso Salvador, por cuja segunda lei (isto é, os preceitos do Evangelho) todas as coisas são levadas à perfeição.
25. Temos de ver, porém, se não estará talvez indicado este sentido mais profundo: que, assim como em Deuteronômio a legislação é dada a conhecer com mais clareza e distinção do que nos livros que foram escritos primeiro, assim também, por aquela vinda do Salvador que ele realizou em seu estado de humilhação, quando assumiu a forma de servo, talvez se aponte para aquela segunda vinda, mais célebre e gloriosa, na glória de seu Pai, e nela se cumpram as figuras de Deuteronômio, quando no Reino dos Céus todos os santos viverão segundo as leis do evangelho eterno; e, assim como em sua vinda agora ele cumpriu aquela lei que tem a sombra dos bens futuros, assim também por aquela gloriosa vinda (futura) serão cumpridas e levadas à perfeição as sombras da vinda presente. Pois assim falou o profeta a respeito dela: “O sopro do nosso rosto, Cristo, o Senhor, de quem dissemos: Debaixo da tua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4.20); isto é, no tempo em que ele transferirá, de modo mais digno, todos os santos de um evangelho temporal para um evangelho eterno, segundo a designação empregada por João no Apocalipse, de “um evangelho eterno” (cf. Ap 14.6).
26. Mas baste-nos, em todas essas matérias, ajustar o nosso entendimento à regra da religião e pensar nas palavras do Espírito Santo de tal modo que não julguemos a linguagem como composição ornamentada da fraca eloquência humana, mas sustentemos, segundo a afirmação da Escritura, que “toda a glória do rei está no interior” (Sl 45.13),26 e que o tesouro do sentido divino está encerrado no frágil vaso da letra comum. E, se algum leitor curioso ainda pedir explicação de pontos particulares, venha ouvir conosco como o apóstolo Paulo, procurando penetrar, com o auxílio do Espírito Santo, que sonda até as “profundezas” de Deus, nas profundidades da sabedoria e do conhecimento divinos, e, no entanto, incapaz de chegar ao fim, por assim dizer, e de alcançar um conhecimento completo, exclama em desalento e assombro: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!” (Rm 11.33). Ora, que foi pelo desalento de alcançar um entendimento perfeito que ele soltou essa exclamação, ouça as suas próprias palavras: “Quão inexplicáveis são os seus juízos, e quão insondáveis são os seus caminhos!” (Rm 11.33). Pois ele não disse que os juízos de Deus eram difíceis de descobrir, mas que eram de todo inexplicáveis; nem que era (simplesmente) difícil rastrear os seus caminhos, mas que eram de todo insondáveis. Pois, por mais que um homem avance em suas investigações, e por maior que seja o progresso que faça por meio de estudo incessante, auxiliado até pela graça de Deus e com a mente iluminada, não será capaz de chegar ao fim das coisas que são objeto de suas indagações. Nem pode mente criada alguma julgar possível, de algum modo, alcançar uma compreensão plena (das coisas); mas, depois de ter descoberto alguns dos objetos de sua pesquisa, vê de novo outros que ainda precisam ser buscados. E, mesmo que consiga dominar estes, verá de novo muitos outros que se lhes seguem e que devem ser objeto de investigação. E por essa razão, então, Salomão, o mais sábio dos homens, contemplando por sua sabedoria a natureza das coisas, diz: “Eu disse: Serei sábio; e a própria sabedoria se afastou de mim, para mais longe do que estava; e uma profundidade profunda, quem a encontrará?” (Ec 7.23-24).27 Isaías também, sabendo que os princípios das coisas não podiam ser descobertos por uma natureza mortal, nem mesmo por aquelas naturezas que, embora mais divinas do que humanas, eram contudo elas mesmas criadas ou formadas; sabendo, então, que por nenhuma delas se podia descobrir nem o princípio nem o fim, diz: “Contem as coisas primeiras que aconteceram, e saberemos que vocês são deuses; ou anunciem quais são as últimas coisas, e então veremos que vocês são deuses” (cf. Is 41.22-23). Pois também o meu mestre hebreu costumava ensinar assim: que, como o princípio ou o fim de todas as coisas não podia ser compreendido por ninguém, senão somente por nosso Senhor Jesus Cristo e pelo Espírito Santo, assim Isaías, na forma de uma visão, falou de somente dois serafins, que com duas asas cobrem o rosto de Deus, com duas os seus pés, e com duas voam, clamando um ao outro alternadamente e dizendo: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus de Sabaoth; toda a terra está cheia da tua glória” (Is 6.3). Que só os serafins têm ambas as asas sobre o rosto de Deus e sobre os seus pés, ousamos declarar que significa que nem as hostes dos santos anjos, nem as “sedes santas”, nem as “dominações”, nem os “principados”, nem as “potestades” podem entender plenamente o princípio de todas as coisas e os limites do universo. Mas devemos entender que aqueles “santos” que o Espírito arrolou, e as “virtudes”, se aproximam muito daqueles mesmos princípios e alcançam uma altura que os outros não conseguem atingir; e, no entanto, seja o que for que essas “virtudes” tenham aprendido por revelação do Filho de Deus e do Espírito Santo (e certamente poderão aprender muitíssimo, e as de categoria mais alta muito mais do que as de categoria mais baixa), ainda assim é impossível para elas compreender todas as coisas, segundo a afirmação: “A maior parte das obras de Deus está oculta” (cf. Eclo 16.21). E por isso também é desejável que cada um, segundo as suas forças, se estenda sempre para as coisas que estão adiante, “esquecendo-se das coisas que ficam para trás” (Fp 3.13), tanto para obras melhores como para uma apreensão e um entendimento mais claros, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a quem seja a glória para sempre!
27. Que cada um, então, que se importa com a verdade, pouco se preocupe com palavras e linguagem, visto que em cada nação prevalece um uso diferente da fala; mas volte antes a sua atenção para o sentido transmitido pelas palavras do que para a natureza das palavras que transmitem o sentido, especialmente em matérias de tamanha importância e dificuldade; como, por exemplo, quando se investiga se há alguma “substância” na qual não se deva entender que existam cor, nem forma, nem tato, nem grandeza, visível somente à mente, a qual cada um nomeia como lhe apraz; pois os gregos chamam tal coisa de asomaton, isto é, “incorpórea”, enquanto a Santa Escritura a declara “invisível”, pois Paulo chama Cristo de “imagem do Deus invisível” (Cl 1.15), e diz ainda que por Cristo foram criadas todas as coisas, “as visíveis e as invisíveis” (Cl 1.16). E com isso se declara que há, entre as coisas criadas, certas “substâncias” que são, segundo a sua natureza peculiar, invisíveis. Mas, embora estas não sejam elas mesmas “corpóreas”, servem-se contudo de corpos, sendo elas mesmas melhores do que quaisquer substâncias corporais. Mas aquela “substância” da Trindade que é o princípio e a causa de todas as coisas, “da qual são todas as coisas, e por meio da qual são todas as coisas, e na qual são todas as coisas” (cf. Rm 11.36), não pode ser crida como sendo um corpo nem como estando num corpo, mas é inteiramente incorpórea. E agora baste ter falado brevemente desses pontos (embora numa digressão causada pela natureza do assunto), a fim de mostrar que há certas coisas cujo sentido não pode de modo algum ser desdobrado por palavras da linguagem humana, mas que se dão a conhecer mais pela simples apreensão do que por quaisquer propriedades das palavras. E sob essa regra deve ser posto também o entendimento da Sagrada Escritura, para que as suas afirmações sejam julgadas não segundo a pobreza da letra, mas segundo a divindade do Espírito Santo, por cuja inspiração foram escritas.
1. hoson epi to kath’ heautous tereisthai.
2. psuchras paradoseis.
3. topon hekasto einai dischilious pecheis.
4. Eis aperantologian eleluthasi.
5. ei me ara peponthos ti para phusin tunchanoi.
6. eike.
7. kai te kata to rheton chresimon nomothesia.
8. gegonen.
9. kata to aistheton.
10. choris pases anagoges.
11. Ei kai para tois philotimoterois dunatai sozein hekaston auton, meta tou me atheteisthai ten kata to rheton entolen, bathe Theou sophias.
12. perielkusthesetai.
13. ho proegoumenos.
14. Holon ton noun philotimeteon katalambanein, suneironta ton peri ton kata ten lexin adunaton logon noetos tois ou monon ouk adunatois, alla kai alethesi kata ten historian, sunallegoroumenois tois hoson epi te lexei, me gegenemenois.
15. en ‘Iesou to tou Naue.
16. Pasa gar arche patrion ton hos pros ton ton holon Theon, katotero apo tou Christou erxato tou meta ton ton holon Theon kai patera.
17. en psuchon genei.
18. tou kaloumenou choriou hadou.
19. kai para toisde, e toisde tois patrasi.
20. Extrinsecus.
21. Hostes inimicosque.
22. Ne illud quidem sacramento aliquo vacuum puto.
23. Quem primum omnium Israelitici belli dextra defenderat.
24. Rigare et inundare animas sitientes, et sensus adjacentes sibi.
25. Formam.
26. Omnis gloria regis intrinsecus est. O hebraico, a Septuaginta e a Vulgata trazem todos “filha do rei”. Provavelmente a omissão de “filiæ” no texto se deve a um erro dos copistas.
27. A Septuaginta traz: Eipa, Sophisthesomai; kai haute emakrunthe ap’ emou, makran huper ho en, kai bathu bathos, tis heuresei auto; a Vulgata traduz isso literalmente.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.