Orígenes, Sobre os Princípios · Livro IV

Resumo da doutrina sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo

A recapitulação da doutrina sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, as criaturas racionais e a matéria.

#P18

Resumo (da doutrina) sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, e sobre os outros assuntos tratados nas páginas anteriores

28. Depois do exame rápido que, na medida das nossas forças, fizemos dos assuntos tratados, é hora de recapitular, à maneira de resumo do que dissemos em diversos lugares, cada um dos pontos e, antes de tudo, reafirmar as nossas conclusões sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Visto que Deus Pai é invisível e inseparável do Filho, o Filho não é gerado dele por “prolação”, como alguns supõem. Pois, se o Filho fosse uma “prolação” do Pai (empregando-se o termo “prolação” para significar uma geração como costuma ser a dos animais ou dos homens), então, necessariamente, tanto aquele que “emitiu por prolação” como aquele que foi “emitido por prolação” seriam corpóreos. Pois não dizemos, como supõem os hereges, que alguma parte da substância de Deus se converteu no Filho, ou que o Filho foi procriado pelo Pai a partir de coisas não existentes,1 isto é, fora da sua própria substância, de modo que tenha havido um tempo em que ele não existia; mas, afastando toda concepção corpórea, dizemos que o Verbo e a Sabedoria foi gerado do invisível e incorpóreo sem nenhuma afecção corpórea, como se fosse um ato da vontade que procede do entendimento. Nem parecerá absurdo, visto que ele é chamado Filho do (seu) amor, que desse modo seja chamado Filho da (sua) vontade. Mais ainda: João também indica que “Deus é luz” (1Jo 1.5), e Paulo também declara que o Filho é o resplendor da luz eterna (cf. Hb 1.3). Assim, pois, como a luz nunca poderia existir sem o resplendor, assim também não se pode entender que o Filho exista sem o Pai; pois ele é chamado “a expressão exata do seu Ser” (cf. Hb 1.3), e o Verbo e a Sabedoria. Como, então, se pode afirmar que houve um tempo em que ele não era o Filho? Pois isso não é outra coisa senão dizer que houve um tempo em que ele não era a Verdade, nem a Sabedoria, nem a Vida, embora em todas essas coisas se julgue que ele é a essência perfeita de Deus Pai; porque essas coisas não podem ser cortadas dele, nem sequer separadas da sua essência. E, embora se diga que essas qualidades são muitas no entendimento,2 na sua natureza e essência são uma só, e nelas está a plenitude da divindade. Ora, essa expressão que empregamos, “que nunca houve um tempo em que ele não existisse”, deve ser entendida com ressalva. Pois as próprias palavras “quando” ou “nunca” têm um sentido que se refere ao tempo, ao passo que as afirmações feitas acerca do Pai, do Filho e do Espírito Santo devem ser entendidas como transcendendo todo tempo, todos os séculos e toda a eternidade. Pois só a Trindade excede a compreensão não apenas da inteligência temporal, mas até da eterna; ao passo que as demais coisas, que não estão incluídas nela,3 devem ser medidas por tempos e séculos. Este Filho de Deus, portanto, enquanto é o Verbo que é Deus, que estava no princípio com Deus, ninguém que raciocine com lógica suporá que esteja contido em algum lugar; nem tampouco enquanto é “Sabedoria”, ou “Verdade”, ou “Vida”, ou “Justiça”, ou “Santificação”, ou “Redenção”; pois todas essas propriedades não precisam de espaço para poder agir ou operar, mas cada uma delas deve ser entendida em relação àqueles indivíduos que participam do seu poder e da sua ação.

29. Ora, se alguém dissesse que, por meio daqueles que participam do “Verbo” de Deus, ou da sua “Sabedoria”, ou da sua “Verdade”, ou da sua “Vida”, o próprio Verbo e Sabedoria parecia estar contido num lugar, teríamos de lhe responder que não há dúvida de que Cristo, enquanto é o “Verbo” ou a “Sabedoria”, ou todas as outras coisas, estava em Paulo, e que por isso este disse: “Vocês buscam provas de que Cristo fala em mim?” (cf. 2Co 13.3); e ainda: “Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). Visto, pois, que ele estava em Paulo, quem duvidará de que estava de modo semelhante em Pedro e em João, e em cada um dos santos; e não só nos que estão sobre a terra, mas também nos que estão no céu? Pois é absurdo dizer que Cristo estava em Pedro e em Paulo, mas não em Miguel, o arcanjo, nem em Gabriel. E daí se mostra claramente que a divindade do Filho de Deus não estava encerrada em algum lugar; do contrário, estaria só nele, e não em outro. Mas, visto que, em conformidade com a majestade da sua natureza incorpórea, ela não está confinada a nenhum lugar, assim também não se pode entender que falte em algum. Entende-se, porém, que esta é a única diferença: embora ele esteja em diferentes indivíduos, como dissemos, como Pedro, ou Paulo, ou Miguel, ou Gabriel, não está de modo semelhante em todos os seres, sejam quais forem. Pois ele está mais plena e claramente e, por assim dizer, mais abertamente nos arcanjos do que nos outros homens santos.4 E isso fica evidente pela afirmação de que, quando todos os santos tiverem chegado ao cume da perfeição, se diz que serão feitos semelhantes ou iguais aos anjos, conforme a declaração dos Evangelhos (cf. Mt 22.30; Lc 20.36). Donde fica claro que Cristo está em cada indivíduo na medida em que o permite o montante dos seus méritos.5

30. Tendo, pois, reafirmado brevemente estes pontos sobre a natureza da Trindade, segue-se que notemos rapidamente também esta afirmação: que “pelo Filho” se diz terem sido criadas “todas as coisas que estão nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades: tudo foi criado por meio dele e para ele; e ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste, ele que é a cabeça” (cf. Cl 1.16-18). Em conformidade com isso, também João diz no seu Evangelho: “Todas as coisas foram criadas por ele, e, sem ele, nada foi feito” (Jo 1.3). E Davi, indicando que o mistério da Trindade inteira estava (envolvido) na criação de todas as coisas, diz: “Pelo Verbo do Senhor se fizeram os céus, e todo o exército deles pelo Espírito de sua boca” (Sl 33.6).

Depois destes pontos, convém lembrarmos (ao leitor) a vinda corporal e a encarnação do Filho unigênito de Deus, a respeito de quem não devemos supor que toda a majestade da sua divindade esteja confinada nos limites do seu corpo frágil, de modo que todo o “verbo” de Deus, e a sua “sabedoria”, e a sua “verdade essencial”, e a sua “vida” tenham sido arrancados do Pai, ou restringidos e confinados na estreiteza da sua pessoa corporal, e não se deva considerar que tenham operado em nenhuma outra parte; mas o reconhecimento cauteloso de um homem piedoso deve ficar entre os dois extremos, de modo que não se creia nem que faltasse a Cristo algo da divindade, nem que se tenha feito alguma separação da essência do Pai, que está em toda parte. Pois um sentido assim parece ser indicado por João Batista, quando disse à multidão, na ausência corporal de Jesus: “No meio de vocês está alguém que vocês não conhecem: é ele quem vem depois de mim, de quem não sou digno de desamarrar a correia das sandálias” (cf. Jo 1.26-27). Pois certamente não se poderia dizer daquele que estava ausente, no que se refere à sua presença corporal, que estava de pé no meio daqueles entre os quais o Filho de Deus não estava presente corporalmente.

31. Ninguém, contudo, suponha que com isso afirmamos que uma porção da divindade do Filho de Deus estava em Cristo e que a porção restante estava em outra parte ou em toda parte, o que talvez seja a opinião daqueles que ignoram a natureza de uma essência incorpórea e invisível. Pois é impossível falar das partes de um ser incorpóreo ou fazer alguma divisão delas; mas ele está em todas as coisas, e por meio de todas as coisas, e acima de todas as coisas, do modo como falamos acima, isto é, do modo como se entende que ele é a “sabedoria”, ou o “verbo”, ou a “vida”, ou a “verdade”, forma de entender pela qual fica sem dúvida excluído todo confinamento de tipo local. O Filho de Deus, então, querendo, para a salvação do gênero humano, aparecer aos homens e habitar entre eles, assumiu não somente um corpo humano, como alguns supõem, mas também uma alma semelhante às nossas almas na natureza, mas semelhante a ele mesmo na vontade e no poder,6 e tal que pudesse cumprir sem falha todos os desejos e disposições do “verbo” e da “sabedoria”. Ora, que ele tinha uma alma7 o Salvador mostra com toda a clareza nos Evangelhos, quando disse: “Ninguém tira a minha vida; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregá-la e também para reavê-la” (Jo 10.18). E ainda: “A minha alma está profundamente triste até a morte” (Mt 26.38). E ainda: “Agora a minha alma está angustiada” (Jo 12.27). Pois não se deve entender que o “Verbo” de Deus seja uma alma “triste e angustiada”, porque é com a autoridade da divindade que ele diz: “Tenho autoridade para entregar a minha vida”. Nem afirmamos, por outro lado, que o Filho de Deus estava naquela alma como estava na alma de Paulo ou de Pedro e dos demais santos, nos quais se crê que Cristo fala como fala em Paulo. Mas, a respeito de todos esses, devemos sustentar o que a Escritura declara: “Ninguém é limpo de impureza, nem mesmo se a sua vida durasse um só dia” (cf. Jó 15.14). Mas esta alma que estava em Jesus, antes de conhecer o mal, escolheu o bem; e, porque ele amou a justiça e odiou a iniquidade, por isso Deus “o ungiu com o óleo de alegria, como a nenhum dos seus companheiros” (Sl 45.7). Ele é ungido, pois, com o óleo de alegria quando é unido ao “verbo” de Deus numa união sem mancha, e por esse meio, sozinha entre todas as almas, ela foi incapaz de pecar, porque foi capaz de (receber) bem e plenamente o Filho de Deus; e por isso também é uma só coisa com ele, e é designada pelos títulos dele, e é chamada Jesus Cristo, por meio de quem se diz que todas as coisas foram feitas. Dessa alma, visto que recebera em si toda a sabedoria de Deus, e a verdade, e a vida, penso que também o apóstolo disse isto: “A nossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus; mas, quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também nós seremos manifestados com ele, em glória” (cf. Cl 3.3-4). Pois que outro Cristo se pode entender aqui, de quem se diz que está oculto em Deus e que depois há de se manifestar, senão aquele de quem se conta que foi ungido com o óleo de alegria, isto é, que foi cheio de Deus substancialmente,8 e no qual se diz agora que ele está oculto? Pois é por isso que Cristo é proposto como exemplo a todos os crentes: porque, assim como ele sempre, mesmo antes de conhecer qualquer mal, escolheu o bem, e amou a justiça, e odiou a iniquidade, e por isso Deus o ungiu com o óleo de alegria, assim também cada um deve, depois de uma queda ou pecado, purificar-se das suas manchas, tomando-o como exemplo e, tendo-o como guia da sua jornada, entrar no caminho íngreme da virtude, para que assim, talvez, por esse meio, na medida do possível, imitando-o, sejamos feitos participantes da natureza divina, segundo as palavras da Escritura: “Quem diz que crê em Cristo deve andar assim como ele andou” (cf. 1Jo 2.6).

Este “verbo”, pois, e esta “sabedoria”, por cuja imitação se diz que somos sábios ou racionais, se faz “tudo para com todos, a fim de ganhar a todos” (1Co 9.22); e, porque se faz fraco, por isso se diz dele: “Ainda que tenha sido crucificado em fraqueza, vive pelo poder de Deus” (2Co 13.4). Enfim, aos coríntios, que eram fracos, Paulo declara que “nada sabia, a não ser Jesus Cristo, e este, crucificado” (1Co 2.2).

32. Alguns, na verdade, querem que as seguintes palavras do apóstolo se apliquem à própria alma, desde o momento em que assumiu carne de Maria:9 “O qual, existindo na forma de Deus, não considerou usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo (da sua glória),10 assumindo a forma de servo” (Fp 2.6-7); visto que ele sem dúvida a restaurou à forma de Deus por meio de exemplos e de uma formação melhores, e a reconduziu àquela plenitude da qual se havia esvaziado.

Ora, assim como pela participação no Filho de Deus alguém é adotado como filho,11 e participando daquela sabedoria que está em Deus se torna sábio, assim também pela participação no Espírito Santo o homem se torna santo e espiritual. Pois é uma só e a mesma coisa ter parte no Espírito Santo, que é (o Espírito) do Pai e do Filho, visto que a natureza da Trindade é una e incorpórea. E o que dissemos sobre a participação da alma deve ser entendido dos anjos e dos poderes celestiais, de modo semelhante ao das almas, porque toda criatura racional precisa participar da Trindade.

Também a respeito da ordenação deste mundo visível (visto que uma das questões mais importantes que costumam ser levantadas é sobre o modo da sua existência) falamos, na medida das nossas forças, nas páginas anteriores, por causa daqueles que costumam buscar os fundamentos da sua fé na nossa religião, e também por causa daqueles que levantam contra nós questões heréticas e costumam agitar12 a palavra “matéria”, que ainda não conseguiram entender; assunto que agora julgo necessário lembrar brevemente (ao leitor).

33. Em primeiro lugar, deve-se notar que até o presente não encontramos em parte alguma nas Escrituras canônicas13 a palavra “matéria” usada para aquela substância que se diz estar subjacente aos corpos. Pois na expressão de Isaías, “E ele devorará a hyle“, isto é, a matéria, “como feno”,14 quando fala daqueles que estavam destinados a sofrer os seus castigos, a palavra “matéria” foi usada em lugar de “pecados”. E, se essa palavra “matéria” porventura ocorrer em alguma outra passagem, a meu ver nunca se achará que tenha o significado que agora buscamos, a não ser talvez no livro chamado Sabedoria de Salomão, obra que certamente não é tida por todos como autorizada. Nesse livro, contudo, encontramos escrito o seguinte: “Pois a tua mão todo-poderosa, que fez o mundo de uma matéria informe, não carecia de meios para enviar contra eles uma multidão de ursos e de leões ferozes” (Sb 11.17). Muitíssimos, na verdade, são de opinião que a própria matéria da qual as coisas são feitas está significada na linguagem usada por Moisés no começo do Gênesis: “No princípio, Deus fez o céu e a terra; e a terra era invisível e não ordenada”;15 pois pelas palavras “invisível e não ordenada” Moisés pareceria não querer dizer outra coisa senão a matéria informe. Mas, se isso for de fato matéria, fica claro então que os elementos originais dos corpos16 não são incapazes de mudança. Pois aqueles que puseram como princípios das coisas corpóreas os “átomos” (quer as partículas incapazes de subdivisão, quer as que se subdividem em partes iguais) ou algum elemento único, não podiam pôr a palavra “matéria”, no sentido próprio do termo, entre os primeiros princípios das coisas. Pois, se pretendem que a matéria está subjacente a todo corpo, como substância convertível ou mutável, ou divisível em todas as suas partes, não afirmarão, como convém, que ela existe sem qualidades. E com eles concordamos, pois negamos inteiramente que se deva chamar a matéria de “não gerada” ou “incriada”, de acordo com o que afirmamos antes, quando mostramos que da água, e da terra, e do ar ou do calor diferentes espécies de frutos eram produzidas por diferentes espécies de árvores; ou quando mostramos que o fogo, e o ar, e a água, e a terra se convertiam alternadamente uns nos outros, e que um elemento se resolvia em outro por uma espécie de parentesco mútuo; e também quando provamos que do alimento, seja dos homens, seja dos animais, se derivava a substância da carne, ou que a umidade da semente natural se convertia em carne e ossos sólidos. Tudo isso serve para provar que a substância do corpo é mutável e pode passar de uma qualidade a todas as outras.

34. Não devemos esquecer, contudo, que uma substância nunca existe sem uma qualidade, e que é só por um ato do entendimento que se descobre que isso (a substância) que está subjacente aos corpos, e que é capaz de qualidade, é a matéria. Alguns, de fato, no desejo de investigar estes assuntos mais profundamente, ousaram afirmar que a natureza corpórea17 não é outra coisa senão qualidades. Pois, se a dureza e a moleza, o calor e o frio, a umidade e a secura são qualidades, e se, quando estas ou outras (qualidades) desse tipo são suprimidas, não se entende que reste nada mais, então todas as coisas parecerão ser “qualidades”. E por isso também aqueles que fazem essas afirmações procuraram sustentar que, visto que todos os que dizem que a matéria é incriada admitirão que as qualidades foram criadas por Deus, pode-se mostrar desse modo que, mesmo segundo eles, a matéria não é incriada, já que as qualidades constituem tudo, e todos declaram sem contradição que elas foram feitas por Deus. Por outro lado, os que pretendem que as qualidades se sobrepõem de fora a certa matéria subjacente usam ilustrações deste tipo: por exemplo, Paulo sem dúvida ou está calado, ou fala, ou vigia, ou dorme, ou mantém certa postura do corpo; pois ou está sentado, ou de pé, ou deitado. Pois estes são “acidentes” próprios dos homens, sem os quais quase nunca se encontram. E, no entanto, a nossa concepção do homem não estabelece nenhuma dessas coisas como definição dele; mas por meio delas o entendemos e consideramos de tal modo que não levamos em conta de forma alguma a razão da sua condição (particular), seja em vigiar, seja em dormir, seja em falar, seja em ficar calado, seja em qualquer outra ação que necessariamente sucede aos homens.18 Se alguém, então, pode considerar Paulo sem todas essas coisas que lhe podem suceder, poderá do mesmo modo entender também essa (substância) subjacente sem qualidades. Quando, pois, a nossa mente afasta da sua concepção todas as qualidades e contempla, por assim dizer, somente o elemento subjacente, e mantém a atenção fixa nele, sem nenhuma referência à moleza ou à dureza, ao calor ou ao frio, à umidade ou à secura da substância, então, por meio desse processo de pensamento de certo modo simulado,19 parecerá contemplar a matéria livre de qualidades de toda espécie.

35. Mas talvez alguém pergunte se podemos tirar da Escritura algum fundamento para semelhante entendimento do assunto. Ora, penso que uma ideia desse tipo está indicada nos Salmos, quando o profeta diz: “Os meus olhos viram a tua imperfeição”;20 pelo que a mente do profeta, examinando com olhar mais penetrante os primeiros princípios das coisas e separando, só no pensamento e na imaginação, a matéria das suas qualidades, percebeu a imperfeição de Deus, que certamente se entende ser aperfeiçoada pelo acréscimo das qualidades. Também Enoque, no seu livro, fala assim: “Andei até a imperfeição”;21 expressão que, a meu ver, pode ser entendida de modo semelhante, a saber, que a mente do profeta avançou no seu exame e investigação de todas as coisas visíveis até chegar àquele primeiro começo no qual contemplou a matéria imperfeita (existindo) sem “qualidades”. Pois está escrito no mesmo livro de Enoque: “Contemplei a matéria toda”;22 o que se entende como se ele tivesse dito: “Vi claramente todas as divisões da matéria que, a partir de uma só, se repartem em cada espécie particular, seja de homens, seja de animais, seja do céu, seja do sol, seja de todas as outras coisas deste mundo”. Depois destes pontos, provamos, na medida das nossas forças, nas páginas anteriores, que todas as coisas que existem foram feitas por Deus, e que não houve nada que não tenha sido feito, exceto a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo; e que Deus, que é bom por natureza, querendo ter a quem conceder benefícios e quem se alegrasse em receber os seus benefícios, criou criaturas dignas (disso), isto é, capazes de recebê-lo de maneira digna, as quais, diz ele, são também geradas por ele como seus filhos. Além disso, ele fez todas as coisas com número e medida. Pois não há nada diante de Deus que não tenha limite ou medida. Pois pelo seu poder ele abarca todas as coisas, e ele mesmo não é abarcado pela força de nenhuma coisa criada, porque aquela natureza só é conhecida por si mesma. Pois só o Pai conhece o Filho, e só o Filho conhece o Pai, e só o Espírito Santo sonda até as profundezas de Deus. Todas as coisas criadas, portanto, isto é, seja o número dos seres racionais, seja a medida da matéria corpórea, são distinguidas por ele como estando dentro de certo número ou medida; visto que, como era necessário que uma natureza intelectual se servisse de corpos, e essa natureza se mostra mutável e convertível pela própria condição de ter sido criada (pois o que não existia, mas começou a existir, por essa mesma circunstância se diz ser de natureza mutável), ela não pode ter nem a bondade nem a maldade como atributo essencial, mas apenas como atributo acidental do seu ser. Visto, pois, como dissemos, que a natureza racional era mutável e variável, de modo que se servia de um revestimento corporal diferente, desta ou daquela qualidade, segundo os seus méritos, era necessário, já que Deus sabia de antemão que haveria diversidades nas almas ou poderes espirituais, que ele criasse também uma natureza corpórea cujas qualidades pudessem ser mudadas, pela vontade do Criador, em tudo o que fosse preciso. E essa natureza corpórea há de durar enquanto durarem as coisas que dela precisam como revestimento; pois sempre haverá naturezas racionais que precisam de um revestimento corporal, e por isso sempre haverá uma natureza corpórea cujos revestimentos as criaturas racionais terão necessariamente de usar, a não ser que alguém possa demonstrar com argumentos que uma natureza racional pode viver sem corpo. Mas quão difícil, mais ainda, quão quase impossível isso é para o nosso entendimento, mostramos nas páginas anteriores, ao discutir cada um dos assuntos.

36. Não será contrário, penso eu, à natureza do nosso empreendimento reafirmar, com toda a brevidade possível, as nossas opiniões sobre a imortalidade das naturezas racionais. Todo aquele que participa de alguma coisa é, sem dúvida, de uma só essência e natureza com aquele que participa da mesma coisa. Por exemplo, assim como todos os olhos participam da luz, assim também todos os olhos que participam da luz são de uma só natureza; mas, embora todo olho participe da luz, ainda assim, visto que um vê mais claramente e outro mais obscuramente, nem todo olho participa igualmente da luz. E ainda: toda audição recebe a voz ou o som, e por isso toda audição é de uma só natureza; mas cada um ouve mais depressa ou mais devagar, conforme a qualidade da sua audição seja clara e sã. Passemos agora destas ilustrações sensíveis à consideração das coisas intelectuais. Toda mente que participa da luz intelectual deve, sem dúvida, ser de uma só natureza com toda mente que participa de modo semelhante da luz intelectual. Se, então, as virtudes celestiais participam da luz intelectual, isto é, da natureza divina, porque participam da sabedoria e da santidade, e se as almas humanas participaram da mesma luz e sabedoria, e assim são mutuamente de uma só natureza e de uma só essência, então, visto que as virtudes celestiais são incorruptíveis e imortais, a essência da alma humana também será imortal e incorruptível. E não só isso, mas, porque a natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo, de cuja luz intelectual somente participam todas as coisas criadas, é incorruptível e eterna, é inteiramente coerente e necessário que toda substância que participa daquela natureza eterna dure para sempre e seja incorruptível e eterna, de modo que a eternidade da bondade divina se entenda também neste aspecto: que aqueles que obtêm os seus benefícios são também eternos. Mas, assim como nos exemplos citados se observou uma diversidade na participação da luz, quando se descreveu o olhar de quem vê como mais embotado ou mais agudo, assim também se deve notar uma diversidade na participação do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que varia conforme o grau de zelo ou a capacidade da mente. Se não fosse assim,23 temos de considerar se não pareceria um ato de impiedade dizer que a mente que é capaz de (receber) Deus admite a destruição da sua essência,24 como se o próprio fato de ser capaz de sentir e entender a Deus não bastasse para a sua existência perpétua; sobretudo porque, mesmo que por negligência a mente se afaste de uma recepção pura e completa de Deus, ela contém, no entanto, em si certas sementes de restauração e de renovação para um entendimento melhor, visto que o homem “interior”, que também se chama homem “racional”, é renovado segundo “a imagem e semelhança de Deus, que o criou”. E por isso o profeta diz: “Todos os confins da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor; e todas as famílias das nações se prostrarão diante de ti” (Sl 22.27).

37. Se alguém, de fato, ousar atribuir corrupção essencial àquele que foi feito segundo a imagem e semelhança de Deus, então, a meu ver, essa acusação ímpia se estende até ao próprio Filho de Deus, pois ele é chamado na Escritura a imagem de Deus (cf. Cl 1.15; 2Co 4.4). Ou então quem sustenta essa opinião certamente contestaria a autoridade da Escritura, que diz que o homem foi feito à imagem de Deus; e nele se descobrem manifestamente vestígios da imagem divina, não por alguma aparência da estrutura corporal, que é corruptível, mas pela sabedoria da mente, pela justiça, pela moderação, pela virtude, pela sabedoria, pela disciplina; enfim, por todo o conjunto das virtudes, que são inatas na essência de Deus e que podem entrar no homem pela diligência e pela imitação de Deus; como também o Senhor indica no Evangelho, quando diz: “Sejam misericordiosos, como também é misericordioso o Pai de vocês” (Lc 6.36); e: “Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês” (Mt 5.48). Daí se mostra claramente que todas essas virtudes estão perpetuamente em Deus e que nunca podem achegar-se a ele nem afastar-se dele, ao passo que os homens as adquirem só lentamente e uma por uma. E por isso também, por esses meios, eles parecem ter uma espécie de parentesco com Deus; e, visto que Deus conhece todas as coisas e nenhuma das coisas intelectuais pode por si mesma escapar ao seu conhecimento25 (pois só Deus Pai, e o seu Filho unigênito, e o Espírito Santo possuem conhecimento não apenas das coisas que criaram, mas também de si mesmos), também um entendimento racional, avançando das coisas pequenas para as grandes, e das coisas visíveis para as invisíveis, pode alcançar um conhecimento mais perfeito. Pois ele está colocado no corpo e avança das próprias coisas sensíveis, que são corpóreas, para as coisas intelectuais. Mas, para que a nossa afirmação de que as coisas intelectuais não são perceptíveis pelos sentidos não pareça imprópria, usaremos o exemplo de Salomão, que diz: “Você encontrará também um sentido divino”;26 com o que mostra que as coisas intelectuais devem ser buscadas não por meio de um sentido corporal, mas por outro, que ele chama “divino”. E com esse sentido devemos olhar cada um dos seres racionais que enumeramos acima; e com esse sentido devem ser entendidas as palavras que dizemos e ponderadas as afirmações que pomos por escrito. Pois a natureza divina conhece até os pensamentos que revolvemos dentro de nós em silêncio. E, sobre os assuntos de que falamos, ou sobre os outros que deles decorrem, é segundo a regra estabelecida acima que se devem formar as nossas opiniões.

Notas

1. Ex nullis substantibus.

2. Quæ quidem quamvis intellectu multa esse dicantur.

3. Quæ sunt extra Trinitatem.

4. Quam in aliis sanctis viris. “Aliis” se encontra nos manuscritos, mas falta em muitas edições.

5. Unde constat in singulis quibusque tantum effici Christum, quantum ratio indulserit meritorum.

6. Proposito vero et virtute similem sibi.

7. Animam.

8. Substantialiter.

9. De Maria corpus assumsit.

10. Semet ipsum exinanivit.

11. In filium adoptatur.

12. Ventilare.

13. In Scripturis canonicis.

14. Is 10.17, kai phagetai osei chorton ten hulen, Septuaginta. A Vulgata segue o texto massorético.

15. Gn 1.2, “invisibilis et incomposita”; “inanis et vacua”, Vulgata.

16. Initia corporum.

17. Naturam corpoream.

18. Nec tamen sensus noster manifeste de eo aliquid horum definit, sed ita eum per hæc intelligimus, vel consideramus, ut non omnino rationem status ejus comprehendamus, vel in eo, quod vigilat, vel in eo, quod dormit, aut in quo loquitur, vel tacet, et si qua alia sunt, quæ accidere necesse est hominibus.

19. Tunc simulatâ quodammodo cogitatione.

20. Sl 139.16, to akatergaston mou eidosan hoi ophthalmoi sou, Septuaginta; “Imperfectum meum viderunt oculi tui”, Vulgata (igual ao texto). Golmi ra’u eineka: “os teus olhos viram a minha substância, ainda imperfeita”, Authorized Version. Cf. Gesenius e Fürst, s.v. golem.

21. Ambulavi usque ad imperfectum; cf. Livro de Enoque, cap. 17.

22. Universas materias perspexi; cf. Livro de Enoque, cap. 17.

23. Alioquin.

24. Substantialem interitum.

25. Nihil eum rerum intellectualium ex se lateat.

26. Cf. Pv 2.5, epignosin Theou heureseis (Septuaginta), Scientiam Dei invenies (Vulgata). Da’at Elohim timtsa.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Frederick Crombie (Ante-Nicene Fathers, vol. 4, Buffalo, 1885), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução, feita do latim de Rufino e, nos capítulos III.1 e IV.1, do grego conservado. As notas são do tradutor inglês; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Orígenes cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.