Atanásio, A Encarnação do Verbo · Seções 46 a 57

A vitória de Cristo e a vida dos que o seguem

A queda dos ídolos e dos oráculos, a vida dos cristãos e o testemunho dos mártires; o convite a estudar as Escrituras com uma vida pura.

#A05

§46. A partir da encarnação, caem em descrédito o culto aos ídolos, os oráculos, as mitologias, a ação dos demônios, a magia e a filosofia dos gentios. E, enquanto os cultos antigos eram estritamente locais e independentes, a adoração de Cristo é universal e uniforme

Quando foi que os homens começaram a abandonar a adoração dos ídolos, senão depois que Deus, o verdadeiro Verbo de Deus, veio para o meio dos homens? Ou quando foi que os oráculos, entre os gregos e em toda parte, cessaram e ficaram vazios, senão quando o Salvador se manifestou na terra? 2. Ou quando foi que aqueles que os poetas chamam de deuses e heróis começaram a ser desmascarados como simples homens mortais1, senão depois que o Senhor consumou a sua vitória sobre a morte e conservou incorruptível o corpo que havia tomado, ressuscitando-o dentre os mortos? 3. Ou quando foi que a fraude e a loucura dos demônios caíram em desprezo, senão quando o poder de Deus, o Verbo, Senhor também de todos eles, condescendendo por causa da fraqueza humana, apareceu na terra? Ou quando2 foi que a arte e as escolas de magia começaram a ser pisoteadas, senão quando se deu entre os homens a manifestação divina do Verbo? 4. Em suma, em que momento a sabedoria dos gregos se tornou loucura, senão quando a verdadeira Sabedoria de Deus se manifestou na terra? Antes, o mundo inteiro e todos os lugares eram desencaminhados pela adoração dos ídolos, e os homens não tinham por deuses outra coisa senão os ídolos. Agora, porém, no mundo inteiro, os homens estão abandonando a superstição dos ídolos e buscando refúgio em Cristo; e, adorando-o como Deus, por meio dele vêm a conhecer também aquele Pai que não conheciam. 5. E, fato admirável: os objetos de culto eram variados e em número imenso, cada lugar tinha o seu ídolo, e aquele que entre eles passava por deus não tinha poder para passar ao lugar vizinho e persuadir os povos vizinhos a adorá-lo, mas mal era servido até mesmo entre o seu próprio povo; pois ninguém adorava o deus do vizinho, ao contrário, cada um se apegava ao seu próprio ídolo3, julgando-o senhor de tudo. Entretanto, só Cristo é adorado como um e o mesmo entre todos os povos; e aquilo que a fraqueza dos ídolos não conseguia fazer, isto é, persuadir até mesmo os que moravam bem perto, isso Cristo fez, persuadindo não só os que estão perto, mas simplesmente o mundo inteiro, a adorar um e o mesmo Senhor e, por meio dele, a Deus, o seu Pai.

§47. Os numerosos oráculos, as supostas aparições em lugares sagrados etc. São dissipados pelo sinal da Cruz. Os antigos deuses revelam-se simples homens. A magia é desmascarada. E, enquanto a filosofia só conseguia persuadir da imortalidade e da virtude pequenos grupos seletos e locais, homens de pouco saber infundiram nas multidões das igrejas o princípio de uma vida sobrenatural

Antes, todo lugar estava cheio do engano dos oráculos4, e os oráculos de Delfos e de Dodona, os da Beócia5, da Lícia6, da Líbia7 e do Egito, os dos Cabiros8 e a pitonisa gozavam de prestígio na imaginação dos homens; agora, desde que Cristo começou a ser pregado em toda parte, também a loucura deles cessou, e já não há entre eles quem adivinhe. 2. Antes, os demônios costumavam iludir9 a fantasia dos homens, ocupando fontes ou rios, árvores ou pedras, e assim enganavam os simples com os seus truques; agora, depois da visita divina do Verbo, o seu engano cessou. Pois, com o sinal da cruz, basta que alguém o use para expulsar os seus enganos. 3. Antes, os homens tinham por deuses Zeus, Cronos, Apolo e os heróis mencionados nos poetas, e se extraviavam honrando-os; agora que o Salvador apareceu entre os homens, aqueles outros foram desmascarados como homens mortais10, e só Cristo foi reconhecido entre os homens como o Deus verdadeiro, o Verbo de Deus. 4. E que dizer da magia11 tão estimada entre eles? Que antes de o Verbo habitar entre nós ela era forte e ativa entre os egípcios, os caldeus e os indianos, e causava espanto em quem a via; mas que, pela presença da Verdade e pela manifestação do Verbo, também ela foi completamente refutada e reduzida a nada. 5. Quanto à sabedoria dos gentios e às pretensões retumbantes dos filósofos, penso que ninguém precisa do nosso argumento, pois a maravilha está diante dos olhos de todos: os sábios entre os gregos escreveram tanto e não conseguiram persuadir nem mesmo uns poucos12 da sua própria vizinhança a respeito da imortalidade e de uma vida virtuosa; ao passo que só Cristo, com linguagem comum e por meio de homens sem habilidade na fala, persuadiu, no mundo inteiro, igrejas inteiras repletas de gente a desprezar a morte e a pensar nas coisas da imortalidade; a não fazer caso do que é temporal e a voltar os olhos para o que é eterno; a ter em nada a glória terrena e a aspirar somente à celestial.

§48. Outros fatos. A continência cristã das virgens e dos ascetas. Os mártires. O poder da Cruz contra os demônios e a magia. Cristo, por seu poder, mostra ser mais do que um homem, mais do que um mago, mais do que um Espírito. Pois todos esses estão inteiramente sujeitos a ele. Portanto, ele é o Verbo de Deus

Ora, estes nossos argumentos não se reduzem a palavras: têm na própria experiência um testemunho da sua verdade. 2. Vá quem quiser e contemple a prova da virtude nas virgens de Cristo e nos jovens que praticam a santa castidade13, e a certeza da imortalidade em tão grande multidão dos seus mártires. 3. E venha quem quiser pôr à prova da experiência o que acabamos de dizer: diante do próprio engano dos demônios, da impostura dos oráculos e dos prodígios da magia, use o sinal daquela cruz de que eles zombam, e verá como, por meio dela, os demônios fogem, os oráculos cessam e toda magia e feitiçaria são reduzidas a nada. 4. Quem é, então, e quão grande é este Cristo, que pelo seu próprio nome e pela sua presença ofusca e reduz a nada todas as coisas por toda parte, é o único forte contra todos e encheu o mundo inteiro com o seu ensino? Digam-nos os gregos, que gostam de zombar e não se envergonham. 5. Se ele é um homem, como então um só homem superou o poder de todos aqueles que eles mesmos têm por deuses, e os desmascarou com o seu próprio poder como não sendo nada? Se o chamam de mago, como pode ser que por um mago toda magia seja destruída, em vez de confirmada? Se ele tivesse vencido magos particulares, ou prevalecido sobre um só, seria razoável que pensassem que superou os demais por maior habilidade; 6. mas, se a sua cruz alcançou a vitória sobre absolutamente toda magia e sobre o próprio nome dela, deve ficar claro que o Salvador não é mago, visto que até os demônios invocados pelos outros magos fogem dele como do seu Senhor. 7. Digam-nos, então, quem ele é, os gregos, cuja única ocupação séria é a zombaria. Talvez digam que também ele era um demônio, e daí a sua força. Mas, digam-no como quiserem, o riso se voltará contra eles, pois podem ser envergonhados mais uma vez pelas nossas provas anteriores. Como é possível que seja demônio aquele que expulsa os demônios? 8. Se ele expulsasse apenas demônios particulares, poder-se-ia com razão pensar que, pelo chefe dos demônios, prevalecia sobre os menores, como os judeus lhe disseram quando quiseram insultá-lo. Mas, se basta que o seu nome seja pronunciado para que toda a loucura dos demônios seja arrancada e posta em fuga, deve ficar evidente que também aqui eles erram e que o nosso Senhor e Salvador Cristo não é, como pensam, algum poder demoníaco. 9. Logo, se o Salvador não é simplesmente um homem, nem um mago, nem algum demônio, mas pela sua própria divindade reduziu a nada e ofuscou tanto a doutrina dos poetas como o engano dos demônios e a sabedoria dos gentios, deve ficar claro, e todos o reconhecerão, que este é o verdadeiro Filho de Deus, o Verbo, a Sabedoria e o Poder do Pai desde o princípio. É por isso que as suas obras também não são obras de homem, mas são reconhecidas como acima do homem e verdadeiramente obras de Deus, tanto pelos próprios fatos como pela comparação com [o resto da] humanidade.

§49. O seu nascimento e os seus milagres. Vocês chamam de deuses asclépio, héracles e dionísio por suas obras. Comparem as obras deles com as dele e com os prodígios da sua morte etc

Que homem, dentre todos os que já nasceram, formou para si um corpo só de uma virgem? Ou que homem jamais curou doenças como as curou o Senhor comum de todos? Ou quem restituiu o que faltava à natureza humana e fez ver um cego de nascença? 2. Asclépio foi deificado entre eles porque praticou a medicina e descobriu ervas para corpos enfermos; não as formou ele mesmo da terra, mas as descobriu por uma ciência tirada da natureza. Mas que é isso diante do que fez o Salvador, que, em vez de curar uma ferida, modificou a natureza original de um homem e restituiu o corpo inteiro? 3. Héracles é adorado como deus entre os gregos porque lutou contra homens, seus iguais, e matou feras com astúcia. Que é isso diante do que fez o Verbo, afastando do homem as doenças, os demônios e a própria morte? Dionísio é adorado entre eles porque ensinou aos homens a embriaguez; mas o verdadeiro Salvador e Senhor de todos, por ensinar a temperança, é escarnecido por essa gente. 4. Mas deixemos essas coisas. Que dirão dos outros milagres da sua divindade? Na morte de que homem o sol se escureceu e a terra tremeu? Eis que até hoje os homens morrem, e morriam também antigamente. Quando aconteceu com eles prodígio semelhante? 5. Ou, para deixar de lado os feitos realizados por meio do seu corpo e mencionar os que vieram depois da sua ressurreição: a doutrina de que homem, entre todos os que já existiram, prevaleceu em toda parte, uma e a mesma, de uma extremidade da terra à outra, de modo que o seu culto voou por todas as terras? 6. Ou por que, se Cristo é, como dizem, um homem, e não Deus, o Verbo, os deuses que eles têm não impedem o seu culto de passar à mesma terra onde eles estão? Ou por que, ao contrário, o próprio Verbo, habitando aqui, pelo seu ensino faz cessar o culto deles e envergonha o seu engano?

§50. A impotência e as rivalidades dos sofistas são envergonhadas pela morte de Cristo. A sua ressurreição não tem paralelo nem mesmo nas lendas gregas

Muitos, antes deste Homem, foram reis e tiranos do mundo; muitos são lembrados como sábios e magos entre os caldeus, os egípcios e os indianos. Qual deles, pergunto, não depois da morte, mas ainda em vida, conseguiu prevalecer a ponto de encher a terra inteira com o seu ensino e de converter da superstição dos ídolos uma multidão tão grande quanto a que o nosso Salvador trouxe dos ídolos para si? 2. Os filósofos dos gregos compuseram muitas obras com persuasão e habilidade verbal; que resultado, então, mostraram tão grande quanto o da cruz de Cristo? Os refinamentos que ensinavam foram bastante persuasivos enquanto viveram; mas até a influência que pareciam ter em vida estava sujeita às suas rivalidades mútuas: competiam entre si e discursavam uns contra os outros. 3. Mas o Verbo de Deus, coisa estranhíssima, ensinando em linguagem mais humilde, ofuscou os mais refinados sofistas; e, enquanto, atraindo todos a si, reduziu a nada as escolas deles, encheu as suas próprias igrejas; e o admirável é que, descendo como homem à morte, reduziu a nada os discursos retumbantes dos sábios14 a respeito dos ídolos. 4. Pois a morte de quem jamais expulsou demônios? Ou a morte de quem os demônios jamais temeram, como temeram a de Cristo? Onde se pronuncia o nome do Salvador, ali todo demônio é expulso. Ou quem livrou de tal modo os homens das paixões do homem natural que os devassos se tornam castos, os assassinos já não empunham a espada e os que antes eram dominados pela covardia se portam como homens? 5. Em suma, quem persuadiu os homens de países bárbaros e os pagãos em diversos lugares a deixar de lado a sua loucura e a pensar na paz, senão a fé de Cristo e o sinal da cruz? Ou quem mais deu aos homens tal certeza da imortalidade quanto a cruz de Cristo e a ressurreição do seu corpo? 6. Pois, embora os gregos tenham contado toda sorte de fábulas falsas, não foram capazes de inventar uma ressurreição dos seus ídolos, pois nunca lhes passou pela mente se seria de algum modo possível o corpo voltar a existir depois da morte. E aqui se aceitaria de modo muito especial o testemunho deles, visto que, com essa opinião, expuseram a fraqueza da sua própria idolatria, deixando a possibilidade aberta a Cristo, para que também por aí ele fosse conhecido entre todos como Filho de Deus.

§51. A nova virtude da continência. Revolução da sociedade, purificada e pacificada pelo cristianismo

Qual dos homens, por outro lado, depois de morto ou ainda em vida, ensinou sobre a virgindade e mostrou que essa virtude não era impossível entre os homens? Mas Cristo, nosso Salvador e Rei de todos, teve tal poder no seu ensino sobre ela que até crianças que ainda não chegaram à idade legal fazem voto daquela virgindade que está além da lei. 2. Que homem jamais conseguiu ir tão longe a ponto de chegar aos citas e etíopes, aos persas, armênios ou godos, ou àqueles de quem ouvimos falar além do oceano ou além da Hircânia, ou mesmo aos egípcios e caldeus, homens dados à magia, supersticiosos além do natural e selvagens nos costumes, e pregar-lhes sequer sobre a virtude e o domínio próprio e contra a adoração dos ídolos, como fez o Senhor de todos, o Poder de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo? 3. Ele não só pregou por meio dos seus próprios discípulos, como também levou a persuasão à mente dos homens, para que deixassem de lado a ferocidade dos seus costumes e já não servissem aos deuses dos seus antepassados, mas aprendessem a conhecê-lo e, por meio dele, a adorar o Pai. 4. Antes, enquanto estavam na idolatria, gregos e bárbaros guerreavam uns contra os outros e eram cruéis até com os seus próprios parentes. Era impossível a quem quer que fosse atravessar o mar ou a terra sem armar a mão com espadas15, por causa das suas lutas implacáveis entre si. 5. Todo o curso da sua vida se passava entre armas, e a espada lhes fazia as vezes de cajado e era o seu apoio em toda emergência; e, no entanto, como eu disse antes, serviam aos ídolos e ofereciam sacrifícios aos demônios, e com toda a sua superstição idólatra não conseguiam ser arrancados desse espírito. 6. Mas, quando passaram para a escola de Cristo, então, coisa estranha, como homens verdadeiramente compungidos na consciência, deixaram de lado a selvageria dos seus homicídios e já não pensam nas coisas da guerra; tudo entre eles é paz, e daí em diante o que promove a amizade é o que lhes agrada.

§52. As guerras etc., atiçadas pelos demônios, apaziguadas pelo cristianismo

Quem é, então, aquele que fez isso, ou quem é aquele que uniu em paz homens que se odiavam, senão o Filho amado do Pai, o Salvador comum de todos, Jesus Cristo, que pelo seu próprio amor suportou todas as coisas pela nossa salvação? Pois desde a antiguidade foi profetizada a paz que ele havia de trazer, quando a Escritura diz: “Estes transformarão as suas espadas em lâminas de arados e as suas lanças, em foices. Nação não levantará a espada contra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Is 2.4). 2. E isso, pelo menos, não é incrível, visto que ainda hoje aqueles bárbaros que têm uma selvageria inata nos costumes, enquanto ainda sacrificam aos ídolos da sua terra, se enfurecem uns contra os outros e não suportam ficar uma só hora sem armas; 3. mas, quando ouvem o ensino de Cristo, imediatamente, em vez de lutar, voltam-se para a lavoura e, em vez de armar as mãos com armas, erguem-nas em oração; em suma, em lugar de lutar entre si, daí em diante armam-se contra o diabo e contra os espíritos malignos, subjugando-os pelo domínio próprio e pela virtude da alma. 4. Isso é, ao mesmo tempo, uma prova da divindade do Salvador, já que os homens aprenderam dele o que não conseguiam aprender entre os ídolos16, e uma exposição nada pequena da fraqueza e da nulidade dos demônios e dos ídolos. Pois os demônios, conhecendo a sua própria fraqueza, por essa razão levavam antigamente os homens a guerrear uns contra os outros, para que, se cessassem a luta entre si, não se voltassem para a batalha contra os demônios. 5. De fato, os que se tornam discípulos de Cristo, em vez de guerrear uns com os outros, se põem em ordem de batalha contra os demônios por seus hábitos e por suas ações virtuosas; derrotam-nos e zombam do seu chefe, o diabo; assim, na juventude têm domínio próprio, nas tentações perseveram, nos trabalhos são constantes, quando insultados são pacientes, quando roubados não fazem caso; e, coisa admirável, desprezam até a morte e se tornam mártires de Cristo.

§53. Todo o edifício do paganismo é derrubado de um só golpe por Cristo, que fala em segredo à consciência do homem

E, para mencionar uma prova da divindade do Salvador que é de fato espantosa: que simples homem, mago, tirano ou rei jamais foi capaz, sozinho, de enfrentar tantos e de travar a batalha contra toda a idolatria, contra toda a hoste dos demônios, contra toda a magia e toda a sabedoria dos gregos, quando eram tão fortes, ainda florescentes e enganando a todos, e de detê-los a todos num único ataque, como fez o nosso Senhor, o verdadeiro Verbo de Deus? Ele, expondo de modo invisível o erro de cada um, está por si mesmo arrancando todos os homens de todos eles, de modo que os que adoravam os ídolos agora os pisoteiam, os afamados na magia queimam os seus livros, e os sábios preferem a todos os estudos a interpretação dos Evangelhos. 2. Pois aqueles que costumavam adorar, esses estão abandonando; e aquele de quem zombavam como crucificado, a esse adoram como Cristo, confessando que é Deus. Os que entre eles são chamados deuses são postos em fuga pelo sinal da cruz, enquanto o Salvador crucificado é proclamado no mundo inteiro como Deus e Filho de Deus. Os deuses adorados entre os gregos caem em descrédito diante deles como seres escandalosos, ao passo que os que recebem o ensino de Cristo vivem uma vida mais casta do que eles. 3. Se, pois, estas e outras semelhantes são obras humanas, aponte quem quiser obras semelhantes da parte de homens de tempos passados, e assim nos convença. Mas, se se mostram ser, e são, não obras de homens, mas de Deus, por que os incrédulos são tão ímpios a ponto de não reconhecer o Senhor que as realizou? 4. O caso deles é como o de um homem que, a partir das obras da criação, deixasse de conhecer Deus, o seu Artífice. Pois, se conhecessem a divindade dele pelo seu poder sobre o universo, teriam sabido que também as obras corporais de Cristo não são humanas, mas são obras do Salvador de todos, o Verbo de Deus. E, se assim o tivessem conhecido, como disse Paulo, “jamais teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.8).

§54. O Verbo encarnado, como se dá com o Deus invisível, é conhecido por nós pelas suas obras. Por elas reconhecemos a sua missão deificadora. Contentemo-nos em enumerar algumas delas, deixando a sua deslumbrante plenitude a quem quiser contemplá-la

Assim como, se alguém quiser ver a Deus, que por natureza é invisível e de modo algum é visto, pode conhecê-lo e compreendê-lo pelas suas obras, assim também quem não consegue ver Cristo com o entendimento compreenda-o ao menos pelas obras do seu corpo e examine se são obras humanas ou obras de Deus. 2. Se forem humanas, que zombe; mas, se não forem humanas, e sim de Deus, que o reconheça e não ria do que não é motivo de zombaria; antes, admire-se de que por um meio tão comum as coisas divinas nos tenham sido manifestadas, de que pela morte a imortalidade tenha chegado a todos e de que, pelo Verbo que se fez homem, a providência universal tenha sido conhecida, e o seu Doador e Artífice, o próprio Verbo de Deus. 3. Pois ele se fez homem para que nós fôssemos feitos Deus17; manifestou-se por meio de um corpo para que recebêssemos a noção do Pai invisível; e suportou a insolência dos homens para que herdássemos a imortalidade. Pois, enquanto ele mesmo não sofria dano algum, sendo impassível, incorruptível, o próprio Verbo e Deus, os homens que sofriam, e por causa dos quais ele suportou tudo isso, ele os sustentava e preservava na sua própria impassibilidade. 4. Em suma, as realizações do Salvador, resultantes de ele ter se feito homem, são de tal natureza e número que, se alguém quisesse enumerá-las, seria comparável aos que olham a vastidão do mar e querem contar as suas ondas. Pois, assim como não se pode abarcar com os olhos a totalidade das ondas, porque as que vão chegando confundem os sentidos de quem o tenta, assim também, para quem quisesse abarcar todas as realizações de Cristo no corpo, é impossível abarcar o todo, mesmo contando-as, pois as que ultrapassam o seu pensamento são mais numerosas do que as que ele julga ter abarcado. 5. Melhor é, pois, não pretender falar do todo, quando não se consegue fazer justiça nem a uma parte, mas, depois de mencionar mais uma, deixar o todo para que você se admire. Pois todas são igualmente admiráveis, e para onde quer que alguém volte o olhar, ali poderá contemplar a divindade do Verbo e ser tomado de imenso assombro.

§55. Resumo do que foi dito. Cessação dos oráculos pagãos etc.: propagação da fé. O verdadeiro rei apareceu e calou todos os usurpadores

Isto, então, depois de tudo o que dissemos até aqui, é justo que você perceba, tome como o resumo do que já expusemos e admire grandemente: desde que o Salvador veio para o meio de nós, a idolatria não só deixou de crescer, como a que havia está diminuindo e pouco a pouco chegando ao fim; a sabedoria dos gregos não só deixou de avançar, como a que existe agora está se desvanecendo; e os demônios, longe de continuar enganando com ilusões, profecias e artes mágicas, se apenas ousam tentá-lo, são envergonhados pelo sinal da cruz. 2. Em resumo: veja como a doutrina do Salvador cresce em toda parte, enquanto toda a idolatria e tudo o que se opõe à fé de Cristo diminui dia após dia, perde força e cai. E, vendo isso, adore o Salvador, “que está acima de todos” e é poderoso, Deus, o Verbo; e condene os que estão sendo vencidos e eliminados por ele. 3. Pois, assim como, quando chega o sol, as trevas já não prevalecem, e, se ainda resta alguma em algum lugar, é expulsa, assim também agora, que chegou a manifestação divina do Verbo de Deus, as trevas dos ídolos já não prevalecem, e todas as partes do mundo, em todas as direções, são iluminadas pelo seu ensino. 4. E, assim como, quando um rei reina em algum país sem aparecer, mas fica recolhido em sua casa, muitas vezes alguns desordeiros, abusando do seu recolhimento, se autoproclamam, e cada um deles, assumindo o papel, engana os simples como se fosse o rei, e assim os homens são desencaminhados pelo nome, ouvindo que há um rei, mas sem vê-lo, quando mais não seja porque não podem entrar na casa; mas, quando o rei verdadeiro sai e aparece, então os impostores desordeiros são desmascarados pela sua presença, e os homens, vendo o rei verdadeiro, abandonam os que antes os desencaminhavam; 5. do mesmo modo, os espíritos malignos antes enganavam os homens, revestindo-se da honra de Deus; mas, quando o Verbo de Deus apareceu num corpo e nos deu a conhecer o seu próprio Pai, então, finalmente, o engano dos espíritos malignos foi eliminado e detido, enquanto os homens, voltando os olhos para o Deus verdadeiro, o Verbo do Pai, abandonam os ídolos e agora vêm a conhecer o Deus verdadeiro. 6. Ora, isto é prova de que Cristo é Deus, o Verbo, e o Poder de Deus. Pois, enquanto as coisas humanas cessam e a Palavra de Cristo permanece, é evidente a todos os olhos que o que cessa é temporário, mas que aquele que permanece é Deus, o verdadeiro Filho de Deus, o seu Verbo unigênito.

§56. Examine, pois, as Escrituras, se puder, e assim complete este esboço. Aprenda a esperar a segunda vinda e o juízo

Seja isto, então, ó amigo de Cristo, a nossa oferta a você, apenas como um esboço elementar e um contorno, em breve espaço, da fé de Cristo e da sua manifestação divina a nós. Você, porém, tomando daqui a ocasião, se se debruçar sobre o texto das Escrituras, aplicando-lhes sinceramente a mente, aprenderá delas, de modo mais completo e claro, o detalhe exato do que dissemos. 2. Pois elas foram faladas e escritas por Deus, por meio de homens que falaram de Deus. Nós, por nossa vez, transmitimos ao seu zelo de aprender o que aprendemos de mestres inspirados que se familiarizaram com elas e que também se tornaram mártires pela divindade de Cristo. 3. E você aprenderá também sobre a sua segunda manifestação a nós, gloriosa e verdadeiramente divina, quando, não mais em humildade, mas na sua própria glória, não mais em aparência modesta, mas na sua própria magnificência, ele há de vir, não mais para sofrer, mas para dar então a todos o fruto da sua própria cruz, isto é, a ressurreição e a incorruptibilidade; e não mais para ser julgado, mas para julgar a todos segundo o que cada um fez no corpo, seja bem, seja mal; quando estará reservado aos bons o reino dos céus, mas aos que praticaram o mal, o fogo eterno e as trevas exteriores. 4. Pois assim diz também o próprio Senhor: “Desde agora vocês verão o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu na glória do Pai” (Mt 26.64). 5. E por essa mesma razão há também uma palavra do Salvador para nos preparar para aquele dia, nestes termos: “Estejam preparados e vigiem, porque ele vem numa hora que vocês não sabem” (cf. Mt 24.42; Mc 13.35). Pois, segundo o bem-aventurado Paulo: “É necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2Co 5.10; cf. Rm 14.10).

§57. Acima de tudo, viva de modo a ter direito de comer desta árvore do conhecimento e da vida, e assim chegar às alegrias eternas. Doxologia

Mas, para examinar as Escrituras e conhecê-las de verdade, são necessárias uma vida honrada, uma alma pura e aquela virtude que é segundo Cristo, para que o intelecto, guiando por ela o seu caminho, possa alcançar o que deseja e compreendê-lo, na medida em que é acessível à natureza humana aprender a respeito do Verbo de Deus. 2. Pois, sem uma mente pura e sem moldar a vida segundo a dos santos, ninguém poderia compreender as palavras dos santos. 3. Assim como, se alguém quisesse ver a luz do sol, certamente limparia e aclararia os olhos, purificando-se de algum modo à semelhança do que deseja, para que o olho, tornando-se assim luz, veja a luz do sol; ou como, se alguém quisesse ver uma cidade ou um país, certamente iria ao lugar para vê-lo; assim também quem quiser compreender o pensamento dos que falam de Deus precisa começar lavando e purificando a alma pelo seu modo de viver e aproximar-se dos próprios santos imitando as suas obras, para que, associado a eles na conduta de uma vida comum, entenda também o que lhes foi revelado por Deus e, daí em diante, intimamente unido a eles, escape do perigo dos pecadores e do fogo deles no dia do juízo e receba o que está reservado aos santos no reino dos céus, aquilo que “nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano” (1Co 2.9), tudo o que está preparado para os que vivem uma vida virtuosa e amam a Deus e Pai, em Cristo Jesus, nosso Senhor; por meio de quem e com quem seja ao próprio Pai, com o próprio Filho, no Espírito Santo, a honra, o poder e a glória para todo o sempre. Amém.

Notas

1. Cf. as notas a Contra os gentios 10 e 12.2.

2. Sobre o argumento que se segue, veja Döllinger, II, p. 210 ss., e Bigg, Bampton Lectures, p. 248, nota 1.

3. Sobre o caráter local das religiões antigas, veja Döllinger, I, p. 109 etc., e Coulanges, La Cité Antique, livro III, cap. VI, e V, III (o essencial está em Aryan Civilisation, de Barker).

4. Sobre eles, veja Döllinger, I, p. 216 etc., e a Ode on the Nativity de Milton, estrofe XIX.

5. Isto é, o de Trofônio.

6. Pátara.

7. Amon.

8. Veja Döllinger, I, p. 73, 164-170: os Cabiros eram divindades pré-helênicas, adoradas em muitos santuários antigos, mas principalmente na Samotrácia e em Lemnos.

9. Cf. Vida de Antão 16-43; também Döllinger, II, p. 212, e uma curiosa coletânea de excertos dos primeiros Pais, reunida por Hurter em Opuscula SS. Patrum Selecta, vol. 1, apêndice.

10. Sobre essa opinião, veja a nota 1 a Contra os gentios 12.

11. Veja Döllinger, II, p. 210, e (sobre Juliano) p. 215.

12. Na República ideal de Platão, está totalmente ausente a ideia de que os ideais mais elevados exerçam alguma influência direta sobre as massas. A felicidade delas há de consistir na obediência passiva aos poucos que esses ideais inspiram. (Compare, em contraste, Is 54.13; Jr 31.34.)

13. Cf. História dos arianos 25; Apologia a Constâncio 33.

14. Por exemplo, Jâmblico etc.

15. Cf. Tucídides I.5-6: pasa gar he Hellas esiderophorei (“pois toda a Grécia andava armada”) etc.

16. Santo Agostinho, A cidade de Deus IV.16, comentando o fato de que o templo do “Repouso” (Quies) em Roma não ficava dentro dos muros da cidade, sugere: qui illam turbam colere perseveraret… daemoniorum, eum Quietem habere non posse (“quem persistisse em cultuar aquela turba… de demônios não poderia ter a Quietude”).

17. theopoiethomen. Veja Discursos contra os arianos II.70 e muitas outras passagens desses Discursos, bem como as Cartas 60.4 e 61.2 (referência eucarística) e Sobre os sínodos 51. (Compare também Ireneu, IV.38.4: non ab initio dii facti sumus, sed primo quidem homines, tunc demum dii (“não fomos feitos deuses desde o princípio, mas primeiro homens, e só então deuses”); cf. ib., prefácio 4, fim; também V.9.2: sublevat in vitam Dei (“eleva à vida de Deus”). Orígenes, Contra Celso III.28, fim, toca no mesmo pensamento, mas Atanásio está aqui mais próximo da ideia de Ireneu do que da de Orígenes.) A referência do Novo Testamento é 2Pe 1.4, mais do que Hb 2.9 ss.; a do Antigo, Sl 82.6, que parece estar por trás de Discursos contra os arianos III.25. Apesar desta última passagem, “Deus” é de longe preferível como tradução, na maioria dos lugares, a “deuses”, que tem associações pagãs. Para nós (1Co 8.6) não existem “deuses”. (O melhor resumo do ensino patrístico sobre o assunto está em Harnack, Dogmengeschichte, II, p. 46, nota.)

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Archibald Robertson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 4, Nova York, 1892), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os resumos no começo de cada seção e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Atanásio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.