As Homilias de Macário · Homilias III a VI

O cristão e o mundo; a oração e os graus da perfeição

O cristão percorre com cuidado o curso deste mundo; a diferença entre os cristãos e os homens do mundo; a oração e os graus da perfeição; a humildade que conserva a graça.

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Homilia III

Os cristãos devem percorrer com cuidado o curso deste mundo, para que alcancem o louvor de Deus.

1. Que fará Deus com aquele que se entrega ao mundo, que se deixa enganar pelos seus prazeres ou é arrastado pelo tumulto das distrações terrenas? O homem a quem ele concede os socorros da sua graça é aquele que se divorcia dos prazeres grosseiros e que, em todo tempo, impele com força a sua mente para o Senhor, negando a si mesmo e buscando somente o Senhor. Esta é a pessoa que Deus toma sob o seu cuidado especial: aquela que se mantém desembaraçada dos laços deste mundo; que “desenvolve a sua salvação com temor e tremor” (Fp 2.12); que atravessa com a máxima atenção todas as lidas do mundo, buscando no Senhor o seu auxílio e esperando, pela sua misericórdia, ser salva pela graça.

2. Assim como o ferro, o chumbo, o ouro ou a prata, lançados ao fogo, ficam livres daquela dureza que lhes é natural, transformando-se em brandura, e, enquanto permanecem no fogo, continuam dissolvidos, livres da sua dureza nativa, do mesmo modo a alma que renunciou ao mundo, fixou os seus desejos somente no Senhor e recebeu aquele fogo celestial da Divindade e do amor do Espírito fica desembaraçada de todo amor do mundo e liberta de toda a corrupção das afeições. Ela lança de si todas as coisas, é transformada da dureza do pecado e se derrete num amor fervoroso e indizível somente por aquele Esposo celestial que recebeu.

3. Mas eu lhe digo que, se estes mesmos irmãos, tão desejados por ele, se afastarem desse amor, também ele se afasta deles. Pois é justamente isto a vida e o refrigério da alma, a saber, a comunhão oculta e indizível do Rei celestial. Ora, se o amor daquela comunhão que é segundo a carne produz a separação do pai, da mãe e dos irmãos, e deixa a pessoa livre de todo outro amor, quanto mais aqueles que foram julgados dignos de participar daquele Espírito Santo, que é o objeto celestial do nosso amor, se desprenderão inteiramente do amor do mundo! Todas as demais coisas lhes parecem supérfluas e descabidas, porque foram perfeitamente vencidos pelo desejo celestial e unidos a esse desejo que desceu sobre eles. Ali estão os seus desejos, ali se ocupam os seus pensamentos; ali vivem, ali os seus pensamentos vagueiam de um lado para outro; ali a mente está continuamente absorvida, vencida pelo amor divino e celestial e pelo desejo espiritual.

4. Que nos resta, então, amados irmãos, senão que, tendo diante de nós bens tão preciosos e promessas tão grandes que o Senhor nos fez, lancemos fora todo impedimento, renunciemos a todo amor do mundo e nos entreguemos inteiramente àquele único bem? Assim poderemos alcançar aquele amor indizível do Espírito, em cuja busca o bem-aventurado Paulo nos exortou a correr, dizendo: “Sigam o amor” (1Co 14.1). Assim seremos transformados da nossa própria dureza pela mão do Altíssimo e chegaremos à doçura e ao descanso espirituais, feridos pelo amor do Espírito divino. Pois o Senhor tem pelo homem uma afeição extremamente amiga, e espera com compaixão o tempo em que nos voltaremos inteiramente para ele. Porque, embora pela abundância da ignorância, da infantilidade e da corrupção nos tenhamos desviado da vida e multipliquemos os impedimentos sobre nós mesmos, ele se comove com abundante compaixão por nós, sofrendo com paciência até que voltemos a ele e sejamos iluminados no nosso homem interior, para que o nosso rosto não seja coberto de vergonha no dia do juízo.

5. Vejam! As suas entranhas se comovem e ele é longânimo; e, ainda que pequemos, ele detém a sua mão, esperando o nosso arrependimento. E não se envergonha de nos receber de novo quando caímos, como disse o profeta: “Cairão e não se levantarão? Desviará alguém e não tornará a voltar?” (Jr 8.4). Sejamos apenas sóbrios, buscando o auxílio dele, e ele, da sua parte, está pronto a nos salvar. Pois ele aceita este esforço ardente da nossa vontade e a prontidão que procede de um bom propósito; mas toda a direção disso ele mesmo a opera em nós.

6. Portanto, amados, como filhos de Deus, despojados de toda negligência e preguiça, sejamos corajosos e prontos para segui-lo, sem adiar de um dia para outro, porque não sabemos a hora da nossa partida do corpo. As promessas que nos foram feitas são grandes e estão além de toda expressão, de tal modo que toda a glória e a beleza do céu e da terra, com todo o ornato e a variedade, as riquezas, o esplendor e o encanto da criação visível, não têm proporção alguma com o tesouro de uma única alma.

7. Como, então, resistiremos a tais promessas e não quereremos ir inteiramente a ele, consagrar-nos a ele, amar somente a ele e não admitir rival nem sócio ao lado dele? Mas vejam: apesar de todas essas coisas, da grande glória que nos foi dada e das ternas compaixões do nosso Senhor para conosco desde o princípio; apesar da sua bondade inexprimível para conosco, demonstrada pelo seu sofrimento na cruz, ainda nos recusamos a abandonar a nossa própria vontade, o amor do mundo e os compromissos e hábitos que são maus. E, mesmo assim, depois de tudo, vejam! ele continua sendo bondoso, cuidando de nós e preservando-nos invisivelmente, sem nos entregar ao poder do mal segundo os nossos pecados, nem permitir que pereçamos pelo engano do mundo; antes, pela sua grande bondade e longanimidade, olha para nós, esperando o momento em que nos voltaremos para ele.

8. Mas, se nos parece impossível nos converter de uma multidão de pecados, lembremo-nos de como o nosso Senhor, quando andava entre os homens, pela sua bondade restituiu a vista aos cegos, curou os enfermos, sarou toda espécie de doença, ressuscitou os mortos que já haviam descido à corrupção, fez os surdos ouvirem, expulsou uma legião de demônios de um só homem e o restituiu ao seu perfeito juízo. Quanto mais converterá a alma que se volta para ele e lhe suplica misericórdia, e a levará ao estado alegre da libertação das paixões, à firmeza em toda virtude e à renovação da mente, tirando-a da morte da incredulidade, da ignorância e da falta de temor!

9. Pois, se ele se moveu de tanta compaixão para com corpos que morrem, e prontamente fazia a cada um o que pedia, quanto mais o fará a uma alma imortal, que não está sujeita à dissolução nem à corrupção, mas padece a doença da ignorância e da malícia, da incredulidade e da falta de temor, e que, apesar disso, vem ao Senhor, buscando nele socorro e desejando receber dele a graça do seu Espírito para a sua redenção, salvação e libertação de toda afeição corrupta!

10. Por isso ele nos exortou a pedir-lhe o dom da graça com ousadia, sem cessar e sem desfalecer. Pois foi por causa dos pecadores que ele veio ao mundo, para convertê-los a si e curar os que nele creem. Somente nos afastemos dos enganos do mundo, rejeitemos todos os pensamentos maus e vãos e nos apeguemos sempre a ele com todas as nossas forças, e ele está pronto a nos socorrer com o seu auxílio. Pois ele é misericordioso, dá vida, cura as enfermidades que eram incuráveis e opera redenção para aqueles que o invocam e dele dependem com empenho e desejo. É a uma alma assim que Deus concede o seu auxílio: àquela que considera supérfluas todas as outras coisas e não se contenta com nada do que este mundo oferece, mas espera alegrar-se no descanso da sua benignidade. E assim, tendo alcançado pela fé o dom celestial, avançando dia após dia na bondade e perseverando no caminho da justiça até o fim, ela é julgada digna de participar da salvação eterna.

Homilia IV

Há uma grande diferença entre os cristãos e os homens deste mundo.

1. O mundo dos cristãos, o seu modo de vida, a sua mente, a sua conversa e a sua prática são uma coisa; e os dos homens deste mundo, outra. E a diferença entre eles é muito grande. Pois os filhos deste mundo são agitados de um lado para outro por raciocínios instáveis, por desejos terrenos e por uma variedade de imaginações grosseiras, com as quais Satanás está continuamente peneirando toda a raça pecadora dos homens.

2. Pois a palavra que o Criador dirigiu a Caim: “Você andará gemendo e tremendo, e será agitado sobre a terra” (Gn 4.12), é tipo e imagem de todos os pecadores quanto ao seu estado interior. Porque assim a raça de Adão é agitada pelas sugestões incessantes do medo e do pavor e por toda espécie de perturbação, enquanto o príncipe deste mundo sacode de um lado para outro a alma que não é nascida de Deus, e perturba de muitas maneiras os pensamentos dos homens, como o trigo que é continuamente revolvido na peneira, abalando-os e enredando-os a todos nos enganos do mundo e nas concupiscências da carne, com medos e aflições.

3. Assim como de um só Adão toda a raça humana se espalhou pela terra, assim também uma só mancha nas afeições passou para toda a descendência pecadora dos homens; e o príncipe da malícia é bem capaz de sacudi-los a todos em reflexões inquietas, grosseiras, vãs e perturbadoras. Pois, assim como um único e mesmo vento basta para agitar e sacudir todas as plantas e sementes, sejam quais forem, assim o príncipe da maldade, como um vento oculto e tempestuoso, agita de um lado para outro toda a raça dos homens sobre a terra, arrasta-os com pensamentos instáveis e, seduzindo-os com as concupiscências do mundo, enche de ignorância, cegueira e esquecimento toda alma que não é nascida do alto.

4. Pois é nisto que os verdadeiros cristãos diferem de todo o restante da raça humana. Eles têm o coração e a mente constantemente ocupados com os pensamentos do céu e, pela presença e participação do Espírito Santo, contemplam, como num espelho, os bens que são eternos. Nascidos de Deus do alto e julgados dignos de se tornarem filhos de Deus em verdade e poder, e tendo chegado, através de muitos combates e trabalhos, a um estado firme e estável, à isenção de perturbação, ao perfeito descanso, nunca mais são peneirados por pensamentos instáveis e vãos. Nisto são maiores e melhores que o mundo: a sua mente e o desejo da sua alma estão na paz de Cristo e no amor do Espírito; “passaram da morte para a vida” (1Jo 3.14). Por isso, a transformação própria dos cristãos não consiste em formas exteriores, mas na renovação da mente, na paz dos pensamentos e no amor do Senhor, isto é, no amor celestial. Nisto os cristãos diferem de todos os outros homens. O Senhor lhes concedeu crer verdadeiramente nele e ser dignos daqueles bens espirituais. Pois a glória, a beleza e as riquezas celestiais dos cristãos são inexprimíveis, e só se adquirem com trabalho, fadigas, provações e muitos combates. Mas tudo se deve à graça de Deus.

5. Ora, se todos os homens desejam ver até mesmo um rei terreno (exceto as pessoas espirituais, que consideram nada toda a glória dele, porque conheceram por experiência outra glória, a celestial), se, digo eu, os homens deste mundo desejam tanto contemplar um rei terreno, com o seu esplendor e a sua glória, quanto mais aqueles sobre quem caiu aquele orvalho do Espírito da vida, e que tiveram o coração ferido de amor por Cristo! Estão presos àquela beleza, à glória indizível e às riquezas inconcebíveis do Rei verdadeiro e eterno; cativos do desejo e do anseio por ele, voltam-se inteiramente para ele, a fim de obter aqueles bens indizíveis que, pelo Espírito, já contemplam de fato; e, por amor dele, consideram nada todas as glórias, honras e riquezas dos reis terrenos.

6. Pois estão feridos pela beleza divina; o seu desejo se volta para o Rei celestial; e, pondo somente a ele diante dos olhos na abundância da sua afeição, por amor dele se desprendem de todo amor do mundo e se afastam de todo estorvo terreno, para que possam guardar sempre no coração aquele único desejo. E os que são cristãos em verdade e poder alegram-se com a sua partida da carne, porque têm “uma casa não feita por mãos humanas” (2Co 5.1). Por isso, se a casa do corpo for destruída, nada temem, pois têm a “casa do Espírito”, que é celestial, e aquela “glória que é incorruptível”.

7. Esforcemo-nos, portanto, pela fé, para possuir aquela veste, a fim de que, quando retomarmos o corpo, nada falte que possa glorificar a nossa carne naquele dia. Pois cada um, na medida em que foi julgado digno, pela fé, de se tornar participante do Espírito Santo, na mesma proporção terá também o seu corpo glorificado naquele dia. Porque aquilo que a alma entesourou dentro de si nesta vida presente será então manifestado exteriormente no corpo.

8. Pois, assim como as árvores que passaram o inverno, por um poder invisível, brotam de dentro e lançam folhas, flores e frutos como sua veste; e, do mesmo modo, assim como as flores da relva saem do seio da terra, e a terra fica coberta e vestida; assim, no dia da ressurreição, pelo poder do “sol da justiça” (Ml 4.2), brota de dentro a glória do Espírito Santo, cobrindo o corpo dos santos, a glória que antes eles tinham, escondida dentro da alma. Pois tudo o que a alma possui agora, isso mesmo sairá naquele tempo para fora, no corpo.

9. Por isso cada um de nós deve esforçar-se e ser diligente em toda virtude, crer e buscá-la no Senhor, para que o homem interior se torne participante daquela glória nesta vida presente e tenha aquela santidade do Espírito, a fim de que, na ressurreição, tenhamos com que cobrir o nosso corpo nu e com que nos refrigerar por toda a eternidade no Reino dos céus. Pois Cristo descerá do céu e ressuscitará toda a descendência de Adão que dorme desde o princípio do mundo; e os separará a todos em dois grupos, e os que têm a sua própria marca, isto é, o selo do Espírito, ele os porá à sua direita. E então o corpo destes será envolvido de glória divina por causa das suas boas obras, e eles mesmos estarão cheios da glória do Espírito que tinham na alma nesta vida presente. De modo que, assim glorificados na luz divina e arrebatados “para o encontro com o Senhor nos ares”, nós, como está escrito, “estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17), reinando com ele sem fim. Amém.

Homilia V

Sobre as coisas que acontecem aos cristãos no tempo da oração, e sobre os graus da perfeição.

1. Um homem entra para dobrar os joelhos, e o seu coração se enche de um poder divino, e a sua alma se alegra com o Senhor, como a noiva com o seu noivo. O homem interior é arrebatado a uma devoção ainda mais elevada, à profundeza insondável daquele mundo, em grande doçura, de modo que toda a sua mente fica alheada, elevada e levada para lá; e assim, por aquele tempo, uma nuvem de esquecimento cobre os pensamentos da sabedoria terrena, pois os seus pensamentos estão cheios de coisas divinas e celestiais, coisas infinitas e incompreensíveis, coisas maravilhosas que é impossível exprimir.

2. Às vezes o amor se inflama e arde com maior força; outras vezes, de modo mais lento e brando. Assim como o mesmo fogo, em certas ocasiões, arde com calor e chama mais fortes, e em outras diminui e arde fraco, assim esta lâmpada (da graça) às vezes arde e resplandece, quando é acesa com mais força por uma infusão extraordinária do amor de Deus; mas outras vezes é concedida com medida, e então a luz é comparativamente mais fraca.

3. Em outra ocasião, a luz que brilhava no coração revelou uma luz ainda mais interior, profunda e oculta, de modo que o homem inteiro, absorvido naquela doçura e contemplação, já não era senhor de si, mas era para este mundo como um simples tolo e bárbaro, por causa do amor superabundante e da doçura dos mistérios ocultos; de modo que a pessoa, posta em liberdade por aquele tempo, chega a tais graus de perfeição que se torna pura e livre do pecado. Mas, depois de tudo isso, a graça se retirou, e o véu do poder adversário veio sobre ele; contudo, ela ainda aparece em parte, e ele permanece num dos degraus mais baixos da perfeição. E aquele que é rico em graça, em todo tempo, de noite e de dia, permanece num estado perfeito, livre e puro, sempre cativo do amor e elevado a Deus.

4. Mas, se alguém tivesse essas coisas sempre presentes diante de si, não conseguiria assumir a dispensação da palavra. Nem suportaria ouvir, ou ter qualquer cuidado consigo mesmo ou com o dia de amanhã, mas apenas ficaria sentado num canto em estado de elevação. Por isso não foi concedido o grau perfeito, o mais alto de todos, para que o homem esteja em condições de atender ao cuidado dos irmãos e ao ministério da palavra. Contudo, “a parede de separação que estava no meio foi derrubada” (Ef 2.14), “e a morte foi vencida”.

5. A graça, mesmo nesta vida presente, opera assim: acalma todos os membros e o coração, de modo que a alma, pela abundância da alegria, parece uma criancinha, sem consciência de mal algum; e o homem já não condena o gentio, nem o judeu, nem o homem do mundo. Antes, o homem interior olha para todos com olhos de pureza, alegra-se por todo o mundo e deseja respeitar e amar a todos, tanto os gentios como os judeus. Em outra ocasião, como filho de um rei, ele confia no Filho de Deus como em seu próprio pai, e as portas se lhe abrem, e ele entra em muitas moradas. E quanto mais adentra, tanto mais elas tornam a se abrir para ele, de cem moradas a outras cem, e ele fica rico; e quanto mais se enriquece, outras e outras maravilhas, ainda mais novas, lhe são reveladas. E, como filho e herdeiro, recebe em confiança coisas que a natureza humana não pode dizer, nem a boca e a língua pronunciar. Glória a Deus! Amém.

Homilia VI

Os dons da graça se conservam por uma mente humilde e uma vontade pronta, mas se perdem pelo orgulho e pela preguiça.

1. As almas que amam a verdade e a Deus, e desejam revestir-se de Cristo completamente, ainda que sofram em certa medida um estado de vazio, estando inteiramente pregadas à cruz de Cristo, percebem dia após dia, por experiência, os seus avanços em direção ao Esposo espiritual. E, feridas de um desejo celestial e tendo fome de justiça, têm um anseio insaciável de que o Espírito resplandeça sobre elas. E, ainda que sejam julgadas dignas de receber, pela fé, o conhecimento dos mistérios divinos, ou se tornem participantes da alegria da graça celestial, não têm confiança em si mesmas. Antes, quanto mais desfrutam dos dons espirituais, tanto mais insaciável é o desejo celestial de que se enchem; quanto mais percebem o progresso espiritual em si mesmas, tanto mais famintas e sedentas ficam do crescimento da graça; e quanto mais ricas são espiritualmente, tanto mais lhes parece que estão em necessidade, e são levadas por um desejo espiritual pelo Esposo celestial, como diz o sábio: “Os que me comem ainda terão fome, e os que me bebem ainda terão sede” (cf. Eclo 24).

2. Almas assim, que têm um amor fervoroso e insaciável pelo Senhor, são julgadas dignas da redenção das afeições vis e recebem a iluminação e a presença do Espírito Santo, que é indizível, e a comunhão mística na plenitude da graça. Mas todas as almas que são desprovidas de vigor e de energia varonis continuam ainda como na carne, pois nunca alimentaram a esperança de receber a santificação do coração pela paciência e pela longanimidade, nem de desfrutar da comunhão do Espírito com plena percepção e certeza. Estas, depois de terem sido uma vez julgadas dignas da graça divina, foram contudo enganadas insensivelmente pelo maligno, e assim se entregaram à negligência e ao relaxamento. E a razão é evidente: depois de receberem a graça do Espírito e desfrutarem de fato o consolo da graça em descanso e doçura espiritual, confiam nela; ensoberbecem-se e não tomam mais cuidado algum, sem coração contrito nem mente humilde; nem esperaram com toda a diligência e fé ser perfeitamente cheias da graça. Em vez disso, ficaram fartas, ficaram completamente satisfeitas e repousaram na primeira consolação da graça. O progresso que essas almas fizeram tendeu mais à altivez do que à humildade, de modo que foram despojadas outra vez daquele mesmo dom que antes lhes fora concedido, por causa do seu descuidado desprezo de qualquer coisa a mais e da vã presunção da sua própria opinião.

3. A alma que verdadeiramente ama a Deus e ama a Cristo, ainda que pratique obras de justiça sem conta, porta-se como se não tivesse feito absolutamente nada, por causa do amor insaciável que tem ao Senhor. E, ainda que tenha macerado o corpo com jejuns e vigílias, continua a aplicar-se à busca das virtudes como se nunca tivesse começado a se esforçar minimamente por elas. Ainda que tenha sido julgada digna dos diversos dons do Espírito, ou favorecida com revelações e mistérios celestiais, por causa do seu imenso amor pelo Senhor parece a si mesma não possuir absolutamente nada. Antes, tendo fome e sede pela fé e pelo amor, é levada insaciavelmente, no espírito perseverante de oração, aos mistérios da graça e a todo grau de virtude. E, ferida pelo Espírito celestial, que continuamente desperta um desejo inflamado pelo Esposo celestial, e ansiando ser completamente admitida à comunhão mística e inexprimível com ele na santificação do Espírito; com o rosto da alma desvendado e olhando com olhar firme para o Esposo celestial, face a face, na luz que é espiritual e inexprimível, ela se une a ele em toda a plenitude da certeza. Torna-se conforme à morte dele, aguardando sempre, na abundância do desejo, morrer por amor de Cristo, e esperando obter, sob a condução do Espírito, uma redenção completa do pecado e das trevas das afeições, para que, purificada pelo Espírito, santificada na alma e no corpo, seja feita um vaso limpo, preparado para receber o unguento celestial e para ser a morada de Cristo, o verdadeiro e celestial Rei. E então a alma se enche da vida celestial e se torna a habitação pura do Espírito Santo.

4. Mas estas são alturas que a alma não alcança de uma só vez; é através de muitos trabalhos e combates, com uma variedade de provações e tentações, que ela recebe crescimento e progresso espirituais, até que por fim chega a uma completa isenção das suas antigas afeições. Resistindo com alegre e nobre obstinação a cada nova tentação, é então julgada digna de grandes honras e dons espirituais, e se torna herdeira do Reino celestial em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória para sempre. Amém.

Tradução para o português a partir do extrato publicado por John Wesley no primeiro volume da sua Christian Library (Bristol, 1749; textos conferidos nas edições de 1755 e 1819); domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando o autor cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.