Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese VI
Um só Deus, que ninguém pode compreender; os erros dos pagãos e as heresias, especialmente a de Mani.
Isaías 45.16-17
Santifiquem-se para mim, ó ilhas. Israel é salvo pelo Senhor com salvação eterna; não serão envergonhados nem confundidos para sempre etc.
1. “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo” (2Co 1.3). Bendito seja também o seu Filho unigênito2. Pois ao pensamento de Deus junte-se logo o pensamento de Pai, para que a glória atribuída ao Pai e ao Filho seja indivisível. Porque o Pai não tem uma glória e o Filho outra, mas uma só e a mesma, visto que ele é o Filho unigênito do Pai; e, quando o Pai é glorificado, o Filho também participa da glória com ele, porque a glória do Filho flui da honra do seu Pai; e, por sua vez, quando o Filho é glorificado, o Pai de tão grande bem é altamente honrado.
2. Ora, embora a mente seja rapidíssima em seus pensamentos, a língua precisa de palavras e de uma longa exposição intermediária. Pois o olho abarca de uma só vez uma multidão do “coro das estrelas”; mas, quando alguém quer descrevê-las uma por uma, qual é a estrela da manhã, qual a estrela da tarde, e qual é cada uma delas, precisa de muitas palavras. Do mesmo modo, a mente, no mais breve instante, abrange a terra, o mar e todos os limites do universo; mas o que concebe num instante, precisa de muitas palavras para descrever3. Contudo, por mais forte que seja o exemplo que mencionei, ainda assim é, afinal, fraco e insuficiente. Pois de Deus não dizemos tudo o que deveríamos (porque isso só ele conhece), mas tanto quanto a capacidade da natureza humana recebeu, e tanto quanto a nossa fraqueza pode suportar. Não explicamos o que Deus é, mas confessamos com franqueza que não temos conhecimento exato a respeito dele. Pois, no que diz respeito a Deus, confessar a nossa ignorância é o melhor conhecimento4. Portanto, “louvem comigo a grandeza do Senhor, e todos juntos lhe exaltemos o nome” (Sl 34.3), todos em comum, porque um só nada pode; ou melhor, ainda que estejamos todos unidos, mesmo assim não o faremos como devemos. E não falo apenas de vocês, que estão aqui presentes; ainda que todos os filhos de toda a Igreja pelo mundo inteiro, tanto a que agora existe como a que há de existir, se reunissem, não seriam capazes de cantar dignamente os louvores do seu Pastor.
3. Grande e honrado homem foi Abraão, mas grande só em comparação com os homens; e, quando chegou diante de Deus, falando então a verdade com franqueza, disse: “Sou terra e cinza” (Gn 18.27). Não disse “terra” e parou, para não se chamar pelo nome daquele grande elemento; mas acrescentou “e cinza”, para representar a sua natureza perecível e frágil. Há alguma coisa, diz ele, menor ou mais leve que a cinza? Pois compare, diz ele, a cinza com uma casa, a casa com uma cidade, a cidade com uma província, a província com o Império Romano, e o Império Romano com a terra inteira e todos os seus limites, e a terra inteira com o céu que a envolve; a terra, que guarda com o céu a mesma proporção que o centro com toda a circunferência de uma roda, pois a terra não é mais do que isso em comparação com o céu5. Considere então que este primeiro céu, que se vê, é menor que o segundo, e o segundo menor que o terceiro, pois até aí a Escritura os nomeou, não porque sejam só esses, mas porque nos convinha conhecer só esses. E, quando você tiver percorrido em pensamento todos os céus, nem mesmo os céus serão capazes de louvar a Deus como ele é, não, nem que ressoassem com uma voz mais forte que o trovão. Mas, se essas grandes abóbadas dos céus não conseguem cantar dignamente o louvor de Deus, quando poderão “terra e cinza”, as menores e mais ínfimas das coisas que existem, elevar a Deus um hino de louvor digno, ou falar dignamente de Deus, “que está assentado sobre a cúpula da terra, cujos moradores são como gafanhotos” (Is 40.22)?
4. Se alguém tentar falar de Deus, descreva primeiro os limites da terra. Você habita na terra, e não conhece o limite desta terra que é a sua morada: como então será capaz de formar um pensamento digno do seu Criador? Você contempla as estrelas, mas não contempla quem as fez: conte estas que são visíveis, e então descreva aquele que é invisível, “que conta o número das estrelas, chamando-as todas pelo seu nome” (Sl 147.4). Chuvas violentas caíram há pouco sobre nós e quase nos destruíram: conte as gotas só nesta cidade; ou melhor, não digo na cidade, mas conte as gotas que caem sobre a sua própria casa durante uma única hora, se puder; mas você não pode. Aprenda então a sua própria fraqueza; aprenda com este exemplo o poder de Deus: pois “ele contou as gotas da chuva” (Jó 36.27)6 que foram derramadas sobre toda a terra, não só agora, mas em todos os tempos. O sol é obra de Deus, e, por maior que seja, não passa de um ponto em comparação com o céu inteiro; olhe primeiro fixamente para o sol, e depois investigue com curiosidade o Senhor do sol. “Não procure as coisas que são profundas demais para você, nem esquadrinhe as que estão acima das suas forças; no que lhe foi ordenado, nisso pense” (Eclo 3.21-22).
5. Mas alguém dirá: Se a substância divina é incompreensível, por que então você discorre sobre essas coisas? Então, porque não posso beber o rio inteiro, não devo nem sequer tomar com moderação o que me convém? Porque, com olhos feitos como os meus, não posso abarcar o sol inteiro, não devo nem sequer olhar para ele o bastante para suprir as minhas necessidades? Ou ainda, porque entrei num grande jardim e não posso comer toda a abundância dos frutos, você quer que eu saia de lá inteiramente faminto? Louvo e glorifico aquele que nos fez; pois é mandamento divino o que diz: “Todo ser que respira louve o Senhor” (Sl 150.6). Procuro agora glorificar o Senhor, mas não descrevê-lo, sabendo, contudo, que ficarei aquém de glorificá-lo dignamente, mas julgando ser obra de piedade até mesmo tentá-lo. Pois o Senhor Jesus anima a minha fraqueza, dizendo: “Ninguém jamais viu Deus” (Jo 1.18)7.
6. Que dizer então, perguntará alguém, não está escrito: “Os anjos dos pequeninos veem incessantemente a face de meu Pai, que está nos céus” (Mt 18.10)? Sim, mas os anjos veem a Deus não como ele é, e sim na medida em que eles mesmos são capazes. Pois é o próprio Jesus quem diz: “Não que alguém tenha visto o Pai, a não ser aquele que vem de Deus; este já viu o Pai” (Jo 6.46). Os anjos, portanto, contemplam tanto quanto podem suportar, e os arcanjos tanto quanto são capazes; e os tronos e as dominações, mais que os primeiros, mas ainda menos do que ele merece: pois, com o Filho, só o Espírito Santo pode contemplá-lo devidamente; porque ele “sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus” (1Co 2.10); assim como também o Filho unigênito, com o Espírito Santo, conhece plenamente o Pai: Pois “ninguém”, diz ele, “conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Porque ele contempla plenamente e, conforme cada um pode suportar, revela Deus por meio do Espírito, visto que o Filho unigênito, juntamente com o Espírito Santo, participa da divindade do Pai. Aquele que8 foi gerado conhece aquele que o gerou; e aquele que gerou conhece aquele que foi gerado. Visto então que os anjos ignoram (pois a cada um, segundo a sua própria capacidade, o Unigênito o revela por meio do Espírito Santo, como dissemos), ninguém se envergonhe de confessar a sua ignorância. Estou falando agora, como todos falam em certas ocasiões; mas como falamos, não sabemos dizer: como então poderei declarar aquele que nos deu a fala? Eu, que tenho uma alma e não sei dizer as suas propriedades distintivas, como serei capaz de descrever aquele que a deu?
7. Para a piedade, basta-nos simplesmente saber que temos um Deus; um Deus que é um só, um Deus vivo9, sempre vivo; sempre igual a si mesmo10; que não tem pai, nem ninguém mais poderoso que ele, nem sucessor que o expulse do seu reino; que no nome é múltiplo, no poder é infinito, na substância é uniforme11. Pois, embora seja chamado Bom, Justo, Todo-Poderoso e Sabaoth12, nem por isso é diverso e variado; mas, sendo um só e o mesmo, produz inúmeras operações da sua divindade, não excedendo aqui e faltando ali, mas sendo em todas as coisas igual a si mesmo. Não é grande só na bondade e pequeno na sabedoria, mas tem sabedoria e bondade em igual poder; não vê em parte e em parte é privado da vista, mas é todo olho, todo ouvido e todo mente13; não é como nós, que percebemos em parte e em parte não sabemos; pois tal afirmação seria blasfema e indigna da substância divina. Ele conhece de antemão as coisas que existem; é santo e todo-poderoso, e excede a todos em bondade, majestade e sabedoria; dele não podemos declarar nem princípio, nem forma, nem figura. Pois “vocês nunca ouviram a voz dele, nem viram a sua forma” (Jo 5.37), diz a Sagrada Escritura. Por isso Moisés também diz aos israelitas: “Guardem bem a sua alma. Porque vocês não viram aparência nenhuma” (Dt 4.15). Pois, se é inteiramente impossível imaginar a sua semelhança, como poderá o pensamento aproximar-se da sua substância?
8. Houve muitas imaginações de muitas pessoas, e todas falharam. Alguns pensaram que Deus é fogo; outros, que ele é como um homem com asas, por causa de um texto verdadeiro mal compreendido: “esconde-me à sombra das tuas asas” (Sl 17.8). Esqueceram-se de que nosso Senhor Jesus Cristo, o Unigênito, fala de modo semelhante a respeito de si mesmo a Jerusalém: “Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram” (Mt 23.37)! Pois, embora o poder protetor de Deus fosse concebido como asas, eles, não entendendo isso, desceram ao nível das coisas humanas e supuseram que o Insondável existe à semelhança do homem. Outros ainda ousaram dizer que ele tem sete olhos, porque está escrito: “sete olhos do Senhor, que percorrem toda a terra” (Zc 4.10). Pois, se ele tem apenas sete olhos que o cercam em parte, a sua visão é então parcial e não perfeita; mas dizer isso de Deus é blasfemo; porque devemos crer que Deus é perfeito em todas as coisas, segundo a palavra do nosso Salvador, que diz: “O Pai de vocês, que está no céu, é perfeito” (Mt 5.48); perfeito na visão, perfeito no poder, perfeito na grandeza, perfeito na presciência, perfeito na bondade, perfeito na justiça, perfeito na benignidade; não circunscrito em espaço algum, mas criador de todo espaço, existindo em tudo e circunscrito por nada14. “O céu é o seu trono”, mas mais alto é aquele que nele está assentado; “e a terra é o estrado dos seus pés” (Is 66.1), mas o seu poder alcança as coisas debaixo da terra.
9. Ele é um só, presente em toda parte, que vê todas as coisas, percebe todas as coisas e cria todas as coisas por meio de Cristo: “Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). É fonte de todo bem, abundante e inesgotável, rio de bênçãos, luz eterna de esplendor que nunca falha, poder invencível que se inclina às nossas fraquezas; cujo próprio nome não ousamos ouvir15. “Você achará um vestígio do Senhor?”, diz Jó, “ou chegou às menores coisas que o Todo-Poderoso fez” (Jó 11.7)16? Se as menores das suas obras são incompreensíveis, será compreendido aquele que as fez todas? “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9). Se as coisas que Deus preparou são incompreensíveis para os nossos pensamentos, como poderemos compreender com a nossa mente aquele mesmo que as preparou? “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão inexplicáveis são os seus juízos, e quão insondáveis são os seus caminhos” (Rm 11.33)!, diz o apóstolo. Se os seus juízos e os seus caminhos são incompreensíveis, poderá ele mesmo ser compreendido?
10. Sendo Deus, portanto, assim grande, e ainda maior (pois, ainda que eu transformasse toda a minha substância em língua, não poderia dizer a sua excelência; mais ainda, nem que todos os anjos se reunissem poderiam jamais dizer o que ele vale), sendo Deus, portanto, tão grande em bondade e majestade, o homem ainda ousou dizer a uma pedra que esculpiu: “Tu és o meu Deus” (Is 44.17)! Ó cegueira monstruosa, que de tão grande majestade desceu tão baixo! A árvore que foi plantada por Deus e nutrida pela chuva, e depois queimada e reduzida a cinzas pelo fogo, essa é invocada como Deus, e o Deus verdadeiro é desprezado. Mas a maldade da idolatria cresceu ainda mais desmedida, e o gato, o cão e o lobo17 foram adorados em lugar de Deus; o leão devorador de homens18 também foi adorado em lugar de Deus, o mais amoroso amigo do homem. A cobra e a serpente19, imitação daquele que nos expulsou do paraíso, foram adoradas, e aquele que plantou o paraíso foi desprezado. E tenho vergonha de dizê-lo, e mesmo assim o digo: até cebolas20 foram adoradas por alguns. O vinho foi dado “para alegrar o coração do homem” (Sl 104.15), e Dioniso (Baco) foi adorado em lugar de Deus. Deus fez o trigo dizendo: “Produza a terra erva que dê semente segundo a sua espécie e segundo a sua semelhança” (Gn 1.11), para que “o pão fortaleça o coração do homem” (Sl 104.15); por que então Deméter (Ceres) foi adorada? O fogo sai do choque de pedras até hoje: como então Hefesto (Vulcano) seria o criador do fogo?
11. De onde veio o erro politeísta dos gregos21? Deus não tem corpo: de onde vêm então os adultérios atribuídos aos que eles chamam deuses? Nada digo das transformações de Zeus em cisne; tenho vergonha de falar das suas transformações em touro, pois mugidos são indignos de um deus. O deus dos gregos foi achado adúltero, e eles não se envergonham; pois, se é adúltero, não seja chamado deus. Contam também mortes22, quedas23 e fulminações24 dos seus deuses. Você vê de que altura e quão baixo caíram? Foi então sem razão que o Filho de Deus desceu do céu? Ou foi para curar tão grande ferida? Foi sem razão que o Filho veio? Ou foi para que o Pai fosse reconhecido? Você aprendeu o que moveu o Unigênito a descer do trono à direita de Deus. O Pai era desprezado; era preciso que o Filho corrigisse o erro: pois aquele por meio de quem todas as coisas foram feitas devia trazê-las todas como oferta ao Senhor de todos. A ferida tinha de ser curada: pois que poderia haver de pior que esta doença, que uma pedra fosse adorada em lugar de Deus?
12. E não foi só entre os pagãos que o diabo fez esses ataques; pois muitos dos que falsamente se chamam cristãos, e injustamente são designados pelo doce nome de Cristo, já ousaram impiamente banir Deus da sua própria criação. Refiro-me à raça dos hereges, homens ímpios ao extremo e de mau nome, que fingem ser amigos de Cristo, mas o odeiam inteiramente. Pois quem blasfema contra o Pai do Cristo é inimigo do Filho. Esses homens ousaram falar de duas divindades, uma boa e outra má25! Ó cegueira monstruosa! Se é divindade, certamente é boa. Mas, se não é boa, por que é chamada divindade? Pois, se a bondade é atributo de Deus, se a benignidade, a beneficência e o poder absoluto são próprios de Deus, então das duas uma: ou, ao chamá-lo Deus, unam o nome e a operação; ou, se querem roubar-lhe as operações, não lhe deem o simples nome.
13. Os hereges ousaram dizer que há dois deuses, e duas fontes, do bem e do mal, e que essas fontes não são geradas. Se ambas não são geradas, é certo que também são iguais e ambas poderosas. Como então a luz destrói as trevas? E existem elas sempre juntas, ou estão separadas? Juntas não podem estar; pois “que comunhão existe entre a luz e as trevas?”, diz o apóstolo (2Co 6.14)26. Mas, se estão longe uma da outra, é certo que também ocupam cada uma o seu próprio lugar; e, se ocupam os seus lugares separados, nós certamente estamos no domínio de um só Deus, e certamente adoramos um só Deus. Pois assim devemos concluir, mesmo que concordemos com a loucura deles: que devemos adorar um só Deus. Examinemos também o que dizem do Deus bom. Tem ele poder ou não tem poder? Se tem poder, como surgiu o mal contra a sua vontade? E como se intromete a substância má, se ele não o quer? Pois, se sabe mas não pode impedi-lo, acusam-no de falta de poder; mas, se tem o poder e mesmo assim não o impede, acusam-no de traição. Observem também a falta de juízo deles. Ora dizem que o Maligno não tem parte nenhuma com o Deus bom na criação do mundo; ora dizem que tem apenas a quarta parte. Dizem também que o Deus bom é o Pai de Cristo; mas Cristo, eles o chamam este sol. Se, portanto, segundo eles, o mundo foi feito pelo Maligno, e o sol está no mundo, como é que o Filho do Bom é escravo, contra a vontade, no reino do Mau? Enlameamo-nos ao falar dessas coisas, mas o fazemos para que nenhum dos presentes, por ignorância, caia na lama dos hereges. Sei que manchei a minha própria boca e os ouvidos dos que me escutam; mas é conveniente. Pois é muito melhor ouvir os absurdos imputados a outros do que cair neles por ignorância; muito melhor que você conheça a lama e a odeie do que cair nela sem perceber. Pois o sistema ímpio das heresias é uma estrada com muitos ramais, e, sempre que alguém se desvia do único caminho reto, cai de precipício em precipício.
14. O inventor de toda heresia foi Simão, o Mago27: aquele Simão que, nos Atos dos Apóstolos, pensou comprar com dinheiro a graça do Espírito, que não se vende, e ouviu as palavras: “Não existe porção nem parte para você neste ministério” (At 8.21), e o resto; a respeito de quem também está escrito: “Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Porque, se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco” (1Jo 2.19). Esse homem, depois de ter sido expulso pelos apóstolos, foi a Roma e, tendo conquistado uma certa Helena, uma prostituta28, foi o primeiro que ousou dizer com boca blasfema que era ele mesmo quem aparecera no monte Sinai como o Pai, e depois aparecera entre os judeus, não em carne verdadeira, mas em aparência29, como Cristo Jesus, e depois como o Espírito Santo que Cristo prometeu enviar como o Paráclito30. E enganou de tal modo a cidade de Roma que Cláudio lhe levantou uma estátua e escreveu embaixo, na língua dos romanos, “Simoni Deo Sancto”, que, traduzido, significa “A Simão, o Deus santo31“.
15. Como o engano se espalhava, Pedro e Paulo, nobre par, principais governantes da Igreja, chegaram e corrigiram o erro32; e, quando o suposto deus Simão quis exibir-se, eles logo o mostraram como cadáver. Pois Simão prometeu elevar-se ao céu, e veio montado pelo ar num carro de demônios; mas os servos de Deus caíram de joelhos e, mostrando aquela concórdia de que Jesus falou, quando disse: “se dois de vocês concordarem a respeito de qualquer coisa que vierem a pedir, isso lhes será concedido” (Mt 18.19), lançaram contra o Mago a arma da sua concórdia na oração e o derrubaram por terra. E, por maravilhoso que fosse, não era de admirar. Pois Pedro estava ali, que leva as chaves do céu; e nada de espantoso, pois Paulo estava ali33, que “foi arrebatado até o terceiro céu, e ao paraíso, e ouviu palavras indizíveis, que homem nenhum tem permissão para repetir” (2Co 12.2, 4). Estes fizeram descer o suposto deus do céu à terra, para dali ser levado às regiões debaixo da terra. Neste homem apareceu primeiro a serpente da maldade; mas, quando uma cabeça foi cortada, achou-se de novo a raiz da maldade com muitas cabeças.
16. Pois Cerinto34 “devastou a Igreja” (At 8.3), e também Menandro35 e Carpócrates36, os ebionitas37 e Marcião38, aquele porta-voz da impiedade. Pois quem proclamou deuses diferentes, um o Bom e outro o Justo, contradiz o Filho quando ele diz: “Pai justo” (Jo 17.25). E quem diz, por sua vez, que o Pai é um e o criador do mundo é outro, opõe-se ao Filho quando ele diz: “Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno de fogo” (Lc 12.28); e: “que faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt 5.45). Eis aqui também um segundo inventor de mais males, esse Marcião. Pois, sendo refutado pelos testemunhos do Antigo Testamento citados no Novo, foi o primeiro que ousou cortar esses testemunhos39 e deixar a pregação da palavra da fé sem testemunho, apagando assim o Deus verdadeiro; e procurou minar a fé da Igreja, como se ela não tivesse arautos.
17. Este, por sua vez, teve por sucessor outro, Basílides, de má fama e caráter perigoso, pregador de impurezas40. Ajudou também nessa competição de maldade Valentino41, pregador de trinta deuses. Os gregos falam de poucos; e o homem que se chamava cristão, mas na verdade não o era, estendeu o engano a trinta inteiros. Diz ele ainda que Bythus, o Abismo (pois convinha a ele, sendo um abismo de maldade, começar seu ensino pelo Abismo), gerou o Silêncio, e do Silêncio gerou o Verbo. Esse Bythus foi pior que o Zeus dos gregos, que se uniu à própria irmã, pois se dizia que o Silêncio era filho de Bythus. Você vê o absurdo revestido de aparência de cristianismo? Espere um pouco e você ficará chocado com a impiedade dele; pois afirma que desse Bythus foram gerados oito éons; e destes, dez; e destes, outros doze, machos e fêmeas. Mas de onde vem a prova dessas coisas? Veja a tolice deles pelas suas invenções. De onde você tira a prova dos trinta éons? Porque, diz ele, está escrito que “Jesus foi batizado quando tinha trinta anos” (Lc 3.23). Mas, ainda que tenha sido batizado aos trinta anos, que espécie de demonstração é essa, tirada dos trinta anos? Há então cinco deuses, porque ele partiu cinco pães entre cinco mil? Ou, porque teve doze discípulos, deve haver também doze deuses?
18. E mesmo isso ainda é pouco comparado com as impiedades que se seguem. Pois a última das divindades, sendo, como ele ousa dizer, macho e fêmea ao mesmo tempo, essa, diz ele, é a Sabedoria42. Que impiedade! Pois “a Sabedoria de Deus” (1Co 1.24) é Cristo, seu Filho unigênito; e ele, com sua doutrina, rebaixou a Sabedoria de Deus a um elemento feminino, a um entre trinta, e à última das invenções. Diz também que a Sabedoria tentou contemplar o primeiro Deus e, não suportando o seu esplendor, caiu do céu e foi expulsa do seu trigésimo lugar. Então gemeu, e de seus gemidos gerou o diabo43, e, chorando a sua queda, fez de suas lágrimas o mar. Observe a impiedade. Pois como da Sabedoria se gera o diabo, da prudência a maldade, ou da luz as trevas? Diz ainda que o diabo gerou outros, alguns dos quais criaram o mundo; e que o Cristo desceu para fazer a humanidade se revoltar contra o Criador do mundo.
19. Mas ouça quem eles dizem que Cristo Jesus é, para que você os deteste ainda mais. Pois dizem que, depois que a Sabedoria foi lançada abaixo, para que o número dos trinta não ficasse incompleto, os vinte e nove éons contribuíram cada um com uma pequena parte e formaram o Cristo44; e dizem que ele também é macho e fêmea45. Pode haver algo mais ímpio do que isso? Algo mais miserável? Estou descrevendo a você o engano deles para que você os odeie ainda mais. Fuja, portanto, da impiedade deles, e “nem mesmo dê saudação”46 a um homem desse tipo (2Jo 10-11), para que você não seja “cúmplice nas obras infrutíferas das trevas” (Ef 5.11); nem faça indagações curiosas, nem queira entrar em conversa com eles.
20. Odeie todos os hereges, mas sobretudo aquele que com razão leva nome de mania47, que surgiu não faz muito tempo, no reinado de Probo48. Pois o engano começou há setenta anos completos49, e ainda há homens vivos que o viram com os próprios olhos. Mas não o odeie por isto, por ter vivido há pouco tempo; e sim, por causa de suas doutrinas ímpias, odeie você o obreiro da maldade, o receptáculo de toda imundície, que juntou a lama de todas as heresias50. Pois, aspirando a tornar-se o primeiro entre os maus, tomou as doutrinas de todos e, combinando-as numa só heresia, cheia de blasfêmias e de toda iniquidade, devasta a Igreja, ou antes os que estão fora da Igreja, rondando como leão e devorando. Não dê atenção às belas palavras deles nem à sua suposta humildade: pois são serpentes, “raça de víboras” (Mt 3.7). Judas também disse: “Salve, Mestre!” (Mt 26.49), justamente quando o estava traindo. Não dê atenção aos beijos deles, mas cuidado com o seu veneno.
21. Agora, para que eu não pareça acusá-lo sem motivo, permitam-me uma digressão para contar quem é esse Manes e, em parte, o que ele ensina; pois todo o tempo seria pouco para descrever adequadamente o conjunto do seu ensino imundo. Mas, “para ajuda em momento oportuno” (Hb 4.16), guarde na memória o que eu disse a ouvintes anteriores e vou repetir aos que estão agora presentes, para que os que não sabem aprendam e os que sabem sejam lembrados. Manes não é de origem cristã, Deus nos livre!, nem foi, como Simão, expulso da Igreja, nem ele nem os mestres que vieram antes dele. Pois ele furta a maldade alheia e faz da maldade dos outros a sua própria; mas como e de que maneira, você precisa ouvir.
22. Havia no Egito um certo Scythianus51, sarraceno52 de nascimento, sem nada em comum nem com o judaísmo nem com o cristianismo. Esse homem, que morava em Alexandria e imitava a vida de Aristóteles53, compôs quatro livros54: um chamado Evangelho, que não continha os atos de Cristo, mas apenas o nome; outro chamado livro dos Capítulos; um terceiro, dos Mistérios; e um quarto, que eles fazem circular agora, o Tesouro55. Esse homem teve um discípulo chamado Terebinthus. Mas, quando Scythianus se propôs a vir para a Judeia e devastar a terra, o Senhor o feriu com uma doença mortal e deteve a peste56.
23. Mas Terebinthus, seu discípulo neste erro perverso, herdou-lhe o dinheiro, os livros e a heresia57, e veio para a Palestina; e, tendo sido conhecido e condenado na Judeia58, resolveu passar para a Pérsia; mas, para não ser reconhecido também lá pelo nome, mudou-o e passou a chamar-se Buddas59. Contudo, encontrou adversários também lá, nos sacerdotes de Mitra60; e, refutado na discussão de muitos argumentos e controvérsias, e por fim acuado, refugiou-se na casa de certa viúva. Então, tendo subido ao terraço da casa e invocado os demônios do ar, que os maniqueus até hoje invocam em sua abominável cerimônia do figo61, foi ferido por Deus, lançado do terraço abaixo, e expirou; e assim foi abatida a segunda fera.
24. Os livros, porém, que eram os registros de sua impiedade, ficaram; e tanto eles como o dinheiro a viúva herdou. E, não tendo nem parente nem outro amigo algum, resolveu comprar com o dinheiro um menino chamado Cubricus62; adotou-o e educou-o como filho na ciência dos persas, e assim afiou uma arma maligna contra a humanidade. Desse modo Cubricus, o escravo vil, cresceu no meio de filósofos e, com a morte da viúva, herdou os livros e o dinheiro. Então, para que o nome da escravidão não lhe fosse motivo de vergonha, em vez de Cubricus passou a chamar-se Manes, que na língua dos persas significa discurso63. Pois, como se julgava um tanto hábil na disputa, deu-se o sobrenome de Manes, como quem diz excelente mestre do discurso. Mas, embora tivesse arranjado para si um título honroso segundo a língua dos persas, a providência de Deus fez com que ele se tornasse acusador de si mesmo, ainda que contra a vontade, para que, pensando honrar-se na Pérsia, se proclamasse entre os gregos, pelo próprio nome, um maníaco.
25. Ousou também dizer que era o Paráclito, embora esteja escrito: “Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão” (Mc 3.29). Cometeu, portanto, blasfêmia ao dizer que era o Espírito Santo: veja quem tem comunhão com esses hereges a quem está se associando. O escravo abalou o mundo, já que “por três coisas a terra treme, e a quarta ela não pode suportar: o escravo que se torna rei” (Pv 30.21-22). Tendo aparecido em público, começou então a prometer coisas acima do poder humano. O filho do rei dos persas estava doente, e uma multidão de médicos o assistia; mas Manes prometeu, como se fosse um homem piedoso, curá-lo pela oração. Com a saída dos médicos, saiu também a vida da criança; e a impiedade do homem foi descoberta. Assim o pretenso filósofo ficou preso, lançado na prisão não por repreender o rei em favor da verdade, nem por destruir os ídolos, mas por prometer salvar e mentir, ou antes, se é preciso dizer a verdade, por cometer homicídio. Pois a criança, que poderia ter sido salva pelo tratamento médico, foi assassinada por este homem, que afastou os médicos e a matou por falta de tratamento.
26. Ora, como são muitíssimas as coisas perversas que lhe conto dele, lembre-se primeiro da sua blasfêmia; em segundo lugar, da sua escravidão (não que a escravidão seja uma vergonha, mas era perverso fingir-se nascido livre sendo escravo); em terceiro, da falsidade da sua promessa; em quarto, do assassinato da criança; e em quinto, da vergonha da prisão. E não houve só a vergonha da prisão, mas também a fuga da prisão. Pois aquele que se chamava o Paráclito e campeão da verdade fugiu: não era sucessor de Jesus, que de boa vontade foi para a cruz; este homem era o contrário, um fugitivo. Além disso, o rei dos persas mandou executar os guardas da prisão; assim, Manes foi causa da morte da criança pela sua vã jactância, e da morte dos carcereiros pela sua fuga. Deveria então ser adorado quem tomou parte na culpa de homicídio? Não deveria ele ter seguido o exemplo de Jesus e dito: “Se é a mim que vocês estão procurando, deixem que estes vão embora” (Jo 18.8)? Não deveria ter dito, como Jonas: “Peguem-me e me lancem no mar, pois esta tempestade é por minha causa” (Jn 1.12)?
27. Ele escapa da prisão e vem para a Mesopotâmia; mas ali o bispo Arquelau, escudo da justiça, o enfrenta64; e, tendo-o acusado diante de filósofos como juízes, e tendo reunido uma assistência de gentios, para que, se os cristãos julgassem, não se pensasse que os juízes mostravam parcialidade, Arquelau disse a Manes: “Diga-nos o que você prega.” E ele, cuja “boca era sepulcro aberto” (Sl 5.9), começou primeiro pela blasfêmia contra o Criador de todas as coisas, dizendo: “O Deus do Antigo Testamento é o autor dos males, como ele diz de si mesmo: ‘Eu sou fogo consumidor’ (Dt 4.24).” Mas o sábio Arquelau desmontou seu argumento blasfemo, dizendo: “Se o Deus do Antigo Testamento, como você diz, chama a si mesmo de fogo, de quem é Filho aquele que diz: ‘Eu vim para lançar fogo sobre a terra’ (Lc 12.49)? Se você censura aquele que diz: ‘O Senhor é quem tira a vida e quem a dá’ (1Sm 2.6), por que honra Pedro, que ressuscitou Tabita, mas fulminou Safira? Se, por outro lado, você o censura porque preparou o fogo, por que não censura aquele que diz: ‘Afastem-se de mim para o fogo eterno’ (Mt 25.41)? Se você censura aquele que diz: ‘Eu sou Deus, que faço a paz e crio o mal’ (Is 45.7), explique como Jesus diz: ‘Não vim trazer paz, mas espada’ (Mt 10.34). Já que ambos falam do mesmo modo, uma de duas: ou ambos são bons, por causa da sua concordância; ou, se Jesus é irrepreensível ao falar assim, por que você censura aquele que diz o mesmo no Antigo Testamento?”
28. Então Manes lhe responde: “E que espécie de Deus é esse que causa cegueira? Pois é Paulo quem diz: ‘nos quais o deus deste mundo cegou o entendimento dos descrentes, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho’65 (2Co 4.4).” Mas Arquelau deu boa réplica, dizendo: “Leia um pouco antes: ‘Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que ele está encoberto’ (2Co 4.3). Você vê que é para os que se perdem que está encoberto? Pois não é certo ‘dar aos cães o que é santo’ (Mt 7.6). E mais: será que só o Deus do Antigo Testamento cegou o entendimento dos descrentes? Não disse o próprio Jesus: ‘Por isso lhes falo por meio de parábolas, para que, vendo, não vejam’66 (Mt 13.13)? Foi por odiá-los que ele quis que não vissem? Ou por causa da indignidade deles, visto que ‘fecharam os olhos’ (Mt 13.15)? Pois onde há maldade voluntária, há também retenção da graça; porque ‘ao que tem, mais será dado; mas ao que não tem, até aquilo que julga ter lhe será tirado’ (Mt 25.29; Lc 8.18).
29. “Mas, se alguns acertam em sua interpretação, devemos dizer o seguinte67 (pois não é expressão indigna): se ele de fato cegou os pensamentos dos descrentes, cegou-os com bom propósito, para que olhassem com nova visão para o que é bom. Pois não disse: Cegou a alma deles, mas: ‘os pensamentos dos descrentes’68 (2Co 4.4). E o sentido é mais ou menos este: ‘Cegue os pensamentos lascivos do lascivo, e o homem é salvo; cegue o pensamento ganancioso e rapace do ladrão, e o homem é salvo.’ Mas você não quer entender assim? Então há ainda outra interpretação. O sol também cega os que têm a vista fraca; e os que têm os olhos doentes são feridos pela luz e ficam cegos. Não que a natureza do sol seja cegar, mas a constituição dos olhos é incapaz de ver. Do mesmo modo, os descrentes, sendo doentes no coração, não podem olhar para o resplendor da divindade. Nem disse: ‘Cegou os pensamentos deles para que não ouvissem o evangelho’; mas: ‘para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de nosso Senhor Jesus Cristo’. Pois ouvir o evangelho é permitido a todos; mas a glória do evangelho é reservada somente aos verdadeiros filhos de Cristo. Por isso o Senhor falou por parábolas aos que não podiam ouvir (Mt 13.13); mas aos discípulos explicava as parábolas em particular (Mc 4.34): pois o brilho da glória é para os que foram iluminados, e a cegueira para os descrentes.” Estes mistérios, que a Igreja agora explica a você, que está saindo da classe dos catecúmenos, não é costume explicá-los aos pagãos. Pois a um pagão não explicamos os mistérios a respeito do Pai, do Filho e do Espírito Santo, nem diante de catecúmenos falamos claramente dos mistérios; mas muitas coisas falamos muitas vezes de modo velado, para que os fiéis que sabem entendam, e os que não sabem não sofram dano69.
30. Com esses e muitos outros argumentos a serpente foi derrubada: assim lutou Arquelau com Manes e o lançou por terra. De novo, aquele que tinha fugido da prisão foge também deste lugar; e, tendo escapado do seu adversário, vem a uma aldeia muito pobre, como a serpente no paraíso quando deixou Adão e veio a Eva. Mas o bom pastor Arquelau, cuidando de suas ovelhas, quando soube da fuga dele, imediatamente se apressou com toda a pressa em busca do lobo. E, quando Manes de repente viu o seu adversário, saiu correndo e fugiu; mas foi a sua última fuga. Pois os oficiais do rei da Pérsia procuraram por toda parte e apanharam o fugitivo; e a sentença que ele devia ter recebido na presença de Arquelau é pronunciada contra ele pelos oficiais do rei. Esse Manes, a quem os seus próprios discípulos adoram, é preso e levado diante do rei. O rei censurou-lhe a mentira e a fuga, cobriu de desprezo a sua condição de escravo, vingou o assassinato do filho e condenou-o também pelo assassinato dos carcereiros: manda que seja esfolado à maneira persa. E, enquanto o resto do corpo foi entregue como alimento às feras, a pele, receptáculo da sua mente vil, foi pendurada diante das portas como um saco70. Aquele que se chamava o Paráclito e professava conhecer o futuro não conheceu a sua própria fuga e captura.
31. Esse homem teve três discípulos: Tomé, Baddas e Hermas. Ninguém leia o Evangelho segundo Tomé71: pois é obra, não de um dos doze apóstolos, mas de um dos três discípulos perversos de Manes. Ninguém se associe com os maniqueus, destruidores de almas, que com decocções de palha imitam o semblante triste do jejum, que falam mal do Criador dos alimentos e devoram com avidez os mais finos, que ensinam que o homem que arranca esta ou aquela erva se transforma nela. Pois, se quem corta ervas ou qualquer verdura se transforma nela, em quantas se transformarão os lavradores e a classe dos hortelões72? O hortelão, como vemos, usou a foice contra tantas: em qual delas, então, ele se transforma? Na verdade, as doutrinas deles são ridículas e cheias da sua própria condenação e vergonha! O mesmo homem, sendo pastor de um rebanho, tanto sacrifica uma ovelha como mata um lobo. Em qual, então, ele se transforma? Muitos homens apanham peixes com rede e pássaros com visgo: em quais deles, então, se transformam?
32. Respondam esses filhos da preguiça, os maniqueus, que sem trabalhar comem os frutos dos trabalhadores; que recebem com rosto sorridente os que lhes trazem o alimento e devolvem maldições em vez de bênçãos. Pois, quando uma pessoa simples lhes traz alguma coisa, ele diz: “Fique lá fora um pouco, e eu o abençoarei.” Então, tomando o pão nas mãos (como confessaram os que se arrependeram e os deixaram), o maniqueu diz ao pão: “Não fui eu que te fiz”; e lança maldições contra o Altíssimo, amaldiçoa quem o fez, e assim come o que foi feito73. Se você odeia o alimento, por que olhou com semblante sorridente para quem o trouxe? Se é grato a quem o trouxe, por que profere a sua blasfêmia contra Deus, que o criou e fez? E diz ainda: “Não te semeei: seja semeado quem te semeou! Não te ceifei com a foice: seja ceifado quem te ceifou! Não te assei no fogo: seja assado quem te assou!” Bela retribuição pela bondade!
33. Essas são faltas grandes, mas ainda pequenas em comparação com as demais. O batismo deles não ouso descrever diante de homens e mulheres74. Não ouso dizer o que distribuem aos seus miseráveis comungantes75… Na verdade, poluímos a boca ao falar dessas coisas. São os pagãos mais detestáveis que estes? São os samaritanos mais miseráveis? São os judeus mais ímpios? São os fornicadores mais impuros76? Mas o maniqueu põe essas oferendas no meio do altar, como ele o considera77. E você, ó homem, recebe instrução de tal boca? Ao encontrar esse homem, você ainda o saúda com um beijo? Para não falar da sua outra impiedade, você não foge da contaminação e de homens piores que os devassos, mais detestáveis que qualquer prostituta?
34. Destas coisas a Igreja o adverte e ensina, e toca na lama para que você não fique enlameado; fala das feridas para que você não seja ferido. Mas a você basta apenas conhecê-las: abstenha-se de aprender pela experiência. Deus troveja, e todos nós trememos; e eles blasfemam. Deus relampeja, e todos nós nos curvamos até o chão; e eles têm seus ditos blasfemos sobre os céus78. Essas coisas estão escritas nos livros dos maniqueus. Essas coisas nós mesmos lemos, porque não podíamos acreditar nos que as contavam; sim, por causa da salvação de vocês, investigamos de perto a perdição deles.
35. Mas que o Senhor nos livre de tal engano; e que seja dado a vocês ódio contra a serpente, para que, assim como eles armam ciladas ao calcanhar, vocês lhes pisem a cabeça. Lembrem-se do que digo. Que acordo pode haver entre a nossa condição e a deles? “Que comunhão existe entre a luz e as trevas” (2Co 6.14)? Que tem a majestade da Igreja a ver com a abominação dos maniqueus? Aqui há ordem, aqui há disciplina79, aqui há majestade, aqui há pureza; aqui até “olhar para uma mulher com intenção impura” (Mt 5.28) é condenação. Aqui há o casamento com santidade80, aqui a continência firme, aqui a virgindade honrada como a dos anjos; aqui se toma o alimento com ação de graças, aqui há gratidão ao Criador do mundo. Aqui se adora o Pai de Cristo; aqui se ensinam o temor e o tremor diante daquele que envia a chuva; aqui damos glória àquele que faz o trovão e o relâmpago.
36. Forme o seu aprisco com as ovelhas; fuja dos lobos; não se afaste da Igreja. Odeie também os que em algum tempo foram suspeitos nessas matérias; e, a não ser que com o tempo você perceba o arrependimento deles, não se confie temerariamente entre eles. A verdade da unidade de Deus foi entregue a você: aprenda a distinguir as pastagens da doutrina. Seja um banqueiro aprovado81, “retendo o que é bom, abstendo-se de toda forma de mal” (1Ts 5.21-22). Ou, se em algum tempo você foi como eles, reconheça e odeie o seu engano. Pois há um caminho de salvação, se você rejeitar o vômito, se o detestar do fundo do coração, se se afastar deles, não só com os lábios, mas também com a alma; se adorar o Pai de Cristo, o Deus da Lei e dos Profetas, se reconhecer que o Bom e o Justo são um e o mesmo Deus.82 E que ele guarde a todos vocês, preservando-os de cair ou tropeçar, firmados na fé, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória para todo o sempre. Amém.
1. Peri Theou Monarchias. A palavra monarchia, tal como a usam Platão (Polit. 291 C), Aristóteles (Polit. III. xiv. 11: eidos monarchias basilikes) e Fílon Judeu (de Circumcisione, § 2; de Monarchia, Titul.), significa “governo de um só”. Compare Tertuliano (adv. Praxean. c. iii.): “Se adquiri algum conhecimento de qualquer das duas línguas, estou certo de que Monarchia não tem outro sentido senão o de governo único e individual.” Atanásio (de Decretis Nicænæ Synodi, § 26) preservou parte de uma epístola de Dionísio, bispo de Roma (259-269 d.C.), contra os sabelianos: “Será natural que eu fale agora contra os que dividem, cortam em pedaços e destroem a doutrina mais sagrada da Igreja de Deus, a Monarchia, fazendo dela, por assim dizer, três poderes, hipóstases divididas e três divindades”; e (ibid.): “É doutrina do presunçoso Marcião cortar e dividir a Monarchia em três princípios (archas).” Vemos aqui o sentido que Monarchia havia adquirido na teologia cristã: significava a “unidade de Deus”, como o único princípio e origem de todas as coisas. “Por Monarquia entende-se a doutrina de que a segunda e a terceira Pessoas da sempre bendita Trindade devem ser sempre referidas, em nosso pensamento, à primeira, como a fonte da divindade” (Newman, Athanas. de Decretis Nic. Syn. § 26, nota h). Justino Mártir (Euseb. H.E. IV. 18) e Irineu (ibid. V. 20) escreveram, cada um, um tratado peri Monarchias.
2. Esta frase falta em alguns manuscritos. Diversas formas da doxologia eram adotadas no tempo de Cirilo por diferentes partidos na Igreja. Assim, Teodoreto (Hist. Eccles. II. c. 19) relata que Leôncio, bispo de Antioquia (348-357 d.C.), observando que o clero e a congregação estavam divididos em dois partidos, um usando a forma “e ao Filho, e ao Espírito Santo”, o outro “pelo Filho, no Espírito Santo”, costumava repetir a doxologia em silêncio, de modo que os que estavam perto só podiam ouvir “pelos séculos dos séculos”. A forma tida como a mais ortodoxa, e adotada nas liturgias, era esta: “Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo, agora e sempre, e pelos séculos dos séculos.” Veja o Thesaurus de Suicer, Doxologia.
3. Irineu II. xxviii. 4: “Mas, visto que Deus é todo mente, todo razão, todo Espírito ativo, todo luz, e existe sempre como um só e o mesmo, tais condições e divisões (de operação) não lhe podem ser atribuídas com propriedade. Pois a nossa língua, sendo feita de carne, não é capaz de servir à rapidez do sentido humano, porque este é de natureza espiritual; por essa razão a nossa fala é contida (suffocatur) dentro de nós, e não se exprime de imediato tal como foi concebida na mente, mas é proferida por esforços sucessivos, conforme a língua é capaz de servi-la.”
4. Tertuliano, Apologeticus, § 17: “O que é infinito só é conhecido de si mesmo. É isso que dá alguma noção de Deus, embora esteja além de todas as nossas concepções: a nossa própria incapacidade de apreendê-lo plenamente nos dá a ideia do que ele realmente é. Ele se apresenta à nossa mente em sua grandeza transcendente, ao mesmo tempo conhecido e desconhecido.” Cf. Fílon Judeu, de Monarch. i. 4; Hooker, Eccles. Pol. I. ii. 3: “A quem, embora conhecê-lo seja vida e fazer menção do seu nome seja alegria, o nosso conhecimento mais sólido, porém, é saber que não o conhecemos como ele é, nem podemos conhecê-lo.”
5. A opinião de Aristarco de Samos, tal como Arquimedes a expõe (Arenarius, p. 320, Oxon), era que a esfera das estrelas fixas era tão grande que guardava com a órbita da terra a mesma proporção que uma esfera com o seu centro, ou, mais corretamente (como explica Arquimedes), a mesma proporção que a órbita da terra em torno do sol guarda com a própria terra. Compare Catequese XV, 24.
6. Gr. arithmetai de auto stagones huetou. A Revised Version: “Pois ele atrai para cima as gotas de água.”
7. São palavras do próprio evangelista.
8. O texto beneditino e os textos impressos anteriores leem ho gennetheis [apathos pro ton chronon aionion]; mas as palavras entre colchetes não se acham nos melhores manuscritos. A gramática defeituosa denuncia uma inserção espúria, que também interrompe o sentido. Sobre o significado da expressão ho gennetheis apathos, veja a nota sobre VII, 5: ou pathei pater genomenos.
9. Gr. onta, aei onta.
10. Iren. II. xiii. 3: “Ele é inteiramente igual e semelhante a si mesmo, visto que é todo sentido, todo espírito, todo sensibilidade, todo pensamento, todo razão, todo audição, todo ouvido, todo olho, todo luz e todo fonte de todo bem, como os religiosos e piedosos costumam falar de Deus.”
11. monoeide. Palavra platônica. Fédon, 80 B: to men theio kai athanato kai noeto kai monoeidei kai adialuto kai aei hosautos kata ta auta echonti heauto homoiotaton einai psuchen.
12. Iren. II. xxxv. 3: “Se alguém objetar que na língua hebraica ocorrem expressões diferentes, como Sabaoth, Eloé, Adonai e todos os outros termos semelhantes, procurando provar por eles que há poderes e deuses diferentes, aprenda que todas as expressões desse tipo são títulos e designações de um só e o mesmo Ser.”
13. Veja as passagens de Irineu citadas acima, nas notas ao § 2 e ao § 7.
14. Fílon Judeu (Leg. Alleg. I. 14, p. 52): Theou gar oude ho sumpas kosmos axion an eie chorion kai endiaitema, epei autos heauto topos. Assim também Sir Isaac Newton, no fim dos Principia, afirma que Deus, por sua existência eterna e infinita, constitui o tempo e o espaço: “Non est duratio vel spatium, sed durat et adest, et existendo semper et ubique spatium et durationem constituit.”
15. O nome sagrado (YHWH) não era pronunciado; em seu lugar dizia-se Adonai.
16. A Revised Version diz: “Podes tu, investigando, achar Deus? Podes achar o Todo-Poderoso até a perfeição?” Cirilo parece ter entendido ta eschata como “as menores coisas”, e não como “os extremos”.
17. O gato era consagrado à deusa Pasht, chamada pelos gregos Bubástis, e identificada por Heródoto (ii. 137) com Ártemis ou Diana. Os gatos eram embalsamados depois de mortos, e as suas múmias encontram-se em vários lugares, mas especialmente em Bubástis (Herod. ii. 67). “Os cães são sepultados nas cidades a que pertencem, em cemitérios sagrados” (Herod. ii. 67), mas principalmente em Cinópolis (“cidade dos cães”), onde se adorava a divindade de cabeça de cão, Anúbis. Múmias de lobos encontram-se em câmaras escavadas nas rochas em Licópolis, onde Osíris era adorado sob o símbolo de um lobo.
18. O leão era tido como sagrado em Leontópolis (Estrabão, xvii, p. 812).
19. “Nas vizinhanças de Tebas há serpentes sagradas, inteiramente inofensivas ao homem. Eles as sepultam no templo de Zeus, o deus a quem são consagradas” (Herod. ii. 74). Em Epidauro, na Argólida, a serpente era tida como sagrada, como símbolo de Esculápio. Clemente de Alexandria (Exhort. c. ii.) dá uma lista mais completa de animais adorados por diversas nações. Compare também Clement. Recogn. V. 20.
20. Juvenal, Sat. xv. 7: Illic aeluros, hic piscem fluminis, illic Oppida tota canem venerantur, nemo Dianam. Porrum et caepe nefas violare et frangere morsu.
21. Os credos antigos das Igrejas orientais, como o que Eusébio de Cesareia propôs em Niceia, declaram expressamente a unidade de Deus, em oposição tanto ao politeísmo pagão quanto às diversas heresias que introduziam dois ou mais deuses. Veja abaixo, nesta catequese, §§ 12-18; e compare Atan. (contra Gentes, § 6 ss.).
22. Clemente de Alexandria (Exhort. cap. ii. § 37) cita uma passagem de um hino de Calímaco que supõe a morte de Zeus: “Pois até o teu túmulo, ó rei, os cretenses fabricaram.” Dizia-se que Adônis, ou “Tamuz, ferido a cada ano”, vivia e morria em anos alternados.
23. Com a palavra “quedas” (apoptoseis), Cirilo evidentemente se refere à história de Hefesto, ou Vulcano, a que Milton alude (Paraíso Perdido, I. 740): “Os homens o chamavam Mulciber, e fabularam como caiu do céu, lançado pelo irado Jove por sobre as ameias de cristal: da manhã ao meio-dia caiu, do meio-dia à tarde orvalhada, um dia de verão.”
24. As “fulminações” referem-se a “Titã, o primogênito do céu, com sua enorme prole” (Par. Perdido, I. 510). Cf. Virgílio, En. vi. 580: Hic genus antiquum Terræ, Titania pubes, Fulmine dejecti fundo volvuntur in imo. Ibid. v. 585: Vidi et crudeles dantem Salmonea poenas, Dum flammas Jovis et sonitus imitatur Olympi. Clem. Alex. (Exhort. II. § 37): “Esculápio jaz fulminado pelo raio nas regiões de Cinosura.” Cf. Virg. En. vii. 770 ss.
25. A teoria de dois deuses, um bom e outro mau, era sustentada por Cerdão e Marcião (Hipólito, Refut. omnium Hær. VII. cap. 17; Irineu, III. xxv. 3, citado na nota sobre a Catequese IV, 4). Os maniqueus também sustentavam que o Criador do mundo era distinto do Deus supremo (Alexandre de Licópolis, de Manichæorum Sententiis, cap. iii.).
26. A descrição de Cirilo aplica-se especialmente à heresia de Manes. Veja a nota ao § 36, no fim desta catequese; também Catequese XI, 21, e Catequese XV, 3.
27. Assim Irineu (I. xxiii. 2) diz que “deste Simão de Samaria se originam todas as espécies de heresias”.
28. Irineu (I. xxiii. 2): “Tendo comprado em Tiro, cidade da Fenícia, uma certa prostituta chamada Helena, levava-a consigo por toda parte, declarando que essa mulher era a primeira concepção da sua mente, a mãe de todos, por meio de quem, no princípio, ele concebeu em sua mente a criação dos anjos e arcanjos.”
29. Cf. Epifânio (Hæres. p. 55, B): “Dizia que era o Filho e que não tinha sofrido de verdade, mas só em aparência (dokesei).”
30. Irineu (I. xxiii. 1): “Ensinava que era ele mesmo quem aparecera entre os judeus como o Filho, e descera em Samaria como o Pai, mas viera às outras nações como o Espírito Santo.” Cirilo afasta-se aqui da sua fonte ao pôr o monte Sinai em lugar de Samaria, e com isso cai em erro. Simão aparecera primeiro em Samaria, sendo natural de Gitom; além disso, ao pretender ser o Pai, queria colocar-se muito acima da divindade inferior que dera a lei no Sinai, dizendo que era “o mais alto de todos os poderes, isto é, o Pai que está acima de todos”.
31. “Justino Mártir, em sua primeira Apologia, dirigida a Antonino Pio, escreve assim (c. 26): ‘Houve um certo Simão, samaritano, da aldeia chamada Gitom, que, no reinado de Cláudio César, e na vossa cidade real de Roma, realizou grandes prodígios de magia pela arte dos demônios que operavam nele. Foi considerado um deus, e como deus foi honrado entre vós com uma estátua, a qual foi erguida no rio Tibre, entre as duas pontes, e traz esta inscrição em latim: Simoni Deo Sancto, isto é, A Simão, o Deus santo.’ A substância dessa história é repetida por Irineu (adv. Hær. I. xxiii. 1) e por Tertuliano (Apol. c. 13), que censura os romanos por instalarem Simão, o Mago, no seu panteão, dando-lhe uma estátua e o título de ‘Deus santo’. Em 1574 d.C., uma pedra que havia formado a base de uma estátua foi desenterrada no local descrito por Justino, a ilha do Tibre, com a inscrição ‘Semoni Sanco Deo Fidio Sacrum’ etc. Daí se supôs que Justino tomou uma estátua do deus sabino ‘Semo Sancus’ por uma de Simão, o Mago. Veja as notas no Justino Mártir de Otto e no Irineu de Stieren. Por outro lado, Tillemont (Mémoires, t. ii, p. 482) sustenta que não se pode razoavelmente supor que Justino, numa Apologia dirigida ao imperador e escrita na própria Roma, tenha caído em erro tão manifesto. Qualquer que seja a opinião que tenhamos sobre a exatidão de Justino quanto à inscrição e à estátua, nada há de improvável na sua afirmação de que Simão, o Mago, esteve em Roma no reinado de Cláudio.” (Extraído, com permissão, do Speaker’s Commentary, Introdução à Epístola aos Romanos, p. 4.)
32. “Justino não diz uma só palavra sobre a suposta visita de São Pedro a Roma e seu encontro com Simão, o Mago.” Mas “Eusébio, em sua História Eclesiástica (c. 325 d.C.), cita a história de Justino Mártir sobre Simão, o Mago (H.E. ii. c. 13), e depois, sem se referir a autoridade alguma, passa a afirmar (c. 14) que, ‘imediatamente, no mesmo reinado de Cláudio, a divina Providência conduziu Pedro, o grande apóstolo, a Roma, para enfrentar esse grande destruidor da vida’, e que assim ele ‘levou a luz do evangelho do Oriente ao Ocidente’ (ibidem). Eusébio provavelmente tomou essa história das estranhas ficções das Recognições e Homilias clementinas e das Constituições Apostólicas.” Veja Recogn. III. 63-65; Hom. I. 15, III. 58; Constit. Apost. VI. 7, 8, 9. O relato de Cirilo sobre a morte de Simão é tirado das mesmas fontes pouco dignas de confiança.
33. É certo que São Paulo não estava em Roma nessa época. Essa história de Simão, o Mago, e do seu “carro de fogo” é contada, com variações, por Arnóbio (adv. Gentes, II. 12) e nas Constit. Apost. VI. 9.
34. Cerinto ensinava que o mundo não foi feito pelo Deus supremo, mas por um Poder separado que o ignorava. Veja Irineu, Hær. I. xxvi.; Euseb. H.E. iii. 28.
35. Menandro é mencionado pela primeira vez por Justino Mártir (Apolog. I. cap. 26): “Menandro, também samaritano, da cidade de Caparateia, discípulo de Simão e inspirado por demônios, sabemos que enganou a muitos, enquanto esteve em Antioquia, com a sua arte mágica. Persuadiu os que a ele aderiam de que nunca morreriam.” Irineu (I. xxiii. 5) acrescenta que Menandro se anunciava como o Salvador enviado pelos Invisíveis, e ensinava que o mundo foi criado por anjos. Veja também Tertuliano (de Animâ, cap. 50).
36. Carpócrates, filósofo platônico que ensinou em Alexandria (cerca de 125 d.C.), sustentava que o mundo e todas as coisas que nele há foram feitos por anjos muito inferiores ao Pai não gerado (desconhecido) (Iren. I. xxv. 1; Tertuliano, Adv. Hær. cap. 3).
37. Irineu, I. 26: “Os que são chamados ebionitas concordam que o mundo foi feito por Deus; mas as suas opiniões a respeito do Senhor são semelhantes às de Cerinto e Carpócrates.”
38. Sobre Marcião, veja a nota sobre a Catequese IV, 4.
39. Marcião aceitava apenas o Evangelho de São Lucas, e ainda o mutilou (Tertuliano, Adv. Marcion. iv. 2). Livrou-se assim do testemunho dos apóstolos e testemunhas oculares, Mateus e João, e apresentou a Lei e o evangelho como revelações contraditórias de dois deuses diferentes. Por isso Cirilo o chama “um segundo inventor de males”, sendo Simão, o Mago (§ 14), o primeiro.
40. Basílides foi anterior a Marcião, fundador de uma seita gnóstica em Alexandria no reinado de Adriano (117-138 d.C.). Suas doutrinas são descritas por Irineu (I. xxvii. 3-7) e, muito extensamente, por Hipólito (Refut. omn. Hær. VII. 2-15). A acusação de ensinar a libertinagem recai antes sobre os seguidores posteriores de Basílides do que sobre ele mesmo ou seu filho Isidoro (Clem. Alex. Stromat. III. cap. 1). Basílides escreveu um Comentário sobre o Evangelho em 24 livros (Exegetica), do qual o 23º é citado por Clemente de Alexandria (Stromat. IV. cap. 12), e contra o qual Agripa Castor escreveu uma refutação. Orígenes (Hom. I. in Lucam.) diz que Basílides escreveu um Evangelho com o próprio nome. Veja Routh, Rell. Sacr. I. p. 85; V. p. 106; Westcott, History of Canon of N.T. iv. § 3.
41. “As doutrinas de Valentino são descritas extensamente por Irineu (I. cap. i.), de quem S. Cirilo toma este relato. Valentino, Basílides, Bardesanes, Harmônio e os de seu grupo admitem a concepção e o nascimento de Cristo da Virgem, mas dizem que Deus, o Verbo, nada recebeu da Virgem, mas fez uma espécie de passagem através dela, como por um tubo, e se serviu de um fantasma ao aparecer aos homens.” (Teodoreto, Epist. 145.)
42. Irineu I. ii. 2.
43. Irineu, l. c., e Hipólito, que dá um relato minucioso das doutrinas de Valentino (L. VI. capp. xvi.-xxxii.), ambos apresentam Sofia, a “Sabedoria”, dando à luz não Satanás, mas um aborto informe, que foi a origem da matéria. Segundo Irineu (I. iv. 2), Achamoth, a enthymesis de Sofia, deu à luz o Demiurgo, e “de suas lágrimas se formou tudo o que é de natureza líquida”. No tratado de Tertuliano Contra os valentinianos, cap. xxii, diz-se, como em Cirilo, que Achamoth deu à luz Satanás; mas no cap. xxiii Satanás parece ser identificado (ou trocado) com o Demiurgo.
44. O relato de Irineu (I. ii. 6) é um tanto diferente: “Todo o Pleroma dos éons, com um só propósito e desejo, com a concorrência do Cristo e do Espírito Santo, e com o Pai deles também pondo o selo de sua aprovação na conduta deles, reuniu o que cada um tinha em si de maior beleza e preciosidade; e, unindo todas essas contribuições de modo a fundir habilmente o conjunto, produziram, para honra e glória de Bythus, um ser de belíssima perfeição, a própria estrela do Pleroma e seu fruto perfeito, a saber, Jesus.” Tertuliano, Contra os valentinianos, cap. 12, faz uma descrição sarcástica dessa estranha doutrina, tirando seus dados (cap. 5) de Justino, Milcíades, “Irineu, esse investigador tão exato de todas as doutrinas”, e Próculo.
45. Esta afirmação não concorda com Irineu (I. vii. 1), que diz que os valentinianos apresentavam o Salvador, isto é, Jesus, como tornando-se o noivo de Achamoth ou Sofia.
46. Na versão inglesa Autorizada (A.V.): “Neither bid him God speed”; na Revisada (R.V.): “give him no greeting”.
47. Eusébio, em sua breve notícia sobre a heresia maniqueia (Hist. Eccles. vii. 31), faz, como S. Cirilo, um jogo com o nome Manes, por ser bem apropriado a um louco.
48. Marco Aurélio Probo, imperador de 276 a 282 d.C., de obscuro soldado ilírio chegou a ser universalmente considerado o melhor e mais nobre dos imperadores romanos.
49. Routh (R.S. V. p. 12) chega à conclusão de que a famosa disputa entre Manes e Arquelau ocorreu entre julho e dezembro de 277 d.C. Por conseguinte, estas catequeses, sendo “setenta anos completos” posteriores, não podem ter sido pregadas antes da primavera de 348 d.C.
50. Leão Magno (Serm. xv. cap. 4) fala da loucura dos maniqueus posteriores como abrangendo todos os erros e impiedades: “toda a profanidade do paganismo, toda a cegueira dos judeus carnais, os segredos ilícitos da arte mágica, o sacrilégio e a blasfêmia de todas as heresias confluíram naquela seita como numa espécie de fossa de toda imundície”. Leão convocou os que eles chamavam de “eleitos”, homens e mulheres, perante uma assembleia de bispos e presbíteros, e obteve dessas testemunhas um relato completo das práticas execráveis da seita, na qual, como ele declara, “a sua lei é a mentira, a sua religião o diabo, o seu sacrifício a obscenidade”.
51. Cirilo tira seu relato sobre Manes dos “Acta Archelai et Manetis Disputationis”, dos quais Routh editou a tradução latina juntamente com os fragmentos do grego conservados por Cirilo nesta catequese e por Epifânio. Há uma tradução inglesa do todo na “Ante-Nicene Christian Library” de Clark.
52. Os sarracenos são mencionados tanto por Plínio como por Ptolomeu. Veja Dict. of Greek and Roman Geography.
53. Não há menção de Aristóteles nos Acta Archelai, mas afirma-se ali (cap. li.) que Scythianus fundou a seita no tempo dos apóstolos, que tirou sua dualidade de deuses de Pitágoras e que aprendeu a sabedoria dos egípcios.
54. Arquelau afirma (Acta, cap. lii.) que estes quatro livros foram escritos para Manes por seu discípulo Terebinthus.
55. Em alusão a este nome, a história da Disputa é chamada (Acta, cap. i.) “O verdadeiro Tesouro”.
56. A leitura verdadeira desta frase, proairoumenon ton Skuthianon, em lugar de ton proeiremenon Sk., foi restaurada por Cleopas a partir do manuscrito da biblioteca arquiepiscopal de Jerusalém. Esta leitura concorda com o que dizem os Acta Archel., cap. li.: “Scythianus pensou em fazer uma viagem à Judeia, com o propósito de encontrar todos os que ali tinham fama de mestres; mas aconteceu que partiu de repente desta vida, sem ter podido fazer progresso algum.”
57. Esta afirmação concorda com a leitura do manuscrito vaticano dos Acta Archelai: “omnibus quæcunque ejus fuerunt congregratis”.
58. Nos Acta não há menção da Palestina, mas apenas de que ele “partiu para a Babilônia, província que agora é dominada pelos persas”.
59. Clem. Alex. (Strom. i. 15): “Também alguns dos indianos obedecem aos preceitos de Boutta e o honram como um deus por sua extraordinária santidade.”
60. Cf. Acta Arch. cap. lii.: “Um certo Parcus, porém, profeta, e Labdacus, filho de Mitra, acusaram-no de falsidade.” Sobre os nomes Parcus e Labdacus, veja Dict. Chr. Biogr., “Barcabbas”; e sobre o culto mágico do deus-sol Mitra, veja Rawlinson (Herodot. Vol. I. p. 426).
61. Veja abaixo, § 33.
62. Cf. Acta Arch. cap. liii.: “Um menino de cerca de sete anos, chamado Corbicius.”
63. Veja um relato diferente em Dict. Chr. Biogr., “Manes”.
64. O relato da discussão neste e nos dois capítulos seguintes não se encontra hoje na versão latina da “Disputa”, mas o Dr. Routh considera que Cirilo o tirou de alguns exemplares diferentes do grego. O último trecho do § 29, “Estes mistérios etc.”, é evidentemente uma advertência dirigida aos ouvintes pelo próprio Cirilo (Routh, Rell. Sac. V. 199).
65. noemata, “pensamentos”.
66. Tanto a A.V. como a R.V. seguem a leitura melhor: “porque, vendo, não veem etc.”
67. Em lugar da leitura da edição beneditina e das anteriores, ei de dei kai hos tines exegountai touto eipein, os manuscritos Roe e Casaubon juntam dei kai os numa só palavra, dikaios, que provavelmente é a leitura certa. Ainda falta, porém, algo para completar a construção, e Pedro Sículo (c. 870 d.C.), que cita a passagem em sua História dos maniqueus, conjectura ousadamente esti kai houtos eipein. Uma emenda mais simples seria ei de dikaios tines exegountai, dei touto eipein, que completa a construção e explica a leitura dei kai hos.
68. noemata.
69. Veja a nota no fim da Procatequese.
70. Disput. § 55. Compare o relato sobre Manes em Sócrates, Eccles. Hist. I. 22.
71. O Evangelho de Tomé, relato da infância de Jesus, existe em três formas, duas em grego e uma em latim; todas estão traduzidas na Ante-Nicene Library de Clark. Cirilo atribui erradamente a obra a um discípulo de Manes, pois ela é mencionada muito antes por Hipólito (Refutação de todas as heresias, V. 2) e por Orígenes (Hom. I. in Lucam): “Existe também o Evangelho segundo Tomé.”
72. Na Disputa, § 9, Turbo descreve essas transformações: “Os ceifeiros têm de ser transformados em feno, ou feijão, ou cevada, ou trigo, ou verduras, para serem ceifados e cortados. E ainda, se alguém come pão, tem de se tornar pão e ser comido. Se alguém mata um frango, ele mesmo será frango. Se alguém mata um rato, também ele será rato.”
73. Veja a confissão de Turbo, Disput. § 9: “E, quando vão comer pão, primeiro oram, falando assim ao pão: ‘Eu não te ceifei, nem te moí, nem te amassei, nem te lancei no forno; mas outro fez essas coisas e te trouxe a mim, e não tenho culpa de te comer.’ E, depois de dizer isso consigo mesmo, diz ao catecúmeno: ‘Orei por você’, e assim vai embora.”
74. Sobre os ritos de batismo e de Eucaristia usados pelos maniqueus, veja Dict. Chr. Biogr., “Manicheans”.
75. O original diz: Ou tolmo eipein, tini embaptontes ten ischada, didoasi tois athliois. dia sussemon de monon deloustho. andres gar ta en tois enupniasmois enthumeisthosin, kai gunaikes ta en aphedrois. Miainomen alethas to stoma k.t.l.
76. O men gar porneusas, pros mian horan d epithumian telei ten praxin; kataginoskon de tes praxeos hos miantheis oide loutrou epideomenos, kai ginoskei tes praxeos to musaron. O de Manichaios thusiasteriou meson, hou nomizei, tithesi tauta, kai miainei kai to stoma kai ten glottan. para toioutou stomatos, anthrope k.t.l.
77. hou nomizei. Os maniqueus se gabavam de ser superiores aos pagãos por não adorarem a Deus com altares, templos, imagens, vítimas ou incenso (Agostinho, Contra Faustum XX. cap. 15). Contudo usavam esses nomes, como afirma Agostinho (l. c. cap. 18): “Ainda assim, eu gostaria que vocês me dissessem por que chamam por estes nomes, templo, altar, sacrifício, todas aquelas coisas que aprovam no caso de vocês.”
78. Kakeinoi peri ouranon tas dusphemous echousi glossas. ‘Iesous legei peri tou patros autou, Ostis ton helion autou anatellei epi dikaious kai adikous, kai brechei epi ponerous kai agathous. kakeinoi legousin, hoti hoi huetoi ex erotikes manias ginontai, kai tolmosi legein, hoti esti tis parthenos en ourano eueides meta neaniskou eueidous, kai kata ten ton kamelon e lukon kairon, tous tes aischras epithumias kairous echein, kai kata ten tou cheimonos kairon, maniodos auton epitrechein te partheno, kai ten men pheugein phasi, ton de epitrechein, eita epitrechonta hidroun, apo de ton hidroton autou einai ton hueton. Tauta gegraptai en tois ton Manichaion bibliois; tauta hemeis anegnomen, k.t.l.
79. Gr. episteme. Veja a nota à Procatequese, § 4.
80. semnotatos é a leitura dos principais manuscritos. Mas as edições impressas têm semnotetos, comparando-a com expressões como stoma atheotetos (VI, 15) e metanoia tes soterias (XIV, 17).
81. Este dito é citado três vezes nas Homilias clementinas como palavra de nosso Senhor. Veja Hom. II. § 51; III. § 50; XVIII. § 20: “Todo homem que deseja ser salvo deve tornar-se, como disse o Mestre, juiz dos livros escritos para nos provar. Pois assim ele falou: Tornem-se banqueiros experientes. Ora, a necessidade de banqueiros nasce da circunstância de que o falso está misturado com o genuíno.” Sobre o mesmo dito, citado como Escritura nas Constituições apostólicas (II. § 36), Cotelerius sugere que, na tradição oral ou em algum livro apócrifo, o provérbio era dado como vindo do Antigo Testamento, e que foi acrescentado por algum copista como glosa à margem de Mt 25.27 ou Lc 19.23. Dionísio de Alexandria, Epist. VII, fala da “palavra apostólica, que assim exorta todos os que são dotados de maior virtude: ‘Sejam cambistas hábeis'”, referindo-se aparentemente, como aqui, a 1Ts 5.21-22, “examinem todas as coisas etc.” (Veja Euseb. E.H. VII. cap. 6; Suicer, Thesaurus, Trapezites; e Resch, Agrapha, pp. 233-239.)
82. Compare o § 13 desta catequese, onde Cirilo parece referir-se especialmente à heresia de Manes tal como descrita na Disputatio Archelai, cap. 6: “Se você deseja ser instruído na fé de Manes, ouça-a de mim em poucas palavras. Esse homem adora dois deuses, não gerados, existentes por si mesmos, eternos, opostos um ao outro. A um apresenta como bom e ao outro como mau, chamando um de Luz e o outro de Trevas.”
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.