Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese VIII
Deus governa todas as coisas, e nada, nem mesmo o diabo, escapa ao seu poder.
Jeremias 32.18-19 (Septuaginta)
O grande, o forte Deus, Senhor de grande conselho e poderoso em suas obras, o grande Deus, o Senhor todo-poderoso, de grande nome1.
1. Crendo Em um só Deus, cortamos toda falsa crença em muitos deuses, usando isso como escudo contra os gregos e contra todo poder adversário dos hereges; e, acrescentando Em um só Deus Pai, combatemos os da circuncisão, que negam o Filho unigênito de Deus. Pois, como se disse ontem, antes mesmo de explicar as verdades a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, deixamos claro desde logo, ao dizer “o Pai”, que ele é Pai de um Filho; para que, assim como entendemos que Deus existe, entendamos também que ele tem um Filho. Mas a esses títulos acrescentamos que ele é também “Todo-Poderoso”; e isso afirmamos por causa dos gregos e dos judeus2 ao mesmo tempo, e de todos os hereges.
2. Pois, dos gregos, alguns disseram que Deus é a alma do mundo3; e outros, que o seu poder alcança só o céu, e não também a terra. Alguns ainda, participando do erro deles e abusando do texto que diz: “E a tua verdade até as nuvens4” (Sl 36.5), ousaram circunscrever a providência de Deus às nuvens e ao céu, e alienar de Deus as coisas da terra, esquecendo-se do salmo que diz: “Se subo aos céus, lá estás; se desço ao inferno, estás presente” (Sl 139.8). Pois, se não há nada mais alto que o céu, e se o inferno é mais profundo que a terra, aquele que governa as regiões inferiores alcança também a terra.
3. Mas os hereges, por sua vez, como já disse antes, não conhecem um só Deus todo-poderoso. Pois todo-poderoso é aquele que governa todas as coisas, que tem poder sobre todas as coisas. Mas os que dizem que um deus é senhor da alma e outro do corpo não fazem perfeito nenhum dos dois, porque falta a cada um o que tem o outro5. Pois como é todo-poderoso aquele que tem poder sobre a alma, mas não sobre o corpo? E como é todo-poderoso aquele que tem domínio sobre os corpos, mas nenhum poder sobre os espíritos? Mas a esses o Senhor refuta, dizendo, ao contrário: “Temam antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt 10.28). Pois, se o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo não tem poder sobre ambos, como submete ambos ao castigo? Pois como poderá tomar o corpo, que é de outro, e lançá-lo no inferno, se primeiro não “amarrar o valente e saquear os seus bens” (Mt 12.29)?
4. Mas a divina Escritura e as doutrinas da verdade conhecem um só Deus, que governa todas as coisas pelo seu poder, mas suporta muitas coisas por sua vontade. Pois ele governa até os idólatras, mas os suporta por sua paciência; governa também os hereges que o desprezam, mas os tolera por causa da sua longanimidade; governa até o diabo, mas o tolera por sua longanimidade, não por falta de poder, como se tivesse sido vencido. Pois “ele é o princípio da criação do Senhor, feito para ser escarnecido”6 (Jó 40.19), não por ele mesmo, pois isso seria indigno dele, mas “pelos anjos” que ele fez. Mas permitiu que vivesse, com dois propósitos: para que se cobrisse de mais vergonha na sua derrota e para que a humanidade fosse coroada com a vitória. Ó providência sapientíssima de Deus, que toma o propósito perverso como fundamento de salvação para os fiéis! Pois, assim como tomou o propósito nada fraterno dos irmãos de José como fundamento do seu próprio plano e, permitindo-lhes vender o irmão por ódio, aproveitou a ocasião para fazer rei aquele a quem queria, assim também permitiu que o diabo lutasse, para que os vencedores fossem coroados; e para que, alcançada a vitória, ele ficasse ainda mais envergonhado, por ter sido vencido pelos mais fracos, e os homens fossem grandemente honrados, por terem vencido aquele que um dia foi arcanjo.
5. Nada, portanto, está subtraído ao poder de Deus, pois a Escritura diz dele: “porque todas as coisas estão ao teu dispor” (Sl 119.91). Todas as coisas, igualmente, estão a seu serviço; mas de todas elas se excetuam um, o seu Filho unigênito, e um, o seu Espírito Santo; e todas as coisas que estão a seu serviço servem ao Senhor por meio do único Filho e no Espírito Santo. Deus, então, governa tudo e, por sua longanimidade, suporta até assassinos, ladrões e devassos, tendo fixado um tempo determinado para retribuir a cada um, de modo que, se os que receberam longa advertência continuarem de coração impenitente, recebam condenação maior. Há reis dos homens, que reinam na terra, mas não sem o poder do alto; e isso Nabucodonosor um dia aprendeu por experiência, quando disse: “Pois o seu reino é um reino eterno, e o seu poder, de geração em geração” (Dn 4.34).
6. As riquezas, o ouro e a prata não são do diabo, como alguns pensam7; pois “o mundo inteiro de riquezas é do homem fiel, mas do infiel nem sequer um óbolo”8 (Pv 17.6). Ora, nada é mais infiel que o diabo; e Deus diz claramente pelo profeta: “Meu é o ouro, minha é a prata, e a quem eu quiser eu os dou”9 (Ag 2.8). Use-os você bem, e não há culpa nenhuma no dinheiro; mas, sempre que você fizer mau uso daquilo que é bom, então, não querendo culpar a sua própria administração, você lança impiamente a culpa sobre o Criador. Alguém pode até ser justificado pelo dinheiro: “Tive fome, e vocês me deram de comer”; isso certamente veio do dinheiro. “Estava nu, e vocês me vestiram” (Mt 25.35-36); isso certamente foi pelo dinheiro. E quer você aprender que o dinheiro pode tornar-se porta do Reino dos céus? “Venda”, diz ele, “os seus bens, dê aos pobres, e você terá um tesouro nos céus” (Mt 19.21).
7. Fiz essas observações por causa dos hereges que consideram malditos as posses, o dinheiro e os corpos dos homens10. Pois não quero que você seja escravo do dinheiro, nem que trate como inimigas as coisas que Deus lhe deu para uso. Nunca diga, então, que as riquezas são do diabo; pois, embora ele diga: “Tudo isso lhe darei, porque isso me foi entregue” (Mt 4.9; Lc 4.6), pode-se até rejeitar a afirmação dele, pois não precisamos crer no mentiroso. E, no entanto, talvez ele tenha dito a verdade, forçado pelo poder da presença de Cristo; pois não disse: “Tudo isso lhe darei”, porque é meu, mas: “porque isso me foi entregue”. Não se apoderou do domínio sobre essas coisas, mas confessou que lhe tinham sido confiadas11 e que as administrava por um tempo. Mas, no momento próprio, os intérpretes deverão investigar se a afirmação dele é falsa ou verdadeira12.
8. Deus, então, é um só, o Pai, o Todo-Poderoso, a quem a raça dos hereges ousou blasfemar. Sim, ousaram blasfemar o Senhor dos Exércitos13, “que está entronizado acima dos querubins” (Sl 80.1); ousaram blasfemar o Senhor Adonai14; ousaram blasfemar aquele que nos Profetas é o Deus todo-poderoso15. Mas você, adore um só Deus, o Todo-Poderoso, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Fuja do erro dos muitos deuses, fuja também de toda heresia, e diga como Jó: “Mas eu invocarei o Senhor todo-poderoso, que faz coisas grandes e insondáveis, coisas gloriosas e maravilhosas, sem número”16 (Jó 5.8-9); e: “Por todas essas coisas há honra da parte do Todo-Poderoso”17 (Jó 37.23). A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.
1. O texto é traduzido da Septuaginta, na qual são Cirilo encontrou o título Todo-Poderoso (Pantokrator), um dos equivalentes habituais na Septuaginta para Senhor dos Exércitos (Sabaoth). Nas versões inglesas, a Autorizada e a Revisada, a passagem é assim, Jr 32.18-19: “O grande, o poderoso Deus, o SENHOR dos Exércitos é o seu nome, grande em conselho e poderoso em obras”.
2. “Pois também a nação judaica tinha heresias perversas; pois dela eram… os fariseus, que atribuem a conduta dos pecadores à fortuna e ao destino; e os basmoteus, que negam a providência e dizem que o mundo foi feito por movimento espontâneo” (Constituições Apostólicas, VI, 6). Compare Eusébio (História Eclesiástica, IV, 22).
3. Cícero, De natura deorum, livro I, 27: “Pitágoras pensava que Deus era a alma que penetra toda a natureza.” A doutrina foi aceita tanto por estoicos como por platônicos e tornou-se muito comum. Compare Virgílio, Geórgicas, IV, 221: Deum namque ire per omnis Terrasque, tractusque maris, caelumque profundum; e Eneida, VI, 726: Spiritus intus alit, totamque infusa per artus Mens agitat molem, et magno se corpore miscet.
4. Cirilo parece ter tomado esta afirmação de Clemente de Alexandria, que diz (Stromata, V, XIV, § 91) que foi deste salmo que ocorreu a Aristóteles a ideia de fazer a Providência descer só até a Lua.
5. Veja a nota à Catequese IV, 4.
6. tout’ estin arche plasmatos Kuriou, pepoiemenon enkatapaizesthai hupo ton angelon autou. Nesta descrição do beemote, a Septuaginta difere muito do hebraico, que nas nossas versões inglesas se traduz assim, 40.19: “Ele é a primeira das obras de Deus; aquele que o fez (só ele, na Versão Revisada) pode chegar-lhe a espada”. Compare Jó 41.5: “Brincarás com ele como com um pássaro?”; e Sl 104.26: “Ali está o leviatã, que formaste para nele folgar” (Septuaginta: “para te divertires com ele”). Veja Br 3.17, com a nota do Speaker’s Commentary.
7. Sobre esta doutrina dos maniqueus, veja Arquelau (Disputatio, cap. 42), Epifânio (Haereses, LXVI, § 81). Compare Homilias clementinas, XV, cap. 9: “Para todos nós as posses são pecados.” Platão (Leis, V, 743): “Nunca poderei concordar com eles em que o rico será verdadeiramente feliz, se não for também bom; mas que alguém eminentemente bom seja também extremamente rico é impossível.”
8. Segundo a Septuaginta. Veja a nota à Catequese V, 2, onde a mesma passagem é citada. Clemente de Alexandria (Stromata, II, 5) refere-se a ela em conexão com a passagem de Platão citada na nota anterior. Santo Agostinho também a cita e explica na Epístola 153, § 26.
9. A primeira oração é de Ageu 2.8; a segunda, tirada das palavras do tentador em Lucas 4.6, é citada tanto por Cirilo como por outros Pais como se fosse de Ageu. Crisóstomo (Homilia XXXIV, § 5, sobre 1 Coríntios 13) trata como ridículo o uso que alguns faziam dessa citação errada.
10. A ligação de somata com dinheiro e posses sugere o sentido não incomum de “escravos”. Veja Políbio, XVIII, 18, § 6: kai ten endouchian apedonto kai ta somata, kai sun toutois eti tinas ton kteseon, “os móveis da casa e os escravos, e além disso também algumas das suas terras”. Veja o Dictionary of Christian Antiquities, “Slavery”, onde se mostra que os cristãos em geral, e até bispos, ainda possuíam escravos ao longo do século IV. Mas aqui é talvez mais provável que Cirilo se refira, como antes, Catequese IV, 23, à doutrina maniqueia do corpo como raiz do pecado.
11. Em vez de enkecheiresthai, leitura de todas as edições impressas, que dificilmente dá um sentido adequado, devemos provavelmente pôr enkecheiristhai. Confusão semelhante dos dois verbos ocorre em Políbio (Histórias, VIII, XVIII, 6); o uso próprio do segundo se vê em João Damasceno (De fide orthodoxa, II, 4, citado por Cleopas), que fala de Satanás como sendo “destas potências angélicas o chefe da ordem terrestre, e a quem Deus confiou a guarda da terra” (tes ges ten phulaken encheiristheis para Theou).
12. Sobre este ponto, compare Ireneu (Contra as heresias, V, XXI-XXIV) e Gregório de Nissa (Oratio catechetica, § 5).
13. A referência é a Mani, de quem diz o seu discípulo Turbo (Disputa de Arquelau, § 10): “O nome Sabaoth, que entre vocês é honroso e poderoso, ele declara ser a natureza do homem e o pai da concupiscência; por essa razão, diz ele, os simples adoram a concupiscência e pensam que ela é um deus.”
14. Adonai, do hebraico, “o Senhor”, forma antiga do plural de majestade, usada só para Deus.
15. pantokratora, em hebraico El-Shaddai, “Deus Todo-Poderoso”.
16. A citação de Cirilo concorda com o Códice Alexandrino da Septuaginta, que traz pantokratora, “Todo-Poderoso”, ao passo que o Vaticano e outros manuscritos leem ton panton despoten.
17. A Versão Revisada inglesa traz: “Deus tem sobre si terrível majestade”. Os manuscritos Vaticano e Alexandrino da Septuaginta leem epi toutois megale he doxa kai time pantokratoros (“Por estas coisas grande é a glória e a honra do Todo-Poderoso”). Mas o texto de Cirilo é o mesmo da edição aldina e da complutense.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.