Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese IX

Criador do céu e da terra

A criação, do céu às formigas, mostra a sabedoria e o poder do Criador, contra os que desprezam a matéria.

Catequese IX. Sobre as palavras: Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis

Jó 38.2-3
Quem é este que me esconde o seu conselho, que guarda palavras no coração e pensa que as esconde de mim1?

1. Olhar para Deus com olhos de carne é impossível: o incorpóreo não pode estar sujeito à vista corporal. E o próprio Filho unigênito de Deus o testemunhou, dizendo: “Ninguém jamais viu Deus” (Jo 1.18). Pois, ainda que alguém entenda, pelo que está escrito em Ezequiel, que Ezequiel o viu, o que diz a Escritura? Ele viu “a aparência da glória do Senhor” (Ez 1.28); não o próprio Senhor, mas a aparência da sua glória; não a própria glória, tal como ela realmente é. E, quando viu apenas a aparência da glória, e não a própria glória, caiu por terra de medo. Ora, se a visão da aparência da glória trouxe medo e angústia aos profetas, quem tentasse contemplar o próprio Deus com toda a certeza perderia a vida, conforme o que foi dito: “Ninguém verá a minha face e viverá” (Êx 33.20). Por isso Deus, em sua grande bondade, estendeu o céu como um véu da sua própria divindade, para que não perecêssemos. A palavra não é minha, mas do profeta: “Se fenderes os céus, o tremor se apoderará dos montes ao te verem, e eles se derreterão” (Is 64.1)2. E por que você se admira de que Ezequiel tenha caído ao ver a aparência da glória, quando Daniel, ao ver Gabriel, que era apenas um servo de Deus, logo estremeceu e caiu com o rosto em terra e, profeta como era, não ousou responder-lhe, até que o anjo se transformou na semelhança de um filho do homem (Dn 10.9, 16, 18)? Ora, se a aparição de Gabriel fez tremer os profetas, se o próprio Deus tivesse sido visto tal como é, não teriam todos perecido?

2. A natureza divina, portanto, é impossível ver com olhos de carne; mas, a partir das obras, que são divinas, é possível chegar a alguma ideia do seu poder, conforme diz Salomão: “Pois pela grandeza e beleza das criaturas se contempla, por proporção, o seu Criador” (Sb 13.5)3. Ele não disse que pelas criaturas se vê o Criador, mas acrescentou “por proporção”. Pois Deus parece maior a cada pessoa na proporção em que ela abarca uma visão mais ampla das criaturas; e, quando o seu coração se eleva por essa visão mais ampla, ela alcança ao mesmo tempo uma ideia maior de Deus.

3. Você quer saber que compreender a natureza de Deus é impossível? Os três jovens na fornalha de fogo, ao cantarem os louvores de Deus, dizem: “Bendito és tu, que contemplas os abismos e estás sentado sobre os querubins” (Dn 3.55). Diga-me qual é a natureza dos querubins e então olhe para aquele que está sentado sobre eles. E, no entanto, o profeta Ezequiel chegou a fazer uma descrição deles, tanto quanto era possível, dizendo que cada um tem quatro rostos, um de homem, outro de leão, outro de águia e outro de bezerro; que cada um tinha seis asas4 e olhos por todos os lados; e que debaixo de cada um havia uma roda de quatro lados. Contudo, embora o profeta faça a explicação, ainda não conseguimos entendê-la, mesmo lendo-a. Mas, se não podemos entender o trono que ele descreveu, como poderemos compreender aquele que está sentado nele, o Deus invisível e inefável? Perscrutar, pois, a natureza de Deus é impossível; mas está ao nosso alcance fazer subir louvores à sua glória pelas obras que se veem.

4. Digo-lhes estas coisas por causa do que segue no Credo, e porque dizemos: Cremos em um só Deus, o Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis; para que nos lembremos de que o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo é o mesmo que fez o céu e a terra5, e para que nos guardemos dos caminhos errados dos hereges ímpios, que ousaram falar mal do Artífice sapientíssimo de todo este mundo6, homens que veem com olhos de carne, mas têm os olhos do entendimento cegos.

5. Pois que defeito eles têm a apontar na vasta criação de Deus? Eles, que deveriam ter ficado tomados de assombro ao contemplar as abóbadas dos céus; eles, que deveriam ter adorado aquele que ergueu o céu como uma cúpula e que, da natureza fluida das águas, formou a substância estável do céu. Pois Deus disse: “Haja um firmamento no meio das águas” (Gn 1.6). Deus falou uma vez por todas, e o firmamento está firme e não cai. O céu é água, e os astros que nele estão, o sol, a lua e as estrelas, são de fogo: como, então, os astros de fogo percorrem o seu curso na água? Mas, se alguém contesta isso por causa das naturezas opostas do fogo e da água, lembre-se do fogo que, no tempo de Moisés, no Egito, ardia no meio do granizo, e observe a obra sapientíssima de Deus. Pois, como havia necessidade de água, visto que a terra devia ser cultivada, ele fez de água o céu lá no alto, para que, quando a região da terra precisasse ser regada pelas chuvas, o céu, por sua natureza, estivesse pronto para esse fim.

6. Mas o quê? Não há motivo para admiração quando se olha a constituição do sol? Pois, sendo à vista como que um corpo pequeno, contém um poder imenso; aparece no Oriente e envia a sua luz até o Ocidente. O salmista descreveu o seu nascer, ao amanhecer, dizendo: “E ele sai dos seus aposentos como um noivo” (Sl 19.5). Descrevia o brilho e a brandura do seu estado quando se torna visível aos homens pela primeira vez: pois, quando ele cavalga ao meio-dia, muitas vezes fugimos do seu ardor; mas, ao nascer, ele é agradável a todos, como um noivo que se contempla.

Observe também a sua ordem (ou melhor, não a dele, mas a ordem daquele que, por uma lei, determinou o seu curso): como no verão ele sobe mais alto e torna os dias mais longos, dando aos homens bom tempo para os seus trabalhos; mas no inverno encurta o seu curso, para que o período do frio aumente e para que as noites, tornando-se mais longas, contribuam para o descanso dos homens e também para a fertilidade dos produtos da terra7. Veja também como os dias se correspondem alternadamente, uns aos outros, em devida ordem, crescendo no verão e diminuindo no inverno, mas na primavera e no outono concedendo intervalos iguais uns aos outros. E as noites, por sua vez, completam cursos semelhantes; de modo que o salmista também diz delas: “Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite” (Sl 19.2)8. Pois aos hereges, que não têm ouvidos, eles quase gritam e, pela sua boa ordem, dizem que não há outro Deus senão o Criador que lhes fixou os limites e dispôs a ordem do universo9.

7. Mas que ninguém tolere os que dizem que um é o Criador da luz e outro, das trevas10; lembre-se de como Isaías diz: “Eu sou o Deus que fiz a luz e criei as trevas” (Is 45.7)11. Por que, ó homem, você se irrita com isso? Por que se ofende com o tempo que lhe é dado para descanso12? O servo não teria descanso dos seus senhores se as trevas não trouxessem, por necessidade, uma trégua. E muitas vezes, depois de nos cansarmos durante o dia, como somos restaurados à noite! E quem ontem estava esgotado pelos trabalhos levanta-se vigoroso pela manhã, graças ao descanso da noite13. E o que há de mais proveitoso para a sabedoria do que a noite14? Pois nela muitas vezes pomos diante da mente as coisas de Deus; nela lemos e contemplamos os oráculos divinos. E quando a nossa mente está mais afinada para a salmodia e a oração? Não é à noite? E quando foi que muitas vezes trouxemos à memória os nossos próprios pecados? Não foi à noite15? Não admitamos, pois, o mau pensamento de que outro é o criador das trevas: a experiência mostra que também elas são boas e úteis.

8. Eles deveriam ter sentido espanto e admiração não só pela ordem do sol e da lua, mas também pelos coros bem ordenados das estrelas, pelos seus cursos desimpedidos e pelo nascer de cada uma na estação própria; e como umas são sinais do verão, e outras do inverno; e como umas marcam o tempo da semeadura, e outras mostram o início da navegação16. E o homem, sentado no seu navio e navegando entre ondas sem fim, dirige o navio olhando para as estrelas. Pois sobre essas coisas a Escritura diz bem: “E sejam eles para sinais, para estações e para anos” (Gn 1.14), não para fábulas de astrologia e horóscopos. Mas observe como ele também nos deu, com bondade, a luz do dia por aumento gradual: pois não vemos o sol nascer de uma vez; apenas um pouco de luz corre à frente, para que a pupila do olho, por uma prova prévia, se torne capaz de olhar para o seu raio mais forte. Veja também como ele aliviou as trevas da noite com os raios do luar.

9. “Quem é o pai da chuva? E quem gerou as gotas de orvalho?” (Jó 38.28). Quem condensou o ar em nuvens e lhes ordenou que carregassem as águas da chuva17, ora trazendo do norte nuvens douradas (Jó 37.22)18, ora mudando-as numa aparência uniforme, e de novo transformando-as em muitos círculos e outras formas? “Quem pode numerar com sabedoria as nuvens?” (Jó 38.37). Sobre isso diz-se em Jó: “E ele conhece as separações das nuvens” (Jó 37.16)19 “e inclinou o céu para a terra” (Jó 38.37)20; e ainda: “Aquele que numera com sabedoria as nuvens”; e: “a nuvem não se rasga debaixo dele” (Jó 26.8)21. Pois tantas medidas de água estão sobre as nuvens, e elas não se rasgam, mas descem com toda a boa ordem sobre a terra. “Quem faz sair os ventos dos seus reservatórios?” (Sl 135.7). E quem, como dissemos antes, é o que gerou as gotas de orvalho? “E de que ventre procede o gelo?” (Jó 38.29). Pois a sua substância é como a água, e a sua firmeza, como a pedra. E ora a água se torna neve como lã, ora serve àquele que “espalha a névoa como cinza” (Sl 147.16)22, ora se transforma numa substância de pedra, visto que ele governa as águas como quer (Jó 37.10)23. A sua natureza é uniforme, e a sua ação, múltipla em força. A água se torna nas videiras o vinho, “que alegra o coração do homem”, e nas oliveiras o azeite, “que faz brilhar o rosto do homem”; e transforma-se também no pão, “que fortalece o coração do homem” (Sl 104.15), e em frutos de todo tipo que ele criou24.

10. Qual deveria ter sido o efeito dessas maravilhas? Deveria o Criador ser blasfemado? Ou, antes, adorado? E até aqui nada disse das obras invisíveis da sua sabedoria. Observe, peço-lhe, a primavera e as flores de toda espécie, em toda a sua semelhança ainda diferentes umas das outras: o carmesim profundíssimo da rosa e a brancura puríssima do lírio. Pois estas brotam da mesma chuva e da mesma terra; e quem as faz diferentes? Quem as modela? Observe, por favor, o cuidado exato: da única substância da árvore, uma parte é para abrigo e outra para frutos diversos; e o Artífice é um só. Da mesma videira, uma parte é para queimar25, outra para brotos, outra para folhas, outra para gavinhas e outra para cachos.

Admire também a grande espessura dos nós que rodeiam a cana, tal como o Artífice os fez. De uma só e mesma terra saem répteis, feras, gado, árvores e alimentos; e ouro, prata, bronze, ferro e pedra. A natureza das águas é uma só, e dela vem a substância dos peixes e das aves, de modo que26, assim como aqueles nadam nas águas, as aves voam no ar.

11. “Eis o mar vasto e imenso; nele há répteis sem conta” (Sl 104.25). Quem pode descrever a beleza dos peixes que nele há? Quem pode descrever a grandeza das baleias e a natureza27 dos seus animais anfíbios, como vivem tanto em terra seca como nas águas? Quem pode dizer a profundidade e a largura do mar, ou a força das suas ondas enormes? E, no entanto, ele permanece nos seus limites, por causa daquele que disse: “Até aqui você pode chegar, e não mais adiante; mas dentro de você se quebrarão as suas ondas” (Jó 38.11). E o próprio mar mostra claramente a palavra da ordem que lhe foi imposta, pois, depois de avançar, deixa na praia uma linha visível feita pelas ondas, mostrando, por assim dizer, aos que a veem que não passou dos limites que lhe foram fixados.

12. Quem pode discernir a natureza das aves do céu? Como umas trazem consigo uma voz melodiosa, e outras são matizadas com toda espécie de pintura nas asas, e outras voam até o meio do ar e pairam imóveis, como o falcão: pois, por ordem divina, “o falcão estende as suas asas e paira imóvel, olhando para o sul” (Jó 39.26). Que homem pode contemplar o voo altaneiro da águia? Se, pois, você não consegue discernir o voo da mais insensata das aves, como entenderia o Criador de todas as coisas?

13. Quem, entre os homens, conhece sequer os nomes de todas as feras? Ou quem pode discernir com exatidão a fisiologia de cada uma? Mas, se das feras não conhecemos nem os simples nomes, como compreenderemos o seu Criador? A ordem de Deus foi uma só, a que disse: “Que a terra produza feras, gado e répteis, segundo as suas espécies” (Gn 1.24); e de uma só terra28, por uma só ordem, brotaram naturezas diversas, a ovelha mansa e o leão carnívoro, e os vários instintos29 dos animais irracionais, que se assemelham aos vários caracteres dos homens: a raposa, para mostrar a astúcia que há nos homens; a serpente, a traição venenosa dos amigos; o cavalo que relincha, a lascívia dos moços (Jr 5.8); e a formiga laboriosa, para despertar os indolentes e os lerdos. Pois, quando alguém passa a juventude na ociosidade, é instruído pelos animais irracionais, sendo repreendido pela divina Escritura, que diz: “Vá ter com a formiga, ó preguiçoso; veja e imite os caminhos dela, e torne-se mais sábio do que ela” (Pv 6.6)30. Pois, quando você a vê ajuntando o seu alimento no tempo certo, imite-a e ajunte para si frutos de boas obras para o mundo vindouro. E ainda: “Vá ter com a abelha e aprenda como ela é trabalhadora” (Pv 6.8)31: como, esvoaçando em volta de toda espécie de flores, ela recolhe o mel em seu proveito; para que também você, percorrendo as Sagradas Escrituras, alcance para si a salvação e, saciado delas, possa dizer: “Quão doces são as tuas palavras ao meu paladar! Mais doces que o mel e o favo à minha boca” (Sl 119.103).

14. Não é, pois, o Artífice ainda mais digno de ser glorificado? Pois o quê? Se você não conhece a natureza de todas as coisas, tornam-se por isso inúteis as coisas que foram feitas? Você pode conhecer a eficácia de todas as ervas? Ou pode aprender todo o benefício que procede de cada animal? Já das próprias víboras venenosas vieram antídotos para a preservação dos homens32. Mas você me dirá: “A serpente é terrível.” Tema o Senhor, e ela não lhe poderá fazer mal. “O escorpião pica.” Tema o Senhor, e ele não o picará. “O leão é sanguinário.” Tema o Senhor, e ele se deitará ao seu lado, como aconteceu com Daniel. Mas verdadeiramente admirável é também a ação dos animais: como uns, como o escorpião, têm a agudeza num ferrão; outros têm o seu poder nos dentes; outros lutam com as garras; ao passo que o poder do basilisco está no seu olhar33. Assim, pois, por esta obra variada, entenda o poder do Criador.

15. Mas talvez você não conheça estas coisas; talvez não queira ter nada em comum com as criaturas que estão fora de você. Entre agora em si mesmo e, pela sua própria natureza, considere o seu Artífice. Que há de censurável na formação do seu corpo? Seja senhor de si mesmo, e nada de mau procederá de nenhum dos seus membros. Adão estava a princípio sem roupa no paraíso, com Eva, mas não foi por causa dos seus membros que mereceu ser expulso. Os membros, portanto, não são a causa do pecado, e sim os que usam mal os seus membros; e o Criador deles é sábio. Quem preparou os recessos do ventre para a geração dos filhos? Quem deu vida à coisa sem vida que nele está? Quem nos teceu com tendões e ossos e nos vestiu de pele e carne (Jó 10.11) e, assim que a criança nasceu, fez brotar dos seios correntes de leite? Como cresce o bebê até se tornar menino, o menino até se tornar jovem, e depois homem, e, sendo ainda o mesmo, passa de novo à velhice, sem que ninguém perceba a mudança exata de um dia para o outro? E o alimento, como uma parte se transforma em sangue, outra é separada para ser excretada, e outra parte se transforma em carne? Quem dá ao coração o seu movimento incessante? Quem guardou sabiamente a delicadeza dos olhos com a cerca das pálpebras34? Pois, quanto ao mecanismo complexo e maravilhoso dos olhos, os volumosos livros dos médicos mal nos dão uma explicação. Quem distribui o único sopro ao corpo inteiro? Você vê, ó homem, o Artífice; você vê o sábio Criador.

16. Estes pontos o meu discurso tratou agora longamente, deixando de lado muitas, sim, dez mil outras coisas, e especialmente as coisas incorpóreas e invisíveis, para que você abomine os que blasfemam contra o Artífice sábio e bom e, pelo que se fala e se lê, e por tudo o que você mesmo puder descobrir ou conceber, pela grandeza e beleza das criaturas possa contemplar, por proporção, o seu Criador (Sb 13.5); e, dobrando os joelhos com piedosa reverência ao Criador dos mundos, quero dizer, dos mundos sensível e inteligível, visível e invisível, possa, com língua agradecida e santa, com lábios e coração incansáveis, louvar a Deus e dizer: “Quão maravilhosas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria” (Sl 104.24). Pois a ti pertencem a honra, a glória e a majestade, agora e por todos os séculos. Amém.

Apêndice à Catequese IX

Nota. Nos manuscritos que trazem este discurso sob o nome de “Homilia de São Basílio sobre Deus como incompreensível”, algumas partes foram alteradas para se ajustarem a esse assunto; mas sobretudo a conclusão se distingue por grande acréscimo e variação, que convém reproduzir aqui. Assim, em lugar das palavras do § 15, ti mempton, “Que há de censurável?”, e do que segue, os manuscritos mencionados trazem o seguinte:

“Que há de censurável na formação do corpo? Venha para o meio e fale. Domine a sua própria vontade, e nada de mau procederá de nenhum dos seus membros. Pois cada um deles foi feito necessariamente para o nosso uso. Discipline o seu raciocínio para a piedade, submeta-se aos mandamentos de Deus, e nenhum destes membros peca ao operar e servir nos usos para os quais foi feito. Se você não quiser, o olho não vê o que é mau, o ouvido nada ouve do que não deve, a mão não se estende para a cobiça perversa, o pé não anda rumo à injustiça; você não tem amores estranhos, não comete imoralidade, não cobiça a mulher do seu próximo. Expulse do coração os maus pensamentos, seja como Deus o fez, e você antes dará graças ao seu Criador.

Adão, a princípio, estava sem roupa, vivendo em delícias no paraíso; e, depois de receber o mandamento, deixou de guardá-lo e estendeu perversamente a mão (não porque a mão o quisesse, mas porque a sua vontade estendeu a mão para o que era proibido) e, por causa da sua desobediência, perdeu também os bens que havia recebido. Assim, os membros não são a causa do pecado para os que os usam, mas sim a mente perversa, como diz o Senhor: ‘Porque do coração procedem maus pensamentos, imoralidades, adultérios, invejas e coisas semelhantes’ (Mt 15.19). Naquilo que você escolhe, nisso os seus membros o servem; eles foram feitos excelentemente para o serviço da alma: foram dados como servos à sua razão. Conduza-os bem pelo movimento da piedade; refreie-os pelo temor de Deus; sujeite-os ao desejo da temperança e da abstinência, e eles nunca se levantarão contra você para tiranizá-lo; antes, o guardarão e o ajudarão com mais força na sua vitória sobre o diabo, enquanto você espera também a coroa incorruptível e eterna da vitória. Quem abre os recessos do ventre? Quem etc.”

No fim da mesma seção, depois das palavras “sábio Criador”, encontra-se isto: “Glorifique-o nas suas obras insondáveis e, quanto àquele que você não é capaz de conhecer, não indague com curiosidade qual é a sua essência. É melhor para você calar-se e adorar com fé, segundo a divina Palavra, do que pesquisar com ousadia coisas que nem você pode alcançar nem a Sagrada Escritura lhe transmitiu. Estes pontos o meu discurso tratou agora longamente, para que você abomine os que blasfemam contra o Artífice sábio e bom e, antes, possa você também dizer: ‘Quão maravilhosas são as tuas obras, Senhor! Fizeste todas elas com sabedoria’ (Sl 104.24). A ti sejam a glória, o poder e a adoração, com o Espírito Santo, agora e sempre, e por todos os séculos. Amém.”

Notas

1. A Septuaginta, da qual Cirilo cita o texto, difere muito do hebraico e das versões inglesas: “Quem é este que obscurece os meus planos com palavras sem conhecimento? Cinja os lombos como homem, pois eu lhe farei perguntas, e você me responderá.”

2. Segundo a Septuaginta. A R.V. traz: “Oh, se fendesses os céus, se descesses, para que os montes se derretessem.”

3. Compare Teófilo de Antioquia, A Autólico, I, 5-6: “Deus, de fato, não pode ser visto por olhos humanos, mas é contemplado e percebido por meio da sua providência e das suas obras… Ele não é visível aos olhos da carne, visto que é incompreensível.”

4. Em Ezequiel 1.6-11, os quatro seres viventes têm cada um quatro asas, como também em 10.21, segundo o hebraico. Mas nesta última passagem, segundo o texto vaticano da Septuaginta, cada um tem oito asas, como leem aqui os Codd. R. e Casaub. Cirilo parece ter confundido o número de Ezequiel com o de Isaías 6.2: “cada um tinha seis asas”. Com “uma roda de quatro lados” Cirilo explica Ezequiel 1.16, “uma roda dentro de outra roda”, como se fossem dois círculos postos em ângulo reto um com o outro, como o equador e o meridiano num globo.

5. Compare Catequese IV, 4. Irineu (I, x, 1): “A Igreja, embora dispersa por todo o mundo, até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos a fé em um só Deus, o Pai todo-poderoso, Criador do céu, da terra, do mar e de tudo o que neles há.” Tertuliano (De praescriptione haereticorum, cap. xiii): “A regra de fé é aquela pela qual cremos que há um só Deus, e nenhum outro além do Criador do mundo, que tirou todas as coisas do nada por meio do seu próprio Verbo, emitido antes de tudo.”

6. Compare Catequese VI, 13 e 27.

7. A leitura comum, hina me tou psuchous pleion genetai ho chronos, all’ hina hai nuktes, etc., dá um sentido contrário aos fatos. A tradução segue os mss. Roe e Casaubon, que omitem me e em lugar de alla leem kai. Compare Whewell, Astronomy, p. 22: “A duração do ano é determinada de modo a ajustar-se à constituição da maioria dos vegetais; ou a construção dos vegetais é ajustada de modo a convir à duração que o ano realmente tem, e a não convir a uma duração mais longa ou mais curta em qualquer porção considerável. O mecanismo de relógio dos vegetais está regulado para andar durante um ano.” Ibid., p. 34: “Sendo o dia terrestre, e consequentemente a duração do ciclo de luz e trevas, o que é, encontramos várias partes da constituição tanto dos animais como dos vegetais que têm um caráter periódico nas suas funções, correspondente à sucessão diurna das condições externas, e verificamos que a duração do período, tal como existe na sua constituição, coincide com a duração do dia natural.”

8. Compare uma bela passagem de Teófilo de Antioquia (A Autólico, vi).

9. Lucrécio, V, 1182: “Viam os céus correr em ordem constante, as estações variadas e o sol em seu giro, um governo visível de causa invisível, e assim buscaram nos deuses a origem das leis.”

10. Veja a nota sobre a Catequese III, 33.

11. Compare a homilia de Crisóstomo sobre este texto.

12. Whewell, Astronomy, p. 38: “Os animais também têm um período nas suas funções e hábitos, como nos hábitos de vigiar, dormir, comer etc., e o seu bem-estar parece depender da coincidência desse período com a duração do dia natural.”

13. Crisóstomo, VI, p. 171: “Assim como o dia leva o homem ao seu trabalho, a noite que lhe sucede o liberta das suas incontáveis fadigas e pensamentos e, embalando no sono os seus olhos cansados e fechando-lhes as pálpebras, prepara-o para receber de novo o raio do sol com a sua força em pleno vigor.”

14. Clemente de Alexandria (Stromata, IV, 22, trad. inglesa): “E desse modo parecem ter chamado a noite de Euphrone, pois então a alma, liberta das percepções dos sentidos, volta-se para si mesma e tem um domínio mais verdadeiro da inteligência (phronesis).”

15. Crisóstomo (tomo II, p. 793): “Costumamos fazer as contas do nosso dinheiro de manhã cedo; mas, das nossas ações, de tudo o que dissemos e fizemos durante o dia, exijamos de nós mesmos as contas depois da ceia, e mesmo depois do cair da noite, deitados na cama, sem ninguém que nos incomode nem nos perturbe. E, se virmos algo malfeito, castiguemos a consciência, repreendamos a mente, contestemos com tanta veemência as nossas contas que não ousemos mais levantar-nos e lançar-nos no mesmo poço do pecado, lembrando-nos do açoite da noite.”

16. Clemente de Alexandria (Stromata, VI, 11): “O mesmo vale também para a astronomia: ocupando-se da investigação dos corpos celestes, da forma do universo, da revolução do céu e do movimento dos astros, ela aproxima a alma do poder criador e a ensina a perceber prontamente as estações do ano, as mudanças da atmosfera e o nascer dos astros; pois também a navegação e a agricultura tiram muito proveito dessa ciência.” Compare Lactâncio (De ira Dei, cap. xiii).

17. Whewell, Astronomy, p. 88: “As nuvens são produzidas pelo vapor aquoso quando ele volta ao estado de água.” P. 89: “As nuvens produzem chuva. Na formação de uma nuvem, a precipitação da umidade provavelmente forma um fino pó de água, que permanece suspenso no ar em consequência da pequenez das suas partículas; mas, se por qualquer causa a precipitação se reúne em porções maiores e se torna gotas, estas descem pelo seu peso e produzem um aguaceiro.” Compare Aristóteles, Meteorologica, I, ix, 3; Ansted, Physical Geography, p. 210.

18. “Do norte vem um esplendor dourado” (R.V.).

19. “Você sabe do equilíbrio das nuvens?” Na Septuaginta, diakrisin nephon pode significar “o caminho separado das nuvens” (Vulgata, “semitas nubium”) ou “a dissolução”, como em Aristóteles (Meteorologica, I, vii, 10: diakrinesthai kai dialuesthai to diatmizon hugron hupo tou plethous tes thermes anathumiaseos, hoste me sunistasthai rhadios eis hudor, “o vapor úmido é separado e dissolvido pelo grande calor da evaporação, de modo que não se condensa facilmente em água”). Cf. Platão, Sofista, 243 B: diakriseis kai sunkriseis.

20. Segundo a Septuaginta: “E quem é que numera as nuvens com sabedoria e inclinou o céu para a terra?” A.V. e R.V.: “Ou quem pode despejar os odres do céu?”

21. “Ele prende as águas nas suas densas nuvens, e a nuvem não se rasga debaixo delas.”

22. “Ele espalha a geada como cinza.” A palavra hebraica kephor é traduzida por pachne, “geada”, em Jó 38.29, mas aqui por omichle, “névoa”.

23. “a extensão das águas se estreita” (margem da R.V., “congela”). A palavra oiakizei na Septuaginta significa “pilotar”, em latim “gubernare”, “dirigir como com um leme”.

24. Há uma passagem semelhante sobre os vários efeitos da água na Catequese XVI, 12. Crisóstomo (De statuis, homilia XII, 2), Epifânio (Ancoratus, p. 69) e outros Pais parecem reproduzir tanto os pensamentos quanto as palavras de Cirilo.

25. Em lugar de kausin, “queima”, Morel e Milles, com o Cod. Coisl., leem kaustin, palavra rara que Hesíquio explica como o “crescimento” ou a “folhagem” da videira; mas isso já está plenamente expresso no que segue, e a leitura kausin é confirmada por Virgílio (Geórgicas, II, 408): “Primus devecta cremato sarmenta” (Reischl).

26. Sobre a construção de hina com o indicativo hiptantai, veja Bernhardy, Syntax, p. 401; Winer (Gram. N. T., III, seção xli, c).

27. Gr. hupostasin, literalmente “substância”.

28. Em lugar de phones (Milles) ou peges (o editor beneditino, Roe, Casaub.), os editores recentes restabeleceram tes ges com os mss. de Jerusalém e de Munique, e Basílio.

29. Gr. kineseis, “movimentos”, “impulsos”. Aristóteles (Historia animalium, IX, vii, 1) observa que se podem notar nos hábitos de outros animais muitas imitações do modo de vida do homem.

30. Em lugar do epíteto “laboriosa” (georgotatos), alguns mss. trazem “ágil” ou “inquieta” (gorgotatos).

31. Depois da descrição da formiga, Provérbios 6.6-8, segue-se na Septuaginta uma referência semelhante à abelha: “Ou vá ter com a abelha e aprenda como ela é trabalhadora e como faz bela a sua obra; e o produto dos seus trabalhos, reis e gente comum o usam para a saúde; ela é desejada e estimada por todos e, embora fraca de forças, foi exaltada por seu apreço pela sabedoria.” Supõe-se que a interpolação seja de origem grega, por conter “expressões gregas idiomáticas que não ocorreriam a um tradutor a partir do hebraico” (Delitzsch).

32. Compare Bacon (Natural History, 965): “Eu gostaria que se fizesse prova de duas outras espécies de braceletes, para confortar o coração e os espíritos: um, de trociscos de víboras, feitos em pequenas contas; pois, uma vez que fazem grande bem por dentro (especialmente nas febres pestilentas), é provável que sejam eficazes por fora, onde podem ser aplicados em maior quantidade. Também se fariam trociscos de serpentes, cuja carne seca se julga ter uma virtude muito boa, desobstruente e cordial.” Ibid., 969: “Os escritores de magia natural recomendam trazer consigo a pele mudada de uma serpente, para conservar a saúde.” Thomas Jackson (On the Creed, VIII, 8, § 4): “As mordidas venenosas do escorpião costumam ser curadas com óleo de escorpiões.”

33. Shakespeare (Ricardo III, ato I, cena ii). Gloucester: “Os teus olhos, doce senhora, infectaram os meus.” Ana: “Quem dera fossem basiliscos, para te ferir de morte.” Compare Bacon (De augmentis, VII, cap. ii): “Conta a fábula do basilisco que, se ele o vir primeiro, você morre; mas, se você o vir primeiro, ele morre.” Bacon remete a Plínio (Historia naturalis, VIII, 33).

34. Xenofonte (Memoráveis de Sócrates, I, cap. iv): “E, além disso, não te parece também obra da providência que, sendo a vista fraca, o Criador a tenha munido de pálpebras como portas, que se abrem sempre que é preciso usar a vista, mas se fecham no sono?”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.