Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese X

E em um só Senhor Jesus Cristo

Os nomes e os títulos de Jesus Cristo, e as testemunhas de que Ele é o Senhor.

Catequese X. Sobre as palavras “E em um só Senhor Jesus Cristo”, com uma leitura da Primeira Carta aos Coríntios

1 Coríntios 8.5-6
Porque, ainda que existam alguns que são chamados de deuses, quer no céu ou sobre a terra1, para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós nele; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas existem, e nós por meio dele.

1. Os que foram ensinados a crer “em um só Deus, Pai Todo-Poderoso” devem crer também no seu Filho unigênito. Pois “todo aquele que nega o Filho, esse não tem o Pai” (1Jo 2.23). “Eu sou a porta” (Jo 10.9), diz Jesus; “ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Se você nega a porta, o conhecimento do Pai fica fechado para você. “Ninguém conhece o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Se você nega aquele que revela, permanece na ignorância. Há uma sentença nos Evangelhos que diz: “Quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36). Pois o Pai se indigna quando o Filho unigênito é desprezado. Para um rei já é penoso que um simples soldado seu seja desonrado; e, quando é desonrado um dos seus oficiais mais nobres ou um dos seus amigos, a sua ira cresce muito. Mas, se alguém ultrajar o próprio filho unigênito do rei, quem aplacará a indignação do pai em favor do seu filho unigênito?

2. Portanto, se alguém quer mostrar piedade para com Deus, adore o Filho, porque de outro modo o Pai não aceita o seu culto. O Pai falou em alta voz do céu, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me agrado” (Mt 3.17). O Pai se agradou; se você também não se agradar dele, não tem a vida. Não se deixe levar pelos judeus quando dizem com astúcia: “Há somente um Deus”; mas, sabendo que Deus é um só, saiba que há também um Filho unigênito de Deus. Não sou eu o primeiro a dizer isso; o salmista, na pessoa do Filho, diz: “O Senhor me disse: Você é meu Filho” (Sl 2.7). Não dê ouvidos, pois, ao que dizem os judeus, mas ao que dizem os profetas. Admira-se você de que os que apedrejaram e mataram os profetas tenham desprezado as palavras dos profetas?

3. Creia você em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus. Dizemos “um só Senhor Jesus Cristo” para que a sua filiação seja “unigênita”; dizemos “um só” para que você não imagine outro; dizemos “um só” para que você não reparta profanamente entre muitos filhos os muitos nomes2 da sua ação. Ele é chamado porta3 (Jo 10.7, 9); mas não tome o nome ao pé da letra, como coisa de madeira: é uma porta espiritual, viva, que discerne os que entram. É chamado caminho (Jo 14.6), não um caminho pisado pelos pés, mas que conduz ao Pai que está no céu. É chamado ovelha (Jo 1.29; Is 53.7-8; At 8.32), não uma ovelha irracional, mas aquela que pelo seu sangue precioso purifica o mundo dos seus pecados, que é levada diante dos tosquiadores e sabe quando calar. Essa ovelha, por sua vez, é chamada pastor, e diz: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10.11). Ovelha por causa da sua humanidade, pastor por causa da bondade amorosa da sua divindade. E você quer saber que há ovelhas racionais? O Salvador diz aos apóstolos: “Eis que eu os envio como ovelhas para o meio de lobos” (Mt 10.16). Também é chamado leão (Gn 49.9; Ap 5.5), não como devorador de homens, mas como que indicando pelo título a sua natureza régia, firme e confiante. É chamado leão também em oposição ao leão, o nosso adversário, que ruge e devora os que foram enganados (1Pe 5.8). Pois o Salvador veio, não como quem tivesse mudado a mansidão da sua própria natureza, mas como o forte “Leão da tribo de Judá” (Ap 5.5), salvando os que creem e calcando aos pés o adversário. É chamado pedra, não uma pedra sem vida, talhada por mãos humanas, mas a pedra angular (Sl 118.22; Is 28.16; 1Pe 2.4-6), na qual quem crer não será envergonhado.

4. É chamado Cristo, não por ter sido ungido por mãos humanas, mas por ter sido ungido eternamente pelo Pai para o seu sumo sacerdócio em favor dos homens4. É chamado morto, não por ter permanecido entre os mortos, como todos os que estão no Hades, mas por ser o único “livre entre os mortos” (Sl 88.5). É chamado Filho do Homem, não por ter tido a sua geração da terra, como cada um de nós, mas por vir sobre as nuvens “para julgar os vivos e os mortos”5 (Jo 5.27). É chamado Senhor, não impropriamente, como os que assim são chamados entre os homens, mas por possuir um senhorio natural e eterno6. É chamado Jesus, nome que lhe convém, por ter a designação da sua cura salvadora. É chamado Filho, não como quem foi promovido por adoção, mas como gerado por natureza. E muitos são os títulos do nosso Salvador. Para que, então, as suas múltiplas designações não levem você a pensar em muitos filhos, e por causa dos erros dos hereges, que dizem que Cristo é um, Jesus é outro, a porta é outro, e assim por diante7, a fé protege você de antemão, dizendo bem: “Em um só Senhor Jesus Cristo”; porque, embora os títulos sejam muitos, aquele a quem se referem é um só.

5. Mas o Salvador vem a cada um sob formas diversas, para o seu proveito8. Para os que precisam de alegria, ele se torna videira; para os que querem entrar, ele se põe como porta; para os que precisam oferecer as suas orações, ele se apresenta como sumo sacerdote mediador. E para os que têm pecados, torna-se ovelha, para ser sacrificado por eles. Ele “se faz tudo para com todos” (1Co 9.22), permanecendo na sua própria natureza aquilo que é. Pois, permanecendo assim e mantendo realmente imutável a dignidade da sua filiação, ele se acomoda às nossas fraquezas, como um excelente médico ou um mestre compassivo. Contudo, ele é verdadeiro Senhor, e não recebeu o senhorio por promoção9: tem a dignidade do seu senhorio por natureza, e não é chamado Senhor impropriamente10, como nós, mas o é de verdade, já que, pela determinação11 do Pai, é Senhor das suas próprias obras. Pois o nosso senhorio se exerce sobre homens de direitos iguais e das mesmas paixões, e muitas vezes até sobre os mais velhos que nós; e com frequência um senhor jovem governa servos idosos. Mas no caso do nosso Senhor Jesus Cristo o senhorio não é assim: ele é primeiro Criador, depois Senhor12. Primeiro fez todas as coisas pela vontade do Pai; depois é Senhor das coisas que foram feitas por ele.

6. Cristo, o Senhor, é aquele que “nasceu na cidade de Davi” (Lc 2.11). E você quer saber que Cristo é Senhor com o Pai já antes da sua encarnação13, para não apenas aceitar a afirmação pela fé, mas também receber a prova tirada do Antigo Testamento? Vá ao primeiro livro, o Gênesis. Deus diz: “Façamos o ser humano”, não “à minha imagem”, mas “à nossa imagem” (Gn 1.26). E, depois que Adão foi feito, o escritor sagrado diz: “E Deus criou o ser humano; à imagem de Deus o criou” (Gn 1.27). Pois ele não limitou ao Pai somente a dignidade da divindade, mas incluiu também o Filho, para mostrar que o homem não é obra só de Deus, mas também do nosso Senhor Jesus Cristo, que é ele mesmo também verdadeiro Deus. Esse Senhor, que opera juntamente com o Pai, operou com ele também no caso de Sodoma, segundo a Escritura: “Então o Senhor fez chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Isso veio da parte do Senhor, desde os céus” (Gn 19.24). Esse Senhor é o mesmo que depois foi visto por Moisés, tanto quanto Moisés era capaz de ver. Pois o Senhor ama os homens e sempre se inclina às nossas fraquezas.

7. Além disso, para que vocês tenham certeza de que é ele quem foi visto por Moisés, ouçam o testemunho de Paulo, quando diz: “Porque todos bebiam de uma pedra espiritual que os seguia; e a pedra era Cristo” (1Co 10.4). E outra vez: “Pela fé, Moisés abandonou o Egito” (Hb 11.27); e pouco depois diz: “considerando o desprezo por causa de Cristo uma riqueza maior do que os tesouros do Egito”14 (Hb 11.26). Esse Moisés lhe diz: “Mostra-te a mim.” Você vê que os profetas, também naqueles tempos, viam o Cristo, isto é, tanto quanto cada um era capaz. “Mostra-te a mim, para que eu te veja com entendimento”15 (Êx 33.13). Mas ele diz: “Ninguém verá a minha face e viverá” (Êx 33.20). Por esta razão, então, porque ninguém podia ver a face da divindade e viver, ele tomou a face da natureza humana, para que pudéssemos ver esta e viver. E, contudo, quando quis mostrar também essa face com um pouco de majestade, quando “o seu rosto resplandecia como o sol” (Mt 17.2), os discípulos caíram por terra apavorados. Se, então, o seu semblante corporal, brilhando não com todo o poder daquele que operava, mas segundo a capacidade dos discípulos, os apavorou de tal modo que nem assim puderam suportá-lo, como poderia alguém contemplar a majestade da divindade? “Grande coisa você deseja, ó Moisés”, diz o Senhor, “e eu aprovo o seu desejo insaciável, e farei isto16 por você (Êx 33.17), mas na medida em que você é capaz. Eis que porei você na fenda da rocha (Êx 33.22): pois, sendo pequeno, você se alojará num espaço pequeno.”

8. Agora quero que vocês guardem com segurança o que vou dizer, por causa dos judeus. Pois o nosso objetivo é provar que o Senhor Jesus Cristo estava com o Pai. O Senhor, então, diz a Moisés: “Passarei diante de você com a minha glória e proclamarei diante de você o nome do Senhor”17 (Êx 33.19). Sendo ele mesmo o Senhor, que Senhor ele proclama? Você vê como ele ensinava veladamente a doutrina piedosa do Pai e do Filho. E outra vez, no que se segue, está escrito palavra por palavra: “E o Senhor desceu na nuvem, esteve ali junto dele e proclamou o nome do Senhor. E o Senhor passou diante dele e proclamou: O Senhor, o Senhor Deus, compassivo e bondoso, tardio em irar-se e grande em bondade e fidelidade, que guarda a justiça e usa de misericórdia com milhares, que tira as iniquidades, as transgressões e os pecados”18 (Êx 34.5-7). Depois, no que se segue, Moisés curvou a cabeça e adorou (Êx 34.8) diante do Senhor que proclamava o Pai, e disse: “Vai, pois, tu, Senhor, no meio de nós” (Êx 34.9).

9. Esta é a primeira prova; receba agora uma segunda, bem clara: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Sente-se à minha direita”19 (Sl 110.1). O Senhor diz isso ao Senhor, não a um servo, mas ao Senhor de todos, e seu próprio Filho, a quem sujeitou todas as coisas. “E, quando diz que todas as coisas lhe estão sujeitas, certamente exclui aquele que tudo lhe sujeitou”, e o que se segue: “para que Deus seja tudo em todos” (1Co 15.27-28). O Filho unigênito é Senhor de todos, mas Filho obediente do Pai, pois não usurpou o senhorio20, mas o recebeu por natureza, pela própria vontade do Pai. Nem o Filho o usurpou, nem o Pai teve inveja de comunicá-lo. É ele quem diz: “Tudo me foi entregue por meu Pai”21 (Mt 11.27; Lc 10.22); “entregue a mim, não como se antes eu não o tivesse; e eu o guardo bem, sem roubar aquele que o deu.”

10. O Filho de Deus, então, é Senhor. É Senhor aquele que nasceu em Belém da Judeia, segundo o anjo que disse aos pastores: “Eu lhes trago boa-nova de grande alegria: hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu Cristo, o Senhor” (Lc 2.10-11). Dele diz um apóstolo em outro lugar: “Esta é a palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, anunciando-lhes o evangelho da paz, por meio de Jesus Cristo. Este é o Senhor de todos” (At 10.36). E, quando ele diz “de todos”, não exclua nada do seu senhorio: pois, sejam anjos, ou arcanjos, ou principados, ou potestades, ou qualquer coisa criada que os apóstolos mencionam, tudo está sob o senhorio do Filho. Dos anjos ele é Senhor, como você tem nos Evangelhos: “Então o diabo o deixou, e vieram anjos e o serviram” (Mt 4.11). Pois a Escritura não diz “o socorreram”, mas “o serviram”, isto é, como servos. Quando ele estava para nascer de uma virgem, Gabriel foi então o seu servo, tendo recebido esse serviço como uma dignidade especial. Quando ele estava para ir ao Egito, a fim de derrubar os deuses do Egito feitos por mãos humanas22 (Is 19.1), outra vez um anjo aparece em sonho a José (Mt 2.13). Depois que ele foi crucificado e ressuscitou, um anjo trouxe a boa notícia e, como servo de confiança, disse às mulheres: “Vão, digam aos seus discípulos que ele ressuscitou e vai adiante de vocês para a Galileia; eis que eu disse a vocês” (Mt 28.7). É quase como se dissesse: “Não descuidei da minha ordem; declaro que eu disse a vocês, para que, se vocês não fizerem caso, a culpa não recaia sobre mim, mas sobre os que não fizerem caso.” Este é, pois, o único Senhor Jesus Cristo, de quem fala a leitura feita há pouco: “Porque, ainda que existam muitos que são chamados de deuses, quer no céu ou sobre a terra”, e assim por diante, “para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e nós nele; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas existem, e nós por meio dele” (1Co 8.5-6).

11. Ele é chamado por dois nomes, Jesus Cristo: Jesus, porque salva; Cristo, porque é sacerdote23. Sabendo disso, o inspirado profeta Moisés conferiu esses dois títulos a dois homens que se distinguiam acima de todos24: ao seu próprio sucessor no governo, Auses25, deu o novo nome de Jesus; e a seu próprio irmão Arão deu o sobrenome de Cristo26, para que, por meio de dois homens bem aprovados, representasse ao mesmo tempo o sumo sacerdócio e a realeza do único Jesus Cristo que havia de vir. Pois Cristo é sumo sacerdote como Arão, uma vez que não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote, mas quem o glorificou foi aquele que lhe disse: “Você é sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Hb 5.4-6)27. E Jesus, filho de Nave, foi em muitas coisas uma figura dele. Quando começou a governar o povo, começou pelo Jordão (Js 3.1), de onde também Cristo, depois de batizado, começou a pregar o evangelho. O filho de Nave designa doze para repartirem a herança (Js 14.1); e Jesus envia doze apóstolos, como arautos da verdade, por todo o mundo. O Jesus figurado salvou Raabe, a prostituta, quando ela creu; e o verdadeiro Jesus diz: “Eis que os publicanos e as prostitutas estão entrando no Reino de Deus primeiro que vocês” (Mt 21.31). No tempo da figura, só com um grito caíram os muros de Jericó; e, porque Jesus disse: “Não ficará aqui pedra sobre pedra” (Mt 24.2), o templo dos judeus, aqui em frente de nós, está caído. A causa da sua queda não foi a predição, mas o pecado dos transgressores.

12. Há um só Senhor Jesus Cristo, nome admirável, anunciado de antemão, de modo indireto, pelos profetas. Pois o profeta Isaías diz: “Eis que vem o seu Salvador; com ele vem a sua recompensa” (Is 62.11)28. Ora, Jesus, em hebraico, quer dizer Salvador. O dom profético, prevendo o ânimo assassino dos judeus contra o seu Senhor29, encobriu o seu nome, para que não tramassem com facilidade contra ele, por conhecê-lo claramente de antemão. Mas ele foi chamado abertamente Jesus, não por homens, mas por um anjo, que não veio por autoridade própria, mas foi enviado pelo poder de Deus e disse a José: “Não tenha medo de receber Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e você porá nele o nome de Jesus” (Mt 1.20-21). E logo dá a razão desse nome, dizendo: “porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Considere como aquele que ainda não tinha nascido podia ter um povo, a não ser que já existisse antes de nascer30. Isso também diz o profeta na pessoa dele: “Desde o ventre de minha mãe fez menção do meu nome” (Is 49.1), porque o anjo predisse que ele seria chamado Jesus. E de novo, sobre a trama de Herodes, diz: “Na sombra da sua mão me escondeu” (Is 49.2).

13. Jesus, portanto, significa segundo o hebraico “Salvador”, mas na língua grega “o que cura”, já que ele é médico das almas e dos corpos, curador dos espíritos, que cura os cegos do corpo31 e conduz as mentes à luz, que sara os coxos visíveis e guia ao arrependimento os passos dos pecadores, dizendo ao paralítico: “Não peque mais” (Jo 5.14), e: “Pegue o seu leito e ande” (Jo 5.8). Pois, como o corpo ficou paralítico por causa do pecado da alma, ele cuidou primeiro da alma, para estender a cura também ao corpo. Se, portanto, alguém sofre na alma por causa dos pecados, aí está o médico para ele; e, se alguém aqui é de pouca fé, diga-lhe: “Ajude-me na minha falta de fé!” (Mc 9.24). Se alguém também está cercado de enfermidades do corpo, não seja incrédulo, mas aproxime-se; pois também dessas doenças Jesus cuida32. E aprenda que Jesus é o Cristo.

14. Pois os judeus admitem que ele é Jesus, mas não vão além disso, a admitir que é o Cristo. Por isso diz o apóstolo: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (1Jo 2.22). Mas Cristo é sumo sacerdote “cujo sacerdócio não passa a outro” (Hb 7.24), que nem começou o seu sacerdócio no tempo33, nem tem sucessor no seu sumo sacerdócio, como você ouviu no dia do Senhor, quando discorríamos na assembleia34 sobre a expressão “segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.4). Ele não recebeu o sumo sacerdócio por sucessão corporal, nem foi ungido com óleo preparado por homens35, mas pelo Pai, antes de todos os séculos. E ele supera os outros na medida em que é feito sacerdote com juramento: “Porque os outros são feitos sacerdotes sem juramento, mas este com juramento, por aquele que lhe disse: ‘O Senhor jurou e não se arrependerá'” (Hb 7.20-21). A simples vontade do Pai bastava como garantia; mas o modo da segurança é duplo, isto é, à vontade segue-se também o juramento, para que, “mediante duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta”, tenhamos “forte alento” (Hb 6.18) para a nossa fé, nós que recebemos Cristo Jesus como Filho de Deus.

15. Quando este Cristo veio, os judeus o negaram, mas os demônios o confessaram. Seu antepassado Davi, porém, não o ignorava, quando disse: “Preparei uma lâmpada para o meu ungido” (Sl 132.17)36. Essa lâmpada, alguns a interpretaram como o brilho da profecia (2Pe 1.19)37; outros, como a carne que ele tomou da Virgem, segundo a palavra do apóstolo: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro” (2Co 4.7)38. O profeta não o ignorava, quando disse: “e anuncia aos homens o seu Cristo” (Am 4.13)39. Moisés também o conhecia, Isaías o conhecia, e Jeremias; nenhum dos profetas o ignorava. Até os demônios o reconheceram, pois ele os repreendia, e a Escritura diz: “pois sabiam que ele era o Cristo” (Lc 4.41). Os principais sacerdotes não o conheceram, e os demônios o confessaram; os principais sacerdotes não o conheceram, e uma mulher de Samaria o anunciou, dizendo: “Venham comigo e vejam um homem que me disse tudo o que eu já fiz. Não seria ele, por acaso, o Cristo?” (Jo 4.29).

16. Este é Jesus Cristo, que veio como “sumo sacerdote dos bens vindouros” (Hb 9.11); que, pela generosidade da sua divindade, comunicou o seu próprio título a todos nós. Os reis entre os homens têm o seu título real, que outros não podem partilhar; mas Jesus Cristo, sendo o Filho de Deus, deu-nos a dignidade de sermos chamados cristãos. Mas alguém dirá: O nome de “cristãos” é novo e não estava em uso antigamente40; e expressões de feitio novo muitas vezes são rejeitadas por causa da sua estranheza41. O profeta deixou esse ponto garantido de antemão, dizendo: “Mas sobre os meus servos será invocado um nome novo, que será bendito sobre a terra” (Is 65.15-16)42. Perguntemos aos judeus: Vocês são servos do Senhor ou não? Mostrem então o seu nome novo. Pois vocês foram chamados judeus e israelitas no tempo de Moisés e dos outros profetas, e depois da volta da Babilônia, e até o tempo presente: onde está, então, o seu nome novo? Mas nós, como somos servos do Senhor, temos esse nome novo: novo, de fato, mas o nome novo que será bendito sobre a terra. Esse nome tomou conta do mundo; pois os judeus estão só numa certa região, mas os cristãos chegam até os confins do mundo, porque é o nome do Filho unigênito de Deus que é proclamado.

17. Mas você quer saber que os apóstolos conheciam e pregavam o nome de Cristo, ou melhor, que tinham o próprio Cristo dentro de si? Paulo diz aos seus ouvintes: “Ou vocês buscam provas de que Cristo fala em mim?” (2Co 13.3). Paulo proclama Cristo, dizendo: “Porque não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como servos de vocês, por causa de Jesus” (2Co 4.5). Quem é este, então? O antigo perseguidor. Ó maravilha grandiosa! O próprio antigo perseguidor prega Cristo. Mas por quê? Foi subornado? Não, não havia ninguém para usar esse meio de persuasão. Ou foi que o viu presente na terra e ficou envergonhado? Ele já tinha sido elevado ao céu. Saiu para perseguir, e três dias depois o perseguidor é pregador em Damasco. Por qual poder? Outros apresentam amigos como testemunhas a favor de amigos; mas eu lhes apresentei como testemunha o antigo inimigo: e você ainda duvida? O testemunho de Pedro e de João, embora de peso, era de um tipo sujeito a suspeita, pois eram amigos dele. Mas, diante de alguém que antes era seu inimigo e depois morre por causa dele, quem ainda pode duvidar da verdade?

18. Neste ponto do meu discurso, fico verdadeiramente cheio de admiração pela sábia disposição do Espírito Santo: como ele limitou a um pequeno número as epístolas dos demais, mas a Paulo, o antigo perseguidor, deu o privilégio de escrever catorze. Não foi por ser Pedro ou João menor que ele restringiu o dom; de modo nenhum! Mas, para que a doutrina ficasse acima de qualquer dúvida, concedeu ao antigo inimigo e perseguidor o privilégio de escrever mais, a fim de que assim todos nós fôssemos levados a crer. Pois todos ficavam espantados com Paulo e diziam: “Não é este o que antes era perseguidor?” (At 9.21). Não veio ele para cá para nos levar presos a Jerusalém? “Não se espantem”, disse Paulo, “eu sei que é duro para mim dar coices contra os aguilhões (At 26.14); sei que não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus (1Co 15.9); mas fiz isso na ignorância (1Tm 1.13), pois pensava que a pregação de Cristo era a destruição da Lei, e não sabia que ele mesmo veio para cumprir a Lei e não para revogá-la (Mt 5.17). Mas a graça de Deus transbordou em mim (1Tm 1.14).”

19. Muitos, meus amados, são os testemunhos verdadeiros a respeito de Cristo. O Pai, do céu, dá testemunho do seu Filho; o Espírito Santo dá testemunho, descendo em forma corpórea como uma pomba; o arcanjo Gabriel dá testemunho, trazendo a boa notícia a Maria; a Virgem Mãe de Deus43 dá testemunho; o bendito lugar da manjedoura dá testemunho. O Egito dá testemunho, ele que recebeu o Senhor ainda pequeno no corpo44; Simeão dá testemunho, ele que o tomou nos braços e disse: “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação, a qual preparaste diante de todos os povos” (Lc 2.29-31). Também Ana, a profetisa, viúva muito piedosa, de vida austera, dá testemunho dele. João Batista dá testemunho, o maior entre os profetas e guia da nova aliança, que de certo modo uniu em si mesmo as duas alianças, a antiga e a nova. O Jordão é sua testemunha entre os rios; o mar de Tiberíades, entre os mares. Dão testemunho cegos e coxos, e mortos ressuscitados, e demônios que dizem: “O que você quer conosco, Jesus? Sabemos muito bem quem você é: o Santo de Deus!” (Mc 1.24). Os ventos dão testemunho, silenciados à sua ordem; cinco pães multiplicados para cinco mil lhe dão testemunho. O santo madeiro da cruz dá testemunho, visto entre nós até hoje, e que daqui já enche quase o mundo inteiro, por meio dos que com fé levam porções dele45. A palmeira46 do vale dá testemunho, ela que forneceu os ramos de palmeira às crianças que então o aclamaram. O Getsêmani47 dá testemunho, quase mostrando ainda Judas aos que refletem. O Gólgota, o santo monte que se ergue aqui acima de nós, dá testemunho à nossa vista; o Santo Sepulcro dá testemunho, e a pedra que ali jaz até hoje. O sol que agora brilha é sua testemunha, ele que então, no tempo da sua paixão salvadora, se eclipsou48; as trevas são sua testemunha, que então houve desde a hora sexta até a hora nona; a luz dá testemunho, que resplandeceu desde a hora nona até a tarde. O monte das Oliveiras dá testemunho, aquele santo monte de onde ele subiu para o Pai; as nuvens carregadas de chuva são suas testemunhas, tendo recebido o seu Senhor; sim, e as portas do céu dão testemunho [tendo recebido o seu Senhor49 ], das quais disse o salmista: “Levantem as suas portas, ó príncipes, e levantem-se, ó portas eternas, e entrará o Rei da glória” (Sl 24.7)50. Seus antigos inimigos dão testemunho, entre os quais está o bem-aventurado Paulo, que foi por pouco tempo seu inimigo, mas por longo tempo seu servo; os doze apóstolos são suas testemunhas, tendo pregado a verdade não só com palavras, mas também com os seus próprios tormentos e mortes; a sombra de Pedro (At 5.15) dá testemunho, tendo curado os enfermos em nome de Cristo. Os lenços e aventais dão testemunho, pois do mesmo modo, pelo poder de Cristo, realizaram curas outrora por meio de Paulo (At 19.12). Persas51 e godos52, e todos os convertidos dentre os gentios, dão testemunho, morrendo por causa daquele que nunca viram com olhos de carne; os demônios, que até hoje são expulsos pelos fiéis, dão testemunho dele.

20. Tantas e tão diversas, sim, e ainda mais do que estas, são as suas testemunhas: será então ainda desacreditado o Cristo assim testemunhado? Pelo contrário, se há alguém que antes não cria, creia agora; e, se alguém já era crente, receba um aumento maior de fé, crendo em nosso Senhor Jesus Cristo, e compreenda de quem é o nome que leva. Você é chamado cristão: zele por esse nome; que o nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, não seja blasfemado por sua causa; antes, brilhem diante dos outros as boas obras de vocês, para que, vendo-as, glorifiquem em Cristo Jesus, nosso Senhor, o Pai que está nos céus (Mt 5.16). A ele seja a glória, agora e para todo o sempre. Amém.

Notas

1. Cirilo omite a oração: como há muitos deuses e muitos senhores.

2. to poluonumon, palavra que os poetas gregos aplicavam aos seus deuses, como Homero (Hino a Deméter, 18, 32) a Zeus: Kronou poluonumos huios. Cf. Sófocles, Antígona, 1115; Ésquilo, Prometeu acorrentado, 210.

3. Cirilo chama Cristo de porta “espiritual” ou “racional” (logike), e aplica o mesmo termo às suas ovelhas, mais abaixo. Orígenes (In Evang. Joh. Tom. i. cap. 29): Thura ho Soter anagegraptai, ibid. philanthropos de on…poimen ginetai.

4. A leitura das edições mais antigas, huper anthropon (genitivo plural, “em favor dos homens”), não oferece dificuldade alguma, e por isso é mais provável que tenha sido posta no lugar da que à primeira vista é mais difícil, huper anthropon (acusativo singular, “acima do homem”), leitura do Cod. Coislin., adotada pelo editor beneditino e pelos editores seguintes. A ideia de um sacerdócio sobre-humano, para o qual o Filho, na sua natureza divina, foi ungido pelo Pai desde a eternidade, é repetida por Cirilo no § 14 desta catequese e na Catequese XI, 1, 14.

5. Comparando o que Cirilo diz aqui com a Catequese IV, 15, e XV, 10, vemos que ele quer explicar por que Cristo é chamado “Filho do Homem” quando “vem de novo do céu”, e “não mais da terra”. A oração anterior se refere à sua primeira vinda na carne, que difere da dos outros homens no modo da sua concepção e do seu nascimento.

6. Cf. Atanásio (c. Arian. II. xv. 14): “Aquele mesmo Verbo que era Senhor por natureza, e depois se fez homem, por meio da forma de servo foi feito Senhor de todos e Cristo.”

7. Cf. Irineu (III. xvi. 8): “Estão, pois, fora da dispensação todos os que, sob pretexto de conhecimento, entendem que Jesus foi um, e Cristo outro, e o Unigênito outro (do qual, por sua vez, procede o Verbo), e o Salvador outro.” Irineu menciona os cerintianos, os ebionitas, os ofitas e os valentinianos como os que assim separam o Cristo de Jesus.

8. Cf. Atanásio (Epist. X.): “Como ele é rico e múltiplo, varia-se a si mesmo conforme a capacidade individual de cada alma.”

9. ek prokopes. Sabemos por Atanásio (c. Arian. i. 37, 38, 40) que, a partir da linguagem de são Paulo em Filipenses 2.9, “Por isso também Deus o exaltou sobremaneira etc.”, e do Salmo 45.7, “Amaste a justiça e odiaste a iniquidade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros”, os arianos argumentavam que Cristo recebeu pela primeira vez a honra divina de Filho e Senhor como recompensa da sua obediência como homem. Atanásio responde (c. 40): “Ele não foi promovido de uma condição inferior; antes, existindo como Deus, tomou a forma de servo, e ao tomá-la não foi promovido, mas humilhou-se a si mesmo. Onde está aqui, então, alguma recompensa da virtude, ou que progresso (prokope) e promoção há na humilhação?” A mesma doutrina já tinha sido sustentada antes pelos discípulos de Paulo de Samósata, que diziam que Cristo não era originalmente Deus, mas que depois da sua encarnação foi feito Deus por progresso (ek prokopes), tendo sido feito por natureza um mero homem: veja Atanásio (de Decretis, § 24; c. Arian. i. 38). São Cirilo alude ao erro e usa a mesma palavra em XI, 1, 7, 13, 15, 17, e XIV, 27.

10. katachrestikos, isto é, em sentido secundário ou metafórico. Cf. VII, 5.

11. neumati, “ordem” ou “determinação”, como a que se exprime com um aceno de cabeça.

12. Orígenes (De Principiis, I. ii. 10) tinha argumentado que “nem mesmo Deus pode ser chamado onipotente se não existirem aqueles sobre os quais ele possa exercer o seu poder”, e que portanto a criação devia ser eterna, ou Deus não poderia ter sido eternamente onipotente. Em outras passagens Orígenes declara ser impiedade sustentar que a matéria é coeterna com Deus (De Princip. II. i. 4), e no entanto afirma que houve outros mundos antes deste e que nunca houve tempo em que não existisse mundo algum. Metódio, num fragmento da sua obra Sobre as coisas criadas, conservado por Fócio e citado pelo bispo Bull (Def. Fid. Nic. II. xiii. 9), argumenta contra essas teorias de Orígenes que, em Jo 1.2, as palavras “Ele estava no princípio com Deus” indicam a autoridade (to exousiastikon) que o Verbo tinha com o Pai antes de o mundo vir a existir; pois desde toda a eternidade Deus Pai, juntamente com o seu Verbo, possuía o poder todo-poderoso pelo qual, quando quisesse, podia criar mundos para governar. O deão Church observa: “Por outro lado, Tertuliano (contra Hermog. 3), considerando que os atributos em questão pertencem não à natureza divina, mas ao ofício, nega que Deus tenha sido Todo-Poderoso (Senhor?) desde a eternidade; ao passo que os gregos o afirmavam (vid. Cyril Alex. in Joann. xvii. 8, p. 963; Athan. Orat. ii. 12-14), entendendo pelo termo o atributo inerente, mas latente, de fazer o que ele ainda não tinha feito, to exousiastikon.” Cleopas, o editor de Jerusalém, considera que a passagem se dirige contra Paulo de Samósata, que afirmava que Cristo se tornou Deus e só recebeu o seu reino e o seu senhorio depois da encarnação, e observa: “São Cirilo evidentemente considera duplo o senhorio de Jesus Cristo: um, o que desde a eternidade lhe pertenceu como Deus, e que ele chama natural, segundo o qual ‘ele sempre foi Senhor e Rei, sendo Deus por natureza’ (Cyril Alex. in Johann. cap. xvii.); e o outro, o senhorio no tempo, relativo às criaturas, pelo qual ele exerce domínio sobre as obras criadas por ele, como sendo o seu Criador.”

13. Entre os que negaram a preexistência divina de Cristo, Cleopas enumera Ebion, Carpócrates, Teódoto, Artemon, Paulo de Samósata, Marcelo e Fotino.

14. Citando de memória, Cirilo inverte a ordem das duas frases.

15. Cirilo quer dizer que, mesmo antes da sua encarnação, Cristo foi visto, tanto quanto era possível, por profetas como Moisés. Esta opinião foi sustentada por muitos dos Pais antes de Cirilo. Veja Justino Mártir (Tryph. § 56 ss.); Tertuliano (adv. Praxean, § 16); Eusébio (Demonstr. Evang. V. 13-16).

16. Gr. logon, “palavra”, à imitação do idioma hebraico.

17. Literalmente, “invocarei no nome do Senhor (Jeová)”: compare com Gn 4.26.

18. Em lugar de “guarda a justiça e usa de misericórdia”, o hebraico tem apenas “guarda a misericórdia”.

19. Hebr. “Oráculo de Jeová ao meu senhor”. O argumento de Cirilo se baseia no engano comum de supor que Kurios representa a mesma palavra hebraica nas duas partes da frase.

20. Cirilo evidentemente alude a Fp 2.6, “o qual, existindo na forma de Deus, não considerou como prêmio o ser igual a Deus”; para a interpretação correta dessa passagem, veja as notas do deão Gwynn no Speaker’s Commentary.

21. Sobre este texto Atanásio escreveu um tratado especial (In illud Omnia, etc.), contra os argumentos de Ário, Eusébio e seus companheiros, que diziam: “Se todas as coisas lhe foram entregues (entendendo por ‘todas’ o senhorio da criação), houve um tempo em que ele não as tinha. Mas, se ele não as tinha, não é do Pai; pois, se fosse, por isso mesmo as teria tido sempre.” E também (contr. Arian. Orat. III. cap. xxvii. § 36) Atanásio argumenta: “Para que ninguém, percebendo que o Filho tem tudo o que o Pai tem, pela exata semelhança e identidade do que ele tem, se desviasse para a impiedade de Sabélio, considerando-o o Pai, por isso ele disse ‘Foi-me dado’, ‘Recebi’ e ‘Foram-me entregues’, somente para mostrar que ele não é o Pai, mas o Verbo do Pai e o Filho eterno, que, por causa da sua semelhança com o Pai, tem eternamente o que tem dele, e, por ser o Filho, tem do Pai o que eternamente possui.”

22. “Eis que o Senhor, cavalgando uma nuvem ligeira, vai indo para o Egito. Os ídolos do Egito estremecerão diante dele.” Muitos dos Pais supunham que a profecia se cumpriu na fuga para o Egito. Cf. Atanásio (Ep. LXI ad Maximum, § 4): “Quando criança, desceu ao Egito e reduziu a nada os seus ídolos feitos por mãos humanas”; e (de Incarn. § 36): “Qual dos justos ou dos reis desceu ao Egito, de modo que à sua chegada os ídolos do Egito caíssem?” Sobre a passagem de Isaías, veja Delitzsch e Kay (Speaker’s Commentary).

23. Compare Eusébio (Hist. Ecl. I, cap. iii), passagem que Cirilo parece ter seguido na explicação dos nomes “Jesus” e “Cristo”.

24. Em lugar da leitura comum enkritois panton, o Cod. Mon. I traz ekkritois p., exigida tanto pela construção quanto pelo sentido. A mudança pode ter sido causada pela ocorrência de enkriton logo abaixo.

25. Eusébio (u.s.): “Ao seu sucessor, pois, que até então não tinha o nome de Jesus, mas fora chamado por outro nome, Auses, que lhe deram seus pais, ele passou a chamar Jesus, concedendo-lhe o nome como um dom de honra muito maior do que qualquer diadema real.” Auses é uma corruptela comum do nome Oseias.

26. Eusébio: “Ele consagrou um homem sumo sacerdote de Deus, tanto quanto isso era possível, e a ele chamou Cristo.” Cf. Lv 4.5, 16; 6.22: ho hiereus ho Christos.

27. Cirilo omite da citação a referência ao Sl 2.7: “Você é meu Filho, hoje eu gerei você.”

28. “Eis que vem a tua salvação; eis que a sua recompensa está com ele.”

29. to kurioktonon ton Ioudaion.

30. O anátema anexado ao Credo de Niceia condena os que diziam prin gennethenai ouk en. Sobre isso, Eusébio de Cesareia (Epist. § 9) observa: “Além disso, anatematizar ‘Antes da sua geração ele não existia’ não pareceu absurdo, visto que todos confessam que o Filho de Deus existia antes da geração segundo a carne.”

31. tuphlon aistheton.

32. Compare o fragmento da Apologia de Quadrato, apresentada a Adriano em 127 d.C., conservado por Eusébio (H.E. IV, iii): “Mas as obras do nosso Salvador estavam sempre presentes, pois eram verdadeiras: os que foram curados e os que ressuscitaram dentre os mortos, os quais não só foram vistos quando eram curados e quando eram ressuscitados, mas também estavam sempre presentes; e não apenas enquanto o Salvador estava na terra, mas também depois da sua morte viveram por muito tempo, de modo que alguns deles sobreviveram até os nossos tempos.”

33. Sobre a opinião de que Cristo foi, desde toda a eternidade, o verdadeiro Sumo Sacerdote da criação, cf. X, 4; XI, 1. Atanásio (c. Arian. Or. ii. 12, J. H. N.).

34. A palavra “sinaxe” era usada pelos primeiros cristãos para distinguir as suas assembleias da “sinagoga” judaica, palavra formada da mesma raiz e de modo mais regular. “Sinaxe” passou a ser usada mais especialmente para a celebração da Eucaristia. Veja Suicer, Thesaurus, Sunaxis.

35. skeuasto, Êx 30.22-25: “um perfume composto (murepsikon) segundo a arte do perfumista” (R.V.).

36. A “lâmpada para o ungido” era comumente aplicada pelos Pais a João Batista. Compare Jo 5.35 e a nota do bispo Westcott sobre essa passagem.

37. A suposta referência do Salmo à lâmpada da profecia é mencionada por Eusébio (Demonstr. Evang. IV, cap. 16).

38. A aplicação da “lâmpada” à encarnação de Cristo é mencionada por Eusébio (u.s.) e por outros Pais.

39. No hebraico: “e declara aos seres humanos qual é o seu pensamento”. Onde o hebraico diz מה־שחו, “qual é o seu pensamento”, a LXX leu משיחו, “o seu Ungido”, ton Christon autou.

40. ouk epoliteueto, “não tinha cidadania”, “não estava naturalizado”. Cf. Suetônio, Nero, cap. 16: “Christiani, genus hominum superstitionis novae et maleficae.”

41. to xenon.

42. Aqui a LXX se afasta do sentido do hebraico: “Ele chamará os seus servos por outro nome, de modo que quem se abençoar na terra se abençoará no Deus da verdade” (R.V.).

43. he theotokos, Deipara. Gibbon (cap. xlvii, 34) diz: “Não é fácil fixar a invenção desta palavra, que La Croze (Christianisme des Indes, tom. i, p. 16) atribui a Eusébio de Cesareia e aos arianos. Os testemunhos ortodoxos são apresentados por Cirilo (de Alexandria) e por Petávio (Dogmat. Theolog. tom. v, L. v, cap. 15, p. 254 etc.), mas a veracidade do santo é questionável, e o epíteto theotokos desliza tão facilmente da margem para o texto de um manuscrito católico.” Esta passagem é justamente chamada “a calúnia de Gibbon” pelo Dr. Newman: veja as suas notas sobre o título theotokos (Athan. c. Arian. Or. ii, cap. 12, n.; Or. iii, caps. 14, 29, 33). A palavra é certamente usada por Orígenes (sobre Dt 22.13, Lommatzsch, tom. x, p. 378): “A que já está desposada é chamada esposa, como também no caso de José e da Theotokos.” Cf. Arquelau (Disput. cum Mane, cap. xxxiv: “qui de Maria Dei Genetrice natus est”); Eusébio (de Vita Constantini, III, cap. 43: “A piedosa imperatriz adornou com raros memoriais o lugar do parto da Theotokos“). Para outros exemplos, veja o Thesaurus de Suicer, theotokos; Pearson, Creed, art. iii, notas l, m, n, o; e Routh, Reliq. Sacr. ii, p. 332.

44. “Crisóstomo, descrevendo o estado florescente da Igreja no Egito naqueles tempos, diz: ‘O Egito o acolhe e o salva quando fugitivo e perseguido por tramas, e recebe como que um começo da sua consagração a ele, para que, quando o ouvir proclamado pelos apóstolos, seja também honrado no tempo deles como o primeiro a acolhê-lo'” (Cleopas).

45. Veja Catequese IV, 10.

46. O Peregrino de Bordéus, que visitou os Lugares Santos de Jerusalém por volta de 333 d.C., fala desta palmeira como ainda existente. A longevidade da palmeira era proverbial: cf. Aristóteles (De Longitudine Vitae, c. iv, 2).

47. O mesmo Peregrino (citado pelo editor beneditino) diz: “Há também a rocha onde Judas Iscariotes traiu Cristo.” Compare Catequese XIII, 38.

48. Veja Catequese II, 15, e XIII, 25, 34, 38. Sobre o caráter sobrenatural das trevas mencionadas nos Evangelhos, veja Meyer, Commentary, Mt 27.45. Um eclipse do sol era, naturalmente, impossível, pois a lua estava cheia. O Sr. J. R. Hind (Historical Eclipses, “Times”, 19 de julho de 1872) afirma que o eclipse solar mencionado por Flegonte, liberto de Adriano, ocorrido em 24 de novembro de 29 d.C. e parcial em Jerusalém, é “o único eclipse solar que poderia ter sido visível em Jerusalém durante o período geralmente fixado para o ministério de Cristo”. E acrescenta: “A lua esteve eclipsada na data geralmente aceita da crucificação, 3 de abril de 33 d.C. Verifico que ela já tinha saído da sombra escura da terra um quarto de hora antes de nascer em Jerusalém (18h36), mas a penumbra continuou sobre o seu disco por uma hora depois.” Assim, as “trevas desde a hora sexta até a hora nona” não podem ser explicadas como efeito natural de um eclipse, nem solar nem lunar.

49. Esta oração é omitida nos Codd. Mon. 1, 2, Roe, Casaub., e provavelmente foi repetida da linha anterior; tais repetições, porém, não são incomuns no estilo de Cirilo.

50. A primeira oração é mal traduzida pela LXX, da qual Cirilo cita.

51. A perseguição aos cristãos na Pérsia sob Sapor II é descrita longamente por Sozomeno (H.E. II, caps. ix-xv). Começou em 343 d.C. e continuava na data destas catequeses e muito depois. “Durante cinquenta anos a cruz jazeu prostrada em sangue e cinzas” (Dict. Bib., “Sassanidae”). Compare Neander, Church History, tom. III, p. 148, Bohn.

52. Os godos aqui mencionados são os Gothi minores, que habitavam ao norte do Danúbio, onde Úlfilas, “o apóstolo dos godos” (311-381), converteu muitos dos seus compatriotas ao cristianismo. Depois de sofrer severa perseguição, recebeu do imperador Constâncio permissão para refugiar-se com os seus convertidos arianos na Mésia e na Trácia. Essa migração ocorreu em 348 d.C., o mesmo ano em que as catequeses de Cirilo foram pronunciadas.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.