Eusébio, História Eclesiástica · Livro I

Livro I, capítulos 1 a 5

O plano da obra; a preexistência e a divindade de Cristo; os nomes de Jesus e de Cristo, conhecidos desde o princípio; a fé anunciada por ele não é nova; o tempo da sua vinda.

Capítulo I. O plano da obra

1. Meu propósito é escrever um relato das sucessões dos santos apóstolos, bem como dos tempos decorridos desde os dias de nosso Salvador até os nossos; narrar os muitos e importantes acontecimentos que, segundo se diz, ocorreram na história da Igreja; e mencionar os que governaram e presidiram a Igreja nas igrejas mais proeminentes, assim como os que, em cada geração, proclamaram a palavra divina, seja de viva voz, seja por escrito.

2. Meu propósito é também dar os nomes, o número e os tempos daqueles que, por amor à novidade, se lançaram aos maiores erros e, proclamando-se descobridores daquilo que falsamente se chama conhecimento (1Tm 6.20), como lobos ferozes devastaram sem piedade o rebanho de Cristo.

3. Pretendo, além disso, relatar as desgraças que logo sobrevieram a toda a nação judaica em consequência de suas conspirações contra nosso Salvador; registrar os modos e os tempos em que a palavra divina foi atacada pelos gentios; descrever o caráter daqueles que, em diversas épocas, lutaram por ela diante do sangue e das torturas, bem como as confissões feitas em nossos próprios dias; e, por fim, o socorro gracioso e benigno que nosso Salvador prestou a todos eles. Como me proponho escrever sobre todas essas coisas, começarei minha obra pelo princípio da economia de nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.

4. Mas, logo de início, devo pedir para minha obra a indulgência dos sábios, pois confesso que está acima de minhas forças produzir uma história perfeita e completa. E, sendo eu o primeiro a empreender este assunto, procuro percorrer, por assim dizer, um caminho solitário e nunca trilhado. Rogo que eu tenha Deus como guia e o poder do Senhor como auxílio, pois não consigo encontrar nem mesmo as simples pegadas dos que percorreram esse caminho antes de mim, a não ser em breves fragmentos, nos quais uns de um modo, outros de outro, nos transmitiram relatos particulares dos tempos em que viveram. De longe eles erguem a voz como tochas e clamam, como do alto de uma torre de vigia elevada e bem visível, advertindo-nos por onde caminhar e como dirigir o curso de nossa obra com firmeza e segurança.

5. Tendo, pois, reunido daquilo que eles mencionam aqui e ali tudo o que julgamos importante para a presente obra, e tendo colhido, como flores de um prado, as passagens apropriadas dos escritores antigos, procuraremos incorporar o conjunto numa narrativa histórica, satisfeitos se conservarmos a memória das sucessões dos apóstolos de nosso Salvador; se não de todos, ao menos dos mais renomados deles, naquelas igrejas que são as mais notáveis e que até o presente são tidas em honra.

6. Esta obra me parece de especial importância, porque não conheço nenhum escritor eclesiástico que se tenha dedicado a este assunto; e espero que ela se mostre muito útil aos que apreciam a pesquisa histórica.

7. Já fiz um resumo dessas coisas nos Cânones Cronológicos que compus; apesar disso, empreendi na presente obra escrever sobre elas um relato tão completo quanto me for possível.

8. Minha obra começará, como eu disse, pela economia do Salvador Cristo, que é mais elevada e maior do que a concepção humana, e por uma discussão de sua divindade;

9. pois, uma vez que derivamos de Cristo o nosso próprio nome, é necessário que quem se propõe escrever uma história da Igreja comece pela própria origem da economia de Cristo, economia mais divina do que muitos pensam.

Capítulo II. Visão resumida da preexistência e da divindade de nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo

1. Em Cristo há uma natureza dupla. Uma delas, enquanto ele é concebido como Deus, se assemelha à cabeça do corpo; a outra pode ser comparada aos pés, enquanto ele, por causa de nossa salvação, assumiu a natureza humana sujeita às mesmas paixões que a nossa. Por isso, a obra que se segue só estará completa se começarmos pelos acontecimentos principais e mais sublimes de toda a sua história. Desse modo se mostrarão a antiguidade e a divindade do cristianismo aos que o supõem de origem recente e estrangeira e imaginam que apareceu apenas ontem.

2. Nenhuma linguagem basta para exprimir a origem e a dignidade, o ser e a natureza de Cristo. Por isso também o Espírito divino diz nas profecias: “Quem declarará a sua geração?” (Is 53.8). Pois ninguém conhece o Pai senão o Filho, nem pode alguém conhecer adequadamente o Filho senão somente o Pai, que o gerou (Mt 11.27).

3. Pois quem, além do Pai, poderia compreender claramente a Luz que existia antes do mundo, a Sabedoria intelectual e essencial que existia antes dos séculos, o Verbo vivo que no princípio estava com o Pai e era Deus, o primeiro e unigênito de Deus, que existia antes de toda criatura e de toda criação visível e invisível, o comandante supremo do exército racional e imortal do céu, o mensageiro do grande conselho, o executor da vontade não expressa do Pai, o criador, com o Pai, de todas as coisas, a segunda causa do universo depois do Pai, o verdadeiro e unigênito Filho de Deus, o Senhor, Deus e Rei de todas as coisas criadas, aquele que recebeu do Pai o domínio e o poder, juntamente com a própria divindade, com a força e a honra? Assim se diz a respeito dele nas passagens místicas da Escritura que falam de sua divindade: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). “Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada se fez” (Jo 1.3).

4. Isso também ensina o grande Moisés quando, como o mais antigo de todos os profetas, descreve sob a influência do Espírito divino a criação e a ordenação do universo. Ele declara que o artífice do mundo e criador de todas as coisas cedeu ao próprio Cristo, e a nenhum outro senão ao seu Verbo claramente divino e primogênito, a feitura das coisas inferiores, e com ele se aconselhou a respeito da criação do homem. “Pois”, diz ele, “Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem e à nossa semelhança” (Gn 1.26).

5. E outro dos profetas confirma isso, falando de Deus em seus hinos da seguinte maneira: “Ele falou, e foram feitos; ele ordenou, e foram criados.” Aqui ele apresenta o Pai e Criador como Soberano de todas as coisas, que dá ordens com um aceno régio, e, em segundo lugar depois dele, o Verbo divino, nenhum outro senão aquele que é anunciado por nós, como o executor das ordens do Pai.

6. Todos os que, desde a criação do homem, se diz terem sobressaído em justiça e piedade, o grande servo Moisés e, antes dele, em primeiro lugar, Abraão e seus filhos, e todos os homens justos e profetas que apareceram depois, contemplaram-no com os olhos puros da mente, reconheceram-no e lhe prestaram o culto que lhe é devido como Filho de Deus.

7. Mas ele, de modo algum descuidado da reverência devida ao Pai, foi designado para ensinar a todos eles o conhecimento do Pai. Por exemplo, o Senhor Deus, como se diz, apareceu como um homem comum a Abraão, quando este estava sentado junto ao carvalho de Manre (Gn 18.1). E Abraão, prostrando-se imediatamente, embora visse com os olhos um homem, ainda assim o adorou como Deus, ofereceu-lhe sacrifício como Senhor e confessou que não ignorava quem ele era, quando pronunciou as palavras: “Senhor, Juiz de toda a terra, não farás justiça?” (Gn 18.25).

8. Pois não é razoável supor que a essência não gerada e imutável do Deus todo-poderoso se tenha transformado em forma humana, ou que tenha enganado os olhos dos que a viam com a aparência de alguma coisa criada. Tampouco é razoável supor, por outro lado, que a Escritura tenha inventado falsamente tais coisas. Assim, quando o Deus e Senhor que julga toda a terra e executa o juízo é visto em forma de homem, quem mais poderia ser chamado assim, se não é lícito chamá-lo de causa primeira de todas as coisas, senão o seu único Verbo preexistente? A respeito dele se diz nos Salmos: “Enviou a sua palavra e os sarou, e os livrou do que lhes era mortal” (Sl 107.20).

9. Moisés o proclama com toda a clareza segundo Senhor depois do Pai, quando diz: “O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo da parte do Senhor” (Gn 19.24). A divina Escritura também o chama Deus quando ele apareceu novamente a Jacó em forma de homem e lhe disse: “Teu nome não será mais Jacó, mas Israel será o teu nome, porque prevaleceste com Deus” (Gn 32.28). Por isso também Jacó chamou aquele lugar “Visão de Deus”, dizendo: “Pois vi Deus face a face, e a minha vida foi salva” (Gn 32.30).

10. Também não é admissível supor que as teofanias registradas tenham sido aparições de anjos subordinados e ministros de Deus, pois, sempre que algum destes apareceu aos homens, a Escritura não oculta o fato, mas os chama pelo nome, não de Deus nem de Senhor, mas de anjos, como é fácil provar com inúmeros testemunhos.

11. Josué, sucessor de Moisés, também o chama, como chefe dos anjos e arcanjos celestiais e das potestades supramundanas, e como lugar-tenente do Pai, a quem foi confiado o segundo posto de soberania e domínio sobre todas as coisas, “príncipe do exército do Senhor”, embora não o visse de outro modo senão, mais uma vez, na forma e aparência de um homem. Pois está escrito:

12. “E aconteceu que, estando Josué junto a Jericó, olhou e viu um homem em pé diante dele, com a espada desembainhada na mão. Josué foi até ele e disse: És tu dos nossos ou dos nossos adversários? E ele lhe disse: Como príncipe do exército do Senhor, vim agora. E Josué caiu com o rosto em terra e lhe disse: Senhor, que ordenas ao teu servo? E o príncipe do Senhor disse a Josué: Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é santo” (Js 5.13-15).

13. Pelas mesmas palavras perceberás também que este não era outro senão aquele que falou com Moisés. Pois a Escritura diz, com as mesmas palavras e referindo-se ao mesmo: “Quando o Senhor viu que ele se aproximava para ver, o Senhor o chamou do meio da sarça e disse: Moisés, Moisés. E ele disse: Que é? E ele disse: Não te aproximes daqui; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa. E disse-lhe: Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (Êx 3.4-6).

14. E que há uma certa substância que vivia e subsistia antes do mundo, que serviu ao Pai e Deus do universo na formação de todas as coisas criadas, e que é chamada Verbo de Deus e Sabedoria, podemos aprendê-lo, para citar outras provas além das já mencionadas, da boca da própria Sabedoria, que revela com toda a clareza, por meio de Salomão, os seguintes mistérios a respeito de si mesma: “Eu, a Sabedoria, habitei com a prudência e o conhecimento, e invoquei o entendimento. Por mim reinam os reis, e os príncipes decretam a justiça. Por mim os grandes são engrandecidos, e por mim os soberanos governam a terra” (Pv 8.12, 15-16).

15. Ao que ela acrescenta: “O Senhor me criou no princípio dos seus caminhos, para as suas obras; antes do mundo ele me estabeleceu, no princípio, antes de fazer a terra, antes de fazer os abismos, antes que os montes fossem firmados, antes de todas as colinas ele me gerou. Quando ele preparava os céus, eu estava presente com ele, e quando estabelecia as fontes da região que está debaixo do céu, eu estava com ele, ordenando. Eu era aquela em quem ele se deleitava; diariamente eu me alegrava diante dele, em todo o tempo, quando ele se alegrava por ter completado o mundo” (Pv 8.22-25, 27-28, 30-31).

16. Que o Verbo divino, portanto, preexistia e apareceu a alguns, se não a todos, ficou assim brevemente demonstrado por nós.

17. Mas por que o Evangelho não foi pregado nos tempos antigos a todos os homens e a todas as nações, como agora, ficará claro pelas considerações seguintes. A vida dos antigos não era de natureza tal que lhes permitisse receber o ensino de Cristo, todo sábio e todo virtuoso.

18. Pois logo no princípio, depois de sua vida original de bem-aventurança, o primeiro homem desprezou o mandamento de Deus e caiu neste estado mortal e perecível, trocando suas antigas delícias, divinamente inspiradas, por esta terra carregada de maldição. Seus descendentes, tendo enchido a nossa terra, mostraram-se muito piores, com exceção de um aqui e outro ali, e adotaram um modo de vida brutal e insuportável.

19. Não pensavam nem em cidade nem em Estado, nem em artes nem em ciências. Ignoravam até o nome das leis e da justiça, da virtude e da filosofia. Como nômades, passavam a vida nos desertos, como animais selvagens e ferozes, destruindo, por um excesso de maldade voluntária, a razão natural do homem e as sementes do pensamento e da cultura implantadas na alma humana. Entregavam-se inteiramente a toda espécie de impiedade, ora seduzindo-se uns aos outros, ora matando-se uns aos outros, ora comendo carne humana, ora ousando fazer guerra aos deuses e empreender aquelas batalhas dos gigantes celebradas por todos; ora planejando fortificar a terra contra o céu e, na loucura de um orgulho desenfreado, preparar um ataque contra o próprio Deus de todas as coisas.

20. Por causa dessas coisas, porque assim se conduziam, o Deus que tudo vê enviou sobre eles dilúvios e incêndios, como sobre uma floresta selvagem espalhada por toda a terra. Abateu-os com fomes e pestes contínuas, com guerras e com raios do céu, como se quisesse deter com castigos mais severos uma terrível e obstinada doença das almas.

21. Então, quando o excesso de maldade havia submergido quase toda a raça, como uma profunda embriaguez que anuvia e obscurece a mente dos homens, a sabedoria primogênita e primeira criada de Deus, o próprio Verbo preexistente, movido por seu imenso amor aos homens, apareceu aos seus servos, ora em forma de anjos, ora a um e outro daqueles antigos que gozavam do favor de Deus, em sua própria pessoa, como o poder salvador de Deus; não, porém, de outro modo senão em figura humana, porque era impossível aparecer de outra maneira.

22. E como, por meio deles, as sementes da piedade foram semeadas entre uma multidão de homens, e toda a nação descendente dos hebreus se dedicou com perseverança ao culto de Deus, ele lhes transmitiu, por meio do profeta Moisés, como a multidões ainda corrompidas por suas antigas práticas, imagens e símbolos de um certo sábado místico e da circuncisão, e elementos de outros princípios espirituais; mas não lhes concedeu o conhecimento completo dos próprios mistérios.

23. Mas, quando a lei deles se tornou célebre e, como um perfume suave, se difundiu entre todos os homens, como resultado de sua influência as disposições da maioria dos pagãos foram abrandadas pelos legisladores e filósofos que surgiram por toda parte, e sua brutalidade selvagem e feroz se converteu em mansidão, de modo que desfrutaram de profunda paz, amizade e convívio social. Então, finalmente, no tempo da origem do Império Romano, apareceu de novo a todos os homens e nações de todo o mundo, que tinham sido, por assim dizer, previamente auxiliados e estavam agora aptos a receber o conhecimento do Pai, aquele mesmo mestre da virtude, o ministro do Pai em todas as coisas boas, o divino e celestial Verbo de Deus, num corpo humano que em nada diferia do nosso em substância. Ele fez e sofreu as coisas que haviam sido profetizadas. Pois fora predito que viria e habitaria no mundo alguém que seria ao mesmo tempo homem e Deus, que realizaria obras maravilhosas e se mostraria a todas as nações como mestre da piedade para com o Pai. Também haviam sido preditos a natureza maravilhosa de seu nascimento, seu novo ensino e suas obras admiráveis; e, da mesma forma, o modo de sua morte, sua ressurreição dentre os mortos e, por fim, sua divina ascensão ao céu.

24. Por exemplo, o profeta Daniel, sob a influência do Espírito divino, vendo o reino dele no fim dos tempos, foi inspirado a descrever assim a visão divina, em linguagem adequada à compreensão humana: “Pois eu olhei”, diz ele, “até que foram postos tronos, e o Ancião de Dias se assentou. Sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça eram como a lã pura; seu trono era chama de fogo, e suas rodas, fogo ardente. Um rio de fogo corria diante dele. Milhares de milhares o serviam, e miríades de miríades estavam diante dele. Ele estabeleceu o juízo, e os livros foram abertos” (Dn 7.9-10).

25. E de novo: “Eu vi”, diz ele, “e eis que vinha com as nuvens do céu alguém como um filho do homem; ele se apressou até o Ancião de Dias e foi levado à sua presença, e foram-lhe dados o domínio, a glória e o reino; e todos os povos, tribos e línguas o servem. O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino não será destruído” (Dn 7.13-14).

26. É claro que essas palavras não podem referir-se a nenhum outro senão ao nosso Salvador, o Deus Verbo, que no princípio estava com Deus e que foi chamado Filho do homem por causa de sua manifestação final na carne.

27. Mas, como reunimos em livros à parte as passagens dos profetas que se referem ao nosso Salvador Jesus Cristo e dispusemos de forma mais ordenada as coisas que foram reveladas a respeito dele, o que foi dito bastará por ora.

Capítulo III. O nome Jesus e também o nome Cristo eram conhecidos desde o princípio e foram honrados pelos profetas inspirados

1. É agora o lugar apropriado para mostrar que o próprio nome Jesus e também o nome Cristo foram honrados pelos antigos profetas amados de Deus.

2. Moisés foi o primeiro a dar a conhecer o nome de Cristo como um nome especialmente augusto e glorioso. Quando transmitiu tipos e símbolos das coisas celestiais e imagens misteriosas, de acordo com o oráculo que lhe disse: “Tenha o cuidado de fazer tudo segundo o modelo que foi mostrado a você no monte” (Êx 25.40), consagrou um homem como sumo sacerdote de Deus, tanto quanto isso era possível, e o chamou Cristo [N. do T.: “Cristo” é a palavra grega para “ungido”]. E assim, a essa dignidade do sumo sacerdócio, que a seu ver superava a posição mais honrosa entre os homens, ele associou, por honra e glória, o nome de Cristo.

3. Tão bem sabia ele que em Cristo havia algo divino. E o mesmo Moisés, prevendo sob a influência do Espírito divino o nome Jesus, também o distinguiu com um privilégio especial. Pois o nome de Jesus, que nunca fora pronunciado entre os homens antes do tempo de Moisés, ele o aplicou primeiro e unicamente àquele que, como sabia, receberia depois de sua morte, também como tipo e símbolo, o comando supremo.

4. Assim, ao seu sucessor, que até então não levava o nome Jesus, mas era chamado por outro nome, Auses, que lhe fora dado pelos pais, ele passou a chamar Jesus, conferindo-lhe o nome como um dom de honra, muito maior do que qualquer diadema real [N. do T.: “Jesus” é a forma grega do nome hebraico Josué; Auses é forma corrompida de Oseias, e Nave é a forma grega de Num (Nm 13.16)]. Pois o próprio Jesus, filho de Nave, tinha semelhança com nosso Salvador no fato de que somente ele, depois de Moisés e depois de concluído o culto simbólico que este havia transmitido, sucedeu no governo da religião verdadeira e pura.

5. Assim Moisés conferiu o nome de nosso Salvador, Jesus Cristo, como sinal da mais alta honra, aos dois homens que em seu tempo superavam todo o restante do povo em virtude e glória, a saber, ao sumo sacerdote e ao seu próprio sucessor no governo.

6. E os profetas que vieram depois também predisseram claramente o Cristo pelo nome, anunciando ao mesmo tempo as conspirações que o povo judeu tramaria contra ele e o chamamento das nações por meio dele. Jeremias, por exemplo, fala assim: “O Espírito diante de nossa face, Cristo, o Senhor, foi apanhado em suas destruições; dele dissemos: à sua sombra viveremos entre as nações” (Lm 4.20). E Davi, perplexo, diz: “Por que se enfureceram as nações e os povos imaginaram coisas vãs? Os reis da terra se puseram em ordem de batalha, e os governantes se reuniram contra o Senhor e contra o seu Cristo” (Sl 2.1-2); ao que acrescenta, na pessoa do próprio Cristo: “O Senhor me disse: Tu és meu Filho, hoje eu te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão” (Sl 2.7-8).

7. E entre os hebreus não foram adornados com o nome de Cristo apenas os que eram honrados com o sumo sacerdócio e que, por causa do símbolo, eram ungidos com óleo especialmente preparado, mas também os reis que os profetas ungiam sob a influência do Espírito divino, constituindo-os assim, por assim dizer, Cristos típicos. Pois também eles traziam em suas próprias pessoas tipos do poder régio e soberano do verdadeiro e único Cristo, o Verbo divino que reina sobre todas as coisas.

8. E também nos foi transmitido que alguns dos próprios profetas se tornaram, pelo ato da unção, Cristos em tipo, de modo que todos esses se referem ao verdadeiro Cristo, o Verbo divinamente inspirado e celestial, que é o único sumo sacerdote de todos, o único Rei de toda criatura e o único supremo profeta dos profetas da parte do Pai.

9. E prova disso é que nenhum dos que antigamente foram ungidos simbolicamente, fossem sacerdotes, reis ou profetas, possuiu um poder tão grande de virtude inspirada como o que se manifestou em nosso Salvador e Senhor Jesus, o verdadeiro e único Cristo.

10. Nenhum deles, ao menos, por superiores que tenham sido em dignidade e honra durante muitas gerações entre o seu próprio povo, jamais deu aos seus seguidores o nome de cristãos a partir do seu próprio nome típico de Cristo. Nem jamais foi prestada honra divina a qualquer deles por parte de seus súditos; nem, depois de sua morte, a disposição de seus seguidores foi tal que estivessem prontos a morrer por aquele a quem honravam. E nunca se levantou tão grande comoção entre todas as nações da terra a respeito de alguém daquela época; pois o mero símbolo não podia agir com tanto poder entre eles como a própria verdade, que se manifestou em nosso Salvador.

11. Ele, embora não tenha recebido de ninguém símbolos e tipos do sumo sacerdócio, embora não tenha nascido de uma linhagem de sacerdotes, embora não tenha sido elevado a um reino por guardas militares, embora não tenha sido profeta como os antigos, embora não tenha obtido nenhuma honra nem preeminência entre os judeus, ainda assim foi adornado pelo Pai com todas essas coisas, se não com os símbolos, com a própria verdade.

12. E por isso, embora não possuísse honras semelhantes às daqueles que mencionamos, é chamado Cristo mais do que todos eles. E, sendo ele mesmo o verdadeiro e único Cristo de Deus, encheu toda a terra com o nome verdadeiramente augusto e sagrado de cristãos, confiando aos seus seguidores não mais tipos e imagens, mas as próprias virtudes sem véu e uma vida celestial nas próprias doutrinas da verdade.

13. E ele não foi ungido com óleo preparado de substâncias materiais, mas, como convém à divindade, com o próprio Espírito divino, pela participação na divindade não gerada do Pai. E isso é ensinado também por Isaías, que exclama, como se na pessoa do próprio Cristo: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso ele me ungiu. Enviou-me a pregar o Evangelho aos pobres, a proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos” (Is 61.1).

14. E não somente Isaías, mas também Davi se dirige a ele, dizendo: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre. Cetro de equidade é o cetro do teu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniquidade. Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria acima dos teus companheiros” (Sl 45.6-7). Aqui a Escritura o chama Deus no primeiro versículo; no segundo, o honra com o cetro real.

15. Depois, um pouco mais adiante, após o poder divino e régio, ela o apresenta em terceiro lugar como tendo se tornado Cristo, ungido não com óleo feito de substâncias materiais, mas com o divino óleo de alegria. Indica assim a sua honra especial, muito superior e diferente da honra daqueles que, como tipos, foram antigamente ungidos de modo mais material.

16. E em outro lugar o mesmo escritor fala dele da seguinte maneira: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés” (Sl 110.1); e: “Do ventre, antes da estrela da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl 110.3-4).

17. Ora, esse Melquisedeque é apresentado nas Sagradas Escrituras como sacerdote do Deus Altíssimo, não consagrado com nenhum óleo de unção especialmente preparado, e nem sequer pertencente por descendência ao sacerdócio dos judeus. Por isso, foi segundo a ordem dele, e não segundo a ordem dos outros, que receberam símbolos e tipos, que nosso Salvador foi proclamado, com o apelo a um juramento, Cristo e sacerdote.

18. A história, portanto, não relata que ele tenha sido ungido corporalmente pelos judeus, nem que pertencesse à linhagem dos sacerdotes, mas que veio à existência da parte do próprio Deus antes da estrela da manhã, isto é, antes da organização do mundo, e que obteve um sacerdócio imortal e incorruptível pelos séculos eternos.

19. Mas é uma prova grande e convincente de sua unção incorpórea e divina o fato de que somente ele, entre todos os que já existiram, é até o dia de hoje chamado Cristo por todos os homens em todo o mundo, é confessado e testemunhado sob esse nome, é lembrado tanto por gregos como por bárbaros, e até hoje é honrado como Rei por seus seguidores em todo o mundo, é admirado como mais do que profeta e é glorificado como o verdadeiro e único sumo sacerdote de Deus. E, além de tudo isso, como o Verbo preexistente de Deus, chamado à existência antes de todos os séculos, recebeu do Pai uma honra augusta e é adorado como Deus.

20. Mas o mais admirável de tudo é que nós, que nos consagramos a ele, o honramos não somente com a voz e com o som das palavras, mas também com toda a elevação da alma, de modo que preferimos dar testemunho dele a preservar a própria vida.

21. Por necessidade antepus estas questões à minha história, para que ninguém, julgando pela data de sua encarnação, pense que nosso Salvador e Senhor Jesus, o Cristo, veio à existência apenas recentemente.

Capítulo IV. A religião que ele anunciou a todas as nações não era nova nem estranha

1. Mas, para que ninguém suponha que sua doutrina é nova e estranha, como se tivesse sido elaborada por um homem de origem recente, em nada diferente dos outros homens, consideremos agora brevemente também esse ponto.

2. É reconhecido que, quando em tempos recentes a manifestação de nosso Salvador Jesus Cristo se tornou conhecida de todos os homens, apareceu imediatamente uma nação nova; uma nação reconhecidamente não pequena, nem habitante de algum canto da terra, mas a mais numerosa e a mais piedosa de todas as nações, indestrutível e invencível, porque sempre recebe auxílio de Deus. Essa nação, surgida assim de repente no tempo fixado pelo conselho inescrutável de Deus, é a que foi honrada por todos com o nome de Cristo.

3. Um dos profetas, quando viu de antemão, com o olho do Espírito divino, aquilo que haveria de ser, ficou tão espantado que exclamou: “Quem ouviu tais coisas, e quem falou assim? Acaso a terra deu à luz num só dia, e nasceu uma nação de uma só vez?” (Is 66.8). E o mesmo profeta dá também uma indicação do nome pelo qual a nação haveria de ser chamada, quando diz: “Os que me servem serão chamados por um nome novo, que será bendito sobre a terra” (Is 65.15-16).

4. Mas, embora seja claro que somos novos e que esse novo nome de cristãos só recentemente se tornou conhecido entre todas as nações, ainda assim nossa vida e nossa conduta, com nossas doutrinas religiosas, não foram inventadas por nós ultimamente, mas, por assim dizer, desde a primeira criação do homem foram estabelecidas pelo entendimento natural dos homens de outrora favorecidos por Deus. Que é assim, mostraremos da seguinte maneira.

5. Que a nação hebraica não é nova, mas é honrada em toda parte por causa de sua antiguidade, é coisa sabida de todos. Os livros e escritos desse povo contêm relatos de homens antigos, raros sem dúvida e poucos em número, mas ainda assim distintos pela piedade, pela justiça e por todas as demais virtudes. Desses, alguns homens excelentes viveram antes do dilúvio; outros, dentre os filhos e descendentes de Noé, viveram depois dele, entre os quais Abraão, a quem os hebreus celebram como seu próprio fundador e antepassado.

6. Se alguém afirmasse que todos os que receberam o testemunho de justiça, desde o próprio Abraão até o primeiro homem, eram cristãos de fato, se não de nome, não iria além da verdade.

7. Pois aquilo que o nome indica, a saber, que o homem cristão, pelo conhecimento e pelo ensino de Cristo, se distingue pela temperança e pela justiça, pela paciência na vida e pela virtude varonil, e pela profissão de piedade para com o único Deus, que está acima de todas as coisas, tudo isso foi praticado por eles com zelo não menor do que por nós.

8. Eles não se importavam com a circuncisão do corpo, nem nós. Não se importavam com a observância dos sábados, nem nós. Não evitavam certos tipos de alimento, nem consideravam as outras distinções que Moisés foi o primeiro a transmitir à posteridade deles para serem observadas como símbolos; nem os cristãos de hoje fazem tais coisas. Mas também conheciam claramente o próprio Cristo de Deus; pois já se mostrou que ele apareceu a Abraão, que deu revelações a Isaque, que falou com Jacó, que conversou com Moisés e com os profetas que vieram depois.

9. Por isso encontrarás aqueles homens favorecidos por Deus honrados com o nome de Cristo, segundo a passagem que diz a respeito deles: “Não toqueis nos meus Cristos, nem façais mal aos meus profetas” (Sl 105.15).

10. De modo que é claramente necessário considerar aquela religião, que recentemente foi pregada a todas as nações por meio do ensino de Cristo, como a primeira e a mais antiga de todas as religiões, e aquela que foi descoberta por aqueles homens favorecidos por Deus no tempo de Abraão.

11. Se se disser que Abraão, muito tempo depois, recebeu o mandamento da circuncisão, respondemos que, apesar disso, antes dela já se declarara que ele havia recebido o testemunho de justiça pela fé, como diz a palavra divina: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça” (Gn 15.6).

12. E, de fato, a Abraão, que assim era um homem justificado antes de sua circuncisão, foi dada por Deus, que se revelou a ele (e este era o próprio Cristo, o Verbo de Deus), uma profecia a respeito daqueles que, nos séculos vindouros, haveriam de ser justificados da mesma maneira que ele. A profecia estava nestas palavras: “E em ti serão benditas todas as tribos da terra” (Gn 12.3). E de novo: “Ele se tornará uma nação grande e numerosa, e nele serão benditas todas as nações da terra” (Gn 18.18).

13. É lícito entender isso como cumprido em nós. Pois ele, tendo renunciado à superstição de seus pais e ao erro anterior de sua vida, e tendo confessado o único Deus que está acima de todas as coisas, e tendo-o adorado com obras de virtude, e não com o serviço da lei que depois foi dada por Moisés, foi justificado pela fé em Cristo, o Verbo de Deus, que lhe apareceu. A ele, então, homem de tal caráter, foi dito que todas as tribos e todas as nações da terra seriam benditas nele.

14. Mas essa mesma religião de Abraão reapareceu no tempo presente, praticada em obras, mais eficazes do que palavras, somente pelos cristãos em todo o mundo.

15. Que impediria, então, que se confesse que nós, que somos de Cristo, praticamos um só e o mesmo modo de vida e temos uma só e a mesma religião que aqueles homens de outrora favorecidos por Deus? Daí se evidencia que a religião perfeita que nos foi confiada pelo ensino de Cristo não é nova nem estranha, mas, se é preciso dizer a verdade, é a primeira e a verdadeira religião. Isso pode bastar sobre este assunto.

Capítulo V. O tempo de sua manifestação entre os homens

1. E agora, depois desta introdução necessária à história da Igreja que nos propusemos, podemos iniciar, por assim dizer, a nossa jornada, começando pela manifestação de nosso Salvador na carne. E invocamos Deus, o Pai do Verbo, e aquele de quem temos falado, o próprio Jesus Cristo, nosso Salvador e Senhor, o Verbo celestial de Deus, como nosso auxílio e cooperador na narração da verdade.

2. Foi no quadragésimo segundo ano do reinado de Augusto, e no vigésimo oitavo depois da submissão do Egito e da morte de Antônio e Cleópatra, com quem chegou ao fim a dinastia dos Ptolomeus no Egito, que nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo nasceu em Belém da Judeia, conforme as profecias que haviam sido proferidas a seu respeito. Seu nascimento ocorreu durante o primeiro recenseamento, quando Cirênio era governador da Síria.

3. Flávio Josefo, o mais célebre dos historiadores hebreus, também menciona esse recenseamento, realizado durante o mandato de Cirênio. No mesmo contexto ele relata a revolta dos galileus, ocorrida naquele tempo, da qual também Lucas, entre os nossos escritores, fez menção em Atos, com as seguintes palavras: “Depois desse, levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos consigo. Também este foi morto, e todos os que lhe obedeciam foram dispersos” (At 5.37).

4. O autor acima mencionado, no décimo oitavo livro de suas Antiguidades, em concordância com essas palavras, acrescenta o seguinte, que citamos textualmente: “Cirênio, membro do senado, que havia exercido outros cargos e passado por todos eles até o consulado, homem também de grande dignidade em outros aspectos, veio à Síria com uma pequena comitiva, enviado por César para ser juiz da nação e fazer uma avaliação de seus bens.”

5. E pouco depois ele diz: “Mas Judas, um gaulonita, de uma cidade chamada Gamala, tomando consigo Saduco, um fariseu, incitou o povo à revolta, dizendo ambos que a tributação não significava outra coisa senão escravidão completa, e exortando a nação a defender sua liberdade.”

6. E no segundo livro de sua História da Guerra Judaica, escreve o seguinte a respeito do mesmo homem: “Nesse tempo, um certo galileu, cujo nome era Judas, persuadiu seus compatriotas à revolta, declarando que seriam covardes se se sujeitassem a pagar tributo aos romanos e se suportassem, além de Deus, senhores que eram mortais.” Essas coisas são registradas por Josefo.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.