Eusébio, História Eclesiástica · Livro II
Os apóstolos depois da ascensão; Tibério e o relato de Pilatos; a difusão do evangelho; Fílon em Roma; as desgraças dos judeus; Tiago, Agripa e Teudas; Simão Mago; Pedro em Roma e o Evangelho de Marcos.
Introdução.
1. No livro anterior tratamos dos assuntos da história eclesiástica que era necessário expor à guisa de introdução, e os acompanhamos de provas breves. Tais foram a divindade do Verbo salvador e a antiguidade das doutrinas que ensinamos, bem como da vida evangélica que os cristãos levam, junto com os acontecimentos ligados à recente manifestação de Cristo, à sua paixão e à escolha dos apóstolos.
2. Neste livro examinemos os acontecimentos que se deram depois da sua ascensão, confirmando alguns deles pelas divinas Escrituras e outros pelos escritos que formos citando de tempos em tempos.
1. Primeiro, então, em lugar de Judas, o traidor, foi escolhido para o apostolado Matias (At 1.23-26), que, como já se mostrou, também era um dos Setenta. E foram designados para o diaconato, para o serviço da congregação, mediante oração e imposição das mãos dos apóstolos, homens aprovados, em número de sete, dos quais Estêvão era um (At 6.1-6). Ele foi o primeiro, depois do Senhor, a ser morto a pedradas pelos assassinos do Senhor, logo no tempo da sua ordenação, como se tivesse sido promovido exatamente para isso. E assim foi o primeiro a receber a coroa, correspondente ao seu nome, que pertence aos mártires de Cristo, dignos do prêmio da vitória.
2. Então Tiago, a quem os antigos deram o sobrenome de Justo por causa da excelência da sua virtude, é registrado como o primeiro a ser feito bispo da igreja de Jerusalém. Esse Tiago era chamado irmão do Senhor porque era conhecido como filho de José, e José era tido como pai de Cristo, porque a Virgem, estando comprometida com ele, “antes de se unirem, se achou grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1.18), como mostra o relato dos santos Evangelhos.
3. Mas Clemente, no sexto livro das suas Hipotiposes, escreve assim: “Pois dizem que Pedro, Tiago e João, depois da ascensão de nosso Salvador, embora também tivessem sido preferidos pelo Senhor, não disputaram a honra, mas escolheram Tiago, o Justo, como bispo de Jerusalém.”
4. O mesmo escritor, no sétimo livro da mesma obra, conta ainda o seguinte a respeito dele: “O Senhor, depois da sua ressurreição, transmitiu o conhecimento a Tiago, o Justo, a João e a Pedro, e estes o transmitiram aos demais apóstolos, e os demais apóstolos aos setenta, dos quais Barnabé era um. Ora, havia dois Tiagos: um chamado o Justo, que foi lançado do pináculo do templo e morto a pauladas por um pisoeiro, e outro que foi decapitado.” Paulo também menciona esse mesmo Tiago, o Justo, quando escreve: “E não vi outro dos apóstolos, a não ser Tiago, o irmão do Senhor” (Gl 1.19).
5. Nesse tempo também se cumpriu a promessa de nosso Salvador ao rei dos osroenos. Pois Tomé, movido por impulso divino, enviou Tadeu a Edessa como pregador e evangelista da religião de Cristo, como mostramos pouco acima pelo documento ali encontrado.
7. Chegando àquele lugar, ele curou Abgar pela palavra de Cristo; e, depois de levar todo o povo dali à disposição de espírito correta por meio das suas obras e de conduzi-lo a adorar o poder de Cristo, tornou-os discípulos do ensino do Salvador. E desde aquele tempo até hoje toda a cidade dos edessenos se consagra ao nome de Cristo, dando prova nada comum da beneficência de nosso Salvador também para com eles.
8. Essas coisas foram tiradas de relatos antigos; mas voltemos agora à divina Escritura. Quando os judeus moveram a primeira e maior perseguição contra a igreja de Jerusalém, por ocasião do martírio de Estêvão, e todos os discípulos, exceto os Doze, foram dispersos pela Judeia e por Samaria (At 8.1), alguns, como diz a divina Escritura, foram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, mas ainda não ousavam comunicar a palavra da fé aos gentios e, por isso, a pregavam somente aos judeus (At 11.19).
9. Durante esse tempo Paulo ainda perseguia a igreja e, entrando nas casas dos crentes, arrastava homens e mulheres e os entregava à prisão (At 8.3).
10. Filipe também, um daqueles que com Estêvão tinham recebido o diaconato, estando entre os dispersos, desceu a Samaria (At 8.5) e, cheio do poder divino, foi o primeiro a pregar a palavra aos habitantes daquela região. E a graça divina operou com ele tão poderosamente que até Simão Mago, com muitos outros, foi atraído pelas suas palavras.
11. Simão era naquele tempo tão célebre, e tinha adquirido com os seus embustes tamanha influência sobre aqueles a quem enganava, que era tido como o grande poder de Deus. Mas então, assombrado com as obras maravilhosas que Filipe realizava pelo poder divino, fingiu e simulou fé em Cristo, chegando a receber o batismo.
12. E, o que é de admirar, o mesmo se faz até hoje pelos seguidores da sua heresia impuríssima. Pois eles, à maneira do seu antepassado, insinuando-se na Igreja como uma doença pestilenta e leprosa, afligem gravemente aqueles em quem conseguem infundir o veneno mortal e terrível que trazem escondido em si. A maioria deles foi expulsa assim que apanhada na sua maldade, como o próprio Simão, descoberto por Pedro, recebeu o castigo merecido.
13. Mas, enquanto a pregação do Evangelho do Salvador avançava dia a dia, certa providência trouxe da terra dos etíopes um oficial da rainha daquele país, pois a Etiópia, até hoje, é governada por uma mulher, segundo o costume dos antepassados. Ele, primeiro entre os gentios, recebeu de Filipe os mistérios da palavra divina em consequência de uma revelação e, tornando-se as primícias dos crentes em todo o mundo, diz-se que foi o primeiro, ao voltar à sua terra, a anunciar o conhecimento do Deus do universo e a vivificante permanência de nosso Salvador entre os homens. Assim, por meio dele, cumpriu-se em verdade a profecia que declara: “A Etiópia estende a sua mão para Deus” (Sl 68.31).
14. Além destes, Paulo, aquele “instrumento escolhido” (At 9.15), “não da parte de homens, nem por meio de homem, mas pela revelação do próprio Jesus Cristo e de Deus Pai, que o ressuscitou dos mortos” (Gl 1.1), foi designado apóstolo, sendo considerado digno do chamado por uma visão e por uma voz pronunciada numa revelação do céu.
1. Quando a maravilhosa ressurreição e ascensão de nosso Salvador já se divulgavam por toda parte, Pôncio Pilatos, segundo um antigo costume que vigorava entre os governadores das províncias, de comunicar ao imperador as novidades que nelas aconteciam para que nada lhe escapasse, informou Tibério dos relatos que corriam por toda a Palestina a respeito da ressurreição de nosso Salvador Jesus dentre os mortos.
2. Deu conta também de outras maravilhas que tinha sabido a respeito dele, e de como, depois da sua morte, tendo ressuscitado dentre os mortos, já era tido por muitos como um Deus. Dizem que Tibério levou o assunto ao Senado, mas que este o rejeitou, aparentemente porque não o tinha examinado primeiro (pois vigorava uma lei antiga de que ninguém seria feito Deus pelos romanos senão por voto e decreto do Senado), mas na realidade porque o ensino salvador do divino Evangelho não precisava da confirmação e da recomendação dos homens.
3. Mas, embora o Senado dos romanos rejeitasse a proposta feita a respeito de nosso Salvador, Tibério manteve a opinião que tinha desde o princípio e não tramou nenhuma medida hostil contra Cristo.
4. Essas coisas são registradas por Tertuliano, homem muito versado nas leis dos romanos, de grande reputação em outros aspectos e um dos mais ilustres de Roma. Na sua apologia em favor dos cristãos, escrita por ele em latim e traduzida para o grego, ele escreve o seguinte:
5. “Mas, para darmos conta dessas leis desde a sua origem, havia um antigo decreto de que ninguém seria consagrado Deus pelo imperador antes que o Senado desse a sua aprovação. Marco Aurélio fez assim a respeito de certo ídolo, Alburno. E isto é um ponto em favor da nossa doutrina: entre vocês a dignidade divina é conferida por decreto humano. Se um Deus não agrada ao homem, não é feito Deus. Assim, segundo esse costume, é preciso que o homem seja favorável a Deus.
6. Tibério, portanto, sob quem o nome de Cristo entrou no mundo, quando essa doutrina lhe foi comunicada da Palestina, onde começou, tratou do assunto com o Senado, deixando claro que a doutrina lhe agradava. Mas o Senado, como não a tinha comprovado por si mesmo, rejeitou-a. Tibério, porém, continuou com a sua opinião e ameaçou de morte os acusadores dos cristãos.” A providência celeste tinha sabiamente posto isso no espírito dele, para que a doutrina do Evangelho, sem impedimento no seu começo, se espalhasse em todas as direções pelo mundo.
1. Assim, sob a influência do poder celeste e com a cooperação divina, a doutrina do Salvador, como os raios do sol, iluminou rapidamente o mundo inteiro; e logo, conforme as divinas Escrituras (Sl 19.4), a voz dos evangelistas e apóstolos inspirados se fez ouvir por toda a terra, e as suas palavras até os confins do mundo.
2. Em toda cidade e aldeia fundaram-se rapidamente igrejas, cheias de multidões como uma eira abarrotada. E aqueles cujas mentes, por causa dos erros herdados dos seus antepassados, estavam presas pela antiga doença da superstição idólatra foram, pelo poder de Cristo que operava por meio do ensino e das obras maravilhosas dos seus discípulos, libertados, por assim dizer, de senhores terríveis, e acharam alívio da mais cruel escravidão. Renunciaram com aversão a toda espécie de politeísmo demoníaco e confessaram que havia um só Deus, o criador de todas as coisas, e o honraram com os ritos da verdadeira piedade, por meio do culto inspirado e racional que nosso Salvador plantou entre os homens.
3. Derramando-se agora a graça divina sobre as demais nações, Cornélio, de Cesareia da Palestina, com toda a sua casa, foi o primeiro a receber a fé em Cristo, por uma revelação divina e pela atuação de Pedro (At 10); e depois dele uma multidão de outros gregos em Antioquia, aos quais tinham pregado o Evangelho os que foram dispersos pela perseguição de Estêvão. Quando a igreja de Antioquia já crescia e abundava, e estavam ali muitos profetas vindos de Jerusalém, entre eles Barnabé e Paulo, além de muitos outros irmãos, ali surgiu pela primeira vez o nome de cristãos, como de uma fonte nova e vivificante.
4. E Ágabo, um dos profetas que estavam com eles, profetizou a respeito da fome que estava para acontecer, e Paulo e Barnabé foram enviados para socorrer as necessidades dos irmãos (At 11.29-30).
1. Tibério morreu depois de reinar cerca de vinte e dois anos, e Caio o sucedeu no império. Este logo deu o governo dos judeus a Agripa, fazendo-o rei sobre as tetrarquias de Filipe e de Lisânias; além disso, pouco depois lhe concedeu também a tetrarquia de Herodes, tendo punido com exílio perpétuo, por causa de numerosos crimes, Herodes, aquele sob quem o Salvador padeceu (Lc 23.7-11), e sua mulher Herodias. Josefo é testemunha desses fatos.
2. Sob esse imperador tornou-se conhecido Fílon, homem celebérrimo não só entre muitos dos nossos, mas também entre muitos eruditos de fora da Igreja. Era hebreu de nascimento, mas não ficava atrás de nenhum dos que ocupavam altas dignidades em Alexandria. O quanto se esforçou nas Escrituras e nos estudos da sua nação é evidente a todos pela obra que realizou. Quão familiarizado era com a filosofia e com os estudos liberais das nações estrangeiras, não é preciso dizer, pois se conta que superou todos os seus contemporâneos no estudo da filosofia platônica e pitagórica, à qual se dedicou especialmente.
1. Fílon nos deixou, em cinco livros, um relato dos infortúnios dos judeus sob Caio. Conta ao mesmo tempo a loucura de Caio: como se chamou a si mesmo deus e praticou, como imperador, inúmeros atos de tirania; descreve ainda as misérias dos judeus sob ele e relata a embaixada em que ele próprio foi enviado a Roma em favor dos seus compatriotas de Alexandria; e conta como, ao comparecer diante de Caio em defesa das leis dos seus pais, não recebeu senão risos e zombaria, e por pouco não correu risco de vida.
2. Josefo também menciona essas coisas no décimo oitavo livro das suas Antiguidades, com as seguintes palavras: “Tendo surgido em Alexandria uma sedição entre os judeus que ali moram e os gregos, foram escolhidos três delegados de cada facção, que foram ter com Caio.
3. Um dos delegados alexandrinos era Apião, que proferiu muitas calúnias contra os judeus, dizendo, entre outras coisas, que eles descuidavam das honras devidas a César. Pois, enquanto todos os outros súditos de Roma erguiam altares e templos a Caio e em tudo o mais o tratavam como tratavam os deuses, só eles consideravam vergonhoso honrá-lo com estátuas e jurar pelo seu nome.
4. E, depois que Apião apresentou muitas acusações graves, com as quais esperava que Caio se irritasse, como de fato era provável, Fílon, chefe da embaixada judaica, homem célebre em todos os aspectos, irmão de Alexandre, o alabarca, e não inexperiente em filosofia, preparava-se para fazer a defesa em resposta às acusações.
5. Mas Caio o impediu e mandou que se retirasse e, muito irado, deixou claro que planejava alguma medida severa contra eles. E Fílon saiu coberto de insultos e disse aos judeus que estavam com ele que tivessem bom ânimo, pois Caio, enquanto se enfurecia contra eles, na verdade já estava lutando contra Deus.”
6. Até aqui Josefo. E o próprio Fílon, na obra Sobre a embaixada, que escreveu, descreve com exatidão e em detalhe o que foi feito por ele naquele tempo. Mas omitirei a maior parte e registrarei somente aquilo que deixará claro ao leitor que os infortúnios dos judeus lhes sobrevieram pouco depois dos seus atrevimentos contra Cristo, e por causa deles.
7. Em primeiro lugar, ele conta que em Roma, no reinado de Tibério, Sejano, que naquele tempo gozava de grande influência junto ao imperador, fez todo o esforço para destruir inteiramente a nação judaica; e que na Judeia Pilatos, sob quem se cometeram os crimes contra o Salvador, tentou algo contrário à lei judaica a respeito do templo, que naquele tempo ainda estava de pé em Jerusalém, e provocou entre eles os maiores tumultos.
1. Depois da morte de Tibério, Caio recebeu o império e, além de inúmeros outros atos de tirania contra muitos povos, afligiu de modo especial toda a nação dos judeus. Isso podemos saber em poucas palavras pelo que diz Fílon, que escreve o seguinte:
2. “Tão grande era o capricho de Caio na sua conduta para com todos, e especialmente para com a nação dos judeus. Odiava-os tão amargamente que se apropriou dos seus lugares de culto nas outras cidades e, começando por Alexandria, encheu-os de imagens e estátuas de si mesmo (pois, ao permitir que outros as erguessem, na realidade era ele quem as erguia). O templo da cidade santa, que até então tinha ficado intocado e era considerado asilo inviolável, ele o alterou e transformou num templo seu, para que se chamasse templo do Júpiter visível, o jovem Caio.”
3. Inúmeras outras calamidades terríveis e quase indescritíveis que sobrevieram aos judeus em Alexandria durante o reinado do mesmo imperador são registradas pelo mesmo autor numa segunda obra, à qual deu o título Sobre as virtudes. Com ele concorda também Josefo, que igualmente indica que os infortúnios de toda a nação começaram no tempo de Pilatos e com os seus crimes ousados contra o Salvador.
4. Ouça o que ele diz no segundo livro da sua Guerra judaica, onde escreve o seguinte: “Pilatos, enviado à Judeia como procurador por Tibério, levou secretamente a Jerusalém, de noite, imagens veladas do imperador, chamadas insígnias. No dia seguinte isso causou a maior perturbação entre os judeus. Pois os que estavam perto ficaram consternados com a cena, vendo as suas leis como que pisadas aos pés. Pois eles não permitem que se erga nenhuma imagem na sua cidade.”
5. Comparando essas coisas com os escritos dos evangelistas, você verá que não tardou a vir sobre eles o castigo pela exclamação que tinham proferido sob o mesmo Pilatos, quando gritaram que não tinham outro rei senão César (Jo 19.15).
6. O mesmo escritor registra ainda que depois disso outra calamidade os atingiu. Escreve o seguinte: “Depois disso ele provocou outro tumulto, ao usar o tesouro sagrado, chamado Corbã, na construção de um aqueduto de trezentos estádios de comprimento.
7. A multidão ficou muito descontente com isso e, estando Pilatos em Jerusalém, cercou o seu tribunal e levantou altas queixas. Mas ele, antecipando o tumulto, tinha distribuído pela multidão soldados armados disfarçados com roupas de cidadãos, proibindo-os de usar a espada, mas mandando que batessem com porretes nos que gritassem. A eles deu então, do tribunal, o sinal combinado. E os judeus, espancados, muitos morreram em consequência dos golpes, enquanto muitos outros foram pisoteados pelos próprios compatriotas na fuga e assim perderam a vida. Mas a multidão, intimidada pela sorte dos que foram mortos, calou-se.”
8. Além desses, o mesmo autor registra muitos outros tumultos provocados na própria Jerusalém e mostra que desde aquele tempo sedições, guerras e tramas perniciosas se sucederam rapidamente umas às outras e nunca cessaram na cidade e em toda a Judeia, até que finalmente o cerco de Vespasiano os esmagou. Assim a vingança divina alcançou os judeus pelos crimes que ousaram cometer contra Cristo.
Vale notar que o próprio Pilatos, que era governador no tempo de nosso Salvador, teria caído, segundo se conta, em tais infortúnios sob Caio, cujos tempos estamos registrando, que foi forçado a tornar-se o seu próprio assassino e carrasco; e assim a vingança divina, ao que parece, não tardou a alcançá-lo. Isso é afirmado pelos historiadores gregos que registraram as Olimpíadas, junto com os acontecimentos de cada período.
1. Caio tinha mantido o poder pouco menos de quatro anos quando foi sucedido pelo imperador Cláudio. Sob ele o mundo foi visitado por uma fome, que escritores inteiramente alheios à nossa religião registraram nas suas histórias. E assim se cumpriu a predição de Ágabo, registrada nos Atos dos Apóstolos (At 11.28), segundo a qual o mundo inteiro seria visitado por uma fome.
2. E Lucas, nos Atos, depois de mencionar a fome no tempo de Cláudio e de dizer que os irmãos de Antioquia, cada um conforme as suas posses, enviaram ajuda aos irmãos da Judeia por meio de Paulo e Barnabé (At 11.29-30), acrescenta o relato seguinte.
1. “Por aquele tempo” (é claro que ele se refere ao tempo de Cláudio) “o rei Herodes estendeu as mãos para maltratar alguns da Igreja. E matou à espada Tiago, irmão de João” (At 12.1-2).
2. A respeito desse Tiago, Clemente, no sétimo livro das suas Hipotiposes, conta uma história digna de menção, tal como a recebeu dos que viveram antes dele. Diz que aquele que levou Tiago ao tribunal, ao vê-lo dar o seu testemunho, ficou comovido e confessou que também ele era cristão.
3. Foram ambos, portanto, diz ele, levados juntos; e no caminho ele pediu a Tiago que o perdoasse. E Tiago, depois de refletir um pouco, disse: “A paz esteja contigo”, e o beijou. E assim ambos foram decapitados ao mesmo tempo.
4. Então, como diz a divina Escritura, Herodes, depois da morte de Tiago, vendo que o feito agradara aos judeus, atacou também Pedro e o pôs na prisão, e o teria matado se ele não tivesse sido maravilhosamente libertado das suas cadeias pela aparição divina de um anjo que veio a ele de noite, e assim liberto para o serviço do Evangelho. Tal foi a providência de Deus a respeito de Pedro.
1. As consequências do empreendimento do rei contra os apóstolos não tardaram, mas o ministro vingador da justiça divina o alcançou logo depois das suas tramas contra eles, como registra o livro de Atos. Pois, tendo ido a Cesareia num dia de festa notável, vestido de um traje esplêndido e régio, fez um discurso ao povo de um trono elevado diante do tribunal. E, quando toda a multidão aplaudiu o discurso como se fosse voz de um deus e não de um homem, a Escritura conta que um anjo do Senhor o feriu e, comido de vermes, ele expirou (At 12.23).
2. Devemos admirar o relato de Josefo pela sua concordância com as divinas Escrituras a respeito desse acontecimento maravilhoso; pois ele dá claro testemunho da verdade no décimo nono livro das suas Antiguidades, onde conta o prodígio com as seguintes palavras:
3. “Ele tinha completado o terceiro ano do seu reinado sobre toda a Judeia quando foi a Cesareia, antes chamada Torre de Estratão. Ali celebrou jogos em honra de César, sabendo que essa era uma festa celebrada pela segurança de César. Nessa festa reuniu-se grande multidão dos homens mais importantes e mais honrados da província.
4. E no segundo dia dos jogos ele foi ao teatro ao romper do dia, vestindo uma roupa toda de prata, de tecido maravilhoso. Ali a prata, iluminada pelo reflexo dos primeiros raios do sol, brilhava maravilhosamente, resplandecendo tanto que produzia uma espécie de medo e terror nos que o contemplavam.
5. E logo os seus aduladores, uns de um lado, outros de outro, levantaram a voz de um modo que não era para o seu bem, chamando-o deus e dizendo: ‘Sê-nos propício; se até agora te temíamos como homem, daqui em diante confessamos que és superior à natureza dos mortais.’
6. O rei não os repreendeu nem rejeitou a sua adulação ímpia. Mas, pouco depois, olhando para cima, viu um anjo sentado acima da sua cabeça. E logo percebeu que este seria causa de mal, como antes tinha sido causa de boa sorte, e foi ferido de uma dor que lhe trespassava o coração.
7. E imediatamente uma aflição, que começou com a maior violência, apoderou-se das suas entranhas. E, olhando para os seus amigos, disse: ‘Eu, o vosso deus, recebo agora ordem de deixar esta vida; e o destino desmente assim, ali mesmo, as palavras mentirosas que acabais de dizer a meu respeito. Aquele que por vós foi chamado imortal é agora levado a morrer; mas o nosso destino deve ser aceito como Deus o determinou. Pois não passamos a vida de modo algum sem glória, mas naquele esplendor que se proclama felicidade.’
8. E, dito isso, sofreu com aumento da dor. Foi então levado às pressas para o palácio, enquanto se espalhava entre todos a notícia de que o rei sem dúvida morreria em breve. Mas a multidão, com as mulheres e os filhos, sentada em pano de saco segundo o costume dos pais, implorava a Deus pelo rei, e todo lugar se encheu de lamentação e lágrimas. E o rei, deitado num quarto alto, vendo-os lá embaixo prostrados por terra, não pôde ele mesmo conter as lágrimas.
9. E, depois de sofrer continuamente durante cinco dias com dores nas entranhas, deixou esta vida, no quinquagésimo quarto ano da sua idade e no sétimo do seu reinado. Quatro anos reinou sob o imperador Caio (três deles sobre a tetrarquia de Filipe, à qual se acrescentou no quarto ano a de Herodes) e três anos durante o reinado do imperador Cláudio.”
10. Admiro muito que Josefo, nessas coisas como em outras, concorde tão plenamente com as divinas Escrituras. Mas, se parecer a alguém que há desacordo quanto ao nome do rei, pelo menos o tempo e os acontecimentos mostram que se trata da mesma pessoa, quer a mudança de nome se deva a erro de copista, quer ao fato de que ele, como tantos outros, tinha dois nomes.
1. Lucas, nos Atos, apresenta Gamaliel dizendo, na deliberação que se fez a respeito dos apóstolos, que no tempo referido “se levantou Teudas, dizendo ser alguém; ele foi morto, e todos os que lhe obedeciam se dispersaram” (At 5.36). Acrescentemos, pois, o relato de Josefo a respeito desse homem. Ele registra, na obra mencionada há pouco, as seguintes circunstâncias:
2. “Sendo Fado procurador da Judeia, certo impostor chamado Teudas persuadiu uma enorme multidão a tomar os seus bens e segui-lo até o rio Jordão. Pois dizia que era profeta e que o rio se dividiria à sua ordem e lhes daria passagem fácil.
3. E com essas palavras enganou a muitos. Mas Fado não lhes permitiu desfrutar da sua loucura: enviou contra eles uma tropa de cavaleiros, que caíram sobre eles inesperadamente, mataram muitos e tomaram muitos outros vivos, enquanto capturaram o próprio Teudas, cortaram-lhe a cabeça e a levaram a Jerusalém.” Além disso, ele menciona também a fome que houve no reinado de Cláudio, com as seguintes palavras.
1. “E nesse tempo aconteceu a grande fome na Judeia, na qual a rainha Helena, tendo comprado trigo do Egito por grandes somas, o distribuiu aos necessitados.”
2. Você verá que essa afirmação também concorda com os Atos dos Apóstolos, onde se diz que os discípulos de Antioquia, “cada um conforme as suas posses, resolveram mandar uma ajuda aos irmãos que moravam na Judeia. E eles o fizeram, enviando essa ajuda aos presbíteros por meio de Barnabé e Paulo” (At 11.29-30).
3. Ainda hoje se mostram, nos arredores da cidade agora chamada Élia, esplêndidos monumentos dessa Helena que o historiador mencionou. Mas diz-se que ela foi rainha dos adiabenos.
1. Mas, tendo-se difundido entre todos os homens a fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, o inimigo da salvação dos homens tramou um plano para se apoderar da cidade imperial. Conduziu para lá o já mencionado Simão, ajudou-o nas suas artes enganosas, desencaminhou muitos dos habitantes de Roma e assim os trouxe ao seu próprio poder.
2. Isso é afirmado por Justino, um dos nossos escritores ilustres, que viveu não muito depois do tempo dos apóstolos. Dele falarei no lugar apropriado. Tome e leia a obra desse homem, que na primeira Apologia, dirigida a Antonino em defesa da nossa religião, escreve o seguinte:
3. “E, depois da ascensão do Senhor ao céu, os demônios apresentaram certos homens que se diziam deuses e que não só foram deixados por vocês sem perseguição, como até foram julgados dignos de honras. Um deles foi Simão, samaritano da aldeia de Gito, que no reinado de Cláudio César realizou na cidade imperial de vocês alguns grandes atos de magia pela arte dos demônios que nele operavam, e foi tido como deus, e como deus foi honrado por vocês com uma estátua, erguida no rio Tibre, entre as duas pontes, com esta inscrição em latim: Simoni Deo Sancto, isto é, A Simão, o Deus Santo.
4. E quase todos os samaritanos, e até alguns de outras nações, o confessam e adoram como o primeiro Deus. E andava com ele naquele tempo certa Helena, que antes tinha sido prostituta em Tiro da Fenícia; e a ela chamam a primeira ideia que procedeu dele.”
5. Justino conta essas coisas, e Irineu também concorda com ele no primeiro livro da sua obra Contra as heresias, onde dá conta do homem e do seu ensino profano e impuro. Seria supérfluo citar aqui o seu relato, pois quem quiser conhecer a origem, a vida e as falsas doutrinas de cada um dos heresiarcas que vieram depois dele, bem como os costumes praticados por todos eles, pode encontrá-los tratados longamente na referida obra de Irineu.
6. Sabemos que Simão foi o autor de toda heresia. Desde o tempo dele até hoje, os que seguiram a sua heresia fingiram a sóbria filosofia dos cristãos, celebrada entre todos pela pureza de vida. Mas, apesar disso, abraçaram de novo as superstições dos ídolos, às quais pareciam ter renunciado; prostram-se diante de pinturas e imagens do próprio Simão e da já mencionada Helena que estava com ele, e ousam adorá-las com incenso, sacrifícios e libações.
7. Mas aquelas coisas que guardam mais em segredo do que estas, a respeito das quais dizem que quem as ouvisse pela primeira vez ficaria atônito e, para usar uma das expressões escritas em voga entre eles, ficaria confundido, estão na verdade cheias de coisas espantosas, de loucura e de insensatez, e são de tal natureza que não só é impossível pô-las por escrito, como também é impossível a homens recatados sequer pronunciá-las com os lábios, por causa da sua excessiva baixeza e lascívia.
8. Pois tudo o que se pudesse imaginar de mais vil do que a coisa mais vil, tudo isso foi superado por essa seita abominabilíssima, composta dos que fazem joguete daquelas mulheres miseráveis que estão literalmente cobertas de toda espécie de vícios.
1. O poder maligno, que odeia todo bem e trama contra a salvação dos homens, constituiu Simão naquele tempo pai e autor de tamanha maldade, como para fazer dele um poderoso antagonista dos grandes e inspirados apóstolos de nosso Salvador.
2. Pois aquela graça divina e celeste que coopera com os seus ministros, pela aparição e presença deles, logo extinguiu a chama acesa do mal e, por meio deles, humilhou e derrubou “toda altivez que se levantava contra o conhecimento de Deus” (2Co 10.5).
3. Por isso nem a conspiração de Simão nem a de qualquer dos outros que surgiram naquele período pôde conseguir coisa alguma naqueles tempos apostólicos. Pois tudo foi vencido e subjugado pelos esplendores da verdade e pela própria palavra divina, que pouco antes começara a brilhar do céu sobre os homens e que então florescia na terra e habitava nos próprios apóstolos.
4. Imediatamente o referido impostor foi ferido nos olhos da mente por um clarão divino e milagroso e, depois que as más obras que praticara foram descobertas primeiro pelo apóstolo Pedro na Judeia, fugiu e fez uma grande viagem pelo mar, do Oriente ao Ocidente, julgando que só assim poderia viver a seu modo.
5. E, chegando à cidade de Roma, com a poderosa cooperação daquele poder que ali estava à espreita, em pouco tempo teve tanto êxito no seu empreendimento que os habitantes de lá o honraram como deus, erguendo-lhe uma estátua.
6. Mas isso não durou muito. Pois logo, durante o reinado de Cláudio, a Providência boníssima e benigna, que vela sobre todas as coisas, conduziu a Roma, contra esse grande corruptor da vida, Pedro, o mais forte e maior dos apóstolos, aquele que por causa da sua virtude era o porta-voz de todos os outros. Ele, como nobre comandante de Deus, revestido da armadura divina, levou do Oriente aos que habitavam no Ocidente a preciosa mercadoria da luz do entendimento, proclamando a própria luz e a palavra que traz salvação às almas, e pregando o reino dos céus.
1. E assim, tendo a palavra divina estabelecido morada entre eles, o poder de Simão se apagou e foi logo destruído, junto com o próprio homem. E o esplendor da piedade iluminou de tal modo a mente dos ouvintes de Pedro que não se satisfizeram em ouvir uma só vez, nem se contentaram com o ensino não escrito do divino Evangelho, mas com toda sorte de súplicas rogaram a Marcos, seguidor de Pedro, cujo Evangelho chegou até nós, que lhes deixasse um monumento escrito da doutrina que lhes fora comunicada oralmente. E não cessaram até convencer o homem, tornando-se assim a ocasião do Evangelho escrito que leva o nome de Marcos.
2. E dizem que Pedro, ao saber por revelação do Espírito o que tinha sido feito, agradou-se do zelo daqueles homens, e que a obra recebeu a sanção da sua autoridade para ser usada nas igrejas. Clemente dá esse relato no oitavo livro das suas Hipotiposes, e com ele concorda o bispo de Hierápolis chamado Papias. E Pedro menciona Marcos na sua primeira epístola, que dizem ter escrito na própria Roma, como ele indica ao chamar a cidade, figuradamente, de Babilônia, nas seguintes palavras: “A igreja que está em Babilônia, eleita juntamente com vocês, os saúda, e também Marcos, meu filho” (1Pe 5.13).
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.