Eusébio, História Eclesiástica · Livro VII

Livro VII, capítulos 1 a 23

Cipriano e o batismo dos hereges; as cartas de Dionísio; Sabélio; a perseguição de Valeriano; os mártires de Cesareia; a paz sob Galieno; a estátua de Paneas; a cadeira de Tiago; a peste em Alexandria.

Introdução.

Neste sétimo livro da História Eclesiástica, o grande bispo de Alexandria, Dionísio, de novo nos ajudará com as suas próprias palavras, relatando os vários acontecimentos do seu tempo nas cartas que deixou. Começarei por elas.

Capítulo I. A maldade de Décio e de Galo

Quando Décio havia reinado pouco menos de dois anos, foi morto com os seus filhos, e Galo o sucedeu. Nesse tempo morreu Orígenes, com sessenta e nove anos de idade. Dionísio, escrevendo a Hermamão, fala assim de Galo:

“Galo não reconheceu a maldade de Décio, nem considerou o que o havia destruído, mas tropeçou na mesma pedra, embora ela estivesse diante dos seus olhos. Pois, quando o seu reinado prosperava e os negócios corriam segundo a sua vontade, atacou os homens santos que intercediam a Deus pela sua paz e pelo seu bem-estar. Assim, com eles perseguiu também as orações que faziam em seu favor.” Isso basta a respeito dele.

Capítulo II. Os bispos de Roma naqueles tempos

Cornélio, depois de exercer o episcopado na cidade de Roma por cerca de três anos, foi sucedido por Lúcio. Este morreu em menos de oito meses e transmitiu o cargo a Estêvão. Dionísio escreveu-lhe a primeira das suas cartas sobre o batismo, pois surgira uma controvérsia nada pequena sobre se os que se tinham convertido de alguma heresia deviam ser purificados pelo batismo. Pois prevalecia, a respeito deles, o costume antigo de que recebessem apenas a imposição de mãos com orações.

Capítulo III. Cipriano e os bispos que estavam com ele foram os primeiros a ensinar que era necessário purificar pelo batismo os convertidos da heresia

Antes de todos, Cipriano, pastor da igreja de Cartago, sustentou que eles não deviam ser recebidos sem antes serem purificados do seu erro pelo batismo. Mas Estêvão, julgando desnecessário acrescentar qualquer inovação contrária à tradição mantida desde o princípio, indignou-se muito com isso.

Capítulo IV. As cartas que Dionísio escreveu sobre este assunto

Dionísio, portanto, depois de se comunicar longamente com ele por carta sobre essa questão, mostrou-lhe por fim que, tendo cessado a perseguição, as igrejas de toda parte haviam rejeitado a novidade de Novato e estavam em paz entre si. Escreve assim:

Capítulo V. A paz que se seguiu à perseguição

1. “Mas saibam agora, meus irmãos, que todas as igrejas do Oriente e de mais além, que antes estavam divididas, se uniram. E todos os bispos de toda parte têm um só pensamento e se alegram grandemente com a paz que chegou além de toda expectativa. Assim Demetriano em Antioquia, Teoctisto em Cesareia, Mazabanes em Élia, Marino em Tiro (tendo Alexandre adormecido), Heliodoro em Laodiceia (tendo morrido Telímidres), Heleno em Tarso e todas as igrejas da Cilícia, Firmiliano e toda a Capadócia. Nomeei apenas os bispos mais ilustres, para não tornar a minha carta longa demais nem as minhas palavras pesadas demais.

2. E toda a Síria, e a Arábia, a quem vocês socorrem quando há necessidade e a quem acabam de escrever, a Mesopotâmia, o Ponto, a Bitínia e, em suma, todos em toda parte se alegram e glorificam a Deus pela unanimidade e pelo amor fraterno.” Até aqui Dionísio.

3. Mas Estêvão, depois de exercer o cargo por dois anos, foi sucedido por Xisto. Dionísio escreveu-lhe uma segunda carta sobre o batismo, na qual lhe expõe ao mesmo tempo a opinião e o juízo de Estêvão e dos outros bispos, e fala assim de Estêvão:

4. “Ele, portanto, havia escrito antes a respeito de Heleno e de Firmiliano, e de todos os da Cilícia, da Capadócia, da Galácia e das nações vizinhas, dizendo que não teria comunhão com eles por esta mesma causa, a saber, que rebatizavam os hereges. Mas considera a importância da questão.

5. Pois, na verdade, nos maiores sínodos de bispos, segundo me informam, foram aprovados decretos sobre esse assunto, determinando que os que vêm das heresias sejam instruídos e depois lavados e purificados da imundície do fermento velho e impuro. E escrevi-lhe suplicando a respeito de todas essas coisas.” Mais adiante diz:

6. “Escrevi também, primeiro em poucas palavras e recentemente em muitas, aos nossos amados companheiros de presbitério, Dionísio e Filêmon, que antes tinham sido da mesma opinião de Estêvão e me haviam escrito sobre os mesmos assuntos.” Isso basta quanto à controvérsia mencionada acima.

Capítulo VI. A heresia de Sabélio

Na mesma carta ele se refere também aos ensinos heréticos de Sabélio, que no seu tempo estavam ganhando destaque, e diz:

“Pois, a respeito da doutrina agora agitada em Ptolemaida da Pentápole (doutrina ímpia, marcada por grande blasfêmia contra o Deus Todo-Poderoso, o Pai, e contra nosso Senhor Jesus Cristo, cheia de incredulidade a respeito do seu Filho Unigênito, o primogênito de toda a criação, o Verbo que se fez homem, e falta de percepção do Espírito Santo), como me chegaram comunicações de ambos os lados e irmãos que discutiam a questão, escrevi certas cartas tratando do assunto do modo mais instrutivo que pude, com a ajuda de Deus. Delas te envio cópias.”

Capítulo VII. O erro abominável dos hereges; a visão divina de Dionísio; e o cânon eclesiástico que ele recebeu

1. Na terceira carta sobre o batismo, que esse mesmo Dionísio escreveu a Filêmon, presbítero romano, ele relata o seguinte: “Mas eu examinei as obras e as tradições dos hereges, contaminando a minha mente por algum tempo com as suas opiniões abomináveis, mas recebendo delas este proveito: que as refutava por mim mesmo e as detestava ainda mais.

2. E, quando um irmão dentre os presbíteros me deteve, temendo que eu fosse arrastado pela imundície da maldade deles (pois isso contaminaria a minha alma), e nisso, como percebi, ele dizia a verdade, veio uma visão enviada por Deus e me fortaleceu.

3. E a palavra que me veio ordenou-me, dizendo claramente: ‘Lê tudo o que puderes tomar nas mãos, pois és capaz de corrigir e de provar tudo; e isso foi para ti, desde o princípio, a causa da tua fé.’ Recebi a visão como estando de acordo com a palavra apostólica, que diz aos mais fortes: ‘Sejam cambistas hábeis.'”

4. Depois, tendo dito algumas coisas a respeito de todas as heresias, acrescenta: “Recebi esta regra e esta norma do nosso bem-aventurado pai Héraclas. Pois os que vinham das heresias, ainda que tivessem apostatado da Igreja (ou antes, não tivessem apostatado, mas parecessem reunir-se com eles e fossem acusados de frequentar algum falso mestre), depois de expulsos por ele da Igreja, ele não os recebia de volta, embora o suplicassem, até que tivessem relatado publicamente tudo o que tinham ouvido dos adversários; mas então os recebia sem lhes exigir outro batismo. Pois já haviam recebido dele o Espírito Santo.”

5. De novo, depois de tratar a questão a fundo, acrescenta: “Soube também que esta não é uma prática nova, introduzida só na África, mas que, já há muito tempo, nos dias dos bispos que nos precederam, essa opinião foi adotada nas igrejas mais populosas, nos sínodos dos irmãos em Icônio e em Sínada, e por muitos outros. Não posso suportar a ideia de derrubar as suas decisões e lançá-los em disputa e contenda. Pois está dito: ‘Não removerás o marco do teu próximo, que teus pais fixaram’ (Dt 19.14).”

6. A sua quarta carta sobre o batismo foi escrita a Dionísio de Roma, que era então presbítero, mas não muito depois recebeu o episcopado daquela igreja. É evidente, pelo que Dionísio de Alexandria diz dele, que também ele era homem erudito e admirável. Entre outras coisas, escreve-lhe assim a respeito de Novato:

Capítulo VIII. A heterodoxia de Novato

“É com boa razão que sentimos aversão a Novaciano, que dividiu a Igreja e arrastou alguns dos irmãos à impiedade e à blasfêmia, introduziu um ensino ímpio a respeito de Deus e caluniou nosso compassivíssimo Senhor Jesus Cristo como impiedoso. E, além de tudo isso, rejeita o santo batismo, subverte a fé e a confissão que o precedem e bane inteiramente deles o Espírito Santo, se é que havia alguma esperança de que ele permanecesse neles ou a eles voltasse.”

Capítulo IX. O batismo ímpio dos hereges

1. A sua quinta carta foi escrita a Xisto, bispo de Roma. Nela, depois de dizer muito contra os hereges, relata assim um fato do seu tempo: “Pois, na verdade, irmão, preciso de conselho e peço o teu parecer sobre uma questão que me chegou, temendo estar em erro.

2. Um dos irmãos que se reúnem, considerado crente havia muito tempo, e que já era membro da congregação antes da minha ordenação e, creio, antes mesmo da nomeação do bem-aventurado Héraclas, esteve presente com os que tinham sido batizados recentemente. E, quando ouviu as perguntas e as respostas, veio a mim chorando e lamentando-se; e, prostrando-se aos meus pés, reconheceu e declarou que o batismo com que fora batizado entre os hereges não era dessa natureza, nem em coisa alguma semelhante a este, porque estava cheio de impiedade e de blasfêmia.

3. E dizia que a sua alma estava agora traspassada de tristeza e que não tinha confiança para levantar os olhos a Deus, porque havia partido daquelas palavras e ações ímpias. E por isso suplicava que pudesse receber esta purificação perfeitíssima, a acolhida e a graça.

4. Mas eu não ousei fazer isso, e disse que a sua longa comunhão era suficiente para tanto. Pois eu não ousaria renovar desde o princípio alguém que ouvira a ação de graças e se unira à repetição do Amém; que estivera junto à mesa e estendera as mãos para receber o alimento bendito; que o recebera e participara por longo tempo do corpo e do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo. Mas exortei-o a ter bom ânimo e a aproximar-se da participação dos santos com fé firme e boa esperança.

5. Ele, porém, não cessa de lamentar-se, estremece ao aproximar-se da mesa e, mesmo com insistência, mal ousa estar presente às orações.”

6. Além dessas, existe ainda outra carta do mesmo autor sobre o batismo, dirigida por ele e pela sua igreja a Xisto e à igreja de Roma. Nela examina com extensa argumentação a questão então agitada. E existe ainda outra, depois dessas, dirigida a Dionísio de Roma, a respeito de Luciano. Isso basta a respeito delas.

Capítulo X. Valeriano e a perseguição sob ele

1. Galo e os outros governantes, tendo mantido o governo menos de dois anos, foram derrubados, e Valeriano, com o seu filho Galieno, recebeu o império. O que Dionísio relata a respeito dele podemos saber pela sua carta a Hermamão, na qual dá o seguinte relato:

2. “E, de modo semelhante, é revelado a João: ‘Pois foi-lhe dada’, diz ele, ‘uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e foi-lhe dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses’ (Ap 13.5).

3. É admirável que ambas as coisas tenham acontecido sob Valeriano; e o caso é tanto mais notável quando consideramos a sua conduta anterior, pois ele fora brando e amigável para com os homens de Deus. Nenhum dos imperadores antes dele os tratara com tanta bondade e favor; nem mesmo os que se dizia serem abertamente cristãos os acolheram com hospitalidade e amizade tão manifestas como ele no começo do seu reinado. Pois toda a sua casa estava cheia de pessoas piedosas e era uma igreja de Deus.

4. Mas o mestre e chefe da sinagoga dos magos do Egito persuadiu-o a mudar de rumo, instigando-o a matar e perseguir homens puros e santos, porque se opunham aos encantamentos corruptos e abomináveis e os impediam. Pois há e havia homens que, estando presentes e sendo vistos, ainda que apenas respirassem e falassem, eram capazes de dispersar os desígnios dos demônios pecadores. E induziu-o a praticar iniciações e feitiçarias abomináveis e a oferecer sacrifícios inaceitáveis; a matar inúmeras crianças e a sacrificar os filhos de pais infelizes; a abrir as entranhas de recém-nascidos e a mutilar e despedaçar as criaturas de Deus, como se por tais práticas pudessem alcançar a felicidade.”

5. A isso acrescenta o seguinte: “Esplêndidas, de fato, foram as ofertas de gratidão que Macriano lhes levou pelo império que era o objeto das suas esperanças. Diz-se que fora antes o ministro geral das finanças do imperador; contudo, nada fez de louvável nem de proveito geral, mas caiu sob a palavra profética:

6. ‘Ai dos que profetizam segundo o seu próprio coração e não consideram o bem comum’ (Ez 13.3). Pois não percebeu a Providência geral, nem atentou para o juízo daquele que é antes de todos, por meio de todos e sobre todos. Por isso tornou-se inimigo da sua Igreja católica, alienou-se e afastou-se da compaixão de Deus e fugiu para o mais longe possível da sua salvação. Nisso mostrou a verdade do seu próprio nome [N. do T.: jogo de palavras do grego entre o nome Macriano e “makran”, “longe”].”

7. E de novo, mais adiante, diz: “Pois Valeriano, instigado a tais atos por esse homem, foi entregue a insultos e opróbrios, segundo o que foi dito por Isaías: ‘Eles escolheram os seus próprios caminhos e as suas abominações, nas quais a sua alma se deleitava; também eu escolherei as suas ilusões e lhes retribuirei os seus pecados’ (Is 66.3-4).

8. Mas esse homem desejou loucamente o reino, embora indigno dele, e, não podendo vestir o manto real no seu corpo aleijado, apresentou os seus dois filhos para carregarem os pecados do pai. Pois a respeito deles era clara a declaração que Deus proferiu: ‘Visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam’ (Êx 20.5).

9. Pois, amontoando sobre a cabeça dos filhos os seus próprios maus desejos, nos quais tivera êxito, descarregou sobre eles a sua própria maldade e o seu ódio contra Deus.”

Dionísio relata essas coisas a respeito de Valeriano.

Capítulo XI. Os acontecimentos que sobrevieram nesse tempo a Dionísio e aos do Egito

1. Quanto à perseguição que se abateu com tanta violência no seu reinado, e aos sofrimentos que Dionísio suportou com outros por causa da piedade para com o Deus do universo, mostrá-los-ão as suas próprias palavras, escritas em resposta a Germano, bispo contemporâneo que procurava caluniá-lo. A sua declaração é a seguinte:

2. “Na verdade, corro o risco de cair em grande insensatez e tolice por ser obrigado a relatar a admirável providência de Deus para conosco. Mas, como se diz que ‘é bom guardar o segredo do rei, mas é honroso revelar as obras de Deus’ (Tb 12.7), enfrentarei a violência de Germano.

3. Não fui sozinho à presença de Emiliano; foram comigo o meu companheiro de presbitério, Máximo, os diáconos Fausto, Eusébio e Queremão, e um irmão de Roma que estava presente.

4. Mas Emiliano não me disse logo de início: ‘Não faças reuniões’; pois isso lhe era supérfluo e a última coisa para quem procurava alcançar a primeira. Pois ele não se preocupava com que nos reuníssemos, mas com que nós mesmos não fôssemos cristãos. E ordenou-me que renunciasse a isso, supondo que, se eu me afastasse, os outros também me seguiriam.

5. Mas respondi-lhe, nem de modo inconveniente nem com muitas palavras: ‘É mais importante obedecer a Deus do que aos homens’ (At 5.29). E testemunhei abertamente que adorava o único Deus e nenhum outro, que não me afastaria disso e que jamais deixaria de ser cristão. Então ele nos ordenou que fôssemos para uma aldeia perto do deserto, chamada Cefro.

6. Mas escutem as próprias palavras ditas de um lado e de outro, tal como foram registradas: ‘Comparecendo Dionísio, Fausto, Máximo, Marcelo e Queremão, o prefeito Emiliano disse:

7. Conversei com vocês de viva voz a respeito da clemência que os nossos governantes lhes mostraram; pois deram a vocês a oportunidade de se salvarem, se se voltarem para o que é conforme à natureza, adorarem os deuses que preservam o seu império e esquecerem os que são contrários à natureza. Que dizem, então, a isso? Pois não penso que serão ingratos à bondade deles, uma vez que querem conduzi-los a um caminho melhor.

8. Dionísio respondeu: Nem todos adoram todos os deuses, mas cada um adora os que aprova. Nós, portanto, reverenciamos e adoramos o único Deus, o Criador de todas as coisas, que deu o império aos favorecidos por Deus e augustos Valeriano e Galieno; e oramos a ele continuamente pelo império deles, para que permaneça inabalável.

9. O prefeito Emiliano disse-lhes: Mas quem os proíbe de adorá-lo, se é um deus, juntamente com os que são deuses por natureza? Pois a vocês foi ordenado reverenciar os deuses, e os deuses que todos conhecem. Dionísio respondeu:

10. Não adoramos nenhum outro. O prefeito Emiliano disse-lhes: Vejo que vocês são ao mesmo tempo ingratos e insensíveis à bondade dos nossos soberanos. Por isso não permanecerão nesta cidade, mas serão enviados para as regiões da Líbia, para um lugar chamado Cefro. Pois escolhi este lugar por ordem dos nossos soberanos, e de modo algum será permitido a vocês nem a quaisquer outros fazer reuniões ou entrar nos chamados cemitérios.

11. E, se alguém for visto fora do lugar que determinei, ou for encontrado em alguma reunião, trará perigo sobre si mesmo. Pois o castigo adequado não faltará. Vão, portanto, para onde lhes foi ordenado.’

“E ele me fez partir às pressas, embora eu estivesse doente, sem conceder sequer um dia de prazo. Que oportunidade tive, então, de fazer reuniões ou de não fazê-las?”

12. Mais adiante diz: “Mas, com a ajuda do Senhor, não abandonamos a reunião pública. Antes, reuni com mais diligência os que estavam na cidade, como se estivesse com eles, ‘fisicamente ausente, mas presente em espírito’ (1Co 5.3), por assim dizer. E em Cefro reuniu-se conosco uma grande igreja, dos irmãos que nos seguiram da cidade e dos que se juntaram a nós vindos do Egito; e ali ‘Deus nos abriu uma porta à palavra’ (Cl 4.3).

13. A princípio fomos perseguidos e apedrejados; mas depois não poucos dos pagãos abandonaram os ídolos e se converteram a Deus. Pois até então não tinham ouvido a Palavra, que foi semeada ali pela primeira vez por nós.

14. E, como se Deus nos tivesse levado até eles para esse fim, quando cumprimos esse ministério ele nos transferiu para outro lugar. Pois Emiliano, ao que parece, desejava transportar-nos para lugares mais ásperos e mais semelhantes à Líbia; por isso ordenou que se reunissem de todas as partes na Mareótida e designou-lhes diferentes aldeias pela região. Mas mandou que nós fôssemos colocados mais perto da estrada principal, para sermos os primeiros a ser presos. Pois evidentemente arranjou e preparou as coisas de modo que, sempre que quisesse prender-nos, pudesse apanhar-nos todos sem dificuldade.

15. Quando recebi a primeira ordem de ir para Cefro, eu não sabia onde ficava o lugar e mal tinha ouvido o nome; contudo, fui com prontidão e alegria. Mas, quando me disseram que eu devia mudar-me para o distrito de Colúcio, os que estavam presentes sabem como fiquei abalado.

16. Pois aqui vou acusar a mim mesmo. A princípio fiquei triste e muito perturbado; pois, embora esses lugares nos fossem mais conhecidos e familiares, dizia-se que a região era desprovida de irmãos e de homens de bem, e exposta aos incômodos dos viajantes e às incursões dos ladrões.

17. Mas fui consolado quando os irmãos me lembraram que o lugar ficava mais perto da cidade; e que, se Cefro nos proporcionava muito convívio com os irmãos do Egito, de modo que podíamos estender mais amplamente a Igreja, este lugar, por ser mais perto da cidade, nos permitiria desfrutar com mais frequência da presença dos que nos eram verdadeiramente amados, mais chegados e mais queridos. Pois eles viriam e permaneceriam, e poderiam realizar-se reuniões particulares, como nos subúrbios mais afastados. E assim aconteceu.” Depois de outros assuntos, escreve de novo assim sobre o que lhe sucedeu:

18. “Germano, de fato, gaba-se de muitas confissões. Pode falar, certamente, de muitas adversidades que ele mesmo suportou. Mas será capaz de enumerar tantas quantas nós podemos: sentenças, confiscos, proscrições, saques de bens, perda de dignidades, desprezo da glória mundana, indiferença às lisonjas de governadores e conselheiros, e paciente perseverança diante das ameaças dos adversários, de gritarias, de perigos e perseguições, de andanças e angústias, e de toda espécie de tribulação, como as que vieram sobre mim sob Décio e Sabino, e como as que continuam até agora sob Emiliano? Mas onde se viu Germano? E que notícia há dele?

19. Mas desisto desta grande insensatez em que estou caindo por causa de Germano. E pela mesma razão deixo de relatar aos irmãos, que já o sabem, tudo o que aconteceu.”

20. O mesmo autor, na carta a Domício e Dídimo, menciona alguns pormenores da perseguição, assim: “Como os nossos são muitos e desconhecidos de vocês, seria supérfluo dar os seus nomes; mas saibam que homens e mulheres, jovens e velhos, donzelas e matronas, soldados e civis, de toda raça e idade, uns pelos açoites e pelo fogo, outros pela espada, venceram no combate e receberam as suas coroas.

21. Mas, no caso de alguns, um tempo muito longo não bastou para fazê-los parecer aceitáveis ao Senhor; como, de fato, parece ser também o meu caso, que ainda não decorreu tempo suficiente. Por isso ele me reservou para o tempo que sabe ser conveniente, dizendo: ‘No tempo aceitável eu escutei você e no dia da salvação eu o socorri’ (Is 49.8).

22. Pois, como vocês perguntaram sobre a nossa situação e desejam que lhes contemos como estamos, ouviram plenamente que, quando nós (isto é, eu, Gaio, Fausto, Pedro e Paulo) éramos levados como prisioneiros por um centurião e por magistrados, com os seus soldados e servos, certas pessoas da Mareótida vieram e nos arrebataram à força, pois não queríamos segui-las.

23. Mas agora eu, Gaio e Pedro estamos sozinhos, privados dos outros irmãos e encerrados num lugar deserto e árido da Líbia, a três dias de viagem de Paretônio.”

24. Mais adiante diz: “Os presbíteros Máximo, Dióscoro, Demétrio e Lúcio esconderam-se na cidade e visitavam os irmãos em segredo; pois Faustino e Áquila, que são mais conhecidos no mundo, andam errantes pelo Egito. Mas os diáconos Fausto, Eusébio e Queremão sobreviveram aos que morreram na peste. Eusébio é alguém a quem Deus fortaleceu e capacitou desde o princípio para cumprir com energia os serviços aos confessores presos e para cuidar da perigosa tarefa de preparar para o sepultamento os corpos dos perfeitos e bem-aventurados mártires.

25. Pois, como eu disse antes, até o presente o governador continua a condenar à morte de modo cruel os que são levados a julgamento. Destrói uns com torturas e consome outros com prisão e correntes; não permite que ninguém se aproxime deles e investiga se alguém o faz. Ainda assim, Deus dá alívio aos aflitos pelo zelo e pela perseverança dos irmãos.”

26. Até aqui Dionísio. Mas é preciso saber que Eusébio, a quem ele chama diácono, pouco depois se tornou bispo da igreja de Laodiceia, na Síria; e Máximo, de quem fala como sendo então presbítero, sucedeu ao próprio Dionísio como bispo de Alexandria. Mas o Fausto que estava com ele, e que naquele tempo se distinguiu pela sua confissão, foi preservado até a perseguição dos nossos dias, quando, já muito velho e cheio de dias, encerrou a vida pelo martírio, sendo decapitado. Tais são as coisas que sucederam naquele tempo a Dionísio.

Capítulo XII. Os mártires em Cesareia da Palestina

Durante a perseguição sob Valeriano, mencionada acima, três homens em Cesareia da Palestina, destacando-se na confissão de Cristo, foram adornados com o martírio divino, tornando-se alimento das feras. Um deles chamava-se Prisco, outro Malco, e o nome do terceiro era Alexandre. Dizem que esses homens, que viviam no campo, a princípio agiram com covardia, como se fossem descuidados e irrefletidos. Pois, quando se oferecia a oportunidade aos que ansiavam pelo prêmio com desejo celestial, eles a tratavam com leviandade, para não tomarem antes do tempo a coroa do martírio. Mas, depois de deliberarem sobre a questão, apressaram-se a ir a Cesareia, apresentaram-se ao juiz e tiveram o fim que mencionamos. Contam que, além destes, na mesma perseguição e na mesma cidade, certa mulher sustentou um combate semelhante. Mas relata-se que ela pertencia à seita de Marcião.

Capítulo XIII. A paz sob Galieno

1. Pouco depois disso, Valeriano foi reduzido à escravidão pelos bárbaros, e o seu filho, tendo-se tornado governante único, conduziu o governo com mais prudência. Logo conteve, por proclamações públicas, a perseguição contra nós e ordenou que os bispos desempenhassem com liberdade as suas funções costumeiras, num rescrito que dizia o seguinte:

2. “O Imperador César Públio Licínio Galieno, Pio, Félix, Augusto, a Dionísio, Pinas, Demétrio e aos demais bispos. Ordenei que a liberalidade da minha concessão fosse proclamada por todo o mundo, para que eles se retirem dos lugares de culto religioso. E para esse fim vocês podem usar esta cópia do meu rescrito, para que ninguém os moleste. E isto que agora vocês podem fazer legalmente já lhes foi concedido por mim há muito tempo. Portanto, Aurélio Cirênio, que é o administrador-chefe dos negócios, observará esta ordenança que dei.”

3. Apresentei isto numa tradução do latim, para que seja mais facilmente compreendido. Existe outro decreto dele, dirigido a outros bispos, permitindo-lhes retomar a posse dos chamados cemitérios.

Capítulo XIV. Os bispos que floresceram naquele tempo

Naquele tempo Xisto ainda presidia a igreja de Roma, e Demetriano, sucessor de Fábio, a igreja de Antioquia, e Firmiliano a de Cesareia da Capadócia; além destes, Gregório e o seu irmão Atenodoro, amigos de Orígenes, presidiam as igrejas do Ponto; e, tendo morrido Teoctisto de Cesareia da Palestina, Domno recebeu ali o episcopado. Ocupou-o pouco tempo, e Teotecno, nosso contemporâneo, o sucedeu. Também este foi membro da escola de Orígenes. Em Jerusalém, depois da morte de Mazabanes, Himeneu, que tem sido célebre entre nós há muitíssimos anos, sucedeu na sua cátedra.

Capítulo XV. O martírio de Marino em Cesareia

1. Nesse tempo, quando a paz das igrejas fora restaurada em toda parte, Marino, em Cesareia da Palestina, honrado pelos seus feitos militares e ilustre pela família e pela riqueza, foi decapitado pelo seu testemunho de Cristo, pelo seguinte motivo.

2. O ramo de videira é certa insígnia de honra entre os romanos, e os que o obtêm tornam-se, segundo dizem, centuriões. Tendo vagado um posto, a ordem de sucessão chamava Marino para essa posição. Mas, quando estava para receber a honra, outra pessoa apresentou-se diante do tribunal e alegou que não era legal, segundo as leis antigas, que ele recebesse a dignidade romana, visto que era cristão e não sacrificava aos imperadores; e que o posto pertencia antes a ele mesmo.

3. Então o juiz, cujo nome era Aqueu, perturbado, perguntou primeiro qual era a convicção de Marino. E, percebendo que ele se confessava continuamente cristão, deu-lhe três horas para refletir.

4. Quando saiu do tribunal, Teotecno, o bispo do lugar, chamou-o à parte e conversou com ele; e, tomando-o pela mão, levou-o à igreja. E, estando com ele lá dentro, no santuário, ergueu um pouco o seu manto e apontou para a espada que lhe pendia do lado; e ao mesmo tempo colocou diante dele a Escritura dos divinos Evangelhos e disse-lhe que escolhesse qual dos dois queria. E ele, sem hesitar, estendeu a mão direita e tomou a divina Escritura. “Apega-te, pois”, diz-lhe Teotecno, “apega-te a Deus; e, fortalecido por ele, possas obter o que escolheste. Vai em paz.”

5. Logo que voltou, o arauto gritou chamando-o ao tribunal, pois o prazo marcado já se completara. E, estando diante do tribunal e mostrando zelo ainda maior pela fé, imediatamente, tal como estava, foi levado e consumou a sua carreira pela morte.

Capítulo XVI. Relato a respeito de Astírio

Astírio também é lembrado pela sua piedosa ousadia em relação a esse caso. Era um romano da ordem senatorial, favorecido pelos imperadores e conhecido de todos pela nobreza do nascimento e pela riqueza. Presente à morte do mártir, carregou o corpo nos ombros e, vestindo-o com uma roupa esplêndida e preciosa, preparou-o para o sepulcro de modo magnífico e deu-lhe sepultura condigna. Os amigos desse homem, que permanecem até os nossos dias, contam muitos outros fatos a seu respeito.

Capítulo XVII. Os sinais em Pâneas do grande poder de nosso Salvador

Entre esses fatos está também o seguinte prodígio. Em Cesareia de Filipe, que os fenícios chamam Pâneas, mostram-se nascentes no sopé do monte Pânio, das quais brota o Jordão. Dizem que, em certo dia de festa, foi lançada ali uma vítima e que, pelo poder do demônio, ela desapareceu de modo maravilhoso, e o que aconteceu foi um prodígio famoso para os presentes. Astírio estava certa vez ali quando essas coisas se faziam e, vendo a multidão maravilhada com o acontecimento, compadeceu-se do seu engano; e, levantando os olhos ao céu, suplicou ao Deus que está acima de todos, por meio de Cristo, que repreendesse o demônio que enganava o povo e pusesse fim ao engano daqueles homens. E dizem que, quando ele orou assim, imediatamente a vítima flutuou na superfície da fonte. E assim cessou o milagre, e nunca mais se realizou prodígio algum naquele lugar.

Capítulo XVIII. A estátua que a mulher do fluxo de sangue levantou

1. Já que mencionei esta cidade, não julgo conveniente omitir um relato digno de ser registrado para a posteridade. Dizem que a mulher do fluxo de sangue, que, como aprendemos no sagrado Evangelho (cf. Mt 9.20-22), recebeu de nosso Salvador a libertação da sua enfermidade, era deste lugar; que a sua casa é mostrada na cidade, e que ali permanecem notáveis memoriais da bondade do Salvador para com ela.

2. Pois sobre uma pedra elevada, junto às portas da sua casa, ergue-se uma imagem de bronze de uma mulher ajoelhada, com as mãos estendidas, como se estivesse orando. Diante dela há outra imagem, de pé, de um homem, feita do mesmo material, decentemente vestido com um manto duplo e estendendo a mão para a mulher. Aos seus pés, junto à própria estátua, há certa planta estranha, que sobe até a orla do manto de bronze e é remédio para toda espécie de doenças.

3. Dizem que essa estátua é uma imagem de Jesus. Ela permaneceu até os nossos dias, de modo que nós mesmos a vimos quando estivemos na cidade.

4. E não é de estranhar que aqueles dentre os gentios que outrora foram beneficiados por nosso Salvador tenham feito tais coisas, pois sabemos também que as imagens dos seus apóstolos Paulo e Pedro, e do próprio Cristo, são conservadas em pinturas, tendo os antigos o costume, como é provável, segundo um hábito dos gentios, de prestar indistintamente esse tipo de honra aos que consideravam libertadores.

Capítulo XIX. A cátedra episcopal de Tiago

A cátedra de Tiago, que foi o primeiro a receber do próprio Salvador e dos apóstolos o episcopado da igreja de Jerusalém, e que, como mostram os registros divinos, foi chamado irmão de Cristo, foi conservada até agora. Os irmãos que ali o sucederam mostram claramente a todos a reverência que tanto os antigos como os dos nossos dias tinham e têm pelos homens santos por causa da sua piedade. Isso basta quanto a este assunto.

Capítulo XX. As cartas festivas de Dionísio, nas quais ele dá também um cânon pascal

Dionísio, além das cartas já mencionadas, escreveu naquele tempo também as suas Cartas Festivas, que ainda existem, nas quais usa palavras de louvor a respeito da festa da Páscoa. Dirigiu uma delas a Flávio e outra a Domício e Dídimo, na qual expõe um cânon de oito anos, sustentando que não é próprio celebrar a festa pascal senão depois do equinócio da primavera. Além destas, enviou outra carta aos seus companheiros de presbitério em Alexandria, bem como várias outras a diferentes pessoas, enquanto a perseguição ainda prevalecia.

Capítulo XXI. Os acontecimentos de Alexandria

1. Mal a paz fora restaurada, ele voltou para Alexandria; mas, como de novo irromperam a sedição e a guerra, tornando-lhe impossível supervisionar todos os irmãos, separados em diferentes lugares pela insurreição, na festa da Páscoa, como se ainda estivesse exilado de Alexandria, dirigiu-se de novo a eles por carta.

2. E em outra carta festiva, escrita mais tarde a Hiérax, bispo no Egito, menciona assim a sedição que então reinava em Alexandria:

“Que admira que me seja difícil comunicar-me por cartas com os que moram longe, quando está além das minhas forças até raciocinar comigo mesmo ou tomar conselho a respeito da minha própria vida?

3. Na verdade, preciso enviar cartas aos que são como as minhas próprias entranhas, que habitam numa só casa, irmãos de uma só alma e cidadãos da mesma igreja; mas não sei como enviá-las. Pois seria mais fácil alguém ir não só além dos limites da província, mas até do Oriente ao Ocidente, do que de Alexandria à própria Alexandria.

4. Pois o próprio coração da cidade é mais intrincado e intransitável que aquele grande deserto sem caminhos que Israel atravessou durante duas gerações. E os nossos portos tranquilos e sem ondas tornaram-se como o mar, dividido e levantado como muralha, por onde Israel passou e em cujo caminho os egípcios foram submersos. Pois muitas vezes, pelas matanças ali cometidas, parecem o mar Vermelho.

5. E o rio que corre junto à cidade pareceu às vezes mais seco que o deserto sem água, e mais ressequido que aquele em que Israel, ao atravessá-lo, sofreu tanta sede que clamou contra Moisés, e a água correu para eles da rocha escarpada, por meio daquele que é o único que faz maravilhas.

6. Outras vezes transbordou tanto que inundou toda a região ao redor, as estradas e os campos, ameaçando trazer de volta o dilúvio de água que houve nos dias de Noé. E corre sempre poluído de sangue, de matanças e de afogamentos, como se tornou para Faraó por obra de Moisés, quando ele o transformou em sangue e ele cheirou mal.

7. E que outra água poderia purificar a água que purifica todas as coisas? Como poderia o oceano, tão grande e intransponível para os homens, se fosse derramado nele, limpar este mar amargo? Ou como poderia o grande rio que saía do Éden, se derramasse as quatro cabeceiras em que se divide na única do Geom, lavar esta poluição?

8. Ou quando poderá tornar-se puro o ar envenenado por essas exalações nocivas? Pois tais vapores sobem da terra, e ventos do mar, e brisas do rio, e névoas dos portos, que os orvalhos são como emanações de cadáveres que apodrecem em todos os elementos ao nosso redor.

9. Contudo, os homens se admiram e não conseguem entender de onde vêm essas pestes contínuas, essas doenças graves, essas enfermidades mortais de toda espécie, essa variada e vasta destruição humana; por que esta grande cidade já não contém tantos habitantes, desde as criancinhas até os de idade mais avançada, quantos antes continha dos que chamava velhos robustos. Pois os homens de quarenta a setenta anos eram então tão mais numerosos que agora não se consegue completar o seu número, mesmo quando se alistam e registram, para a distribuição pública de alimentos, os de catorze a oitenta anos.

10. E os mais jovens na aparência tornaram-se como que da mesma idade dos que antes eram os mais velhos. Mas, embora vejam a raça dos homens assim diminuir e definhar constantemente, e embora a sua completa destruição aumente e avance, eles não tremem.”

Capítulo XXII. A peste que veio sobre eles

1. Depois desses acontecimentos, uma doença pestilenta seguiu-se à guerra, e, ao aproximar-se a festa, ele escreveu de novo aos irmãos, descrevendo os sofrimentos resultantes dessa calamidade.

2. “Aos outros homens o tempo presente talvez não pareça apropriado para uma festa. Nem, na verdade, este ou qualquer outro tempo lhes é apropriado, nem os tempos de tristeza, nem mesmo os que se poderiam julgar especialmente alegres. Agora, de fato, tudo são lágrimas e todos estão de luto, e os lamentos ressoam diariamente pela cidade por causa da multidão dos mortos e dos que estão morrendo.

3. Pois, como foi escrito a respeito dos primogênitos dos egípcios, assim agora ‘houve grande clamor, pois não havia casa em que não houvesse um morto’ (Êx 12.30). E oxalá fosse só isso!

4. Pois muitas coisas terríveis já aconteceram. Primeiro, expulsaram-nos; e, sozinhos, perseguidos e mortos por todos, mesmo então celebramos a festa. E todo lugar de aflição foi para nós lugar de festa: campo, deserto, navio, estalagem, prisão; mas os mártires aperfeiçoados celebraram a mais alegre de todas as festas, banqueteando-se no céu.

5. Depois dessas coisas vieram a guerra e a fome, que suportamos em comum com os pagãos. Mas suportamos sozinhos as coisas com que eles nos afligiram, e ao mesmo tempo sofremos também os efeitos do que eles infligiram uns aos outros e sofreram uns dos outros; e de novo nos alegramos na paz de Cristo, que ele deu somente a nós.

6. Mas, depois que nós e eles desfrutamos de um brevíssimo período de descanso, esta peste nos assaltou; para eles, mais terrível que qualquer terror e mais intolerável que qualquer outra calamidade, e, como disse um dos seus próprios escritores, a única coisa que prevalece sobre toda esperança. Mas para nós não foi assim; antes, não menos que as outras coisas, foi um exercício e uma prova. Pois não se manteve longe nem de nós, mas aos pagãos assaltou com mais violência.”

7. Mais adiante acrescenta:

“A maioria dos nossos irmãos, no seu amor excessivo e na sua bondade fraterna, não se poupou. Apegavam-se uns aos outros, visitavam os enfermos sem medo e os serviam continuamente, ministrando-lhes em Cristo. E morriam com eles com a maior alegria, tomando sobre si a aflição dos outros, atraindo para si a doença do próximo e recebendo de bom grado as suas dores. E muitos que cuidaram dos enfermos e deram forças a outros morreram eles mesmos, tendo transferido para si a morte deles. E o dito popular, que sempre parece mera expressão de cortesia, eles o tornaram então real na prática, partindo como ‘a escória dos outros’.

8. Na verdade, os melhores dos nossos irmãos deixaram a vida dessa maneira, entre eles alguns presbíteros, diáconos e membros do povo de altíssima reputação; de modo que essa forma de morte, pela grande piedade e pela fé firme que manifestou, não pareceu ficar em nada aquém do martírio.

9. E tomavam os corpos dos santos nas mãos abertas e no colo, fechavam-lhes os olhos e a boca; carregavam-nos nos ombros e os amortalhavam; apegavam-se a eles e os abraçavam; e os preparavam convenientemente com lavagens e vestes. E pouco depois recebiam eles mesmos o mesmo tratamento, pois os sobreviventes iam continuamente seguindo os que os haviam precedido.

10. Mas entre os pagãos tudo era bem diferente. Abandonavam os que começavam a adoecer e fugiam dos amigos mais queridos. Lançavam-nos nas ruas quando estavam meio mortos e deixavam os mortos insepultos, como lixo. Evitavam qualquer participação ou contato com a morte; a qual, contudo, com todas as suas precauções, não lhes era fácil escapar.”

11. Depois dessa carta, quando a paz fora restaurada na cidade, ele escreveu outra carta festiva aos irmãos do Egito, e ainda várias outras além dessa. E existe também uma Sobre o sábado e outra Sobre o exercício.

12. Além disso, escreveu de novo uma carta a Hermamão e aos irmãos do Egito, descrevendo longamente a maldade de Décio e dos seus sucessores e mencionando a paz sob Galieno.

Capítulo XXIII. O reinado de Galieno

1. Mas nada se compara a ouvir as suas próprias palavras, que são estas:

“Então ele, tendo traído um dos imperadores que o precederam e feito guerra ao outro, pereceu com toda a sua família, rápida e completamente. Mas Galieno foi proclamado e reconhecido universalmente como imperador ao mesmo tempo antigo e novo, sendo antes deles e continuando depois deles.

2. Pois, segundo a palavra dita pelo profeta Isaías: ‘Eis que as coisas desde o princípio se cumpriram, e coisas novas surgirão agora’ (Is 42.9). Pois, assim como uma nuvem que passa diante dos raios do sol e os obscurece por um pouco de tempo o encobre e aparece no seu lugar, mas, quando a nuvem passou ou se dissipou, o sol que já havia nascido aparece de novo, assim Macriano, que se apresentou e se aproximou do império já existente de Galieno, não é, pois nunca foi. Mas o outro é exatamente como era.

3. E o seu reino, como se tivesse lançado fora a velhice e se purificado da maldade anterior, floresce agora com mais vigor, é visto e ouvido mais longe e se estende em todas as direções.”

4. Indica então o tempo em que escreveu isso, nas seguintes palavras:

“Ocorre-me de novo repassar os dias dos anos imperiais. Pois percebo que aqueles homens impiíssimos, embora tenham sido famosos, em pouco tempo se tornaram sem nome. Mas o príncipe mais santo e mais piedoso, tendo passado o sétimo ano, está agora completando o nono, no qual celebraremos a festa.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.