Eusébio, História Eclesiástica · Livro VI
O cânon das Escrituras segundo Orígenes; Orígenes em Cesareia; as perseguições de Maximino e de Décio; Fabiano de Roma; Africano; Dionísio de Alexandria e os mártires; Novato e o seu cisma.
1. Ao expor o primeiro salmo, ele apresenta um catálogo das Sagradas Escrituras do Antigo Testamento, da seguinte maneira:
“É preciso dizer que os livros canônicos, tal como os hebreus os transmitiram, são vinte e dois, número que corresponde ao das suas letras.” Mais adiante diz:
2. “Os vinte e dois livros dos hebreus são os seguintes: o que entre nós se chama Gênesis, mas entre os hebreus, pelo começo do livro, Bresith, que quer dizer ‘No princípio’; Êxodo, Welesmoth, isto é, ‘Estes são os nomes’; Levítico, Wikra, ‘E chamou’; Números, Ammesphekodeim; Deuteronômio, Eleaddebareim, ‘Estas são as palavras’; Jesus, filho de Nave, Josoue ben Noun; Juízes e Rute, entre eles num só livro, Saphateim; o Primeiro e o Segundo dos Reis, entre eles um só, Samouel, isto é, ‘O chamado de Deus’; o Terceiro e o Quarto dos Reis num só, Wammelch David, isto é, ‘O reino de Davi’; das Crônicas, o Primeiro e o Segundo num só, Dabreïamein, isto é, ‘Registros dos dias’; Esdras, o Primeiro e o Segundo num só, Ezra, isto é, ‘Um auxiliador’; o livro dos Salmos, Spharthelleim; os Provérbios de Salomão, Meloth; o Eclesiastes, Koelth; o Cântico dos Cânticos (e não, como alguns supõem, Cânticos dos Cânticos), Sir Hassirim; Isaías, Jessia; Jeremias, com as Lamentações e a epístola num só, Jeremia; Daniel, Daniel; Ezequiel, Jezekiel; Jó, Job; Ester, Esther. E, além destes, há os Macabeus, que se intitulam Sarbeth Sabanaiel.” Isso ele apresenta na obra acima mencionada.
3. No primeiro livro sobre o Evangelho de Mateus, defendendo o cânon da Igreja, ele testemunha que conhece somente quatro Evangelhos, escrevendo assim:
4. “Entre os quatro Evangelhos, que são os únicos incontestáveis na Igreja de Deus que está debaixo do céu, aprendi pela tradição que o primeiro foi escrito por Mateus, que fora publicano e depois se tornou apóstolo de Jesus Cristo; foi preparado para os convertidos do judaísmo e publicado em língua hebraica.
5. O segundo é de Marcos, que o compôs segundo as instruções de Pedro, o qual, na sua epístola católica, o reconhece como filho, dizendo: ‘A igreja que está na Babilônia, eleita juntamente com vocês, os saúda, e também Marcos, meu filho’ (1Pe 5.13).
6. O terceiro é o de Lucas, o Evangelho recomendado por Paulo e composto para os convertidos dentre os gentios. Por último de todos, o de João.”
7. No quinto livro das suas Exposições sobre o Evangelho de João, fala assim acerca das epístolas dos apóstolos: “Mas aquele que foi ‘capacitado para ser ministro de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito’ (2Co 3.6), isto é, Paulo, que plenamente divulgou o evangelho ‘desde Jerusalém e arredores até o Ilírico’ (Rm 15.19), não escreveu a todas as igrejas que havia instruído; e às que escreveu enviou poucas linhas.
8. E Pedro, sobre quem está edificada a Igreja de Cristo, contra a qual ‘as portas do inferno não prevalecerão’ (Mt 16.18), deixou uma epístola reconhecida; talvez também uma segunda, mas esta é duvidosa.
9. Que necessidade há de falar daquele que se reclinou sobre o peito de Jesus (cf. Jo 13.23), João, que nos deixou um Evangelho, embora confessasse que poderia escrever tantos que o mundo não os poderia conter (cf. Jo 21.25)? E escreveu também o Apocalipse, mas recebeu ordem de guardar silêncio e não escrever as palavras dos sete trovões (cf. Ap 10.4).
10. Deixou também uma epístola de pouquíssimas linhas; talvez também uma segunda e uma terceira; mas nem todos as consideram autênticas, e as duas juntas não chegam a cem linhas.”
11. Além disso, faz as seguintes afirmações sobre a Epístola aos Hebreus, nas suas Homilias sobre ela: “Que o estilo da epístola intitulada ‘Aos Hebreus’ não tem a rudeza da linguagem do apóstolo, que reconheceu ser ‘fraco no falar’ (2Co 11.6), isto é, na expressão, mas que a sua dicção é de um grego mais puro, qualquer pessoa capaz de discernir diferenças de fraseologia reconhecerá.
12. Além disso, que os pensamentos da epístola são admiráveis e não inferiores aos dos escritos apostólicos reconhecidos, qualquer um que examine com cuidado o texto apostólico admitirá.”
13. Mais adiante acrescenta: “Se eu desse a minha opinião, diria que os pensamentos são do apóstolo, mas a dicção e a fraseologia são de alguém que se lembrava dos ensinos apostólicos e escreveu com vagar o que fora dito pelo seu mestre. Portanto, se alguma igreja sustenta que esta epístola é de Paulo, seja louvada por isso. Pois não foi sem razão que os antigos a transmitiram como de Paulo.
14. Mas quem escreveu a epístola, na verdade, Deus sabe. O que dizem alguns que nos precederam é que Clemente, bispo dos romanos, escreveu a epístola; e outros, que foi Lucas, o autor do Evangelho e dos Atos.” Mas baste isto sobre esses assuntos.
Foi no décimo ano do reinado acima mencionado que Orígenes se mudou de Alexandria para Cesareia, deixando a direção da escola catequética daquela cidade a Héraclas. Pouco depois morreu Demétrio, bispo da igreja de Alexandria, tendo exercido o cargo por quarenta e três anos completos, e Héraclas o sucedeu. Nesse tempo destacava-se Firmiliano, bispo de Cesareia na Capadócia.
Ele tinha tão grande afeição por Orígenes que o instou a ir àquela região para benefício das igrejas; e, além disso, visitou-o na Judeia, ficando com ele algum tempo, para aperfeiçoar-se nas coisas divinas. E Alexandre, bispo de Jerusalém, e Teoctisto, bispo de Cesareia, o acompanhavam constantemente, como seu único mestre, e lhe permitiam expor as Divinas Escrituras e desempenhar as demais funções próprias da pregação eclesiástica.
O imperador romano Alexandre, tendo concluído o seu reinado em treze anos, foi sucedido por Maximino César. Por causa do seu ódio à casa de Alexandre, que contava muitos fiéis, ele iniciou uma perseguição, ordenando que somente os dirigentes das igrejas fossem mortos, como responsáveis pelo ensino do evangelho. Então Orígenes compôs a sua obra Sobre o Martírio e a dedicou a Ambrósio e a Protocteto, presbítero da igreja de Cesareia, porque na perseguição ambos haviam passado por sofrimentos incomuns, nos quais, segundo se conta, se destacaram na confissão durante o reinado de Maximino, que durou apenas três anos. Orígenes registrou esse tempo como o da perseguição no vigésimo segundo livro dos seus Comentários sobre João e em várias epístolas.
1. Gordiano sucedeu a Maximino como imperador romano; e Ponciano, que fora bispo da igreja de Roma por seis anos, foi sucedido por Antero. Depois que este exerceu o cargo por um mês, Fabiano o sucedeu.
2. Dizem que Fabiano, depois da morte de Antero, tendo vindo do campo com outros, estava em Roma, e que ali foi escolhido para o cargo por uma manifestação admirabilíssima da graça divina e celestial.
3. Pois, quando todos os irmãos se reuniram para escolher por votação quem deveria suceder no episcopado da igreja, vários homens ilustres e honrados estavam no pensamento de muitos; mas Fabiano, embora presente, não estava no pensamento de ninguém. Contam, porém, que de repente uma pomba desceu voando e pousou sobre a sua cabeça, à semelhança da descida do Espírito Santo sobre o Salvador em forma de pomba.
4. Então todo o povo, como movido por um só Espírito divino, com todo o ardor e unanimidade, clamou que ele era digno; e, sem demora, tomaram-no e o colocaram na cátedra episcopal.
5. Por esse tempo morreu Zebino, bispo de Antioquia, e Bábilas o sucedeu. E em Alexandria, tendo Héraclas recebido o ofício episcopal depois de Demétrio, sucedeu-lhe na direção da escola catequética Dionísio, que também fora um dos discípulos de Orígenes.
Enquanto Orígenes exercia as suas funções habituais em Cesareia, vinham a ele muitos discípulos, não só das redondezas, mas também de outros países. Entre estes sabemos que foram especialmente célebres Teodoro, o mesmo que se distinguiu entre os bispos do nosso tempo com o nome de Gregório, e seu irmão Atenodoro. Encontrando-os profundamente interessados nas letras gregas e romanas, infundiu neles o amor pela filosofia e os levou a trocar o antigo zelo pelo estudo da teologia. Permanecendo com ele cinco anos, fizeram tal progresso nas coisas divinas que, embora ainda jovens, ambos foram honrados com o episcopado nas igrejas do Ponto.
1. Nesse tempo também era bem conhecido Africano, o autor dos livros intitulados Cestos. Existe uma epístola sua a Orígenes, em que manifesta dúvidas sobre a história de Susana em Daniel, por ser espúria e fictícia. Orígenes respondeu-lhe de modo muito completo.
2. Outras obras do mesmo Africano que chegaram até nós são os seus cinco livros de Cronologia, obra preparada com exatidão e muito trabalho. Diz nela que foi a Alexandria por causa da grande fama de Héraclas, que se distinguia especialmente nos estudos filosóficos e nas demais letras gregas, e cuja nomeação para o episcopado da igreja dali já mencionamos.
3. Existe também outra epístola do mesmo Africano a Aristides, sobre a suposta discrepância entre Mateus e Lucas nas genealogias de Cristo. Nela mostra claramente a concordância dos evangelistas, a partir de um relato que lhe chegara, e que já apresentamos no lugar próprio, no primeiro livro desta obra.
1. Por esse tempo Orígenes preparou os seus Comentários sobre Isaías e sobre Ezequiel. Do primeiro chegaram até nós trinta livros, até a terceira parte de Isaías, até a visão dos animais do deserto; sobre Ezequiel, vinte e cinco livros, que são tudo o que ele escreveu sobre o profeta inteiro.
2. Estando então em Atenas, terminou a sua obra sobre Ezequiel e começou os Comentários sobre o Cântico dos Cânticos, que levou até o quinto livro. Depois de voltar a Cesareia, completou também estes, em número de dez livros.
3. Mas por que daríamos nesta história um catálogo exato das obras do homem, o que exigiria um tratado à parte? Também isso já fornecemos na nossa narrativa da vida de Pânfilo, santo mártir do nosso tempo. Depois de mostrar quão grande era a diligência de Pânfilo nas coisas divinas, damos ali um catálogo da biblioteca que ele reuniu com as obras de Orígenes e de outros escritores eclesiásticos. Quem quiser pode aprender facilmente por ele quais obras de Orígenes chegaram até nós. Mas agora devemos prosseguir com a nossa história.
1. Berilo, que mencionamos há pouco como bispo de Bostra na Arábia, desviou-se da norma eclesiástica e tentou introduzir ideias estranhas à fé. Ousou afirmar que nosso Salvador e Senhor não preexistiu numa forma de ser distinta e própria antes de habitar entre os homens, e que não possui uma divindade própria, mas apenas a do Pai, que habita nele.
2. Muitos bispos fizeram investigações e discussões com ele sobre esse assunto; e Orígenes, convidado com os outros, desceu primeiro para uma conversa com ele, a fim de averiguar qual era de fato a sua opinião. Quando entendeu as suas ideias e percebeu que eram errôneas, persuadindo-o com argumentos e convencendo-o com demonstrações, trouxe-o de volta à verdadeira doutrina e o restituiu à sua antiga opinião sã.
3. Ainda existem escritos de Berilo e do sínodo realizado por sua causa, que contêm as perguntas que Orígenes lhe fez e as discussões que se travaram na sua igreja, bem como tudo o que se fez naquela ocasião.
4. Os irmãos mais antigos entre nós transmitiram muitos outros fatos a respeito de Orígenes, que julgo conveniente omitir, por não pertencerem a esta obra. Mas tudo o que pareceu necessário registrar sobre ele se encontra na Apologia em sua defesa escrita por nós e por Pânfilo, o santo mártir do nosso tempo. Nós a preparamos com cuidado e fizemos o trabalho em conjunto, por causa dos críticos.
Gordiano havia sido imperador romano por seis anos quando Filipe, com seu filho Filipe, o sucedeu. Conta-se que ele, sendo cristão, quis, no dia da última vigília pascal, participar com a multidão das orações da Igreja, mas que não lhe foi permitido entrar, por aquele que então presidia, enquanto não fizesse confissão e não se contasse entre os que eram tidos por transgressores e ocupavam o lugar da penitência. Pois, se não tivesse feito isso, jamais teria sido recebido por ele, por causa dos muitos crimes que havia cometido. Diz-se que obedeceu de boa vontade, mostrando na sua conduta um temor de Deus sincero e piedoso.
No terceiro ano desse imperador morreu Héraclas, tendo exercido o seu cargo por dezesseis anos, e Dionísio recebeu o episcopado das igrejas de Alexandria.
1. Nesse tempo, como a fé se estendia e a nossa doutrina era proclamada com ousadia diante de todos, Orígenes, tendo, segundo dizem, mais de sessenta anos e tendo adquirido grande facilidade pela longa prática, muito acertadamente permitiu que os seus discursos públicos fossem anotados por taquígrafos, coisa que antes nunca havia permitido.
2. Nesse tempo compôs também uma obra de oito livros em resposta à intitulada Discurso Verdadeiro, que fora escrita contra nós por Celso, o epicureu; e os vinte e cinco livros sobre o Evangelho de Mateus, além dos que escreveu sobre os Doze Profetas, dos quais encontramos apenas vinte e cinco.
3. Existe também uma epístola sua ao imperador Filipe e outra a Severa, sua esposa, além de várias outras a diversas pessoas. Reunimos em livros distintos, até o número de cem, para que não continuassem dispersas, todas as que conseguimos recolher, conservadas aqui e ali por diferentes pessoas.
4. Escreveu também a Fabiano, bispo de Roma, e a muitos outros dirigentes das igrejas, a respeito da sua ortodoxia. Há exemplos disso no oitavo livro da Apologia que escrevemos em sua defesa.
Por volta do mesmo tempo surgiram outros na Arábia, apresentando uma doutrina estranha à verdade. Diziam que, durante o tempo presente, a alma humana morre e perece com o corpo, mas que no tempo da ressurreição serão renovados juntos. Também nessa ocasião se reuniu um sínodo de tamanho considerável; e Orígenes, convidado novamente para lá, falou publicamente sobre a questão com tal efeito que mudaram as opiniões dos que antes haviam caído.
Outro erro surgiu também nesse tempo, chamado heresia dos elcesaítas, que foi extinto logo no começo. Orígenes fala dele deste modo, numa homilia pública sobre o salmo oitenta e dois:
“Veio há pouco um homem, muito inchado com a própria capacidade, proclamando aquela opinião ímpia e sem Deus que apareceu ultimamente nas igrejas, chamada ‘dos elcesaítas’. Vou mostrar-lhes que coisas más essa opinião ensina, para que vocês não sejam arrastados por ela. Ela rejeita certas partes de toda a Escritura. Por outro lado, usa trechos do Antigo Testamento e do Evangelho, mas rejeita inteiramente o apóstolo. Diz que negar a Cristo é coisa indiferente, e que quem compreende negará, sob necessidade, com a boca, mas não no coração. Apresentam certo livro que dizem ter caído do céu. Sustentam que quem o ouvir e crer receberá a remissão dos pecados, outra remissão que não aquela que Jesus Cristo concedeu.” Tal é o relato a respeito dessas pessoas.
1. Depois de um reinado de sete anos, Filipe foi sucedido por Décio. Por causa do seu ódio a Filipe, ele começou uma perseguição contra as igrejas, na qual Fabiano sofreu o martírio em Roma, e Cornélio o sucedeu no episcopado.
2. Na Palestina, Alexandre, bispo da igreja de Jerusalém, foi levado de novo, por causa de Cristo, ao tribunal do governador em Cesareia; e, tendo-se portado nobremente numa segunda confissão, foi lançado na prisão, coroado com os cabelos brancos de uma velhice venerável.
3. E, depois da sua honrosa e ilustre confissão no tribunal do governador, adormeceu na prisão, e Mazabanes tornou-se seu sucessor no episcopado de Jerusalém.
4. Bábilas, em Antioquia, tendo como Alexandre falecido na prisão depois da sua confissão, foi sucedido por Fábio no episcopado daquela igreja.
5. Mas quantas e quão grandes coisas sobrevieram a Orígenes na perseguição, e qual foi o seu desfecho (quando o demônio do mal pôs em linha todas as suas forças e lutou contra o homem com toda a sua astúcia e poder, atacando-o mais do que a todos os outros contra quem então combatia); e o que e quanto ele suportou pela palavra de Cristo, cadeias, torturas corporais e tormentos sob a coleira de ferro e no calabouço; e como, por muitos dias, com os pés estendidos até o quarto furo do tronco, suportou com paciência as ameaças de fogo e tudo o mais que os seus inimigos lhe infligiram; e como terminaram os seus sofrimentos, já que o juiz se esforçava ardorosamente, com todo o seu empenho, para não lhe tirar a vida; e que palavras ele deixou depois disso, cheias de consolo para os que necessitavam de amparo, tudo isso mostram, com verdade e exatidão, muitíssimas das suas epístolas.
1. Citarei da epístola de Dionísio a Germano um relato do que aconteceu ao primeiro. Falando de si mesmo, escreve o seguinte: “Falo diante de Deus, e ele sabe que não minto. Não fugi por impulso próprio nem sem direção divina.
2. Mas já antes disso, na própria hora em que se ordenou a perseguição de Décio, Sabino enviou um frumentário para me procurar, e eu fiquei em casa quatro dias, esperando a sua chegada.
3. Mas ele andou examinando todos os lugares (estradas, rios e campos) onde pensava que eu pudesse estar escondido ou de passagem. Foi, porém, ferido de cegueira e não encontrou a casa, pois não supunha que eu, sendo perseguido, ficasse em casa. E, depois do quarto dia, Deus me ordenou partir e me abriu caminho de modo admirável; e eu, os meus acompanhantes e muitos dos irmãos saímos juntos. E que isso aconteceu pela providência de Deus ficou manifesto pelo que se seguiu, em que talvez tenhamos sido úteis a alguns.”
4. Mais adiante, relata deste modo o que lhe aconteceu depois da fuga:
“Pois, por volta do pôr do sol, tendo sido preso com os que estavam comigo, fui levado pelos soldados a Taposíris; mas, pela providência de Deus, Timóteo não estava presente e não foi capturado. Chegando depois, encontrou a casa abandonada e guardada por soldados, e nós reduzidos à escravidão.”
5. Pouco depois diz:
“E qual foi o modo da sua admirável disposição? Pois se dirá a verdade. Um dos camponeses encontrou Timóteo fugindo, perturbado, e perguntou-lhe a causa da sua pressa. E ele lhe contou a verdade.
6. Quando o homem ouviu isso (ele ia a uma festa de casamento, pois era costume passar a noite inteira nessas reuniões), entrou e o anunciou aos que estavam à mesa. E eles, como a um sinal combinado, levantaram-se num só impulso, saíram depressa, vieram e irromperam sobre nós com um grito. Imediatamente os soldados que nos guardavam fugiram, e eles chegaram até nós, deitados como estávamos sobre os estrados nus.
7. Mas eu, Deus sabe, pensei a princípio que eram ladrões que vinham para saquear e pilhar. Por isso permaneci no leito em que estava, vestido apenas com uma túnica de linho, e lhes ofereci o resto das minhas roupas, que estava ao meu lado. Mas eles me mandaram levantar e sair depressa.
8. Então entendi por que tinham vindo e clamei, suplicando e rogando que se fossem e nos deixassem em paz. E pedi-lhes que, se quisessem fazer-me algum bem, se antecipassem aos que me levavam e me cortassem eles mesmos a cabeça. E, quando assim clamei, como sabem os meus companheiros, participantes em tudo, levantaram-me à força. Mas eu me lancei de costas no chão; e eles me agarraram pelas mãos e pelos pés e me arrastaram.
9. E as testemunhas de todos esses acontecimentos seguiam: Gaio, Fausto, Pedro e Paulo. Mas os que me haviam agarrado levaram-me às pressas para fora da aldeia e, pondo-me sobre um jumento sem sela, me levaram embora.”
Dionísio relata essas coisas a respeito de si mesmo.
1. O mesmo autor, numa epístola a Fábio, bispo de Antioquia, relata do seguinte modo os sofrimentos dos mártires em Alexandria sob Décio:
“A perseguição entre nós não começou com o decreto imperial, mas o precedeu um ano inteiro. O profeta e autor de males para esta cidade, quem quer que fosse, moveu e incitou antes contra nós as massas dos pagãos, reacendendo entre eles a superstição da sua terra.
2. E, assim excitados por ele e encontrando plena oportunidade para qualquer maldade, consideraram que o único serviço piedoso aos seus demônios era matar-nos.
3. “Prenderam primeiro um ancião chamado Metras e lhe ordenaram que proferisse palavras ímpias. Como ele não obedeceu, bateram-lhe com porretes, feriram-lhe o rosto e os olhos com varas pontiagudas, arrastaram-no para fora da cidade e o apedrejaram.
4. Depois levaram ao templo do seu ídolo uma mulher fiel, chamada Quinta, para forçá-la a adorar. E, como ela se afastou com repulsa, amarraram-lhe os pés e a arrastaram pela cidade inteira sobre as ruas calçadas de pedra, e a lançaram contra as mós, açoitando-a ao mesmo tempo; depois, levando-a ao mesmo lugar, apedrejaram-na até a morte.
5. Então todos, num só impulso, correram às casas dos piedosos; arrancavam de lá quem cada um conhecia como vizinho, e os despojavam e saqueavam. Tomavam para si os bens mais valiosos; mas os objetos mais pobres e os feitos de madeira espalhavam e queimavam nas ruas, de modo que a cidade parecia tomada por um inimigo.
6. Mas os irmãos se retiravam e se iam embora, e ‘aceitaram com alegria a espoliação dos seus bens’ (Hb 10.34), como aqueles de quem Paulo deu testemunho. Não sei de ninguém, a não ser talvez de algum que caiu nas mãos deles, que até agora tenha negado o Senhor.
7. Então prenderam também aquela admirabilíssima virgem Apolônia, mulher idosa, e, batendo-lhe nos queixos, quebraram-lhe todos os dentes. E fizeram uma fogueira fora da cidade e ameaçaram queimá-la viva se ela não se unisse a eles nos seus clamores ímpios. E ela, tendo suplicado um pouco, foi solta, e então saltou com ardor no fogo e foi consumida.
8. Depois prenderam Serapião na sua própria casa e o torturaram com duras crueldades; e, tendo-lhe quebrado todos os membros, lançaram-no de cabeça do andar superior. E não havia rua, nem via pública, nem viela aberta para nós, de noite ou de dia; pois sempre e em toda parte todos clamavam que, se alguém não repetisse as suas palavras ímpias, devia ser imediatamente arrastado e queimado.
9. E as coisas continuaram assim por um tempo considerável. Mas uma sedição e uma guerra civil sobrevieram àquela gente miserável e voltaram uns contra os outros a crueldade que tinham contra nós. Assim respiramos um pouco, enquanto cessavam a sua fúria contra nós. Mas logo nos foi anunciada a mudança daquele reinado mais brando, e um grande temor do que nos ameaçava se apoderou de nós.
10. Pois chegou o decreto, quase semelhante àquele tempo terribilíssimo predito por nosso Senhor, que, se fosse possível, escandalizaria até os eleitos.
11. Todos, de fato, ficaram aterrorizados. E muitos dos mais eminentes, por medo, apresentaram-se imediatamente; outros, que estavam no serviço público, foram levados pelas suas funções oficiais; outros eram empurrados pelos seus conhecidos. E, chamados pelo nome, aproximavam-se dos sacrifícios impuros e ímpios. Alguns estavam pálidos e tremiam, como se não fossem sacrificar, mas ser eles mesmos sacrifícios e oferendas aos ídolos; de modo que eram escarnecidos pela multidão que estava em volta, pois era evidente a todos que tinham medo tanto de morrer como de sacrificar.
12. Outros, porém, avançavam para os altares com mais prontidão, declarando com ousadia que nunca tinham sido cristãos. Destes é muito verdadeira a predição de nosso Senhor, de que ‘dificilmente’ serão salvos. Dos restantes, uns seguiram uma, outros a outra dessas classes; alguns fugiram, e alguns foram presos.
13. E destes últimos, alguns permaneceram fiéis até as cadeias e a prisão; e alguns, mesmo tendo estado presos por muitos dias, abjuraram a fé antes de serem levados a julgamento. Outros, tendo suportado por algum tempo grandes torturas, acabaram por se retratar.
14. Mas as firmes e bem-aventuradas colunas do Senhor, fortalecidas por ele, e tendo recebido vigor e força condizentes e proporcionais à fé robusta que possuíam, tornaram-se testemunhas admiráveis do seu Reino.
15. O primeiro destes foi Juliano, homem que sofria tanto de gota que não conseguia ficar em pé nem andar. Trouxeram-no com outros dois que o carregavam. Um destes negou imediatamente. Mas o outro, chamado Crônion, de sobrenome Eunus, e o próprio ancião Juliano, tendo ambos confessado o Senhor, foram levados em camelos por toda a cidade, que, como você sabe, é muito grande; e, nessa posição elevada, foram espancados e por fim queimados num fogo violento, cercados por todo o povo.
16. Mas um soldado chamado Besas, que estava junto deles enquanto eram levados, repreendeu os que os insultavam. E eles gritaram contra ele; e esse varonilíssimo guerreiro de Deus foi levado a juízo e, tendo-se portado nobremente no grande combate pela piedade, foi decapitado.
17. Outro, líbio de nascimento, mas no nome e na bem-aventurança um verdadeiro Macar [N. do T.: em grego, makar significa “bem-aventurado”.], foi fortemente instado pelo juiz a retratar-se; mas, como não cedeu, foi queimado vivo. Depois deles, Epímaco e Alexandre, tendo permanecido em cadeias por muito tempo e suportado incontáveis suplícios de raspadeiras e açoites, também foram consumidos num fogo violento.
18. E com eles havia quatro mulheres. Amonário, santa virgem, o juiz torturou sem descanso e em excesso, porque ela declarou desde o início que não pronunciaria nenhuma das coisas que ele ordenava; e, tendo cumprido fielmente a sua promessa, foi levada. As outras eram Mercúria, anciã muito notável, e Dionísia, mãe de muitos filhos, que não amou os próprios filhos acima do Senhor. Como o governador se envergonhava de torturar assim sem resultado e de ser sempre vencido por mulheres, elas foram mortas à espada, sem passar pela prova das torturas. Pois a campeã, Amonário, as suportou em favor de todas.
19. Os egípcios Heron, Ater e Isidoro, e com eles Dióscoro, um rapaz de cerca de quinze anos, foram entregues. A princípio o juiz tentou enganar o menino com belas palavras, como se pudesse ser atraído facilmente, e depois forçá-lo com torturas, como quem cederia prontamente. Mas Dióscoro não foi persuadido nem constrangido.
20. Como os outros permaneceram firmes, ele os açoitou cruelmente e depois os entregou ao fogo. Mas, admirando o modo como Dióscoro se distinguira publicamente e as suas sábias respostas às suas tentativas de persuasão, deixou-o ir, dizendo que, por causa da sua juventude, lhe daria tempo para se arrepender. E esse piedosíssimo Dióscoro está agora entre nós, aguardando um combate mais longo e uma luta mais severa.
21. Certo Nemésio, que também era egípcio, foi acusado de ser cúmplice de ladrões; mas, quando se livrou diante do centurião dessa acusação, tão alheia à verdade, foi denunciado como cristão e levado acorrentado ao governador. E o injustíssimo magistrado lhe infligiu torturas e açoites em dobro dos que aplicou aos ladrões, e depois o queimou entre os ladrões, honrando assim o bem-aventurado com a semelhança de Cristo.
22. Um grupo de soldados, Amon, Zenão, Ptolomeu e Ingenes, e com eles um ancião, Teófilo, estavam de pé, juntos, diante do tribunal. E, como certa pessoa que estava sendo julgada como cristã parecia inclinada a negar, eles, que estavam ao lado, rangiam os dentes, faziam sinais com o rosto, estendiam as mãos e gesticulavam com o corpo. E, quando a atenção de todos se voltou para eles, antes que alguém pudesse agarrá-los, correram até o tribunal, dizendo que eram cristãos, de modo que o governador e o seu conselho ficaram aterrorizados. E os que estavam sendo julgados se mostraram corajosíssimos diante dos sofrimentos que os aguardavam, enquanto os seus juízes tremiam. E saíram exultantes do tribunal, alegrando-se no seu testemunho; o próprio Deus os fizera triunfar gloriosamente.”
1. “Muitos outros, nas cidades e aldeias, foram despedaçados pelos pagãos; destes mencionarei um como exemplo. Isquirião estava empregado como administrador de um dos governantes. O seu patrão ordenou-lhe que sacrificasse; e, diante da recusa, insultou-o; e, como ele permaneceu firme, maltratou-o. E, como ele resistia ainda, tomou uma vara comprida, atravessou-lhe as entranhas e o matou.
2. “Que necessidade tenho de falar da multidão que vagou pelos desertos e montes e pereceu de fome, sede, frio, doença, assaltantes e feras? Os que dentre eles sobreviveram são testemunhas da sua eleição e vitória.
3. Mas relatarei um acontecimento como exemplo. Queremão, que era muito idoso, era bispo da cidade chamada Nilo. Fugiu com a mulher para o monte da Arábia e não voltou. E, embora os irmãos procurassem com diligência, não conseguiram encontrar nem a eles nem os seus corpos.
4. E muitos dos que fugiram para o mesmo monte da Arábia foram levados como escravos pelos sarracenos bárbaros. Alguns deles foram resgatados com dificuldade e por alto preço; outros não o foram até agora. Relatei estas coisas, meu irmão, não sem propósito, mas para que você entenda quantas e quão grandes aflições vieram sobre nós. Melhor as entenderão, de fato, aqueles que mais experiência tiveram delas.”
5. Um pouco mais adiante, acrescenta: “Esses divinos mártires dentre nós, que agora estão sentados com Cristo e são participantes do seu Reino, partícipes do seu juízo e juízes com ele, receberam alguns dos irmãos que haviam caído e se tornado réus da culpa de sacrificar. Quando perceberam que a conversão e o arrependimento deles eram suficientes para ser aceitos por aquele que de modo nenhum deseja a morte do pecador, mas o seu arrependimento, depois de prová-los, receberam-nos de volta, reuniram-nos, estiveram com eles e tiveram comunhão com eles nas orações e nas refeições.
6. Que conselho, então, irmãos, vocês nos dão a respeito dessas pessoas? Que devemos fazer? Teremos o mesmo juízo e a mesma regra que eles, guardaremos a sua decisão e a sua caridade e usaremos de misericórdia com aqueles de quem eles se compadeceram? Ou declararemos injusta a decisão deles, nos faremos juízes da opinião deles, entristeceremos a misericórdia e subverteremos a ordem?” Dionísio acrescentou muito acertadamente essas palavras ao fazer menção dos que haviam sido fracos no tempo da perseguição.
1. Depois disso, Novato, presbítero da igreja de Roma, ensoberbecido contra essas pessoas, como se para elas já não houvesse esperança de salvação, nem mesmo se fizessem tudo o que pertence a uma conversão genuína e pura, tornou-se chefe da heresia daqueles que, no orgulho da sua imaginação, se chamam a si mesmos cátaros.
2. Diante disso reuniu-se em Roma um sínodo muito numeroso, de sessenta bispos e de um número muito maior de presbíteros e diáconos, enquanto os pastores das demais províncias deliberavam em particular, cada um no seu lugar, sobre o que se devia fazer. Todos confirmaram um decreto de que Novato e os que se uniram a ele, bem como os que adotaram a sua opinião desumana e inimiga dos irmãos, fossem considerados pela igreja como estranhos; mas que se curassem os irmãos que haviam caído na desgraça e se lhes ministrassem os remédios do arrependimento.
3. Chegaram até nós epístolas de Cornélio, bispo de Roma, a Fábio, da igreja de Antioquia, que mostram o que se fez no sínodo de Roma e o que pareceu melhor a todos os da Itália, da África e das regiões vizinhas. Também outras epístolas, escritas em língua latina, de Cipriano e dos que estavam com ele na África, que mostram que concordavam quanto à necessidade de socorrer os que haviam sido tentados e de cortar da Igreja Católica o chefe da heresia e todos os que se uniram a ele.
4. Outra epístola de Cornélio, sobre as resoluções do sínodo, vem junto com estas; e ainda outras, sobre a conduta de Novato, das quais convém fazermos uma seleção, para que quem vir esta obra saiba a respeito dele.
5. Cornélio informa a Fábio que tipo de homem era Novato, com as seguintes palavras:
“Mas, para que você saiba que há muito tempo este homem notável desejava o episcopado, mas guardava para si esse desejo ambicioso e o ocultava (usando como capa para a sua rebelião os confessores que se haviam unido a ele desde o princípio), quero falar.
6. Máximo, um dos nossos presbíteros, e Urbano, que por duas vezes alcançou a mais alta honra pela confissão, com Sidônio e Celerino, homem que pela graça de Deus suportou heroicamente toda espécie de tortura e, pela força da sua fé, venceu a fraqueza da carne e derrotou poderosamente o adversário, esses homens o desmascararam e descobriram a sua astúcia e duplicidade, os seus perjúrios e mentiras, a sua insociabilidade e a sua amizade cruel. E voltaram à santa igreja e proclamaram, na presença de muitos, tanto bispos como presbíteros e grande número de leigos, toda a sua astúcia e maldade, que ele por muito tempo ocultara. E fizeram isso com lamentos e arrependimento, porque, pela persuasão da fera astuta e maliciosa, haviam deixado a igreja por algum tempo.” Um pouco mais adiante diz:
7. “Quão notável, amado irmão, a mudança e transformação que vimos acontecer nele em pouco tempo. Pois este homem ilustríssimo, que se comprometeu com terríveis juramentos a de modo nenhum buscar o episcopado, de repente aparece como bispo, como se tivesse sido lançado entre nós por alguma máquina.
8. Pois este dogmatista, este defensor da doutrina da Igreja, tentando agarrar e apoderar-se do episcopado, que não lhe fora dado do alto, escolheu dois dos seus companheiros que haviam renunciado à própria salvação. E enviou-os a um canto pequeno e insignificante da Itália, para ali, com algum argumento falso, enganar três bispos, homens rústicos e muito simples. E eles afirmaram positiva e energicamente que era necessário que viessem depressa a Roma, para que toda a dissensão ali surgida fosse apaziguada pela sua mediação, junto com outros bispos.
9. Quando chegaram, sendo, como dissemos, muito simples diante da astúcia e do artifício dos maus, foram encerrados com certos homens escolhidos, semelhantes a ele. E, pela hora décima, quando já estavam bêbados e enjoados, ele os obrigou à força a conferir-lhe o episcopado por uma imposição de mãos falsa e vã. Como o episcopado não lhe viera, vingou-se com astúcia e traição.
10. Um desses bispos, pouco depois, voltou à igreja, lamentando e confessando a sua transgressão. E nós o admitimos à comunhão como leigo, intercedendo por ele todo o povo presente. E ordenamos sucessores dos outros bispos e os enviamos aos lugares onde aqueles estavam.
11. Este vingador do evangelho, então, não sabia que deve haver um só bispo numa igreja católica; contudo não ignorava (pois como poderia?) que nela havia quarenta e seis presbíteros, sete diáconos, sete subdiáconos, quarenta e dois acólitos, cinquenta e dois exorcistas, leitores e porteiros, e mais de mil e quinhentas viúvas e necessitados, todos os quais a graça e a bondade do Senhor alimentam.
12. Mas nem mesmo essa grande multidão, tão necessária na igreja, nem aqueles que, pela providência de Deus, eram ricos e fartos, juntamente com o povo numerosíssimo e até incontável, puderam desviá-lo de tal desespero e presunção e chamá-lo de volta à Igreja.”
13. De novo, mais adiante, acrescenta estas palavras: “Permita-nos dizer ainda: por quais obras ou conduta teve ele a ousadia de disputar o episcopado? Seria porque fora criado na Igreja desde o princípio e suportara muitos combates em favor dela, e passara por muitos e grandes perigos pela religião? Na verdade, não é esse o caso.
14. Mas Satanás, que entrou nele e nele habitou por muito tempo, tornou-se a ocasião da sua fé. Liberto pelos exorcistas, caiu numa doença grave; e, como parecia estar para morrer, recebeu o batismo por efusão, no leito em que jazia; se é que se pode dizer que alguém assim o recebeu.
15. E, quando foi curado da doença, não recebeu as outras coisas que é necessário ter segundo o cânon da Igreja, a saber, ser selado pelo bispo. E, não tendo recebido isso, como poderia receber o Espírito Santo?”
16. Pouco depois diz de novo:
“No tempo da perseguição, por covardia e amor à vida, negou que fosse presbítero. Pois, quando foi solicitado e rogado pelos diáconos a sair do aposento em que se havia encerrado e prestar auxílio aos irmãos, na medida em que era lícito e possível a um presbítero socorrer os irmãos que estavam em perigo e precisavam de ajuda, deu tão pouca atenção aos rogos dos diáconos que se foi embora irado. Pois dizia que já não queria ser presbítero, porque era admirador de outra filosofia.”
17. Passando por alto algumas coisas, acrescenta o seguinte:
“Pois este homem ilustre abandonou a Igreja de Deus, na qual, depois de crer, foi julgado digno do presbiterato pelo favor do bispo que o ordenou para o ofício presbiteral. A isso se opuseram todo o clero e muitos dos leigos, porque não era lícito que alguém que recebera o batismo por efusão no leito, por causa de doença, como ele, entrasse em qualquer ofício clerical; mas o bispo pediu que lhe fosse permitido ordenar somente este.”
18. Acrescenta a isso ainda outra falta, a pior de todas as do homem, do seguinte modo:
“Pois, quando faz as oblações e distribui uma parte a cada um, ao entregá-la obriga o pobre homem a jurar, em lugar da bênção. Segurando-lhe as mãos entre as suas, não o solta até que tenha jurado deste modo (pois darei as suas próprias palavras):
‘Jura-me pelo corpo e sangue de nosso Senhor Jesus Cristo que nunca me abandonarás nem te voltarás para Cornélio.’
19. E o infeliz não prova antes de ter invocado imprecações sobre si mesmo; e, em vez de dizer Amém ao tomar o pão, diz: ‘Nunca voltarei para Cornélio.'” Mais adiante diz de novo:
20. “Mas saiba que ele agora ficou despojado e desamparado, pois os irmãos o abandonam a cada dia e voltam à igreja. Também Moisés, o bem-aventurado mártir, que há pouco sofreu entre nós um glorioso e admirável martírio, quando ainda vivia, vendo a sua ousadia e insensatez, recusou ter comunhão com ele e com os cinco presbíteros que com ele se haviam separado da igreja.”
21. No fim da sua carta, dá uma lista dos bispos que tinham vindo a Roma e condenado a insensatez de Novato, com os seus nomes e a igreja que cada um deles presidia.
22. Menciona também os que não vieram a Roma, mas expressaram por cartas a sua concordância com o voto desses bispos, dando os seus nomes e as cidades de onde cada um as enviou. Cornélio escreveu essas coisas a Fábio, bispo de Antioquia.
1. A esse mesmo Fábio, que parecia inclinar-se um tanto para esse cisma, também Dionísio de Alexandria escreveu uma epístola. Escreve nela muitas outras coisas sobre o arrependimento e relata os combates dos que haviam sofrido o martírio pouco antes em Alexandria. Depois do outro relato, menciona certo fato admirável, que merece lugar nesta obra. É o seguinte:
2. “Dar-te-ei este único exemplo, ocorrido entre nós. Havia entre nós certo Serapião, crente idoso, que vivera por muito tempo de modo irrepreensível, mas caíra na provação. Suplicou muitas vezes, mas ninguém lhe dava atenção, porque havia sacrificado. Mas adoeceu e, por três dias seguidos, permaneceu sem fala e sem sentidos.
3. Tendo-se recuperado um pouco no quarto dia, mandou chamar o filho de sua filha e disse: ‘Até quando vocês me deterão, meu filho? Peço-te, apressa-te e absolve-me depressa. Chama-me um dos presbíteros.’ E, tendo dito isso, ficou de novo sem fala. E o menino correu ao presbítero. Mas era noite, e ele estava doente e, por isso, não pôde ir.
4. Mas, como eu havia ordenado que as pessoas à beira da morte, se o pedissem, e especialmente se o tivessem pedido antes, recebessem a remissão, para que partissem com boa esperança, ele deu ao menino uma pequena porção da eucaristia, dizendo-lhe que a umedecesse e deixasse cair as gotas na boca do ancião.
5. O menino voltou com ela e, ao aproximar-se, antes de entrar, Serapião, despertando de novo, disse: ‘Vieste, meu filho, e o presbítero não pôde vir; mas faze depressa o que ele mandou e deixa-me partir.’ Então o menino a umedeceu e a fez cair na sua boca. E, depois de ter engolido um pouco, imediatamente entregou o espírito.
6. Não é evidente que ele foi preservado e a sua vida se prolongou até ser absolvido, e que, apagado o seu pecado, ele pôde ser reconhecido pelas muitas boas obras que havia praticado?”
Dionísio relata essas coisas.
1. Mas vejamos como o mesmo homem se dirigiu a Novato, quando este perturbava a irmandade romana. Como ele alegava que alguns dos irmãos tinham sido a ocasião da sua apostasia e do seu cisma, como se tivesse sido forçado por eles a proceder como procedeu, observe o modo como ele lhe escreve:
2. “Dionísio a seu irmão Novato, saudação. Se, como dizes, foste levado contra a tua vontade, o provarás se te retirares voluntariamente. Pois seria melhor sofrer tudo a dividir a Igreja de Deus. Mesmo o martírio sofrido para impedir a divisão não seria menos glorioso do que o sofrido por recusar adorar os ídolos. Antes, a mim me parece maior. Pois num caso o homem sofre o martírio pela própria alma; no outro, em favor da Igreja inteira. E agora, se puderes persuadir ou induzir os irmãos a voltar à unanimidade, a tua retidão será maior do que o teu erro, e este não será levado em conta, mas aquela será louvada. Mas, se não puderes prevalecer sobre os desobedientes, ao menos salva a tua própria alma. Desejo que passes bem, conservando a paz no Senhor.” Isso ele escreveu a Novato.
1. Escreveu também uma epístola aos irmãos do Egito sobre o arrependimento. Nela expõe o que lhe parecia conveniente a respeito dos que haviam caído e descreve as classes de transgressões.
2. Existe também uma carta particular sobre o arrependimento, que escreveu a Conon, bispo da igreja de Hermópolis, e outra de caráter admonitório ao seu rebanho em Alexandria. Entre elas está também a que escreveu a Orígenes sobre o martírio, e a dirigida aos irmãos de Laodiceia, dos quais Telimidres era bispo. Enviou igualmente uma sobre o arrependimento aos irmãos da Armênia, dos quais Merozanes era bispo.
3. Além de todas essas, escreveu a Cornélio de Roma, quando recebeu dele uma epístola contra Novato. Diz nela que havia sido convidado por Heleno, bispo de Tarso, na Cilícia, e pelos outros que estavam com ele, Firmiliano, bispo na Capadócia, e Teoctisto, da Palestina, a encontrá-los no sínodo de Antioquia, onde algumas pessoas tentavam firmar o cisma de Novato.
4. Além disso, escreve que fora informado de que Fábio havia adormecido e de que Demetriano fora nomeado seu sucessor no episcopado de Antioquia. Escreve também estas palavras a respeito do bispo de Jerusalém: “Pois o bem-aventurado Alexandre, tendo sido encerrado na prisão, partiu ditosamente.”
5. Além disso, existe também certa outra epístola diaconal de Dionísio, enviada aos de Roma por meio de Hipólito. E escreveu-lhes outra sobre a paz e, igualmente, sobre o arrependimento; e ainda outra aos confessores dali que ainda mantinham a opinião de Novato. Enviou mais duas às mesmas pessoas depois que voltaram à Igreja. E comunicou-se por cartas com muitos outros, que deixou como benefício de várias maneiras para os que agora estudam com diligência os seus escritos.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.