Eusébio, História Eclesiástica · Livro VI
A perseguição de Severo; a juventude e o ensino de Orígenes; os seus alunos mártires e Potamiena; Clemente de Alexandria; Narciso e Alexandre de Jerusalém; o estudo das Escrituras; Hipólito; os comentários de Orígenes.
Quando Severo começou a perseguir as igrejas, os atletas da religião deram por toda parte testemunhos gloriosos. Isso aconteceu de modo especial em Alexandria, cidade para a qual, como para o mais eminente dos teatros, eram levados do Egito e de toda a Tebaida os atletas de Deus, segundo o seu merecimento. Ali receberam de Deus coroas, pela grande paciência com que suportaram muitas torturas e toda espécie de morte. Entre eles estava Leônidas, a quem chamavam pai de Orígenes, e que foi decapitado quando o filho ainda era jovem. Não será fora de propósito expor brevemente quão notável foi a inclinação desse filho pela Palavra divina, em consequência do ensino do pai, já que a sua fama tem sido muito celebrada por muitos.
1. Muitas coisas se poderiam dizer na tentativa de descrever a vida desse homem enquanto esteve na escola; mas só esse assunto exigiria um tratado à parte. Ainda assim, por ora, abreviando a maior parte, exporemos o mais brevemente possível alguns fatos a seu respeito, recolhidos de certas cartas e do relato de pessoas ainda vivas que o conheceram.
2. O que contam de Orígenes me parece digno de menção, mesmo, por assim dizer, desde os seus cueiros.
Era o décimo ano do reinado de Severo. Leto governava Alexandria e o restante do Egito, e Demétrio havia pouco recebera o episcopado das igrejas dali, como sucessor de Juliano.
3. Como a chama da perseguição se havia ateado com grande força, e multidões tinham alcançado a coroa do martírio, apoderou-se da alma de Orígenes, ainda menino, tamanho desejo do martírio que ele chegou bem perto do perigo, lançando-se à frente e correndo para o combate no seu ardor.
4. E, de fato, o fim da sua vida teria estado muito próximo, se a divina e celestial Providência, para benefício de muitos, não tivesse impedido o seu desejo por meio da mãe.
5. Pois ela, a princípio, com súplicas, pediu-lhe que tivesse compaixão dos seus sentimentos de mãe para com ele. Mas, vendo que, depois de saber que o pai fora preso e encarcerado, ele estava ainda mais decidido e inteiramente arrebatado pelo zelo do martírio, escondeu-lhe todas as roupas e assim o obrigou a ficar em casa.
6. Ele, porém, como não havia outra coisa que pudesse fazer, e o seu zelo, superior à sua idade, não o deixava ficar quieto, enviou ao pai uma carta de encorajamento sobre o martírio, na qual o exortava, dizendo: “Cuidado para não mudar de ideia por nossa causa.” Isso pode ser registrado como a primeira prova da sabedoria juvenil de Orígenes e do seu amor sincero pela piedade.
7. Pois já então ele tinha acumulado não pequenos recursos nas palavras da fé, tendo sido instruído nas Escrituras divinas desde a infância. E não as estudara com indiferença, pois o pai, além de lhe dar a educação liberal costumeira, fizera delas um assunto de importância nada secundária.
8. Antes de tudo, antes de introduzi-lo nas ciências dos gregos, exercitou-o nos estudos sagrados, exigindo que todos os dias aprendesse e recitasse.
9. Nem isso era penoso para o menino; ao contrário, ele se mostrava ávido e diligente nesses estudos. E não se contentava em aprender o que era simples e evidente nas palavras sagradas, mas buscava algo mais, e já naquela idade se ocupava de especulações mais profundas. De modo que embaraçava o pai com perguntas sobre o verdadeiro sentido das Escrituras inspiradas.
10. E o pai o repreendia, aparentemente, na sua presença, dizendo-lhe que não investigasse além da sua idade nem além do sentido manifesto. Mas, consigo mesmo, alegrava-se grandemente e dava graças a Deus, autor de todo bem, por tê-lo julgado digno de ser pai de tal filho.
11. E dizem que muitas vezes, de pé junto ao menino adormecido, descobria-lhe o peito, como se nele estivesse entronizado o Espírito divino, e o beijava com reverência, considerando-se bem-aventurado pela sua boa descendência. Essas e outras coisas semelhantes se contam de Orígenes quando menino.
12. Mas, quando o pai terminou a vida no martírio, ele ficou com a mãe e seis irmãos menores, não tendo ainda completado dezessete anos.
13. E, como os bens do pai foram confiscados para o tesouro imperial, ele e a família ficaram privados do necessário para a vida. Mas ele foi julgado digno do cuidado divino. E encontrou acolhida e descanso junto a uma mulher de grande riqueza, distinta pelo seu modo de vida e em outros aspectos. Ela tratava com grande honra um famoso herege que estava então em Alexandria, mas que era natural de Antioquia. Ele vivia com ela como filho adotivo, e ela o tratava com a maior bondade.
14. Mas, embora Orígenes tivesse a necessidade de conviver com ele, deu desde então fortes provas da sua ortodoxia na fé. Pois, quando, por causa da aparente habilidade de Paulo na argumentação (este era o nome do homem), uma grande multidão vinha a ele, não só de hereges, mas também dos nossos, Orígenes nunca pôde ser levado a unir-se a ele em oração. Pois, embora menino, guardava a regra da Igreja e abominava, como ele próprio diz em algum lugar, os ensinos heréticos. Tendo sido instruído pelo pai nas ciências dos gregos, depois da morte dele dedicou-se com mais assiduidade e exclusividade ao estudo das letras. Assim obteve considerável preparo em filologia e, não muito depois da morte do pai, dedicando-se a essa matéria, pôde ganhar uma remuneração amplamente suficiente para as necessidades da sua idade.
1. Enquanto ele lecionava na escola, como ele mesmo nos conta, e não havia em Alexandria ninguém que desse instrução na fé, pois todos tinham sido afugentados pela ameaça da perseguição, alguns dos pagãos vieram a ele para ouvir a palavra de Deus.
2. O primeiro deles, diz ele, foi Plutarco, que, depois de viver bem, foi honrado com o divino martírio. O segundo foi Héraclas, irmão de Plutarco. Este, depois de também ter dado com ele abundante prova de uma vida filosófica e ascética, foi julgado digno de suceder a Demétrio no episcopado de Alexandria.
3. Ele estava no seu décimo oitavo ano quando assumiu a escola catequética. Destacou-se também nesse tempo, durante a perseguição sob Áquila, governador de Alexandria, quando o seu nome se tornou célebre entre os líderes da fé, pela bondade e boa vontade que manifestava para com todos os santos mártires, fossem conhecidos dele ou estranhos.
4. Pois não só estava com eles enquanto estavam em cadeias, até a condenação final, mas, quando os santos mártires eram levados à morte, mostrava grande ousadia e ia com eles ao encontro do perigo. De modo que, como agia com coragem e com grande ousadia saudava os mártires com um beijo, muitas vezes a multidão pagã ao redor se enfurecia e estava a ponto de lançar-se sobre ele.
5. Mas, pela mão auxiliadora de Deus, escapou de modo absoluto e maravilhoso. E esse mesmo poder divino e celestial, vez após vez, impossível dizer quantas vezes, o guardou quando assim se via em perigo, por causa do seu grande zelo e ousadia pelas palavras de Cristo. Tão grande era a inimizade dos incrédulos contra ele, por causa da multidão que ele instruía na fé sagrada, que puseram tropas de soldados ao redor da casa onde morava.
6. Assim, dia após dia, a perseguição ardia contra ele, de modo que a cidade inteira já não podia contê-lo. Mas ele se mudava de casa em casa e era acossado em todas as direções, por causa da multidão que acompanhava a instrução divina que ele dava. Pois também a sua vida exibia uma conduta reta e admirável, segundo a prática da genuína filosofia.
7. Dizem, de fato, que o seu modo de viver era como a sua doutrina, e a sua doutrina como a sua vida. Por isso, pelo poder divino que operava com ele, despertou muitíssimos para o mesmo zelo que o animava.
8. Mas, quando viu que vinham a ele ainda mais pessoas em busca de instrução, e como a escola catequética lhe fora confiada só a ele por Demétrio, que presidia a igreja, considerou o ensino da ciência gramatical incompatível com a formação nas coisas divinas. E logo abandonou a sua escola de gramática, como coisa sem proveito e estorvo para o saber sagrado.
9. Então, com a devida ponderação, para não precisar do auxílio de outros, desfez-se de todos os livros valiosos de literatura antiga que possuía, contentando-se em receber do comprador quatro óbolos por dia. Durante muitos anos viveu desse modo, como filósofo, afastando de si todos os incentivos dos desejos juvenis. Durante o dia inteiro suportava não pouca disciplina, e a maior parte da noite dedicava ao estudo das Escrituras divinas. Refreava-se o quanto podia por uma vida das mais filosóficas: às vezes pela disciplina do jejum, outras vezes pelo pouco tempo de sono. E, no seu zelo, nunca se deitava numa cama, mas no chão.
10. Acima de tudo, pensava que se deviam observar as palavras do Salvador no Evangelho, nas quais ele exorta a não ter duas túnicas, nem usar sandálias (Mt 10.10), nem ocupar-se com preocupações pelo futuro (Mt 6.34).
11. Com um zelo superior à sua idade, perseverou no frio e na nudez e, chegando ao extremo da pobreza, causava grande espanto aos que o rodeavam. E, de fato, entristeceu muitos dos seus amigos que desejavam repartir com ele os seus bens, por causa do trabalho penoso que o viam suportar no ensino das coisas divinas.
12. Mas ele não afrouxou a sua perseverança. Diz-se que andou durante vários anos sem jamais usar calçado e que, por muitíssimos anos, se absteve do uso do vinho e de todas as demais coisas além do alimento necessário, a ponto de correr o risco de arruinar e destruir a saúde.
13. Dando tais provas de vida filosófica aos que o viam, despertou muitos dos seus discípulos para zelo semelhante, de modo que homens eminentes, até dentre os pagãos incrédulos, e homens que se dedicavam às letras e à filosofia foram atraídos ao seu ensino. Alguns deles, tendo recebido dele, no fundo da alma, a fé no Verbo divino, tornaram-se notáveis na perseguição que então reinava, e alguns foram presos e sofreram o martírio.
1. O primeiro deles foi Plutarco, mencionado logo acima. Quando ele era levado à morte, o homem de quem falamos, estando com ele no fim da sua vida, por pouco não foi morto pelos seus concidadãos, como se fosse o culpado da morte dele. Mas a providência de Deus o preservou também dessa vez.
2. Depois de Plutarco, o segundo mártir entre os discípulos de Orígenes foi Sereno, que deu pelo fogo prova da fé que havia recebido.
3. O terceiro mártir da mesma escola foi Heraclides e, depois dele, o quarto foi Herão. O primeiro deles era ainda catecúmeno, e o segundo fora batizado havia pouco. Ambos foram decapitados. Depois deles, o quinto da mesma escola proclamado atleta da piedade foi outro Sereno, que, segundo se conta, foi decapitado depois de suportar longamente as torturas. E, dentre as mulheres, Herais morreu quando ainda era catecúmena, recebendo o batismo pelo fogo, como o próprio Orígenes diz em algum lugar.
1. Basílides pode ser contado como o sétimo deles. Ele conduziu ao martírio a célebre Potamiena, que ainda é famosa entre o povo da região pelas muitas coisas que suportou para preservar a sua castidade e virgindade. Pois ela estava em pleno florescimento, tanto na perfeição da mente como nos encantos do corpo. Depois de muito sofrer pela fé de Cristo, finalmente, após torturas horríveis e terríveis de contar, foi morta pelo fogo juntamente com sua mãe, Marcela.
2. Dizem que o juiz, chamado Áquila, depois de infligir severas torturas a todo o seu corpo, por fim ameaçou entregá-la aos gladiadores para ser violentada. Depois de breve reflexão, perguntada sobre a sua decisão, ela deu uma resposta que foi tida por ímpia.
3. Logo em seguida recebeu a sentença, e Basílides, um dos oficiais do exército, levou-a à morte. Mas, como o povo tentava molestá-la e insultá-la com palavras ofensivas, ele repeliu os que a insultavam, mostrando-lhe muita compaixão e bondade. E ela, percebendo a simpatia daquele homem por ela, exortou-o a ter bom ânimo, pois depois da sua partida suplicaria por ele ao seu Senhor, e ele em breve receberia a recompensa pela bondade que lhe mostrara.
4. Dito isso, ela suportou nobremente o desfecho, enquanto lhe derramavam pez fervente, pouco a pouco, sobre várias partes do corpo, da planta dos pés ao alto da cabeça. Tal foi o combate sustentado por essa célebre donzela.
5. Não muito depois, Basílides, solicitado pelos seus companheiros de armas a prestar juramento por certo motivo, declarou que não lhe era lícito jurar de modo algum, pois era cristão, e confessou isso abertamente. A princípio pensaram que estivesse brincando, mas, como continuou a afirmá-lo, foi levado ao juiz e, confessando diante dele a sua convicção, foi encarcerado. Os irmãos em Deus foram ter com ele e lhe perguntaram a razão dessa resolução repentina e notável. Conta-se que ele disse que Potamiena, durante três dias depois do seu martírio, se pusera ao seu lado de noite, colocara-lhe uma coroa na cabeça e dissera que tinha rogado por ele ao Senhor e obtido o que pedira, e que em breve o levaria consigo.
6. Então os irmãos lhe deram o selo do Senhor e, no dia seguinte, depois de dar glorioso testemunho do Senhor, ele foi decapitado. E muitos outros em Alexandria, segundo se registra, aceitaram prontamente a palavra de Cristo naqueles tempos.
7. Pois Potamiena lhes aparecia em sonhos e os exortava. Mas baste isto sobre esse assunto.
Clemente, que sucedera a Panteno, dirigia naquele tempo a instrução catequética em Alexandria, de modo que também Orígenes, ainda menino, foi um dos seus discípulos. No primeiro livro da obra chamada Stromata, escrita por Clemente, ele apresenta uma tabela cronológica que traz os acontecimentos até a morte de Cômodo. Assim, é evidente que essa obra foi escrita durante o reinado de Severo, cujos tempos agora registramos.
Nesse tempo, outro escritor, Judas, discorrendo sobre as setenta semanas de Daniel, traz a cronologia até o décimo ano do reinado de Severo. Ele pensava que a vinda do Anticristo, de que muito se falava, estava então próxima. Tão grande era a perturbação que a agitação causada pela perseguição contra os nossos naquele tempo produzia na mente de muitos.
1. Nesse tempo, enquanto Orígenes dirigia a instrução catequética em Alexandria, praticou um ato que revelava uma mente imatura e juvenil, mas que ao mesmo tempo dava a mais alta prova de fé e continência. Pois tomou as palavras “há eunucos que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19.12) num sentido literal e extremo demais. E, para cumprir a palavra do Salvador e, ao mesmo tempo, tirar dos incrédulos toda ocasião de escândalo (pois, embora jovem, reunia-se para o estudo das coisas divinas tanto com mulheres como com homens), pôs em prática a palavra do Salvador.
2. Pensava que isso não chegaria ao conhecimento de muitos dos seus conhecidos. Mas lhe foi impossível, por mais que o desejasse, manter em segredo semelhante ação.
3. Quando Demétrio, que presidia aquela igreja, por fim soube disso, admirou muito a ousadia do ato e, percebendo o seu zelo e a sinceridade da sua fé, logo o exortou a ter ânimo e o instou ainda mais a continuar a sua obra de instrução catequética.
4. Assim era ele naquele tempo. Mas pouco depois, vendo que Orígenes prosperava e se tornava grande e distinto entre todos, o mesmo Demétrio, vencido pela fraqueza humana, escreveu aos bispos de todo o mundo, descrevendo o ato dele como o mais insensato. Mas os bispos de Cesareia e de Jerusalém, que eram especialmente notáveis e distintos entre os bispos da Palestina, julgando Orígenes digno da honra no mais alto grau, ordenaram-no presbítero.
5. Com isso a sua fama cresceu muito, o seu nome tornou-se renomado em toda parte, e ele obteve não pequena reputação de virtude e sabedoria. Mas Demétrio, não tendo outra coisa a dizer contra ele senão esse ato da sua mocidade, acusou-o duramente e ousou incluir com ele nessas acusações os que o haviam elevado ao presbiterato.
6. Essas coisas, porém, aconteceram um pouco mais tarde. Nesse tempo, Orígenes continuava sem temor a instrução nas coisas divinas em Alexandria, de dia e de noite, a todos os que vinham a ele, dedicando sem cessar todo o seu tempo livre aos estudos divinos e aos seus discípulos.
7. Severo, depois de ter governado por dezoito anos, foi sucedido por seu filho Antonino. Entre os que tinham suportado corajosamente a perseguição daquele tempo e tinham sido preservados pela Providência de Deus nos combates da confissão, estava Alexandre, de quem já falamos como bispo da igreja de Jerusalém. Por causa da sua eminência na confissão de Cristo, foi julgado digno daquele episcopado, quando Narciso, seu predecessor, ainda vivia.
1. Os membros daquela igreja mencionam muitos outros milagres de Narciso, segundo a tradição dos irmãos que lhe sucederam. Entre eles, relatam o seguinte prodígio realizado por ele.
2. Dizem que certa vez o azeite acabou enquanto os diáconos velavam durante a noite, na grande vigília pascal. Como toda a multidão ficou consternada, Narciso ordenou aos que cuidavam das lâmpadas que tirassem água e a trouxessem a ele.
3. Feito isso imediatamente, ele orou sobre a água e, com fé firme no Senhor, mandou que a derramassem nas lâmpadas. E, quando o fizeram, contra toda expectativa, por um poder maravilhoso e divino, a natureza da água transformou-se na do azeite. Uma pequena porção dele foi conservada até os nossos dias por muitos dos irmãos dali, como lembrança do prodígio.
4. Contam muitas outras coisas dignas de nota sobre a vida desse homem, entre as quais esta. Certos homens vis, não suportando a força e a firmeza da sua vida, e temendo o castigo pelos muitos crimes de que tinham consciência, procuraram antecipar-se a ele por meio de uma trama e espalharam contra ele uma calúnia terrível.
5. E, para convencer os que a ouviam, confirmaram as acusações com juramentos: um invocou sobre si a destruição pelo fogo; outro, a consumpção do corpo por uma doença repugnante; o terceiro, a perda dos olhos. Mas, embora jurassem desse modo, não conseguiram abalar a mente dos fiéis, porque a continência e a vida virtuosa de Narciso eram bem conhecidas de todos.
6. Ele, porém, não pôde de modo algum suportar a maldade desses homens. E, como havia muito seguia uma vida filosófica, fugiu de todo o corpo da Igreja e escondeu-se em lugares desertos e ocultos, e ali permaneceu muitos anos.
7. Mas o grande olho do juízo não ficou indiferente a essas coisas. Logo olhou para esses ímpios e trouxe sobre eles as maldições com que se haviam comprometido. A casa do primeiro, por nada mais que uma pequena faísca que caiu sobre ela, foi inteiramente consumida durante a noite, e ele pereceu com toda a família. O segundo foi rapidamente coberto pela doença que havia imprecado sobre si, da planta dos pés à cabeça.
8. Mas o terceiro, percebendo o que acontecera aos outros e temendo o juízo inevitável de Deus, soberano de todas as coisas, confessou publicamente o que haviam tramado juntos. E, no seu arrependimento, consumiu-se tanto com grandes lamentações e continuou a chorar a tal ponto que perdeu os dois olhos. Tais foram os castigos que esses homens receberam pela sua mentira.
Tendo Narciso partido, sem que ninguém soubesse onde estava, os que presidiam as igrejas vizinhas acharam melhor ordenar outro bispo. O seu nome era Dio. Presidiu pouco tempo, e Germânio lhe sucedeu. A este seguiu-se Górdio, em cujo tempo Narciso reapareceu, como se ressuscitasse dos mortos. E logo os irmãos lhe suplicaram que assumisse o episcopado, pois todos o admiravam ainda mais por causa do seu retiro e da sua filosofia, e sobretudo por causa do castigo com que Deus o vingara.
1. Mas, como Narciso, por causa da sua idade avançada, já não podia desempenhar as funções do seu cargo, a Providência de Deus chamou para o ofício juntamente com ele, por uma revelação que lhe foi dada numa visão noturna, o já mencionado Alexandre, que era então bispo de outra igreja.
2. Então, como por direção divina, ele viajou da terra da Capadócia, onde primeiro exerceu o episcopado, para Jerusalém, em cumprimento de um voto e para conhecer os seus lugares. Ali o receberam com grande cordialidade e não lhe permitiram voltar, por causa de outra revelação que tiveram de noite e que transmitiu uma mensagem claríssima aos mais zelosos dentre eles. Pois lhes deu a saber que, se saíssem pelas portas, receberiam o bispo que Deus lhes havia predestinado. E, tendo feito isso, com o consentimento unânime dos bispos das igrejas vizinhas, obrigaram-no a ficar.
3. O próprio Alexandre, em cartas particulares aos antinoítas, ainda conservadas entre nós, menciona o episcopado conjunto de Narciso e dele mesmo, escrevendo nestes termos no fim da epístola:
4. “Narciso, que antes de mim exerceu aqui o episcopado e agora está associado a mim nas orações, aos cento e dezesseis anos de idade, saúda vocês; e ele os exorta, como eu também, a terem um só sentimento.”
Essas coisas se passaram desse modo. Mas, com a morte de Serapião, Asclepíades, que se distinguira entre os confessores durante a perseguição, sucedeu no episcopado da igreja de Antioquia. Alexandre alude à sua nomeação, escrevendo assim à igreja de Antioquia:
5. “Alexandre, servo e prisioneiro de Jesus Cristo, à bem-aventurada igreja de Antioquia, saudação no Senhor. O Senhor tornou leves e suaves as minhas cadeias durante o tempo da minha prisão, desde que soube que, pela Providência divina, Asclepíades, que é eminentemente qualificado no que diz respeito à verdadeira fé, assumiu o episcopado da santa igreja de vocês em Antioquia.”
6. Ele indica que enviou essa epístola por meio de Clemente, escrevendo perto do fim o seguinte:
“Meus honrados irmãos, enviei a vocês esta carta por meio de Clemente, o bem-aventurado presbítero, homem virtuoso e aprovado, a quem vocês mesmos também conhecem e reconhecerão. Estando aqui, pela providência e supervisão do Mestre, ele fortaleceu e edificou a Igreja do Senhor.”
1. É provável que outros tenham conservado outras lembranças da atividade literária de Serapião, mas chegaram até nós apenas os escritos dirigidos a certo Domnino, que, no tempo da perseguição, se afastou da fé em Cristo para o culto voluntário judaico; os dirigidos a Pôncio e Cárico, homens da Igreja; outras cartas a diversas pessoas; e ainda outra obra composta por ele sobre o chamado Evangelho de Pedro.
2. Escreveu esta última para refutar as falsidades que esse Evangelho continha, por causa de alguns da igreja de Rossos que por ele tinham sido desviados para opiniões heterodoxas. Talvez convenha dar alguns breves extratos da sua obra, que mostram a sua opinião sobre o livro. Ele escreve o seguinte:
3. “Pois nós, irmãos, recebemos tanto a Pedro como aos demais apóstolos como a Cristo; mas rejeitamos com discernimento os escritos falsamente atribuídos a eles, sabendo que tais escritos não nos foram transmitidos.
4. Quando os visitei, supus que todos vocês mantinham a verdadeira fé e, como eu não tinha lido o Evangelho que apresentavam sob o nome de Pedro, disse: Se esta é a única coisa que causa contenda entre vocês, que seja lido. Mas agora, tendo sabido, pelo que me foi contado, que a mente deles estava envolvida em alguma heresia, apressar-me-ei a ir de novo até vocês. Portanto, irmãos, esperem-me em breve.
5. Vocês saberão, irmãos, pelo que lhes foi escrito, que percebemos a natureza da heresia de Marciano e que ele, não entendendo o que dizia, contradizia a si mesmo.
6. Pois, tendo obtido esse Evangelho de outros que o tinham estudado com diligência, isto é, dos sucessores dos que primeiro o usaram, a quem chamamos docetas (pois a maior parte das opiniões deles está ligada ao ensino dessa escola), pudemos lê-lo inteiro, e encontramos muitas coisas de acordo com a verdadeira doutrina do Salvador, mas algumas coisas acrescentadas a essa doutrina, que apontamos para vocês mais adiante.” Isso basta quanto a Serapião.
1. Os oito Stromata de Clemente conservam-se todos entre nós, e ele lhes deu o seguinte título: “Stromata de notas gnósticas sobre a verdadeira filosofia, de Tito Flávio Clemente.”
2. Os livros intitulados Hipotiposes são em igual número. Neles menciona Panteno pelo nome como seu mestre e expõe as opiniões e tradições dele.
3. Além desses, há o seu Discurso exortativo dirigido aos gregos; três livros de uma obra intitulada O Pedagogo; outra com o título Qual rico se salva?; a obra sobre a Páscoa; discussões sobre o jejum e sobre a maledicência; o Discurso exortativo à paciência, ou Aos recém-batizados; e a que traz o título Cânon eclesiástico, ou Contra os judaizantes, que ele dedicou a Alexandre, o bispo mencionado acima.
4. Nos Stromata, ele não só tratou extensamente da Escritura divina, mas também cita os escritores gregos sempre que algo que disseram lhe parece proveitoso.
5. Esclarece as opiniões de muitos, tanto gregos como bárbaros. Também refuta as falsas doutrinas dos heresiarcas e, além disso, revê grande parte da história, oferecendo-nos amostras de um saber muito variado; a tudo isso mistura as opiniões dos filósofos. É provável que por esse motivo tenha dado à obra o título apropriado de Stromata.
6. Nessas obras ele também se serve de testemunhos das Escrituras contestadas: a chamada Sabedoria de Salomão, a de Jesus, filho de Siraque, a Epístola aos Hebreus e as de Barnabé, de Clemente e de Judas.
7. Menciona também o Discurso aos gregos de Taciano e fala de Cassiano como autor de uma obra cronológica. Refere-se aos autores judeus Fílon, Aristóbulo, Josefo, Demétrio e Eupólemo, que mostram todos, nas suas obras, que Moisés e a raça judaica existiram antes da mais remota origem dos gregos.
8. Esses livros abundam também em muito outro saber. No primeiro deles o autor fala de si mesmo como alguém que vem logo depois dos sucessores dos apóstolos.
9. Neles promete também escrever um comentário sobre o Gênesis. No seu livro sobre a Páscoa reconhece que fora instado pelos amigos a pôr por escrito, para a posteridade, as tradições que ouvira dos antigos presbíteros; e na mesma obra menciona Melitão, Irineu e alguns outros, e dá extratos dos seus escritos.
1. Para resumir brevemente, ele deu nas Hipotiposes explicações abreviadas de toda a Escritura canônica, sem omitir os livros contestados; refiro-me a Judas e às demais epístolas católicas, a Barnabé e ao chamado Apocalipse de Pedro.
2. Diz que a Epístola aos Hebreus é obra de Paulo e que foi escrita aos hebreus na língua hebraica, mas que Lucas a traduziu cuidadosamente e a publicou para os gregos; por isso se encontra o mesmo estilo de expressão nessa epístola e em Atos.
3. Mas diz que as palavras “Paulo, apóstolo” provavelmente não foram postas no início porque, ao enviá-la aos hebreus, que tinham preconceito e desconfiança contra ele, Paulo sabiamente não quis afastá-los logo no começo dando o seu nome.
4. Mais adiante diz: “Mas agora, como dizia o bem-aventurado presbítero, visto que o Senhor, sendo o apóstolo do Todo-Poderoso, foi enviado aos hebreus, Paulo, como enviado aos gentios, por modéstia não se apresentou como apóstolo dos hebreus, por respeito ao Senhor, e porque, sendo arauto e apóstolo dos gentios, escreveu aos hebreus por sobreabundância.”
5. Ainda nos mesmos livros, Clemente transmite a tradição dos mais antigos presbíteros sobre a ordem dos Evangelhos, da seguinte maneira:
6. “Os Evangelhos que contêm as genealogias”, diz ele, “foram escritos primeiro. O Evangelho segundo Marcos teve esta ocasião. Como Pedro tinha pregado publicamente a Palavra em Roma e anunciado o Evangelho pelo Espírito, muitos dos que estavam presentes pediram que Marcos, que o seguira por longo tempo e se lembrava das suas palavras, as pusesse por escrito. E, tendo composto o Evangelho, ele o entregou aos que o haviam pedido.
7. Quando Pedro soube disso, nem o proibiu diretamente nem o incentivou. Mas, por último, João, percebendo que os fatos exteriores tinham sido esclarecidos no Evangelho, instado pelos amigos e inspirado pelo Espírito, compôs um Evangelho espiritual.” Este é o relato de Clemente.
8. Por sua vez, o já mencionado Alexandre, numa carta a Orígenes, refere-se a Clemente e, ao mesmo tempo, a Panteno, como pessoas do seu círculo íntimo. Escreve o seguinte:
“Pois esta, como tu sabes, foi a vontade de Deus: que a amizade herdada de nossos antepassados, que existe entre nós, permanecesse inabalável, ou antes, que se tornasse mais calorosa e mais forte.
9. Pois conhecemos bem aqueles bem-aventurados pais que nos precederam no caminho, com os quais em breve estaremos: Panteno, homem verdadeiramente bem-aventurado e mestre, e o santo Clemente, meu mestre e benfeitor, e algum outro que haja semelhante a eles, por meio dos quais vim a conhecer-te, a ti, o melhor em tudo, meu mestre e irmão.”
10. Basta quanto a esses assuntos. Mas Adamâncio (pois este também era um nome de Orígenes), quando Zeferino era bispo de Roma, visitou Roma, “desejando”, como ele mesmo diz em algum lugar, “ver a antiquíssima igreja de Roma.”
11. Depois de breve permanência ali, voltou a Alexandria. E desempenhou ali com grande zelo os deveres da instrução catequética, enquanto Demétrio, que era então bispo daquela cidade, o instava e até lhe suplicava que trabalhasse com diligência para o proveito dos irmãos.
1. Mas, quando viu que não tinha tempo para o estudo mais profundo das coisas divinas, para a investigação e a interpretação das Sagradas Escrituras e, ao mesmo tempo, para a instrução dos que vinham a ele (pois, vindo uns após outros, da manhã à tarde, para serem ensinados por ele, mal lhe davam tempo para respirar), dividiu a multidão. E, dentre os que conhecia bem, escolheu Héraclas, que era estudioso zeloso das coisas divinas e, em outros aspectos, homem muito culto, não ignorante de filosofia, e fez dele seu associado na obra da instrução. Confiou-lhe a formação elementar dos principiantes, mas reservou para si o ensino dos que estavam mais adiantados.
1. Tão dedicada e assídua era a pesquisa de Orígenes nas palavras divinas que aprendeu a língua hebraica e adquiriu para si as Escrituras hebraicas originais que estavam nas mãos dos judeus. Investigou também as obras de outros tradutores das Sagradas Escrituras além dos Setenta. E, além das conhecidas traduções de Áquila, Símaco e Teodocião, descobriu algumas outras que tinham estado escondidas desde tempos remotos (em que recantos afastados, não sei), e com a sua busca as trouxe à luz.
2. Como não conhecia os autores, declarou simplesmente que tinha encontrado esta em Nicópolis, perto de Ácio, e aquela em algum outro lugar.
3. Na Héxapla dos Salmos, depois das quatro traduções principais, acrescenta não só uma quinta, mas também uma sexta e uma sétima. De uma delas declara que a encontrou num jarro em Jericó, no tempo de Antonino, filho de Severo.
4. Tendo reunido todas elas, dividiu-as em seções e as dispôs umas diante das outras, juntamente com o próprio texto hebraico. Deixou-nos assim os exemplares da chamada Héxapla. Organizou também, à parte, uma edição de Áquila, Símaco e Teodocião com a Septuaginta, na Tétrapla.
Quanto a esses tradutores, deve-se dizer que Símaco era ebionita. Ora, a heresia dos chamados ebionitas afirma que Cristo era filho de José e Maria, considerando-o mero homem, e insiste fortemente em guardar a lei à maneira judaica, como já vimos nesta história. Ainda existem comentários de Símaco nos quais ele parece apoiar essa heresia atacando o Evangelho de Mateus. Orígenes declara que obteve esses e outros comentários de Símaco sobre as Escrituras de certa Juliana, que, segundo ele, recebeu os livros por herança do próprio Símaco.
1. Por esse tempo, Ambrósio, que seguia a heresia de Valentino, foi convencido pela exposição da verdade feita por Orígenes e, como se a sua mente fosse iluminada pela luz, aceitou a doutrina ortodoxa da Igreja.
2. Muitos outros também, atraídos pela fama da erudição de Orígenes, que ressoava por toda parte, vieram a ele para pôr à prova a sua competência nas letras sagradas. E muitíssimos hereges, e não poucos dos filósofos mais ilustres, estudaram com ele diligentemente, recebendo dele instrução não só nas coisas divinas, mas também na filosofia profana.
3. Pois, quando percebia que algumas pessoas tinham inteligência superior, instruía-as também nas disciplinas filosóficas (geometria, aritmética e outros estudos preparatórios) e depois avançava para os sistemas dos filósofos e explicava os seus escritos. E fazia observações e comentários sobre cada um deles, de modo que se tornou célebre como grande filósofo até entre os próprios gregos.
4. E instruía muitos dos menos instruídos nas matérias escolares comuns, dizendo que elas lhes seriam de não pequena ajuda no estudo e na compreensão das Escrituras divinas. Por isso considerava especialmente necessário para si mesmo ser versado no saber profano e filosófico.
1. Os filósofos gregos do seu tempo são testemunhas da sua competência nessas matérias. Encontramos frequentes menções dele nos seus escritos. Às vezes dedicavam-lhe as próprias obras; outras vezes, submetiam os seus trabalhos ao seu julgamento, como ao de um mestre.
2. Mas para que dizer essas coisas, quando até Porfírio, que viveu na Sicília em nossos dias e escreveu livros contra nós, tentando por meio deles difamar as Escrituras divinas, menciona os que as interpretaram? E, não conseguindo de modo algum encontrar uma acusação vil contra as doutrinas, por falta de argumentos volta-se para insultar e caluniar os seus intérpretes, tentando sobretudo difamar Orígenes, a quem diz ter conhecido na juventude.
3. Mas, na verdade, sem o saber, ele elogia o homem: diz a verdade sobre ele em alguns casos em que não podia fazer de outro modo, mas profere falsidades onde pensa que não será descoberto. Às vezes o acusa como cristão; outras vezes descreve a sua competência no saber filosófico. Mas ouçam as suas próprias palavras:
4. “Algumas pessoas, desejando encontrar uma solução para a baixeza das Escrituras judaicas em vez de abandoná-las, recorreram a explicações incoerentes e incongruentes com as palavras escritas, explicações essas que, em vez de fornecerem uma defesa dos estrangeiros, contêm antes aprovação e louvor de si mesmos. Pois se gabam de que as palavras claras de Moisés são enigmas e as consideram oráculos cheios de mistérios ocultos; e, tendo confundido com a sua insensatez o juízo da mente, fazem as suas explicações.” Mais adiante diz:
5. “Como exemplo desse absurdo, tome-se um homem que conheci quando eu era jovem e que era então muito célebre, e ainda o é, por causa dos escritos que deixou. Refiro-me a Orígenes, que é altamente honrado pelos mestres dessas doutrinas.
6. Pois esse homem, tendo sido ouvinte de Amônio, que alcançara a maior competência em filosofia entre todos os do nosso tempo, tirou muito proveito do seu mestre no conhecimento das ciências; mas, quanto à escolha correta do modo de vida, seguiu um caminho oposto ao dele.
7. Pois Amônio, sendo cristão e criado por pais cristãos, quando se dedicou ao estudo e à filosofia, logo se conformou à vida exigida pelas leis. Mas Orígenes, tendo sido educado como grego nas letras gregas, passou para a temeridade bárbara. E, levando consigo o saber que obtivera, mercadejou-o, conduzindo-se na vida como cristão e contrariamente às leis, mas sendo como um grego nas suas opiniões sobre as coisas materiais e sobre a Divindade, e misturando os ensinos gregos com fábulas estrangeiras.
8. Pois estava continuamente estudando Platão e se ocupava com os escritos de Numênio e Crônio, Apolófanes, Longino, Moderato e Nicômaco, e dos que eram famosos entre os pitagóricos. E usava os livros de Queremão, o estoico, e de Cornuto. Conhecendo por meio deles a interpretação figurada dos mistérios gregos, aplicou-a às Escrituras judaicas.”
9. Essas coisas são ditas por Porfírio no terceiro livro da sua obra contra os cristãos. Ele fala a verdade sobre a dedicação e a erudição do homem, mas claramente profere uma falsidade (pois o que não fará um adversário dos cristãos?) quando diz que ele veio dos gregos e que Amônio caiu de uma vida de piedade para os costumes pagãos.
10. Pois a doutrina de Cristo foi ensinada a Orígenes pelos pais, como mostramos acima. E Amônio manteve a filosofia divina inabalável e pura até o fim da vida. As suas obras ainda existentes o mostram, pois ele é célebre entre muitos pelos escritos que deixou. Por exemplo, a obra intitulada A harmonia de Moisés e Jesus, e outras que estão em poder dos eruditos.
11. Essas coisas bastam para evidenciar a calúnia do falso acusador e também a competência de Orígenes no saber grego. Ele defende a sua dedicação nesse campo contra alguns que o censuravam por ela, numa certa epístola em que escreve o seguinte:
12. “Quando me dediquei à palavra, e a fama da minha competência se espalhou, e quando hereges e pessoas versadas no saber grego, e particularmente na filosofia, vieram a mim, pareceu-me necessário examinar as doutrinas dos hereges e o que os filósofos dizem a respeito da verdade.
13. E nisso seguimos Panteno, que antes do nosso tempo beneficiou a muitos pelo seu profundo preparo nessas coisas, e também Héraclas, que agora é membro do presbitério de Alexandria. Encontrei-o com o mestre do saber filosófico, com quem ele já estava havia cinco anos antes que eu começasse a ouvir lições sobre esses assuntos.
14. E, embora antes usasse a roupa comum, deixou-a de lado, adotou o manto de filósofo, que ainda usa, e continua a investigação dedicada das obras gregas.”
Ele diz essas coisas defendendo-se por estudar as letras gregas.
15. Por esse tempo, quando ele ainda estava em Alexandria, chegou um soldado e entregou uma carta do governador da Arábia a Demétrio, bispo daquela igreja, e ao prefeito do Egito que então exercia o cargo, pedindo que lhe enviassem Orígenes com toda a pressa para uma entrevista. Enviado por eles, foi à Arábia. E, tendo em pouco tempo cumprido o objetivo da visita, voltou a Alexandria.
16. Algum tempo depois, porém, irrompeu uma guerra considerável na cidade, e ele partiu de Alexandria. E, julgando que não seria seguro para ele permanecer no Egito, foi para a Palestina e ficou em Cesareia. Ali os bispos da igreja daquela região pediram-lhe que pregasse e expusesse publicamente as Escrituras, embora ainda não tivesse sido ordenado presbítero.
17. Isso fica evidente pelo que Alexandre, bispo de Jerusalém, e Teoctisto, de Cesareia, escreveram a Demétrio sobre o assunto, defendendo-se assim:
“Ele declarou na sua carta que nunca se ouvira tal coisa antes, nem até agora tinha acontecido, que leigos pregassem na presença de bispos. Não sei como chega a dizer o que é claramente falso.
18. Pois, sempre que se encontram pessoas capazes de instruir os irmãos, elas são exortadas pelos santos bispos a pregar ao povo. Assim, em Laranda, Euelpis, por Néon; em Icônio, Paulino, por Celso; e em Sínada, Teodoro, por Ático, nossos bem-aventurados irmãos. E provavelmente isso foi feito em outros lugares que desconhecemos.”
Assim foi ele honrado, ainda jovem, não só pelos seus compatriotas, mas também por bispos estrangeiros.
19. Mas Demétrio mandou chamá-lo por carta e, por meio de membros e diáconos da igreja, insistiu que voltasse a Alexandria. Ele então voltou e retomou as suas tarefas costumeiras.
1. Naquele tempo floresceram na Igreja muitos homens doutos, cujas cartas uns aos outros se conservaram e são de fácil acesso. Foram guardadas até o nosso tempo na biblioteca de Élia, fundada por Alexandre, que então presidia aquela igreja. Dessa biblioteca pudemos reunir material para a presente obra.
2. Entre eles, Berilo deixou-nos, além de cartas e tratados, diversas obras elegantes. Era bispo de Bostra, na Arábia. Do mesmo modo também Hipólito, que presidia outra igreja, deixou escritos.
3. Chegou até nós também um diálogo de Caio, homem muito douto, travado em Roma, no tempo de Zeferino, com Proclo, que defendia a heresia frígia. Nele Caio refreia a temeridade e a ousadia dos seus adversários em apresentar novas Escrituras. Menciona apenas treze epístolas do santo apóstolo, sem contar entre as demais a dirigida aos Hebreus. E até os nossos dias há alguns entre os romanos que não a consideram obra do apóstolo.
1. Depois de Antonino ter reinado sete anos e seis meses, Macrino o sucedeu. Este manteve o governo apenas um ano e foi sucedido por outro Antonino. No primeiro ano deste, o bispo romano Zeferino, tendo exercido o cargo por dezoito anos, morreu, e Calisto recebeu o episcopado.
2. Este permaneceu cinco anos e foi sucedido por Urbano. Depois disso, Alexandre tornou-se imperador romano, tendo Antonino reinado apenas quatro anos. Nesse tempo, também Fileto sucedeu a Asclepíades na igreja de Antioquia.
3. A mãe do imperador, chamada Mameia, era uma mulher piedosíssima, se é que alguma vez houve uma, e de vida religiosa. Quando a fama de Orígenes se espalhou por toda parte e chegou até os seus ouvidos, ela desejou muito ver o homem e, acima de tudo, pôr à prova a sua célebre compreensão das coisas divinas.
4. Estando por algum tempo em Antioquia, mandou chamá-lo com uma escolta militar. Tendo ficado com ela algum tempo e lhe mostrado muitas coisas que eram para a glória do Senhor e da excelência do ensino divino, ele se apressou a voltar à sua obra costumeira.
1. Naquele tempo, Hipólito, além de muitos outros tratados, escreveu uma obra sobre a Páscoa. Nela apresenta uma tabela cronológica e expõe certo cânon pascal de dezesseis anos, trazendo o tempo até o primeiro ano do imperador Alexandre.
2. Dos seus outros escritos, chegaram até nós os seguintes: Sobre o Hexâmeron, Sobre as obras depois do Hexâmeron, Contra Marcião, Sobre o Cântico dos Cânticos, Sobre partes de Ezequiel, Sobre a Páscoa, Contra todas as heresias; e podem-se encontrar muitas outras obras conservadas por muitos.
1. Naquele tempo, Orígenes começou os seus comentários sobre as Escrituras divinas, instado a isso por Ambrósio, que empregou incentivos inumeráveis, não só exortando-o com palavras, mas também fornecendo recursos abundantes.
2. Pois ele ditava a mais de sete taquígrafos, que se revezavam em horários determinados. E empregava não menos copistas, além de moças hábeis na escrita caligráfica. Para todos eles Ambrósio fornecia em abundância os recursos necessários, manifestando ele próprio um empenho indizível na diligência e no zelo pelos oráculos divinos, com o qual o impelia especialmente à preparação dos seus comentários.
3. Enquanto essas coisas estavam em andamento, Urbano, que fora bispo da igreja romana por oito anos, foi sucedido por Ponciano, e Zebino sucedeu a Fileto em Antioquia.
4. Nesse tempo, Orígenes foi enviado à Grécia por causa de uma necessidade premente relacionada aos assuntos eclesiásticos, passou pela Palestina e foi ordenado presbítero em Cesareia pelos bispos daquela região. As questões levantadas a seu respeito por esse motivo e as decisões tomadas sobre elas pelos que presidiam as igrejas, além das demais obras sobre a palavra divina que publicou no auge da sua vida, exigem um tratado à parte. Escrevemos sobre elas em certa medida no segundo livro da Defesa que compusemos em seu favor.
1. Convém acrescentar que, no sexto livro da sua exposição do Evangelho de João, ele declara que preparou os cinco primeiros quando estava em Alexandria. Da sua obra sobre o Evangelho inteiro, apenas vinte e dois volumes chegaram até nós.
2. No nono dos livros sobre o Gênesis, que são doze ao todo, declara que não só os oito anteriores tinham sido compostos em Alexandria, mas também os comentários sobre os vinte e cinco primeiros Salmos e sobre as Lamentações. Destes últimos, cinco volumes chegaram até nós.
3. Neles menciona também os seus livros Sobre a ressurreição, que são dois. Escreveu também os livros De Principiis antes de deixar Alexandria; e os discursos intitulados Stromata, em número de dez, compôs na mesma cidade durante o reinado de Alexandre, como indicam as notas de próprio punho que precedem os volumes.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.