Eusébio, História Eclesiástica · Livro V
Os bispos de Jerusalém; Marcião; Montano e os falsos profetas da Frígia, e os que os refutaram; o martírio de Apolônio; a controvérsia sobre a Páscoa; as obras de Irineu; a heresia de Artemão.
1. Nesse tempo Narciso era bispo da igreja de Jerusalém, e é celebrado por muitos até hoje. Ele foi o décimo quinto na sucessão desde o cerco dos judeus no tempo de Adriano. Mostramos que, a partir daquele tempo, a igreja de Jerusalém passou a ser composta de gentios, depois dos da circuncisão, e que Marcos foi o primeiro bispo gentio a presidi-la.
2. Depois dele, a sucessão no episcopado foi esta: primeiro Cassiano; depois dele Públio; depois Máximo; em seguida Juliano; depois Gaio; depois dele Símaco e outro Gaio, e ainda outro Juliano; depois destes, Capitão, Valente e Doliquiano; e, depois de todos eles, Narciso, o trigésimo na sucessão regular a partir dos apóstolos.
1. Nesse tempo Ródon, natural da Ásia, que fora instruído, como ele mesmo afirma, por Taciano, a quem já conhecemos, escreveu vários livros e publicou, entre outros, um contra a heresia de Marcião. Diz que essa heresia, no seu tempo, estava dividida em várias opiniões; e, ao descrever os que provocaram a divisão, refuta com precisão as falsidades inventadas por cada um deles.
2. Mas ouçam o que ele escreve:
“Por isso também discordam entre si, sustentando uma opinião incoerente. Pois Apeles, um do bando, orgulhoso do seu modo de vida e da sua idade, reconhece um só princípio, mas diz que as profecias procedem de um espírito adversário; foi levado a essa opinião pelos oráculos de uma moça chamada Filumena, que estava possuída por um demônio.
3. Outros, porém, entre os quais Potito e Basilico, sustentam dois princípios, como o próprio marinheiro Marcião.
4. Estes, seguindo o lobo do Ponto e, como ele, incapazes de sondar a divisão das coisas, tornaram-se temerários e, sem apresentar prova alguma, afirmaram dois princípios. Outros ainda, resvalando para um erro pior, julgam que não há apenas duas, mas três naturezas. Destes, o líder e chefe é Síneros, como dizem os que defendem o seu ensino.”
5. O mesmo autor escreve que conversou com Apeles. Fala assim:
“Pois o velho Apeles, conversando conosco, foi refutado em muitas coisas que dizia falsamente; por isso chegou a dizer que não era de modo algum necessário examinar a doutrina de cada um, mas que cada um devia continuar a manter o que cria. Afirmava que os que confiavam no Crucificado seriam salvos, contanto que fossem achados praticando boas obras. Mas, como dissemos antes, a sua opinião a respeito de Deus era a mais obscura de todas. Pois falava de um só princípio, como também a nossa doutrina.”
6. Depois, tendo exposto por inteiro a sua própria opinião, acrescenta:
“Quando eu lhe disse: Diga-me como sabe isso, ou como pode afirmar que há um só princípio, ele respondeu que as profecias se refutavam a si mesmas, porque nada disseram de verdadeiro; pois são incoerentes, falsas e contraditórias entre si. Mas como há um só princípio, disse que não sabia; apenas estava persuadido disso.
7. Quando então o conjurei a dizer a verdade, jurou que a dizia ao afirmar que não sabia como há um só Deus não gerado, mas que nisso cria. Então eu ri e o repreendi, porque, chamando-se mestre, não sabia confirmar o que ensinava.”
8. Na mesma obra, dirigindo-se a Calístio, o mesmo escritor reconhece que fora instruído em Roma por Taciano. E diz que Taciano havia preparado um livro de Problemas, no qual prometia explicar as partes obscuras e ocultas das divinas Escrituras. O próprio Ródon promete dar, numa obra sua, as soluções dos problemas de Taciano. Existe também um Comentário seu sobre o Hexâmeron.
9. Esse Apeles, porém, escreveu muitas coisas de modo ímpio sobre a lei de Moisés, blasfemando contra as palavras divinas em muitas de suas obras, mostrando-se, ao que parece, muito zeloso em refutá-las e derrubá-las.
Isso quanto a estes.
O inimigo da Igreja de Deus, que é por excelência aquele que odeia o bem e ama o mal, e não deixa de tentar nenhuma espécie de astúcia contra os homens, de novo se empenhou em fazer brotar estranhas heresias contra a Igreja. Pois algumas pessoas, como répteis venenosos, arrastaram-se pela Ásia e pela Frígia, gabando-se de que Montano era o Paráclito e de que as mulheres que o seguiam, Priscila e Maximila, eram profetisas de Montano.
Outros, cujo chefe era Florino, floresceram em Roma. Este caiu do presbiterado da Igreja, e Blasto foi envolvido numa queda semelhante. Também eles arrastaram muitos da Igreja para a sua opinião, cada um esforçando-se por introduzir as suas próprias inovações a respeito da verdade.
1. Contra a chamada heresia frígia, o poder que sempre combate pela verdade suscitou uma arma forte e invencível, Apolinário de Hierápolis, que já mencionamos, e com ele muitos outros homens capazes, pelos quais nos foi deixado abundante material para a nossa história.
2. Um destes, no começo da sua obra contra eles, indica primeiro que havia disputado com eles em controvérsias orais.
3. Ele começa a sua obra desta maneira:
“Tendo sido instado por ti, amado Avírcio Marcelo, durante um tempo muito longo e suficiente, a escrever um tratado contra a heresia dos que são chamados pelo nome de Milcíades, hesitei até agora, não por falta de capacidade para refutar a mentira ou dar testemunho da verdade, mas por temor e receio de parecer a alguns que eu estivesse acrescentando algo às doutrinas ou preceitos do Evangelho do Novo Testamento, ao qual é impossível, para quem escolheu viver segundo o Evangelho, acrescentar ou tirar.
4. Mas, estando recentemente em Ancira, na Galácia, encontrei a igreja dali muito agitada por essa novidade, que não é profecia, como eles a chamam, mas antes falsa profecia, como se mostrará. Por isso, na medida das nossas forças, com a ajuda do Senhor, disputamos na igreja durante muitos dias a respeito dessas e de outras questões que eles apresentavam uma a uma, de modo que a igreja se alegrou e foi fortalecida na verdade, e os do lado contrário ficaram por ora confundidos, e os adversários se entristeceram.
5. Os presbíteros do lugar, estando também presente o nosso companheiro de presbiterado Zótico de Otrous, pediram-nos que deixássemos um registro do que fora dito contra os opositores da verdade. Não o fizemos, mas prometemos escrevê-lo assim que o Senhor nos permitisse, e enviá-lo a eles sem demora.”
6. Tendo dito isso e outras coisas no começo da sua obra, passa a expor a causa da referida heresia, da seguinte maneira:
“A oposição deles e a sua recente heresia, que os separou da Igreja, surgiu pelo seguinte motivo.
7. Diz-se que há certa aldeia chamada Ardabau, naquela parte da Mísia que confina com a Frígia. Ali, dizem, quando Grato era procônsul da Ásia, pela primeira vez um recém-convertido chamado Montano, por seu insaciável desejo de liderança, deu ao adversário ocasião contra si. E ficou fora de si e, caindo de repente numa espécie de frenesi e êxtase, delirou e começou a balbuciar e a proferir coisas estranhas, profetizando de modo contrário ao costume constante da Igreja, transmitido pela tradição desde o princípio.
8. Alguns dos que ouviram naquele tempo as suas falas espúrias ficaram indignados e o repreenderam como alguém possuído, que estava sob o domínio de um demônio, que era guiado por um espírito enganador e que perturbava a multidão; e o proibiram de falar, lembrando-se da distinção feita pelo Senhor e da sua advertência de guardar-se com vigilância da vinda dos falsos profetas (cf. Mt 7.15). Outros, porém, imaginando-se possuidores do Espírito Santo e de um dom profético, exaltaram-se e se ensoberbeceram não pouco; e, esquecendo-se da distinção do Senhor, desafiaram o espírito louco, insidioso e sedutor, e foram iludidos e enganados por ele. Em consequência disso, ele já não podia ser contido, de modo a guardar silêncio.
9. Assim, por artifício, ou antes por um tal sistema de perversa astúcia, o diabo, tramando a destruição dos desobedientes e sendo indignamente honrado por eles, excitou e inflamou secretamente o entendimento deles, que já se havia afastado da verdadeira fé. E suscitou, além disso, duas mulheres, e as encheu do espírito falso, de modo que falavam de maneira desvairada, insensata e estranha, como a pessoa já mencionada. E o espírito as declarava bem-aventuradas, enquanto elas se alegravam e se gloriavam nele, e as ensoberbecia pela grandeza das suas promessas. Mas às vezes as repreendia abertamente, de modo sábio e fiel, para parecer um censor. Mas os frígios que foram enganados eram poucos.
“E o espírito arrogante ensinou-os a injuriar toda a Igreja universal debaixo do céu, porque o espírito de falsa profecia não recebia dela nem honra nem entrada.
10. Pois os fiéis da Ásia reuniram-se muitas vezes, em muitos lugares por toda a Ásia, para considerar essa questão; examinaram as falas novas e as declararam profanas, e rejeitaram a heresia; e assim essas pessoas foram expulsas da Igreja e excluídas da comunhão.”
11. Tendo relatado essas coisas no início e continuado a refutação do engano deles ao longo de toda a obra, no segundo livro fala assim do fim deles:
12. “Visto, pois, que nos chamaram matadores dos profetas porque não recebemos os seus profetas faladores, os quais, dizem eles, são aqueles que o Senhor prometeu enviar ao povo (cf. Mt 23.34), que respondam como na presença de Deus: Quem há, amigos, entre esses que começaram a falar, de Montano e das mulheres para cá, que tenha sido perseguido pelos judeus ou morto por homens iníquos? Nenhum. Ou algum deles foi preso e crucificado pelo Nome? Certamente não. Ou alguma dessas mulheres foi jamais açoitada nas sinagogas dos judeus, ou apedrejada? Não; nunca, em parte alguma.
13. Mas é por outro gênero de morte que se diz terem morrido Montano e Maximila. Pois corre a notícia de que, incitados pelo espírito de frenesi, ambos se enforcaram; não ao mesmo tempo, mas na ocasião que a voz comum atribui à morte de cada um. E assim morreram e acabaram a vida como o traidor Judas.
14. Assim também, como diz a voz geral, aquela notável personagem, o primeiro administrador, por assim dizer, da sua chamada profecia, um certo Teódoto, que, como se certa vez tivesse sido arrebatado e recebido no céu, caía em transes e se entregava ao espírito enganador, foi arremessado como um disco e morreu miseravelmente.
15. Dizem que essas coisas aconteceram dessa maneira. Mas, como não as vimos, amigo, não pretendemos sabê-las. Talvez de tal maneira, talvez não, morreram Montano, Teódoto e a mulher acima mencionada.”
16. Diz ainda no mesmo livro que os santos bispos daquele tempo tentaram refutar o espírito que havia em Maximila, mas foram impedidos por outros que claramente cooperavam com o espírito.
17. Escreve assim:
“E não diga o espírito, na mesma obra de Astério Urbano, por meio de Maximila: ‘Sou expulso das ovelhas como um lobo. Não sou lobo. Sou palavra, espírito e poder.’ Mas mostre claramente e prove o poder no espírito. E pelo espírito obrigue a confessá-lo aqueles que então estavam presentes com o propósito de pôr à prova o espírito falador e de argumentar com ele, aqueles homens eminentes e bispos, Zótico, da aldeia de Comana, e Juliano, de Apameia, cujas bocas os seguidores de Temisão amordaçaram, recusando permitir que o espírito falso e sedutor fosse refutado por eles.”
18. Ainda na mesma obra, depois de dizer outras coisas em refutação das falsas profecias de Maximila, indica o tempo em que escreveu esses relatos e menciona as predições dela, nas quais profetizava guerras e anarquia. Censura a falsidade delas da seguinte maneira:
19. “E não se mostrou claramente que isso é falso? Pois hoje já são mais de treze anos desde que a mulher morreu, e não houve no mundo nem guerra parcial nem geral; antes, pela misericórdia de Deus, paz contínua, até para os cristãos.” Essas coisas são tiradas do segundo livro.
20. Acrescentarei também breves extratos do terceiro livro, no qual fala assim contra a jactância deles de que muitos dos seus haviam sofrido o martírio:
“Quando, portanto, ficam sem saída, refutados em tudo o que dizem, tentam refugiar-se nos seus mártires, alegando que têm muitos mártires e que isso é prova segura do poder do chamado espírito profético que está com eles. Mas isso, ao que parece, é inteiramente falacioso.
21. Pois algumas das heresias têm muitíssimos mártires; mas certamente não vamos, por isso, concordar com elas nem confessar que possuem a verdade. E, em primeiro lugar, os chamados marcionitas, da heresia de Marcião, dizem ter uma multidão de mártires de Cristo; contudo, não confessam o próprio Cristo em verdade.”
Um pouco adiante, continua:
22. “Quando os chamados ao martírio, vindos da Igreja, pela verdade da fé, se encontraram com algum dos chamados mártires da heresia frígia, separaram-se deles e morreram sem ter comunhão alguma com eles, porque não queriam dar o seu assentimento ao espírito de Montano e das mulheres. E é bem sabido que isso é verdade e ocorreu em nosso próprio tempo em Apameia, junto ao Meandro, entre os que sofreram o martírio com Gaio e Alexandre de Eumênia.”
1. Nessa obra ele menciona um escritor, Milcíades, afirmando que também ele escreveu certo livro contra a referida heresia. Depois de citar algumas palavras deles, acrescenta:
“Tendo encontrado essas coisas numa certa obra deles em oposição à obra do irmão Alcibíades, na qual ele mostra que um profeta não deve falar em êxtase, fiz um resumo.”
2. Um pouco adiante, na mesma obra, dá uma lista dos que profetizaram sob a nova aliança, entre os quais enumera certa Âmia e Quadrato, dizendo:
“Mas o falso profeta cai num êxtase, no qual fica sem pudor e sem temor. Começando por uma ignorância voluntária, passa, como se disse, a uma loucura involuntária da alma.
3. Não podem mostrar que algum dos profetas antigos ou dos novos tenha sido assim arrebatado em espírito. Nem podem gloriar-se de Ágabo, de Judas, de Silas, das filhas de Filipe, de Âmia em Filadélfia, de Quadrato ou de quaisquer outros que não lhes pertencem.”
4. E de novo, pouco depois, diz: “Pois se, depois de Quadrato e de Âmia em Filadélfia, como afirmam, as mulheres que estavam com Montano receberam o dom profético, mostrem quem dentre eles o recebeu de Montano e das mulheres. Pois o apóstolo julgou necessário que o dom profético continuasse em toda a Igreja até a vinda final. Mas não o podem mostrar, embora este seja o décimo quarto ano desde a morte de Maximila.”
5. Assim escreve ele. Mas o Milcíades a quem se refere deixou outros monumentos do seu zelo pelas divinas Escrituras, nos discursos que compôs contra os gregos e contra os judeus, respondendo a cada um deles separadamente em dois livros. Além disso, dirige uma apologia aos governantes terrenos em favor da filosofia que abraçara.
1. Como a chamada heresia frígia ainda florescia na Frígia no seu tempo, também Apolônio, escritor eclesiástico, empreendeu a sua refutação e escreveu contra ela uma obra especial, corrigindo em pormenor as falsas profecias que corriam entre eles e reprovando a vida dos fundadores da heresia. Mas ouçam as suas próprias palavras a respeito de Montano:
2. “As suas ações e o seu ensino mostram quem é esse novo mestre. É ele quem ensinou a dissolução do casamento; quem impôs leis sobre o jejum; quem deu o nome de Jerusalém a Pepuza e Tímio, pequenas cidades da Frígia, querendo reunir ali gente de todas as partes; quem nomeou coletores de dinheiro; quem engendrou o recebimento de presentes sob o nome de ofertas; quem forneceu salários aos que pregavam a sua doutrina, para que o seu ensino prevalecesse por meio da glutonaria.”
3. Assim escreve a respeito de Montano; e um pouco adiante escreve o seguinte a respeito das suas profetisas: “Mostramos que essas primeiras profetisas, tão logo foram cheias do Espírito, abandonaram os maridos. Quão falsamente, portanto, falam os que chamam Prisca de virgem!”
4. Depois diz: “Não lhes parece que toda a Escritura proíbe um profeta de receber presentes e dinheiro? Quando, pois, vejo a profetisa receber ouro, prata e vestes caras, como posso deixar de repreendê-la?”
5. E de novo, um pouco adiante, fala assim a respeito de um dos seus confessores:
“Assim também Temisão, que estava revestido de uma cobiça plausível, não suportou o sinal da confissão, mas trocou as cadeias por uma abundância de bens. E, embora devesse por isso ser humilde, ousou gloriar-se como mártir e, imitando o apóstolo, escreveu certa epístola católica, para instruir aqueles cuja fé era melhor que a dele, combatendo por palavras de som vazio e blasfemando contra o Senhor, os apóstolos e a santa Igreja.”
6. E de novo, a respeito de outros dos que eram honrados entre eles como mártires, escreve o seguinte:
“Para não falar de muitos, que a própria profetisa nos fale de Alexandre, que se dizia mártir, com quem ela costuma banquetear-se, e que é venerado por muitos. Não precisamos mencionar os seus roubos e outras audácias pelas quais foi punido; os arquivos os contêm.
7. Qual destes perdoa os pecados do outro? O profeta perdoa os roubos do mártir, ou o mártir a cobiça do profeta? Pois, embora o Senhor tenha dito: ‘Não levem ouro, nem prata, nem duas túnicas’ (Mt 10.9-10), esses homens, em completa oposição, transgridem quanto à posse das coisas proibidas. Pois mostraremos que aqueles a quem chamam profetas e mártires recolhem o seu ganho não só dos ricos, mas também dos pobres, dos órfãos e das viúvas.
8. Mas, se estão confiantes, que se levantem e discutam essas questões, para que, se forem convencidos, deixem daqui em diante de transgredir. Pois os frutos do profeta devem ser provados; porque ‘pelo fruto se conhece a árvore’ (Mt 12.33).
9. E, para que os que quiserem saibam a respeito de Alexandre, ele foi julgado por Emílio Frontino, procônsul em Éfeso, não por causa do Nome, mas pelos roubos que havia cometido, sendo já apóstata. Depois, tendo-se declarado falsamente pelo nome do Senhor, foi solto, tendo enganado os fiéis que lá estavam. E a sua própria igreja, de onde viera, não o recebeu, porque era ladrão. Os que quiserem informar-se sobre ele têm os registros públicos da Ásia. E, no entanto, o profeta com quem ele passou muitos anos nada sabe a seu respeito!
10. Desmascarando-o, desmascaramos por meio dele também o fingimento do profeta. Poderíamos mostrar o mesmo de muitos outros. Mas, se estão confiantes, que suportem a prova.”
11. Ainda em outra parte da sua obra, fala assim dos profetas de que eles se gloriam:
“Se negam que os seus profetas receberam presentes, que reconheçam ao menos isto: se forem convencidos de recebê-los, não são profetas. E apresentaremos uma multidão de provas disso. Mas é necessário que se examinem todos os frutos de um profeta. Digam-me: um profeta tinge o cabelo? Um profeta pinta as pálpebras? Um profeta se deleita em enfeites? Um profeta joga tabuleiro e dados? Um profeta empresta a juros? Que confessem se essas coisas são lícitas ou não; mas eu mostrarei que foram praticadas por eles.”
12. Esse mesmo Apolônio afirma na mesma obra que, no tempo em que escrevia, era o quadragésimo ano desde que Montano começara a sua pretensa profecia.
13. E diz também que Zótico, mencionado pelo escritor anterior, quando Maximila fingia profetizar em Pepuza, resistiu a ela e procurou refutar o espírito que operava nela, mas foi impedido pelos que concordavam com ela. Menciona também certo Trásea entre os mártires daquele tempo.
Fala, além disso, de uma tradição segundo a qual o Salvador ordenou aos seus apóstolos que não se afastassem de Jerusalém durante doze anos. Usa também testemunhos do Apocalipse de João, e relata que um morto fora ressuscitado pelo poder divino pelo próprio João, em Éfeso. Acrescenta ainda outras coisas pelas quais expõe plena e abundantemente o erro da heresia de que estamos falando. Essas são as coisas registradas por Apolônio.
1. Serapião, que, segundo se conta, sucedeu a Maximino naquele tempo como bispo da igreja de Antioquia, menciona as obras de Apolinário contra a referida heresia. E alude a ele numa carta particular a Cárico e Pôncio, na qual ele mesmo expõe a mesma heresia, e acrescenta as seguintes palavras:
2. “Para que vejam que os feitos desse bando mentiroso da chamada nova profecia são uma abominação para toda a irmandade espalhada pelo mundo, enviei-lhes escritos do beatíssimo Cláudio Apolinário, bispo de Hierápolis, na Ásia.”
3. Na mesma carta de Serapião encontram-se as assinaturas de vários bispos, um dos quais subscreve assim:
“Eu, Aurélio Cirênio, testemunha, oro pela saúde de vocês.”
E outro desta maneira:
“Élio Públio Júlio, bispo de Debelto, colônia da Trácia. Tão certo como Deus vive nos céus, o bem-aventurado Sotas, em Anquíalo, quis expulsar o demônio de Priscila, mas os hipócritas não lhe permitiram.”
4. E as assinaturas autógrafas de muitos outros bispos que concordavam com eles estão contidas na mesma carta.
Isso quanto a essas pessoas.
1. Irineu escreveu várias cartas contra os que perturbavam a sã ordem da Igreja em Roma. Uma delas foi a Blasto, Sobre o cisma; outra a Florino, Sobre a monarquia, ou Que Deus não é o autor do mal. Pois Florino parecia defender essa opinião. E, porque ele estava sendo arrastado pelo erro de Valentino, Irineu escreveu a sua obra Sobre a Ogdóade, na qual mostra que ele mesmo havia conhecido os primeiros sucessores dos apóstolos.
2. No final do tratado encontramos uma belíssima nota, que nos sentimos obrigados a inserir nesta obra. Diz o seguinte:
“Conjuro a ti, que vieres a copiar este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e pela sua gloriosa vinda, quando ele vier julgar os vivos e os mortos, que confiras o que escreveres e o corrijas cuidadosamente por este manuscrito, e que escrevas também esta conjuração e a coloques na cópia.”
3. Essas coisas podem ser lidas com proveito na obra dele, e foram relatadas por nós, para que tenhamos aqueles antigos e verdadeiramente santos homens como o melhor exemplo de cuidado diligente.
4. Na carta a Florino, de que falamos, Irineu menciona de novo a sua intimidade com Policarpo, dizendo:
“Essas doutrinas, ó Florino, para falar com brandura, não são de juízo são. Essas doutrinas discordam da Igreja e lançam na maior impiedade os que as aceitam. Essas doutrinas, nem mesmo os hereges de fora da Igreja jamais ousaram publicá-las. Essas doutrinas, os presbíteros que viveram antes de nós e que foram companheiros dos apóstolos não as transmitiram a ti.
5. “Pois, quando eu era menino, vi-te na Ásia inferior com Policarpo, levando vida esplêndida na corte real e procurando obter a aprovação dele.
6. Lembro-me dos acontecimentos daquele tempo com mais clareza do que dos anos recentes. Pois o que os meninos aprendem, crescendo com a mente, une-se a ela; de modo que sou capaz de descrever o próprio lugar em que o bem-aventurado Policarpo se sentava enquanto discorria, as suas saídas e entradas, o seu modo de vida, a sua aparência física, os seus discursos ao povo e os relatos que fazia do seu convívio com João e com os outros que tinham visto o Senhor. E, como se lembrava das palavras deles e do que ouvira deles a respeito do Senhor, dos seus milagres e do seu ensino, tendo-os recebido de testemunhas oculares do ‘Verbo da vida’ (1Jo 1.1), Policarpo relatava todas as coisas em harmonia com as Escrituras.
7. Essas coisas, que me foram contadas pela misericórdia de Deus, eu as ouvi atentamente, anotando-as não em papel, mas no meu coração. E continuamente, pela graça de Deus, eu as recordo fielmente. E posso testemunhar diante de Deus que, se aquele bem-aventurado e apostólico presbítero tivesse ouvido alguma coisa semelhante, teria gritado e tapado os ouvidos e, como era seu costume, teria exclamado: Ó bom Deus, para que tempos me reservaste, para que eu tivesse de suportar estas coisas? E teria fugido do lugar onde, sentado ou de pé, tivesse ouvido tais palavras.
8. E isso pode ser mostrado claramente pelas cartas que ele enviou, quer às igrejas vizinhas, para confirmá-las, quer a alguns dos irmãos, admoestando-os e exortando-os.” Até aqui Irineu.
1. Por esse mesmo tempo, no reinado de Cômodo, a nossa condição tornou-se mais favorável e, pela graça de Deus, as igrejas de todo o mundo gozaram de paz, e a palavra da salvação conduzia toda alma, de toda raça humana, ao culto piedoso do Deus do universo. De modo que já em Roma muitos que eram muito distintos pela riqueza e pela família se voltaram para a salvação com toda a sua casa e parentela.
2. Mas o demônio que odeia o bem, maligno por natureza, não pôde suportar isso, e preparou-se de novo para a luta, tramando muitos ardis contra nós. E levou ao tribunal Apolônio, da cidade de Roma, homem renomado entre os fiéis pela erudição e pela filosofia, tendo incitado um dos seus servos, bem talhado para tal propósito, a acusá-lo.
3. Mas esse miserável fez a acusação fora de propósito, porque, por um decreto real, não era lícito que vivessem os delatores de tais coisas. E logo lhe quebraram as pernas, tendo o juiz Perênio pronunciado contra ele essa sentença.
4. Mas o mártir, muito amado de Deus, sendo instantemente solicitado e rogado pelo juiz a dar conta de si diante do Senado, fez na presença de todos uma eloquente defesa da fé de que dava testemunho. E, como que por decreto do Senado, foi morto por decapitação, pois uma antiga lei exigia que não fossem soltos os que tivessem sido levados ao tribunal e se recusassem a retratar-se. Quem desejar conhecer os seus argumentos diante do juiz, as suas respostas às perguntas de Perênio e toda a sua defesa perante o Senado, os encontrará nos registros dos antigos martírios que reunimos.
No décimo ano do reinado de Cômodo, Vítor sucedeu a Eleutério, que havia ocupado o episcopado durante treze anos. No mesmo ano, depois que Juliano completou o seu décimo ano, Demétrio recebeu o encargo das igrejas de Alexandria. Nesse tempo, o já mencionado Serapião, o oitavo a partir dos apóstolos, ainda era bem conhecido como bispo da igreja de Antioquia. Teófilo presidia em Cesareia da Palestina; e Narciso, que mencionamos antes, ainda tinha a seu cargo a igreja de Jerusalém. Báquilo, ao mesmo tempo, era bispo de Corinto, na Grécia, e Polícrates da igreja de Éfeso. E, além destes, uma multidão de outros, como é provável, se destacavam então. Mas demos os nomes apenas daqueles cuja sã fé chegou até nós por escrito.
1. Surgiu naquele tempo uma questão de não pequena importância. Pois as igrejas de toda a Ásia, como por uma tradição mais antiga, sustentavam que o décimo quarto dia da lua, dia em que os judeus tinham ordem de sacrificar o cordeiro, devia ser observado como a festa da Páscoa do Salvador. Era necessário, portanto, terminar o jejum naquele dia, qualquer que fosse o dia da semana em que caísse. Mas não era costume das igrejas do resto do mundo terminá-lo nessa data, pois observavam a prática que, por tradição apostólica, prevaleceu até o presente, de não encerrar o jejum em outro dia senão no da ressurreição do nosso Salvador.
2. Por esse motivo realizaram-se sínodos e assembleias de bispos, e todos, de comum acordo, por meio de correspondência mútua, redigiram um decreto eclesiástico: que o mistério da ressurreição do Senhor não fosse celebrado em outro dia senão no dia do Senhor, e que somente nesse dia observássemos o fim do jejum pascal. Existe ainda um escrito dos que então se reuniram na Palestina, presididos por Teófilo, bispo de Cesareia, e Narciso, bispo de Jerusalém. E existe também outro escrito dos que se reuniram em Roma para considerar a mesma questão, que traz o nome do bispo Vítor; também dos bispos do Ponto, presididos por Palmas, como o mais velho; e das igrejas da Gália, das quais Irineu era bispo, e das de Osroena e das cidades dali; e uma carta pessoal de Báquilo, bispo da igreja de Corinto, e de muitíssimos outros, que expressaram a mesma opinião e o mesmo juízo, e deram o mesmo voto.
3. E o que foi exposto acima foi a sua decisão unânime.
1. Mas os bispos da Ásia, liderados por Polícrates, decidiram manter o costume antigo que lhes fora transmitido. Ele mesmo, numa carta que dirigiu a Vítor e à igreja de Roma, expôs nas seguintes palavras a tradição que chegara até ele:
2. “Nós observamos o dia exato, sem acrescentar nem tirar. Pois também na Ásia adormeceram grandes luzeiros, que ressuscitarão no dia da vinda do Senhor, quando ele vier com glória do céu e buscar todos os santos. Entre eles estão Filipe, um dos doze apóstolos, que adormeceu em Hierápolis, e suas duas filhas, que envelheceram virgens, e outra filha, que viveu no Espírito Santo e agora repousa em Éfeso; e, além disso, João, que foi ao mesmo tempo testemunha e mestre, que se reclinou sobre o peito do Senhor e, sendo sacerdote, usou a lâmina sacerdotal.
3. Ele adormeceu em Éfeso.
4. E Policarpo, em Esmirna, que foi bispo e mártir; e Trásea, bispo e mártir de Eumênia, que adormeceu em Esmirna.
5. Por que hei de mencionar o bispo e mártir Ságaris, que adormeceu em Laodiceia, ou o bem-aventurado Papírio, ou Melitão, o eunuco, que viveu inteiramente no Espírito Santo e que jaz em Sardes, aguardando o episcopado do céu, quando ressuscitará dos mortos?
6. Todos esses observaram o décimo quarto dia da Páscoa segundo o Evangelho, sem se desviarem em nada, mas seguindo a regra da fé. E também eu, Polícrates, o menor de todos vocês, faço segundo a tradição dos meus parentes, alguns dos quais segui de perto. Pois sete dos meus parentes foram bispos, e eu sou o oitavo. E os meus parentes sempre observaram o dia em que o povo tirava o fermento.
7. Eu, portanto, irmãos, que vivi sessenta e cinco anos no Senhor, que me encontrei com os irmãos de todo o mundo e que percorri toda a Santa Escritura, não me assusto com palavras aterradoras. Pois os que são maiores do que eu disseram: ‘É mais importante obedecer a Deus do que aos homens’ (At 5.29).”
8. Escreve depois sobre todos os bispos que estavam presentes com ele e pensavam como ele. Suas palavras são as seguintes:
“Eu poderia mencionar os bispos que estavam presentes, os quais convoquei a pedido de vocês; cujos nomes, se eu os escrevesse, formariam uma grande multidão. E eles, vendo a minha pequenez, deram o seu consentimento à carta, sabendo que eu não trazia em vão os meus cabelos brancos, mas sempre conduzira a minha vida pelo Senhor Jesus.”
9. Então Vítor, que presidia a igreja de Roma, tentou imediatamente cortar da unidade comum as igrejas de toda a Ásia, juntamente com as igrejas que concordavam com elas, como heterodoxas; e escreveu cartas e declarou todos os irmãos de lá inteiramente excomungados.
10. Mas isso não agradou a todos os bispos. E rogaram-lhe que considerasse as coisas da paz, da unidade entre vizinhos e do amor. Existem palavras deles que repreendem Vítor com aspereza.
11. Entre eles estava Irineu, que, enviando cartas em nome dos irmãos da Gália, que ele presidia, sustentou que o mistério da ressurreição do Senhor devia ser observado somente no dia do Senhor. Admoesta Vítor, com propriedade, a não cortar igrejas inteiras de Deus que observavam a tradição de um costume antigo e, depois de muitas outras palavras, prossegue assim:
12. “Pois a controvérsia não diz respeito apenas ao dia, mas também à própria maneira do jejum. Pois alguns pensam que devem jejuar um dia, outros dois, outros ainda mais; e alguns contam o seu dia como composto de quarenta horas, dia e noite.
13. E essa variedade na sua observância não se originou em nosso tempo, mas muito antes, no de nossos antepassados. É provável que eles não se ativessem a uma exatidão rigorosa, e assim formaram um costume para a sua posteridade segundo a sua própria simplicidade e o seu modo particular. Contudo, todos eles viveram igualmente em paz, e nós também vivemos em paz uns com os outros; e a divergência quanto ao jejum confirma a concordância na fé.”
14. Acrescenta a isso o seguinte relato, que posso inserir com propriedade:
“Entre esses estavam os presbíteros antes de Sotero, que presidiram a igreja que tu agora governas. Referimo-nos a Aniceto, Pio, Higino, Telésforo e Xisto. Eles mesmos não a observavam, nem permitiam que os que vieram depois deles a observassem. E, contudo, embora não a observassem, viviam igualmente em paz com os que vinham a eles das igrejas em que ela era observada, ainda que essa observância fosse mais contrária aos que não a observavam.
15. Mas ninguém jamais foi expulso por causa dessa forma; ao contrário, os presbíteros antes de ti, que não a observavam, enviavam a eucaristia aos de outras igrejas que a observavam.
16. E quando o bem-aventurado Policarpo esteve em Roma no tempo de Aniceto, e divergiram um pouco a respeito de certas outras coisas, logo fizeram as pazes um com o outro, não se importando de brigar por essa questão. Pois nem Aniceto conseguiu persuadir Policarpo a não observar o que ele sempre observara com João, o discípulo de nosso Senhor, e com os outros apóstolos com quem convivera; nem Policarpo conseguiu persuadir Aniceto a observá-lo, pois este dizia que devia seguir os costumes dos presbíteros que o haviam precedido.
17. Mas, estando as coisas nesse pé, tiveram comunhão um com o outro, e Aniceto cedeu a Policarpo, na igreja, a celebração da eucaristia, manifestamente em sinal de respeito. E separaram-se em paz um do outro, tanto os que observavam como os que não observavam, mantendo a paz de toda a igreja.”
18. Assim Irineu, que de fato fazia jus ao nome [N. do T.: Irineu vem do grego eirene, “paz”.], tornou-se pacificador nesse assunto, exortando e negociando dessa maneira em favor da paz das igrejas. E tratou por carta dessa questão debatida não só com Vítor, mas também com a maioria dos outros dirigentes das igrejas.
1. Os da Palestina que mencionamos há pouco, Narciso e Teófilo, e com eles Cássio, bispo da igreja de Tiro, e Claro, da igreja de Ptolemaida, e os que se reuniram com eles, depois de exporem muitas coisas a respeito da tradição sobre a Páscoa que lhes chegara por sucessão desde os apóstolos, acrescentam no final do seu escrito estas palavras:
2. “Procurem enviar cópias da nossa carta a todas as igrejas, para que não demos ocasião aos que facilmente enganam a própria alma. Mostramos a vocês que também em Alexandria a celebram no mesmo dia que nós. Pois cartas são levadas de nós para eles e deles para nós, de modo que celebramos o dia sagrado da mesma maneira e ao mesmo tempo.”
Além das obras e cartas de Irineu que mencionamos, existe um livro seu Sobre o conhecimento, escrito contra os gregos, muito conciso e notavelmente vigoroso; e outro, que ele dedicou a um irmão, Marciano, Demonstração da pregação apostólica; e um volume com várias Dissertações, no qual menciona a Epístola aos Hebreus e a chamada Sabedoria de Salomão, citando trechos delas. Essas são as obras de Irineu que chegaram ao nosso conhecimento.
Tendo Cômodo terminado o seu reinado depois de treze anos, Severo tornou-se imperador menos de seis meses após a morte dele, tendo Pertinax reinado no intervalo.
Numerosos memoriais do zelo fiel dos antigos homens eclesiásticos daquele tempo são ainda conservados por muitos. Destes, assinalaríamos em particular os escritos de Heráclito Sobre o Apóstolo, e os de Máximo sobre a questão tão discutida entre os hereges, a origem do mal, e sobre a criação da matéria. Também os de Cândido sobre o Hexâmeron, e os de Apião sobre o mesmo assunto; igualmente os de Sexto sobre a ressurreição, e outro tratado de Arabiano, e escritos de uma multidão de outros a respeito dos quais, por não termos dados, é impossível dizer na nossa obra quando viveram, ou dar qualquer notícia da sua história. E chegaram até nós obras de muitos outros cujos nomes não podemos dar, ortodoxos e eclesiásticos, como mostram as suas interpretações das divinas Escrituras, mas desconhecidos para nós, porque os seus nomes não constam nos seus escritos.
1. Numa obra laboriosa de um desses escritores contra a heresia de Artemon, que Paulo de Samósata tentou reavivar em nossos dias, há um relato adequado à história que agora examinamos.
2. Pois ele critica, como inovação tardia, a referida heresia, que ensina que o Salvador foi um mero homem, porque eles procuravam engrandecê-la como antiga. Tendo apresentado na sua obra muitos outros argumentos em refutação da sua blasfema falsidade, acrescenta as seguintes palavras:
3. “Pois dizem que todos os primeiros mestres e os apóstolos receberam e ensinaram o que eles agora declaram, e que a verdade do Evangelho foi preservada até os tempos de Vítor, que foi o décimo terceiro bispo de Roma a partir de Pedro, mas que, desde o seu sucessor, Zeferino, a verdade foi corrompida.
4. E o que dizem poderia ser plausível se, antes de tudo, as divinas Escrituras não os contradissessem. E há escritos de certos irmãos, mais antigos que os tempos de Vítor, que eles escreveram em defesa da verdade contra os pagãos e contra as heresias que existiam no seu tempo. Refiro-me a Justino, Milcíades, Taciano, Clemente e muitos outros, em todas cujas obras se fala de Cristo como Deus.
5. Pois quem não conhece as obras de Irineu, de Melitão e de outros, que ensinam que Cristo é Deus e homem? E quantos salmos e hinos, escritos desde o princípio por irmãos fiéis, celebram Cristo, o Verbo de Deus, falando dele como divino!
6. Como, então, visto que a opinião sustentada pela Igreja tem sido pregada há tantos anos, pode a sua pregação ter sido adiada, como afirmam, até os tempos de Vítor? E como não se envergonham de falar assim falsamente de Vítor, sabendo bem que ele excluiu da comunhão Teódoto, o sapateiro, líder e pai dessa apostasia que nega a Deus, e o primeiro a declarar que Cristo é mero homem? Pois, se Vítor concordava com as opiniões deles, como afirma a sua calúnia, como veio a expulsar Teódoto, o inventor dessa heresia?”
7. Isso quanto a Vítor. O seu episcopado durou dez anos, e Zeferino foi nomeado seu sucessor por volta do nono ano do reinado de Severo. O autor do livro acima mencionado narra, a respeito do fundador dessa heresia, outro acontecimento ocorrido no tempo de Zeferino, com estas palavras:
8. “Lembrarei a muitos dos irmãos um fato que se deu em nosso tempo, o qual, se tivesse acontecido em Sodoma, poderia, creio eu, ter-lhes servido de advertência. Havia certo confessor, Natálio, não muito tempo atrás, mas em nossos próprios dias.
9. Esse homem foi enganado certa vez por Asclepiódoto e por outro Teódoto, cambista. Ambos eram discípulos de Teódoto, o sapateiro, que, como eu disse, foi a primeira pessoa excomungada por Vítor, bispo naquele tempo, por causa desse sentimento, ou antes dessa insensatez.
10. Natálio foi persuadido por eles a deixar-se escolher bispo dessa heresia, com um salário, pago por eles, de cento e cinquenta denários por mês.
11. Tendo-se assim ligado a eles, foi advertido muitas vezes pelo Senhor por meio de visões. Pois o Deus compassivo e nosso Senhor Jesus Cristo não queria que perecesse, lançado fora da Igreja, uma testemunha dos seus próprios sofrimentos.
12. Mas, como pouco caso fazia das visões, por estar enredado pelo primeiro lugar entre eles e por aquela vergonhosa cobiça que destrói tantíssimos, foi açoitado por santos anjos e castigado severamente durante a noite inteira. Então, levantando-se pela manhã, vestiu-se de pano de saco e cobriu-se de cinza e, com grande pressa e lágrimas, prostrou-se diante de Zeferino, o bispo, rolando aos pés não só do clero, mas também dos leigos; e comoveu com as suas lágrimas a compassiva Igreja do misericordioso Cristo. E, embora usasse de muita súplica e mostrasse os vergões dos açoites que recebera, mal foi readmitido à comunhão.”
13. Acrescentaremos, do mesmo escritor, alguns outros extratos a respeito deles, que dizem o seguinte:
“Trataram as divinas Escrituras com temeridade e sem temor. Puseram de lado a regra da fé antiga; e não conheceram a Cristo. Não procuram aprender o que as divinas Escrituras declaram, mas esforçam-se laboriosamente por qualquer forma de silogismo que se possa inventar para sustentar a sua impiedade. E, se alguém lhes apresenta uma passagem da divina Escritura, examinam se dela se pode fazer uma forma de silogismo conjuntiva ou disjuntiva.
14. E, como sendo da terra e falando da terra, e como ignorando aquele que vem do alto, abandonam os santos escritos de Deus para se dedicarem à geometria. Euclides é laboriosamente medido por alguns deles; Aristóteles e Teofrasto são admirados; e Galeno, talvez, é até adorado por alguns.
15. Mas que estão longe da fé os que usam as artes dos incrédulos para as suas opiniões heréticas e adulteram a fé simples das divinas Escrituras com a astúcia dos ímpios, que necessidade há de dizê-lo? Por isso, puseram ousadamente as mãos sobre as divinas Escrituras, alegando que as corrigiram.
16. Que não falo falsamente deles nessa questão, quem quiser pode verificar. Pois, se alguém reunir as respectivas cópias deles e compará-las umas com as outras, verá que diferem grandemente.
17. As de Asclepíades, por exemplo, não concordam com as de Teódoto. E muitas destas se podem obter, porque os seus discípulos copiaram assiduamente as correções, como eles as chamam, isto é, as corrupções, de cada um deles. Por sua vez, as de Hermófilo não concordam com estas, e as de Apolônides nem sequer são coerentes entre si. Pois podem comparar as que eles prepararam numa data anterior com as que corromperam depois, e as acharão muito diferentes.
18. Mas quão audaciosa é essa ofensa, não é provável que eles mesmos ignorem. Pois, ou não creem que as divinas Escrituras foram ditas pelo Espírito Santo, e assim são incrédulos, ou então se julgam mais sábios que o Espírito Santo, e nesse caso que outra coisa são senão endemoninhados? Pois não podem negar a prática do crime, já que as cópias foram escritas pelas suas próprias mãos. Pois não receberam tais Escrituras dos seus instrutores, nem podem apresentar cópias de onde as tenham transcrito.
19. Mas alguns deles nem julgaram que valia a pena corrompê-las, mas simplesmente negam a lei e os profetas, e assim, pelo seu ensino iníquo e ímpio, sob pretexto de graça, afundaram-se nas profundezas mais baixas da perdição.”
Que isso baste a respeito dessas coisas.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.