Eusébio, História Eclesiástica · Livro V

Livro V, capítulos 1 a 11

A carta das igrejas de Lião e Vienne sobre os mártires da Gália; a chuva obtida pelas orações dos cristãos; os bispos de Roma; os milagres que continuavam; Irineu e as Escrituras; Panteno e Clemente de Alexandria.

Introdução.

1. Sotero, bispo da igreja de Roma, morreu depois de um episcopado de oito anos, e foi sucedido por Eleutério, o duodécimo a partir dos apóstolos. No décimo sétimo ano do imperador Antonino Vero, a perseguição contra os nossos reacendeu-se com mais violência em certas regiões, por causa de um levante das multidões nas cidades; e, a julgar pelo número numa única nação, miríades sofreram o martírio no mundo inteiro. Fez-se um registro disso para a posteridade, e na verdade ele é digno de memória perpétua.

2. Um relato completo, com as informações mais seguras sobre o assunto, encontra-se em nossa Coleção de Martírios, que forma uma narrativa ao mesmo tempo instrutiva e histórica. Repetirei aqui as partes desse relato que forem necessárias ao presente propósito.

3. Outros escritores de história registram as vitórias da guerra e os troféus tomados aos inimigos, a perícia dos generais e a bravura viril dos soldados, manchados de sangue e de inúmeras matanças por causa dos filhos, da pátria e de outros bens.

4. Mas a nossa narrativa do governo de Deus registrará em letras indeléveis as guerras mais pacíficas, travadas em favor da paz da alma, e falará de homens que praticaram atos de bravura pela verdade, mais do que pela pátria, e pela piedade, mais do que pelos amigos mais queridos. Ela transmitirá à memória imperecível a disciplina e a fortaleza, tantas vezes provada, dos atletas da religião, os troféus conquistados aos demônios, as vitórias sobre inimigos invisíveis e as coroas postas sobre a cabeça de todos eles.

Capítulo I. O número dos que combateram pela religião na Gália sob Vero e a natureza de seus combates

1. O país em que se preparou a arena para eles foi a Gália, cujas cidades principais e mais célebres são Lião e Vienne. O Ródano passa por ambas, correndo em largo leito por toda a região.

2. As igrejas mais célebres daquele país enviaram às igrejas da Ásia e da Frígia um relato acerca das testemunhas, narrando da seguinte maneira o que aconteceu entre elas.

Darei as suas próprias palavras.

3. “Os servos de Cristo que residem em Vienne e Lião, na Gália, aos irmãos de toda a Ásia e Frígia que têm a mesma fé e a mesma esperança de redenção que nós: paz, graça e glória da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor.”

4. Depois, tendo tratado de alguns outros assuntos, começam o seu relato desta maneira: “A grandeza da tribulação nesta região, a fúria dos pagãos contra os santos e os sofrimentos das bem-aventuradas testemunhas, não somos capazes de narrar com exatidão, nem seria possível consigná-los por escrito.

5. Pois o adversário caiu sobre nós com todas as suas forças, dando-nos uma antecipação da atividade desenfreada que terá em sua vinda futura. Esforçou-se de todas as maneiras para adestrar e exercitar os seus servos contra os servos de Deus, não só nos excluindo das casas, dos banhos e dos mercados, mas proibindo que qualquer um de nós fosse visto em qualquer lugar que fosse.

6. Mas a graça de Deus comandou a luta contra ele: livrou os fracos e os pôs como colunas firmes, capazes de suportar pela paciência toda a ira do Maligno. E eles travaram combate com ele, sofrendo toda espécie de vergonha e de injúria; e, tendo em pouca conta os seus grandes sofrimentos, apressaram-se para Cristo, mostrando verdadeiramente que ‘os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós’ (Rm 8.18).

7. Antes de tudo, suportaram com nobreza as injúrias que a população lhes acumulava em cima: gritarias, pancadas, arrastões, saques, apedrejamentos, prisões e tudo aquilo que uma turba enfurecida tem prazer em infligir a inimigos e adversários.

8. Depois, levados ao fórum pelo quiliarca e pelas autoridades da cidade, foram interrogados na presença de toda a multidão e, tendo confessado, foram encarcerados até a chegada do governador.

9. Quando, mais tarde, foram conduzidos à presença dele, e ele nos tratou com a maior crueldade, interveio Vécio Epágato, um dos irmãos, homem cheio de amor a Deus e ao próximo. Sua vida era tão coerente que, embora jovem, alcançara reputação igual à do ancião Zacarias, pois andava ‘de forma irrepreensível em todos os preceitos e mandamentos do Senhor’ (Lc 1.6), e era incansável em toda boa obra em favor do próximo, zeloso por Deus e fervoroso de espírito. Sendo esse o seu caráter, não pôde suportar o julgamento irracional contra nós, mas, cheio de indignação, pediu licença para testemunhar em favor de seus irmãos que não há entre nós nada de ímpio nem de irreligioso.

10. Mas os que estavam junto ao tribunal gritaram contra ele, pois era homem de destaque; e o governador recusou o seu justo pedido e apenas lhe perguntou se também ele era cristão. E ele, confessando-o em alta voz, foi ele mesmo recebido na ordem das testemunhas, sendo chamado de Advogado dos cristãos, mas tendo em si o Advogado, o Espírito, mais abundantemente que Zacarias (cf. Lc 1.67). Mostrou isso pela plenitude do seu amor, tendo-se comprazido em dar até a própria vida (cf. Jo 15.13) em defesa dos irmãos. Pois ele era e é um verdadeiro discípulo de Cristo, seguindo ‘o Cordeiro por onde quer que ele vá’ (Ap 14.4).

11. “Então os outros se dividiram. As primeiras testemunhas estavam manifestamente prontas e completaram a sua confissão com todo o ardor. Mas alguns se mostraram despreparados e sem treino, ainda fracos e incapazes de suportar tão grande combate. Cerca de dez destes foram abortos, causando-nos grande pesar e tristeza sem medida e abatendo o zelo dos outros que ainda não tinham sido presos, mas que, embora sofrendo toda espécie de aflição, permaneciam constantemente com as testemunhas e não as abandonavam.

12. Então todos nós temíamos grandemente, pela incerteza quanto à confissão deles; não porque receássemos os sofrimentos a suportar, mas porque olhávamos para o fim e tínhamos medo de que algum deles caísse.

13. Mas os que eram dignos iam sendo presos dia após dia, completando o número dos outros, de modo que foram reunidos, das duas igrejas, todos os mais zelosos e aqueles por meio de quem principalmente as nossas coisas tinham sido estabelecidas.

14. Foram presos também alguns dos nossos servos pagãos, pois o governador ordenara que todos nós fôssemos interrogados publicamente. Estes, enredados por Satanás, temendo para si as torturas que viam os santos suportar e instigados também pelos soldados, acusaram-nos falsamente de banquetes tiesteus e de uniões edipianas, e de atos de que não nos é lícito falar nem pensar, e que nem conseguimos crer que alguma vez tenham sido praticados por seres humanos.

15. Divulgadas essas acusações, todo o povo se enfureceu contra nós como feras, de modo que até os que antes se mostravam moderados por amizade ficaram agora extremamente furiosos e rangiam os dentes contra nós. E cumpriu-se o que foi dito por nosso Senhor: ‘Chegará a hora em que todo aquele que os matar pensará que, com isso, está prestando culto a Deus’ (Jo 16.2).

16. Então, por fim, as santas testemunhas suportaram sofrimentos indescritíveis, esforçando-se Satanás com empenho para que também da boca delas saísse alguma das calúnias.

17. “Mas toda a ira da população, do governador e dos soldados se levantou desmedidamente contra Santo, o diácono de Vienne, e contra Maturo, recém-convertido, mas nobre combatente, e contra Átalo, natural de Pérgamo, onde sempre fora coluna e fundamento, e contra Blandina, por meio de quem Cristo mostrou que as coisas que aos homens parecem vis, obscuras e desprezíveis são de grande glória diante de Deus (cf. 1Co 1.27-28), por causa do amor a ele, manifestado em poder e não ostentado em aparência.

18. Pois, enquanto todos nós tremíamos, e a sua senhora terrena, que também era uma das testemunhas, temia que, por causa da fraqueza do corpo, ela não fosse capaz de fazer uma confissão ousada, Blandina encheu-se de tal poder que foi libertada e elevada acima dos que a torturavam, revezando-se desde a manhã até a tarde, de todas as maneiras, a ponto de reconhecerem que estavam vencidos e que nada mais podiam fazer contra ela. E se espantavam de sua resistência, pois todo o seu corpo estava dilacerado e despedaçado; e atestavam que uma só daquelas formas de tortura bastava para tirar a vida, para não falar de tantos e tão grandes sofrimentos.

19. Mas a bem-aventurada mulher, como um nobre atleta, renovava as forças na sua confissão; e o seu consolo, o seu descanso e o seu alívio da dor dos sofrimentos estava em exclamar: ‘Sou cristã, e nada de vil se pratica entre nós.’

20. “Mas também Santo suportou de modo admirável e sobre-humano todos os ultrajes que sofreu. Enquanto os perversos esperavam, pela continuação e severidade das torturas, arrancar dele alguma coisa que não devia dizer, ele se armou contra eles com tal firmeza que nem sequer disse o seu nome, nem a nação ou cidade a que pertencia, nem se era escravo ou livre, mas a todas as perguntas respondia na língua romana: ‘Sou cristão.’ Confessava isso em lugar do nome, da cidade, da raça e de tudo o mais, e o povo não ouviu dele nenhuma outra palavra.

21. Surgiu, por isso, da parte do governador e dos seus torturadores, um grande desejo de vencê-lo; mas, não tendo mais nada que lhe pudessem fazer, acabaram por aplicar lâminas de bronze em brasa às partes mais sensíveis do seu corpo.

22. E estas de fato se queimavam, mas ele permanecia inflexível e inabalável, firme na sua confissão, refrigerado e fortalecido pela fonte celestial da água da vida que brota das entranhas de Cristo.

23. E o seu corpo era testemunha dos seus sofrimentos: era todo ele uma só ferida e contusão, deformado e inteiramente diferente de uma forma humana. Cristo, sofrendo nele, manifestou a sua glória, livrando-o do adversário e fazendo dele um exemplo para os outros, mostrando que nada é temível onde está o amor do Pai, e nada é doloroso onde está a glória de Cristo.

24. Pois, quando os perversos o torturaram uma segunda vez, alguns dias depois, supondo que, estando o seu corpo inchado e inflamado a ponto de não suportar o toque de uma mão, se aplicassem de novo os mesmos instrumentos o venceriam, ou ao menos, com a sua morte sob os sofrimentos, os outros ficariam amedrontados, não só nada disso aconteceu, mas, contra toda expectativa humana, o seu corpo se reergueu e se endireitou em meio às torturas seguintes, e recuperou a aparência original e o uso dos membros, de modo que, pela graça de Cristo, esses segundos sofrimentos se tornaram para ele não tortura, mas cura.

25. “Mas o diabo, julgando que já havia consumido Bíblis, que era uma das que tinham negado a Cristo, e desejando aumentar a sua condenação pela pronúncia de blasfêmias, levou-a outra vez à tortura, para forçá-la, já fraca e abatida, a declarar coisas ímpias a nosso respeito.

26. Mas ela se recobrou no meio do sofrimento e, como quem desperta de um sono profundo, lembrada pela angústia presente do castigo eterno no inferno, contradisse os blasfemadores. ‘Como’, disse ela, ‘poderiam comer crianças aqueles que não julgam lícito provar nem o sangue dos animais irracionais?’ E dali em diante confessou-se cristã e recebeu lugar na ordem das testemunhas.

27. “Mas, como as torturas tirânicas foram anuladas por Cristo mediante a paciência dos bem-aventurados, o diabo inventou outros artifícios: o confinamento nas partes escuras e mais repugnantes da prisão, o estiramento dos pés no cepo até o quinto furo e os demais ultrajes que os seus servos, enfurecidos e cheios do diabo, costumam infligir aos presos. Muitíssimos morreram sufocados na prisão, escolhidos pelo Senhor para esse gênero de morte, a fim de manifestar neles a sua glória.

28. Pois alguns, embora tivessem sido torturados com tanta crueldade que parecia impossível que sobrevivessem, mesmo com os cuidados mais atentos, ainda assim, privados de toda assistência humana, permaneceram na prisão, fortalecidos pelo Senhor e revigorados de corpo e de alma; e exortavam e animavam os demais. Mas os que eram jovens e haviam sido presos recentemente, cujos corpos ainda não se tinham acostumado à tortura, não conseguiram suportar o rigor do confinamento e morreram na prisão.

29. “O bem-aventurado Potino, a quem fora confiado o episcopado de Lião, foi arrastado ao tribunal. Tinha mais de noventa anos de idade e estava muito enfermo, mal conseguindo de fato respirar por causa da fraqueza física; mas era fortalecido pelo zelo espiritual, por seu ardente desejo do martírio. Embora o seu corpo estivesse gasto pela velhice e pela doença, a sua vida foi conservada para que Cristo triunfasse nela.

30. Quando foi levado pelos soldados ao tribunal, acompanhado pelos magistrados civis e por uma multidão que gritava contra ele de todas as maneiras, como se ele fosse o próprio Cristo, deu nobre testemunho.

31. Perguntado pelo governador quem era o Deus dos cristãos, respondeu: ‘Se fores digno, saberás.’ Então foi arrastado com brutalidade e recebeu golpes de toda espécie. Os que estavam perto batiam nele com as mãos e com os pés, sem nenhum respeito por sua idade; e os que estavam longe atiravam-lhe o que conseguiam apanhar, pensando todos que seriam culpados de grande maldade e impiedade se deixassem de lado algum insulto possível. Pois assim pensavam vingar as suas próprias divindades. Mal conseguindo respirar, foi lançado na prisão e morreu dois dias depois.

32. “Então ocorreu uma grande economia de Deus, e a compaixão de Jesus apareceu sem medida, de um modo raramente visto entre os irmãos, mas não além do poder de Cristo.

33. Pois os que tinham renegado na primeira prisão foram encarcerados com os outros e suportaram sofrimentos terríveis, de modo que a negação não lhes trouxe proveito algum, nem sequer no presente. Mas os que confessaram o que eram foram encarcerados como cristãos, sem que se lhes fizesse nenhuma outra acusação. Os primeiros, porém, foram tratados depois como assassinos e impuros, e castigados com o dobro da severidade dos outros.

34. Pois a alegria do martírio, a esperança das promessas, o amor a Cristo e o Espírito do Pai sustentavam estes últimos; mas a consciência atormentava tanto aqueles primeiros que, quando eram levados para fora, se distinguiam facilmente de todos os demais pelo próprio semblante.

35. Pois os primeiros saíam alegres, com glória e graça misturadas no rosto, de modo que até as suas cadeias pareciam belos adornos, como os de uma noiva enfeitada com franjas de ouro de várias cores; e exalavam o bom perfume de Cristo, a ponto de alguns suporem que tinham sido ungidos com unguento terreno. Mas os outros iam cabisbaixos, humilhados, abatidos e cheios de toda espécie de desonra, e eram insultados pelos pagãos como covardes e fracos, carregando a acusação de assassinos e tendo perdido o único Nome honroso, glorioso e vivificante. Os demais, vendo isso, eram fortalecidos e, quando presos, confessavam sem hesitar, sem dar atenção às sugestões do diabo.”

36. Depois de algumas outras palavras, continuam:

“Depois disso, por fim, os seus martírios se dividiram em todas as formas. Pois, tecendo uma coroa de várias cores e de todo tipo de flores, apresentaram-na ao Pai. Convinha, portanto, que os nobres atletas, tendo suportado um combate múltiplo e vencido de modo grandioso, recebessem a coroa, grande e incorruptível.

37. “Maturo, portanto, e Santo, Blandina e Átalo foram levados ao anfiteatro para serem expostos às feras e para darem ao público pagão um espetáculo de crueldade, tendo sido marcado especialmente, por causa dos nossos, um dia de luta com as feras.

38. Maturo e Santo passaram de novo, no anfiteatro, por todos os tormentos, como se nada tivessem sofrido antes, ou melhor, como quem, tendo já vencido o adversário em muitas disputas, agora lutava pela própria coroa. Suportaram outra vez o costumeiro corredor de açoites, a violência das feras e tudo o que o povo enfurecido reclamava ou desejava e, por fim, a cadeira de ferro, na qual os seus corpos, assados, os atormentavam com a fumaça.

39. E nem com isso os perseguidores pararam, mas se enfureceram ainda mais contra eles, decididos a vencer a sua paciência. Mas nem assim ouviram de Santo outra palavra senão a confissão que ele fizera desde o princípio.

40. Estes, pois, depois de a vida ter resistido por longo tempo durante o grande combate, foram por fim sacrificados, tendo sido feitos ao longo daquele dia um espetáculo para o mundo, em lugar da costumeira variedade de lutas.

41. “Blandina, por sua vez, foi suspensa num poste e exposta para ser devorada pelas feras que a atacassem. E, porque parecia estar pendurada numa cruz, e por causa de suas orações fervorosas, inspirou grande zelo nos combatentes. Pois olhavam para ela no seu combate e contemplavam com os olhos exteriores, na figura da sua irmã, aquele que foi crucificado por eles, para persuadir os que creem nele de que todo aquele que sofre pela glória de Cristo tem comunhão para sempre com o Deus vivo.

42. Como nenhuma das feras a tocou naquela ocasião, ela foi tirada do poste e lançada de novo na prisão. Foi assim conservada para outro combate, a fim de que, vitoriosa em mais lutas, tornasse irrevogável a condenação da serpente tortuosa; e para que, embora pequena, fraca e desprezada, mas revestida de Cristo, o Atleta poderoso e invencível, despertasse o zelo dos irmãos e, tendo vencido o adversário muitas vezes, recebesse pelo seu combate a coroa incorruptível.

43. “Átalo, por sua vez, foi reclamado aos gritos pelo povo, por ser pessoa de destaque. Entrou no combate de boa vontade, por causa da boa consciência e da sua prática sincera da disciplina cristã, e porque sempre fora entre nós uma testemunha da verdade.

44. Fizeram-no dar a volta pelo anfiteatro, levando-se à sua frente uma tabuleta na qual estava escrito em língua romana: ‘Este é Átalo, o cristão’, e o povo encheu-se de indignação contra ele. Mas, quando o governador soube que ele era romano, mandou que fosse levado de volta com os demais que estavam na prisão, a respeito dos quais havia escrito a César e de quem aguardava a resposta.

45. “Mas o tempo intermediário não foi para eles nem perdido nem infrutífero, pois, mediante a sua paciência, manifestou-se a compaixão imensurável de Cristo. Porque, por meio dos que continuavam vivos, os mortos foram vivificados, e as testemunhas concederam graça aos que tinham falhado no testemunho. E a mãe virgem teve muita alegria em receber vivos aqueles que tinha dado à luz como mortos.

46. Pois, pela influência deles, muitos dos que haviam negado foram restaurados, gerados de novo e reacendidos para a vida, e aprenderam a confessar. E, vivificados e fortalecidos, foram ao tribunal para serem interrogados de novo pelo governador, tratando-os Deus com bondade, ele que não deseja a morte do pecador (cf. Ez 33.11), mas misericordiosamente convida ao arrependimento.

47. Pois César ordenara que fossem executados, mas que fossem postos em liberdade os que negassem. Por isso, no início da festa pública que ali se realizava, e à qual acorriam multidões de homens de todas as nações, o governador levou os bem-aventurados ao tribunal, para fazer deles um espetáculo e diversão para a multidão. Por isso também os interrogou de novo, e decapitou os que pareciam possuir a cidadania romana, mas enviou os outros às feras.

48. “E Cristo foi grandemente glorificado naqueles que antes o haviam negado, pois, contra a expectativa dos pagãos, confessaram. Eram interrogados à parte, como quem estava para ser solto; mas, confessando, foram acrescentados à ordem das testemunhas. Alguns, porém, ficaram de fora: os que nunca tinham tido um vestígio de fé, nem noção alguma da veste nupcial (cf. Mt 22.11), nem entendimento do temor de Deus; mas, como filhos da perdição, blasfemaram do Caminho por meio de sua apostasia.

49. Mas todos os outros foram acrescentados à Igreja. Enquanto estes eram interrogados, um certo Alexandre, frígio de nascimento e médico de profissão, que residia na Gália havia muitos anos e era bem conhecido de todos por seu amor a Deus e pela ousadia no falar (pois não lhe faltava uma parte da graça apostólica), estando de pé junto ao tribunal e animando-os por sinais a confessar, parecia aos circunstantes como alguém em dores de parto.

50. Mas o povo, enfurecido porque os que antes haviam negado agora confessavam, gritou contra Alexandre como se ele fosse a causa disso. Então o governador o chamou e perguntou quem ele era. E, quando respondeu que era cristão, o governador, muito irado, condenou-o às feras. E no dia seguinte ele entrou na arena junto com Átalo. Pois, para agradar ao povo, o governador havia mandado Átalo de novo às feras.

51. E foram torturados no anfiteatro com todos os instrumentos inventados para esse fim e, tendo suportado um combate muito grande, foram por fim sacrificados. Alexandre não gemeu nem murmurou de modo algum, mas conversava em seu coração com Deus.

52. Mas, quando Átalo foi posto na cadeira de ferro e a fumaça subia do seu corpo em chamas, ele disse ao povo na língua romana: ‘Vejam! Isto que vocês fazem é devorar homens; mas nós não devoramos homens, nem praticamos nenhuma outra maldade.’ E, perguntado que nome Deus tem, respondeu: ‘Deus não tem nome como o homem tem.’

53. “Depois de todos estes, no último dia dos combates, Blandina foi trazida de novo, com Pôntico, um menino de cerca de quinze anos. Eles tinham sido trazidos todos os dias para assistir aos sofrimentos dos outros e tinham sido pressionados a jurar pelos ídolos. Mas, porque permaneceram firmes e os desprezaram, a multidão se enfureceu, de modo que não teve compaixão da pouca idade do menino nem respeito pelo sexo da mulher.

54. Por isso os expuseram a todos os sofrimentos terríveis e os fizeram passar por todo o ciclo da tortura, insistindo repetidamente para que jurassem, mas sem conseguir; pois Pôntico, animado pela irmã, de modo que até os pagãos podiam ver que ela o confirmava e fortalecia, depois de ter suportado com nobreza toda espécie de tortura, entregou o espírito.

55. Mas a bem-aventurada Blandina, a última de todos, como mãe nobre que animou os filhos e os enviou à sua frente, vitoriosos, ao Rei, suportou ela mesma todos os combates deles e apressou-se a segui-los, contente e jubilosa com a sua partida, como se fosse chamada a um banquete de casamento, e não lançada às feras.

56. E, depois dos açoites, depois das feras, depois da cadeira em brasa, foi por fim encerrada numa rede e lançada diante de um touro. E, tendo sido sacudida pelo animal, mas sem sentir nada do que lhe acontecia, por causa da sua esperança e da firmeza com que se agarrava ao que lhe fora confiado, e da sua comunhão com Cristo, também ela foi sacrificada. E os próprios pagãos confessavam que jamais entre eles uma mulher suportara tantas e tão terríveis torturas.

57. “Mas nem assim se saciaram a sua loucura e a sua crueldade para com os santos. Pois, incitadas pela Fera, tribos selvagens e bárbaras não se aplacavam facilmente, e a sua violência encontrou outra ocasião peculiar nos cadáveres.

58. Pois, por falta de razão viril, o fato de terem sido vencidos não os envergonhou, antes acendeu ainda mais a sua ira, como a de uma fera, e despertou igualmente o ódio do governador e do povo para nos tratarem injustamente; para que se cumprisse a Escritura: ‘O que é sem lei continue sem lei, e o justo continue justo’ (Ap 22.11).

59. Pois lançaram aos cães os que tinham morrido sufocados na prisão, vigiando-os cuidadosamente noite e dia para que nenhum fosse sepultado por nós. E expuseram os restos deixados pelas feras e pelo fogo, dilacerados e carbonizados, e colocaram as cabeças dos outros junto aos seus corpos, e do mesmo modo os guardaram da sepultura por muitos dias, com uma guarda de soldados.

60. E alguns se enfureciam e rangiam os dentes contra eles, desejando executar contra eles uma vingança ainda mais severa; mas outros riam e zombavam deles, engrandecendo os próprios ídolos e atribuindo a eles o castigo dos cristãos. Até os mais razoáveis, e os que pareciam ter alguma compaixão, os censuravam com frequência, dizendo: ‘Onde está o Deus deles, e de que lhes serviu a sua religião, que preferiram à própria vida?’

61. Tão variada era a sua conduta para conosco; mas nós estávamos em profunda aflição por não podermos sepultar os corpos. Pois nem a noite nos valia para isso, nem o dinheiro persuadia, nem as súplicas moviam à compaixão; mas vigiavam de todas as maneiras, como se impedir a sepultura lhes fosse de grande proveito.”

Além disso, dizem depois de outras coisas:

62. “Os corpos dos mártires, depois de terem sido assim exibidos e expostos de todas as maneiras durante seis dias, foram depois queimados e reduzidos a cinzas, e os perversos os varreram para o Ródano, para que nenhum vestígio deles aparecesse sobre a terra.

63. E fizeram isso como se pudessem vencer a Deus e impedir o seu novo nascimento, ‘para que’, como diziam, ‘não tenham esperança de ressurreição, confiados na qual nos trazem esta religião estrangeira e nova, desprezam as coisas terríveis e estão prontos até a ir para a morte com alegria. Vejamos agora se ressuscitarão, e se o Deus deles é capaz de ajudá-los e de livrá-los das nossas mãos.'”

Capítulo II. Os mártires, amados de Deus, socorreram com bondade os que caíram na perseguição

1. Tais coisas aconteceram às igrejas de Cristo sob o imperador acima mencionado, e por elas podemos conjecturar com razão o que ocorreu nas outras províncias. Convém acrescentar outros trechos da mesma carta, nos quais se registram a moderação e a compaixão dessas testemunhas nas seguintes palavras:

2. “Eram também tão zelosos na imitação de Cristo, ‘que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo’ (Fp 2.6), que, embora tivessem alcançado tamanha honra e dado testemunho não uma ou duas vezes, mas muitas vezes, trazidos de volta das feras para a prisão, cobertos de queimaduras, cicatrizes e feridas, ainda assim não se proclamavam testemunhas, nem nos permitiam chamá-los por esse nome. Se algum de nós, em carta ou em conversa, falava deles como testemunhas, eles o repreendiam asperamente.

3. Pois concediam de bom grado o título de Testemunha a Cristo, ‘a testemunha fiel e verdadeira’ (Ap 3.14) e ‘o Primogênito dos mortos’ (Ap 1.5), e príncipe da vida de Deus; e lembravam-nos das testemunhas que já tinham partido, dizendo: ‘Estes já são testemunhas, os que Cristo julgou dignos de serem recebidos na sua confissão, tendo selado o seu testemunho com a sua partida; mas nós somos confessores humildes e pequenos.’ E suplicavam aos irmãos, com lágrimas, que se oferecessem orações fervorosas para que eles fossem aperfeiçoados.

4. Mostravam em suas obras o poder do ‘testemunho’, manifestando grande ousadia diante de todos os irmãos, e tornaram evidente a sua nobreza pela paciência, pelo destemor e pela coragem; mas recusavam o título de Testemunhas como algo que os distinguisse de seus irmãos, cheios que estavam do temor de Deus.”

5. Um pouco adiante, dizem: “Humilharam-se debaixo da poderosa mão, pela qual agora são grandemente exaltados (cf. 1Pe 5.6). Defendiam a todos, mas não acusavam ninguém. Desligavam a todos, mas não ligavam ninguém. E oravam pelos que lhes haviam infligido crueldades, como Estêvão, a testemunha perfeita: ‘Senhor, não os condenes por causa deste pecado!’ (At 7.60). Mas, se ele orou pelos que o apedrejavam, quanto mais pelos irmãos!”

6. E de novo, depois de mencionar outros assuntos, dizem:

“Pois, pela sinceridade do seu amor, o maior combate que travaram contra ele foi para que a Fera, sufocada, vomitasse vivos aqueles que pensava ter engolido. Pois não se vangloriavam sobre os caídos, mas socorriam-nos na sua necessidade com aquilo de que eles mesmos tinham em abundância, tendo compaixão de mãe e derramando por eles muitas lágrimas diante do Pai.

7. Pediram vida, e ele lhes deu, e eles a repartiram com o próximo. Vitoriosos sobre tudo, partiram para Deus. Tendo sempre amado a paz e tendo-nos recomendado a paz, foram em paz para Deus, sem deixar tristeza à sua mãe, nem divisão ou contenda aos irmãos, mas alegria, paz, concórdia e amor.”

8. Este registro da afeição daqueles bem-aventurados para com os irmãos que tinham caído pode ser acrescentado com proveito, por causa da disposição desumana e impiedosa daqueles que, depois desses acontecimentos, agiram sem nenhuma clemência para com os membros de Cristo.

Capítulo III. A visão que apareceu em sonho à testemunha Átalo

1. A mesma carta das testemunhas acima mencionadas contém outro relato digno de memória. Ninguém se oporá a que o levemos ao conhecimento dos nossos leitores.

2. Diz o seguinte: “Pois um certo Alcibíades, que era um deles, levava uma vida muito austera, não tomando absolutamente nada além de pão e água. Quando procurou continuar esse mesmo modo de vida na prisão, foi revelado a Átalo, depois do seu primeiro combate no anfiteatro, que Alcibíades não fazia bem em recusar as criaturas de Deus e em pôr tropeço diante dos outros.

3. E Alcibíades obedeceu e passou a tomar de tudo sem restrição, dando graças a Deus. Pois não estavam privados da graça de Deus, mas o Espírito Santo era o seu conselheiro.” Baste isto quanto a esses assuntos.

4. Os seguidores de Montano, Alcibíades e Teódoto, na Frígia, começavam então a divulgar amplamente a sua pretensão em matéria de profecia (pois os muitos outros milagres que, pelo dom de Deus, ainda se operavam nas diferentes igrejas faziam com que muitos dessem crédito facilmente às profecias deles); e, como surgiu dissensão a respeito deles, os irmãos da Gália expuseram o seu próprio juízo, prudente e muito ortodoxo, sobre a questão, e publicaram também várias cartas das testemunhas que tinham sido executadas entre eles. Estas eles as enviaram, quando ainda estavam na prisão, aos irmãos de toda a Ásia e Frígia, e também a Eleutério, que era então bispo de Roma, negociando pela paz das igrejas.

Capítulo IV. Irineu recomendado pelas testemunhas numa carta

1. As mesmas testemunhas recomendaram também Irineu, que já naquele tempo era presbítero da igreja de Lião, ao bispo de Roma acima mencionado, dizendo muitas coisas favoráveis a seu respeito, como mostra o seguinte trecho:

2. “Pedimos, pai Eleutério, que te alegres em Deus em todas as coisas e sempre. Rogamos ao nosso irmão e companheiro Irineu que te leve esta carta, e pedimos-te que o tenhas em estima, como zeloso pela aliança de Cristo. Pois, se pensássemos que um cargo pudesse conferir justiça a alguém, nós o recomendaríamos entre os primeiros como presbítero da igreja, que é a sua posição.”

3. Para que transcrever o catálogo das testemunhas dado na carta já mencionada, das quais umas foram decapitadas, outras lançadas às feras e outras adormeceram na prisão, ou dar o número dos confessores que ainda sobreviviam naquele tempo? Pois quem quiser pode facilmente encontrar o relato completo consultando a própria carta, que, como disse, está registrada em nossa Coleção de Martírios. Tais foram os acontecimentos ocorridos sob Antonino.

Capítulo V. Deus enviou chuva do céu para Marco Aurélio César em resposta às orações dos nossos

1. Conta-se que Marco Aurélio César, irmão de Antonino, estando para travar batalha com os germanos e os sármatas, se viu em grande aflição porque o seu exército sofria de sede. Mas os soldados da chamada legião Melitena, pela fé que desde aquele tempo até o presente lhes tem dado força, quando estavam formados diante do inimigo, ajoelharam-se no chão, como é nosso costume na oração, e entregaram-se a súplicas a Deus.

2. Isto foi de fato um espetáculo estranho para os inimigos, mas conta-se que imediatamente se seguiu algo mais estranho ainda. Os raios puseram os inimigos em fuga e destruição, enquanto uma chuva refrescou o exército dos que tinham invocado a Deus, todos os quais estavam a ponto de perecer de sede.

3. Esta história é narrada por escritores não cristãos que se dispuseram a tratar dos tempos referidos, e foi registrada também pelos nossos. Pelos historiadores estranhos à fé o prodígio é mencionado, mas não é reconhecido como resposta às nossas orações. Pelos nossos, porém, como amigos da verdade, o acontecimento é narrado de modo simples e sem artifício.

4. Entre estes está Apolinário, que diz que desde aquele tempo a legião por cujas orações ocorreu o prodígio recebeu do imperador um título apropriado ao acontecimento, sendo chamada, na língua dos romanos, Legião Fulminante.

5. Tertuliano é testemunha digna de fé dessas coisas. Na Apologia da fé, que dirigiu ao Senado romano, obra que já mencionamos, ele confirma a história com provas maiores e mais fortes.

6. Escreve que ainda existem cartas do inteligentíssimo imperador Marco, nas quais ele atesta que o seu exército, estando a ponto de perecer de sede na Germânia, foi salvo pelas orações dos cristãos. E diz também que esse imperador ameaçou de morte os que apresentassem acusações contra nós.

7. Acrescenta ainda:

“Que espécie de leis são essas que pessoas ímpias, injustas e cruéis usam somente contra nós? Leis que Vespasiano, embora tivesse vencido os judeus, não levou em conta; que Trajano anulou em parte, proibindo que se procurassem os cristãos; que nem Adriano, embora curioso em todas as coisas, nem aquele que foi chamado Pio sancionaram.” Mas cada um trate dessas coisas como quiser; nós devemos passar ao que se seguiu.

8. Tendo Potino morrido com os outros mártires na Gália, aos noventa anos de idade, Irineu o sucedeu no episcopado da igreja de Lião. Soubemos que, na sua juventude, ele foi ouvinte de Policarpo.

9. No terceiro livro da sua obra Contra as heresias, ele inseriu uma lista dos bispos de Roma, levando-a até Eleutério (de cujos tempos estamos tratando agora), sob o qual compôs a sua obra. Escreve o seguinte:

Capítulo VI. Catálogo dos bispos de Roma

1. “Os bem-aventurados apóstolos, tendo fundado e edificado a igreja, confiaram a Lino o ofício do episcopado. Paulo fala deste Lino nas suas cartas a Timóteo (2Tm 4.21).

2. Anacleto o sucedeu e, depois de Anacleto, em terceiro lugar a partir dos apóstolos, Clemente recebeu o episcopado. Ele tinha visto os bem-aventurados apóstolos e conversado com eles, e a pregação deles ainda soava em seus ouvidos e a tradição deles ainda estava diante de seus olhos. E não era o único nisso, pois muitos dos que tinham sido ensinados pelos apóstolos ainda sobreviviam.

3. Nos tempos de Clemente, tendo surgido uma séria dissensão entre os irmãos de Corinto, a igreja de Roma enviou aos coríntios uma carta muito apropriada, reconciliando-os na paz, renovando a sua fé e anunciando a doutrina recentemente recebida dos apóstolos.”

4. Um pouco adiante, diz:

“Evaristo sucedeu a Clemente, e Alexandre a Evaristo. Depois foi constituído Xisto, o sexto a partir dos apóstolos. Depois dele, Telésforo, que sofreu gloriosamente o martírio; depois Higino; depois Pio; e depois dele Aniceto; Sotero sucedeu a Aniceto; e agora, em décimo segundo lugar a partir dos apóstolos, Eleutério ocupa o ofício de bispo.

5. Na mesma ordem e sucessão, a tradição na Igreja e a pregação da verdade desceram dos apóstolos até nós.”

Capítulo VII. Mesmo até aqueles tempos os fiéis realizavam milagres

1. Estas coisas Irineu, de acordo com os relatos já dados por nós, registra na obra que compreende cinco livros, à qual deu o título de Refutação e derrubada do conhecimento falsamente assim chamado. No segundo livro do mesmo tratado, mostra que manifestações do poder divino e milagroso continuaram até o seu tempo em algumas das igrejas.

2. Diz ele:

“Mas tão longe estão eles de ressuscitar mortos, como o Senhor os ressuscitou, e os apóstolos por meio da oração. E muitas vezes, entre os irmãos, quando, por alguma necessidade, toda a nossa Igreja suplicou com jejum e muita oração, o espírito do morto voltou, e o homem foi restituído pelas orações dos santos.”

3. E de novo, depois de outras observações, diz:

“Se disserem que até o Senhor fez estas coisas apenas em aparência, nós os remeteremos aos escritos proféticos e mostraremos por eles que todas as coisas foram de antemão ditas a respeito dele dessa maneira e se cumpriram rigorosamente, e que só ele é o Filho de Deus. Por isso os seus verdadeiros discípulos, recebendo graça dele, realizam tais obras em seu Nome para o bem dos outros homens, conforme cada um recebeu dele o dom.

4. Pois alguns expulsam demônios eficaz e verdadeiramente, de modo que os que foram purificados dos espíritos malignos frequentemente creem e se unem à Igreja. Outros têm conhecimento antecipado de acontecimentos futuros, e visões, e revelações proféticas. Outros ainda curam os enfermos pela imposição das mãos e os restituem à saúde. E, como dissemos, até mortos foram ressuscitados e permaneceram conosco muitos anos.

5. Mas que mais diremos? Não é possível enumerar os dons que a Igreja, em todo o mundo, recebeu de Deus em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e que ela exerce todos os dias em benefício dos pagãos, sem jamais enganar ninguém nem fazê-lo por dinheiro. Pois, assim como recebeu de graça da parte de Deus, também de graça ministra” (cf. Mt 10.8).

6. E em outro lugar o mesmo autor escreve:

“Assim também ouvimos que muitos irmãos na Igreja possuem dons proféticos e falam, pelo Espírito, toda espécie de línguas, e trazem à luz as coisas ocultas dos homens para o bem deles, e declaram os mistérios de Deus.”

Isso quanto ao fato de que vários dons permaneceram, entre os que eram dignos, até aquele tempo.

Capítulo VIII. As declarações de Irineu a respeito das Escrituras divinas

1. Visto que, no início desta obra, prometemos apresentar, quando necessário, as palavras dos antigos presbíteros e escritores da Igreja nas quais eles declararam as tradições que lhes chegaram a respeito dos livros canônicos, e visto que Irineu foi um deles, daremos agora as suas palavras e, em primeiro lugar, o que ele diz dos sagrados Evangelhos:

2. “Mateus publicou o seu Evangelho entre os hebreus, na língua deles, enquanto Pedro e Paulo pregavam e fundavam a igreja em Roma.

3. Depois da partida deles, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, também nos transmitiu por escrito aquilo que Pedro havia pregado; e Lucas, o companheiro de Paulo, registrou num livro o Evangelho que Paulo anunciara.

4. Depois João, o discípulo do Senhor, que também se reclinara sobre o seu peito, publicou o seu Evangelho quando residia em Éfeso, na Ásia.”

5. Ele afirma estas coisas no terceiro livro da obra acima mencionada. No quinto livro, fala do seguinte modo a respeito do Apocalipse de João e do número do nome do Anticristo:

“Sendo assim estas coisas, e encontrando-se este número em todas as cópias aprovadas e antigas, e confirmando-o os que viram João face a face, e ensinando-nos a razão que o número do nome da besta, segundo o modo de contar dos gregos, aparece nas suas letras…”

6. E mais adiante diz a respeito do mesmo assunto:

“Não somos ousados a ponto de falar com segurança do nome do Anticristo. Pois, se fosse necessário que o seu nome fosse declarado claramente no tempo presente, teria sido anunciado por aquele que viu a revelação. Pois ela foi vista não há muito tempo, mas quase na nossa geração, perto do fim do reinado de Domiciano.”

7. Ele afirma estas coisas a respeito do Apocalipse na obra referida. Menciona também a primeira carta de João, tirando dela muitas provas, e igualmente a primeira carta de Pedro. E não só conhece, mas também recebe O Pastor, escrevendo o seguinte:

“Bem disse a Escritura: ‘Antes de tudo, crê que Deus é um só, que criou e completou todas as coisas'” etc.

8. E usa quase as próprias palavras da Sabedoria de Salomão, dizendo: “A visão de Deus produz a imortalidade, e a imortalidade nos torna próximos de Deus.” Menciona também as memórias de um certo presbítero apostólico, cujo nome passa em silêncio, e apresenta as suas exposições das Sagradas Escrituras.

9. E refere-se a Justino, o Mártir, e a Inácio, usando também testemunhos dos seus escritos. Além disso, promete refutar Marcião pelos próprios escritos dele, numa obra especial.

10. A respeito da tradução das Escrituras inspiradas feita pelos Setenta, ouçam as próprias palavras que ele escreve:

“Deus verdadeiramente se fez homem, e o próprio Senhor nos salvou, dando o sinal da virgem; mas não como dizem alguns dos que agora se atrevem a traduzir a Escritura: ‘Eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho’ (Is 7.14), como interpretaram Teodocião de Éfeso e Áquila do Ponto, ambos prosélitos judeus; seguindo-os, os ebionitas dizem que ele foi gerado por José.”

11. Pouco depois acrescenta:

“Pois antes que os romanos tivessem estabelecido o seu império, quando os macedônios ainda dominavam a Ásia, Ptolomeu, filho de Lago, desejando adornar a biblioteca que fundara em Alexandria com os escritos meritórios de todos os homens, pediu ao povo de Jerusalém que mandasse traduzir as suas Escrituras para a língua grega.

12. Mas, como estavam então sujeitos aos macedônios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, os mais versados entre eles nas Escrituras e em ambas as línguas. Assim Deus realizou o seu propósito.

13. Mas, querendo prová-los individualmente, porque temia que, deliberando juntos, eles ocultassem com a sua interpretação a verdade das Escrituras, separou-os uns dos outros e ordenou a todos que escrevessem a mesma tradução. Fez isso com todos os livros.

14. Mas, quando se reuniram na presença de Ptolomeu e compararam as suas traduções, Deus foi glorificado, e as Escrituras foram reconhecidas como verdadeiramente divinas. Pois todos eles tinham vertido as mesmas coisas com as mesmas palavras e os mesmos nomes, do princípio ao fim, de modo que os pagãos perceberam que as Escrituras tinham sido traduzidas por inspiração de Deus.

15. E não era nada de admirável que Deus fizesse isso, ele que, no cativeiro do povo sob Nabucodonosor, quando as Escrituras tinham sido destruídas e os judeus haviam voltado à sua terra depois de setenta anos, mais tarde, no tempo de Artaxerxes, rei dos persas, inspirou o sacerdote Esdras, da tribo de Levi, a relatar todas as palavras dos profetas anteriores e a restituir ao povo a legislação de Moisés.”

Tais são as palavras de Irineu.

Capítulo IX. Os bispos sob Cômodo

1. Depois que Antonino foi imperador durante dezenove anos, Cômodo recebeu o governo. No seu primeiro ano, Juliano tornou-se bispo das igrejas de Alexandria, depois de Agripino ter ocupado o cargo durante doze anos.

Capítulo X. Panteno, o filósofo

1. Por aquele tempo, Panteno, homem muito distinto por sua erudição, dirigia a escola dos fiéis em Alexandria. Uma escola de ciência sagrada, que continua até os nossos dias, foi ali estabelecida em tempos antigos e, segundo fomos informados, era dirigida por homens de grande capacidade e zelo pelas coisas divinas. Entre estes, conta-se que Panteno se destacava especialmente naquele tempo, pois fora educado no sistema filosófico dos chamados estoicos.

2. Dizem que ele mostrou tal zelo pelo Verbo divino que foi designado arauto do Evangelho de Cristo para as nações do Oriente, e foi enviado até a Índia. Pois de fato havia ainda muitos evangelistas do Verbo que procuravam ardentemente empregar o seu zelo inspirado, a exemplo dos apóstolos, para o aumento e a edificação do Verbo divino.

3. Panteno foi um destes, e diz-se que foi à Índia. Conta-se que, entre algumas pessoas de lá que conheciam a Cristo, ele encontrou o Evangelho segundo Mateus, que se antecipara à sua chegada. Pois Bartolomeu, um dos apóstolos, lhes havia pregado e deixara com eles o escrito de Mateus em língua hebraica, que tinham conservado até aquele tempo.

4. Depois de muitas boas obras, Panteno tornou-se por fim o chefe da escola de Alexandria e expôs os tesouros da doutrina divina, tanto oralmente quanto por escrito.

Capítulo XI. Clemente de Alexandria

1. Nesse tempo tornou-se bem conhecido Clemente, que se formara com ele nas Escrituras divinas em Alexandria. Tinha o mesmo nome daquele que antigamente estivera à frente da igreja romana e que fora discípulo dos apóstolos.

2. Nas suas Hipotiposes, ele fala de Panteno pelo nome como seu mestre. Parece-me que alude à mesma pessoa também no primeiro livro dos seus Stromata, quando, referindo-se aos mais notáveis dos sucessores dos apóstolos que havia conhecido, diz:

3. “Esta obra não é um escrito artisticamente composto para exibição; mas as minhas notas estão guardadas para a velhice, como remédio contra o esquecimento; uma imagem sem arte e um esboço tosco daquelas palavras poderosas e vivas que tive o privilégio de ouvir, bem como de homens bem-aventurados e verdadeiramente notáveis.

4. Destes, um, o jônio, estava na Grécia; o outro, na Magna Grécia; um deles era da Celessíria, o outro do Egito. Havia outros no Oriente, um deles assírio, o outro hebreu, na Palestina. Mas, quando encontrei o último (em capacidade, na verdade, ele era o primeiro), tendo-o caçado em seu esconderijo no Egito, encontrei descanso.

5. Estes homens, conservando a verdadeira tradição da bem-aventurada doutrina, recebida diretamente dos santos apóstolos Pedro, Tiago, João e Paulo, recebendo-a o filho do pai (mas poucos foram semelhantes aos pais), chegaram, pela vontade de Deus, até nós para depositar aquelas sementes ancestrais e apostólicas.”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.