Eusébio, História Eclesiástica · Livro VIII

Livro VIII, capítulos 1 a 17

A paz antes da perseguição de Diocleciano; a destruição das igrejas; os mártires de Nicomédia, do palácio, da Fenícia, do Egito, da Tebaida e da Frígia; os bispos mártires; o fim dos perseguidores.

Introdução.

Tendo descrito em sete livros os acontecimentos desde o tempo dos apóstolos, julgamos conveniente registrar neste oitavo livro, para informação da posteridade, alguns dos fatos mais importantes dos nossos próprios tempos, que são dignos de registro permanente. Nosso relato começará a partir deste ponto.

Capítulo I. Os acontecimentos que precederam a perseguição em nossos tempos

1. Está acima da nossa capacidade descrever de modo adequado a extensão e a natureza da glória e da liberdade com que a palavra da piedade para com o Deus do universo, anunciada ao mundo por meio de Cristo, era honrada entre todos os homens, gregos e bárbaros, antes da perseguição dos nossos dias.

2. O favor que os governantes mostravam ao nosso povo poderia ser apresentado como prova; pois confiavam aos nossos o governo de províncias e, por causa da grande amizade que nutriam pela sua doutrina, os livravam da preocupação quanto aos sacrifícios.

3. Que necessidade tenho de falar dos que estavam nos palácios imperiais e dos que governavam sobre todos, os quais permitiam que os membros de suas casas, esposas, filhos e servos, falassem abertamente diante deles em favor da palavra e da vida divinas, e consentiam que quase se gloriassem da liberdade da sua fé?

4. De fato, tinham-nos em alta estima e os preferiam aos demais servos. Tal era aquele Doroteu, o mais dedicado e fiel a eles de todos, e por isso especialmente honrado por eles entre os que ocupavam os cargos e governos mais honrosos. Com ele estava o célebre Gorgônio, e quantos tinham sido julgados dignos da mesma distinção por causa da palavra de Deus.

5. E podia-se ver os dirigentes de cada igreja recebendo o maior favor de todos os oficiais e governadores. Mas como alguém poderia descrever aquelas vastas assembleias, a multidão que se apinhava em cada cidade e as célebres reuniões nas casas de oração? Por causa delas, não se contentando com os edifícios antigos, levantavam desde os alicerces igrejas amplas em todas as cidades.

6. Nenhuma inveja impedia o progresso dessas coisas, que avançavam pouco a pouco e cresciam e aumentavam dia após dia. Nem demônio maligno algum podia caluniá-las ou impedi-las por meio de conselhos humanos, enquanto a mão divina e celestial vigiava e guardava o seu próprio povo, como digno disso.

7. Mas quando, por causa da liberdade abundante, caímos em relaxamento e preguiça, e passamos a invejar-nos e a injuriar-nos uns aos outros, e quase, por assim dizer, a pegar em armas uns contra os outros, dirigentes atacando dirigentes com palavras como lanças, e povo formando partidos contra povo, enquanto uma hipocrisia e uma dissimulação monstruosas subiam ao mais alto grau de maldade, então o juízo divino, com paciência, como lhe agrada, enquanto as multidões ainda continuavam a reunir-se, começou a afligir o episcopado de modo brando e moderado.

8. Essa perseguição começou pelos irmãos que estavam no exército. Mas, como se fôssemos insensíveis, não nos empenhamos em tornar a Divindade favorável e propícia; e alguns, como ateus, pensavam que os nossos assuntos não eram observados nem governados; e assim acrescentamos uma maldade a outra. E os que eram tidos por nossos pastores, rejeitando o vínculo da piedade, inflamavam-se em contendas uns contra os outros, e nada mais faziam senão acumular rixas, ameaças, rivalidade, inimizade e ódio uns contra os outros, como tiranos que se esforçam ansiosamente por firmar o seu poder. Então, de fato, segundo a palavra de Jeremias, “o Senhor, na sua ira, escureceu a filha de Sião e lançou do céu à terra a glória de Israel, e não se lembrou do estrado de seus pés no dia da sua ira. O Senhor também submergiu todas as coisas belas de Israel e derrubou todas as suas fortalezas” (Lm 2.1-2).

9. E segundo o que foi predito nos Salmos: “Anulou a aliança do seu servo e profanou por terra o seu santuário (na destruição das igrejas), e derrubou todas as suas fortalezas, e fez das suas cidadelas covardia. Todos os que passam saquearam a multidão do povo; e, além disso, ele se tornou opróbrio para os seus vizinhos. Pois exaltou a mão direita dos seus inimigos, fez recuar o socorro da sua espada e não tomou o seu partido na guerra. Antes, privou-o de purificação e lançou por terra o seu trono. Abreviou os dias do seu tempo e, além de tudo, derramou vergonha sobre ele” (Sl 89.39-45).

Capítulo II. A destruição das igrejas

1. Todas essas coisas se cumpriram em nós, quando vimos com os nossos próprios olhos as casas de oração derrubadas até os alicerces, as divinas e sagradas Escrituras entregues às chamas no meio das praças, e os pastores das igrejas vergonhosamente escondidos aqui e ali, e alguns deles presos de modo ignominioso e escarnecidos pelos seus inimigos. Quando também, segundo outra palavra profética, “derramou-se desprezo sobre os príncipes, e ele os fez andar errantes por um caminho não trilhado e sem estrada” (Sl 107.40).

2. Mas não nos cabe descrever as tristes desgraças que por fim caíram sobre eles, assim como também não julgamos conveniente registrar as suas divisões e o comportamento desnaturado que tiveram uns para com os outros antes da perseguição. Por isso decidimos nada relatar a respeito deles, a não ser aquilo com que possamos justificar o juízo divino.

3. Por conseguinte, não mencionaremos os que foram abalados pela perseguição, nem os que naufragaram em tudo o que diz respeito à salvação e, por sua própria vontade, foram afundados nas profundezas das águas. Introduziremos nesta história, de modo geral, somente aqueles fatos que possam ser úteis, primeiro a nós mesmos e depois à posteridade. Passemos, pois, a descrever brevemente os sagrados combates das testemunhas da Palavra divina.

4. Foi no décimo nono ano do reinado de Diocleciano, no mês de Distro, que os romanos chamam março, quando se aproximava a festa da paixão do Salvador, que se publicaram por toda parte éditos imperiais ordenando que as igrejas fossem arrasadas até o chão e as Escrituras destruídas pelo fogo, e determinando que os que ocupavam cargos de honra fossem degradados e que os servos domésticos, se persistissem na profissão do cristianismo, fossem privados da liberdade.

5. Tal foi o primeiro édito contra nós. Mas pouco depois foram baixados outros decretos, ordenando que todos os dirigentes das igrejas, em todo lugar, fossem primeiro lançados na prisão e depois obrigados, por todos os artifícios, a sacrificar.

Capítulo III. A natureza dos combates sofridos na perseguição

1. Então, de fato, muitíssimos dirigentes das igrejas suportaram com ardor sofrimentos terríveis e deram exemplos de nobres combates. Mas uma multidão de outros, com o espírito entorpecido pelo medo, logo fraquejou ao primeiro assalto. Dos demais, cada um suportou diferentes formas de tortura. O corpo de um era açoitado com varas. Outro era castigado com estiramentos e raspagens insuportáveis, nos quais alguns sofreram morte miserável.

2. Outros passaram por combates diferentes. Assim, um deles, enquanto os que o cercavam o empurravam à força e o arrastavam aos sacrifícios abomináveis e impuros, foi despedido como se tivesse sacrificado, embora não o tivesse feito. Outro, embora nem sequer se tivesse aproximado nem tocado coisa alguma contaminada, quando outros disseram que ele havia sacrificado, retirou-se suportando a acusação em silêncio.

3. Outro, levantado meio morto, foi lançado de lado como se já estivesse morto; e ainda outro, caído no chão, foi arrastado pelos pés por longa distância e contado entre os que tinham sacrificado. Um gritava e, em alta voz, testemunhava que rejeitava o sacrifício; outro bradava que era cristão, resplandecendo na confissão do Nome salvador. Outro protestava que não tinha sacrificado e jamais sacrificaria.

4. Mas eram golpeados na boca e silenciados por um grande destacamento de soldados postado para esse fim; e eram esbofeteados no rosto e nas faces e expulsos à força, tão importante consideravam os inimigos da piedade parecer, por qualquer meio, ter alcançado o seu propósito. Mas essas coisas de nada lhes valeram contra os santos mártires; e, para descrevê-los com exatidão, que palavra nossa poderia bastar?

Capítulo IV. Os célebres mártires de Deus, que encheram todo lugar com a sua memória e conquistaram diversas coroas em favor da religião

1. Pois poderíamos falar de muitos que mostraram zelo admirável pela religião do Deus do universo, não somente desde o começo da perseguição geral, mas muito antes desse tempo, enquanto ainda reinava a paz.

2. Pois, embora aquele que recebera o poder parecesse despertar agora como de um sono profundo, já desde o tempo posterior a Décio e Valeriano vinha conspirando contra as igrejas, em segredo e sem ser notado. Não moveu guerra contra todos nós de uma só vez, mas pôs à prova, a princípio, somente os que estavam no exército. Pois supunha que os outros poderiam ser apanhados facilmente se primeiro atacasse e subjugasse estes. Então se viram muitos soldados abraçando com a maior alegria a vida privada, para não negarem a sua piedade para com o Criador do universo.

3. Pois quando o comandante, quem quer que fosse, começou a perseguir os soldados, separando-os por tribos e depurando os que estavam alistados no exército, dando-lhes a escolha entre receber, se obedecessem, a honra que lhes pertencia, ou, ao contrário, ser privados dela se desobedecessem à ordem, muitíssimos soldados do reino de Cristo, sem hesitar, preferiram imediatamente a confissão dele à aparente glória e prosperidade de que gozavam.

4. E um ou outro deles recebeu de vez em quando, em troca da sua piedosa constância, não somente a perda do posto, mas a morte. Mas o instigador dessa trama ainda procedia com moderação, e só em alguns casos se atreveu a ir até o sangue; pois a multidão dos fiéis, como é provável, o atemorizava e o dissuadia de mover guerra contra todos de uma vez.

5. Mas, quando passou a atacar com mais ousadia, é impossível relatar quantos e quais mártires de Deus se puderam ver entre os habitantes de todas as cidades e regiões.

Capítulo V. Os de Nicomédia

1. Logo que foi publicado em Nicomédia o decreto contra as igrejas, certo homem, não obscuro, mas muito honrado com distintas dignidades temporais, movido de zelo para com Deus e incitado por uma fé ardente, arrancou o édito quando estava afixado aberta e publicamente, e o rasgou em pedaços como coisa profana e ímpia; e isso foi feito enquanto dois dos soberanos estavam na mesma cidade, o mais velho de todos e aquele que ocupava o quarto lugar no governo depois dele.

2. Mas esse homem, o primeiro naquele lugar, depois de se distinguir de tal maneira, sofreu as coisas que era de esperar que se seguissem a semelhante ousadia, e manteve o espírito alegre e sereno até a morte.

Capítulo VI. Os do palácio

1. Esse período produziu mártires divinos e ilustres, cujos louvores foram cantados acima de todos e que foram celebrados pela coragem, tanto entre gregos como entre bárbaros, na pessoa de Doroteu e dos servos que estavam com ele no palácio. Embora recebessem dos seus senhores as mais altas honras e fossem tratados por eles como filhos, consideraram os opróbrios e as provações pela religião, e as muitas formas de morte inventadas contra eles, como riquezas, na verdade, maiores que a glória e o luxo desta vida.

2. Descreveremos a maneira como um deles terminou a vida, e deixaremos que os nossos leitores deduzam pelo seu caso os sofrimentos dos outros. Certo homem foi levado, na cidade acima mencionada, à presença dos governantes de quem falamos. Ordenaram-lhe então que sacrificasse; e, como se recusou, mandaram que fosse despido, suspenso no alto e açoitado com varas por todo o corpo, até que, vencido, fizesse, mesmo contra a vontade, o que lhe era ordenado.

3. Mas, como ele permanecia inabalável diante desses sofrimentos e os seus ossos já apareciam, misturaram vinagre com sal e o derramaram sobre as partes dilaceradas do seu corpo. Como ele desprezava essas dores, trouxeram uma grelha e fogo. E os restos do seu corpo, como carne destinada a ser comida, foram postos sobre o fogo, não de uma vez, para que não expirasse imediatamente, mas pouco a pouco. E não se permitia aos que o tinham posto na fogueira que parassem até que, depois de tais sofrimentos, ele consentisse no que lhe era ordenado.

4. Mas ele manteve firme o seu propósito e entregou vitoriosamente a vida enquanto as torturas ainda prosseguiam. Tal foi o martírio de um dos servos do palácio, que era de fato bem digno do seu nome, pois se chamava Pedro.

5. Os martírios dos demais, embora não fossem inferiores ao dele, deixaremos de lado por amor à brevidade, registrando apenas que Doroteu e Gorgônio, com muitos outros da casa imperial, depois de variados sofrimentos, terminaram a vida estrangulados e levaram os troféus da vitória dada por Deus.

6. Nesse tempo Antimo, que então presidia a igreja de Nicomédia, foi decapitado pelo seu testemunho de Cristo. A ele se juntou uma grande multidão de mártires, pois naqueles mesmos dias irrompeu um incêndio no palácio de Nicomédia, não sei como, que por uma falsa suspeita foi atribuído ao nosso povo. Famílias inteiras de piedosos daquele lugar foram mortas em massa por ordem imperial, umas pela espada, outras pelo fogo. Conta-se que, com um ardor divino e indescritível, homens e mulheres se lançavam ao fogo. E os carrascos amarraram grande número de outros, puseram-nos em barcos e os lançaram nas profundezas do mar.

7. E os que tinham sido tidos por seus senhores julgaram necessário desenterrar os corpos dos servos imperiais, que tinham sido entregues à terra com sepultura conveniente, e lançá-los ao mar, para que ninguém, como pensavam, os considerasse deuses e os adorasse jazendo nos seus sepulcros.

8. Tais coisas ocorreram em Nicomédia no começo da perseguição. Mas, não muito depois, como certas pessoas na região chamada Melitene, e outras por toda a Síria, tentaram usurpar o governo, um édito imperial determinou que os dirigentes das igrejas, em toda parte, fossem lançados na prisão e em cadeias.

9. O que se viu depois disso excede toda descrição. Uma vasta multidão foi encarcerada em todo lugar; e as prisões de toda parte, que muito antes tinham sido preparadas para assassinos e violadores de sepulturas, ficaram cheias de bispos, presbíteros e diáconos, leitores e exorcistas, de modo que já não sobrava lugar nelas para os condenados por crimes.

10. E, como outros decretos se seguiram ao primeiro, determinando que os presos, se sacrificassem, fossem autorizados a sair em liberdade, mas que os que se recusassem fossem atormentados com muitas torturas, como poderia alguém, mais uma vez, contar a multidão dos mártires em cada província, e especialmente dos que estavam na África, na Mauritânia, na Tebaida e no Egito? Deste último país muitos partiram para outras cidades e províncias e se tornaram ilustres pelo martírio.

Capítulo VII. Os egípcios na Fenícia

1. Conhecemos os que dentre eles se destacaram na Palestina, como também os que estiveram em Tiro, na Fenícia. Quem os viu e não se espantou com os golpes sem número e com a firmeza que esses atletas verdadeiramente admiráveis da religião mostraram debaixo deles? E com o seu combate, logo depois da flagelação, contra feras sanguinárias, quando eram lançados diante de leopardos, de diferentes espécies de ursos, de javalis e de touros aguilhoados com fogo e ferro em brasa? E com a maravilhosa resistência desses nobres homens diante de toda sorte de feras?

2. Nós mesmos estávamos presentes quando essas coisas aconteceram, e registramos o poder divino do nosso Salvador Jesus Cristo, a quem se deu testemunho, poder que estava presente e se manifestava poderosamente nos mártires. Por muito tempo as feras devoradoras de homens não ousaram tocar nem aproximar-se dos corpos dos amados de Deus, mas lançavam-se sobre os outros que, de fora, as irritavam e açulavam. E não tocavam de modo algum nos santos atletas, enquanto estes estavam sozinhos e nus e agitavam as mãos para atraí-las a si, pois tinham ordem de fazer isso. Mas, sempre que avançavam contra eles, eram contidas como por algum poder divino e recuavam de novo.

3. Isso continuou por muito tempo e causou não pequena admiração aos espectadores. E, como a primeira fera nada fazia, soltaram uma segunda e uma terceira contra um só e mesmo mártir.

4. Não se podia deixar de ficar espantado com a firmeza invencível desses santos homens e com a constância perseverante e inabalável daqueles cujos corpos eram jovens. Poderias ter visto um jovem de menos de vinte anos de pé, sem amarras, estendendo as mãos em forma de cruz, com a mente sem terror e sem tremor, entregue com fervor à oração a Deus, sem recuar de modo algum nem se afastar do lugar onde estava, enquanto ursos e leopardos, respirando fúria e morte, quase lhe tocavam a carne. E, no entanto, as suas bocas eram contidas, não sei como, por um poder divino e incompreensível, e eles voltavam correndo para o seu lugar. Tal foi ele.

5. Também poderias ter visto outros (pois eram cinco ao todo) lançados diante de um touro selvagem, que atirava para o ar com os chifres os que se aproximavam de fora e os dilacerava, deixando-os para serem recolhidos meio mortos; mas, quando se lançou com fúria e ameaça sobre os santos mártires, que estavam sozinhos, não conseguiu chegar perto deles. E, embora batesse as patas, arremetesse com os chifres para todos os lados e respirasse fúria e ameaça por causa da irritação dos ferros em brasa, foi contudo retido pela sagrada Providência. E, como de modo nenhum lhes fez mal, soltaram contra eles outras feras.

6. Por fim, depois desses ataques terríveis e variados, foram todos mortos à espada; e, em vez de serem sepultados na terra, foram entregues às ondas do mar.

Capítulo VIII. Os do Egito

1. Tal foi o combate daqueles egípcios que lutaram nobremente pela religião em Tiro. Mas devemos admirar também os que sofreram o martírio na sua terra natal, onde milhares de homens, mulheres e crianças, desprezando a vida presente por causa do ensino do nosso Salvador, suportaram diversas mortes.

2. Alguns deles, depois de raspagens, estiramentos e açoites severíssimos, e inúmeras outras espécies de torturas, terríveis até de ouvir, foram entregues às chamas; alguns foram afogados no mar; alguns ofereceram corajosamente a cabeça aos que a cortavam; alguns morreram sob as torturas, e outros pereceram de fome. E outros ainda foram crucificados: alguns segundo o método comumente empregado para os malfeitores; outros, com crueldade ainda maior, pregados na cruz de cabeça para baixo e mantidos vivos até perecerem de fome na cruz.

Capítulo IX. Os da Tebaida

1. Seria impossível descrever os ultrajes e as torturas que os mártires da Tebaida suportaram. Eram raspados por todo o corpo com conchas, em vez de ganchos, até morrerem. Mulheres eram amarradas por um pé e erguidas ao ar por máquinas e, com o corpo inteiramente nu e descoberto, apresentavam a todos os que olhavam esse espetáculo vergonhosíssimo, cruel e desumano.

2. Outros pereceram amarrados aos galhos e troncos das árvores. Pois juntavam com máquinas os galhos mais fortes, prendiam a eles os membros dos mártires e então, deixando os galhos voltarem à sua posição natural, despedaçavam num instante os membros daqueles contra quem tinham tramado isso.

3. Todas essas coisas foram feitas não por poucos dias ou por pouco tempo, mas por uma longa série de anos. Às vezes mais de dez, outras vezes mais de vinte eram mortos. De outra vez, não menos de trinta, depois cerca de sessenta, e ainda outra vez cem homens, com crianças pequenas e mulheres, foram mortos num só dia, condenados a tormentos vários e diversos.

4. Também nós, estando nós mesmos no local, vimos grandes multidões num só dia, uns sofrendo decapitação, outros a tortura do fogo, de modo que a espada assassina se embotava e, enfraquecendo-se, se quebrava, e os próprios carrascos se cansavam e se revezavam uns aos outros.

5. E contemplamos o ardor mais admirável e a energia e o zelo verdadeiramente divinos dos que criam no Cristo de Deus. Pois, assim que se pronunciava a sentença contra os primeiros, outros, um após outro, corriam ao tribunal e se confessavam cristãos. E, olhando com indiferença as coisas terríveis e as torturas de múltiplas formas, declaravam-se com ousadia e sem temor pela religião do Deus do universo. E recebiam a sentença final de morte com alegria, riso e contentamento, de modo que cantavam e ofereciam hinos e ações de graças ao Deus do universo até o último suspiro.

6. Esses foram de fato admiráveis; mas ainda mais admiráveis foram os que, distinguindo-se pela riqueza, pela nobreza de nascimento e pela honra, e pela erudição e filosofia, tiveram tudo em segundo lugar diante da verdadeira religião e da fé em nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo.

7. Tal foi Filoromo, que ocupava um alto cargo no governo imperial em Alexandria e administrava a justiça todos os dias, acompanhado de uma guarda militar correspondente à sua posição e dignidade romana. Tal foi também Fileas, bispo da igreja de Tmuis, homem eminente pelo seu amor à pátria e pelos serviços que prestou ao seu país, e também pela sua erudição filosófica.

8. Essas pessoas, embora uma multidão de parentes e outros amigos lhes suplicassem, e muitos de alta posição, e até o próprio juiz lhes rogasse que tivessem compaixão de si mesmos e mostrassem misericórdia para com os filhos e as esposas, não foram de modo algum levados por essas coisas a escolher o amor à vida e a desprezar os preceitos do nosso Salvador sobre a confissão e a negação. Mas, com ânimo viril e filosófico, ou antes com almas piedosas e amantes de Deus, perseveraram contra todas as ameaças e insultos do juiz; e ambos foram decapitados.

Capítulo X. Os escritos do mártir Fileas que descrevem os acontecimentos de Alexandria

1. Já que mencionamos Fileas como homem de grande reputação no saber secular, seja ele a sua própria testemunha no seguinte trecho, em que nos mostra quem era e ao mesmo tempo descreve, com mais exatidão do que nós poderíamos, os martírios que ocorreram no seu tempo em Alexandria:

2. “Tendo diante de si todos esses exemplos, modelos e nobres sinais que nos são dados nas divinas e sagradas Escrituras, os bem-aventurados mártires que estavam conosco não hesitaram, mas, dirigindo com sinceridade o olho da alma para o Deus que está sobre todos, e tendo o pensamento fixo na morte pela religião, permaneceram firmes na sua vocação. Pois compreendiam que nosso Senhor Jesus Cristo se fizera homem por nossa causa, para cortar todo pecado e nos fornecer os meios de entrada na vida eterna. ‘Pois não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido, mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo; e, reconhecido em figura humana, humilhou-se até a morte, e morte de cruz’ (Fp 2.6-8).

3. Por isso também, zelosos pelos dons maiores, os mártires portadores de Cristo suportaram todas as provações e toda sorte de invenções de tortura, não uma vez apenas, mas alguns também uma segunda vez. E, embora os guardas competissem entre si em ameaçá-los de todas as maneiras, não só com palavras, mas com atos, não abandonaram a sua resolução, porque ‘o perfeito amor lança fora o medo’ (1Jo 4.18).

4. “Que palavras poderiam descrever a sua coragem e a sua firmeza viril sob toda tortura? Pois, como se deu a todos os que quisessem liberdade para maltratá-los, uns os espancavam com porretes, outros com varas, outros com flagelos, outros ainda com correias, e outros com cordas.

5. E o espetáculo dos ultrajes era variado e revelava grande malignidade. Pois alguns, com as mãos amarradas atrás das costas, eram suspensos no cavalete, e todos os seus membros eram esticados por certas máquinas. Então os torturadores, conforme a ordem, dilaceravam com instrumentos o corpo inteiro deles; não somente os flancos, como no caso dos assassinos, mas também o ventre, os joelhos e as faces. Outros eram erguidos ao alto, suspensos do pórtico por uma só mão, e suportavam o mais terrível sofrimento de todos, pela distensão das articulações e dos membros. Outros eram amarrados de frente a colunas, sem se apoiar nos pés, mas com o peso do corpo caindo sobre as amarras e esticando-as com força.

6. E suportavam isso não apenas enquanto o governador falava com eles ou estava desocupado, mas quase o dia inteiro. Pois, quando passava a outros, deixava oficiais sob a sua autoridade para vigiar os primeiros e observar se algum deles, vencido pelas torturas, parecia ceder. E ordenava que fossem lançados em cadeias sem misericórdia e, depois, quando estivessem no último alento, que fossem atirados ao chão e arrastados dali.

7. Pois dizia que não se devia ter por nós a menor consideração, mas pensar e agir como se já não existíssemos, tendo os nossos inimigos inventado esse segundo modo de tortura além dos golpes.

8. “Alguns também, depois desses ultrajes, eram postos no tronco, com os dois pés esticados por sobre os quatro furos, de modo que eram obrigados a ficar deitados de costas no tronco, sem poder manter-se erguidos por causa das feridas recentes com que todo o corpo estava coberto em consequência dos açoites. Outros eram atirados ao chão e ali ficavam sob o acúmulo das torturas, oferecendo aos espectadores uma demonstração ainda mais terrível de crueldade, pois traziam no corpo as marcas dos castigos vários e diversos que tinham sido inventados.

9. Enquanto isso prosseguia, alguns morreram sob as torturas, envergonhando o adversário pela sua constância. Outros, meio mortos, foram encerrados na prisão e, sofrendo com as suas dores, morreram em poucos dias; mas os restantes, recuperando-se com os cuidados que receberam, ganharam confiança com o tempo e com a longa detenção na prisão.

10. Quando, portanto, receberam ordem de escolher se seriam livrados de molestação tocando o sacrifício contaminado e recebendo deles a maldita liberdade, ou se, recusando sacrificar, seriam condenados à morte, não hesitaram, mas foram para a morte com alegria. Pois sabiam o que fora declarado de antemão pelas sagradas Escrituras. Pois está dito: ‘Quem sacrificar a outros deuses será totalmente destruído’ (Êx 22.20), e: ‘Não tenha outros deuses diante de mim’ (Êx 20.3).”

11. Tais são as palavras do mártir verdadeiramente filósofo e amante de Deus, que ele, antes da sentença final, ainda na prisão, dirigiu aos irmãos da sua igreja, mostrando-lhes a sua própria situação e ao mesmo tempo exortando-os a se manterem firmes na religião de Cristo, mesmo depois da sua morte, que se aproximava.

12. Mas por que nos deter nessas coisas e continuar a acrescentar novos exemplos dos combates dos mártires divinos pelo mundo inteiro, sobretudo porque já não eram tratados pela lei comum, mas atacados como inimigos de guerra?

Capítulo XI. Os da Frígia

1. Uma pequena cidade da Frígia, habitada somente por cristãos, foi inteiramente cercada por soldados enquanto os homens estavam nela. Lançando fogo dentro dela, consumiram-nos com as mulheres e as crianças, enquanto invocavam a Cristo. Fizeram isso porque todos os habitantes da cidade, e o próprio curador, e o governador, com todos os que ocupavam cargos, e o povo inteiro, se confessavam cristãos e não obedeciam de modo algum aos que lhes ordenavam adorar os ídolos.

2. Havia outro homem de dignidade romana, chamado Adauto, de nobre família italiana, que avançara por todas as honras sob os imperadores, de modo que exercera irrepreensivelmente até os cargos gerais de magistrado, como dizem, e de ministro das finanças. Além de tudo isso, destacou-se em obras de piedade e na confissão do Cristo de Deus, e foi adornado com o diadema do martírio. Sustentou o combate pela religião enquanto ainda ocupava o cargo de ministro das finanças.

Capítulo XII. Muitos outros, homens e mulheres, que sofreram de diversas maneiras

1. Por que precisamos mencionar os demais pelo nome, ou contar a multidão dos homens, ou retratar os vários sofrimentos dos admiráveis mártires de Cristo? Alguns deles foram mortos a machado, como na Arábia. Os membros de alguns foram quebrados, como na Capadócia. Alguns, suspensos pelos pés, de cabeça para baixo, enquanto um fogo brando ardia debaixo deles, foram sufocados pela fumaça que subia da lenha em brasa, como se fez na Mesopotâmia. Outros foram mutilados, tendo cortados o nariz, as orelhas e as mãos, e despedaçados os demais membros e partes do corpo, como em Alexandria.

2. Por que reavivar a lembrança dos que em Antioquia foram assados em grelhas, não de modo a matá-los, mas de modo a submetê-los a um castigo prolongado? Ou de outros que preferiram enfiar a mão direita no fogo a tocar o sacrifício ímpio? Alguns, recuando diante da provação, antes de serem apanhados e caírem nas mãos dos inimigos, lançaram-se do alto de casas elevadas, considerando a morte preferível à crueldade dos ímpios.

3. Certa pessoa santa, de alma admirável pela virtude, de corpo mulher, que era ilustre acima de todos em Antioquia pela riqueza, pela família e pela reputação, educara nos princípios da religião as suas duas filhas, que estavam então no frescor e na flor da vida. Como se despertou grande inveja por causa delas, usaram-se todos os meios para encontrá-las no seu esconderijo; e, quando se averiguou que estavam fora, foram chamadas a Antioquia com engano. Assim caíram nas redes dos soldados. Quando a mulher se viu, a si e às filhas, assim indefesas, e sabia as coisas terríveis de dizer que os homens lhes fariam, e a mais insuportável de todas as coisas terríveis, a ameaça de violação da sua castidade, exortou a si mesma e às moças a não se sujeitarem nem sequer a ouvir falar disso. Pois dizia que entregar as suas almas à escravidão dos demônios era pior que todas as mortes e toda destruição; e pôs diante delas a única libertação de todas essas coisas: a fuga para Cristo.

4. Elas então ouviram o seu conselho. E, depois de arrumarem convenientemente as vestes, afastaram-se do meio da estrada, tendo pedido aos guardas um pouco de tempo para se retirarem, e lançaram-se num rio que corria ali ao lado.

5. Assim se mataram. Mas havia outras duas virgens na mesma cidade de Antioquia, que serviam a Deus em todas as coisas e eram irmãs de sangue, ilustres pela família e distintas pela vida, jovens e em flor, sérias de espírito, piedosas no porte e admiráveis pelo zelo. Como se a terra não pudesse suportar tal excelência, os adoradores de demônios mandaram lançá-las ao mar. E isso lhes foi feito.

6. No Ponto, outros suportaram sofrimentos horríveis de ouvir. Tiveram os dedos traspassados com caniços pontiagudos debaixo das unhas. Chumbo derretido, borbulhando e fervendo com o calor, foi despejado sobre as costas de outros, e eles foram queimados nas partes mais sensíveis do corpo.

7. Outros suportaram nas entranhas e nas partes íntimas tormentos vergonhosos, desumanos e indizíveis, que os nobres e cumpridores da lei juízes, para mostrar a sua severidade, inventavam, como manifestações mais honrosas de sabedoria. E novas torturas eram continuamente inventadas, como se eles se esforçassem, superando-se uns aos outros, por ganhar prêmios numa competição.

8. Mas, no fim dessas calamidades, quando por fim já não conseguiam inventar crueldades maiores, e estavam cansados de matar, e fartos e saciados de derramar sangue, voltaram-se para o que consideravam um tratamento misericordioso e humano, de modo que pareciam já não estar tramando coisas terríveis contra nós.

9. Pois diziam que não convinha que as cidades fossem contaminadas com o sangue do seu próprio povo, nem que o governo dos seus soberanos, que era bondoso e brando para com todos, fosse difamado por excessiva crueldade; mas que, antes, a beneficência da autoridade humana e imperial devia estender-se a todos, e nós já não devíamos ser mortos. Pois a aplicação desse castigo a nós devia cessar em consequência da humanidade dos soberanos.

10. Por isso se ordenou que os nossos olhos fossem arrancados e que fôssemos mutilados num dos membros. Pois tais coisas eram humanas aos olhos deles, e os mais leves dos castigos para nós. De modo que agora, por causa desse tratamento bondoso que os ímpios nos concederam, era impossível dizer o número incalculável daqueles cujo olho direito fora primeiro cortado com a espada e depois cauterizado com fogo, ou que tinham sido aleijados do pé esquerdo pela queima das articulações e depois condenados às minas de cobre da província, não tanto para o serviço quanto para a aflição e o sofrimento. Além de todos esses, outros enfrentaram outras provações que é impossível relatar, pois a sua resistência viril ultrapassa toda descrição.

11. Nesses combates os nobres mártires de Cristo brilharam ilustres sobre o mundo inteiro e por toda parte espantaram os que viam a sua coragem; e por meio deles se tornaram manifestas as provas do poder verdadeiramente divino e inefável do nosso Salvador. Mencionar cada um pelo nome seria tarefa longa, se não de fato impossível.

Capítulo XIII. Os bispos da Igreja que demonstraram com o seu sangue a autenticidade da religião que pregavam

1. Quanto aos dirigentes da Igreja que sofreram o martírio nas principais cidades, o primeiro mártir do reino de Cristo que mencionaremos entre os monumentos dos piedosos é Antimo, bispo da cidade de Nicomédia, que foi decapitado.

2. Entre os mártires de Antioquia esteve Luciano, presbítero daquela igreja, cuja vida inteira foi excelentíssima. Em Nicomédia, na presença do imperador, proclamou o reino celestial de Cristo, primeiro numa defesa oral e depois também por obras.

3. Dos mártires da Fenícia, os mais ilustres foram aqueles dedicados pastores dos rebanhos espirituais de Cristo: Tiranião, bispo da igreja de Tiro; Zenóbio, presbítero da igreja de Sidom; e Silvano, bispo das igrejas em torno de Emesa.

4. O último deles, com outros, foi feito alimento de feras em Emesa, e assim foi recebido nas fileiras dos mártires. Os outros dois glorificaram a palavra de Deus em Antioquia pela paciência até a morte. O bispo foi lançado nas profundezas do mar. Mas Zenóbio, que era um médico muito hábil, morreu sob torturas severas aplicadas aos seus flancos.

5. Dos mártires da Palestina, Silvano, bispo das igrejas em torno de Gaza, foi decapitado com outros trinta e nove nas minas de cobre de Feno. Ali também os bispos egípcios Peleu e Nilo, com outros, sofreram a morte pelo fogo.

6. Entre estes devemos mencionar Pânfilo, presbítero, que foi a grande glória da igreja de Cesareia e, entre os homens do nosso tempo, o mais admirável.

7. A virtude dos seus feitos viris registramos no lugar próprio. Dos que sofreram a morte de modo ilustre em Alexandria e por todo o Egito e a Tebaida, deve-se mencionar primeiro Pedro, bispo de Alexandria, um dos mais excelentes mestres da religião de Cristo; e, dos presbíteros que estavam com ele, Fausto, Dio e Amônio, mártires perfeitos de Cristo; também Fileas, Hesíquio, Paquímio e Teodoro, bispos de igrejas egípcias, e além deles muitas outras pessoas distintas que são comemoradas pelas igrejas da sua terra e região.

Não nos cabe descrever os combates dos que sofreram pela religião divina no mundo inteiro e relatar com exatidão o que aconteceu a cada um deles. Essa seria a obra própria dos que foram testemunhas oculares dos acontecimentos. Descreverei para a posteridade, em outra obra, os que eu mesmo presenciei.

8. Mas, no presente livro, acrescentarei ao que já apresentei a revogação publicada pelos nossos perseguidores e os acontecimentos que se deram no começo da perseguição, os quais serão muito proveitosos aos que os lerem.

9. Que palavras poderiam descrever suficientemente a grandeza e a abundância da prosperidade do governo romano antes da guerra contra nós, enquanto os soberanos eram amigáveis e pacíficos para conosco? Então os que estavam no mais alto do governo, e tinham ocupado a posição por dez ou vinte anos, passavam o tempo em paz tranquila, em festas, jogos públicos e os prazeres e alegrias mais jubilosos.

10. Enquanto assim a sua autoridade crescia sem interrupção e aumentava dia após dia, de repente mudaram a sua atitude pacífica para conosco e começaram uma guerra implacável. Mas ainda não tinha passado o segundo ano desse movimento quando houve uma revolução no governo inteiro, que transtornou todas as coisas.

11. Pois uma grave doença sobreveio ao principal daqueles de quem falamos, pela qual o seu entendimento se perturbou; e, com aquele que era honrado com o segundo posto, retirou-se para a vida privada. Mal tinha feito isso, o império inteiro se dividiu, coisa que não se registra ter jamais acontecido antes.

12. Não muito depois, o imperador Constâncio, que durante toda a vida foi muito bondoso e favorável para com os seus súditos e muito amigo da Palavra divina, terminou a vida pelo curso comum da natureza e deixou o seu próprio filho, Constantino, como imperador e augusto em seu lugar. Ele foi o primeiro a ser colocado por eles entre os deuses, e recebeu depois da morte todas as honras que se poderiam prestar a um imperador.

13. Foi o mais bondoso e o mais brando dos imperadores, e o único dos do nosso tempo que passou todo o tempo do seu governo de maneira digna do seu cargo. Além disso, conduziu-se para com todos da maneira mais favorável e benéfica. Não tomou a menor parte na guerra contra nós, mas conservou ilesos e sem ultraje os piedosos que estavam sob ele. Não derrubou os edifícios das igrejas, nem tramou coisa alguma contra nós. O fim da sua vida foi honroso e três vezes bem-aventurado. Somente ele, ao morrer, deixou o seu império, feliz e gloriosamente, ao seu próprio filho como sucessor, homem em tudo prudentíssimo e piedosíssimo.

14. Seu filho Constantino assumiu imediatamente o governo, proclamado imperador supremo e augusto pelos soldados, e muito antes pelo próprio Deus, o Rei de todos. Mostrou-se imitador da piedade do pai para com a nossa doutrina. Tal foi ele.

Mas, depois disso, Licínio foi declarado imperador e augusto por voto comum dos soberanos.

15. Essas coisas afligiram grandemente Maximino, pois até aquele tempo ele era intitulado por todos apenas césar. Por isso, sendo extremamente autoritário, apoderou-se da dignidade e se tornou augusto, feito tal por si mesmo. Nesse meio-tempo, aquele que mencionamos como tendo retomado a sua dignidade depois da abdicação, sendo descoberto quando conspirava contra a vida de Constantino, pereceu de morte vergonhosíssima. Foi o primeiro cujos decretos, estátuas e monumentos públicos foram destruídos por causa da sua maldade e impiedade.

Capítulo XIV. O caráter dos inimigos da religião

1. Maxêncio, seu filho, que obteve o governo em Roma, a princípio fingiu a nossa fé, por complacência e lisonja para com o povo romano. Por isso ordenou aos seus súditos que cessassem de perseguir os cristãos, simulando religião para parecer misericordioso e brando acima dos seus predecessores.

2. Mas não se mostrou nas obras a pessoa que se esperava; ao contrário, lançou-se a toda maldade e não se absteve de nenhuma impureza ou devassidão, cometendo adultérios e entregando-se a toda espécie de corrupção. Pois, separando esposas dos seus legítimos maridos, abusava delas e as devolvia aos maridos da maneira mais desonrosa. E praticava isso não só contra os obscuros e desconhecidos, mas ultrajava especialmente os membros mais eminentes e distintos do senado romano.

3. Todos os seus súditos, povo e magistrados, honrados e obscuros, eram consumidos por uma opressão penosa. E, embora se mantivessem quietos e suportassem a amarga servidão, não havia alívio algum da crueldade assassina do tirano. Certa vez, sob um pequeno pretexto, entregou o povo para ser massacrado pelos seus guardas; e uma grande multidão da população romana foi morta no meio da cidade, com as lanças e as armas não de citas e bárbaros, mas dos seus próprios concidadãos.

4. Seria impossível contar o número de senadores que foram mortos por causa da sua riqueza, sendo multidões assassinadas sob vários pretextos.

5. Para coroar toda a sua maldade, o tirano recorreu à magia. E, nas suas adivinhações, abria o ventre de mulheres grávidas e ainda examinava as entranhas de recém-nascidos. Matava leões e praticava diversos atos execráveis para invocar demônios e afastar a guerra. Pois a sua única esperança era que, por esses meios, a vitória lhe estaria assegurada.

6. É impossível dizer as maneiras pelas quais esse tirano em Roma oprimia os seus súditos, de modo que foram reduzidos a uma escassez tão extrema das coisas necessárias à vida como nunca se conheceu, segundo os nossos contemporâneos, nem em Roma nem em outro lugar.

7. Mas Maximino, o tirano do Oriente, tendo formado secretamente uma aliança de amizade com o tirano romano, como com um irmão na maldade, procurou ocultá-la por muito tempo. Mas, sendo por fim descoberto, sofreu o castigo merecido.

8. Era admirável quanto ele se parecia em maldade com o tirano de Roma, ou antes quanto o ultrapassava nela. Pois os principais feiticeiros e magos eram por ele honrados com a mais alta posição. Tornando-se extremamente medroso e supersticioso, dava grande valor ao erro dos ídolos e dos demônios. De fato, sem adivinhos e oráculos não se atrevia a mover nem um dedo, por assim dizer.

9. Por isso nos perseguiu com mais violência e sem trégua que os seus predecessores. Mandou levantar templos em cada cidade e restaurar sem demora os bosques sagrados que tinham sido destruídos com o passar do tempo. Nomeou sacerdotes de ídolos em cada lugar e cidade; e pôs sobre eles, em cada província, como sumo sacerdote, algum funcionário político que se tivesse distinguido especialmente em toda espécie de serviço, dando-lhe um destacamento de soldados e uma guarda pessoal. E a todos os charlatães, como se fossem piedosos e amados dos deuses, concedeu governos e os maiores privilégios.

10. Daí em diante afligiu e atormentou não uma cidade ou região, mas todas as províncias sob a sua autoridade, com exigências extremas de ouro, prata e bens, e com processos penosíssimos e multas diversas. Tirava dos ricos os bens que tinham herdado dos antepassados e concedia vastas riquezas e grandes somas de dinheiro aos bajuladores que o cercavam.

11. E chegou a tal excesso de insensatez e embriaguez que a sua mente se perturbava e enlouquecia nas suas orgias; e, embriagado, dava ordens de que depois, sóbrio, se arrependia. Não deixava ninguém ultrapassá-lo em devassidão e libertinagem, mas fez-se mestre de maldade para os que o cercavam, tanto magistrados como súditos. Incitava o exército a viver dissolutamente em toda espécie de folia e intemperança, e encorajava os governadores e generais a abusar dos súditos com rapina e cobiça, quase como se fossem governantes com ele.

12. Por que precisamos relatar os atos licenciosos e desavergonhados desse homem, ou enumerar a multidão das mulheres com quem cometeu adultério? Pois não conseguia passar por uma cidade sem estar continuamente corrompendo mulheres e violentando virgens.

13. E nisso foi bem-sucedido com todos, exceto os cristãos. Pois, como desprezavam a morte, não faziam caso nenhum do seu poder. Pois os homens suportaram o fogo e a espada, a crucificação e as feras, as profundezas do mar, o corte de membros, as queimaduras, as perfurações e o arrancamento dos olhos e as mutilações do corpo inteiro, e, além disso, a fome, as minas e as cadeias. Em tudo mostraram paciência pela religião, antes que transferir aos ídolos a reverência devida a Deus.

14. E as mulheres não foram menos viris que os homens em favor do ensino da Palavra divina, pois sustentaram combates com os homens e levaram prêmios iguais de virtude. E, quando eram arrastadas para fins corruptos, entregavam antes a vida à morte que o corpo à impureza.

15. Somente uma das que foram apanhadas pelo tirano para fins adúlteros, uma cristã muito distinta e ilustre de Alexandria, venceu a alma apaixonada e intemperante de Maximino com firmeza heroica. Honrada pela riqueza, pela família e pela educação, considerava tudo isso inferior à castidade. Ele a instou muitas vezes; mas, embora ela estivesse pronta para morrer, ele não pôde matá-la, pois o seu desejo era mais forte que a sua ira.

16. Por isso a castigou com o exílio e lhe tomou todos os bens. Muitas outras, incapazes até de ouvir as ameaças de violação por parte dos governantes pagãos, suportaram toda forma de torturas, estiramentos e castigos mortais.

Essas, sem dúvida, devem ser admiradas. Mas de longe a mais admirável foi aquela mulher de Roma, verdadeiramente a mais nobre e a mais casta de todas, de quem o tirano Maxêncio, em tudo semelhante a Maximino nas suas ações, tentou abusar.

17. Pois, quando soube que os que serviam o tirano em tais assuntos estavam na casa (ela também era cristã) e que o seu marido, embora prefeito de Roma, permitiria que a tomassem e a levassem, pediu um pouco de tempo para adornar o corpo, entrou no seu quarto e, estando sozinha, apunhalou-se com uma espada. Morrendo imediatamente, deixou o cadáver aos que tinham vindo buscá-la. E pelos seus atos, com mais força que por quaisquer palavras, mostrou a todos os homens, agora e no futuro, que a virtude que prevalece entre os cristãos é a única posse invencível e indestrutível.

18. Tal foi a carreira de maldade levada adiante ao mesmo tempo pelos dois tiranos que dominavam o Oriente e o Ocidente. Quem hesitaria, depois de exame cuidadoso, em declarar que a perseguição contra nós foi a causa de tais males? Sobretudo porque essa extrema confusão dos negócios não cessou enquanto os cristãos não obtiveram liberdade.

Capítulo XV. Os acontecimentos que sobrevieram aos pagãos

1. Durante os dez anos inteiros da perseguição, eles estavam constantemente conspirando e guerreando uns contra os outros. Pois não se podia navegar no mar, nem os homens podiam zarpar de porto algum sem ficarem expostos a toda espécie de ultrajes, sendo esticados no cavalete e dilacerados nos flancos, para que se averiguasse por meio de várias torturas se vinham do inimigo; e por fim eram submetidos ao castigo da cruz ou do fogo.

2. Além dessas coisas, preparavam-se escudos e couraças, aprontavam-se dardos, lanças e outros apetrechos de guerra, e reuniam-se galeras e armamento naval em todo lugar. E ninguém esperava outra coisa senão ser atacado pelos inimigos a qualquer dia. Além disso, sobrevieram-lhes a fome e a peste, a respeito das quais relataremos o necessário no lugar próprio.

Capítulo XVI. A mudança dos acontecimentos para melhor

1. Tal foi o estado das coisas durante toda a perseguição. Mas no décimo ano, pela graça de Deus, ela cessou inteiramente, tendo começado a diminuir depois do oitavo ano. Pois, quando a graça divina e celestial nos mostrou o seu cuidado favorável e propício, então de fato os nossos governantes, e as próprias pessoas por quem a guerra contra nós fora movida com empenho, mudaram de pensamento da maneira mais notável, publicaram uma revogação e extinguiram o grande fogo da perseguição que se acendera, por meio de proclamações e ordenanças misericordiosas a nosso respeito.

2. Mas isso não se deveu a nenhuma ação humana, nem foi resultado, como alguém poderia dizer, da compaixão ou da filantropia dos nossos governantes. Longe disso, pois diariamente, desde o começo até aquele tempo, eles tramavam medidas cada vez mais severas contra nós e inventavam continuamente ultrajes com uma variedade cada vez maior de instrumentos. Deveu-se manifestamente ao cuidado da Providência divina, que, de um lado, se reconciliava com o seu povo e, de outro, atacava aquele que instigara esses males e mostrava ira contra ele, como autor das crueldades de toda a perseguição.

3. Pois, embora fosse necessário que essas coisas acontecessem segundo o juízo divino, a Palavra diz: “Ai daquele por meio de quem vem o escândalo” (Mt 18.7). Por isso o castigo de Deus veio sobre ele, começando pela sua carne e passando à sua alma.

4. Pois de repente apareceu um abscesso no meio das partes íntimas do seu corpo e, a partir dele, uma úlcera profundamente perfurada, que se espalhou irresistivelmente até as entranhas mais interiores. Uma multidão indescritível de vermes brotava delas, e exalava-se um odor de morte, pois toda a massa do seu corpo, por causa da sua glutonaria, se convertera, antes da doença, numa massa excessiva de gordura mole, que apodreceu e assim apresentava um espetáculo horrível e intolerável aos que se aproximavam.

5. Alguns dos médicos, totalmente incapazes de suportar o extremo mau cheiro do odor, foram mortos; outros, como a massa inteira inchara e passara além de toda esperança de cura, e eles não conseguiam prestar nenhum socorro, foram executados sem misericórdia.

Capítulo XVII. A revogação dos soberanos

1. Lutando com tantos males, ele pensou nas crueldades que cometera contra os piedosos. Voltando, pois, os pensamentos para si mesmo, primeiro confessou abertamente ao Deus do universo e depois, chamando os seus assistentes, ordenou que sem demora fizessem cessar a perseguição aos cristãos e, por lei e decreto imperial, os incentivassem a construir as suas igrejas e a celebrar o seu culto costumeiro, oferecendo orações em favor do imperador. Imediatamente o ato seguiu a palavra.

2. Os decretos imperiais foram publicados nas cidades, contendo a revogação das medidas contra nós, na seguinte forma:

3. “O imperador César Galério Valério Maximino, Invicto, Augusto, Pontífice Máximo, vencedor dos germanos, vencedor dos egípcios, vencedor dos tebanos, cinco vezes vencedor dos sármatas, vencedor dos persas, duas vezes vencedor dos carpos, seis vezes vencedor dos armênios, vencedor dos medos, vencedor dos adiabenos, tribuno do povo pela vigésima vez, imperador pela décima nona vez, cônsul pela oitava vez, pai da pátria, procônsul;

4. e o imperador César Flávio Valério Constantino, Pio, Feliz, Invicto, Augusto, Pontífice Máximo, tribuno do povo, imperador pela quinta vez, cônsul, pai da pátria, procônsul;

5. e o imperador César Valério Licínio, Pio, Feliz, Invicto, Augusto, Pontífice Máximo, tribuno do povo pela quarta vez, imperador pela terceira vez, cônsul, pai da pátria, procônsul; aos povos das suas províncias, saudação:

6. “Entre as demais coisas que ordenamos para vantagem e proveito público, quisemos anteriormente restaurar tudo em conformidade com as antigas leis e a disciplina pública dos romanos, e providenciar para que também os cristãos, que abandonaram a religião dos seus antepassados, voltassem a uma boa disposição.

7. Pois, de algum modo, tal arrogância se apoderou deles e tal estupidez os dominou, que não seguiam as antigas instituições que talvez os seus próprios antepassados tivessem outrora estabelecido, mas faziam para si leis segundo o seu próprio propósito, como cada um desejava, e as observavam, e assim se reuniam como congregações separadas em diversos lugares.

8. Quando publicamos este decreto, para que voltassem às instituições estabelecidas pelos antigos, muitíssimos se submeteram sob perigo, mas muitíssimos, sendo atormentados, suportaram toda espécie de morte.

9. E, visto que muitos continuam na mesma loucura, e percebemos que nem oferecem aos deuses celestes o culto devido, nem dão atenção ao Deus dos cristãos, em consideração da nossa filantropia e do nosso costume invariável, pelo qual costumamos estender o perdão a todos, determinamos que devemos estender de muito bom grado a nossa indulgência também neste assunto; que possam de novo ser cristãos e reconstruir os conventículos em que costumavam reunir-se, com a condição de que nada seja feito por eles contra a disciplina. Em outra carta indicaremos aos magistrados o que devem observar.

10. Por isso, em razão desta nossa indulgência, devem suplicar ao seu Deus pela nossa segurança, pela do povo e pela sua própria, para que o bem-estar público seja preservado em todo lugar e para que possam viver em segurança nos seus lares.”

11. Tal é o teor deste édito, traduzido, tanto quanto possível, da língua romana para o grego. É tempo de considerar o que aconteceu depois desses acontecimentos.

O que segue se encontra em algumas cópias no oitavo livro.

1. O autor do édito, muito pouco depois dessa confissão, foi libertado das suas dores e morreu. Conta-se que ele foi o autor original da desgraça da perseguição, tendo procurado, muito antes do movimento dos outros imperadores, desviar da fé os cristãos do exército, e antes de todos os da sua própria casa, degradando uns da patente militar, ultrajando outros da maneira mais vergonhosa e ameaçando ainda outros de morte, e por fim incitando os seus parceiros no império à perseguição geral. Não convém passar em silêncio a morte desses imperadores.

2. Como quatro deles detinham a autoridade suprema, os que eram avançados em idade e em honra, depois que a perseguição durara pouco menos de dois anos, abdicaram do governo, como já dissemos, e passaram o resto da vida numa condição comum e privada.

3. O fim da vida deles foi o seguinte. O que era primeiro em honra e em idade pereceu por uma longa e penosíssima enfermidade física. O que ocupava o segundo lugar terminou a vida estrangulado, sofrendo assim segundo certa predição demoníaca, por causa dos seus muitos crimes ousados.

4. Dos que vieram depois deles, o último, de quem falamos como o originador de toda a perseguição, sofreu as coisas que relatamos. Mas aquele que o precedia, o misericordiosíssimo e bondosíssimo imperador Constâncio, passou todo o tempo do seu governo de maneira digna do seu cargo. Além disso, conduziu-se para com todos da maneira mais favorável e benéfica. Não tomou a menor parte na guerra contra nós e conservou ilesos e sem ultraje os piedosos que estavam sob ele. Não derrubou os edifícios das igrejas, nem tramou coisa alguma contra nós. O fim da sua vida foi feliz e três vezes bem-aventurado. Somente ele, ao morrer, deixou o seu império, feliz e gloriosamente, ao seu próprio filho como sucessor, homem em tudo prudentíssimo e piedosíssimo. Este assumiu imediatamente o governo, proclamado imperador supremo e augusto pelos soldados;

5. e mostrou-se imitador da piedade do pai para com a nossa doutrina. Tais foram as mortes dos quatro de quem escrevemos, que ocorreram em tempos diferentes.

6. Destes, além disso, somente aquele a que nos referimos um pouco acima, com os que depois participaram do governo, publicou por fim abertamente a todos a confissão mencionada acima, no édito escrito que expediu.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.