Eusébio, História Eclesiástica · Os Mártires da Palestina

Os Mártires da Palestina

O relato de Eusébio, testemunha ocular, sobre os mártires da Palestina na Grande Perseguição, ano após ano, de Procópio aos últimos confessores, entre eles o seu mestre Pânfilo.

O que segue também encontramos numa cópia do oitavo livro

Foi no décimo nono ano do reinado de Diocleciano, no mês Xântico, que os romanos chamam abril, por volta da festa da paixão de nosso Salvador, sendo Flaviano governador da província da Palestina, que se publicaram por toda parte cartas que mandavam arrasar as igrejas até o chão e destruir as Escrituras pelo fogo, e ordenavam que os que ocupavam cargos de honra fossem rebaixados e que os servos domésticos, se persistissem na profissão do cristianismo, fossem privados da liberdade.

Tal foi a força do primeiro édito contra nós. Mas não muito depois foram expedidas outras cartas, que mandavam que todos os bispos das igrejas, em toda parte, fossem primeiro lançados na prisão e depois, por todo tipo de artifício, obrigados a sacrificar.

Capítulo I

1. O primeiro dos mártires da Palestina foi Procópio. Antes de passar pela prova da prisão, logo em sua primeira apresentação ao tribunal do governador, recebeu ordem de sacrificar aos chamados deuses e declarou que conhecia um só a quem convinha sacrificar, do modo como ele mesmo quer. Mas, quando lhe mandaram oferecer libações aos quatro imperadores, citou uma sentença que os desagradou e foi imediatamente decapitado. A citação era do poeta: “Não é bom o governo de muitos; haja um só governante e um só rei.”

2. Era o sétimo dia do mês Désio, o sétimo antes dos idos de junho, segundo a contagem dos romanos, e o quarto dia da semana, quando se deu esse primeiro exemplo em Cesareia da Palestina.

3. Depois, na mesma cidade, muitos dirigentes das igrejas do campo suportaram de boa vontade sofrimentos terríveis e ofereceram aos que os viam um exemplo de nobres combates. Outros, porém, com o espírito entorpecido pelo terror, enfraqueceram facilmente ao primeiro ataque. Dos demais, cada um suportou formas diferentes de tortura: açoites sem conta, o cavalete, dilaceramentos dos flancos e grilhões insuportáveis, pelos quais as mãos de alguns foram deslocadas.

4. Ainda assim suportaram o que lhes sobreveio, como estando de acordo com os desígnios insondáveis de Deus. Pois de um agarraram as mãos e o levaram ao altar, enquanto lhe metiam na mão direita a oferenda poluída e abominável, e o despediram como se tivesse sacrificado. Outro nem sequer a tocara, mas, quando outros disseram que ele tinha sacrificado, retirou-se em silêncio. Outro, recolhido meio morto, foi lançado de lado como se já estivesse morto, solto das correntes e contado entre os que sacrificaram. Quando outro gritou e declarou que não obedeceria, foi golpeado na boca e silenciado por um grande bando de homens postados para isso, e expulso à força, embora não tivesse sacrificado. Tanta importância davam a parecer, de qualquer modo, ter alcançado o seu propósito.

5. Por isso, de todo esse número, os únicos honrados com a coroa dos santos mártires foram Alfeu e Zaqueu. Depois de chicotadas, raspagens, correntes pesadas, torturas adicionais e várias outras provas, e depois de terem os pés esticados por uma noite e um dia sobre quatro furos do cepo, no décimo sétimo dia do mês Dio (isto é, segundo os romanos, o décimo quinto antes das calendas de dezembro), tendo confessado um só Deus e a Cristo Jesus como rei, como se tivessem proferido alguma blasfêmia, foram decapitados como o mártir anterior.

Capítulo II

1. O que aconteceu a Romano no mesmo dia, em Antioquia, também é digno de registro. Ele era natural da Palestina, diácono e exorcista da igreja de Cesareia. Estando presente à destruição das igrejas, viu muitos homens, com mulheres e crianças, subindo em multidões aos ídolos e sacrificando. Mas, por seu grande zelo pela religião, não pôde suportar aquela visão e os repreendeu em alta voz.

2. Preso por sua ousadia, mostrou-se uma das mais nobres testemunhas da verdade, se alguma vez houve uma. Pois, quando o juiz lhe comunicou que havia de morrer pelo fogo, recebeu a sentença com semblante alegre e ânimo muito pronto, e foi levado. Quando o amarraram à estaca e empilharam a lenha ao seu redor, enquanto esperavam a chegada do imperador para acender o fogo, ele exclamou: “Onde está o fogo para mim?”

3. Dito isso, foi chamado de novo à presença do imperador e submetido à tortura incomum de ter a língua cortada. Mas suportou isso com fortaleza e mostrou a todos, por seus atos, que o Poder divino está presente com os que suportam qualquer sofrimento pela religião, aliviando suas dores e fortalecendo seu zelo. Quando soube desse estranho modo de castigo, o nobre homem não se aterrorizou, mas pôs a língua para fora prontamente e a ofereceu com a maior presteza aos que a cortaram.

4. Depois desse castigo foi lançado na prisão e ali sofreu por muitíssimo tempo. Por fim, estando próximo o vigésimo aniversário do imperador, quando, segundo um costume benevolente estabelecido, se proclamava por toda parte a liberdade a todos os que estavam presos, só ele teve ambos os pés esticados sobre cinco furos do cepo e, deitado ali, foi estrangulado. Assim foi honrado com o martírio, como desejava.

5. Embora estivesse fora de sua terra, convém contá-lo entre os mártires palestinos, por ser natural da Palestina. Essas coisas se deram desse modo durante o primeiro ano, quando a perseguição se dirigia só contra os dirigentes da Igreja.

Capítulo III

1. No decorrer do segundo ano, a perseguição contra nós aumentou muito. Sendo então Urbano governador da província, foram-lhe enviados pela primeira vez éditos imperiais que mandavam, por decreto geral, que todo o povo, nas diversas cidades, sacrificasse de uma vez e oferecesse libações aos ídolos.

Em Gaza, cidade da Palestina, Timóteo suportou incontáveis torturas e depois foi submetido a um fogo lento e brando. Tendo dado, por sua paciência em todos os sofrimentos, a prova mais genuína da mais sincera piedade para com a Divindade, levou a coroa dos atletas vitoriosos da religião. Ao mesmo tempo, Agápio e nossa contemporânea Tecla, tendo mostrado a mais nobre constância, foram condenados a servir de alimento às feras.

2. Mas quem, vendo essas coisas, não as teria admirado, ou, ouvindo falar delas, não teria ficado assombrado? Pois, quando os pagãos em toda parte celebravam uma festa e os espetáculos de costume, espalhou-se o rumor de que, além dos outros divertimentos, haveria também o combate público dos que pouco antes tinham sido condenados às feras.

3. Crescendo esse rumor e espalhando-se em todas as direções, seis jovens, a saber, Timolau, natural do Ponto, Dionísio, de Trípoli da Fenícia, Rômulo, subdiácono da igreja de Dióspolis, Pésis e Alexandre, ambos egípcios, e outro Alexandre, de Gaza, depois de amarrarem as próprias mãos, foram às pressas até Urbano, que estava para abrir o espetáculo, mostrando grande zelo pelo martírio. Confessaram que eram cristãos e, pela ambição de enfrentar todas as coisas terríveis, mostraram que os que se gloriam na religião do Deus do universo não se encolhem diante dos ataques das feras.

4. Logo, depois de causarem assombro nada comum no governador e nos que estavam com ele, foram lançados na prisão. Alguns dias depois, mais dois lhes foram acrescentados. Um deles, chamado Agápio, já suportara, em confissões anteriores, tormentos terríveis de vários tipos. O outro, que lhes fornecia o necessário para a vida, chamava-se Dionísio. Todos esses oito foram decapitados num só dia em Cesareia, no vigésimo quarto dia do mês Distro, que é o nono antes das calendas de abril.

5. Nesse meio-tempo, houve uma mudança nos imperadores: o primeiro de todos em dignidade e o segundo retiraram-se para a vida privada, e os negócios públicos começaram a se perturbar.

6. Pouco depois, o governo romano dividiu-se contra si mesmo e surgiu entre eles uma guerra cruel. E essa divisão, com as perturbações que dela nasceram, não se resolveu até que a paz para conosco fosse estabelecida em todo o Império Romano.

7. Pois, quando essa paz surgiu para todos, como a luz do dia depois da noite mais escura e sombria, os negócios públicos do governo romano foram restabelecidos e tornaram-se felizes e pacíficos, e reviveu a boa vontade ancestral de uns para com os outros. Mas relataremos essas coisas mais por extenso no tempo próprio. Agora voltemos à sequência regular dos acontecimentos.

Capítulo IV

1. Maximino César, tendo chegado então ao governo, como para manifestar a todos as provas de sua inimizade inata contra Deus e de sua impiedade, armou-se para a perseguição contra nós com mais vigor que seus predecessores.

2. Em consequência, surgiu não pouca confusão entre todos, que se dispersaram para cá e para lá, procurando de algum modo escapar ao perigo, e houve grande agitação em toda parte. Mas que palavras bastariam para descrever devidamente o amor divino e a ousadia em confessar a Deus do bem-aventurado e verdadeiramente inocente cordeiro (refiro-me ao mártir Afiano), que apresentou à vista de todos, diante das portas de Cesareia, um exemplo admirável de piedade para com o único Deus?

3. Ele não tinha ainda vinte anos. Antes passara muito tempo em Berito, por causa de uma educação grega secular, pois pertencia a uma família muito rica. É admirável contar como, numa cidade como aquela, ele se mostrou superior às paixões juvenis e se apegou à virtude, sem se deixar corromper nem por seu vigor corporal nem por seus jovens companheiros, vivendo com discrição, sobriedade e piedade, de acordo com sua profissão da doutrina cristã e com a vida de seus mestres.

4. Se é preciso mencionar sua terra natal e honrá-la por ter produzido esse nobre atleta da piedade, nós o faremos com prazer.

5. O jovem vinha de Pagas (se alguém conhece o lugar), cidade da Lícia de não pouca importância. Depois de voltar de seus estudos em Berito, embora seu pai ocupasse o primeiro lugar em sua terra, não suportava viver com ele e com seus parentes, porque não lhes agradava viver segundo as regras da religião. Por isso, como que conduzido pelo Espírito divino e de acordo com uma filosofia natural, ou antes inspirada e verdadeira, considerando-a preferível ao que se tem por glória da vida e desprezando os confortos do corpo, deixou secretamente a família. E, por causa de sua fé e esperança em Deus, sem se preocupar com suas necessidades diárias, foi conduzido pelo Espírito divino à cidade de Cesareia, onde lhe estava preparada a coroa do martírio pela piedade.

6. Permanecendo ali conosco, estudando conosco com diligência as divinas Escrituras por pouco tempo e preparando-se com zelo por exercícios adequados, teve um fim tal que assombraria qualquer um, se fosse visto outra vez.

7. Quem, ouvindo falar disso, não admiraria com justiça sua coragem, ousadia e constância, e, mais ainda, o próprio ato audacioso, que demonstrou um zelo pela religião e um espírito verdadeiramente sobre-humano?

8. Pois, no segundo ataque contra nós sob Maximino, no terceiro ano da perseguição, foram expedidos pela primeira vez éditos do tirano que mandavam que os governantes das cidades cuidassem, com diligência e rapidez, de que todo o povo oferecesse sacrifícios. Por toda a cidade de Cesareia, por ordem do governador, os arautos convocavam homens, mulheres e crianças aos templos dos ídolos; além disso, os quiliarcas chamavam cada um pelo nome a partir de uma lista, e uma multidão imensa de ímpios acorria de todos os lados. Então esse jovem, sem medo e sem que ninguém percebesse suas intenções, escapou tanto de nós, que morávamos na casa com ele, quanto de todo o destacamento de soldados que cercava o governador, e correu até Urbano no momento em que ele oferecia libações. Agarrando-lhe sem medo a mão direita, fez cessar de imediato o seu sacrifício e, com habilidade e persuasão, por certa inspiração divina, exortou-o a abandonar o seu engano, porque não era bom deixar o único e verdadeiro Deus e sacrificar a ídolos e demônios.

9. É provável que isso tenha sido feito pelo jovem por um poder divino que o impelia e que quase gritava em seu ato que os cristãos, os que verdadeiramente o eram, estavam tão longe de abandonar a religião do Deus do universo, que uma vez tinham abraçado, que não só eram superiores às ameaças e aos castigos que se seguiam, mas eram ainda mais ousados para falar com língua nobre e livre e, se possível, chamar até os seus perseguidores a se afastarem de sua ignorância e reconhecerem o único Deus verdadeiro.

10. Logo depois, aquele de quem falamos, e isso no mesmo instante, como era de esperar depois de um ato tão ousado, foi despedaçado pelo governador e pelos que estavam com ele como que por feras. E, tendo suportado varonilmente inúmeros golpes por todo o corpo, foi lançado de imediato na prisão.

11. Ali o carrasco o esticou com os dois pés no cepo durante uma noite e um dia; e no dia seguinte foi levado ao juiz. Enquanto procuravam forçá-lo a ceder, ele mostrou toda a constância sob sofrimentos e torturas terríveis. Seus flancos foram dilacerados, não uma vez nem duas, mas muitas vezes, até os ossos e as próprias entranhas; e recebeu tantos golpes no rosto e no pescoço que os que o conheciam bem havia muito tempo não conseguiam reconhecer seu rosto inchado.

12. Mas, como ele não cedia sob esse tratamento, os torturadores, conforme a ordem, cobriram-lhe os pés com panos de linho embebidos em óleo e atearam-lhes fogo. Nenhuma palavra pode descrever as agonias que o bem-aventurado suportou com isso. Pois o fogo consumiu sua carne e penetrou até os ossos, de modo que os humores de seu corpo se derreteram, escorreram e gotejaram como cera.

13. Mas, como nem com isso foi vencido, seus adversários, derrotados e incapazes de compreender sua constância sobre-humana, lançaram-no de novo na prisão. Pela terceira vez foi levado ao juiz; e, tendo dado testemunho da mesma confissão, já meio morto, foi por fim lançado nas profundezas do mar.

14. Mas o que aconteceu logo depois disso dificilmente será crido pelos que não o viram. Embora o saibamos, temos de registrar o acontecimento, do qual, para falar com franqueza, todos os habitantes de Cesareia foram testemunhas. Pois na verdade não houve idade que não visse esse espetáculo maravilhoso.

15. Pois, assim que lançaram esse jovem verdadeiramente sagrado e três vezes bem-aventurado nas profundezas sem fundo do mar, uma agitação e perturbação incomuns sacudiram o mar e toda a praia ao redor, de modo que a terra e a cidade inteira foram abaladas. E, ao mesmo tempo que essa perturbação admirável e repentina, o mar lançou diante das portas da cidade o corpo do divino mártir, como se não pudesse suportá-lo.

Tal foi a morte do admirável Afiano. Ocorreu no segundo dia do mês Xântico, que é o quarto dia antes das nonas de abril, no dia da preparação.

Capítulo V

1. Por volta do mesmo tempo, na cidade de Tiro, um jovem chamado Ulpiano, depois de torturas terríveis e açoites severíssimos, foi encerrado num couro de boi cru, com um cão e com um daqueles répteis venenosos, uma áspide, e lançado ao mar. Por isso penso que convém mencioná-lo junto com o martírio de Afiano.

2. Pouco depois, Edésio, irmão de Afiano não só em Deus mas também na carne, sendo filho do mesmo pai terreno, suportou sofrimentos semelhantes aos dele, depois de muitíssimas confissões e prolongadas torturas em cadeias, e depois de ter sido condenado pelo governador às minas da Palestina. Em tudo isso portou-se de modo verdadeiramente filosófico, pois era mais instruído que o irmão e tinha feito estudos filosóficos.

3. Por fim, na cidade de Alexandria, vendo o juiz que julgava os cristãos ultrapassar todos os limites, ora insultando homens santos de várias maneiras, ora entregando mulheres da maior modéstia, e até virgens consagradas, a alcoviteiros para tratamento vergonhoso, agiu como o irmão. Como essas coisas lhe pareciam insuportáveis, avançou com ousada resolução e, com palavras e atos, cobriu o juiz de vergonha e desonra. Depois de sofrer por isso muitas formas de tortura, teve uma morte semelhante à do irmão, sendo lançado ao mar. Mas essas coisas, como eu disse, aconteceram-lhe desse modo um pouco mais tarde.

Capítulo VI

1. No quarto ano da perseguição contra nós, no décimo segundo dia antes das calendas de dezembro, que é o vigésimo dia do mês Dio, na véspera do sábado, estando presente o tirano Maximino e oferecendo espetáculos magníficos em honra do seu aniversário, ocorreu na cidade de Cesareia o seguinte acontecimento, verdadeiramente digno de registro.

2. Como era costume antigo oferecer aos espectadores espetáculos mais esplêndidos quando os imperadores estavam presentes do que em outras ocasiões, com espetáculos novos e estrangeiros tomando o lugar dos divertimentos habituais, como animais trazidos da Índia, da Etiópia ou de outros lugares, ou homens capazes de assombrar os espectadores com hábeis exercícios corporais, era preciso desta vez, já que o imperador oferecia o espetáculo, acrescentar algo mais admirável. E o que haveria de ser?

3. Uma testemunha de nossa doutrina foi trazida para o meio e sustentou o combate pela verdadeira e única religião. Era Agápio, que, como dissemos um pouco acima, foi, com Tecla, o segundo a ser lançado às feras como alimento. Ele também, três vezes e mais, marchara com malfeitores da prisão para a arena; e todas as vezes, depois de ameaças do juiz, fosse por compaixão, fosse na esperança de que mudasse de ideia, fora reservado para outros combates. Mas, estando presente o imperador, foi trazido para fora desta vez, como se tivesse sido reservado de propósito para essa ocasião, até que se cumprisse nele a própria palavra do Salvador, que, por conhecimento divino, declarou a seus discípulos que seriam levados à presença de reis por causa do testemunho deles a seu respeito (Mt 10.18).

4. Foi levado ao meio da arena com certo malfeitor que, diziam, era acusado de ter assassinado o seu senhor.

5. Mas esse assassino do seu senhor, depois de lançado às feras, foi julgado digno de compaixão e humanidade, quase como Barrabás no tempo de nosso Salvador. E o teatro inteiro ressoou com gritos e clamores de aprovação, porque o assassino foi salvo com humanidade pelo imperador e julgado digno de honra e liberdade.

6. Mas o atleta da religião foi primeiro chamado pelo tirano, que lhe prometeu a liberdade se negasse sua profissão. Ele, porém, testemunhou em alta voz que, não por culpa alguma, mas pela religião do Criador do universo, suportaria prontamente e com prazer tudo o que lhe fosse infligido.

7. Dito isso, juntou o ato à palavra e correu ao encontro de um urso que fora solto contra ele, entregando-se com a maior alegria para ser devorado pelo animal. Depois disso, como ainda respirava, foi lançado na prisão. E, vivendo ainda um dia, amarraram-lhe pedras aos pés e ele foi afogado nas profundezas do mar. Tal foi o martírio de Agápio.

Capítulo VII

1. De novo em Cesareia, tendo a perseguição continuado até o quinto ano, no segundo dia do mês Xântico, que é o quarto antes das nonas de abril, no próprio dia do Senhor, o da ressurreição de nosso Salvador, Teodósia, virgem de Tiro, moça fiel e serena, que ainda não tinha dezoito anos, aproximou-se de alguns presos que confessavam o reino de Cristo e estavam sentados diante do tribunal, saudou-os e, como é provável, pediu-lhes que se lembrassem dela quando chegassem diante do Senhor.

2. Logo depois, como se ela tivesse cometido um ato profano e ímpio, os soldados a prenderam e a levaram ao governador. E ele imediatamente, em sua ira, como um louco e uma fera, torturou-a com tormentos terríveis e pavorosíssimos nos flancos e nos seios, até os próprios ossos. E, como ela ainda respirava e, além disso, permanecia de pé com semblante alegre e radiante, mandou lançá-la às ondas do mar. Então, passando dela aos outros confessores, condenou todos eles às minas de cobre de Feno, na Palestina.

3. Depois, no quinto dia do mês Dio, nas nonas de novembro segundo os romanos, na mesma cidade, Silvano (que naquele tempo era presbítero e confessor, mas pouco depois foi honrado com o episcopado e morreu mártir) e os que estavam com ele, homens que tinham mostrado a mais nobre firmeza em favor da religião, foram por ele condenados a trabalhar nas mesmas minas de cobre, tendo-se primeiro dado ordem de que lhes inutilizassem os tornozelos com ferros em brasa.

4. Ao mesmo tempo entregou às chamas um homem ilustre por numerosas outras confissões. Era Domnino, bem conhecido de todos na Palestina por sua extraordinária coragem. Depois disso, o mesmo juiz, cruel artífice de sofrimentos e inventor de artimanhas contra a doutrina de Cristo, planejou contra os piedosos castigos nunca antes ouvidos. Condenou três a combate singular de pugilato. Entregou para ser devorado pelas feras Auxêncio, ancião respeitável e santo. A outros, que estavam na idade madura, fez eunucos e os condenou às mesmas minas. Ainda outros, depois de torturas severas, lançou na prisão.

Entre estes estava o meu amicíssimo Pânfilo, que por toda virtude foi o mais ilustre dos mártires do nosso tempo.

5. Urbano primeiro o pôs à prova em filosofia retórica e em erudição; depois procurou obrigá-lo a sacrificar. Mas, vendo que ele recusava e de modo algum fazia caso de suas ameaças, enfureceu-se muitíssimo e mandou que fosse atormentado com as torturas mais severas.

6. E o homem brutal, depois de quase se saciar com essas torturas, por meio de raspagens contínuas e prolongadas em seus flancos, vendo-se ainda assim coberto de vergonha diante de todos, pô-lo também na prisão com os confessores.

7. Mas que recompensa por sua crueldade para com os santos há de receber do juízo divino aquele que assim maltratou os mártires de Cristo, pode-se facilmente determinar pelos prelúdios desse juízo, no qual, imediatamente e não muito depois de suas ousadas crueldades contra Pânfilo, enquanto ainda exercia o governo, o juízo divino caiu sobre ele. Pois assim, de repente, aquele que ainda ontem julgava no alto tribunal, guardado por um destacamento de soldados e governando toda a nação da Palestina, o associado, o amicíssimo e o comensal do próprio tirano, foi despojado numa só noite e coberto de desonra e vergonha diante dos que antes o admiravam como se ele mesmo fosse imperador; e mostrou-se covarde e efeminado, soltando gritos de mulher e súplicas a todo o povo que governara. E o próprio Maximino, em cujo favor Urbano antes confiava para tanta insolência arrogante, como se o amasse sobremaneira por seus atos contra nós, foi posto nesta mesma Cesareia como juiz duro e severíssimo para pronunciar contra ele a sentença de morte, pela grande infâmia dos crimes de que foi convencido. Digamos isso de passagem.

8. Poderá vir um tempo oportuno em que tenhamos vagar para relatar o fim e a sorte daqueles ímpios que mais lutaram contra nós, tanto do próprio Maximino como dos que estavam com ele.

Capítulo VIII

1. Até o sexto ano a tempestade se desencadeara incessantemente contra nós. Antes desse tempo havia um número muito grande de confessores da religião na chamada pedreira de Pórfiro, na Tebaida, que tira o nome da pedra que ali se encontra. Destes, cem homens menos três, junto com mulheres e crianças pequenas, foram enviados ao governador da Palestina. Quando confessaram o Deus do universo e a Cristo, Firmiliano, que fora enviado para lá como governador no lugar de Urbano, determinou, conforme a ordem imperial, que fossem aleijados, queimando-se os tendões dos tornozelos do pé esquerdo, e que os olhos direitos, com as pálpebras e as pupilas, fossem primeiro extirpados e depois destruídos até as próprias raízes com ferros em brasa. E então os mandou às minas da província, para suportarem privações em trabalho duro e sofrimento.

2. Mas não bastou que só esses, que sofreram tais misérias, fossem privados dos olhos; também o foram aqueles naturais da Palestina que mencionamos pouco acima como condenados ao combate de pugilato, visto que não queriam receber alimento do celeiro real nem se submeter aos exercícios preparatórios necessários.

3. Levados por esse motivo não só diante dos supervisores, mas também diante do próprio Maximino, e tendo mostrado a mais nobre perseverança na confissão, suportando a fome e os açoites, receberam castigo igual ao daqueles que mencionamos, e com eles outros confessores na cidade de Cesareia.

4. Logo depois, outros que se tinham reunido para ouvir a leitura das Escrituras foram presos em Gaza; e alguns suportaram os mesmos sofrimentos nos pés e nos olhos, mas outros foram afligidos com tormentos ainda maiores e com as mais terríveis torturas nos flancos.

5. Uma dessas, mulher no corpo mas homem no entendimento, não suportou a ameaça de fornicação e falou abertamente contra o tirano que confiava o governo a juízes tão cruéis. Primeiro foi açoitada; depois, erguida no alto do poste, teve os flancos dilacerados.

6. Enquanto os encarregados disso aplicavam as torturas sem cessar e com severidade, por ordem do juiz, outra, com o pensamento fixo, como a primeira, na virgindade como sua meta (mulher de figura de todo insignificante e de aparência desprezível, mas, por outro lado, forte de alma e dotada de um entendimento superior ao seu corpo), não podendo suportar aqueles atos impiedosos, cruéis e desumanos, com uma ousadia maior que a dos combatentes famosos entre os gregos, gritou ao juiz do meio da multidão: “E até quando você vai torturar assim cruelmente a minha irmã?” Mas ele se enfureceu muito e mandou que a mulher fosse presa imediatamente.

7. Então ela foi trazida à frente e, tendo-se chamado pelo augusto nome do Salvador, foi primeiro instada com palavras a sacrificar; e, como recusou, foi arrastada à força até o altar. Mas sua irmã continuou a manter o zelo anterior e, com pé intrépido e resoluto, deu um pontapé no altar e o derrubou com o fogo que estava sobre ele.

8. Então o juiz, enfurecido como uma fera, infligiu-lhe nos flancos torturas tais como nunca infligira a ninguém antes, procurando quase fartar-se de sua carne crua. Mas, quando sua loucura se saciou, amarrou as duas juntas, esta e aquela a quem ela chamava irmã, e as condenou à morte pelo fogo. Diz-se que a primeira delas era da região de Gaza; a outra, chamada Valentina, era de Cesareia e bem conhecida de muitos.

9. Mas como poderei descrever como merece o martírio que se seguiu, com o qual foi honrado o três vezes bem-aventurado Paulo? Ele foi condenado à morte ao mesmo tempo que elas, por uma só sentença. Na hora do seu martírio, quando o carrasco estava para lhe cortar a cabeça, pediu um breve intervalo.

10. Concedido este, primeiro, com voz clara e distinta, suplicou a Deus em favor de seus irmãos cristãos, pedindo perdão para eles e que logo lhes fosse restituída a liberdade. Depois pediu a conversão dos judeus a Deus por meio de Cristo; e, prosseguindo em ordem, pediu o mesmo para os samaritanos e suplicou que os gentios que estavam no erro e ignoravam a Deus chegassem ao conhecimento dele e adotassem a verdadeira religião. Nem deixou esquecida a multidão misturada que estava ao redor.

11. Depois de todos esses (oh, grande e indizível paciência!), suplicou ao Deus do universo pelo juiz que o condenara à morte, pelos mais altos governantes e também por aquele que estava para decapitá-lo, ouvindo ele e todos os presentes, rogando que o pecado deles contra ele não lhes fosse imputado.

12. Tendo pedido essas coisas em alta voz, e tendo levado quase todos à compaixão e às lágrimas, como quem morria injustamente, preparou-se por vontade própria, ofereceu o pescoço nu ao golpe da espada e foi adornado com o divino martírio. Isso aconteceu no vigésimo quinto dia do mês Panemo, que é o oitavo antes das calendas de agosto.

13. Tal foi o fim dessas pessoas. Mas não muito depois, cento e trinta admiráveis atletas da confissão de Cristo, da terra do Egito, sofreram no próprio Egito, por ordem de Maximino, as mesmas aflições nos olhos e nos pés que os anteriores, e foram enviados às minas da Palestina mencionadas acima. Alguns deles, porém, foram condenados às minas da Cilícia.

Capítulo IX

1. Depois de tão nobres feitos dos insignes mártires de Cristo, a chama da perseguição diminuiu e se extinguiu, como que pelo sangue sagrado deles; concederam-se alívio e liberdade aos que, por amor de Cristo, trabalhavam nas minas da Tebaida, e por pouco tempo começávamos a respirar ar puro.

2. Mas, por algum impulso novo, não sei qual, aquele que tinha o poder de perseguir voltou a se levantar contra os cristãos. Imediatamente se publicaram por toda parte, em todas as províncias, cartas de Maximino contra nós. Os governadores e o prefeito militar, por éditos, cartas e ordenações públicas, pressionavam os magistrados, os generais e os notários de todas as cidades a cumprir o decreto imperial. Este ordenava que os altares dos ídolos fossem reconstruídos com toda a pressa; que todos, homens, mulheres e crianças, até as de peito, sacrificassem e fizessem oblações; que com diligência e cuidado os fizessem provar das oferendas execráveis; que as coisas à venda no mercado fossem contaminadas com libações dos sacrifícios; e que se pusessem guardas diante dos banhos, para contaminar com os sacrifícios abomináveis os que iam lavar-se neles.

3. Quando essas ordens estavam sendo cumpridas, os nossos, como era natural, ficaram no começo muito angustiados; e até os pagãos incrédulos censuravam a severidade e o extremo absurdo do que se fazia, pois essas coisas lhes pareciam excessivas e pesadas.

4. Pairando sobre todos, em toda parte, a mais pesada tempestade, o poder divino de nosso Salvador infundiu de novo tal ousadia em seus atletas que, sem que ninguém os atraísse ou arrastasse, desprezaram as ameaças. Três dos fiéis, juntando-se, lançaram-se sobre o governador quando ele sacrificava aos ídolos e lhe gritaram que cessasse de seu engano, pois não há outro Deus além do Autor e Criador do universo. Quando ele perguntou quem eram, confessaram com ousadia que eram cristãos.

5. Então Firmiliano, muito enfurecido, condenou-os à pena capital sem lhes infligir torturas. O nome do mais velho deles era Antonino; o do seguinte, Zebinas, natural de Eleuterópolis; e o do terceiro, Germano. Isso aconteceu no décimo terceiro dia do mês Dio, os idos de novembro.

6. Juntou-se a eles no mesmo dia Enata, mulher de Citópolis, adornada com a grinalda da virgindade. Ela não fez, na verdade, como eles tinham feito, mas foi arrastada à força e levada ao juiz.

7. Suportou açoites e insultos cruéis, que Máxis, tribuno de um distrito vizinho, sem o conhecimento da autoridade superior, ousou infligir-lhe. Era um homem pior que o seu nome, sanguinário em tudo o mais, extremamente duro e de todo cruel, e censurado por todos os que o conheciam. Esse homem despojou a bem-aventurada mulher de todas as suas roupas, de modo que ficou coberta só da cintura aos pés e o resto do corpo ficou nu. E levou-a por toda a cidade de Cesareia, tendo por grande coisa açoitá-la com correias enquanto ela era arrastada por todas as praças.

8. Depois de tal tratamento, ela mostrou a mais nobre constância no tribunal do próprio governador; e o juiz a condenou a ser queimada viva. Ele levou também sua fúria contra os piedosos ao ponto mais desumano e transgrediu as leis da natureza, não se envergonhando nem de negar sepultura aos corpos sem vida dos homens sagrados.

9. Assim, mandou que os mortos fossem expostos ao ar livre como alimento para as feras e vigiados cuidadosamente noite e dia. Durante muitos dias um grande número de homens se ocupou desse decreto selvagem e bárbaro. E vigiavam de seu posto de observação, como se fosse coisa digna de cuidado, para que os cadáveres não fossem roubados. E feras, cães e aves de rapina espalhavam os membros humanos para cá e para lá, e a cidade inteira ficou juncada de entranhas e ossos humanos,

10. de modo que nada jamais parecera mais terrível e horrendo, até para os que antes nos odiavam; embora eles lamentassem não tanto a desgraça daqueles contra quem essas coisas eram feitas quanto o ultraje contra eles mesmos e contra a natureza comum do homem.

11. Pois se via perto das portas um espetáculo além de toda descrição e de toda narração trágica; pois não só se devorava carne humana num lugar, mas ela estava espalhada por todo lugar, de modo que alguns diziam que membros, pedaços de carne e partes de entranhas se viam até dentro das portas.

12. Depois que essas coisas continuaram por muitos dias, ocorreu um fato admirável. O ar estava limpo e claro e o aspecto do céu, muito sereno. De repente, por toda a cidade, das colunas que sustentavam os pórticos públicos caíram muitas gotas como lágrimas; e as praças e ruas, embora não houvesse névoa no ar, ficaram molhadas com água aspergida, não sei de onde. Então imediatamente se espalhou por toda parte que a terra, incapaz de suportar a abominação daquelas coisas, derramara lágrimas de modo misterioso; e que, como repreensão à natureza implacável e insensível dos homens, as pedras e a madeira sem vida tinham chorado pelo que acontecera. Sei bem que esse relato talvez pareça vão e fabuloso aos que vierem depois de nós, mas não àqueles a quem a verdade foi confirmada naquele tempo.

Capítulo X

1. No décimo quarto dia do mês seguinte, Apeleu, o décimo nono antes das calendas de janeiro, alguns do Egito foram de novo presos pelos que examinavam quem passava pelas portas. Tinham sido enviados para servir os confessores da Cilícia. Receberam a mesma sentença que aqueles a quem tinham ido ajudar, sendo mutilados nos olhos e nos pés. Três deles mostraram em Ascalom, onde estavam presos, admirável coragem em suportar vários tipos de martírio. Um deles, chamado Ares, foi condenado às chamas, e os outros, chamados Probo e Elias, foram decapitados.

2. No décimo primeiro dia do mês Audineu, que é o terceiro antes dos idos de janeiro, na mesma cidade de Cesareia, Pedro, asceta também chamado Apselamo, da aldeia de Anea, nos limites de Eleuterópolis, como ouro puríssimo, deu nobre prova pelo fogo de sua fé no Cristo de Deus. Embora o juiz e os que estavam com ele lhe suplicassem muitas vezes que tivesse compaixão de si mesmo e poupasse sua juventude e seu viço, ele não fez caso deles, preferindo a esperança no Deus do universo a todas as coisas, até à própria vida. Certo Asclépio, tido por bispo da seita de Marcião, possuído, como pensava, de zelo pela religião, mas “não com entendimento” (Rm 10.2), terminou a vida numa só e mesma pira. Essas coisas aconteceram desse modo.

Capítulo XI

1. É tempo de descrever o grande e célebre espetáculo de Pânfilo, homem três vezes caro para mim, e dos que terminaram a carreira com ele. Eram doze ao todo, tendo sido julgados dignos da graça e do número apostólicos.

2. Destes, o chefe, e o único honrado com o cargo de presbítero em Cesareia, era Pânfilo, homem que por toda a vida foi célebre por toda virtude: pela renúncia e pelo desprezo do mundo, pela partilha de seus bens com os necessitados, pelo desdém das esperanças terrenas, pela conduta e pelo exercício filosóficos. Sobressaiu a todos no nosso tempo sobretudo pela mais sincera dedicação às divinas Escrituras, pela diligência incansável em tudo o que empreendia e pela ajuda que prestava a parentes e companheiros.

3. Num tratado à parte sobre sua vida, em três livros, já descrevemos a excelência de sua virtude. Remetendo a essa obra os que se agradam dessas coisas e desejam conhecê-las, consideremos agora os mártires em ordem.

4. Segundo depois de Pânfilo, entrou no combate Vales, honrado por seus veneráveis cabelos brancos. Era diácono de Élia, ancião de aspecto gravíssimo e versado nas divinas Escrituras como poucos. Guardara tanto a memória delas no coração que não precisava olhar os livros se se dispunha a repetir qualquer passagem da Escritura.

5. O terceiro foi Paulo, da cidade de Jâmnia, conhecido entre eles como muito zeloso e fervoroso de espírito. Antes do seu martírio, já sustentara o combate da confissão pela cauterização.

Depois que essas pessoas tinham passado dois anos inteiros na prisão, a ocasião de seu martírio foi uma segunda chegada de irmãos egípcios, que sofreram com elas.

6. Eles tinham acompanhado os confessores da Cilícia às minas de lá e voltavam para casa. À entrada das portas de Cesareia, os guardas, homens de caráter bárbaro, perguntaram-lhes quem eram e de onde vinham. Eles nada esconderam da verdade e foram presos como malfeitores apanhados em flagrante. Eram cinco.

7. Levados ao tirano, mostraram grande ousadia em sua presença e foram imediatamente lançados na prisão. No dia seguinte, que era o décimo nono do mês Perício, segundo a contagem romana o décimo quarto antes das calendas de março, foram levados, conforme a ordem, ao juiz, com Pânfilo e os companheiros que mencionamos. Primeiro, com toda espécie de tortura, pela invenção de máquinas estranhas e variadas, ele pôs à prova a constância invencível dos egípcios.

8. Tendo praticado essas crueldades contra o chefe de todos, perguntou-lhe primeiro quem era. Ouviu em resposta, em vez do seu nome próprio, o nome de algum profeta. Pois era costume deles, em lugar dos nomes de ídolos que lhes tinham dado os pais, se os tinham, tomar outros nomes; de modo que se podia ouvi-los chamar-se Elias, Jeremias, Isaías, Samuel ou Daniel, mostrando-se assim interiormente verdadeiros judeus e o genuíno Israel de Deus, não só nos atos, mas nos nomes que traziam. Quando Firmiliano ouviu do mártir um nome desses e não entendeu a força da palavra, perguntou em seguida o nome de sua pátria.

9. Mas ele deu uma segunda resposta semelhante à primeira, dizendo que Jerusalém era a sua pátria, referindo-se àquela da qual diz Paulo: “A Jerusalém lá de cima é livre e ela é a nossa mãe” (Gl 4.26), e: “Vocês chegaram ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial” (Hb 12.22).

10. Era isso o que ele queria dizer; mas o juiz, pensando só na terra, procurou com diligência descobrir que cidade era aquela e em que parte do mundo estava situada. Por isso aplicou torturas, para que a verdade fosse reconhecida. Mas o homem, com as mãos torcidas atrás das costas e os pés esmagados por máquinas estranhas, afirmava com firmeza que tinha dito a verdade.

11. E, interrogado de novo repetidas vezes sobre qual e onde era a cidade de que falava, disse que era a pátria só dos piedosos, pois nenhum outro teria lugar nela, e que ficava para o extremo Oriente e para o sol nascente.

12. Ele filosofava sobre essas coisas segundo o seu próprio entendimento e de modo algum se desviou delas pelas torturas com que era afligido por todos os lados. E, como se não tivesse carne nem corpo, parecia insensível aos sofrimentos. Mas o juiz, perplexo, impacientava-se, pensando que os cristãos estavam para fundar em algum lugar uma cidade inimiga e hostil aos romanos. E inquiriu muito sobre isso e investigou onde se situava aquela pátria para o Oriente.

13. Mas, depois de ter por muito tempo dilacerado o jovem com açoites e o ter castigado com toda sorte de tormentos, percebeu que sua perseverança no que dissera não podia ser mudada e pronunciou contra ele a sentença de morte. Tal foi a cena exibida pelo que se fez a esse homem. E, tendo infligido torturas semelhantes aos outros, despachou-os do mesmo modo.

14. Então, cansado e percebendo que castigava os homens em vão, tendo saciado o seu desejo, procedeu contra Pânfilo e seus companheiros. E, sabendo que já sob torturas anteriores tinham mostrado um zelo imutável pela fé, perguntou-lhes se agora obedeceriam. E, recebendo de cada um deles só esta resposta, como última palavra de confissão no martírio, infligiu-lhes castigo semelhante ao dos outros.

15. Feito isso, um jovem, um dos servos domésticos de Pânfilo, que fora educado na nobre vida e no ensino de tal homem, sabendo da sentença pronunciada contra o seu senhor, gritou do meio da multidão pedindo que os corpos deles fossem sepultados.

16. Então o juiz, não um homem, mas uma fera, ou algo mais selvagem que uma fera, sem levar em conta a idade do jovem, fez-lhe só a mesma pergunta. Quando soube que ele se confessava cristão, como se tivesse sido ferido por um dardo, inchando de raiva, mandou os atormentadores empregarem contra ele toda a sua força.

17. E, vendo que ele se recusava a sacrificar como lhe ordenavam, mandou que o raspassem continuamente até os próprios ossos e os recessos mais íntimos das entranhas, não como se fosse carne humana, mas como se fosse pedra, madeira ou qualquer coisa sem vida. Mas, depois de longa insistência, viu que isso era em vão, pois o homem estava sem fala, insensível e quase sem vida, com o corpo consumido pelas torturas.

18. Mas, sendo inflexivelmente impiedoso e desumano, mandou que fosse entregue de imediato, tal como estava, a um fogo lento. E, antes da morte do seu senhor terreno, embora tivesse entrado depois no combate, recebeu a libertação do corpo, enquanto os que se tinham ocupado dos outros ainda tardavam.

19. Podia-se ver então Porfírio, como quem saíra vitorioso de todos os combates, com o corpo coberto de pó, mas o semblante alegre, depois de tais sofrimentos, caminhando para a morte com ânimo corajoso e exultante. E, como verdadeiramente cheio do Espírito divino, coberto só com o seu manto de filósofo lançado ao redor do corpo como capa, com sobriedade e inteligência deu instruções aos amigos sobre o que desejava e fez-lhes sinais, conservando ainda o semblante alegre, mesmo na estaca. Mas, quando o fogo foi aceso em círculo ao seu redor, a certa distância, aspirou a chama pela boca e permaneceu nobilissimamente em silêncio desde então até a morte, depois da única palavra que proferiu quando a chama o tocou pela primeira vez, ao clamar pelo socorro de Jesus, o Filho de Deus. Tal foi o combate de Porfírio.

20. Sua morte foi comunicada a Pânfilo por um mensageiro, Seleuco. Ele era um dos confessores vindos do exército. Como portador de tal mensagem, foi logo julgado digno de sorte semelhante. Pois, assim que relatou a morte de Porfírio e saudou com um beijo um dos mártires, alguns soldados o prenderam e o levaram ao governador. E este, como se quisesse apressá-lo a ser companheiro do anterior no caminho para o céu, mandou que fosse morto imediatamente.

21. Esse homem era da Capadócia, pertencia à tropa seleta de soldados e obtivera não pequena honra nas coisas que são estimadas entre os romanos. Pois em estatura e força corporal, em tamanho e vigor, superava de longe os seus companheiros de armas, de modo que sua aparência era assunto de conversa comum e toda a sua figura era admirada pelo tamanho e pelas proporções harmoniosas.

22. No começo da perseguição, destacou-se nos combates da confissão por sua paciência sob os açoites. Depois de deixar o exército, dedicou-se a imitar com zelo os ascetas religiosos e, como se fosse pai e guardião deles, mostrou-se bispo e protetor dos órfãos desamparados, das viúvas indefesas e dos que estavam afligidos pela penúria ou pela doença. É provável que por isso tenha sido julgado digno de um chamado extraordinário ao martírio por Deus, que se alegra com essas coisas mais do que com a fumaça e o sangue dos sacrifícios.

23. Ele foi o décimo atleta entre os que mencionamos como tendo encontrado o seu fim num só e mesmo dia. Nesse dia, como convinha, abriu-se a porta principal, e deu-se ao mártir Pânfilo e aos outros com ele um caminho pronto de entrada no reino do céu.

24. Nas pegadas de Seleuco veio Teódulo, ancião respeitável e piedoso, que pertencia à casa do governador e fora honrado pelo próprio Firmiliano mais do que todos os outros de sua casa, por causa da idade, por ser pai de três gerações e também pela bondade e pela fidelíssima consciência que lhe mostrara. Como seguiu o caminho de Seleuco quando levado à presença do seu senhor, este se irou mais contra ele do que contra os que o tinham precedido e o condenou a sofrer o martírio do Salvador na cruz.

25. Faltando ainda um para completar o número dos doze mártires de que falamos, veio Juliano para completá-lo. Acabava de chegar de fora e ainda não tinha entrado pela porta da cidade quando, sabendo dos mártires ainda no caminho, correu logo, tal como estava, para vê-los. Quando viu os tabernáculos dos santos estendidos no chão, cheio de alegria, abraçou-os e beijou-os todos.

26. Os ministros da matança o prenderam de imediato enquanto fazia isso e o levaram a Firmiliano. Este, agindo como de costume, condenou-o a um fogo lento. Então Juliano, saltando e exultando, deu graças em alta voz ao Senhor, que o julgara digno de tais coisas, e foi honrado com a coroa do martírio.

27. Era capadócio de nascimento e, em seu modo de vida, muito circunspecto, fiel e sincero, zeloso em todos os outros aspectos e animado pelo próprio Espírito Santo. Tal foi a companhia julgada digna de entrar no martírio com Pânfilo.

28. Por ordem do ímpio governador, seus corpos sagrados e verdadeiramente santos foram guardados como alimento para as feras durante quatro dias e outras tantas noites. Mas, como, coisa estranha de dizer, pelo cuidado providencial de Deus, nada se aproximou deles, nem fera, nem ave, nem cão, foram recolhidos intactos e, depois da preparação conveniente, sepultados da maneira costumeira.

29. Quando a notícia do que se fizera a esses homens se espalhou em todas as direções, Adriano e Êubulo, tendo vindo da chamada região de Manganeia a Cesareia para ver os confessores restantes, foram também interrogados à porta sobre o motivo de sua vinda; e, tendo confessado a verdade, foram levados a Firmiliano. Ele, como de costume, sem demora infligiu-lhes muitas torturas nos flancos e os condenou a ser devorados pelas feras.

30. Dois dias depois, no quinto dia do mês Distro, o terceiro antes das nonas de março, que era tido como o aniversário da divindade tutelar de Cesareia, Adriano foi lançado a um leão e depois morto à espada. Mas Êubulo, dois dias mais tarde, nas nonas de março, isto é, no sétimo dia do mês Distro, quando o juiz lhe rogou insistentemente que gozasse, sacrificando, daquilo que entre eles se tinha por liberdade, preferindo uma morte gloriosa pela religião a uma vida passageira, foi feito, como o outro, oferenda às feras e, como o último dos mártires em Cesareia, selou a lista dos atletas.

31. Convém também relatar aqui como em pouco tempo a Providência celeste veio sobre os governantes ímpios, junto com os próprios tiranos. Pois aquele mesmo Firmiliano, que assim maltratara os mártires de Cristo, depois de sofrer com os outros o mais severo castigo, foi morto à espada. Tais foram os martírios que se deram em Cesareia durante todo o período da perseguição.

Capítulo XII

1. Julgo melhor passar por alto todos os outros acontecimentos que ocorreram nesse meio-tempo: como os que sucederam aos bispos das igrejas, quando, em vez de pastores dos rebanhos racionais de Cristo, que presidiam de modo ilegítimo, o juízo divino, considerando-os dignos de tal encargo, os fez guardadores de camelos, animal irracional e muito torto na estrutura do corpo, ou os condenou a cuidar dos cavalos imperiais. Passo por alto também os insultos, as desonras e as torturas que sofreram dos supervisores e governantes imperiais por causa dos vasos sagrados e dos tesouros da Igreja; além disso, a ambição de poder da parte de muitos, as ordenações desordenadas e ilegítimas e os cismas entre os próprios confessores; e ainda as novidades que os membros novos e facciosos tramaram com zelo contra os restos da Igreja, acrescentando inovação sobre inovação e introduzindo-as sem piedade em meio às calamidades da perseguição, amontoando desgraça sobre desgraça. Julgo mais conveniente fugir e evitar o relato dessas coisas, como disse no começo. Mas as coisas sóbrias e dignas de louvor, segundo a palavra sagrada, “se alguma virtude há e se algum louvor existe” (Fp 4.8), considero mais apropriado contá-las, registrá-las e apresentá-las aos ouvintes fiéis na história dos admiráveis mártires. E depois disso julgo melhor coroar toda a obra com um relato da paz que nos apareceu do céu.

Capítulo XIII

1. Completou-se o sétimo ano do nosso combate; e as medidas hostis que tinham continuado até o oitavo ano iam-se tornando, aos poucos e em silêncio, menos severas. Um grande número de confessores estava reunido nas minas de cobre da Palestina e agia com considerável ousadia, a ponto de construir até lugares de culto. Mas o governador da província, homem cruel e mau, como mostraram os seus atos contra os mártires, tendo ido lá e sabido do estado das coisas, comunicou-o ao imperador, escrevendo em acusação o que lhe pareceu melhor.

2. Então, nomeado superintendente das minas, dividiu o grupo de confessores como que por decreto real: mandou alguns morar em Chipre e outros no Líbano, espalhou outros por diversas partes da Palestina e ordenou-lhes que trabalhassem em várias obras.

3. E, escolhendo os quatro que lhe pareciam os líderes, enviou-os ao comandante dos exércitos daquela região. Eram Peleu e Nilo, bispos egípcios, também um presbítero, e Patermúcio, bem conhecido entre todos pelo seu zelo para com todos. O comandante do exército exigiu deles que negassem a religião e, não o obtendo, condenou-os à morte pelo fogo.

4. Havia ali outros a quem fora destinado morar num lugar separado, à parte: aqueles confessores que, por causa da idade, de mutilações ou de outras enfermidades corporais, tinham sido dispensados do serviço. Silvano, bispo de Gaza, presidia-os e deu um exemplo digno e genuíno de cristianismo.

5. Esse homem, tendo-se destacado desde o primeiro dia da perseguição, e durante toda a sua duração, por suas confissões em toda espécie de combates, fora guardado todo aquele tempo para que pusesse, por assim dizer, o selo final em todo o combate da Palestina.

6. Estavam com ele muitos do Egito, entre os quais João, que no nosso tempo superava a todos na excelência da memória. Antes já fora privado da vista. Ainda assim, por causa do seu destaque na confissão, sofrera com os outros a destruição do pé por cauterização. E, embora sua vista já tivesse sido destruída, foi submetido à mesma queimadura a fogo, pois os carrascos buscavam tudo o que era impiedoso, sem compaixão, cruel e desumano.

7. Sendo ele um homem assim, não seria tanto de admirar por seus hábitos e por sua vida filosófica, nem pareceria tão admirável por eles, quanto pela força da memória. Pois tinha escrito livros inteiros das divinas Escrituras, “não em tábuas de pedra”, como diz o divino apóstolo, nem em peles de animais, nem em papel que a traça e o tempo destroem, mas verdadeiramente “em tábuas de carne do coração” (2Co 3.3), numa alma transparente e no olho puríssimo da mente, de modo que, sempre que queria, podia repetir, como de um tesouro de palavras, qualquer porção da Escritura, fosse da lei, dos profetas, dos livros históricos, dos evangelhos ou dos escritos dos apóstolos.

8. Confesso que fiquei assombrado quando vi o homem pela primeira vez, de pé no meio de uma grande congregação, repetindo porções da divina Escritura. Enquanto só ouvia a sua voz, pensei que, segundo o costume das reuniões, ele estivesse lendo. Mas, quando me aproximei e percebi o que fazia, e observei todos os outros de pé ao seu redor com olhos sãos, enquanto ele usava só os olhos da mente e, ainda assim, falava com naturalidade como algum profeta, superando de longe os que eram sãos de corpo, foi-me impossível não glorificar a Deus e maravilhar-me. E pareceu-me ver nesses fatos uma confirmação evidente e forte de que a verdadeira hombridade não consiste na excelência da aparência corporal, mas só na alma e no entendimento. Pois ele, com o corpo mutilado, manifestava a excelência superior do poder que havia dentro dele.

9. Quanto àqueles que mencionamos como morando num lugar separado e cumprindo os seus deveres costumeiros em jejum, oração e outros exercícios, o próprio Deus houve por bem dar-lhes um desfecho salutar, estendendo a sua mão direita em resposta a eles. O inimigo amargo, como eles estavam armados com zelo contra ele por suas orações a Deus, não pôde mais suportá-los e resolveu matá-los e eliminá-los da face da terra, porque o incomodavam.

10. E Deus lhe permitiu realizar isso, para que não fosse impedido na maldade que desejava e para que, ao mesmo tempo, eles recebessem os prêmios de seus múltiplos combates. Por isso, por ordem do malditíssimo Maximino, quarenta menos um foram decapitados num só dia.

11. Esses martírios se cumpriram na Palestina durante oito anos completos; e tal foi a perseguição em nosso tempo. Começando pela demolição das igrejas, aumentou muito à medida que os governantes se levantavam de tempos em tempos contra nós. Nesses ataques, os combates multiformes e variados dos que lutavam em favor da religião produziram uma multidão inumerável de mártires em todas as províncias: nas regiões que se estendem desde a Líbia e por todo o Egito, e na Síria, e desde o Oriente, em redor, até a região do Ilírico.

12. Mas os países além destes, toda a Itália, a Sicília e a Gália, e as regiões para o poente, na Espanha, na Mauritânia e na África, sofreram a guerra da perseguição durante menos de dois anos e foram julgados dignos de uma visita divina e de uma paz mais rápidas, poupando a Providência celeste a simplicidade de propósito e a fé daqueles homens.

13. Pois o que nunca antes fora registrado nos anais do governo romano aconteceu pela primeira vez em nossos dias, contra toda expectativa: durante a perseguição em nosso tempo, o império estava dividido em duas partes. Os irmãos que moravam na parte de que acabamos de falar gozavam de paz; mas os da outra parte suportaram provas sem número.

14. Mas, quando a graça divina, com bondade e compaixão, manifestou o seu cuidado também por nós, então verdadeiramente os nossos governantes, aqueles mesmos por meio dos quais antes se tinham travado as guerras contra nós, mudaram de ideia de modo admirabilíssimo e publicaram uma retratação; e, por éditos favoráveis e decretos brandos a nosso respeito, extinguiram o incêndio levantado contra nós. Essa retratação também deve ser registrada.

Fim do livro de Eusébio Pânfilo sobre os que sofreram o martírio na Palestina.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.