Eusébio, História Eclesiástica · Livro IX
A falsa trégua de Maximino e a volta da perseguição; os falsos Atos de Pilatos; os decretos gravados em colunas; fome e peste; a vitória de Constantino e de Licínio; a queda dos tiranos.
1. O édito imperial de retratação, citado acima, foi afixado em todas as partes da Ásia e nas províncias vizinhas. Feito isso, Maximino, o tirano do Oriente, homem impiíssimo como nenhum outro e o mais hostil à religião do Deus do universo, de modo algum satisfeito com o seu conteúdo, em vez de enviar aos governadores que lhe estavam sujeitos o decreto citado acima, deu-lhes ordens verbais para que abrandassem a guerra contra nós.
2. Como não podia opor-se de nenhuma outra maneira à decisão dos seus superiores, manteve em segredo a lei já promulgada e tomou cuidado para que ela não fosse conhecida no território sob o seu governo; e deu aos seus governadores uma ordem não escrita para que abrandassem a perseguição contra nós. Eles comunicaram a ordem uns aos outros por escrito.
3. Sabino, ao menos, que entre eles era honrado com o mais alto posto oficial, comunicou a vontade do imperador aos governadores das províncias numa epístola latina, cuja tradução é a seguinte:
4. “Com empenho contínuo e devotadíssimo, Suas Majestades, nossos diviníssimos senhores, os imperadores, dirigiram outrora a mente de todos os homens a seguir o caminho santo e correto da vida, para que também os que pareciam viver de maneira estranha à dos romanos prestassem aos deuses imortais o culto que lhes é devido. Mas a obstinação e a determinação invencível de alguns foram tão longe que nem a justa razão da ordem os pôde desviar do seu propósito, nem o castigo iminente os pôde intimidar.
5. Visto, portanto, que por tal conduta muitos se puseram em perigo, Suas Majestades, nossos poderosíssimos senhores, os imperadores, na elevada nobreza da sua piedade, julgando alheio ao propósito de Suas Majestades expor os homens a tão grande perigo por tal causa, ordenaram a mim, seu servo devotado, que escrevesse à tua sabedoria que, se algum cristão for encontrado praticando o culto do seu povo, te abstenhas de molestá-lo e de pô-lo em perigo, e não julgues necessário punir ninguém sob esse pretexto. Pois a experiência de tão longo tempo provou que de modo algum se pode persuadi-los a abandonar uma conduta tão obstinada.
6. Por isso, deves cuidar de escrever aos curadores, aos magistrados e aos inspetores de distrito de cada cidade, para que saibam que não é necessário que deem mais atenção a este assunto.”
7. Então os governadores das províncias, pensando que lhes havia sido comunicado com verdade o propósito do que fora escrito, declararam por escrito a vontade imperial aos curadores, aos magistrados e aos prefeitos dos diversos distritos. Mas não se limitaram a escrever: procuraram cumprir com maior rapidez também por obras a suposta vontade do imperador. Puseram em liberdade os que haviam encarcerado por causa da sua confissão da Divindade, e soltaram os que tinham sido mandados às minas como castigo; pois supunham, erradamente, que essa era a verdadeira vontade do imperador.
8. E, feitas assim essas coisas, imediatamente, como uma luz que brilha numa noite escura, podiam-se ver em cada cidade congregações reunidas, assembleias apinhadas e reuniões realizadas segundo o seu costume. E cada um dos pagãos incrédulos ficou não pouco atônito com essas coisas, maravilhando-se de tão espantosa transformação e exclamando que o Deus dos cristãos era grande e o único verdadeiro.
9. E alguns dos nossos, que haviam sustentado com fidelidade e coragem o combate da perseguição, voltaram a ser francos e ousados diante de todos; mas todos os que tinham adoecido na fé e haviam sido abalados na alma pela tempestade procuravam ansiosamente a cura, rogando e implorando aos fortes que lhes estendessem uma mão salvadora, e suplicando a Deus que tivesse misericórdia deles.
10. Então também os nobres atletas da religião, libertados dos seus sofrimentos nas minas, voltaram para suas casas. Passavam por todas as cidades felizes e alegres, cheios de um prazer indizível e de uma confiança que não se pode exprimir com palavras.
11. Grandes multidões de homens seguiam o seu caminho pelas estradas e pelas praças, louvando a Deus com hinos e salmos. E podia-se ver os que pouco antes tinham sido arrastados em cadeias da sua terra natal sob uma sentença crudelíssima voltarem aos seus lares com rostos radiantes e alegres; de modo que até os que antes tinham sede do nosso sangue, ao verem a maravilha inesperada, se congratulavam conosco pelo que havia acontecido.
1. Mas o tirano que, como dissemos, governava as regiões do Oriente, inimigo completo do bem e adversário de toda pessoa virtuosa como era, já não pôde suportar isso; e, de fato, não permitiu que as coisas seguissem assim nem sequer por seis meses. Planejando todos os meios possíveis de destruir a paz, tentou primeiro impedir-nos, sob um pretexto, de nos reunirmos nos cemitérios.
2. Depois, por meio de alguns homens perversos, enviou a si mesmo uma embaixada contra nós, instigando os cidadãos de Antioquia a pedir-lhe, como favor muito grande, que de modo algum permitisse a nenhum dos cristãos habitar na sua terra; e outros foram secretamente induzidos a fazer o mesmo. O autor de tudo isso em Antioquia foi Teotecno, homem violento e perverso, um impostor, cujo caráter era alheio ao seu nome [N. do T.: em grego, Teotecno significa “filho de Deus”]. Parece que era o curador da cidade.
Depois que esse homem moveu contra nós toda espécie de guerra, fez que os nossos fossem diligentemente caçados nos seus esconderijos, como se fossem ladrões ímpios, inventou contra nós toda sorte de calúnias e acusações e se tornou causa de morte para grande número de pessoas, por fim erigiu uma estátua de Júpiter Fílio com certos embustes e ritos mágicos. E, depois de inventar formas ímpias de iniciação, mistérios de mau agouro ligados a ela e meios abomináveis de purificação, exibiu o seu embuste, por meio de oráculos que fingia proferir, até ao imperador; e, com uma lisonja que agradava ao governante, incitou o demônio contra os cristãos e disse que o deus ordenara expulsar os cristãos, como seus inimigos, para fora dos limites da cidade e dos distritos vizinhos.
1. O fato de esse homem, que tomou a dianteira nesse assunto, ter alcançado o seu propósito foi um incentivo para que todos os outros funcionários das cidades sob o mesmo governo preparassem um memorial semelhante. E os governadores das províncias, percebendo que isso agradava ao imperador, sugeriram aos seus súditos que fizessem o mesmo.
2. E, como o tirano, por um rescrito, se declarou muito satisfeito com as suas medidas, a perseguição reacendeu-se contra nós. Foram então nomeados nas cidades sacerdotes para as imagens e, além deles, sumos sacerdotes, pelo próprio Maximino. Estes eram escolhidos entre os mais distintos na vida pública, que tinham alcançado renome em todos os cargos que haviam exercido, e que, além disso, eram imbuídos de grande zelo pelo serviço daqueles a quem adoravam.
3. Na verdade, a extraordinária superstição do imperador, para dizê-lo em poucas palavras, levou todos os seus súditos, governantes e simples cidadãos, a fazer de tudo contra nós para agradar-lhe, supondo que a melhor maneira de lhe mostrar gratidão pelos benefícios que dele tinham recebido era tramar a nossa morte e exibir contra nós quaisquer novos sinais de malignidade.
1. Tendo, pois, forjado Atas de Pilatos e de nosso Salvador cheias de toda espécie de blasfêmia contra Cristo, enviaram-nas, com a aprovação do imperador, a todo o império que lhe estava sujeito, com ordens escritas de que fossem afixadas publicamente à vista de todos em cada lugar, no campo e na cidade, e de que os mestres-escolas as dessem aos seus alunos, em lugar das lições de costume, para que as estudassem e decorassem.
2. Enquanto isso acontecia, outro comandante militar, a quem os romanos chamam Dux, prendeu na praça de Damasco, na Fenícia, algumas mulheres infames e, ameaçando submetê-las a torturas, obrigou-as a fazer uma declaração escrita de que tinham sido cristãs e conheciam os atos ímpios dos cristãos: que nas suas próprias igrejas cometiam atos licenciosos. E elas proferiram contra a nossa religião todas as outras calúnias que ele quis. Tendo registrado por escrito as palavras delas, comunicou-as ao imperador, que ordenou que também esses documentos fossem publicados em todo lugar e cidade.
1. Pouco depois, porém, esse comandante militar tornou-se o seu próprio assassino e pagou a pena da sua perversidade. Mas nós fomos obrigados a suportar outra vez o exílio e severas perseguições, e os governadores de cada província foram de novo terrivelmente incitados contra nós; de modo que até alguns dos ilustres na Palavra divina foram presos e condenados à morte sem misericórdia. Três deles, na cidade de Emesa, na Fenícia, tendo confessado que eram cristãos, foram lançados como alimento às feras. Entre eles estava o bispo Silvano, homem muito idoso, que exercera o seu ofício durante quarenta anos completos.
2. Mais ou menos no mesmo tempo, também Pedro, que presidia de modo ilustríssimo as igrejas de Alexandria, exemplo divino de bispo pela excelência da sua vida e pelo seu estudo das Sagradas Escrituras, foi preso sem motivo algum e de modo inteiramente inesperado e, como que por ordem de Maximino, foi decapitado imediatamente e sem explicação. Com ele, também muitos outros bispos do Egito sofreram a mesma sorte.
3. E Luciano, presbítero da igreja de Antioquia, homem excelentíssimo em todos os aspectos, temperante na vida e famoso pelo seu saber nas coisas sagradas, foi levado à cidade de Nicomédia, onde nesse tempo o imperador por acaso se encontrava; e, depois de pronunciar diante do governante uma apologia da doutrina que professava, foi lançado na prisão e morto.
4. Tais provações nos foram infligidas em pouco tempo por Maximino, o inimigo da virtude, de modo que essa perseguição suscitada contra nós pareceu muito mais cruel que a anterior.
1. Os memoriais contra nós e as cópias dos éditos imperiais promulgados em resposta a eles foram gravados e erguidos em colunas de bronze no meio das cidades, coisa que nunca se fizera em outra parte. As crianças nas escolas tinham diariamente na boca os nomes de Jesus e de Pilatos, e as Atas forjadas com desenfreada insolência.
2. Parece-me necessário inserir aqui este documento de Maximino afixado em colunas, para que se torne manifesta ao mesmo tempo a arrogância jactanciosa e altiva do homem que odiava a Deus e a vingança divina, sempre vigilante e inimiga do mal, contra os ímpios, que o seguiu de perto e sob cuja pressão ele, não muito depois, tomou o caminho oposto em relação a nós e o confirmou por leis escritas.
O rescrito diz o seguinte:
Cópia de uma tradução do rescrito de Maximino em resposta aos memoriais contra nós, tirada da coluna em Tiro.
3. “Agora, enfim, a débil força da mente humana tornou-se capaz de sacudir e dissipar toda névoa escura do erro, que antes sitiava os sentidos dos homens, mais miseráveis que ímpios, e os envolvia numa ignorância tenebrosa e destrutiva; e de perceber que ela é governada e estabelecida pela providência benfazeja dos deuses imortais.
4. É difícil de crer quão grato, quão agradável e quão aprazível nos é que vocês tenham dado uma prova decisiva da sua piedosa resolução; pois, mesmo antes disso, todos sabiam quanta consideração e reverência vocês tributavam aos deuses imortais, exibindo não uma fé de palavras nuas e vazias, mas exemplos contínuos e admiráveis de feitos ilustres.
5. Por isso a cidade de vocês pode, com justiça, ser chamada sede e morada dos deuses imortais. Ao menos, muitos sinais mostram que ela floresce graças à presença dos deuses celestes.
6. Eis, pois, que a cidade de vocês, sem levar em conta nenhuma vantagem particular e deixando de lado as petições que antes fazia em seu próprio favor, ao perceber que os adeptos daquela execrável vaidade começavam outra vez a espalhar-se e a atear o maior dos incêndios, como uma pira funerária abandonada e apagada cujos tições se reacendem, recorreu imediatamente à nossa piedade, como a uma metrópole de toda religiosidade, pedindo algum remédio e auxílio.
7. É evidente que os deuses lhes deram essa mente salutar por causa da sua fé e piedade.
“Assim, aquele supremo e poderosíssimo Júpiter, que preside à ilustre cidade de vocês, que preserva de toda peste destrutiva os seus deuses ancestrais, as suas esposas e filhos, os seus lares e casas, infundiu na alma de vocês essa resolução salutar, mostrando e provando quão excelente, glorioso e salutar é observar com a devida reverência o culto e os ritos sagrados dos deuses imortais.
8. Pois quem se poderá encontrar tão ignorante ou tão desprovido de todo entendimento que não perceba que é graças ao benigno cuidado dos deuses que a terra não recusa a semente nela lançada, nem frustra com vã expectativa a esperança dos lavradores; que a guerra ímpia não se fixa inevitavelmente sobre a terra, nem os corpos definhados são arrastados à morte sob a influência de um ar corrompido; que o mar não se incha nem se ergue às alturas pelos sopros de ventos destemperados; que furacões inesperados não irrompem nem levantam a tempestade destruidora; e ainda que a terra, nutriz e mãe de todos, não é sacudida desde as suas profundezas por um tremor terrível, nem os montes sobre ela se afundam nos abismos que se abrem? Ninguém ignora que todas essas coisas, e males ainda piores que estes, aconteceram muitas vezes até agora.
9. E todas essas desgraças ocorreram por causa do erro destrutivo da vã vaidade daqueles homens ímpios, quando ele prevalecia na alma deles e, quase podemos dizer, oprimia o mundo inteiro com vergonha.”
10. Depois de outras palavras, acrescenta: “Olhem as searas que já florescem com espigas ondulantes nos vastos campos, e os prados que reluzem de plantas e flores, em resposta às chuvas abundantes e à brandura e suavidade do ar, restituídas.
11. Por fim, alegrem-se todos porque o poder do poderosíssimo e terrível Marte foi aplacado pela nossa piedade, pelos nossos sacrifícios e pela nossa veneração; e por isso gozem de paz e sossego firmes e tranquilos; e todos os que abandonaram por completo aquele cego erro e ilusão e voltaram a uma mente reta e sã alegrem-se ainda mais, como os que foram salvos de uma tempestade inesperada ou de uma doença grave e hão de colher os frutos do prazer pelo resto da vida.
12. Mas, se ainda persistirem na sua execrável vaidade, que sejam expulsos para longe da cidade e do território de vocês, como vocês desejaram, para que assim, conforme o louvável zelo de vocês nesse assunto, a sua cidade, livre de toda poluição e impiedade, possa, segundo a sua disposição natural, dedicar-se com a devida reverência aos ritos sagrados dos deuses imortais.
13. Mas, para que saibam quão aceitável nos foi o pedido de vocês sobre esse assunto, e quão pronta está a nossa mente para conceder benefícios voluntariamente, sem memoriais nem petições, permitimos à devoção de vocês pedir qualquer grande dádiva que desejem em troca dessa sua piedosa disposição.
14. E agora peçam que isso se faça e que o recebam; pois o obterão sem demora. Isso, concedido à cidade de vocês, dará para todo o sempre um testemunho de reverente piedade para com os deuses imortais e do fato de que vocês obtiveram da nossa benevolência prêmios merecidos por essa sua escolha; e será mostrado a seus filhos e aos filhos de seus filhos.”
15. Isso foi publicado contra nós em todas as províncias, privando-nos de toda esperança de bem, ao menos da parte dos homens; de modo que, segundo aquela palavra divina, “se fosse possível, até os eleitos teriam tropeçado” (Mt 24.24) diante dessas coisas.
16. E então, quando a esperança da maioria de nós estava quase extinta, de repente, enquanto os que deviam executar contra nós o decreto acima mal tinham terminado a viagem em alguns lugares, Deus, o defensor da sua própria Igreja, mostrou em nosso favor a sua intervenção celestial, quase fazendo cessar a jactância do tirano contra nós.
1. As chuvas e aguaceiros costumeiros da estação de inverno deixaram de cair sobre a terra com a abundância habitual, e apareceu uma fome inesperada e, além dela, uma peste e outra doença grave, que consistia numa úlcera chamada apropriadamente de carbúnculo, por causa do seu aspecto ardente. Espalhando-se pelo corpo inteiro, ela punha em grande perigo a vida dos que dela sofriam; mas, como atacava sobretudo os olhos, privou da vista multidões de homens, mulheres e crianças.
2. Além disso, o tirano foi obrigado a fazer guerra aos armênios, que desde tempos antigos eram amigos e aliados dos romanos. Como eles também eram cristãos e zelosos na sua piedade para com a Divindade, o inimigo de Deus tentara obrigá-los a sacrificar aos ídolos e aos demônios, e assim fizera dos amigos adversários e dos aliados inimigos.
3. Todas essas coisas aconteceram de repente, a um só e mesmo tempo, e refutaram a vã jactância do tirano contra a Divindade. Pois ele se gabara de que, por causa do seu zelo pelos ídolos e da sua hostilidade contra nós, nem fome, nem peste, nem guerra tinham acontecido no seu tempo. Essas coisas, portanto, caindo sobre ele de uma vez e juntas, foram também um prelúdio da sua própria destruição.
4. Ele mesmo, com as suas tropas, foi derrotado na guerra com os armênios, e os demais habitantes das cidades sob o seu governo foram terrivelmente afligidos pela fome e pela peste, de modo que uma medida de trigo se vendia por dois mil e quinhentos dracmas áticos.
5. Os que morreram nas cidades foram inumeráveis, e os que morreram no campo e nas aldeias foram ainda mais. Assim, os registros de impostos, que antes incluíam uma grande população rural, foram quase inteiramente apagados, pois quase todos foram rapidamente destruídos pela fome e pela peste.
6. Alguns, por isso, queriam ceder os seus bens mais preciosos aos que estavam mais bem providos, em troca do menor bocado de comida; outros, vendendo aos poucos as suas posses, caíram no último extremo da miséria. Alguns, mastigando tufos de feno e comendo imprudentemente ervas nocivas, minaram e arruinaram a sua saúde.
7. E algumas mulheres de alta linhagem nas cidades, levadas pela necessidade a extremos vergonhosos, saíram às praças para mendigar, dando prova da sua antiga educação refinada pela modéstia do seu aspecto e pela decência das suas vestes.
8. Alguns, definhados como fantasmas e já à beira da morte, tropeçavam e cambaleavam de um lado para outro e, fracos demais para ficar de pé, caíam no meio das ruas; estendidos ao comprido, pediam que se lhes desse um pequeno bocado de comida e, com o último alento, gritavam: “Fome!”, tendo forças apenas para esse grito dolorosíssimo.
9. Mas outros, que pareciam mais bem providos, espantados com a multidão dos mendigos, depois de darem grandes quantidades, acabaram por se tornar duros e implacáveis, esperando que também eles logo sofreriam as mesmas calamidades que os que mendigavam. Assim, no meio das praças e das vielas, corpos mortos e nus jaziam insepultos por muitos dias, oferecendo o espetáculo mais lamentável aos que os contemplavam.
10. Alguns também se tornaram alimento para os cães; por isso os sobreviventes começaram a matar os cães, para que não enlouquecessem e passassem a devorar homens.
11. Mas ainda pior foi a peste, que consumiu casas e famílias inteiras, e especialmente os que a fome não conseguira destruir por causa da sua abundância de alimento. Assim, homens ricos, governantes, governadores e multidões de funcionários, como se a fome os tivesse deixado de propósito para a peste, sofreram morte rápida e ligeira. Por isso todo lugar estava cheio de lamentação; em cada viela, praça e rua não se via nem se ouvia outra coisa senão lágrimas, com os instrumentos costumeiros e as vozes dos que pranteavam.
12. Desse modo a morte, guerreando com essas duas armas, a peste e a fome, destruiu famílias inteiras em pouco tempo, de modo que se podiam ver dois ou três cadáveres levados para fora ao mesmo tempo.
13. Tais foram as recompensas da jactância de Maximino e das medidas das cidades contra nós.
Então as provas do zelo e da piedade universais dos cristãos tornaram-se manifestas a todos os pagãos.
14. Pois só eles, no meio de tais males, mostraram por obras a sua compaixão e humanidade. Todos os dias, alguns continuavam cuidando dos mortos e sepultando-os, pois havia multidões que não tinham ninguém que cuidasse delas; outros reuniam num só lugar os que eram afligidos pela fome, de toda a cidade, e davam pão a todos eles; de modo que o fato se espalhou entre todos os homens, e eles glorificavam o Deus dos cristãos e, convencidos pelos próprios fatos, confessavam que só eles eram verdadeiramente piedosos e religiosos.
15. Feitas assim essas coisas, Deus, o grande e celestial defensor dos cristãos, tendo revelado nos acontecimentos descritos a sua ira e indignação contra todos os homens pelos grandes males que nos tinham infligido, restituiu-nos a luz radiante e graciosa da sua providência em nosso favor; de modo que, nas trevas mais profundas, uma luz de paz brilhou da parte dele sobre nós de modo maravilhosíssimo e tornou manifesto a todos que o próprio Deus sempre foi o governante dos nossos assuntos. De tempos em tempos, é verdade, ele castiga o seu povo e o corrige com as suas visitações, mas, depois de castigo suficiente, mostra outra vez misericórdia e favor aos que nele esperam.
1. Assim, Constantino, que já mencionamos como imperador, nascido de imperador, filho piedoso de um pai piedosíssimo e prudentíssimo, e Licínio, o segundo depois dele, dois imperadores amados por Deus, igualmente honrados pela sua inteligência e pela sua piedade, foram incitados por Deus, o Governante absoluto e Salvador de todos, contra os dois tiranos mais ímpios e travaram contra eles guerra declarada, tendo Deus por aliado. Maxêncio foi derrotado em Roma por Constantino de maneira notável, e o tirano do Oriente não lhe sobreviveu por muito tempo, mas teve uma morte vergonhosíssima pelas mãos de Licínio, que ainda não tinha enlouquecido.
2. Constantino, que era o superior tanto em dignidade como em posição imperial, foi o primeiro a compadecer-se dos oprimidos em Roma; e, tendo invocado em oração, como seu auxílio, o Deus do céu, o seu Verbo e o próprio Jesus Cristo, Salvador de todos, avançou com todo o seu exército, propondo-se restituir aos romanos a liberdade dos seus antepassados.
3. Mas Maxêncio, confiando mais nas artes da feitiçaria do que na devoção dos seus súditos, não ousou sair além das portas da cidade, e fortificou cada lugar, distrito e cidade que mantinha escravizados, nas vizinhanças de Roma e em toda a Itália, com uma imensa multidão de tropas e com inumeráveis bandos de soldados. Mas o imperador, apoiado no auxílio de Deus, atacou o primeiro, o segundo e o terceiro exército do tirano e venceu a todos; e, tendo avançado pela maior parte da Itália, estava já muito perto de Roma.
4. Então, para que ele não fosse obrigado a guerrear contra os romanos por causa do tirano, o próprio Deus arrastou este, como que amarrado com correntes, a certa distância para fora das portas, e confirmou aquelas ameaças contra os ímpios que tinham sido escritas antigamente nos livros sagrados, tidas por mito pela maioria, mas cridas pelos fiéis; confirmou-as, numa palavra, pelo próprio fato, diante de todos, crentes e incrédulos, que viram a maravilha com os próprios olhos.
5. Assim, como no tempo do próprio Moisés e da antiga raça dos hebreus amada por Deus, “lançou no mar os carros de Faraó e o seu exército, submergiu no mar Vermelho os seus condutores de carros escolhidos e os cobriu com as águas” (Êx 15.4-5), do mesmo modo também Maxêncio, com os seus soldados e guarda-costas, “desceu às profundezas como pedra” (Êx 15.5), quando fugia diante do poder de Deus que estava com Constantino e atravessava o rio que lhe estava no caminho, sobre o qual ele mesmo formara uma ponte de barcos, preparando assim o meio da sua própria destruição.
6. A respeito dele, poder-se-ia dizer: “Cavou uma cova e a abriu, e caiu no buraco que fizera; o seu trabalho se voltará sobre a sua própria cabeça, e a sua injustiça cairá sobre o seu próprio crânio” (Sl 7.15-16).
7. Assim, pois, rompida a ponte sobre o rio, a passagem cedeu, e imediatamente os barcos com os homens desapareceram nas profundezas: primeiro aquele mesmo impiíssimo, depois os escudeiros que estavam com ele, como os oráculos divinos predisseram, “afundaram-se como chumbo em águas impetuosas” (Êx 15.10); de modo que os que obtiveram de Deus a vitória, se não em palavras, ao menos em obras, como Moisés, o grande servo de Deus, e os que estavam com ele, cantaram com propriedade o que estes haviam cantado contra o ímpio tirano de outrora, dizendo: “Cantemos ao Senhor, porque gloriosamente se glorificou; lançou no mar o cavalo e o cavaleiro; tornou-se meu auxílio e meu protetor para a minha salvação” (Êx 15.1-2); e: “Quem é como tu, ó Senhor, entre os deuses? Quem é como tu, glorioso em santidade, maravilhoso em glória, que operas prodígios?” (Êx 15.11).
8. Esses louvores e outros semelhantes Constantino cantou, pelas suas próprias obras, a Deus, o Governante universal e Autor da sua vitória, ao entrar em Roma em triunfo.
9. Imediatamente todos os membros do senado e os demais homens mais célebres, com todo o povo romano, juntamente com as crianças e as mulheres, receberam-no como seu libertador, seu salvador e seu benfeitor, com olhos radiantes e de toda a alma, com gritos de alegria e júbilo sem limites.
10. Mas ele, como quem possuía uma piedade inata para com Deus, não se exaltou com os gritos nem se envaideceu com os louvores; mas, percebendo que o seu auxílio vinha de Deus, ordenou imediatamente que se pusesse na mão da sua própria estátua um troféu da paixão do Salvador.
11. E, depois de colocá-la, com o sinal salvador da cruz na mão direita, no lugar mais público de Roma, mandou gravar nela, na língua romana, a seguinte inscrição: “Por este sinal salutar, a verdadeira prova da bravura, salvei e libertei a cidade de vocês do jugo do tirano; e, além disso, tendo posto em liberdade o senado e o povo de Roma, restituí-lhes a sua antiga distinção e esplendor.”
12. E, depois disso, o próprio Constantino e com ele o imperador Licínio, que ainda não tinha sido tomado pela loucura em que mais tarde caiu, louvando a Deus como autor de todas as suas bênçãos, redigiram com uma só vontade e mente um decreto pleno e completíssimo em favor dos cristãos, e enviaram a Maximino, que ainda governava as nações do Oriente e fingia amizade para com eles, um relato das coisas maravilhosas feitas em seu favor por Deus e da vitória sobre o tirano, juntamente com uma cópia do próprio decreto.
13. Mas ele, como tirano que era, ficou muito aflito com o que soube; contudo, não querendo parecer ceder a outros, nem, por outro lado, suprimir o que fora ordenado, por medo dos que o ordenavam, dirigiu, como que por sua própria autoridade, mas sob coação, aos governadores que lhe estavam sujeitos esta primeira comunicação em favor dos cristãos, inventando falsamente contra si mesmo coisas que nunca tinham sido feitas por ele.
Cópia de uma tradução da epístola do tirano Maximino.
14. “Jóvio Maximino Augusto a Sabino. Estou certo de que é manifesto tanto à tua firmeza como a todos os homens que os nossos senhores Diocleciano e Maximiano, nossos pais, quando viram quase todos os homens abandonarem o culto dos deuses e se unirem ao partido dos cristãos, decretaram com razão que todos os que abandonassem o culto desses mesmos deuses imortais fossem reconduzidos ao culto dos deuses por correção e castigo públicos.
15. Mas, quando cheguei pela primeira vez ao Oriente sob auspícios favoráveis e soube que, em alguns lugares, muitíssimos homens capazes de prestar serviço público tinham sido banidos pelos juízes pela causa mencionada, ordenei a cada um dos juízes que dali em diante nenhum deles tratasse os provinciais com severidade, mas que antes os reconduzissem ao culto dos deuses com lisonjas e exortações.
16. Então, quando essas ordens foram obedecidas pelos juízes, de acordo com o meu mandado, aconteceu que nenhum dos que viviam nas regiões do Oriente foi banido ou insultado, mas que antes foram trazidos de volta ao culto dos deuses pelo fato de não se usar de severidade para com eles.
17. Mas depois, quando no ano passado subi sob bons auspícios a Nicomédia e lá me demorei, cidadãos dessa mesma cidade vieram a mim com as imagens dos deuses, suplicando insistentemente que de modo algum se permitisse a tal povo habitar na sua terra.
18. Mas, quando soube que muitos homens da mesma religião habitavam naquelas regiões, respondi que lhes agradecia de bom grado o pedido, mas que percebia que ele não era apresentado por todos; e que, portanto, se houvesse alguns que perseverassem na mesma superstição, cada um tinha o privilégio de fazer como quisesse, ainda que desejasse reconhecer o culto dos deuses.
19. Apesar disso, considerei necessário dar uma resposta amistosa aos habitantes de Nicomédia e às outras cidades que me tinham apresentado com tanto empenho a mesma petição, a saber, que nenhum cristão habitasse nas suas cidades (tanto porque esse mesmo procedimento fora seguido por todos os antigos imperadores, como também porque agradava aos deuses, por meio dos quais todos os homens e o próprio governo do Estado subsistem), e confirmar o pedido que apresentavam em favor do culto da sua divindade.
20. Por isso, embora antes deste tempo se tenham enviado cartas especiais à tua devoção e se tenham dado igualmente ordens para que não se tomassem medidas duras contra os provinciais que desejam seguir tal procedimento, mas que fossem tratados com brandura e moderação, ainda assim, para que não sofram insultos nem extorsões da parte dos beneficiários ou de quaisquer outros, julguei conveniente lembrar à tua firmeza, também nesta epístola, que conduzas os nossos provinciais antes com lisonjas e exortações a reconhecerem o cuidado dos deuses.
21. Portanto, se alguém, por sua própria escolha, decidir adotar o culto dos deuses, convém que seja bem recebido; mas, se alguns quiserem seguir a sua própria religião, deixa-o ao arbítrio deles.
22. Por isso, cabe à tua devoção observar o que te foi confiado e cuidar de que a ninguém seja dado poder para oprimir os nossos provinciais com insultos e extorsões, visto que, como já foi escrito, convém reconduzir os nossos provinciais ao culto dos deuses antes por exortações e lisonjas. Mas, para que esta nossa ordem chegue ao conhecimento de todos os nossos provinciais, incumbe-te proclamar o que foi ordenado, num édito promulgado por ti mesmo.”
23. Visto que foi forçado a fazer isso pela necessidade e não deu a ordem por sua própria vontade, ninguém o considerou sincero nem digno de confiança, porque já mostrara a sua disposição instável e enganosa depois da sua concessão semelhante anterior.
24. Nenhum dos nossos, portanto, se aventurou a realizar reuniões ou mesmo a aparecer em público, porque a sua comunicação não abrangia isso: apenas ordenava que se evitasse fazer-nos qualquer dano, e não dava ordens para que realizássemos reuniões, construíssemos igrejas ou praticássemos qualquer dos nossos atos costumeiros.
25. E, no entanto, Constantino e Licínio, defensores da paz e da piedade, tinham-lhe escrito que permitisse isso, e o tinham concedido a todos os seus súditos por éditos e ordenanças. Mas esse homem impiíssimo não quis ceder nesse ponto até que, impelido pelo juízo divino, foi por fim obrigado a fazê-lo contra a sua vontade.
1. As circunstâncias que o levaram a esse procedimento foram as seguintes. Não podendo mais sustentar a grandeza do governo que lhe fora confiado sem merecimento, por falta de prudência e de entendimento imperial, conduzia os negócios de maneira vil; e, com a mente desarrazoadamente exaltada em tudo por um orgulho jactancioso, até para com os seus colegas no império, que lhe eram superiores em todos os aspectos, em nascimento, formação, educação, valor e inteligência e, o maior de tudo, em temperança e piedade para com o verdadeiro Deus, começou a ousar agir com audácia e a arrogar-se o primeiro lugar.
2. Enlouquecendo na sua insensatez, rompeu os tratados que fizera com Licínio e empreendeu uma guerra implacável. Então, em pouco tempo, lançou tudo em confusão, agitou todas as cidades e, tendo reunido todas as suas forças, compostas de um número imenso de soldados, saiu a combater contra ele, envaidecido pelas suas esperanças nos demônios, que julgava serem deuses, e pelo número dos seus soldados.
3. E, quando travou a batalha, ficou privado da vigilância de Deus, e a vitória foi dada a Licínio, que então governava, pelo único Deus de todos.
4. Primeiro, foi destruído o exército em que confiava; e, como todos os seus guardas o abandonaram, o deixaram sozinho e fugiram para o vencedor, despojou-se secretamente, o mais depressa possível, das vestes imperiais, que não lhe pertenciam com justiça, e de modo covarde, ignóbil e indigno de homem misturou-se à multidão; e depois fugiu, escondendo-se em campos e aldeias. Mas, embora tão cuidadoso com a sua segurança, mal escapou das mãos dos inimigos, revelando pelos seus feitos que são fiéis e verdadeiros os oráculos divinos em que se diz: “Um rei não se salva por um grande exército, e um gigante não será salvo pela grandeza da sua força; o cavalo é coisa vã para a salvação, e não se livrará pela grandeza do seu poder.
5. Eis que os olhos do Senhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua misericórdia, para livrar a alma deles da morte” (Sl 33.16-19).
6. Assim o tirano, coberto de vergonha, foi para a sua terra. E primeiro, em fúria frenética, matou muitos sacerdotes e profetas dos deuses que antes admirava e cujos oráculos o tinham incitado a empreender a guerra, como feiticeiros e impostores e, sobretudo, como traidores da sua segurança. Depois, tendo dado glória ao Deus dos cristãos e promulgado uma ordenança plena e completíssima em favor da liberdade deles, foi imediatamente tomado por uma doença mortal e, sem que lhe fosse concedida trégua alguma, partiu desta vida. A lei promulgada por ele foi a seguinte:
Cópia do édito do tirano em favor dos cristãos, traduzido da língua romana.
7. “O imperador César Caio Valério Maximino, Germânico, Sarmático, Pio, Feliz, Invicto, Augusto. Cremos ser manifesto que ninguém ignora, antes todo homem que olha para o passado sabe e tem consciência de que de todos os modos cuidamos continuamente do bem dos nossos provinciais e desejamos proporcionar-lhes aquelas coisas que são de especial proveito para todos, para o benefício e a utilidade comuns, e tudo o que contribui para o bem público e é agradável às opiniões de cada um.
8. Quando, portanto, antes disso, ficou claro à nossa mente que, sob o pretexto da ordem dos nossos pais, os diviníssimos Diocleciano e Maximiano, que mandava abolir as reuniões dos cristãos, muitas extorsões e espoliações tinham sido praticadas por funcionários; e que esses males aumentavam continuamente, em prejuízo dos nossos provinciais, para com os quais desejamos especialmente exercer o devido cuidado, e que as suas posses por isso pereciam, foram enviadas no ano passado cartas aos governadores de cada província, nas quais decretamos que, se alguém quisesse seguir tal prática ou observar essa mesma religião, lhe fosse permitido prosseguir o seu propósito sem impedimento, sem ser estorvado nem embaraçado por ninguém, e que todos tivessem liberdade de fazer, sem qualquer medo ou suspeita, aquilo que cada um preferisse.
9. Mas, ainda agora, não podemos deixar de perceber que alguns dos juízes entenderam mal as nossas ordens, deram ao nosso povo motivo para duvidar do sentido das nossas ordenanças e fizeram que ele procedesse com relutância excessiva à observância daqueles ritos religiosos que lhe são agradáveis.
10. Para que, portanto, no futuro se tire toda suspeita de dúvida temerosa, ordenamos que se publique este decreto, para que fique claro a todos que quem deseja abraçar essa seita e religião tem permissão para fazê-lo em virtude desta nossa concessão; e que a cada um, como deseja ou como lhe agrada, é permitido praticar essa religião que escolheu observar segundo o seu costume. Também lhes é concedido construir casas do Senhor.
11. Mas, para que esta nossa concessão seja ainda maior, julgamos bom decretar também que, se algumas casas e terras antes deste tempo pertenciam legitimamente aos cristãos e, por ordem dos nossos pais, passaram ao tesouro ou foram confiscadas por alguma cidade, quer tenham sido vendidas, quer dadas de presente a alguém, todas elas sejam restituídas aos seus possuidores originais, os cristãos, para que também nisso todos tenham conhecimento da nossa piedade e cuidado.”
12. Essas são as palavras do tirano, publicadas não um ano inteiro depois dos decretos contra os cristãos que ele mandara gravar em colunas. E aquele para quem pouco antes parecíamos miseráveis ímpios, ateus e destruidores de toda vida, a ponto de não nos ser permitido habitar em cidade alguma, nem mesmo no campo ou no deserto, esse mesmo promulgou decretos e ordenanças em favor dos cristãos; e os que pouco antes tinham sido destruídos pelo fogo e pela espada, pelas feras e pelas aves de rapina, na presença do próprio tirano, e tinham sofrido toda espécie de tortura e castigo e as mortes mais miseráveis como ateus e ímpios miseráveis, eram agora reconhecidos por ele como possuidores de religião e tinham permissão para construir igrejas; e o próprio tirano testemunhou e confessou que eles tinham alguns direitos.
13. E, tendo feito tais confissões, como se tivesse recebido algum benefício por causa delas, sofreu talvez menos do que deveria ter sofrido; e, ferido por um súbito flagelo de Deus, pereceu na segunda campanha da guerra.
14. Mas o seu fim não foi como o dos chefes militares que, combatendo valentemente na batalha pela virtude e pelos amigos, muitas vezes enfrentam com ousadia uma morte gloriosa; pois, como ímpio inimigo de Deus, enquanto o seu exército ainda estava formado no campo, ficando em casa e escondendo-se, sofreu o castigo que merecia. Pois foi ferido por um súbito flagelo de Deus em todo o corpo e, atormentado por dores e tormentos terríveis, caiu prostrado por terra, consumido pela fome, enquanto toda a sua carne se dissolvia por um fogo invisível enviado por Deus, de modo que todo o aspecto do seu corpo se alterou, e restou apenas uma espécie de imagem, consumida pelo tempo até se tornar um esqueleto de ossos secos; de modo que os presentes não podiam ver o seu corpo senão como o túmulo da sua alma, sepultada num corpo já morto e inteiramente desfeito.
15. E, como o calor o consumia com violência ainda maior no fundo da medula, os seus olhos saltaram e, caindo das órbitas, deixaram-no cego. Então, ainda respirando e fazendo ao Senhor uma confissão franca, invocou a morte; e por fim, depois de reconhecer que sofria justamente essas coisas por causa da sua violência contra Cristo, entregou o espírito.
1. Assim, quando Maximino, o único que restara dos inimigos da religião e que se mostrara o pior de todos, foi tirado do caminho, começou pela graça de Deus, o Governante de todos, a renovação das igrejas desde os alicerces, e a palavra de Cristo, brilhando para a glória do Deus do universo, alcançou maior liberdade do que antes, enquanto os ímpios inimigos da religião eram cobertos da maior vergonha e desonra.
2. Pois o próprio Maximino, primeiro declarado inimigo público pelos imperadores, foi proclamado por editais públicos um tirano impiíssimo, execrável e inimigo de Deus. E dos retratos que tinham sido erguidos em cada cidade em sua honra ou em honra dos seus filhos, alguns foram derrubados dos seus lugares ao chão e feitos em pedaços, enquanto o rosto de outros foi apagado, borrado com tinta preta. E as estátuas que tinham sido erguidas em sua honra foram igualmente derrubadas e quebradas, e ficaram expostas ao riso e ao escárnio dos que queriam insultá-las e ultrajá-las.
3. Então também foram tiradas todas as honras dos outros inimigos da religião, e foram mortos todos os que tomaram o partido de Maximino, especialmente os que tinham sido honrados por ele com altos cargos em recompensa da sua lisonja e se tinham portado com insolência para com a nossa doutrina.
4. Tal foi Peucécio, o mais querido dos seus companheiros, que fora honrado e recompensado por ele acima de todos, que fora cônsul pela segunda e pela terceira vez e fora nomeado por ele ministro principal; e Culciano, que igualmente subira por todos os graus dos cargos e era também célebre pelas inumeráveis execuções de cristãos no Egito; e, além desses, não poucos outros, por cuja ação sobretudo a tirania de Maximino fora confirmada e estendida.
5. Também Teotecno foi chamado pela justiça, que de modo algum deixou passar os seus feitos contra os cristãos. Pois, depois que ele erguera a estátua em Antioquia, parecia estar na mais feliz das condições, e já fora feito governador por Maximino.
6. Mas Licínio, descendo à cidade de Antioquia, fez uma investigação dos impostores e torturou os profetas e sacerdotes da estátua recém-erguida, perguntando-lhes por que razão praticavam o seu engano. Eles, sob a pressão da tortura, não puderam mais ocultar o assunto e declararam que todo o mistério enganoso fora tramado pela arte de Teotecno. Por isso, depois de aplicar a todos eles um justo julgamento, condenou à morte primeiro o próprio Teotecno e depois os seus cúmplices na impostura, com as mais severas torturas possíveis.
7. A todos esses se juntaram também os filhos de Maximino, que ele já fizera participantes da dignidade imperial, pondo os seus nomes em tabuletas e estátuas. E os parentes do tirano, que antes tinham sido jactanciosos e no seu orgulho tinham oprimido todos os homens, sofreram os mesmos castigos que os já mencionados, além da mais extrema desonra. Pois não tinham recebido instrução, nem conheciam e entendiam a exortação dada na Palavra Santa:
8. “Não confiem em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação; o seu espírito sairá e voltará à sua terra; naquele dia perecem todos os seus pensamentos” (Sl 146.3-4).
9. Removidos assim os ímpios, o governo foi preservado firme e incontestado para Constantino e Licínio, a quem cabia com justiça. Eles, tendo primeiro purificado o mundo da hostilidade ao Ser Divino, conscientes dos benefícios que ele lhes concedera, mostraram o seu amor à virtude e a Deus, e a sua piedade e gratidão para com a Divindade, pela sua ordenança em favor dos cristãos.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Arthur Cushman McGiffert (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 1, Nova York, 1890), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é grego: esta é, portanto, tradução de tradução. As notas de McGiffert, de comentário erudito, foram omitidas; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Eusébio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.