Walker, História da Igreja Cristã · Período III

Período III, seções I a IV

I. A situação transformada; II. A controvérsia ariana até a morte de Constantino; III. A controvérsia sob os filhos de Constantino; IV. A luta nicena posterior.

Período III. A Igreja imperial do Estado

Seção I. A situação transformada

Para a mentalidade essencialmente política de Constantino, o cristianismo era o remate do processo de unificação que havia muito vinha avançando no império. O império tinha um só imperador, uma só lei e uma só cidadania para todos os homens livres. Devia ter uma só religião. Constantino, porém, agiu devagar. Embora os cristãos estivessem distribuídos de modo muito desigual, e fossem muito mais numerosos no Oriente do que no Ocidente, não passavam de uma fração da população quando o Edito de Milão lhes concedeu direitos iguais. A igreja havia crescido com grande rapidez durante a paz da segunda metade do século III. Sob o favor imperial, o seu aumento se deu a passos largos. Esse favor Constantino demonstrou prontamente. Por uma lei de 319, o clero foi isento dos encargos públicos que pesavam tão duramente sobre a parte abastada da população.1 Em 321 concedeu-se o direito de receber legados e, com isso, reconheceram-se os privilégios da igreja como corporação.2 No mesmo ano proibiu-se o trabalho dominical à população das cidades.3 Em 319 foram proibidos os sacrifícios pagãos privados.4 Fizeram-se doações ao clero, e grandes igrejas foram erguidas em Roma, Jerusalém, Belém e outros lugares sob os auspícios imperiais. Acima de tudo, foi de alta importância a transferência formal da capital, por Constantino, para a reconstruída Bizâncio, que ele chamou de Nova Roma, mas que o mundo denominou, em sua honra, Constantinopla. Sem dúvida política e defensiva nos seus motivos, teve consequências religiosas de longo alcance. Desde a sua fundação oficial, em 330, ela estabeleceu a sede do império numa cidade de poucas tradições ou influências pagãs, situada na parte mais fortemente cristianizada do mundo. Além disso, deixou o bispo de Roma como o homem mais em evidência na antiga capital, para a qual o Ocidente de língua latina ainda olhava com reverência, numa proeminência tanto mais capaz de futura importância por ter sido inteiramente involuntária da parte de Constantino e por ser antes espiritual do que política. Por maiores que fossem os favores que Constantino concedeu à igreja, eram apenas para aquela porção forte, coesa e hierarquicamente organizada que se chamava a si mesma “católica”. As várias seitas “heréticas”, e ainda eram muitas, não podiam esperar nenhuma generosidade das suas mãos.

Se o cristianismo havia de ser um fator de união no império, a igreja tinha de ser una. Constantino encontrou essa unidade seriamente ameaçada. No norte da África, a perseguição sob Diocleciano havia levado a um cisma, de causas algo complicadas e pessoais, mas semelhante ao de Novaciano em Roma, meio século antes (ver Período II, seção XVI). A igreja ali estava dividida. O partido rigorista acusava o novo bispo de Cartago, Ceciliano, de ter recebido a ordenação, em 311, das mãos de alguém em pecado mortal, que havia entregado exemplares das Escrituras na perseguição recente. Considerou inválida essa ordenação e elegeu um bispo rival, Majorino. O sucessor deste, em 316, foi o hábil Donato, o Grande, de quem os cismáticos receberam o nome de donatistas. Em 313 Constantino fez doações em dinheiro ao clero “católico” do norte da África.5 Delas os donatistas não participaram, e apelaram ao imperador. Um sínodo realizado em Roma no mesmo ano decidiu contra eles, mas a disputa só se tornou mais amarga. Constantino traçou então o que seria, dali em diante, a política imperial nas questões eclesiásticas. Convocou um sínodo da sua parte do império para se reunir, à custa do erário público, em Arles, no sul da Gália. A própria igreja devia decidir a controvérsia, mas sob controle imperial. Ali se reuniu um grande concílio em 314. As pretensões donatistas foram condenadas. Declarou-se válida a ordenação mesmo quando conferida por um clérigo pessoalmente indigno. Reconheceu-se o batismo dos hereges, e aprovou-se a data romana da Páscoa.6 Os donatistas apelaram ao imperador, que mais uma vez decidiu contra eles, em 316; e, como se recusassem a ceder, passou a fechar as suas igrejas e a banir os seus bispos. Exibiu-se o espetáculo nada invejável da perseguição de cristãos por cristãos. O norte da África ficou em tumulto. Con- stantino, porém, ficou insatisfeito com os resultados e, em 321, abandonou o uso da força contra esses cismáticos. Eles cresceram rapidamente, pretendendo ser a única igreja verdadeira, dotada de um clero livre de “pecados mortais” e dos únicos sacramentos válidos. Os donatistas só desapareceram com a conquista maometana.

Seção II. A controvérsia ariana até a morte de Constantino

Um perigo muito mais sério para a unidade da igreja do que o cisma donatista com que Constantino se deparou foi a grande controvérsia ariana. Já se mostrou que, enquanto o Ocidente, graças à obra de Tertuliano e Novaciano, havia chegado a uma unanimidade prática quanto à unidade de substância entre Cristo e o Pai (ver Período II, seção VII), o Oriente estava dividido. Orígenes, ainda a sua influência teológica mais dominante, podia ser citado em sentidos opostos. Se havia ensinado a geração eterna do Filho, também o tinha considerado um segundo Deus e uma criatura (ver Período II, seção IX). Tendências adocionistas persistiam, além disso, nos arredores de Antioquia, ao passo que o sabelianismo se encontrava no Egito. O Oriente, ademais, interessava-se muito mais pela teologia especulativa do que o Ocidente e, por isso, era mais propenso à discussão; nem pode haver dúvida de que, no século IV, havia muito mais capacidade intelectual na parte do império de língua grega do que na de língua latina.

A causa real da luta foram essas interpretações divergentes; mas a controvérsia propriamente dita começou em Alexandria, por volta de 320, numa disputa entre Ário e o seu bispo, Alexandre (312?-328). Ário, discípulo de Luciano de Antioquia (ver Período II, seção XVIII), era presbítero encarregado da igreja conhecida como Baucális. Era de idade avançada e tido em alta estima como pregador de saber, capacidade e piedade. Influências monarquianas absorvidas em Antioquia levaram-no a enfatizar a unidade e a existência autossuficiente de Deus. Na medida em que era seguidor de Orígenes, representava o ensino do grande alexandrino de que Cristo era um ser criado. Como tal, não era da substância de Deus, mas fora feito, como as demais criaturas, “do nada”. Embora primogênito das criaturas e agente na formação do mundo, não era eterno. “O Filho tem um começo, mas… Deus é sem começo.”7 Cristo era, sem dúvida, Deus em certo sentido para Ário, mas um Deus inferior, de modo algum um com o Pai em essência ou em eternidade. Na encarnação, esse Logos entrou num corpo humano, tomando o lugar do espírito racional humano. No pensamento de Ário, Cristo não era nem plenamente Deus nem plenamente homem, mas um tertium quid entre ambos. É isso que torna a sua concepção inteiramente insatisfatória.

O bispo Alexandre foi influenciado pelo outro lado do ensino de Orígenes. Para ele, o Filho era eterno, semelhante em essência ao Pai e inteiramente incriado.8 A sua concepção talvez não fosse perfeitamente clara, mas a sua dessemelhança com a de Ário é evidente. Surgiu controvérsia entre Ário e Alexandre, ao que parece por iniciativa de Ário. Logo se tornou amarga e, por volta de 320 ou 321, Alexandre realizou em Alexandria um sínodo pelo qual Ário e vários dos seus simpatizantes foram condenados. Ário pediu socorro ao seu condiscípulo da escola de Luciano, o poderoso bispo Eusébio de Nicomédia, e logo encontrou refúgio junto dele. Alexandre escreveu amplamente aos bispos seus colegas, e Ário defendeu a própria posição, ajudado por Eusébio. O mundo eclesiástico oriental ficou em grande agitação.

Tal era a situação quando a vitória de Constantino sobre Licínio o tornou senhor do Oriente bem como do Ocidente. A disputa ameaçava a unidade da igreja, que ele julgava essencial. Por isso Constantino enviou o seu principal conselheiro eclesiástico, o bispo Ósio de Córdoba, na Espanha, a Alexandria com uma carta imperial que aconselhava a paz e descrevia a questão envolvida como “uma questão sem proveito”.9 O esforço, bem-intencionado mas desajeitado, foi em vão. Constantino passou então a empregar o mesmo expediente de que já se servira em Arles na disputa donatista. Convocou um concílio da igreja inteira. O de Arles havia representado toda a parte do império então governada por Constantino. Constantino era agora senhor de todo o império e, por isso, foram convocados bispos de todo o império. O princípio era o mesmo, mas a extensão da jurisdição ampliada de Constantino fez da assembleia de Niceia o Primeiro Concílio Geral da igreja.

O concílio, que se reuniu em Niceia em maio de 325, sempre viveu na tradição cristã como o mais importante da história da igreja. Para ele os bispos foram convocados à custa do governo, acompanhados de clérigos inferiores, que, no entanto, não tinham voto nas suas decisões. O Oriente tinha enorme preponderância. Dos cerca de trezentos bispos presentes, apenas seis eram do Ocidente. Havia nele três partidos. Uma pequena facção, liderada por Eusébio de Nicomédia, era de arianos convictos. Outro pequeno grupo apoiava Alexandre com igual empenho. A grande maioria, da qual o historiador da igreja Eusébio de Cesareia era um dos líderes, não era profundamente versada na questão em debate. Na verdade, a maioria, no seu conjunto, foi descrita por um escritor pouco simpático como “simplórios”.10 Na medida em que tinham alguma opinião, apoiavam-se na base geral dos ensinos de Orígenes. Em destaque na assembleia estava o próprio imperador, que, embora não batizado e, portanto, tecnicamente não membro pleno da igreja, era personagem eminente demais para não ser acolhido com entusiasmo.

Quase no começo do concílio foi rejeitado um credo apresentado pelos arianos. Eusébio de Cesareia ofereceu então o credo da sua própria igreja. Era uma confissão de sonoridade agradável, datada de antes da controvérsia e, por isso, inteiramente indefinida quanto aos problemas particulares em causa. Esse credo cesariense foi então emendado de modo muito significativo pela inserção das expressões “gerado, não feito” e “de uma só essência (homoousion, ὁμοούσιον) com o Pai”, e pela rejeição expressa de fórmulas arianas como “houve quando ele não era” e “ele foi feito das coisas que não eram”. As palavras essência, substância (οὐσία) e hipóstase (ὑπόστασις), mais tarde tecnicamente distintas, foram usadas aqui como expressões equivalentes. Loofs mostrou de modo conclusivo11 que as influências que garantiram essas mudanças eram ocidentais, sem dúvida sobretudo a de Ósio de Córdoba, apoiado pelo imperador. Em particular, a palavra de prova, homoousion, havia muito era ortodoxa no seu equivalente latino, e estivera em uso filosófico no século II, embora tivesse sido rejeitada por um sínodo em Antioquia no processo contra Paulo de Samósata (ver Período II, seção VIII). De fato, o próprio Atanásio a usou com muita parcimônia na sua primeira defesa da fé nicena. É fácil compreender a atitude de Constantino. Sendo essencialmente um político, julgou naturalmente que uma fórmula que não encontraria oposição na metade ocidental do império e receberia o apoio de uma parte do Oriente era mais aceitável do que uma que, tendo a seu favor apenas uma parte do Oriente, seria rejeitada por todo o Ocidente. À influência de Constantino deveu-se a adoção da definição nicena. Que ele jamais tenha compreendido os seus matizes de sentido é mais que duvidoso; mas queria uma expressão unânime da fé da igreja sobre a questão em disputa, e julgou tê-la encontrado. Sob a sua supervisão, todos os bispos presentes, exceto dois, a assinaram. Esses dois, e Ário, Constantino mandou para o exílio. A política imperial havia, ao que parecia, assegurado a unidade da igreja e lhe havia dado o que ela nunca antes possuíra, uma declaração que se podia presumir ser um credo universalmente reconhecido.

Além dessa ação de formular assim o credo, o Concílio de Niceia promulgou vários cânones importantes que regulavam a disciplina eclesiástica, abriu caminho para o retorno dos que no Egito haviam aderido ao cisma meleciano por causa do tratamento dos caídos, facilitou a readmissão dos novacianos e determinou uma data uniforme para a celebração da Páscoa.

Não é de estranhar, em vista da maneira como o credo niceno foi adotado, que logo depois de encerrado o concílio se tenha manifestado no

Oriente grande oposição à sua palavra de prova, homoousion. Aos arianos derrotados ela era, naturalmente, odiosa. Eram poucos. Ao grande partido intermediário dos discípulos de Orígenes ela era pouco menos insatisfatória, pois lhes parecia sabeliana. Embora Eusébio de Nicomédia e o seu simpatizante ariano Teógnis de Niceia tivessem assinado, a sua hostilidade evidente foi tal que Constantino mandou os dois bispos para o exílio. Em 328, porém, já estavam de volta, possivelmente por favor da irmã do imperador, Constância. Eusébio logo adquiriu sobre Constantino maior influência do que qualquer outro eclesiástico do Oriente, e usou-a em favor da causa de Ário. Com tais elementos de oposição ao resultado de Niceia, a verdadeira batalha não se travou no concílio, mas no mais de meio século que se seguiu ao seu encerramento.

Nesse meio-tempo, o grande defensor da fé nicena havia entrado plenamente em cena. Atanásio nasceu em Alexandria por volta de 295. Nas primeiras fases da controvérsia ariana era diácono e servia como secretário particular do bispo Alexandre. Nessa qualidade acompanhou o seu bispo a Niceia e, com a morte de Alexandre, em 328, foi escolhido por sua vez para o episcopado alexandrino, cargo que haveria de ocupar, apesar dos ataques e de cinco exílios, até a própria morte, em 373. Não foi um grande teólogo especulativo, mas foi um grande caráter. Numa época em que o favor da corte contava muito, manteve-se firme como uma rocha nas suas convicções, e o fato de a teologia nicena ter afinal vencido deveu-se principalmente a ele, pois o Ocidente niceno não possuía nenhum teólogo capaz. Para ele, a questão em debate era uma questão de salvação, e o fato de ter feito os homens senti-la assim foi uma das principais fontes do seu poder. A concepção grega de salvação fora, desde os começos da tradição da Ásia Menor, a transformação da mortalidade pecadora em imortalidade divina e bem-aventurada, a comunicação da “vida” (ver Período I, seção VII). Só pela verdadeira divindade entrando em união com a plena humanidade em Cristo podia a transformação do humano em divino realizar-se nele, ou ser por ele mediada aos seus discípulos. Como disse Atanásio: “Ele [Cristo] se fez homem para que nós fôssemos feitos divinos.”12 No seu pensamento, o grande erro do arianismo era não oferecer base para uma salvação real. Foi muito bom para o partido niceno que um campeão tão moderado, e ao mesmo tempo tão resoluto, se levantasse em sua defesa, pois os outros dois defensores proeminentes da fé nicena, os bispos Marcelo de Ancira e Eustácio de Antioquia, estavam certamente longe de ser teologicamente irrepreensíveis, e foram acusados, não de todo com razão, de opiniões decididamente sabelianas.

Eusébio de Nicomédia logo viu em Atanásio o verdadeiro inimigo. Constantino não abandonaria a decisão de Niceia, mas o mesmo resultado prático, pensava Eusébio, podia ser alcançado golpeando os seus defensores. Diferenças políticas e teológicas foram habilmente usadas para obter a condenação de Eustácio em 330. Os eusebianos resolveram conseguir a derrota de Atanásio e a reabilitação de Ário. Este, que havia voltado do exílio até antes de Eusébio, apresentou então a Constantino um credo cuidadosamente indefinido quanto à questão em debate.13 Para a mente pouco teológica de Constantino, isso pareceu uma retratação satisfatória e uma expressão de disposição para fazer as pazes. Ordenou a Atanásio que restituísse Ário ao seu lugar em Alexandria. Atanásio recusou. Acusações de conduta arrogante e desleal foram levantadas contra Atanásio. Constantino acabou persuadido de que o principal obstáculo no caminho da paz era a obstinação de Atanásio. Os bispos reunidos para a dedicação da igreja recém-concluída de Constantino em Jerusalém reuniram-se em Tiro, e depois em Jerusalém, sob influências eusebianas, e decidiram em favor da reabilitação de Ário em 335; perto do fim do ano, Constantino desterrou Atanásio para a Gália. Pouco depois, as mesmas forças conseguiram a deposição de Marcelo de Ancira por heresia. Abatidos assim os principais defensores do credo niceno, os eusebianos planejaram a readmissão do próprio Ário à comunhão da igreja; mas, na véspera da cerimônia formal, Ário morreu subitamente (336). Sendo homem idoso, a emoção bem pode ter sido fatal.

A fé nicena parecia assim não derrubada oficialmente, mas minada na prática, quando Constantino morreu, em 22 de maio de 337. Pouco antes da morte, foi batizado pelas mãos de Eusébio de Nicomédia. As mudanças que a sua vida testemunhara, e que ele em grande parte produzira, na situação da igreja foram enormes; mas não foram de modo algum inteiramente vantajosas. Se a perseguição havia cessado e o número de fiéis crescia rapidamente sob o favor imperial, discussões doutrinárias que antes teriam seguido o seu curso eram agora questões políticas de primeira grandeza, e o imperador havia assumido nos assuntos eclesiásticos um poder que era de mau agouro para o futuro da igreja. Contudo, na constituição vigente do Império Romano, tais resultados eram provavelmente inevitáveis, uma vez que o próprio imperador se tornasse, como Constantino, adepto da fé cristã.

Seção III. A controvérsia sob os filhos de Constantino

À morte de Constantino seguiu-se a divisão do império entre os seus três filhos, com algumas disposições pretendidas em favor de outros parentes que foram frustradas por uma intriga palaciana e um massacre. Constantino II, o mais velho, recebeu a Britânia, a Gália e a Espanha; Constâncio, a Ásia Menor, a Síria e o Egito; e a parte intermediária coube ao mais novo, Constante. Constantino II morreu em 340, de modo que o império logo ficou dividido entre Constante, no Ocidente, e Constâncio, no Oriente. Ambos os imperadores mostraram-se, desde o início, mais partidários nas questões religiosas do que o pai havia sido. Um edito conjunto de 346 mandou fechar os templos e proibiu o sacrifício sob pena de morte.14 A lei, porém, foi aplicada apenas de leve. A controvérsia donatista no norte da África havia se estendido muito, e aquela terra, em consequência, era palco de grande agitação agrária e social. Os donatistas foram, por isso, atacados com força por Constante e, embora não inteiramente esmagados, foram em grande parte extirpados.

A relação mais importante dos filhos de Constantino com as questões religiosas da época foi com a contínua controvérsia nicena. Sob o seu governo, ela passou de uma disputa que praticamente envolvia apenas o Oriente, como sob Constantino, a uma contenda de todo o império. No começo dos seus reinados conjuntos, os imperadores permitiram que os bispos exilados voltassem. Atanásio, por isso, estava novamente em Alexandria antes do fim de 337. Eusébio, porém, ainda era o líder partidário mais influente do Oriente, e a sua autoridade só se fortaleceu quando foi promovido, em 339, do bispado de Nicomédia ao de Constantinopla, onde morreu por volta de 341. Pela influência de Eusébio, Atanásio foi expulso à força de Alexandria na primavera de 339, e um bispo ariano, Gregório da Capadócia, foi posto no seu lugar pelo poder militar. Atanásio fugiu para Roma, onde Marcelo de Ancira logo se juntou a ele.

Oriente e Ocidente estavam agora sob imperadores diferentes, e Constante mantinha-se fiel às simpatias nicenas dos seus súditos. Não só o império estava dividido, mas o bispo Júlio de Roma podia agora intervir fora do alcance de Constâncio. Acolheu os fugitivos e convocou os seus adversários a um sínodo em Roma, em 340, ao qual, porém, os eusebianos não compareceram. O sínodo declarou Atanásio e Marcelo injustamente depostos. Os líderes orientais responderam não só com protestos contra a ação romana, mas com uma tentativa de suprimir a própria fórmula nicena, na qual tiveram o apoio de Constâncio. Dois sínodos em Antioquia, em 341, adotaram credos que, na verdade, estavam longe de ser positivamente arianos na expressão, mas dos quais se omitiu tudo o que era definidamente niceno. Em alguns aspectos, representavam uma ortodoxia pré-nicena. A morte de Eusébio, agora de Constantinopla, nessa conjuntura privou os adversários da decisão de Niceia da sua hábil liderança. Os dois imperadores irmãos julgaram que a amarga disputa poderia ser mais bem resolvida por um novo concílio geral, e, assim, tal assembleia reuniu-se em Sárdica, a moderna Sófia, no outono de 343. Concílio geral, porém, não haveria de ser. Os bispos orientais, vendo-se em minoria diante dos do Ocidente, e vendo Atanásio e Marcelo na companhia destes, retiraram-se. Pelos ocidentais, Atanásio e Marcelo foram mais uma vez aprovados, embora este último fosse um peso considerável para a causa deles, por causa da sua ortodoxia duvidosa. Oriente e Ocidente pareciam à beira da separação eclesiástica.

O Concílio de Sárdica havia falhado completamente no seu objetivo de sanar a disputa, mas os ocidentais ali reunidos aprovaram, sob a liderança de Ósio de Córdoba, vários cânones que são de grande importância no desenvolvimento da autoridade judicial do bispo de Roma. O que fizeram foi converter em regra geral o procedimento efetivamente seguido havia pouco em relação a Atanásio e Marcelo. Decidiu-se que, caso um bispo fosse deposto, como estes haviam sido, poderia apelar ao bispo Júlio de Roma, que poderia mandar julgar o caso de novo por novos juízes, e nenhum sucessor seria nomeado até que se conhecesse a decisão de Roma.15 Eram regras puramente ocidentais e parecem ter despertado pouca atenção, mesmo em Roma, naquele tempo, mas foram importantes para o futuro.

Os dois irmãos imperiais convenceram-se de que a controvérsia estava assumindo aspectos sérios demais. Em todo caso, Constante favorecia Atanásio e, tendo morrido o bispo rival, Gregório, Constâncio permitiu que Atanásio voltasse a Alexandria em outubro de 347, onde foi acolhido com a maior cordialidade pela esmagadora maioria da população, que sempre o apoiara de coração. A situação parecia favorável a Atanásio, mas acontecimentos políticos de repente a tornaram pior do que jamais fora. Um imperador rival surgiu no Ocidente na pessoa de Magnêncio, e em 350 Constante foi assassinado. Três anos de luta deram a Constâncio a vitória sobre o usurpador e o deixaram como único governante do império (353).

Constâncio, enfim no pleno controle, resolveu pôr fim à controvérsia. No seu modo de ver, Atanásio era o principal inimigo. A liderança contra Atanásio estava agora nas mãos dos bispos Ursácio de Singiduno e Valente de Mursa. Em sínodos realizados em Arles, em 353, e em Milão, em 355, Constâncio obrigou os bispos ocidentais a abandonar Atanásio e a retomar a comunhão com os seus adversários orientais. Por resistirem a essas exigências, Libério, bispo de Roma, Hilário de Poitiers, o bispo mais erudito da Gália, e o velho Ósio de Córdoba foram mandados para o exílio. Atanásio, expulso de Alexandria pela força militar em fevereiro de 356, iniciou o seu terceiro exílio, encontrando refúgio nos seis anos seguintes principalmente entre os monges egípcios. Num sínodo realizado em Sírmio, residência do imperador, em 357, ousia (substância), em qualquer das suas combinações, foi proibida como não bíblica.16 Isso, até onde ia a influência do sínodo, equivalia à abolição da fórmula nicena. Ósio assinou-a, embora se recusasse terminantemente a condenar Atanásio. A declaração de Sírmio foi reforçada por um acordo obtido por Constâncio na pequena cidade trácia de Nice, em 359, no qual se afirmava: “chamamos o Filho semelhante ao Pai, como as santas Escrituras o chamam e ensinam”.17 O imperador e os seus bispos favoritos, sobretudo Valente de Mursa, conseguiram então a sua aceitação por sínodos que pretendiam representar o Oriente e o Ocidente, realizados em Rimini, Selêucia e Constantinopla. A antiga fórmula nicena foi posta de lado, e a igreja inteira havia, em teoria, aceitado o novo resultado. O termo apropriado, o único permitido nos círculos da corte, era “o Filho é semelhante ao Pai”, homoios; daí os que apoiavam o seu uso serem conhecidos como o partido homeu (“semelhante”). Aparentemente incolor, a história da sua adoção fez dela uma rejeição da fé nicena, e abriu a porta a afirmações arianas. Os arianos haviam triunfado por ora, e esse êxito foi grandemente auxiliado pelo fato de a sua fórmula homeia agradar a muitos que estavam profundamente cansados da longa controvérsia.

Na realidade, porém, a vitória ariana havia preparado o caminho para a ruína do arianismo, embora esse resultado não fosse imediatamente visível. A oposição à fórmula nicena sempre fora composta de dois elementos: uma pequena facção ariana e um corpo conservador muito maior, que se apoiava principalmente em posições alcançadas por Orígenes, para o qual o arianismo era odioso, mas que via o homoousios, a expressão nicena, como uma expressão injustificada, já condenada em Antioquia e de má reputação sabeliana. Ambos os elementos haviam trabalhado juntos para resistir à fórmula nicena, mas o seu acordo não ia além disso. Arianos extremados levantavam a cabeça em Alexandria e em outros lugares. Os conservadores eram ainda mais hostis a eles do que ao partido niceno. Não queriam dizer homoousios, de uma só substância, mas estavam dispostos a dizer homoiousios, não no sentido de substância semelhante, como seria a tradução natural, mas no de igualdade de atributos. Começavam também a distinguir entre ousia, substância, essência, e hypostasis, usando agora esta última no sentido de “subsistência”, em vez de torná-las equivalentes, como no símbolo niceno. Isso lhes permitia conservar o ensino origenista das “três hipóstases”, insistindo ao mesmo tempo na comunidade de atributos. O recém-formado partido intermediário apareceu primeiro num sínodo em Ancira, em 358, e os seus principais líderes iniciais foram os bispos Basílio de Ancira e Jorge de Laodiceia. Costumam ser chamados de semiarianos, mas o termo é impróprio. Rejeitavam energicamente o arianismo. Na realidade, estavam próximos de Atanásio. Ele reconheceu essa aproximação, e Hilário de Poitiers favoreceu a união sustentando que os conservadores entendiam por homoiousios o mesmo que o partido niceno entendia por homoousios.18 A vitória nicena final haveria de vir pela fusão dos partidos niceno e “semiariano”. Nessa união, a tradição da Ásia Menor e as interpretações de Orígenes haveriam de combinar-se com as de Alexandria. Foi, porém, um processo lento, e no seu desenvolvimento as concepções nicenas anteriores seriam consideravelmente modificadas na teologia neonicena.

Seção IV. A luta nicena posterior

Constâncio morreu em 361, quando se preparava para enfrentar o primo, Juliano, a quem os soldados em Paris haviam proclamado imperador. A sua morte deixou o mundo romano a Juliano. Poupado por causa da pouca idade no massacre do pai e de outros parentes por ocasião da morte de Constantino, ele considerava Constâncio o assassino do seu pai. Criado com a vida em perigo e obrigado a uma estrita observância eclesiástica exterior, passou a odiar tudo o que Constâncio representava, e encheu-se de admiração pela literatura, pela vida e pela filosofia do antigo helenismo. Não foi um “apóstata” no sentido de vira-casaca. Embora necessariamente oculto do público, o seu paganismo era real havia muito, quando a campanha contra Constân- cio lhe permitiu declará-lo publicamente. Era um paganismo de caráter místico e filosófico. Ao subir ao trono, tentou um reavivamento pagão. O cristianismo foi desencorajado em toda parte, e os cristãos foram afastados dos cargos. Os bispos banidos sob Constâncio foram chamados de volta, para que as brigas dos cristãos ajudassem a reação pagã. Atanásio esteve assim mais uma vez em Alexandria em 362, mas antes do fim do ano foi exilado pela quarta vez por Juliano, irritado com o seu êxito em fazer conversos dentre os pagãos. O reinado de Juliano logo terminou. Em 363 ele perdeu a vida numa campanha contra os persas. Nele Roma teve o seu último imperador pagão.

O reinado de Juliano mostrou a fraqueza real dos elementos arianizantes que Constâncio havia apoiado. Atanasianos e semiarianos aproximaram-se. Além disso, o debate niceno ampliava-se para incluir uma discussão das relações do Espírito Santo com a Divindade. Desde o tempo de Tertuliano, no Ocidente, Pai, Filho e Espírito Santo eram considerados três “pessoas” de uma só substância (ver Período II, seção VII). O Oriente não havia chegado a tal unanimidade. Até Orígenes estivera incerto se o Espírito era “criado ou incriado”, ou “filho de Deus ou não”.19 Não houvera muita discussão do tema. Agora que ele viera à tona, a homoousia do Espírito Santo com o Pai pareceu a Atanásio e aos seus amigos um corolário da homoousia do Filho. Num sínodo realizado em Alexandria em 362 por Atanásio, recém-regressado, foram redigidos termos de união para os partidos rivais em Antioquia. Bastaria “anatematizar a heresia ariana e confessar a fé confessada pelos santos Pais em Niceia, e anatematizar também os que dizem que o Espírito Santo é criatura e separado da essência de Cristo”.20 O emprego dos termos “três hipóstases” e “uma hipóstase” o sínodo considerou indiferente, contanto que “três” não fosse usado no sentido de “alheio em essência”, nem “uma” no de unidade sabeliana. Abriu-se assim a porta, pelo próprio Atanásio, não só à definição plena da doutrina da Trindade, mas também à ortodoxia neonicena, com a sua Divindade numa só essência (substância) e três hipóstases.

À morte de Juliano seguiu-se o breve reinado de

Joviano. O império tinha mais uma vez um governante cristão e, felizmente, um que pouco interferia na política eclesiástica. Atanásio voltou prontamente do seu quarto exílio. O governo de Joviano terminou em 364, e ele foi sucedido por Valentiniano I (364-375), que, achando a defesa do império uma tarefa grande demais, encarregou-se do Ocidente, dando ao irmão, Valente (364-378), a soberania do Oriente. Valentiniano pouco interferiu nos assuntos da igreja. Valente caiu sob a influência do clero ariano de Constantinopla, e os simpatizantes homoousianos e homoiousianos partilharam igualmente da sua aversão, situação que ajudou a aproximar esses partidos. Ele condenou Atanásio a um quinto e último exílio, em 365; mas foi breve, e o velho bispo não precisou ir para longe da cidade. Valente, porém, não foi um apoiador do arianismo tão vigoroso quanto Constâncio havia sido. Atanásio morreu em Alexandria, em 373, cheio de anos e de honras.

Com a morte de Atanásio, a liderança na luta passava às mãos de homens novos, do partido neoniceno. Os principais deles foram os três grandes capadócios, Basílio de Cesareia da Capadócia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa. Nascido de uma família capadócia proeminente por volta de 330, Basílio recebeu a melhor formação que Constantinopla e Atenas podiam proporcionar, em convivência estudantil com o seu amigo de toda a vida, Gregório de Nazianzo. Por volta de 357 cedeu às tendências cristãs ascéticas da época e renunciou a toda ideia de uma carreira de promoção mundana, vivendo praticamente como monge. Visitou o Egito, então a pátria do nascente movimento monástico, e tornou-se o grande propagador do monaquismo na Ásia Menor. Era, porém, feito para os negócios e não para o claustro. Profundamente versado em Orígenes e simpatizante do partido homoiousiano, pertencia à ala que gradualmente entrou em comunhão com Atanásio e, como Atanásio, defendia a plena consubstancialidade do Espírito Santo. À ala do partido homoiousiano que se recusava a considerar o Espírito plenamente Deus, os chamados macedonianos, opôs vigorosa resistência. Foi uma vitória de longo alcance para a sua causa quando Basílio se tornou bispo da Cesareia da Capadócia, em 370. O cargo deu-lhe autoridade eclesiástica sobre uma grande parte da Ásia Menor oriental, que ele usou plenamente, até a sua morte prematura, em 379, para promover a causa neonicena. Procurou também promover um bom entendimento entre os adversários do arianismo no Oriente e os líderes do Ocidente.

Gregório de Nissa era o irmão mais novo de Basílio. Orador de talento e escritor de habilidade e clareza teológica ainda maiores que as de Basílio, não tinha os dons de organização e administração deste. O seu título vinha da pequena cidade capadócia, Nissa, da qual se tornou bispo em 371 ou 372. Viveu até depois de 394, e figura entre os quatro grandes Pais da Igreja Oriental.

Gregório de Nazianzo (329?-389?) tinha o seu título da cidade natal, onde o pai era bispo. Amigo íntimo de Basílio desde os tempos de estudante, sentia, como Basílio, forte atração pela vida monástica. A sua capacidade como pregador era maior que a de qualquer dos seus companheiros, mas foi exercida em postos muito variados. Como sacerdote, auxiliou o pai a partir de cerca de 361. Por Basílio foi feito bispo da aldeia de Sásima. Por volta de 378 foi a Constantinopla para combater o arianismo, que era a fé da imensa maioria dos seus habitantes. A ascensão do imperador zelosamente niceno Teodósio, em 379, deu-lhe o apoio necessário, e pregou com tal êxito que ganhou a fama de ter convertido a cidade à fé nicena. Teodósio fê-lo bispo de Constantinopla em 381. Mas os atritos da luta partidária e a inclinação para o retiro ascético, que já várias vezes antes o haviam afastado do mundo, levaram-no a renunciar logo a esse altíssimo cargo eclesiástico. Como escritor, equiparava-se a Gregório de Nissa. Como ele, é contado entre os Pais orientais, e o Oriente posterior deu-lhe o título de “o Teólogo”.

Aos três capadócios, mais do que a quaisquer outros, deveu-se a vitória intelectual da fé neonicena. Aos homens daquela época, a sua obra pareceu o triunfo da fórmula nicena. As modificações que eles realmente fizeram foram bem expressas por um recente escritor alemão:21

Atanásio (e Marcelo) ensinou o Deus único, que leva uma vida pessoal tríplice e que se revela como tal. Os capadócios pensam em três hipóstases divinas, que, por manifestarem a mesma atividade, são reconhecidas como possuidoras de uma só natureza e da mesma dignidade. O mistério, para o primeiro, estava na trindade; para os últimos, na unidade. […] Os capadócios interpretaram a doutrina de Atanásio de acordo com as concepções e os princípios subjacentes da cristologia do Logos de Orígenes. Pagaram, porém, pela sua realização um alto preço, cuja grandeza não perceberam: a ideia do Deus pessoal. Três personalidades e uma essência abstrata e impessoal são o resultado.

O êxito niceno original e o triunfo temporário do arianismo haviam sido possibilitados pela interferência imperial. A mesma força haveria de dar a vitória à ortodoxia neonicena. A morte de Valente na grande derrota romana diante dos visigodos, perto de Adrianópolis, em 378, deixou o seu sobrinho, Graciano, como único governante sobrevivente. Graciano preferiu cuidar do Ocidente e, sabiamente, nomeou como imperador do Oriente um general e administrador capaz, Teodósio, que acabou por se tornar, por um breve período, o último governante único do Império Romano. Nascido na Espanha, cresceu em plena simpatia com a teologia do Ocidente e partilhava ao máximo a sua devoção à fé nicena. Em 380, juntamente com Graciano, promulgou um edito determinando que todos deviam “manter a fé que o santo apóstolo Pedro deu aos romanos”, a qual definiu mais particularmente como a ensinada pelos bispos então em exercício, Dâmaso de Roma e Pedro de Alexandria.22 Esse edito constitui um marco na política imperial e no desenvolvimento eclesiástico. Dali em diante haveria uma só religião no império, e essa seria a cristã. Além disso, só haveria de existir aquela forma de cristianismo que ensinava uma só essência divina em três hipóstases, ou, como o Ocidente o expressaria em termos supostamente equivalentes, uma só substância em três pessoas.

Em 381 Teodósio realizou em Constantinopla um sínodo oriental, que acabou ganhando a reputação de Segundo Concílio Geral e obteve o crédito imerecido de suposto autor do credo que passou ao uso geral como “niceno”. Da sua obra pouco se sabe. Sem dúvida, porém, rejeitou aquela ala do partido homoiousiano, a macedoniana, que se recusava a aceitar a consubstancialidade do Espírito Santo, e aprovou o credo niceno original. Continuaram as divergências pessoais entre o Oriente e o Ocidente, e entre os partidos orientais; mas a maneira enérgica com que o imperador expulsou então os arianos decidiu a sorte do arianismo no império, apesar de uma breve tolerância do arianismo no norte da Itália por parte do sucessor de Graciano, Valentiniano II, influenciado pela mãe, contra a qual Ambrósio de Milão teve de lutar. Também ali a autoridade de Teodósio se fez sentir após a morte dela, por volta de 388. O arianismo no império era uma causa perdida, embora haja continuado por vários séculos entre os invasores germânicos, graças à obra missionária de Úlfilas (ver a Seção V).

Contudo, mesmo quando o sínodo de 381 se reuniu, o credo niceno, tal como adotado em 325, não satisfazia as exigências do desenvolvimento teológico do partido vitorioso. Nada dizia, por exemplo, sobre a consubstancialidade do Espírito Santo. Era desejável um credo que correspondesse mais plenamente ao estado da discussão, e de fato tal credo entrou em uso e, em 451, era tido como adotado pelo Concílio Geral de 381. Acabou por tomar o lugar do genuíno credo niceno, e é o conhecido como “niceno” até hoje. A sua origem exata é incerta, mas está estreitamente relacionado com o credo batismal de Jerusalém, tal como se pode reconstruir a partir do ensino de Cirilo, mais tarde bispo daquela cidade, por volta de 348; e também com o de Epifânio de Salamina, por volta de 374.23

Ao rever essa longa controvérsia, pode-se dizer que foi uma infelicidade não se ter adotado em Niceia uma expressão menos disputada, e duplamente infeliz que a interferência imperial tenha desempenhado papel tão grande nas discussões que se seguiram. Nessa luta, a igreja imperial nasceu, e uma política de interferência imperial desenvolveu-se plenamente. O afastamento da ortodoxia oficial tornara-se crime.

A atitude de Teodósio não foi menos rigorosa para com o paganismo remanescente do que para com os partidos cristãos heréticos. Em 392 proibiu o culto pagão sob penas semelhantes às de lesa-majestade e sacrilégio.24 Era a velha arma do paganismo contra o cristianismo, agora usada por mãos cristãs contra o paganismo. A tolerância de Constantino havia desaparecido inteiramente. Ainda assim, o culto pagão persistiu, e só lentamente se extinguiu.

Notas

1. Código Teodosiano, 16.2.2; Ayer, A Source Book for Ancient Church History [Livro de fontes da história da Igreja antiga], p. 283.

2. Ibid., 16.2.4; Ayer, p. 283.

3. Código de Justiniano, 3.12.3; Ayer, p. 284.

4. Código Teodosiano, 9.16.2; Ayer, p. 286.

5. Eusébio, História Eclesiástica, 10.6; Ayer, p. 281.

6. Ver Ayer, p. 291.

7. Ário a Eusébio, em Teodoreto, História Eclesiástica, 1.4; Ayer, p. 302.

8. Carta de Alexandre, em Sócrates, História Eclesiástica, 1.6.

9. Carta em Eusébio, Vida de Constantino, 2.64-72.

10. Sócrates, História Eclesiástica, 1.8.

11. Realencyklopädie für protestantische Theologie und Kirche [Enciclopédia de teologia e igreja protestantes], 2.14-15.

12. Sobre a Encarnação, 54.3.

13. Sócrates, História Eclesiástica, 1.26; Ayer, p. 307.

14. Código Teodosiano, 16.10.4; Ayer, p. 323.

15. Ver Ayer, pp. 364-366.

16. Hilário de Poitiers, Sobre os Sínodos, 11; Ayer, p. 317.

17. Ayer, p. 319.

18. Sobre os Sínodos, 88; Ayer, p. 319.

19. De Principiis, prefácio.

20. Tomo aos Antioquenos, 3; Ayer, p. 350.

21. Seeberg, Text-Book of the History of Doctrines [Manual de história das doutrinas], trad. inglesa, 1.232.

22. Código Teodosiano, 16.1; Ayer, p. 367.

23. Ayer, Source Book, pp. 354-356.

24. Código Teodosiano, 16.10.12; Ayer, p. 347.

Tradução para o português a partir de Williston Walker, A History of the Christian Church (Nova York, Charles Scribner’s Sons, 1918), 1ª edição, conferida com as imagens das páginas; domínio público. As notas são de Walker; as que eram só referência bíblica passaram para o texto. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.