Agostinho, Enquirídio · Parte 5
A predestinação e a vontade de Deus; a liberdade antes e depois da queda; o estado das almas antes da ressurreição; o castigo eterno; a esperança e a Oração do Senhor; o amor, fim de todos os mandamentos.
E, além disso, quem será tão insensato e blasfemo a ponto de dizer que Deus não pode mudar as más vontades dos homens, quaisquer que sejam, quando e onde ele quiser, e dirigi-las para o bem? Mas, quando ele o faz, faz por misericórdia; quando não o faz, é por justiça que não o faz, pois “Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer” (Rm 9.18). E, quando o apóstolo disse isso, estava ilustrando a graça de Deus, a propósito da qual acabara de falar dos gêmeos no ventre de Rebeca: “E os gêmeos ainda não eram nascidos, nem tinham feito o bem ou o mal, para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama, quando foi dito a Rebeca: ‘O mais velho será servo do mais moço'” (Rm 9.11-12). E, a respeito desse assunto, ele cita outro testemunho profético: “Amei Jacó, porém odiei Esaú” (Rm 9.13; Ml 1.2-3). Mas, percebendo o efeito que suas palavras poderiam ter sobre aqueles que não conseguiam penetrar com o entendimento a profundidade dessa graça, ele diz: “Que diremos, então? Que Deus é injusto? De modo nenhum!” (Rm 9.14). Pois parece injusto que, na ausência de qualquer mérito ou demérito, de obras boas ou más, Deus ame um e odeie o outro. Ora, se o apóstolo quisesse que entendêssemos que havia obras boas futuras de um e obras más futuras do outro, as quais naturalmente Deus conhecia de antemão, jamais teria dito “não por obras”, mas “por obras futuras”, e assim teria resolvido a dificuldade, ou melhor, nesse caso nem haveria dificuldade a resolver. Mas, como as coisas estão, depois de responder “De modo nenhum!”, isto é, longe de nós pensar que haja injustiça em Deus, ele passa a provar que não há injustiça alguma em Deus agir assim, e diz: “Pois ele diz a Moisés: ‘Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e terei compaixão de quem eu tiver compaixão'” (Rm 9.15; Êx 33.19). Ora, quem, senão um insensato, pensaria que Deus é injusto, seja ao aplicar a justiça penal aos que a mereceram, seja ao estender misericórdia aos indignos? Então ele tira a sua conclusão: “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia” (Rm 9.16). Assim, ambos os gêmeos nasceram filhos da ira, não por causa de obras suas, mas porque estavam presos nos grilhões daquela condenação original que veio por meio de Adão. Mas aquele que disse “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” amou Jacó por sua graça imerecida e odiou Esaú por seu juízo merecido. E, como esse juízo era devido a ambos, o primeiro aprendeu, pelo caso do segundo, que o fato de o mesmo castigo não ter caído sobre ele não lhe dava ocasião de se gloriar em mérito algum seu, mas somente nas riquezas da graça divina, porque “isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”. E, de fato, toda a face e, se posso usar a expressão, cada traço do semblante da Escritura transmite, por uma analogia muito profunda, esta advertência salutar a todo aquele que a examina com cuidado: que aquele que se gloria glorie-se no Senhor (cf. 1Co 1.31).
Ora, depois de exaltar a misericórdia de Deus, dizendo: “Assim, pois, isto não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que tem misericórdia”, para exaltar também a sua justiça (pois o homem que não alcança misericórdia encontra não iniquidade, mas justiça, já que não há iniquidade em Deus), ele acrescenta imediatamente: “Porque a Escritura diz a Faraó: ‘Foi para isto mesmo que eu o levantei, para mostrar em você o meu poder e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra'” (Rm 9.17; Êx 9.16). E então tira uma conclusão que se aplica a ambas, isto é, tanto à sua misericórdia quanto à sua justiça: “Logo, Deus tem misericórdia de quem quer e também endurece a quem ele quer” (Rm 9.18). “Tem misericórdia” por sua grande bondade, “endurece” sem nenhuma injustiça; de modo que nem aquele que é perdoado pode gloriar-se em algum mérito seu, nem aquele que é condenado pode queixar-se de outra coisa senão do seu próprio demérito. Pois somente a graça separa os redimidos dos perdidos, tendo todos sido envolvidos numa perdição comum por causa da sua origem comum. Ora, se alguém, ao ouvir isso, disser: “Por que Deus ainda se queixa? Pois quem pode resistir à sua vontade?” (Rm 9.19), como se o homem não devesse ser censurado por ser mau, visto que Deus tem misericórdia de quem quer e endurece a quem quer, longe de nós envergonhar-nos de responder como vemos que o apóstolo respondeu: “Mas, ó homem, quem és tu, que replicas a Deus? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: ‘Por que me fizeste assim?’ Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?” (Rm 9.20-21). Ora, algumas pessoas insensatas pensam que, nesse ponto, o apóstolo não tinha resposta a dar e que, por falta de uma razão a apresentar, repreendeu a presunção do seu interlocutor. Mas há grande peso nesta palavra: “Mas, ó homem, quem és tu?”. Num assunto como este, ela lembra ao homem, numa única palavra, os limites da sua capacidade e, ao mesmo tempo, transmite na realidade uma razão importante. Pois, se o homem não entende estas coisas, quem é ele para replicar a Deus? E, se as entende, não encontra mais espaço para réplica. Pois então percebe que todo o gênero humano foi condenado na sua cabeça rebelde por um juízo divino tão justo que, se nem um único membro da raça tivesse sido redimido, ninguém poderia com justiça questionar a justiça de Deus; e que era justo que os redimidos fossem redimidos de tal maneira que mostrassem, pelo número maior dos que não são redimidos e são deixados na sua justa condenação, o que toda a raça merecia e aonde o juízo merecido de Deus levaria até mesmo os redimidos, se a sua misericórdia imerecida não interviesse; para que toda boca se cale, a dos que querem gloriar-se nos próprios méritos, e para que aquele que se gloria glorie-se no Senhor (Rm 3.19; 1Co 1.31).
Estas são as grandes obras do Senhor, buscadas segundo toda a sua vontade (Sl 111.2), e tão sabiamente buscadas que, quando a criação inteligente, tanto angélica quanto humana, pecou, fazendo não a vontade dele, mas a sua própria, ele usou a própria vontade da criatura, que agia em oposição à vontade do Criador, como instrumento para cumprir a sua vontade, o Sumo Bem convertendo assim em proveito até mesmo o que é mau, para a condenação daqueles que, em sua justiça, predestinou ao castigo, e para a salvação daqueles que, em sua misericórdia, predestinou à graça. Pois, no que diz respeito à sua própria consciência, essas criaturas fizeram o que Deus não queria que fosse feito; mas, em vista da onipotência de Deus, de modo algum conseguiram alcançar o seu propósito. Pois no próprio fato de agirem em oposição à vontade dele, a vontade dele a respeito delas se cumpriu. E por isso é que “as obras do Senhor são grandes, buscadas segundo toda a sua vontade”, porque, de um modo indizivelmente estranho e maravilhoso, nem mesmo o que se faz em oposição à sua vontade frustra a sua vontade. Pois não seria feito se ele não o permitisse (e naturalmente a sua permissão não é contra a vontade, mas voluntária); nem um Ser bom permitiria que o mal fosse feito, a não ser porque, em sua onipotência, pode transformar o mal em bem.
Às vezes, porém, um homem, na bondade da sua vontade, deseja algo que Deus não deseja, embora a vontade de Deus também seja boa, ou melhor, muito mais plena e mais seguramente boa (pois a sua vontade jamais pode ser má): por exemplo, se um bom filho deseja ansiosamente que o pai viva, quando é boa vontade de Deus que ele morra. Por outro lado, é possível que um homem de vontade má deseje o que Deus quer em sua bondade: por exemplo, se um mau filho deseja que o pai morra, quando essa é também a vontade de Deus. É evidente que o primeiro deseja o que Deus não deseja e que o segundo deseja o que Deus deseja; e, no entanto, o amor filial do primeiro está mais em harmonia com a boa vontade de Deus, ainda que o seu desejo seja diferente do de Deus, do que a falta de afeição filial do segundo, ainda que o seu desejo seja o mesmo de Deus. Tão necessário é, para determinar se o desejo de um homem deve ser aprovado ou reprovado, considerar o que convém ao homem desejar e o que convém a Deus desejar, e qual é, em cada caso, o verdadeiro motivo da vontade. Pois Deus realiza alguns dos seus propósitos, que naturalmente são todos bons, por meio dos maus desejos dos ímpios: por exemplo, foi por meio dos desígnios perversos dos judeus, que executavam o bom propósito do Pai, que Cristo foi morto; e esse acontecimento foi tão verdadeiramente bom que, quando o apóstolo Pedro manifestou não querer que ele acontecesse, foi chamado de Satanás por aquele que viera para ser morto (Mt 16.21-23). Quão boas pareciam as intenções dos piedosos fiéis que não queriam que Paulo subisse a Jerusalém, para que não lhe sobreviessem ali os males que Ágabo havia predito (At 21.10-12)! E, no entanto, era propósito de Deus que ele sofresse esses males por pregar a fé de Cristo e, assim, se tornasse testemunha de Cristo. E esse seu propósito, que era bom, Deus não o cumpriu por meio dos bons conselhos dos cristãos, mas por meio dos maus conselhos dos judeus; de modo que os que se opunham ao seu propósito eram mais verdadeiramente seus servos do que os que eram instrumentos voluntários do seu cumprimento.
Mas, por mais fortes que sejam os propósitos dos anjos ou dos homens, sejam bons ou maus, quer esses propósitos concordem com a vontade de Deus, quer a contrariem, a vontade do Onipotente nunca é frustrada; e a sua vontade jamais pode ser má, porque, mesmo quando inflige o mal, é justa, e o que é justo certamente não é mau. O Deus onipotente, portanto, quer em misericórdia se compadeça de quem quer, quer em juízo endureça a quem quer, nunca é injusto no que faz, nunca faz coisa alguma senão por seu próprio livre-arbítrio e nunca quer coisa alguma que não realize.
Portanto, quando ouvimos e lemos na Escritura que ele “quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2.4), embora saibamos muito bem que nem todos os homens são salvos, não devemos por isso restringir a onipotência de Deus, mas antes entender a passagem “o qual quer que todos os homens sejam salvos” no sentido de que nenhum homem é salvo a não ser que Deus queira a sua salvação: não que não haja homem algum cuja salvação ele não queira, mas que nenhum homem é salvo sem a sua vontade; e que, portanto, devemos pedir-lhe que queira a nossa salvação, porque, se ele a quiser, ela necessariamente há de se cumprir. E era da oração a Deus que o apóstolo falava quando usou essa expressão. E pelo mesmo princípio interpretamos a expressão do Evangelho: “A verdadeira luz, que ilumina todo homem que vem ao mundo” (Jo 1.9): não que não haja homem algum que não seja iluminado, mas que nenhum homem é iluminado a não ser por ele. Ou então se diz “o qual quer que todos os homens sejam salvos”, não que não haja homem algum cuja salvação ele não queira (pois como explicar, então, o fato de que ele não quis realizar milagres na presença de alguns que, segundo ele mesmo disse, se teriam arrependido se ele os tivesse realizado?), mas que devemos entender por “todos os homens” o gênero humano em todas as suas variedades de posição e de condição: reis, súditos; nobres, plebeus, poderosos, humildes, instruídos e ignorantes; os sãos de corpo, os fracos, os inteligentes, os lentos, os insensatos, os ricos, os pobres e os de condição mediana; homens, mulheres, crianças de colo, meninos, adolescentes; jovens, homens de meia-idade e velhos; de toda língua, de todo costume, de todas as artes, de todas as profissões, com todas as inumeráveis diferenças de vontade e de consciência, e tudo o mais que estabelece distinção entre os homens. Pois de qual de todas essas classes Deus não quer que, em todas as nações, homens sejam salvos por meio do seu Filho unigênito, nosso Senhor, e por isso efetivamente os salva? Pois o Onipotente não pode querer em vão, seja o que for que queira. Ora, o apóstolo havia ordenado que se fizessem orações por todos os homens e acrescentara especialmente: “em favor dos reis e de todos os que exercem autoridade”, os quais se poderia supor que, no orgulho e na pompa da posição mundana, recuariam diante da humildade da fé cristã. Então, dizendo: “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador”, isto é, que se façam orações por pessoas assim, ele acrescenta imediatamente, como para remover qualquer motivo de desespero: “o qual quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.1-4). Deus, portanto, em sua grande condescendência, julgou bom conceder às orações dos humildes a salvação dos poderosos; e certamente temos muitos exemplos disso. Também nosso Senhor usa o mesmo modo de falar no Evangelho, quando diz aos fariseus: “Vocês dão o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças” (Lc 11.42). Pois os fariseus não davam o dízimo do que pertencia a outros, nem de todas as hortaliças de todos os habitantes de outras terras. Assim, pois, como nesse lugar devemos entender por “todas as hortaliças” toda espécie de hortaliças, assim também na passagem anterior podemos entender por “todos os homens” toda sorte de homens. E podemos interpretá-la de qualquer outra maneira que nos agrade, contanto que não sejamos obrigados a crer que o Deus onipotente quis que se fizesse alguma coisa que não foi feita: pois, deixando de lado todas as ambiguidades, se “ele fez tudo o que lhe agradou no céu e na terra” (Sl 135.6), como dele canta o salmista, certamente não quis fazer coisa alguma que não tenha feito.
Por isso, Deus teria querido conservar até mesmo o primeiro homem naquele estado de salvação em que foi criado e, depois que ele tivesse gerado filhos, transferi-lo no tempo oportuno, sem a intervenção da morte, para um lugar melhor, onde estaria não apenas livre do pecado, mas livre até mesmo do desejo de pecar, se tivesse previsto que o homem teria a vontade firme de perseverar no estado de inocência em que foi criado. Mas, como previu que o homem faria mau uso do seu livre-arbítrio, isto é, que pecaria, Deus dispôs os seus próprios desígnios antes com vistas a fazer bem ao homem mesmo em sua condição pecadora, para que assim a boa vontade do Onipotente não fosse anulada pela má vontade do homem, mas se cumprisse apesar dela.
Ora, era conveniente que o homem fosse a princípio criado de tal maneira que tivesse em seu poder tanto querer o que é reto quanto querer o que é errado; não sem recompensa, se quisesse o primeiro, e não sem castigo, se quisesse o segundo. Mas na vida futura não estará em seu poder querer o mal; e, no entanto, isso não constituirá restrição alguma à liberdade da sua vontade. Ao contrário, a sua vontade será muito mais livre quando lhe for inteiramente impossível ser escravo do pecado. Jamais pensaríamos em censurar a vontade, ou em dizer que não é vontade, ou que não deve ser chamada livre, pelo fato de desejarmos de tal modo a felicidade que não só fugimos da miséria, mas achamos de todo impossível agir de outra forma. Assim como a alma, já agora, acha impossível desejar a infelicidade, assim também no futuro ser-lhe-á inteiramente impossível desejar o pecado. Mas não se devia romper a ordem estabelecida por Deus, segundo a qual ele quis mostrar quão bom é um ser racional que é capaz até de abster-se do pecado, e quanto melhor ainda é aquele que não pode pecar de modo algum; assim como era de tipo inferior aquela imortalidade, e no entanto era imortalidade, quando era possível ao homem evitar a morte, embora esteja reservada para o futuro uma imortalidade mais perfeita, quando será impossível ao homem morrer.
A primeira imortalidade o homem a perdeu pelo exercício do seu livre-arbítrio; a segunda ele a obterá pela graça, ao passo que, se não tivesse pecado, a teria obtido por merecimento. Mesmo nesse caso, porém, não poderia haver mérito sem graça; porque, embora o simples exercício do livre-arbítrio do homem bastasse para introduzir o pecado, o seu livre-arbítrio não teria bastado para mantê-lo na justiça, se Deus não o tivesse auxiliado, comunicando-lhe uma parcela da sua bondade imutável. Assim como está no poder do homem morrer quando quiser (pois, para não falar de outros meios, qualquer um pode pôr fim a si mesmo pela simples abstenção de alimento), mas a mera vontade não pode conservar a vida na falta de alimento e dos outros meios de vida, assim também o homem no paraíso era capaz, por sua mera vontade, simplesmente abandonando a justiça, de destruir a si mesmo; mas manter uma vida de justiça teria sido demais para a sua vontade, se ela não fosse sustentada pelo poder do Criador. Depois da queda, porém, foi necessário um exercício mais abundante da misericórdia de Deus, porque a própria vontade precisava ser libertada da servidão em que o pecado e a morte a mantinham. E a vontade não deve a sua liberdade em grau algum a si mesma, mas unicamente à graça de Deus que vem pela fé em Jesus Cristo; de modo que a própria vontade, pela qual aceitamos todos os outros dons de Deus que nos conduzem ao seu dom eterno, é ela mesma preparada pelo Senhor, como diz a Escritura.
Por isso, até a própria vida eterna, que certamente é a recompensa das boas obras, o apóstolo chama de dom de Deus. “Porque o salário do pecado”, diz ele, “é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.23). O salário (stipendium) se paga como retribuição pelo serviço militar; não é dom: por isso ele diz “o salário do pecado é a morte”, para mostrar que a morte não foi infligida sem merecimento, mas como a retribuição devida ao pecado. Mas um dom, a não ser que seja inteiramente imerecido, não é dom de modo algum (cf. Rm 11.6). Devemos entender, portanto, que os próprios merecimentos bons do homem são dom de Deus, de modo que, quando estes alcançam a recompensa da vida eterna, isso é simplesmente graça dada por graça. O homem, portanto, foi feito reto de tal maneira que, embora incapaz de permanecer na sua retidão sem o auxílio divino, podia, por sua mera vontade, afastar-se dela. E, qualquer que fosse o caminho que tivesse escolhido, a vontade de Deus teria sido feita, ou por ele, ou a respeito dele. Portanto, como ele escolheu fazer a sua própria vontade em vez da de Deus, a vontade de Deus se cumpre a respeito dele; pois Deus, de uma só e mesma massa de perdição que constitui a raça humana, faz um vaso para honra e outro para desonra: para honra, em misericórdia; para desonra, em juízo (Rm 9.21); para que ninguém se glorie no homem e, por conseguinte, nem em si mesmo.
Pois não poderíamos ser redimidos, nem mesmo por meio do único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, se ele não fosse também Deus. Ora, quando Adão foi criado, sendo ele um homem justo, não tinha necessidade de mediador. Mas, quando o pecado abriu um grande abismo entre Deus e o gênero humano, convinha que um Mediador, o único da raça humana que nasceu, viveu e morreu sem pecado, nos reconciliasse com Deus e obtivesse até para os nossos corpos uma ressurreição para a vida eterna; a fim de que o orgulho do homem fosse exposto e curado pela humildade de Deus; de que se mostrasse ao homem quão longe ele se afastara de Deus, quando Deus se encarnou para trazê-lo de volta; de que se desse ao homem desobediente um exemplo na vida de obediência do Deus-Homem; de que a fonte da graça fosse aberta pelo Unigênito ao tomar sobre si a forma de servo, forma que não tinha nenhum mérito anterior; de que um penhor daquela ressurreição do corpo que é prometida aos redimidos fosse dado na ressurreição do Redentor; de que o diabo fosse vencido pela mesma natureza que ele se gabava de ter enganado, sem que, contudo, o homem fosse glorificado, para que o orgulho não brotasse de novo; e, enfim, com vistas a todas as vantagens que os que refletem podem perceber e descrever, ou perceber sem conseguir descrever, como decorrentes do mistério transcendente da pessoa do Mediador.
Além disso, durante o tempo que vai da morte do homem até a ressurreição final, a alma habita num retiro oculto, onde goza de repouso ou sofre aflição exatamente na proporção do mérito que adquiriu pela vida que levou na terra.
Nem se pode negar que as almas dos mortos são beneficiadas pela piedade de seus amigos vivos, que oferecem por elas o sacrifício do Mediador ou dão esmolas na igreja em seu favor. Mas esses serviços só aproveitam àqueles que, durante a vida, adquiriram tal mérito que serviços desse tipo lhes possam ser úteis. Pois há um modo de vida que nem é tão bom que não precise desses serviços depois da morte, nem tão mau que esses serviços nada valham depois da morte; há, por outro lado, um tipo de vida tão bom que não precisa deles; e há ainda outro tão mau que, terminada a vida, eles não prestam auxílio algum. Portanto, é nesta vida que se adquire todo o mérito ou demérito que pode aliviar ou agravar os sofrimentos do homem depois desta vida. Ninguém, pois, espere obter depois de morto, diante de Deus, o mérito que deixou de assegurar aqui. E, por conseguinte, é evidente que os serviços que a igreja celebra pelos mortos não se opõem de modo algum às palavras do apóstolo: “Porque é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo” (2Co 5.10; cf. Rm 14.10); pois o mérito que torna proveitosos ao homem os serviços de que falo é adquirido enquanto ele vive no corpo. Esses serviços não são proveitosos a todos. E por que não são proveitosos a todos, senão por causa dos diferentes tipos de vida que os homens levam no corpo? Quando, pois, se oferecem sacrifícios, seja do altar, seja de esmolas, em favor de todos os mortos batizados, eles são ações de graças pelos muito bons, ofertas propiciatórias pelos não muito maus e, no caso dos muito maus, ainda que não ajudem os mortos, são uma espécie de consolo para os vivos. E, onde são proveitosos, o seu benefício consiste em obter a plena remissão dos pecados ou, ao menos, em tornar a condenação mais tolerável.
Depois da ressurreição, porém, quando o juízo final e universal estiver concluído, haverá dois reinos, cada um com as suas fronteiras distintas, um de Cristo e outro do diabo; um formado pelos bons, outro pelos maus, ambos, porém, compostos de anjos e de homens. Aqueles não terão vontade de pecar, estes não terão poder de pecar, e nenhum dos dois terá poder algum de escolher a morte; mas aqueles viverão verdadeira e felizmente na vida eterna, e estes arrastarão uma existência miserável na morte eterna, sem o poder de morrer; pois tanto a vida como a morte serão sem fim. Mas entre os primeiros haverá graus de felicidade, sendo um mais eminentemente feliz que outro; e entre os segundos haverá graus de miséria, sendo um mais suportavelmente miserável que outro.
É em vão, portanto, que alguns, na verdade muitíssimos, se lamentam do castigo eterno e dos tormentos perpétuos e ininterruptos dos perdidos, e dizem não crer que assim será; não que se oponham diretamente à Sagrada Escritura, mas, por sugestão dos seus próprios sentimentos, abrandam tudo o que parece duro e dão um sentido mais brando a afirmações que julgam destinadas antes a aterrorizar do que a ser recebidas como literalmente verdadeiras. Pois, dizem eles: “Será que Deus se esqueceu de ser bondoso? Ou será que encerrou as suas misericórdias na sua ira?” (Sl 77.9). Ora, eles leem isso num dos santos salmos. Mas, sem dúvida, devemos entendê-lo como dito daqueles que em outro lugar são chamados “vasos de misericórdia” (Rm 9.23), porque também estes são libertados da miséria não por algum mérito seu, mas unicamente pela compaixão de Deus. Ou, se aqueles de quem falamos insistem em que essa passagem se aplica a todo o gênero humano, não há razão para que suponham por isso que haverá fim para o castigo daqueles de quem se diz: “E estes irão para o castigo eterno”; pois este acabará do mesmo modo e ao mesmo tempo que a felicidade daqueles de quem se diz: “porém os justos irão para a vida eterna” (Mt 25.46). Mas suponham, se o pensamento lhes dá prazer, que as penas dos condenados são, em certos intervalos, de algum modo aliviadas. Pois mesmo nesse caso a ira de Deus, isto é, a sua condenação (pois é isso, e não alguma perturbação na mente de Deus, que se chama a sua ira), permanece sobre eles (Jo 3.36); isto é, a sua ira, embora ainda permaneça, não encerra as suas misericórdias; ainda que as suas misericórdias se manifestem, não em pôr fim ao seu castigo eterno, mas em mitigar os seus tormentos ou em conceder-lhes uma trégua; pois o salmo não diz “para pôr fim à sua ira”, nem “quando a sua ira tiver passado”, mas “na sua ira” (Sl 77.9). Ora, ainda que essa ira estivesse sozinha, ou que existisse no menor grau concebível, ser perdido para o reino de Deus, ser exilado da cidade de Deus, ser alienado da vida de Deus, não ter parte naquela grande bondade que Deus reservou para os que o temem e preparou para os que nele confiam (Sl 31.19), seria um castigo tão grande que, supondo-o eterno, nenhum tormento que conhecemos, prolongado por tantos séculos quantos a imaginação humana possa conceber, se poderia comparar a ele.
Esta morte perpétua dos ímpios, portanto, isto é, a sua alienação da vida de Deus, permanecerá para sempre e será comum a todos eles, sejam quais forem as conjecturas que os homens, movidos por seus afetos humanos, façam sobre uma variedade de castigos ou sobre uma mitigação ou interrupção dos seus males; assim como a vida eterna dos santos permanecerá para sempre e será comum a todos eles, sejam quais forem os graus de posição e de honra que haja entre os que resplandecem com um fulgor harmonioso.
Desta confissão de fé, que está brevemente compreendida no Credo e que, entendida carnalmente, é leite para crianças, mas, apreendida e estudada espiritualmente, é alimento para homens fortes, brota a boa esperança dos fiéis; e esta é acompanhada de um santo amor. Mas, de todas essas coisas, que são todas verdadeiros objetos de fé, somente pertencem à esperança as que estão contidas na Oração do Senhor. Pois “Maldito aquele que confia no ser humano” (Jr 17.5) é o testemunho da Sagrada Escritura; e, por conseguinte, essa maldição recai também sobre o homem que confia em si mesmo. Portanto, a ninguém senão a Deus, o Senhor, devemos pedir aquilo que esperamos fazer bem, ou que esperamos obter como recompensa das nossas boas obras.
Assim, no Evangelho segundo Mateus, a Oração do Senhor parece conter sete petições, três das quais pedem bens eternos e as quatro restantes, bens temporais; estes últimos, porém, são condições prévias necessárias para a obtenção dos eternos. Pois, quando dizemos: “Santificado seja o teu nome; venha o teu Reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.9-10), palavras que alguns interpretaram, não sem razão, como referentes tanto ao corpo quanto ao espírito, pedimos bens que hão de ser gozados para sempre; bens que de fato começam neste mundo e crescem em nós à medida que crescemos na graça, mas que, em seu estado perfeito, que se deve esperar em outra vida, serão uma posse para sempre. Mas, quando dizemos: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal” (Mt 6.11-13), quem não vê que pedimos bens que se referem às necessidades desta vida presente? Naquela vida eterna, onde esperamos viver para sempre, a santificação do nome de Deus, e o seu Reino, e a sua vontade em nosso espírito e em nosso corpo serão levados à perfeição e durarão eternamente. Mas o nosso pão de cada dia é assim chamado porque aqui há necessidade constante de tanto alimento quanto o espírito e a carne exigem, quer entendamos a expressão espiritualmente, quer carnalmente, quer em ambos os sentidos. É aqui também que precisamos do perdão que pedimos, pois é aqui que cometemos os pecados; aqui estão as tentações que nos seduzem ou nos impelem ao pecado; aqui, numa palavra, está o mal do qual desejamos ser libertados; mas naquele outro mundo não haverá nenhuma dessas coisas.
Mas o evangelista Lucas, em sua versão da Oração do Senhor, contém não sete, mas cinco petições: não, naturalmente, que haja alguma discrepância entre os dois evangelistas, mas Lucas indica, pela sua própria brevidade, o modo como devem ser entendidas as sete petições de Mateus. Pois o nome de Deus é santificado no espírito, e o Reino de Deus virá na ressurreição do corpo. Lucas, portanto, querendo mostrar que a terceira petição é uma espécie de repetição das duas primeiras, preferiu indicá-lo omitindo de todo a terceira. Depois acrescenta outras três: uma pelo pão de cada dia, outra pelo perdão do pecado, outra pela imunidade à tentação. E aquilo que Mateus põe como última petição, “mas livra-nos do mal”, Lucas omitiu, para nos mostrar que está contido na petição anterior, sobre a tentação. O próprio Mateus, aliás, diz “mas livra-nos”, e não “e livra-nos”, como para mostrar que as petições são virtualmente uma só: não faças isto, mas isto; de modo que cada um deve entender que é libertado do mal no próprio fato de não ser levado à tentação.
E agora, quanto ao amor, que o apóstolo declara ser maior que as outras duas graças, isto é, que a fé e a esperança (1Co 13.13), quanto maior a medida em que habita num homem, tanto melhor é o homem em quem habita. Pois, quando se pergunta se um homem é bom, não se pergunta o que ele crê ou o que ele espera, mas o que ele ama. Pois o homem que ama retamente sem dúvida crê e espera retamente; ao passo que o homem que não tem amor crê em vão, ainda que as suas crenças sejam verdadeiras, e espera em vão, ainda que os objetos da sua esperança façam parte real da verdadeira felicidade; a não ser, de fato, que creia e espere isto: obter pela oração o dom do amor. Pois, embora não seja possível esperar sem amor, pode acontecer que um homem não ame aquilo que é necessário para alcançar o que espera; como, por exemplo, se espera a vida eterna (e quem há que não a deseje?) e, no entanto, não ama a justiça, sem a qual ninguém pode alcançar a vida eterna. Ora, esta é a verdadeira fé de Cristo de que fala o apóstolo, “a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6); e, se há algo que ela ainda não abrange no seu amor, pede para receber, busca para achar e bate para que se lhe abra (Mt 7.7). Pois a fé obtém pela oração aquilo que a lei ordena. Pois, sem o dom de Deus, isto é, sem o Espírito Santo, por meio de quem o amor é derramado em nosso coração (Rm 5.5), a lei pode ordenar, mas não pode auxiliar; e, além disso, faz do homem um transgressor, pois ele já não pode desculpar-se alegando ignorância. Ora, a concupiscência carnal reina onde não há o amor de Deus.
Quando, mergulhado nas mais escuras profundezas da ignorância, o homem vive segundo a carne, sem ser perturbado por nenhuma luta da razão ou da consciência, este é o seu primeiro estado. Depois, quando pela lei veio o conhecimento do pecado e o Espírito de Deus ainda não interveio com o seu auxílio, o homem, esforçando-se por viver segundo a lei, é frustrado nos seus esforços e cai em pecado consciente; e assim, vencido pelo pecado, torna-se seu escravo (“pois aquele que é vencido fica escravo do vencedor”, 2Pe 2.19); e desse modo o efeito produzido pelo conhecimento do mandamento é este: o pecado opera no homem toda sorte de concupiscência, e ele se envolve na culpa adicional da transgressão voluntária, e cumpre-se o que está escrito: “A lei veio para que aumentasse a ofensa” (Rm 5.20). Este é o segundo estado do homem. Mas, se Deus olha para ele e lhe inspira fé no auxílio de Deus, e o Espírito de Deus começa a agir nele, então o poder mais forte do amor luta contra o poder da carne; e, embora ainda haja na própria natureza do homem uma força que combate contra ele (pois a sua enfermidade não está completamente curada), ele vive, contudo, a vida do justo pela fé e vive em justiça na medida em que não cede à má concupiscência, mas a vence pelo amor à santidade. Este é o terceiro estado do homem de boa esperança; e aquele que, com piedade perseverante, avança nesse caminho alcançará por fim a paz, aquela paz que, terminada esta vida, será aperfeiçoada no repouso do espírito e, finalmente, na ressurreição do corpo. Desses quatro estágios diferentes, o primeiro é antes da lei, o segundo é sob a lei, o terceiro é sob a graça e o quarto é na paz plena e perfeita. Assim também foi ordenada a história do povo de Deus, segundo o beneplácito daquele que dispõe todas as coisas em número, medida e peso (cf. Sb 11.20). Pois a igreja existiu primeiro antes da lei; depois sob a lei, que foi dada por meio de Moisés; depois sob a graça, que foi manifestada primeiramente na vinda do Mediador. Não, de fato, que essa graça estivesse ausente antes, mas, em harmonia com as disposições do tempo, estava velada e oculta. Pois nenhum dos justos antigos pôde encontrar salvação fora da fé de Cristo; nem, se ele não lhes tivesse sido conhecido, o seu ministério poderia ter sido usado para nos transmitir profecias a respeito dele, umas mais claras, outras mais obscuras.
Ora, em qualquer desses quatro estágios (como podemos chamá-los) em que a graça da regeneração encontre um homem, todos os seus pecados passados lhe são ali mesmo perdoados, e a culpa que ele contraiu no nascimento é removida no novo nascimento; e é tão verdade que “o vento sopra onde quer” (Jo 3.8) que alguns nunca conheceram o segundo estágio, o da escravidão sob a lei, mas receberam o auxílio divino logo que receberam o mandamento.
Mas, antes que o homem possa receber o mandamento, é necessário que viva segundo a carne. Mas, uma vez que tenha recebido a graça da regeneração, a morte não o prejudicará, ainda que parta imediatamente desta vida; “pois foi para isto que Cristo morreu, ressuscitou e tornou a viver: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rm 14.9); nem a morte conservará domínio sobre aquele por quem Cristo morreu gratuitamente.
Todos os mandamentos de Deus, portanto, estão compreendidos no amor, do qual diz o apóstolo: “Ora, o fim do mandamento é a caridade, que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé não fingida” (1Tm 1.5). Assim, o fim de todo mandamento é a caridade, isto é, todo mandamento tem o amor como seu alvo. Mas tudo o que se faz por medo do castigo ou por algum outro motivo carnal, e não tem como princípio aquele amor que o Espírito de Deus derrama no coração, não é feito como deve ser feito, por mais que assim pareça aos homens. Pois esse amor abrange tanto o amor a Deus como o amor ao próximo, e “destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (Mt 22.40; cf. Rm 5.5), e podemos acrescentar: o Evangelho e os apóstolos. Pois é deles que ouvimos esta voz: o fim do mandamento é a caridade, e Deus é amor (1Tm 1.5; 1Jo 4.16). Por isso, todos os mandamentos de Deus, um dos quais é “Não cometa adultério” (cf. Mt 5.27; Rm 13.9), e todos aqueles preceitos que não são mandamentos, mas conselhos especiais, um dos quais é “é bom que o homem não toque em mulher” (1Co 7.1), só são cumpridos retamente quando o princípio motor da ação é o amor a Deus e o amor ao próximo em Deus. E isso se aplica tanto à vida presente como à futura. Agora amamos a Deus pela fé; então o amaremos pela visão. Agora amamos até o próximo pela fé; pois nós, que somos mortais, não conhecemos os corações dos homens mortais. Mas na vida futura o Senhor “não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações. E então cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” (1Co 4.5); pois cada um amará e louvará no seu próximo a virtude que, para que não fique oculta, o próprio Senhor trará à luz. Além disso, a concupiscência diminui à medida que o amor cresce, até que este cresça a tal altura que não possa crescer mais aqui. Pois “ninguém tem amor maior do que este: de alguém dar a própria vida pelos seus amigos” (Jo 15.13). Quem, então, pode dizer quão grande será o amor no mundo futuro, quando não houver concupiscência alguma para ele refrear e vencer? Pois essa será a perfeição da saúde, quando não houver luta alguma com a morte.
Mas agora é preciso, enfim, pôr termo a este volume. E cabe a você julgar se deve chamá-lo de manual ou usá-lo como tal. Eu, porém, pensando que o seu zelo em Cristo não deve ser desprezado, e crendo e esperando todo o bem a seu respeito, na dependência do auxílio do nosso Redentor, e amando-o muito como um dos membros do seu corpo, escrevi para você este livro sobre a Fé, a Esperança e o Amor, da melhor maneira que pude. Que o seu valor seja igual à sua extensão.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. F. Shaw (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 3, Nova York, 1887), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. Os títulos dos capítulos e o argumento inicial são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Agostinho cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela antiga Bíblia latina, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.