Agostinho, Enquirídio · Parte 4

Capítulos 72 a 97

Os vários tipos de esmola e o perdão aos inimigos; pecados leves e graves; ignorância e fraqueza; o pecado contra o Espírito Santo; a ressurreição do corpo e as suas questões; a segunda morte; a permissão do mal.

Capítulo 72. Há muitos tipos de esmola, e dá-las ajuda a obter o perdão dos nossos pecados

E, por este princípio de interpretação, a palavra do nosso Senhor, “Deem esmola do que vocês têm, e eis que todas as coisas lhes serão limpas” (Lc 11.41), aplica-se a todo ato útil que alguém pratica por misericórdia. Não somente, portanto, quem dá alimento ao faminto, bebida ao sedento, roupa ao nu, hospitalidade ao estrangeiro, abrigo ao fugitivo, quem visita o enfermo e o encarcerado, resgata o cativo, ampara o fraco, guia o cego, consola o triste, cura o doente, põe no caminho certo o que se extraviou, dá conselho ao que está em dúvida e supre as necessidades do necessitado; não somente esse, mas também quem perdoa o pecador dá esmola. E quem corrige com açoites, ou refreia com qualquer tipo de disciplina, alguém sobre quem tem autoridade, e ao mesmo tempo perdoa de coração o pecado com que foi ofendido, ou ora para que seja perdoado, também dá esmola, não só porque perdoa ou ora pelo perdão do pecado, mas também porque repreende e corrige o pecador: pois também nisso mostra misericórdia. Ora, faz-se muito bem a quem o recebe contra a vontade, quando se busca o seu proveito e não o seu prazer; e com frequência essas pessoas se revelam inimigas de si mesmas, enquanto seus verdadeiros amigos são aqueles que elas tomam por inimigos, e a quem, na sua cegueira, pagam o bem com o mal. Ao cristão, aliás, não é permitido pagar mal nem sequer com mal (Rm 12.17; Mt 5.44). E assim há muitos tipos de esmola, e, dando-as, ajudamos a obter o perdão dos nossos pecados.

Capítulo 73. A maior de todas as esmolas é perdoar aos nossos devedores e amar os nossos inimigos

Nenhuma dessas, porém, é maior do que perdoar de coração um pecado cometido contra nós. Pois é coisa relativamente pequena querer bem, ou mesmo fazer o bem, a quem não nos fez mal algum. É coisa muito mais elevada, e fruto da mais sublime bondade, amar o próprio inimigo, e sempre querer bem e, quando há oportunidade, fazer o bem a quem nos quer mal e, quando pode, nos prejudica. Isso é obedecer ao mandamento de Deus: “Amem os seus inimigos, façam o bem aos que odeiam vocês e orem pelos que perseguem vocês” (Mt 5.44). Mas esse é um estado de alma alcançado somente pelos filhos perfeitos de Deus; e, embora todo crente deva buscá-lo, e, pela oração a Deus e pela luta séria consigo mesmo, esforçar-se por elevar a sua alma a esse padrão, um grau tão alto de bondade dificilmente pode pertencer a uma multidão tão grande quanto a daqueles que, conforme cremos, são atendidos quando fazem este pedido: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6.12). Considerando tudo isso, não se pode duvidar de que o compromisso implícito no pedido se cumpre se alguém, embora ainda não tenha chegado a amar o seu inimigo, quando aquele que pecou contra ele lhe pede que perdoe o seu pecado, o perdoa de coração. Pois certamente ele deseja ser perdoado quando ora “assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”, isto é: perdoa-nos as nossas dívidas quando pedimos perdão, assim como nós perdoamos aos nossos devedores quando eles nos pedem perdão.

Capítulo 74. Deus não perdoa os pecados daqueles que não perdoam de coração aos outros

Ora, quem pede perdão àquele contra quem pecou, movido pelo seu pecado a pedir perdão, não pode ser tido por inimigo em tal sentido que seja agora tão difícil amá-lo quanto era quando ele estava em franca hostilidade. E quem não perdoa de coração àquele que se arrepende do seu pecado e pede perdão não pense que os seus próprios pecados lhe são perdoados por Deus. Pois a Verdade não pode mentir. E que leitor ou ouvinte do Evangelho terá deixado de notar que aquele mesmo que disse: “Eu sou a verdade” (Jo 14.6), também nos ensinou esta forma de oração; e, para gravar profundamente em nossa mente este pedido em particular, disse: “Porque, se perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês, que está no céu, perdoará vocês; se, porém, não perdoarem aos outros as ofensas deles, também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês” (Mt 6.14-15)? Quem não é despertado pelo trovão desta advertência não está dormindo, mas morto; e, no entanto, tão poderosa é essa voz que pode despertar até os mortos.

Capítulo 75. Os ímpios e os incrédulos não são purificados por darem esmola, a menos que nasçam de novo

Certamente, portanto, os que vivem em grosseira impiedade e não têm nenhum cuidado de reformar a sua vida e os seus costumes, e, no entanto, em meio a todos os seus crimes e vícios, não deixam de dar esmolas com frequência, em vão se consolam com a palavra do nosso Senhor: “Deem esmola do que vocês têm, e eis que todas as coisas lhes serão limpas” (Lc 11.41). Pois não entendem até onde vai essa palavra. Mas, para que o entendam, ouçam o que ele diz. Pois lemos no Evangelho o seguinte: “Ao falar ele estas palavras, um fariseu lhe pediu que fosse comer com ele; e ele entrou e tomou lugar à mesa. E o fariseu, vendo isso, admirou-se de que ele não se tivesse lavado antes de comer. E o Senhor lhe disse: Vocês, fariseus, limpam o exterior do copo e do prato; mas o interior de vocês está cheio de roubo e de maldade. Seus tolos! Quem fez o exterior não fez também o interior? Antes, porém, deem esmola do que vocês têm, e eis que todas as coisas lhes serão limpas” (Lc 11.37-41). Devemos entender isso como se, para os fariseus que não têm a fé de Cristo, todas as coisas fossem limpas, contanto que deem esmola do modo como esses homens entendem o dar esmolas, ainda que nunca tenham crido em Cristo nem nascido de novo da água e do Espírito? A verdade, porém, é que são impuros todos os que não são purificados pela fé de Cristo, segundo a expressão “purificando-lhes o coração por meio da fé” (At 15.9); e que o apóstolo diz: “Para os impuros e descrentes, nada é puro. Porque tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1.15). Como, então, todas as coisas poderiam ser limpas para os fariseus, ainda que dessem esmola, se não eram crentes? E como poderiam ser crentes, se não queriam ter fé em Cristo e nascer de novo pela sua graça? E, no entanto, é verdade o que ouviram: “Deem esmola do que vocês têm, e eis que todas as coisas lhes serão limpas”.

Capítulo 76. Para dar esmola corretamente, devemos começar por nós mesmos e ter compaixão da nossa própria alma

Pois quem deseja dar esmola como deve precisa começar por si mesmo e dar primeiro a si mesmo. Porque dar esmola é obra de misericórdia; e com toda a verdade se diz: “Ter misericórdia da tua alma é agradável a Deus” (Eclo 30.24). E para isto nascemos de novo: para sermos agradáveis a Deus, que com justiça se desagrada daquilo que trouxemos conosco ao nascer. Esta é a nossa primeira esmola, a que damos a nós mesmos quando, pela misericórdia de um Deus compassivo, descobrimos que somos miseráveis, e confessamos a justiça do seu juízo pelo qual nos tornamos miseráveis, do qual diz o apóstolo: “O julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação” (Rm 5.16); e louvamos a grandeza do seu amor, do qual diz o mesmo pregador da graça: “Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5.8). E assim, julgando com verdade a nossa própria miséria e amando a Deus com o amor que ele mesmo nos concedeu, levamos uma vida santa e virtuosa. Mas os fariseus, embora dessem como esmola o dízimo de todos os seus frutos, até dos mais insignificantes, deixavam de lado a justiça e o amor de Deus, e assim não começavam a sua esmola em casa, nem estendiam a sua compaixão primeiro a si mesmos. E é com referência a essa ordem do amor que se diz: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Lc 10.27). Assim, depois que o nosso Senhor os repreendeu porque se purificavam por fora, mas por dentro estavam cheios de roubo e de maldade, aconselhou-os a purificar o interior, exercendo aquela caridade que cada um deve em primeiro lugar a si mesmo. “Antes, porém”, diz ele, “deem esmola do que vocês têm, e eis que todas as coisas lhes serão limpas” (Lc 11.41). Depois, para mostrar o que era que ele aconselhava e o que eles não se davam ao trabalho de fazer, e para mostrar que não desconsiderava nem esquecia as esmolas deles, diz: “Mas ai de vocês, fariseus!” (Lc 11.42), como se quisesse dizer: eu, de fato, os aconselho a dar a esmola que tornará limpas para vocês todas as coisas; “mas ai de vocês! Porque vocês dão o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as hortaliças”, como se quisesse dizer: conheço essas esmolas de vocês, e não pensem que agora os estou admoestando a respeito dessas coisas; “e desprezam a justiça e o amor de Deus”, esmola pela qual vocês poderiam ter sido purificados de toda impureza interior, de modo que até os corpos que agora lavam lhes seriam limpos. Pois esse é o sentido de “todas as coisas”: tanto as interiores como as exteriores, como lemos em outro lugar: “Limpe primeiro o interior, para que também o exterior fique limpo” (Mt 23.26). Mas, para não parecer que desprezava as esmolas que eles davam dos frutos da terra, diz: “Vocês deveriam fazer estas coisas”, referindo-se à justiça e ao amor de Deus, “sem omitir aquelas”, referindo-se ao pagamento dos dízimos.

Capítulo 77. Se queremos dar esmola a nós mesmos, devemos fugir da iniquidade; pois quem ama a iniquidade odeia a sua alma

Aqueles, pois, que pensam poder, dando esmolas, por mais generosas que sejam, em dinheiro ou em espécie, comprar para si o privilégio de persistir impunemente nos seus crimes monstruosos e nos seus vícios hediondos, não se enganem assim. Pois não somente cometem esses pecados, mas os amam tanto que gostariam de continuar a cometê-los para sempre, se apenas pudessem fazê-lo impunemente. Ora, quem ama a iniquidade odeia a sua própria alma (Sl 11.5); e quem odeia a sua própria alma não é misericordioso, mas cruel para com ela. Pois, amando-a segundo o mundo, odeia-a segundo Deus. Mas, se desejasse dar-lhe a esmola que tornaria limpas para ele todas as coisas, odiá-la-ia segundo o mundo e amá-la-ia segundo Deus. Ora, ninguém dá esmola sem receber o que dá daquele que não tem necessidade disso. Por isso se diz: “A sua misericórdia virá ao meu encontro” (Sl 59.10).

Capítulo 78. Quais pecados são leves e quais são graves é questão para o juízo de Deus

Ora, quais pecados são leves e quais são graves não é questão a ser decidida pelo juízo humano, mas pelo juízo de Deus. Pois é claro que os próprios apóstolos concederam indulgência no caso de certos pecados: tome-se, por exemplo, o que o apóstolo Paulo diz aos casados: “Não se privem um ao outro, a não ser por mútuo consentimento, por algum tempo, para se dedicarem ao jejum e à oração; e voltem a unir-se, para que Satanás não os tente por causa da incontinência de vocês” (1Co 7.5). Ora, poderia ser que não se considerasse pecado ter relações com o cônjuge, não em vista da procriação dos filhos, que é o grande bem do casamento, mas por causa do prazer carnal, e para livrar os incontinentes de serem levados, pela sua fraqueza, ao pecado mortal da fornicação, ou do adultério, ou de outra forma de impureza que é vergonhoso até nomear, e à qual poderiam ser arrastados pela concupiscência sob a tentação de Satanás. Poderia ser, digo, que isso não se considerasse pecado, se o apóstolo não tivesse acrescentado: “E digo isto como concessão e não como mandamento” (1Co 7.6). Quem, então, pode negar que é pecado, quando reconhecidamente é só pela autoridade apostólica que se concede permissão aos que o fazem? Outro caso do mesmo gênero é quando ele diz: “Quando algum de vocês tem uma questão contra outro, como se atreve a submeter isso a juízo diante dos injustos e não diante dos santos?” (1Co 6.1). E pouco depois: “Se, pois, vocês têm questões relativas a coisas desta vida, constituam como juízes os que são menos estimados na igreja. Digo isso para a vergonha de vocês. Será que não existe nem ao menos um sábio entre vocês, que possa julgar entre seus irmãos? Mas um irmão vai a juízo contra outro irmão, e isto diante de não crentes!” (1Co 6.4-6). Ora, neste caso se poderia supor que não é pecado ter uma contenda com outro, e que o único pecado está em querer que ela seja julgada fora da Igreja, se o apóstolo não tivesse acrescentado logo: “Ora, já é absolutamente uma falta entre vocês o fato de moverem ações uns contra os outros” (1Co 6.7). E, para que ninguém se desculpe dizendo que tinha causa justa, que estava sofrendo injustiça e que só queria que a sentença dos juízes a removesse, o apóstolo antecipa imediatamente tais pensamentos e desculpas, e diz: “Por que não preferem sofrer a injustiça? Por que não preferem ficar com o prejuízo?” Assim nos reconduz à palavra do nosso Senhor: “Se alguém quer processar você e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa” (Mt 5.40); e ainda: “Se alguém levar o que é seu, não exija que seja devolvido” (Lc 6.30). Portanto, o nosso Senhor proibiu os seus seguidores de ir a juízo contra outros homens por causa de negócios mundanos. E, levando adiante esse princípio, o apóstolo declara aqui que fazê-lo é “absolutamente uma falta”. Mas quando, apesar disso, permite que tais causas entre irmãos sejam decididas na Igreja, julgando-as outros irmãos, e somente proíbe com severidade que sejam levadas para fora da Igreja, é manifesto que aqui também se estende indulgência às enfermidades dos fracos. É, pois, em vista desses pecados e de outros do mesmo tipo, e ainda de outros mais leves, que consistem em ofensas de palavra e de pensamento, como confessa o apóstolo Tiago ao dizer “Todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2), que precisamos orar ao Senhor todos os dias e muitas vezes, dizendo: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, e acrescentar com verdade e sinceridade: “assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”.

Capítulo 79. Pecados que parecem muito leves às vezes são, na realidade, muito graves

Além disso, há pecados que seriam considerados muito leves se as Escrituras não mostrassem que são, na verdade, muito graves. Pois quem suporia que aquele que diz a seu irmão “Tolo!” (Mt 5.22) está sujeito ao inferno de fogo, se não o tivesse dito aquele que é a Verdade? À ferida, porém, ele aplica imediatamente o remédio, dando uma regra para a reconciliação com o irmão ofendido: “Portanto, se você estiver trazendo a sua oferta ao altar e lá se lembrar que o seu irmão tem alguma coisa contra você, deixe diante do altar a sua oferta e vá primeiro reconciliar-se com o seu irmão; e então volte e faça a sua oferta” (Mt 5.23-24). Do mesmo modo, quem suporia que é tão grande pecado guardar dias, meses, tempos e anos, como fazem os que temem ou não querem começar coisa alguma em certos dias, ou em certos meses ou anos, porque as vãs doutrinas dos homens os levam a pensar que tais tempos são de boa ou de má sorte, se não tivéssemos o meio de avaliar a grandeza do mal pelo temor expresso pelo apóstolo, que diz a esses homens: “Receio que o meu trabalho por vocês tenha sido em vão” (Gl 4.10-11)?

Capítulo 80. Os pecados, por maiores e mais detestáveis que sejam, parecem leves quando nos acostumamos a eles

Acrescente-se a isso que os pecados, por maiores e mais detestáveis que sejam, são tidos por leves, ou por não pecados, quando os homens se acostumam a eles; e isso vai tão longe que tais pecados não somente não se escondem, mas são alardeados e divulgados por toda parte; e assim, como está escrito: “O ímpio se gloria do desejo do seu coração, e abençoa o avarento, a quem o Senhor abomina” (Sl 10.3). Na Escritura, uma iniquidade desse tipo é chamada clamor. Tem-se um exemplo no profeta Isaías, no caso da vinha má: “Esperava juízo, mas eis aí opressão; esperava justiça, mas eis aí clamor” (Is 5.7). Daí também a expressão no Gênesis: “O clamor de Sodoma e Gomorra é grande” (Gn 18.20), porque naquelas cidades os crimes não somente não eram punidos, mas eram cometidos abertamente, como se estivessem sob a proteção da lei. E assim também em nossos dias: muitas formas de pecado, embora não exatamente iguais às de Sodoma e Gomorra, são agora praticadas tão abertamente e tão habitualmente que não só não ousamos excomungar um leigo, como não ousamos sequer depor um clérigo por cometê-las. De modo que, quando, há alguns anos, eu expunha a Epístola aos Gálatas, ao comentar aquele mesmo lugar em que o apóstolo diz: “Receio que o meu trabalho por vocês tenha sido em vão”, fui levado a exclamar: “Ai dos pecados dos homens! Pois só nos horrorizamos com eles enquanto não estamos acostumados a eles; uma vez acostumados, embora o sangue do Filho de Deus tenha sido derramado para lavá-los, embora sejam tão grandes que o Reino de Deus lhes está inteiramente fechado, a convivência constante leva a tolerá-los todos, e a tolerância habitual leva a praticar muitos deles. E concede, Senhor, que não cheguemos a praticar tudo o que não temos o poder de impedir.” Mas verei se o excesso da dor não me levou à temeridade no falar.

Capítulo 81. Há duas causas do pecado, a ignorância e a fraqueza; e precisamos do auxílio divino para vencer ambas

Direi agora o que já disse muitas vezes em outros lugares das minhas obras. Há duas causas que levam ao pecado: ou ainda não conhecemos o nosso dever, ou não cumprimos o dever que conhecemos. A primeira é o pecado da ignorância; a segunda, o da fraqueza. Ora, contra estas é nosso dever lutar; mas certamente seremos vencidos no combate se não formos ajudados por Deus, não só a ver o nosso dever, mas também, quando o vemos com clareza, a tornar o amor da justiça mais forte em nós do que o amor das coisas terrenas, cujo desejo ávido, ou o medo de perdê-las, nos leva de olhos abertos a um pecado conhecido. Neste último caso não somos apenas pecadores, pois também o somos quando erramos por ignorância, mas somos também transgressores da lei; pois deixamos de fazer o que sabemos que devemos fazer e fazemos o que sabemos que não devemos fazer. Por isso, não só devemos orar pedindo perdão quando pecamos, dizendo: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores”; mas devemos orar pedindo direção, para sermos guardados de pecar, dizendo: “e não nos deixes cair em tentação”. E devemos orar àquele de quem diz o salmista: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação” (Sl 27.1): minha luz, porque remove a minha ignorância; minha salvação, porque tira a minha fraqueza.

Capítulo 82. A misericórdia de Deus é necessária ao verdadeiro arrependimento

Ora, até a própria penitência, quando pela lei da Igreja há razão suficiente para que seja cumprida, é muitas vezes evitada por fraqueza; pois a vergonha é o medo de perder um prazer, quando a boa opinião dos homens dá mais prazer do que a justiça que leva alguém a humilhar-se na penitência. Por isso a misericórdia de Deus é necessária não só quando alguém se arrepende, mas até para levá-lo a arrepender-se. De que outro modo explicar o que o apóstolo diz de certas pessoas: “na expectativa de que Deus lhes conceda o arrependimento” (2Tm 2.25)? E, antes que Pedro chorasse amargamente, o evangelista nos diz: “Então, o Senhor voltou-se e fixou os olhos em Pedro” (Lc 22.61).

Capítulo 83. Quem despreza a misericórdia de Deus é culpado do pecado contra o Espírito Santo

Ora, quem, não crendo que os pecados são perdoados na Igreja, despreza esse grande dom da misericórdia de Deus e persiste até o último dia da sua vida na obstinação do seu coração, é culpado do pecado imperdoável contra o Espírito Santo, em quem Cristo perdoa os pecados (Mt 12.32). Mas essa difícil questão eu a discuti tão claramente quanto pude num livro dedicado exclusivamente a esse único ponto.

Capítulo 84. A ressurreição do corpo dá origem a numerosas questões

Ora, quanto à ressurreição do corpo (não uma ressurreição como a que tiveram alguns, que voltaram à vida por um tempo e morreram de novo, mas uma ressurreição para a vida eterna, como ressuscitou o próprio corpo de Cristo), não vejo como possa tratar do assunto brevemente e, ao mesmo tempo, dar resposta satisfatória a todas as questões que costumam ser levantadas a respeito dele. Mas que os corpos de todos os homens, tanto dos que nasceram como dos que hão de nascer, tanto dos que morreram como dos que hão de morrer, serão ressuscitados, disso nenhum cristão deve ter sombra de dúvida.

Capítulo 85. O caso dos fetos abortivos

Daí surge, em primeiro lugar, uma questão acerca dos fetos abortivos, que de fato nasceram no ventre materno, mas não de tal modo que pudessem nascer de novo. Pois, se decidirmos que estes hão de ressuscitar, não poderemos objetar a nenhuma conclusão que se tire a respeito dos que estão plenamente formados. Ora, quem não está antes inclinado a pensar que os abortos informes perecem, como sementes que nunca frutificaram? Mas quem ousará negar, ainda que não ouse afirmar, que na ressurreição todo defeito da forma será suprido, e que assim não faltará a perfeição que o tempo teria trazido, assim como não estarão presentes as imperfeições que o tempo trouxe; de modo que a natureza nem careça de coisa alguma conveniente e harmoniosa com ela que a extensão dos dias lhe teria acrescentado, nem seja aviltada pela presença de algo contrário que a extensão dos dias lhe acrescentou; mas que o que ainda não está completo seja completado, assim como o que foi danificado será renovado?

Capítulo 86. Se alguma vez viveram, é claro que morreram, e por isso terão parte na ressurreição dos mortos

E por isso a seguinte questão pode ser muito cuidadosamente investigada e discutida pelos doutos, embora eu não saiba se está ao alcance do homem resolvê-la: em que momento a criança começa a viver no ventre; se a vida existe de forma latente antes de se manifestar nos movimentos do ser vivo. Negar que tenham alguma vez vivido os fetos que são retirados do ventre membro por membro, para que, se ali ficassem mortos, a mãe não morresse também, parece audacioso demais. Ora, desde o momento em que o homem começa a viver, desde esse momento lhe é possível morrer. E, se morre, onde quer que a morte o alcance, não consigo descobrir por que princípio se lhe poderia negar parte na ressurreição dos mortos.

Capítulo 87. O caso dos nascimentos monstruosos

Não temos razão para afirmar, nem mesmo dos monstros que nascem e vivem, por mais depressa que morram, que não ressuscitarão, nem que ressuscitarão na sua deformidade, e não antes com um corpo corrigido e aperfeiçoado. Longe de nós pensar que aquele homem de membros duplos que nasceu há pouco no Oriente, de quem nos trouxeram relato irmãos muito dignos de confiança que o tinham visto, relato que o presbítero Jerônimo, de bendita memória, deixou por escrito;1 longe de nós, digo, pensar que na ressurreição haverá um só homem com membros duplos, e não dois homens distintos, como teria acontecido se tivessem nascido gêmeos. E assim outros nascimentos que, por terem algo a mais ou a menos, ou por serem muito deformados, são chamados monstruosidades, serão na ressurreição restituídos à forma normal do homem; e assim cada alma possuirá o seu próprio corpo; e nenhum corpo ficará unido a outro, ainda que tenham nascido unidos, mas cada um possuirá separadamente todos os membros que constituem um corpo humano completo.

Capítulo 88. A matéria do corpo nunca perece

Tampouco perece jamais a matéria terrena de que são criados os corpos mortais dos homens; mas, ainda que se desfaça em pó e cinza, ou se dissolva em vapores e exalações, ainda que se transforme na substância de outros corpos, ou se disperse nos elementos, ainda que se torne alimento de animais ou de homens e se converta na carne deles, ela retorna num instante àquela alma humana que a animou no princípio e que a fez tornar-se homem, viver e crescer.

Capítulo 89. Mas essa matéria pode ser disposta de modo diferente no corpo da ressurreição

E essa matéria terrena, que se torna cadáver quando a alma a deixa, não será de tal modo restaurada na ressurreição que as partes em que se separa, e que sob várias formas e aparências se tornam partes de outras coisas (embora todas devam voltar ao mesmo corpo do qual se separaram), tenham necessariamente de voltar às mesmas partes do corpo em que se encontravam originalmente. Pois, de outro modo, supor que o cabelo recupera tudo o que os nossos frequentes cortes e raspagens lhe tiraram, e as unhas tudo o que tantas vezes aparamos, apresenta à imaginação um quadro tal de feiura e deformidade que torna a ressurreição do corpo quase incrível. Mas, assim como, se uma estátua de algum metal fundível fosse derretida pelo fogo, ou reduzida a pó, ou transformada numa massa informe, e um escultor quisesse restaurá-la com a mesma quantidade de metal, não faria diferença alguma para a integridade da obra em que parte da estátua fosse posta cada partícula do material, contanto que a estátua restaurada contivesse todo o material da original; assim Deus, o Artífice de poder maravilhoso e inefável, restaurará o nosso corpo com rapidez maravilhosa e inefável, empregando toda a matéria de que ele originalmente se compunha. Nem afetará a integridade da sua restauração que os cabelos voltem aos cabelos e as unhas às unhas, ou que a parte destes que havia perecido seja transformada em carne e chamada a ocupar o seu lugar em outra parte do corpo, cuidando o grande Artista de que nada fique inconveniente ou fora de lugar.

Capítulo 90. Se houver diferenças e desigualdades entre os corpos dos que ressuscitam, não haverá em nenhum deles nada de chocante ou desproporcional

Também não se segue necessariamente que haverá diferenças de estatura entre os que ressuscitam, por terem sido de estaturas diferentes durante a vida; nem é certo que os magros ressuscitarão na sua antiga magreza, e os gordos na sua antiga gordura. Mas, se faz parte do desígnio do Criador que cada um conserve as particularidades das suas feições e mantenha uma semelhança reconhecível com o que era antes, enquanto quanto às demais vantagens corporais todos sejam iguais, então a matéria de que cada um se compõe poderá ser modificada de tal modo que nada dela se perca, e que qualquer falta seja suprida por aquele que pode criar do nada segundo a sua vontade. Mas, se nos corpos dos que ressuscitam houver uma desigualdade bem ordenada, como a que há nas vozes que compõem uma harmonia completa, então a matéria do corpo de cada homem será tratada de tal modo que forme um homem digno das assembleias dos anjos, e que nada leve para o meio deles que fira a sua sensibilidade. E certamente nada de inconveniente haverá ali; mas tudo o que ali houver será gracioso e conveniente: pois, se algo não for conveniente, também não existirá.

Capítulo 91. Os corpos dos santos serão, na ressurreição, corpos espirituais

Os corpos dos santos, pois, ressuscitarão livres de todo defeito, de toda imperfeição, assim como de toda corrupção, peso e impedimento. Pois a sua facilidade de movimento será tão completa quanto a sua felicidade. Por isso os seus corpos foram chamados espirituais, embora sem dúvida venham a ser corpos e não espíritos. Pois, assim como agora o corpo é chamado animal, embora seja corpo e não alma [anima], assim então o corpo será chamado espiritual, embora seja corpo e não espírito (1Co 15.44). Por isso, no que diz respeito à corrupção que agora pesa sobre a alma, e aos vícios que incitam a carne a cobiçar contra o espírito (Sb 9.15; Gl 5.17), não será então carne, mas corpo; pois há corpos que são chamados celestes. Por isso se diz: “A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus”; e, como que para explicar isso: “nem a corrupção herdar a incorrupção” (1Co 15.50). O que o apóstolo primeiro chamou “carne e sangue”, chama depois “corrupção”; e o que primeiro chamou “o Reino de Deus”, chama depois “incorrupção”. Mas, no que diz respeito à substância, mesmo então será carne. Pois, mesmo depois da ressurreição, o corpo de Cristo foi chamado carne (Lc 24.39). O apóstolo, porém, diz: “Semeia-se corpo natural, ressuscita corpo espiritual” (1Co 15.44), porque tão perfeita será então a harmonia entre a carne e o espírito, mantendo o espírito viva a carne submetida, sem necessidade de nenhum alimento, que nenhuma parte da nossa natureza estará em discórdia com outra; mas, assim como estaremos livres de inimigos de fora, também não seremos inimigos de nós mesmos por dentro.

Capítulo 92. A ressurreição dos perdidos

Mas quanto àqueles que, da massa de perdição causada pelo pecado do primeiro homem, não são redimidos por meio do único Mediador entre Deus e os homens, também eles ressuscitarão, cada um com o seu próprio corpo, mas somente para serem punidos com o diabo e os seus anjos. Ora, se ressuscitarão com todas as suas doenças e deformidades do corpo, trazendo consigo os membros doentes e deformados que tinham aqui, seria trabalho perdido investigar. Pois não precisamos nos cansar especulando sobre a saúde ou a beleza deles, que são coisas incertas, quando a sua condenação eterna é coisa certa. Nem precisamos investigar em que sentido o corpo deles será incorruptível, se for suscetível de dor; ou em que sentido será corruptível, se estiver livre da possibilidade de morrer. Pois não há verdadeira vida senão onde há felicidade na vida, nem verdadeira incorrupção senão onde a saúde não é interrompida por dor alguma. Quando, porém, aos infelizes não se permite morrer, então, se assim posso falar, a própria morte não morre; e, onde a dor aflige a alma sem interrupção e nunca chega ao fim, a própria corrupção não se consuma. Isso é chamado na Sagrada Escritura “a segunda morte” (Ap 2.11).

Capítulo 93. Tanto a primeira como a segunda morte são consequência do pecado. A punição é proporcional à culpa

E nem a primeira morte, que ocorre quando a alma é obrigada a deixar o corpo, nem a segunda morte, que ocorre quando não se permite à alma deixar o corpo que sofre, teriam sido infligidas ao homem se ninguém tivesse pecado. E, naturalmente, a punição mais branda de todas cairá sobre aqueles que não acrescentaram nenhum pecado atual ao pecado original que trouxeram consigo; e, quanto aos demais, que acrescentaram tais pecados atuais, a punição de cada um será tanto mais tolerável no outro mundo quanto menor tiver sido a sua iniquidade neste mundo.

Capítulo 94. Os santos conhecerão mais plenamente no outro mundo os benefícios que receberam pela graça

Assim, quando os anjos e os homens réprobos forem deixados a sofrer o castigo eterno, os santos conhecerão mais plenamente os benefícios que receberam pela graça. Então, contemplando os próprios fatos, verão com mais clareza o sentido da expressão dos salmos: “Cantarei a misericórdia e o juízo” (Sl 101.1); pois é somente por misericórdia imerecida que alguém é redimido, e somente por juízo bem merecido que alguém é condenado.

Capítulo 95. Os juízos de Deus serão então explicados

Então se tornará claro muito do que agora é obscuro. Por exemplo, quando de duas crianças, cujos casos parecem em tudo semelhantes, uma é escolhida por Deus para si pela sua misericórdia, e a outra é abandonada pela sua justiça (no que a que é escolhida pode reconhecer o que por justiça lhe seria devido, se a misericórdia não tivesse intervindo), por que, dessas duas, uma foi escolhida de preferência à outra é para nós um problema insolúvel. E também por que não se operaram milagres na presença de homens que se teriam arrependido diante da realização dos milagres, ao passo que foram operados na presença de outros que, como se sabia, não se arrependeriam. Pois o nosso Senhor diz com toda a clareza: “Ai de você, Corazim! Ai de você, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que foram feitos em vocês, há muito que elas teriam se arrependido com pano de saco e cinza” (Mt 11.21). E certamente não houve injustiça em Deus não querer que eles fossem salvos, embora pudessem ter sido salvos se ele assim o quisesse. Então se verá na luz mais clara da sabedoria aquilo que para os piedosos é agora objeto de fé, embora ainda não seja questão de conhecimento certo: quão segura, quão imutável e quão eficaz é a vontade de Deus; quantas coisas ele pode fazer que não quer fazer, embora nada queira que não possa realizar; e quão verdadeiro é o cântico do salmista: “O nosso Deus está no céu e faz tudo como lhe agrada” (Sl 115.3). E isso certamente não é verdade se Deus alguma vez quis algo que não realizou; e, o que é ainda pior, se foi a vontade do homem que impediu o Onipotente de fazer o que lhe agradava. Nada, portanto, acontece senão pela vontade do Onipotente, quer permitindo que se faça, quer fazendo-o ele mesmo.

Capítulo 96. O Deus onipotente faz bem até ao permitir o mal

Nem podemos duvidar de que Deus faz bem até ao permitir o que é mau. Pois ele só o permite na justiça do seu juízo. E certamente tudo o que é justo é bom. Embora, portanto, o mal, enquanto mal, não seja um bem, o fato de existir tanto o mal como o bem é um bem. Pois, se não fosse um bem que o mal existisse, a sua existência não seria permitida pelo Bem onipotente, que sem dúvida pode tão facilmente recusar-se a permitir o que não quer quanto realizar o que quer. E, se não crermos nisso, fica ameaçada a primeiríssima frase do nosso Credo, na qual professamos crer em Deus Pai Todo-Poderoso. Pois ele não é verdadeiramente chamado Todo-Poderoso se não pode fazer tudo o que lhe agrada, ou se o poder da sua vontade todo-poderosa é impedido pela vontade de qualquer criatura que seja.

Capítulo 97. Em que sentido o apóstolo diz que “Deus deseja que todos sejam salvos”, quando, de fato, nem todos são salvos?

Por isso devemos investigar em que sentido se diz de Deus o que o apóstolo disse com toda a verdade: “que deseja que todos sejam salvos” (1Tm 2.4). Pois, de fato, nem todos, nem sequer a maioria, são salvos; de modo que pareceria que o que Deus quer não se faz, interferindo a vontade do homem e impedindo a vontade de Deus. Quando perguntamos a razão por que nem todos os homens são salvos, a resposta habitual é: “Porque os próprios homens não querem.” Isso, de fato, não se pode dizer das crianças, pois não está em seu poder querer ou não querer. Mas, se pudéssemos atribuir à sua vontade os movimentos infantis que fazem no batismo, quando resistem quanto podem, diríamos que nem elas querem ser salvas. O nosso Senhor, porém, diz claramente no Evangelho, ao repreender a cidade ímpia: “Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, mas vocês não quiseram!” (Mt 23.37), como se a vontade de Deus tivesse sido vencida pela vontade dos homens, e, quando os mais fracos se puseram no caminho com a sua falta de vontade, a vontade do mais forte não pudesse ser levada a cabo. E onde está aquela onipotência que fez tudo o que lhe agradou na terra e no céu, se Deus quis reunir os filhos de Jerusalém e não o realizou? Ou antes, Jerusalém não quis que os seus filhos fossem reunidos? Mas, ainda que ela não quisesse, ele reuniu tantos dos seus filhos quantos quis: pois ele não quer umas coisas e as faz, e quer outras e não as faz; mas “fez tudo o que lhe agradou no céu e na terra” (Sl 135.6).

Notas

1. Jerônimo, na sua Epístola a Vital: “Ou, porque em nosso tempo nasceu em Lida um homem com duas cabeças, quatro mãos, um só ventre e dois pés, segue-se necessariamente que todos os homens nascem assim?”

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. F. Shaw (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 3, Nova York, 1887), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. Os títulos dos capítulos e o argumento inicial são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Agostinho cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela antiga Bíblia latina, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.