Agostinho, Enquirídio · Parte 3

Capítulos 46 a 71

O pecado original e a condenação dos nascidos de Adão; a obra de Cristo e a sua volta; o Espírito Santo e a Igreja; os anjos; o perdão dos pecados e a penitência; a fé sem obras; o fogo de 1Co 3; as esmolas e a oração diária.

Capítulo 46. É provável que as crianças estejam implicadas na culpa não só do primeiro casal, mas também de seus pais imediatos

E diz-se, com muita aparência de probabilidade, que as crianças estão implicadas na culpa dos pecados não só do primeiro casal, mas também de seus pais imediatos. Pois aquela sentença divina, “Visitarei as iniquidades dos pais nos filhos” (Êx 20.5; Dt 5.9), certamente se aplica a elas antes que entrem na nova aliança pela regeneração. E foi essa nova aliança que se profetizou quando Ezequiel disse que os filhos não levariam a iniquidade dos pais, e que não haveria mais em Israel este provérbio: “Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram” (Ez 18.2). Daí vem a necessidade de que cada homem nasça de novo, para que seja libertado do pecado em que nasceu. Pois os pecados cometidos depois podem ser curados pela penitência, como vemos acontecer depois do batismo. E, portanto, o novo nascimento não teria sido instituído se o primeiro nascimento não fosse pecaminoso, e tão pecaminoso que até alguém nascido legitimamente do matrimônio diz: “Fui formado em iniquidades, e em pecados me concebeu minha mãe” (Sl 51.5). Não disse “em iniquidade” ou “em pecado”, embora pudesse tê-lo dito corretamente; mas preferiu dizer “iniquidades” e “pecados”, porque naquele único pecado que passou a todos os homens, e que foi tão grande que por ele a natureza humana ficou sujeita à morte inevitável, podem distinguir-se muitos pecados, como mostrei acima; e, além disso, porque há outros pecados dos pais imediatos, os quais, embora não tenham o mesmo efeito de produzir uma mudança na natureza, sujeitam contudo os filhos à culpa, a não ser que a graça e a misericórdia divinas intervenham para resgatá-los.

Capítulo 47. É difícil decidir se os pecados dos outros antepassados de um homem lhe são imputados

Mas a respeito dos pecados dos outros antepassados que se interpõem entre Adão e os pais de cada um, pode-se muito bem levantar uma questão. Se todo aquele que nasce está implicado em todas as más ações acumuladas deles, em toda a culpa original multiplicada deles, de modo que, quanto mais tarde nasce, tanto pior é a sua condição; ou se Deus ameaça visitar a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e a quarta geração porque, em sua misericórdia, não estende a sua ira contra os pecados dos antepassados além disso, para que aqueles que não alcançam a graça da regeneração não fossem esmagados sob um fardo pesado demais, caso fossem obrigados a carregar como culpa original todos os pecados de todos os seus antepassados desde o próprio princípio da raça humana, e a pagar a pena que lhes é devida; ou se alguma outra solução desta grande questão pode ou não ser encontrada na Escritura por uma busca mais diligente e uma interpretação mais cuidadosa, não ouso afirmar temerariamente.

Capítulo 48. A culpa do primeiro pecado é tão grande que só pode ser lavada no sangue do Mediador, Jesus Cristo

Contudo, aquele único pecado, admitido num lugar onde reinava uma felicidade tão perfeita, foi de natureza tão hedionda que, num só homem, toda a raça humana foi condenada originalmente e, por assim dizer, pela raiz; e ele não pode ser perdoado e apagado senão por meio do único Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, o único que teve poder de nascer de tal maneira que não precisasse de um segundo nascimento.

Capítulo 49. Cristo não foi regenerado no batismo de João, mas submeteu-se a ele para nos dar um exemplo de humildade, assim como se submeteu à morte, não como castigo do pecado, mas para tirar o pecado do mundo

Ora, os que foram batizados com o batismo de João, pelo qual o próprio Cristo foi batizado (Mt 3.13-15), não foram regenerados; mas foram preparados, pelo ministério do seu precursor, que clamava: “Preparem o caminho do Senhor” (Mt 3.3), para Aquele somente em quem podiam ser regenerados. Pois o batismo dele não é só com água, como era o de João, mas também com o Espírito Santo (Mt 3.11); de modo que todo aquele que crê em Cristo é regenerado por aquele Espírito do qual Cristo, tendo sido gerado, não precisou de regeneração. Por isso, aquele anúncio do Pai que se ouviu depois do seu batismo, “Hoje eu te gerei”,1 não se referia àquele único dia do tempo em que ele foi batizado, mas ao único dia de uma eternidade imutável, para mostrar que este homem era um só em pessoa com o Unigênito. Pois, quando um dia nem começa com o fim do ontem nem termina com o começo do amanhã, é um hoje eterno. Portanto, ele pediu para ser batizado na água por João, não para que alguma iniquidade sua fosse lavada, mas para manifestar a profundidade da sua humildade. Pois o batismo nada encontrou nele para lavar, assim como a morte nada encontrou nele para punir; de modo que foi com a mais estrita justiça, e não pela mera violência do poder, que o diabo foi esmagado e vencido: pois, assim como ele, de modo injustíssimo, havia matado Cristo, embora não houvesse nele pecado algum que merecesse a morte, era justíssimo que, por meio de Cristo, perdesse o domínio sobre aqueles que, pelo pecado, estavam justamente sujeitos à escravidão em que ele os mantinha. A ambas as coisas, pois, isto é, tanto ao batismo como à morte, ele se submeteu, não por uma necessidade digna de lástima, mas por sua livre compaixão para conosco, e como parte de um plano pelo qual, assim como um só homem trouxe o pecado ao mundo, isto é, a toda a raça humana, assim também um só homem havia de tirar o pecado do mundo.

Capítulo 50. Cristo tirou não só o único pecado original, mas também todos os outros pecados que lhe foram acrescentados

Com esta diferença: o primeiro homem trouxe ao mundo um só pecado, mas este homem tirou não só aquele único pecado, mas todos os que encontrou acrescentados a ele. Por isso diz o apóstolo: “O dom, entretanto, não é como no caso em que somente um pecou. Porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para a condenação; mas a graça deriva de muitas ofensas, para a justificação” (Rm 5.16). Pois é evidente que o único pecado que trazemos conosco por natureza, ainda que estivesse sozinho, nos poria sob condenação; mas o dom gratuito justifica o homem de muitas ofensas: pois cada homem, além do único pecado que, em comum com toda a sua espécie, traz consigo por natureza, cometeu muitos pecados que são estritamente seus.

Capítulo 51. Todos os homens nascidos de Adão estão sob condenação, e só são libertados da condenação se renascerem em Cristo

Mas o que ele diz um pouco depois, “Portanto, assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os seres humanos para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos para a justificação que dá vida” (Rm 5.18), mostra com bastante clareza que não há ninguém nascido de Adão que não esteja sujeito à condenação, e que ninguém, a não ser que renasça em Cristo, é libertado da condenação.

Capítulo 52. No batismo, que é a semelhança da morte e da ressurreição de Cristo, todos, crianças e adultos, morrem para o pecado a fim de andarem em novidade de vida

E depois de ter dito, sobre a condenação por meio de um só homem e o dom gratuito por meio de um só homem, tanto quanto julgou suficiente para aquela parte da sua epístola, o apóstolo passa a falar do grande mistério do santo batismo na cruz de Cristo, e a explicar-nos claramente que o batismo em Cristo não é outra coisa senão uma semelhança da morte de Cristo, e que a morte de Cristo na cruz não é outra coisa senão uma semelhança do perdão do pecado: de modo que, tão real quanto é a sua morte, tão real é a remissão dos nossos pecados; e tão real quanto é a sua ressurreição, tão real é a nossa justificação. Ele diz: “Que diremos, então? Continuaremos no pecado, para que a graça aumente ainda mais?” (Rm 6.1). Pois tinha dito antes: “Mas onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça” (Rm 5.20). E por isso propõe a si mesmo a questão de saber se seria correto continuar no pecado por causa da graça abundante que disso resultaria. Mas responde: “De modo nenhum!”; e acrescenta: “Como viveremos ainda no pecado, nós, que já morremos para ele?” (Rm 6.2). Depois, para mostrar que estamos mortos para o pecado, diz: “Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” (Rm 6.3). Se, pois, o fato de termos sido batizados na morte de Cristo prova que estamos mortos para o pecado, segue-se que também as crianças que são batizadas em Cristo morrem para o pecado, sendo batizadas na sua morte. Pois não se faz exceção alguma: “Todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte”. E isto se diz para provar que estamos mortos para o pecado. Ora, para que pecado morrem as crianças na sua regeneração, senão para aquele pecado que trazem consigo ao nascer? E, portanto, também a elas se aplica o que segue: “Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente o seremos também na semelhança da sua ressurreição, sabendo isto: que a nossa velha natureza foi crucificada com ele, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sejamos mais escravos do pecado. Pois quem morreu está justificado do pecado. Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Sabemos que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.4-11). Ora, ele tinha começado provando que não devemos continuar no pecado para que a graça aumente, e tinha dito: “Como viveremos ainda no pecado, nós, que já morremos para ele?” E, para mostrar que estamos mortos para o pecado, acrescentou: “Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?” E assim conclui toda esta passagem do mesmo modo como a começou. Pois introduziu a morte de Cristo de tal maneira que dá a entender que também o próprio Cristo morreu para o pecado. Para que pecado morreu ele, senão para a carne, na qual não havia pecado, mas a semelhança do pecado, e que por isso foi chamada pelo nome de pecado? Àqueles, pois, que são batizados na morte de Cristo (e esta classe inclui não só os adultos, mas também as crianças), ele diz: “Assim também vocês considerem-se mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6.11).

Capítulo 53. A cruz e a sepultura de Cristo, a sua ressurreição, a sua ascensão e o seu assentar-se à direita de Deus são imagens da vida cristã

Todos os acontecimentos, pois, da crucificação de Cristo, da sua sepultura, da sua ressurreição ao terceiro dia, da sua ascensão ao céu, do seu assentar-se à direita do Pai, foram dispostos de tal modo que a vida que o cristão leva aqui pudesse ser moldada por eles, não apenas em sentido místico, mas na realidade. Pois, com referência à sua crucificação, diz-se: “E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos” (Gl 5.24). E com referência à sua sepultura: “Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo” (Rm 6.4). Com referência à sua ressurreição: “Para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida” (Rm 6.4). E com referência à sua ascensão ao céu e ao seu assentar-se à direita do Pai: “Portanto, se vocês foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensem nas coisas lá do alto, e não nas que são aqui da terra. Porque vocês morreram, e a vida de vocês está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Cl 3.1-3).

Capítulo 54. A segunda vinda de Cristo não pertence ao passado, mas acontecerá no fim do mundo

Mas o que cremos quanto à ação futura de Cristo, quando ele vier do céu para julgar os vivos e os mortos, não tem relação com a vida que agora levamos aqui; pois não faz parte do que ele fez na terra, mas é parte do que ele fará no fim do mundo. E é a isto que o apóstolo se refere no que vem imediatamente depois da passagem citada acima: “Quando Cristo, que é a vida de vocês, se manifestar, então vocês também serão manifestados com ele, em glória” (Cl 3.4).

Capítulo 55. A expressão “Cristo julgará os vivos e os mortos” pode ser entendida em dois sentidos

Ora, a expressão “julgar os vivos e os mortos” pode ser interpretada de duas maneiras: ou entendemos por “vivos” aqueles que, na sua vinda, ainda não tiverem morrido, mas que ele encontrará vivos na carne, e por “mortos” aqueles que partiram do corpo, ou que terão partido antes da sua vinda; ou entendemos que os “vivos” são os justos, e os “mortos” os injustos; pois os justos também serão julgados, como os demais. Ora, o juízo de Deus às vezes é tomado em mau sentido, como, por exemplo: “Os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo” (Jo 5.29); às vezes em bom sentido, como: “Salva-me, ó Deus, pelo teu nome, e julga-me pelo teu poder” (Sl 54.1). Isto se entende facilmente quando consideramos que é o juízo de Deus que separa os bons dos maus e põe os bons à sua direita, para que sejam livrados do mal e não destruídos com os ímpios; e é por esta razão que o salmista clamou: “Julga-me, ó Deus”, e depois acrescentou, como que para explicar: “e distingue a minha causa da de uma nação ímpia” (Sl 43.1).

Capítulo 56. O Espírito Santo e a Igreja. A Igreja é o templo de Deus

E agora, tendo falado de Jesus Cristo, o único Filho de Deus, nosso Senhor, com a brevidade conveniente a uma confissão da nossa fé, prosseguimos dizendo que cremos também no Espírito Santo, completando assim a Trindade que constitui a Divindade. Depois mencionamos a santa Igreja. E assim somos levados a entender que a criação inteligente, que constitui a Jerusalém livre (Gl 4.26), deve ser posta, na ordem do discurso, depois do Criador, a suprema Trindade: pois tudo o que se diz do homem Cristo Jesus refere-se, naturalmente, à unidade da pessoa do Unigênito. Portanto, a verdadeira ordem do Credo exigia que a Igreja fosse posta depois da Trindade, como a casa depois daquele que nela habita, o templo depois de Deus que o ocupa, e a cidade depois do seu construtor. E devemos entender aqui a Igreja inteira, não apenas aquela parte dela que peregrina como estrangeira na terra, louvando o nome de Deus desde o nascer do sol até o seu ocaso e cantando um cântico novo de libertação do seu antigo cativeiro; mas também aquela parte que, desde a sua criação, sempre permaneceu firme junto a Deus no céu e nunca experimentou a miséria que se segue a uma queda. Esta parte é formada pelos santos anjos, que gozam de uma felicidade ininterrupta; e (como lhe cabe fazer) presta auxílio à parte que ainda peregrina entre estranhos: pois estas duas partes serão uma só na comunhão da eternidade, e agora já são uma só nos laços do amor, tendo sido o todo ordenado para o culto do único Deus. Por isso, nem a Igreja inteira, nem qualquer parte dela, deseja ser adorada em lugar de Deus, nem ser Deus para alguém que pertence ao templo de Deus, aquele templo que é edificado com os santos que foram criados pelo Deus incriado. E, portanto, o Espírito Santo, se fosse criatura, não poderia ser o Criador, mas seria uma parte da criação inteligente. Seria simplesmente a criatura mais elevada, e por isso não seria mencionado no Credo antes da Igreja; pois ele mesmo pertenceria à Igreja, àquela parte dela que está nos céus. E não teria um templo, pois ele mesmo seria parte de um templo. Ora, ele tem um templo, do qual diz o apóstolo: “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês e que vocês receberam de Deus?” (1Co 6.19). E desse corpo ele diz em outro lugar: “Vocês não sabem que o corpo de cada um de vocês é membro de Cristo?” (1Co 6.15). Como, então, não é ele Deus, visto que tem um templo? E como pode ser inferior a Cristo, cujos membros são o seu templo? Nem tem ele um templo e Deus outro, visto que o mesmo apóstolo diz: “Vocês não sabem que são santuário de Deus” (1Co 3.16), e acrescenta, como prova disso, “e que o Espírito de Deus habita em vocês?” (1Co 3.16). Deus, pois, habita no seu templo: não só o Espírito Santo, mas também o Pai e o Filho, o qual diz do seu próprio corpo, pelo qual foi feito Cabeça da Igreja na terra, “para ter a primazia em todas as coisas” (Cl 1.18): “Destruam este santuário, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2.19). O templo de Deus, pois, isto é, da suprema Trindade como um todo, é a santa Igreja, que abrange em toda a sua extensão tanto o céu como a terra.

Capítulo 57. A condição da Igreja no céu

Mas daquela parte da Igreja que está no céu, que podemos dizer, senão que nela não se encontra nenhum ímpio, e que ninguém caiu dela, nem jamais cairá, desde o tempo em que “Deus não poupou anjos quando pecaram”, como escreve o apóstolo Pedro, “mas, lançando-os no inferno, prendeu-os com correntes de escuridão, reservando-os para o juízo” (2Pe 2.4)?

Capítulo 58. Não temos conhecimento certo da organização da sociedade angélica

Ora, qual seja a organização daquela sociedade sumamente feliz no céu; quais sejam as diferenças de grau, que explicam o fato de que, embora todos sejam chamados pelo nome geral de anjos, como lemos na Epístola aos Hebreus, “Ora, a qual dos anjos Deus em algum momento disse: Sente-se à minha direita?” (Hb 1.13) (sendo esta forma de expressão evidentemente destinada a abranger todos os anjos sem exceção), encontramos contudo alguns chamados arcanjos; e se os arcanjos são os mesmos que os chamados exércitos, de modo que a expressão “Louvem o Senhor, todos os seus anjos; louvem-no, todos os seus exércitos” (Sl 148.2) seja o mesmo que se tivesse sido dito: “Louvem o Senhor, todos os seus anjos; louvem-no, todos os seus arcanjos”; e quais sejam os vários significados daqueles quatro nomes sob os quais o apóstolo parece abranger toda a companhia celestial sem exceção, “sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades” (Cl 1.16): respondam a estas perguntas aqueles que forem capazes, se também puderem provar que as suas respostas são verdadeiras; quanto a mim, confesso a minha ignorância. Nem sequer estou certo sobre este ponto: se o sol, a lua e todas as estrelas não fazem parte desta mesma sociedade, embora muitos os considerem meros corpos luminosos, sem sensação nem inteligência.

Capítulo 59. Os corpos assumidos pelos anjos levantam um tema de discussão muito difícil e não muito útil

Além disso, quem dirá com que espécie de corpos os anjos apareceram aos homens, tornando-se não apenas visíveis, mas tangíveis; e, por outro lado, como é que, não por meio de corpos materiais, mas por poder espiritual, eles apresentam visões, não aos olhos do corpo, mas aos olhos espirituais da mente, ou dizem alguma coisa, não ao ouvido a partir de fora, mas de dentro da alma do homem, estando eles mesmos também ali, como está escrito no profeta: “E o anjo que falava em mim me disse” (Zc 1.9) (ele não diz “que falava comigo”, mas “que falava em mim”); ou aparecem aos homens no sono e fazem comunicações por meio de sonhos, como lemos no Evangelho: “Eis que lhe apareceu em sonho um anjo do Senhor, dizendo” (Mt 1.20)? Pois estes modos de comunicação parecem indicar que os anjos não têm corpos tangíveis, e tornam muito difícil resolver a questão de como os patriarcas lhes lavaram os pés (Gn 18.4; 19.2), e de como Jacó lutou com o anjo de modo tão inequivocamente material (Gn 32.24-25). Fazer perguntas como estas, e conjecturar o que pudermos sobre as respostas, é um exercício útil para o intelecto, se a discussão se mantiver dentro dos devidos limites e se evitarmos o erro de supor que sabemos o que não sabemos. Pois que necessidade há de afirmar, ou negar, ou definir com exatidão a respeito destes assuntos e de outros semelhantes, quando podemos, sem culpa, ignorá-los inteiramente?

Capítulo 60. É mais necessário ser capaz de discernir as astúcias de Satanás quando ele se transforma em anjo de luz

É mais necessário empregar todas as nossas faculdades de discernimento e de juízo quando Satanás se transforma em anjo de luz (2Co 11.14), para que, com as suas astúcias, não nos desvie para caminhos nocivos. Pois, enquanto ele apenas engana os sentidos do corpo e não perverte a mente daquele juízo verdadeiro e são que capacita o homem a levar uma vida de fé, não há perigo para a religião; ou se, fingindo-se bom, ele faz ou diz as coisas que convêm aos anjos bons, e nós o cremos bom, o erro não é daqueles que são nocivos ou perigosos para a fé cristã. Mas quando, por meio destas coisas, que são estranhas à sua natureza, ele passa a conduzir-nos por caminhos seus, então é necessária grande vigilância para discerni-lo e recusar segui-lo. Mas quantos homens são capazes de escapar de todas as suas astúcias mortais, a não ser que Deus os guarde e vele sobre eles? A própria dificuldade da questão, contudo, é útil neste ponto: impede que os homens confiem em si mesmos ou uns nos outros, e leva todos a pôr a sua confiança somente em Deus. E certamente nenhum homem piedoso pode duvidar de que isto é o que mais nos convém.

Capítulo 61. A Igreja na terra foi redimida do pecado pelo sangue de um Mediador

Esta parte da Igreja, pois, que é formada pelos santos anjos e pelos exércitos de Deus, nos será conhecida na sua verdadeira natureza quando, no fim do mundo, formos unidos a ela na posse comum da felicidade eterna. Mas a outra parte, que, separada dela, peregrina como estrangeira na terra, nos é mais conhecida, tanto porque pertencemos a ela como porque é composta de homens, e nós também somos homens. Esta porção da Igreja foi redimida de todo pecado pelo sangue de um Mediador que não tinha pecado, e o seu cântico é: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou” (Rm 8.31-32). Ora, não foi pelos anjos que Cristo morreu. Contudo, o que se fez pela redenção do homem por meio da sua morte foi feito, em certo sentido, pelos anjos, porque é removida a inimizade que o pecado havia posto entre os homens e os santos anjos, e restaura-se a amizade entre eles, e, pela redenção do homem, preenchem-se as lacunas que a grande apostasia deixou na hoste angélica.

Capítulo 62. Pelo sacrifício de Cristo todas as coisas são restauradas, e faz-se a paz entre a terra e o céu

E, naturalmente, os santos anjos, ensinados por Deus, em cuja eterna contemplação da verdade consiste a sua felicidade, sabem quão grande número da raça humana há de completar as suas fileiras e preencher o número total da sua cidadania. Por isso diz o apóstolo que todas as coisas convergem em Cristo, “tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). As coisas que estão no céu são reunidas quando aquilo que dele se perdeu na queda dos anjos é restaurado dentre os homens; e as coisas que estão na terra são reunidas quando aqueles que estão predestinados para a vida eterna são redimidos da sua antiga corrupção. E assim, por meio daquele único sacrifício em que o Mediador foi oferecido, o único sacrifício do qual as muitas vítimas da lei eram figuras, as coisas celestiais são postas em paz com as terrenas, e as terrenas com as celestiais. Por isso, como diz o mesmo apóstolo: “Porque Deus achou por bem que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus” (Cl 1.19-20).

Capítulo 63. A paz de Deus, que reina no céu, excede todo entendimento

Esta paz, como diz a Escritura, “excede todo entendimento” (Fp 4.7), e não pode ser conhecida por nós até que tenhamos chegado à sua plena posse. Pois em que sentido são reconciliadas as coisas celestiais, senão sendo reconciliadas conosco, isto é, entrando em harmonia conosco? Pois no céu há paz ininterrupta, tanto entre todas as criaturas inteligentes que lá existem como entre elas e o seu Criador. E esta paz, como se diz, excede todo entendimento; mas isto, naturalmente, significa o nosso entendimento, não o daqueles que sempre contemplam a face do seu Pai. Nós agora, por maior que seja o nosso entendimento humano, conhecemos apenas em parte e vemos como num espelho, de forma obscura (1Co 13.12). Mas, quando formos iguais aos anjos de Deus (Lc 20.36), então veremos face a face, como eles veem; e teremos para com eles tanta paz quanto eles têm para conosco, porque os amaremos tanto quanto somos amados por eles. E assim a paz deles nos será conhecida: pois a nossa própria paz será semelhante à deles e tão grande quanto a deles, e então não excederá o nosso entendimento. Mas a paz de Deus, a paz que ele nutre para conosco, sem dúvida excederá não só o nosso entendimento, mas também o deles. E assim tem de ser: pois toda criatura racional que é feliz recebe dele a sua felicidade; ele não recebe dela a sua. E, deste ponto de vista, é melhor interpretar o “todo” na passagem “A paz de Deus excede todo entendimento” como não admitindo exceção nem mesmo em favor do entendimento dos santos anjos: a única exceção que se pode fazer é a do próprio Deus. Pois, naturalmente, a sua paz não excede o seu próprio entendimento.

Capítulo 64. O perdão do pecado se estende por toda a vida mortal dos santos, a qual, embora livre de crime, não é livre de pecado

Mas os anjos estão em paz conosco já agora, quando os nossos pecados são perdoados. Por isso, na ordem do Credo, depois da menção da santa Igreja, vem a remissão dos pecados. Pois é por ela que a Igreja na terra subsiste: é por meio dela que aquilo que se havia perdido, e foi achado, é guardado de se perder de novo. Pois, deixando de lado a graça do batismo, que é dada como antídoto contra o pecado original, de modo que aquilo que o nosso nascimento nos impõe, o nosso novo nascimento nos tira (esta graça, porém, tira também todos os pecados atuais que foram cometidos por pensamento, palavra e obra): deixando de lado, pois, este grande ato de favor, de onde começa a restauração do homem, e no qual é lavada toda a nossa culpa, tanto original como atual, o resto da nossa vida, desde o tempo em que temos o uso da razão, oferece ocasião constante para a remissão dos pecados, por maior que seja o nosso progresso na justiça. Pois os filhos de Deus, enquanto vivem neste corpo de morte, estão em conflito com a morte. E embora se diga deles com verdade: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14), contudo eles são guiados pelo Espírito de Deus e, como filhos de Deus, avançam para Deus com este impedimento: são guiados também pelo seu próprio espírito, sobrecarregado como está pelo corpo corruptível (Sb 9.15); e, como filhos dos homens, sob a influência das afeições humanas, recaem no seu antigo nível, e assim pecam. Há, porém, uma diferença. Pois, embora todo crime seja pecado, nem todo pecado é crime. E assim dizemos que a vida dos homens santos, enquanto permanecem neste corpo mortal, pode ser encontrada sem crime; mas, como diz o apóstolo João: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos enganamos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1.8).

Capítulo 65. Deus perdoa os pecados, mas com a condição da penitência, cujos tempos foram fixados pela lei da Igreja

Mas até os próprios crimes, por maiores que sejam, podem ser perdoados na santa Igreja; e os homens que se arrependem verdadeiramente, cada um segundo a medida do seu pecado, nunca devem desesperar da misericórdia de Deus. E no ato de arrependimento, quando se cometeu um crime de tal natureza que separa o pecador do corpo de Cristo, não devemos levar em conta tanto a medida do tempo quanto a medida da dor; pois Deus não despreza o coração quebrantado e contrito (Sl 51.17). Mas, como a dor de um coração frequentemente está oculta a outro, e não se dá a conhecer aos outros por palavras ou outros sinais, quando é manifesta àquele de quem se diz: “O meu gemido não te é oculto” (Sl 38.9), os que governam a Igreja instituíram com razão tempos de penitência, para que a Igreja, na qual os pecados são perdoados, fique satisfeita; e fora da Igreja os pecados não são perdoados. Pois só a Igreja recebeu o penhor do Espírito Santo, sem o qual não há remissão dos pecados, ao menos aquela que conduz os perdoados à vida eterna.

Capítulo 66. O perdão do pecado se refere principalmente ao juízo futuro

Ora, o perdão do pecado se refere principalmente ao juízo futuro. Pois, no que diz respeito a esta vida, vale o dito da Escritura: “Um jugo pesado está sobre os filhos de Adão, desde o dia em que saem do ventre de sua mãe até o dia em que voltam à mãe de todas as coisas” (Eclo 40.1). De modo que vemos até as crianças, depois do batismo e da regeneração, sofrendo o golpe de diversos males: e assim se nos dá a entender que tudo o que se apresenta nos sacramentos da salvação se refere mais à esperança do bem futuro do que à conservação ou à obtenção de bens presentes. Pois muitos pecados parecem, neste mundo, ser deixados de lado e não receber castigo algum, cujo castigo está reservado para o futuro (pois não é em vão que o dia em que Cristo virá como Juiz dos vivos e dos mortos é chamado, de modo particular, o dia do juízo); assim como, por outro lado, muitos pecados são castigados nesta vida, os quais, no entanto, são perdoados, e não trarão castigo algum na vida futura. Por isso, com referência a certos castigos temporais que nesta vida recaem sobre os pecadores, o apóstolo, dirigindo-se àqueles cujos pecados são apagados e não reservados para o juízo final, diz: “Porque, se julgássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas, quando julgados, somos disciplinados pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo” (1Co 11.31-32).

Capítulo 67. A fé sem obras é morta e não pode salvar o homem

Além disso, alguns creem que os homens que não abandonam o nome de Cristo, que foram batizados na Igreja com o seu batismo e que nunca foram separados da Igreja por cisma ou heresia alguma, ainda que vivam no pecado mais grosseiro e nunca o lavem pela penitência nem o resgatem pela esmola, mas nele perseverem obstinadamente até o último dia da sua vida, serão salvos pelo fogo; isto é, que, embora venham a sofrer um castigo pelo fogo, que dure um tempo proporcional à gravidade dos seus crimes e delitos, não serão castigados com o fogo eterno. Mas os que creem nisto, e contudo são católicos, parecem-me ser desviados por uma espécie de sentimento benevolente natural à humanidade. Pois a Santa Escritura, quando consultada, dá uma resposta muito diferente. Escrevi um livro sobre este assunto, intitulado Da fé e das obras, no qual, o melhor que pude, com a ajuda de Deus, mostrei pela Escritura que a fé que nos salva é aquela que o apóstolo Paulo descreve com bastante clareza quando diz: “Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor” (Gl 5.6). Mas, se ela pratica o mal e não o bem, então sem dúvida, como diz o apóstolo Tiago, “por si só está morta” (Tg 2.17). O mesmo apóstolo diz ainda: “Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Será que essa fé pode salvá-lo?” (Tg 2.14). E mais: se um homem perverso há de ser salvo pelo fogo por causa só da sua fé, e se é isto o que o bem-aventurado apóstolo Paulo quer dizer quando afirma: “Porém ele mesmo será salvo, mas como que através do fogo” (1Co 3.15), então a fé sem obras pode salvar o homem, e o que diz o seu companheiro de apostolado, Tiago, tem de ser falso. E tem de ser falso também o que o próprio Paulo diz em outro lugar: “Não se enganem: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem afeminados, nem homossexuais, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o Reino de Deus” (1Co 6.9-10). Pois, se os que perseveram nestes caminhos perversos hão de ser salvos, apesar de tudo, por causa da sua fé em Cristo, como pode ser verdade que não herdarão o Reino de Deus?

Capítulo 68. O verdadeiro sentido da passagem (1Co 3.11-15) sobre os que são salvos, mas como que através do fogo

Mas, como estas declarações dos apóstolos, tão claras e inequívocas, não podem ser falsas, aquele dito obscuro sobre os que edificam sobre o fundamento, que é Cristo, não ouro, prata e pedras preciosas, mas madeira, feno e palha (pois são estes que, segundo se diz, serão salvos, mas como que através do fogo, salvando-os o mérito do fundamento), deve ser interpretado de modo que não entre em conflito com as afirmações claras citadas acima. Ora, madeira, feno e palha podem, sem incongruência, ser entendidos como significando um apego tal às coisas do mundo, por mais lícitas que sejam em si mesmas, que não podem ser perdidas sem dor da alma. E, embora esta dor queime, se Cristo ocupa no coração o lugar de fundamento, isto é, se nada lhe é preferido, e se o homem, embora ardendo de dor, está mais disposto a perder as coisas que tanto ama do que a perder Cristo, ele é salvo pelo fogo. Se, porém, no tempo da tentação, preferir apegar-se às coisas temporais e terrenas antes que a Cristo, não tem Cristo como fundamento; pois põe as coisas terrenas em primeiro lugar, e num edifício nada vem antes do fundamento. Além disso, o fogo de que fala o apóstolo neste lugar deve ser um fogo tal que ambos os homens tenham de passar por ele, isto é, tanto o homem que edifica sobre o fundamento ouro, prata e pedras preciosas como o homem que edifica madeira, feno e palha. Pois ele acrescenta imediatamente: “O fogo provará qual é a obra de cada um. Se aquilo que alguém edificou sobre o fundamento permanecer, esse receberá recompensa. Se a obra de alguém se queimar, esse sofrerá dano. Porém ele mesmo será salvo, mas como que através do fogo” (1Co 3.13-15). O fogo, pois, provará não a obra de um só deles, mas a de ambos. Ora, a prova da adversidade é uma espécie de fogo de que se fala claramente em outro lugar: “A fornalha prova os vasos do oleiro, e a fornalha da adversidade, os homens justos” (Eclo 27.5; 2.5). E este fogo, no curso desta vida, age exatamente do modo que diz o apóstolo. Se entra em contato com dois fiéis, um que “cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor” (1Co 7.32), isto é, que edifica sobre Cristo, o fundamento, ouro, prata e pedras preciosas; o outro que “cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa” (1Co 7.33), isto é, que edifica sobre o mesmo fundamento madeira, feno e palha, a obra do primeiro não se queima, porque ele não deu o seu amor a coisas cuja perda lhe possa causar dor; mas a obra do segundo se queima, porque as coisas que se desfrutam com desejo não podem ser perdidas sem sofrimento. Mas, como, pela nossa suposição, também o segundo prefere perder estas coisas a perder Cristo, e como não abandona Cristo por medo de perdê-las, embora sofra quando as perde, ele é salvo, mas como que através do fogo; porque a dor pelo que amava e perdeu o queima. Mas não o derruba nem o consome; pois está protegido pelo seu fundamento inabalável e incorruptível.

Capítulo 69. Não é impossível que alguns fiéis passem por um fogo purificador na vida futura

E não é impossível que algo do mesmo gênero aconteça também depois desta vida. É uma questão que se pode investigar, e ou esclarecer ou deixar em dúvida, se alguns fiéis passarão por uma espécie de fogo purificador e, na proporção em que tiverem amado com maior ou menor apego os bens que perecem, serão mais tarde ou mais cedo libertados dele. Este, porém, não pode ser o caso de nenhum daqueles de quem se diz que “não herdarão o Reino de Deus” (1Co 6.10), a não ser que, depois de um arrependimento adequado, os seus pecados lhes sejam perdoados. Quando digo “adequado”, quero dizer que não devem ser estéreis em dar esmolas; pois a Santa Escritura dá tanta importância a esta virtude que nosso Senhor nos diz de antemão que não atribuirá aos que estiverem à sua direita outro mérito senão o de nela terem abundado, e aos que estiverem à sua esquerda outra falta senão a de a não terem tido, quando disser aos primeiros: “Venham, benditos de meu Pai! Venham herdar o Reino”, e aos segundos: “Afastem-se de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25.31-46).

Capítulo 70. A esmola não expia o pecado se a vida não for mudada

Devemos, porém, acautelar-nos para que ninguém suponha que pecados graves, como os que são cometidos pelos que não herdarão o Reino de Deus, possam ser praticados diariamente e diariamente expiados pela esmola. A vida deve ser mudada para melhor; e a esmola deve ser usada para tornar Deus propício quanto aos pecados passados, não para comprar a impunidade de cometer tais pecados no futuro. Pois ele não deu a ninguém licença para pecar (Eclo 15.20), embora, em sua misericórdia, possa apagar os pecados já cometidos, se não descuidarmos de oferecer a devida satisfação.

Capítulo 71. A oração diária do fiel satisfaz pelos pecados leves que diariamente mancham a sua vida

Ora, a oração diária do fiel satisfaz por aqueles pecados diários, de natureza momentânea e leve, que são incidentes inevitáveis desta vida. Pois ele pode dizer “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9), visto que agora nasceu de novo para tal Pai, da água e do Espírito (Jo 3.5). E esta oração certamente tira os pecados muito pequenos da vida diária. Tira também aqueles que em outro tempo tornaram muito perversa a vida do fiel, mas que ele abandonou agora que foi mudado para melhor pelo arrependimento, contanto que, tão verdadeiramente quanto diz “perdoa-nos as nossas dívidas” (pois não faltam dívidas a ser perdoadas), assim também diga com verdade “assim como nós também perdoamos aos nossos devedores” (Mt 6.12); isto é, contanto que faça o que diz que faz: pois perdoar a um homem que pede perdão é verdadeiramente dar esmola.

Notas

1. Sl 2.7; Hb 1.5; 5.5. É por engano que Agostinho cita estas palavras como pronunciadas no batismo de nosso Senhor.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de J. F. Shaw (Nicene and Post-Nicene Fathers, 1ª série, vol. 3, Nova York, 1887), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. Os títulos dos capítulos e o argumento inicial são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Agostinho cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela antiga Bíblia latina, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.