Encaminhar não é abandonar: é reconhecer que algumas dores pedem também o cuidado de médicos, psicólogos e psiquiatras, enquanto o pastor continua presente. Diante de qualquer sinal de risco de suicídio, a pergunta direta e a busca imediata de ajuda vêm antes de tudo.
Não há conflito entre fé e tratamento. Wesley recomendava conseguir orientação médica para os enfermos, e Jesus disse que os doentes precisam de médico (Lc 5.31). Tomar remédio para depressão ou fazer terapia não é falta de fé, assim como não é tratar o diabetes.
Sinais de que é preciso encaminhar
- Pensamentos de morte ou de suicídio, planos, despedidas, doação de objetos pessoais.
- Sinais de luto prolongado depois de muitos meses (capítulo 2).
- Sinais de depressão por semanas seguidas: tristeza que não dá trégua, perda de prazer em tudo, sentimento de inutilidade, mudanças fortes no sono e no apetite.
- Sinais de trauma depois de uma morte violenta: imagens que invadem a mente, pesadelos, fuga de tudo o que lembra o fato, sobressalto constante.
- Uso de álcool, calmantes ou outras drogas para aguentar a dor.
- Incapacidade de cuidar de si, da casa, dos filhos ou do trabalho.
- Vozes que mandam fazer coisas ou ideias estranhas e fixas. Isto é diferente da sensação de presença comum no luto.
- Em crianças e adolescentes: regressão prolongada, queda forte na escola, medo persistente, isolamento, autolesão.
- Cuidador esgotado ou violência dentro de casa.
Como perguntar sobre suicídio
Perguntar diretamente não coloca a ideia na cabeça de ninguém. Uma revisão de 13 estudos publicada em 2014 na revista Psychological Medicine (Dazzi e colegas) não encontrou aumento de pensamentos suicidas por causa da pergunta, e alguns estudos sugerem que ela até alivia. O silêncio é que isola.
- Converse em particular e com calma: “Às vezes, quando a dor é muito grande, a pessoa pensa em morrer. Isso tem acontecido com você?”.
- Se a resposta for sim, pergunte com clareza: “Você tem pensado em tirar a própria vida? Pensou em como faria? Tem acesso a isso? Já tentou antes? O que tem segurado você até agora?”.
- Escute sem minimizar (“isso é bobagem”) e sem pregar condenação (“suicídio leva ao inferno”). A vergonha aumenta o risco.
- Não prometa segredo. Diga: “Eu me importo demais com você para guardar isto sozinho”.
- Se houver plano, meios e intenção, não deixe a pessoa sozinha. Ligue para o SAMU (192) ou leve-a a uma UPA ou pronto-socorro, avise a família e afaste os meios (remédios guardados, armas, venenos).
- Se houver pensamentos sem plano, busque atendimento de saúde no mesmo dia, apresente o CVV (188) e combine com a pessoa um plano de segurança: os sinais de alerta dela, o que a acalma, quem ela pode chamar a qualquer hora e como afastar os meios.
- Ligue no dia seguinte e continue visitando.
Para onde encaminhar
| Situação |
Onde buscar ajuda |
| Risco imediato de vida (tentativa, plano com meios) |
SAMU 192, UPA ou pronto-socorro; Polícia 190 se houver violência |
| Pensamentos de suicídio ou crise emocional |
CVV, telefone 188, gratuito, 24 horas, ou chat em cvv.org.br; e serviço de saúde no mesmo dia |
| Depressão, luto prolongado, trauma |
Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Centro de Atenção Psicossocial (CAPS); psicólogo ou psiquiatra |
| Dependência de álcool e outras drogas |
CAPS Álcool e Drogas (CAPS AD) |
| Crianças e adolescentes |
Pediatra, UBS ou CAPS infantojuvenil; orientação à escola |
| Necessidades sociais e benefícios |
Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) |
| Questões jurídicas |
Defensoria Pública ou advogado |
| Violência contra criança, idoso ou pessoa vulnerável |
Conselho Tutelar, Disque 100, Polícia 190 |
Como encaminhar bem
- Monte com antecedência uma rede de encaminhamento: nomes e telefones de serviços públicos e de profissionais de confiança. A competência técnica vem em primeiro lugar; a sensibilidade à fé é um grande valor a mais.
- Explique o motivo com carinho: “O que você está vivendo merece um cuidado que eu sozinho não consigo dar”.
- Ajude no primeiro contato, se a pessoa permitir: marque junto, acompanhe até o serviço, ligue depois.
- Continue as visitas pastorais. O encaminhamento acrescenta um cuidado e não substitui o da igreja.
- Com a autorização da pessoa, converse com o profissional para que os dois cuidados caminhem juntos.