Atanásio, A Encarnação do Verbo · Seções 1 a 11
O Criador é também o Salvador; o homem, criado à imagem de Deus, caiu na corrupção; o dilema divino e a resposta: o Verbo toma um corpo.
#A01
No tratado anterior expusemos, escolhendo poucos pontos entre muitos, um relato suficiente do erro dos pagãos a respeito dos ídolos e do culto aos ídolos, e de como estes foram inventados no princípio; isto é, de como os homens, por maldade, inventaram para si a adoração de ídolos. Pela graça de Deus, observamos também algo sobre a divindade do Verbo do Pai, sobre a sua providência e o seu poder universais, e sobre como o Pai bondoso, por meio dele, ordena todas as coisas, todas as coisas são movidas por ele e nele recebem vida. Vamos agora, Macário1 (digno desse nome), verdadeiro amante de Cristo, prosseguir na fé da nossa religião2 e expor também o que diz respeito ao Verbo ter-se feito homem e à sua divina manifestação entre nós, que os judeus caluniam e os gregos ridicularizam, mas nós adoramos; a fim de que, quanto mais humilde pareça a condição do Verbo, tanto mais cresça e se multiplique a piedade que você lhe tem. 2. Pois quanto mais ele é escarnecido entre os incrédulos, tanto mais testemunho dá da sua própria divindade. Ele não só demonstra como possível aquilo que os homens, enganados, julgam impossível, mas também reveste de dignidade, por sua própria bondade, aquilo de que os homens zombam como indigno; e aquilo de que os homens, presumindo-se sábios, riem como meramente humano, ele demonstra pelo seu próprio poder que é divino. Assim ele subjuga as pretensões dos ídolos por sua suposta humilhação, isto é, pela cruz, e conquista invisivelmente os que zombam e não creem, levando-os a reconhecer a sua divindade e o seu poder. 3. Mas, para tratar deste assunto, é necessário recordar o que já foi dito antes, para que você não deixe de conhecer a causa da manifestação corporal do Verbo do Pai, tão alto e tão grande, nem pense que foi por consequência da sua própria natureza que o Salvador se revestiu de um corpo. Ao contrário, sendo incorpóreo por natureza e Verbo desde o princípio, ele se manifestou a nós num corpo humano para a nossa salvação, pelo amor e pela bondade do seu próprio Pai. 4. Convém, pois, que comecemos a tratar deste assunto falando da criação do universo e de Deus, o seu Artífice, para que se perceba devidamente que a renovação da criação foi obra do mesmo Verbo que a fez no princípio. Pois não parecerá incoerente que o Pai tenha operado a salvação dela naquele por meio de quem a fez.
Sobre a feitura do universo e a criação de todas as coisas, muitos tiveram opiniões diferentes, e cada um estabeleceu a lei como bem quis. Alguns dizem que todas as coisas vieram a existir por si mesmas e por acaso; é o caso dos epicuristas, que, desprezando-se a si mesmos, nos dizem que não existe providência universal, falando abertamente contra o fato evidente e a experiência. 2. Pois se, como dizem, tudo teve o seu começo por si mesmo e sem propósito, seguir-se-ia que tudo teria vindo3 simplesmente a existir, de modo que tudo seria igual, e não distinto. Em virtude da unidade do corpo, tudo teria de ser sol ou lua; e, no caso dos homens, o todo teria de ser mão, ou olho, ou pé. Mas, de fato, não é assim. Ao contrário, vemos a distinção entre sol, lua e terra; e, nos corpos humanos, entre pé, mão e cabeça. Ora, uma disposição tão diferenciada como essa não nos diz que essas coisas vieram a existir por si mesmas, mas mostra que uma causa as precedeu; e a partir dessa causa é possível apreender também a Deus como o Criador e Ordenador de todas as coisas.
3. Outros, porém, entre eles Platão, tão afamado entre os gregos, argumentam que Deus fez o mundo de uma matéria preexistente e sem princípio. Pois Deus não poderia ter feito nada, se a matéria não existisse antes, assim como a madeira precisa estar à mão do carpinteiro para que ele possa trabalhar. 4. Mas, ao dizerem isso, não percebem que atribuem fraqueza a Deus. Pois, se ele não é a causa da matéria, mas só faz as coisas de uma matéria preexistente, mostra-se fraco, porque é incapaz de produzir sem a matéria qualquer coisa que faz; assim como, sem dúvida, é fraqueza do carpinteiro não poder fazer nada do que lhe pedem sem a madeira. Pois, segundo a hipótese deles, se a matéria não existisse, Deus não teria feito coisa alguma. E como poderia, nesse caso, ser chamado Criador e Artífice, se deve a outra fonte, isto é, à matéria, a sua capacidade de fazer? Assim, se for desse modo, Deus será, segundo a teoria deles, apenas um artesão, e não um Criador a partir do nada4; isto é, se ele trabalha sobre uma matéria existente, mas não é ele mesmo a causa da matéria. Pois de modo algum poderia ser chamado Criador, se não fosse o Criador da matéria da qual, por sua vez, as coisas criadas foram feitas. 5. Os sectários, por sua vez, imaginam para si outro artífice de todas as coisas, diferente do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, numa profunda cegueira até quanto às palavras que usam. 6. Pois, quando o Senhor diz aos judeus: “Vocês não leram que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: ‘Por isso o homem deixará o seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne’?” (Mt 19.4-5), e depois, referindo-se ao Criador, diz: “Portanto, que ninguém separe o que Deus ajuntou” (Mt 19.6), como podem esses homens afirmar que a criação é independente do Pai? Ou ainda, segundo as palavras de João, que diz sem nenhuma exceção: “Todas as coisas foram feitas por ele” e “sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3), como poderia o artífice ser outro, distinto do Pai de Cristo?
Assim eles especulam em vão. Mas o ensino piedoso e a fé segundo Cristo denunciam a sua linguagem insensata como impiedade. Pois a fé sabe que o universo não veio a existir espontaneamente, porque a providência não está ausente; nem de uma matéria existente, porque Deus não é fraco; mas que Deus, por meio do seu Verbo, fez existir do nada o universo, que não tinha existência anterior alguma. É o que ele diz, primeiro, por meio de Moisés: “No princípio, Deus criou os céus e a terra” (Gn 1.1); e, em segundo lugar, no livro muito edificante do Pastor: “Antes5 de tudo, creia que Deus é um só, que criou e formou todas as coisas e as fez existir do nada”. 2. A isso também se refere Paulo quando diz: “Pela fé, entendemos que o universo foi formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não são visíveis” (Hb 11.3). 3. Pois Deus é bom, ou melhor, é por essência a fonte da bondade; e6 quem é bom não pode ser mesquinho em coisa alguma. Por isso, não negando a existência a ninguém, ele fez todas as coisas do nada por meio do seu próprio Verbo, Jesus Cristo, nosso Senhor. E, entre elas, teve compaixão especial, acima de tudo o que há na terra, da raça humana; e, percebendo que ela era incapaz, por causa da condição da sua origem, de permanecer sempre no mesmo estado, deu-lhe um dom a mais. Não criou o homem simplesmente, como fez com todas as criaturas irracionais da terra, mas fez os homens segundo a sua própria imagem, dando-lhes uma parte até do poder do seu próprio Verbo; de modo que, tendo como que uma espécie de reflexo do Verbo e sendo feitos racionais, pudessem permanecer para sempre na bem-aventurança, vivendo a verdadeira vida que pertence aos santos no paraíso. 4. Mas, sabendo também que a vontade do homem podia inclinar-se para qualquer dos lados, ele assegurou de antemão a graça que lhes fora dada por meio de uma lei e do lugar onde os pôs. Levou-os ao seu próprio jardim e deu-lhes uma lei, para que, se guardassem a graça e permanecessem bons, conservassem a vida no paraíso, sem tristeza, dor nem preocupação, além de terem a promessa da incorruptibilidade no céu; mas, se transgredissem, se desviassem e se tornassem maus, soubessem que incorreriam na corrupção da morte, que lhes pertencia por natureza: não viveriam mais no paraíso, mas, expulsos dele, a partir de então morreriam e permaneceriam na morte e na corrupção. 5. É disso que a Sagrada Escritura também adverte, dizendo na pessoa de Deus: “De toda árvore que há no jardim, comendo, comerás; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comereis; e, no dia em que dela comerdes, morrendo, morrereis” (Gn 2.16-17). Mas o que mais se poderia entender por “morrendo, morrereis”, senão não apenas morrer, mas também permanecer para sempre na corrupção da morte?
Talvez você se pergunte por que razão, tendo nos proposto falar da encarnação do Verbo, estamos agora tratando da origem da humanidade. Mas também isso pertence propriamente ao objetivo do nosso tratado. 2. Pois, ao falar da manifestação do Salvador entre nós, precisamos falar também da origem dos homens, para que você saiba que a razão da sua descida fomos nós, e que a nossa transgressão7 despertou o amor do Verbo, de modo que o Senhor se apressou em nos socorrer e aparecer entre os homens. 3. Pois fomos nós o motivo da sua encarnação, e, por nossa salvação, ele nos amou a ponto de aparecer e nascer num corpo humano. 4. Assim, pois, Deus fez o homem e quis que ele permanecesse na incorruptibilidade. Mas os homens, tendo desprezado e rejeitado a contemplação de Deus, e tendo imaginado e tramado o mal para si mesmos (como foi dito8 no tratado anterior), receberam a condenação de morte com que tinham sido ameaçados. Desde então já não permaneceram como haviam sido feitos, mas foram se corrompendo segundo as suas próprias invenções (cf. Ec 7.29; Rm 1.21-22), e a morte os dominava como rei (cf. Rm 5.14). Pois a transgressão do mandamento os fazia voltar ao seu estado natural, de modo que, assim como tinham recebido o ser a partir do nada, também, como era de esperar, sofreriam com o passar do tempo a corrupção que leva ao nada. 5. Pois, se da sua condição natural anterior de não existência foram chamados ao ser pela presença e pelo amor do Verbo, seguia-se naturalmente que os homens, privados do conhecimento de Deus e voltados para o que não é (pois o mal não é, mas o bem é), ficassem para sempre privados até do ser, uma vez que recebem o ser de Deus, que É; em outras palavras, que se desintegrassem e permanecessem na morte e na corrupção. 6. Pois o homem é mortal por natureza, uma vez que foi feito do que não é. Mas, pela sua semelhança com aquele que é (e se ainda preservasse essa semelhança, conservando-o no seu conhecimento), ele deteria a sua corrupção natural e permaneceria incorrupto, como diz a Sabedoria: “A observância das suas leis é a garantia da imortalidade” (Sb 6.18). E, sendo incorrupto, viveria daí em diante como Deus; é a isso, suponho, que se refere a divina Escritura quando diz: “Eu disse: ‘Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo. Mas vocês morrerão como simples mortais, e, como qualquer dos príncipes, vocês sucumbirão'” (Sl 82.6-7).
Pois Deus não só nos fez do nada, mas também nos deu gratuitamente, pela graça do Verbo, uma vida em conformidade com Deus. Os homens, porém, rejeitando as coisas eternas e, por conselho do diabo, voltando-se para as coisas da corrupção, tornaram-se a causa9 da sua própria corrupção na morte. Eram, como eu disse antes, corruptíveis por natureza, mas destinados a escapar da sua condição natural pela graça que decorre da participação no Verbo, se tivessem permanecido bons. 2. Pois, por causa do Verbo que habitava com eles, nem mesmo a sua corrupção natural se aproximava deles, como diz também a Sabedoria: “Deus criou o homem para a incorruptibilidade e como imagem da sua própria eternidade; mas pela inveja do diabo a morte entrou no mundo” (Sb 2.23-24). Quando isso aconteceu, os homens começaram a morrer, e a corrupção dali em diante prevaleceu contra eles, ganhando sobre toda a raça um poder ainda maior que o natural, uma vez que tinha contra eles, como vantagem a mais, a ameaça da divindade por causa da transgressão do mandamento.
3. Pois nem mesmo nas suas más ações os homens pararam em algum limite fixo; avançando pouco a pouco, foram além de toda medida. A princípio foram inventores da maldade e atraíram sobre si a morte e a corrupção; mais tarde, desviando-se para a injustiça e excedendo toda iniquidade, sem se deterem em nenhum mal, mas inventando sucessivamente toda espécie de males novos, tornaram-se insaciáveis no pecado. 4. Pois havia adultérios e roubos por toda parte, e a terra inteira estava cheia de assassinatos e saques. Quanto à corrupção e à injustiça, não se dava atenção à lei, mas todos os crimes eram praticados por toda parte, tanto individualmente como em conjunto. Cidades guerreavam contra cidades, nações se levantavam contra nações, e a terra inteira estava dilacerada por guerras civis e batalhas, cada um rivalizando com os demais em atos ilícitos. 5. Nem mesmo os crimes contra a natureza estavam longe deles; mas, como diz o apóstolo e testemunha de Cristo: “Porque até as mulheres trocaram o modo natural das relações íntimas por outro, contrário à natureza. Da mesma forma, também os homens, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo indecência, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro” (Rm 1.26-27).
Por esta causa, pois, tendo a morte se apoderado dos homens e permanecendo sobre eles a corrupção, a raça humana estava perecendo; o homem racional, feito à imagem de Deus, estava desaparecendo, e a obra das mãos de Deus estava em processo de dissolução. 2. Pois a morte, como eu disse acima, ganhou desde então um domínio legal sobre nós (cf. Gn 2.17), e era impossível escapar da lei, uma vez que fora estabelecida por Deus por causa da transgressão (cf. Gl 3.19, coincidência apenas verbal); e o resultado era, na verdade, ao mesmo tempo monstruoso e indigno. 3. Pois seria monstruoso, em primeiro lugar, que Deus, tendo falado, se mostrasse falso; que, tendo ordenado uma vez que o homem, se transgredisse o mandamento, morreria de morte, depois da transgressão o homem não morresse e a palavra de Deus fosse anulada. Pois Deus não seria verdadeiro se, tendo dito que morreríamos, o homem não morresse. 4. Por outro lado, seria indigno que criaturas feitas racionais, e que tinham participado do Verbo, se arruinassem e voltassem à não existência pelo caminho da corrupção10. 5. Pois não seria digno da bondade de Deus que as coisas que ele fizera se consumissem por causa do engano que o diabo praticara contra os homens. 6. Era indigno ao extremo, sobretudo, que a obra de Deus entre os homens fosse destruída, seja pela negligência deles mesmos, seja pelo engano dos espíritos malignos.
7. Assim, estando as criaturas racionais a se consumir e tais obras a caminho da ruína, o que devia Deus fazer em sua bondade? Permitir que a corrupção prevalecesse contra elas e que a morte as retivesse? E de que teria servido, então, terem sido feitas? Melhor seria não terem sido feitas do que, uma vez feitas, ficarem entregues ao abandono e à ruína. 8. Pois o abandono revela fraqueza, e não bondade, da parte de Deus (se ele permite que a sua própria obra se arruíne depois de tê-la feito), mais do que se nunca tivesse feito o homem. 9. Pois, se não os tivesse feito, ninguém poderia acusá-lo de fraqueza; mas, uma vez que os fez e os criou do nada, seria monstruoso ao extremo que a obra se arruinasse, e isso diante dos olhos do Criador. 10. Estava, portanto, fora de questão deixar os homens entregues à correnteza da corrupção, porque isso seria indigno e não estaria à altura da bondade de Deus.
Mas, assim como essa consequência tinha de valer, assim também, do outro lado, as justas exigências11 de Deus se opunham a ela: que Deus se mostrasse verdadeiro em relação à lei que estabelecera a respeito da morte. Pois seria monstruoso que Deus, o Pai da verdade, parecesse mentiroso para nosso proveito e preservação. 2. Então, mais uma vez, que caminho Deus poderia seguir? Exigir dos homens o arrependimento pela sua transgressão? Isso se poderia declarar digno de Deus, como se, assim como pela transgressão os homens se voltaram para a corrupção, assim pelo arrependimento pudessem ser postos de novo no caminho da incorruptibilidade. 3. Mas o arrependimento, em primeiro lugar, não salvaguardaria a justa exigência12 de Deus. Pois Deus continuaria não sendo verdadeiro, se os homens não permanecessem sob o domínio da morte. Em segundo lugar, o arrependimento não faz os homens voltarem daquilo que é a sua natureza; apenas os detém nos atos de pecado. 4. Ora, se se tratasse apenas de uma falta, e não de uma corrupção dela decorrente, o arrependimento bastaria. Mas, se, uma vez iniciada a transgressão, os homens ficaram envolvidos na corrupção que era a sua natureza e foram privados da graça que possuíam por estarem à imagem de Deus, que outro passo era necessário? Ou o que se exigia para tal graça e tal restauração, senão o Verbo de Deus, que também no princípio fizera todas as coisas do nada? 5. Pois a ele cabia, mais uma vez, tanto conduzir o corruptível à incorruptibilidade como manter intacta a justa exigência13 do Pai sobre todos. Sendo o Verbo do Pai e estando acima de todos, só ele, por sua própria natureza, era ao mesmo tempo capaz de recriar tudo e digno de sofrer em favor de todos e de ser o embaixador de todos junto ao Pai.
Para este fim, pois, o Verbo de Deus, incorpóreo, incorruptível e imaterial, vem à nossa região, embora antes não estivesse longe de nós (cf. At 17.27). Pois nenhuma parte da criação ficou vazia dele: ele encheu todas as coisas em toda parte, permanecendo junto do seu próprio Pai. Mas ele vem, condescendendo, para nos mostrar o seu amor e nos visitar. 2. Ele viu a raça das criaturas racionais a caminho de perecer, e a morte reinando sobre elas pela corrupção. Viu também que a ameaça contra a transgressão dava firme apoio à corrupção que pesava sobre nós, e que seria monstruoso que14 a lei caísse por terra antes de ser cumprida. Viu ainda a indignidade do que acontecera: que as coisas das quais ele mesmo era o Artífice estavam desaparecendo. Viu, além disso, a extrema maldade dos homens, e como pouco a pouco a tinham aumentado contra si mesmos até um grau intolerável. E viu, por fim, que todos os homens estavam sob a pena de morte. Então teve compaixão da nossa raça, teve misericórdia da nossa fraqueza, condescendeu com a nossa corrupção e, não suportando que a morte tivesse o domínio, para que a criatura não perecesse e a obra do seu Pai nos homens não fosse em vão, toma para si um corpo, e um corpo não diferente do nosso. 3. Pois ele não quis simplesmente tornar-se corpóreo, nem quis apenas aparecer15. Se quisesse apenas aparecer, poderia ter realizado a sua manifestação divina também por algum outro meio mais elevado. Mas ele toma um corpo da nossa espécie; e não apenas isso, mas de uma virgem sem mancha e imaculada, que não conhecia homem, um corpo limpo e verdadeiramente puro de relação com homem. Pois, sendo ele mesmo poderoso e Artífice de todas as coisas, prepara na Virgem o corpo como templo para si e o faz verdadeiramente seu16 como instrumento, nele se manifestando e nele habitando. 4. E assim, tomando dos nossos corpos um de natureza semelhante, uma vez que todos estavam sob a pena da corrupção da morte, ele o entregou à morte em lugar de todos e o ofereceu ao Pai. E fez isso, ademais, por seu amor, para que, em primeiro lugar, sendo todos considerados mortos nele, fosse anulada a lei que acarretava a ruína dos homens (uma vez que o seu poder se esgotou inteiramente no corpo do Senhor e já não tinha apoio contra os homens, seus semelhantes); e para que, em segundo lugar, tendo os homens se voltado para a corrupção, ele os fizesse voltar de novo para a incorruptibilidade e os vivificasse da morte pela apropriação17 do seu corpo e pela graça da ressurreição, afastando deles a morte como palha do fogo18.
Pois o Verbo percebeu que a corrupção dos homens não poderia ser desfeita de outro modo senão pela morte, como condição necessária; e era impossível que o Verbo sofresse a morte, sendo imortal e Filho do Pai. Para isso, ele toma para si um corpo capaz de morrer, a fim de que esse corpo, participando do Verbo que está acima de todos, fosse digno de morrer em lugar de todos e, por causa do Verbo que viera habitar nele, permanecesse incorruptível, e para que dali em diante a corrupção fosse detida em todos pela graça da ressurreição. Assim, oferecendo à morte o corpo que ele mesmo tomara, como oferta e sacrifício livre de toda mancha, ele imediatamente afastou a morte de todos os seus semelhantes pela oferta de um equivalente. 2. Pois, estando acima de todos, o Verbo de Deus, oferecendo o seu próprio templo e instrumento corporal pela vida19 de todos, naturalmente satisfez a dívida pela sua morte. E assim ele, o Filho incorruptível de Deus, estando unido a todos por uma natureza semelhante, naturalmente revestiu todos de incorruptibilidade pela promessa da ressurreição. Pois a própria corrupção na morte já não tem apoio contra os homens, por causa do Verbo, que, por seu único corpo, veio habitar entre eles. 3. É como20 quando um grande rei entra numa grande cidade e passa a residir numa das casas dali: essa cidade é, sem dúvida, considerada digna de grande honra, e nenhum inimigo ou bandido desce mais sobre ela para subjugá-la; ao contrário, julga-se que ela merece todo cuidado, porque o rei fixou residência numa única casa dela. Assim também aconteceu com o Monarca de todos. 4. Pois agora que ele veio à nossa região e passou a habitar num só corpo entre os seus semelhantes, toda a conspiração do inimigo contra a humanidade está contida dali em diante, e a corrupção da morte, que antes prevalecia contra os homens, foi abolida. Pois a raça humana teria se arruinado, se o Senhor e Salvador de todos, o Filho de Deus, não tivesse vindo entre nós para enfrentar o termo da morte21.
Na verdade, esta grande obra era particularmente adequada à bondade de Deus. 1. Pois, se um rei que fundou uma casa ou uma cidade, quando ela é assaltada por bandidos por descuido dos moradores, de modo algum a abandona, mas a vinga e a reivindica como obra sua, considerando não o descuido dos habitantes, mas o que convém a ele mesmo, muito mais Deus, o Verbo do Pai todo-bondoso, não abandonou a raça humana, obra sua, que caminhava para a corrupção. Ao contrário, enquanto apagava a morte que sobreviera pela oferta do seu próprio corpo, corrigiu a negligência deles pelo seu próprio ensino, restaurando pelo seu próprio poder tudo o que pertencia ao homem. 2. Disso se pode ter certeza pelos próprios escritores inspirados do Salvador, se alguém se deparar com os seus escritos, onde dizem: “Pois o amor de Cristo nos domina, porque reconhecemos isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.14-15), nosso Senhor Jesus Cristo. E ainda: “Vemos, porém, aquele que, por um pouco, foi feito menor do que os anjos, Jesus, que, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hb 2.9). 3. Em seguida, ele mostra também a razão por que era necessário que nenhum outro senão o próprio Deus Verbo se encarnasse, nestes termos: “Porque convinha que Deus, por causa de quem e por meio de quem todas as coisas existem, conduzindo muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2.10). Com essas palavras ele quer dizer que a ninguém mais cabia reconduzir o homem da corrupção que começara, senão ao Verbo de Deus, que também os fizera no princípio. 4. E que o próprio Verbo assumiu também um corpo para o sacrifício em favor de corpos semelhantes ao seu, a isso também se referem nestas palavras: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, também Jesus, igualmente, participou dessas coisas, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.14-15). 5. Pois, pelo sacrifício do seu próprio corpo, ele tanto pôs fim à lei que pesava contra nós como inaugurou para nós um novo começo de vida, pela esperança da ressurreição que nos deu. Pois, uma vez que foi pelo homem que a morte prevaleceu sobre os homens, por isso mesmo, inversamente, pelo Verbo de Deus feito homem, vieram a destruição da morte e a ressurreição da vida, como diz o homem que trazia Cristo em si (cf. Gl 6.17): “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (1Co 15.21-22), e assim por diante. Pois já não morremos como sujeitos à condenação, mas, como homens que ressuscitam dos mortos, aguardamos a ressurreição geral de todos, “que ele mostrará no tempo certo” (1Tm 6.15), isto é, Deus, que também a realizou e no-la concedeu. 6. Esta é, pois, a primeira causa de o Salvador se ter feito homem. Mas também pelas razões seguintes se pode ver que era conveniente que a sua vinda graciosa entre nós acontecesse.
Deus, que tem poder sobre todas as coisas, quando fazia a raça humana por meio do seu próprio Verbo, viu a fraqueza da natureza dela: que não era capaz, por si mesma, de conhecer o seu Criador nem de formar ideia alguma de Deus. Pois ele era incriado, enquanto as criaturas tinham sido feitas do nada; ele era incorpóreo, enquanto os homens tinham sido formados de modo inferior, no corpo; e, de todo modo, as coisas feitas estavam muito longe de poder compreender e conhecer o seu Criador. Tendo compaixão, digo, da raça humana, porque é bom, não os deixou desprovidos do conhecimento de si mesmo, para que não achassem nenhum proveito em existir22. 2. Pois que proveito teriam as criaturas, se não conhecessem o seu Criador? Ou como poderiam ser racionais sem conhecer o Verbo (e Razão) do Pai, no qual receberam o próprio ser? Nada as distinguiria sequer dos animais irracionais, se não tivessem conhecimento de nada além das coisas terrenas. Mais ainda: por que Deus as teria feito, se não queria ser conhecido por elas? 3. Por isso, para que tal não acontecesse, sendo bom, ele lhes dá parte na sua própria Imagem, nosso Senhor Jesus Cristo, e os faz segundo a sua própria Imagem e segundo a sua semelhança, para que, percebendo por essa graça a Imagem, isto é, o Verbo do Pai, possam por meio dele formar uma ideia do Pai e, conhecendo o seu Criador, viver a vida feliz e verdadeiramente bem-aventurada. 4. Mas os homens, mais uma vez em sua perversidade, desprezando apesar de tudo isso a graça que lhes fora dada, rejeitaram a Deus tão completamente e obscureceram tanto a alma que não só esqueceram a ideia que tinham de Deus, mas também inventaram para si uma coisa após outra. Pois não só esculpiram ídolos para si em lugar da verdade e honraram mais as coisas que não são do que o Deus vivo, “servindo a criatura em lugar do Criador” (Rm 1.25), mas, o que é pior de tudo, transferiram a honra de Deus até para pedaços de madeira e pedras, para todo objeto material e para homens; e foram ainda mais longe, como dissemos no tratado anterior. 5. A sua impiedade chegou a tal ponto que passaram a adorar demônios e a proclamá-los deuses, satisfazendo os seus próprios23 desejos. Pois realizavam, como foi dito acima, ofertas de animais irracionais e sacrifícios de homens, como lhes convinha24, prendendo-se cada vez mais às inspirações enlouquecedoras deles. 6. Por essa razão também as artes mágicas eram ensinadas entre eles, oráculos em diversos lugares desencaminhavam os homens, e todos atribuíam as influências do seu nascimento e da sua existência às estrelas e a todos os corpos celestes, sem pensar em nada além do que era visível. 7. E, numa palavra, tudo estava cheio de irreligião e de iniquidade, e só Deus e o seu Verbo eram desconhecidos, embora ele não se tivesse escondido da vista dos homens nem dado o conhecimento de si mesmo de um modo só; ao contrário, desdobrara-o diante deles de muitas formas e por muitos caminhos.
1. Veja Contra os gentios 1. A palavra (Makarie) pode ser apenas um adjetivo, mas a sua ocorrência nos dois lugares parece decisiva. O nome era muito comum (Apologia contra os arianos, passim). Macário era cristão, como mostra a presente passagem: supõe-se (Contra os gentios 1.7) que ele tenha acesso às Escrituras.
2. tes eusebeias. Veja 1Tm 3.16 e Sobre os decretos de Niceia 1.
3. Ou: “sido feito de um só modo”. Na oração seguinte, eu traduzia antes as difíceis palavras hos epi somatos henos por “como no caso do universo”; mas, embora essa tradução tenha agradado a outros, admito agora, com relutância, que ela põe coisa demais no grego (apesar da seção 41.5).
4. eis to einai.
5. Hermas, O Pastor, Mandamento 1.
6. Contra os gentios 41 e Platão, Timeu 29e.
7. Cf. Discursos contra os arianos II.54.
8. Contra os gentios 3-5.
9. Cf. Concílio de Orange II, cânon 23: “Suam voluntatem homines faciunt, non Dei, quando id agunt quod Deo displicet” (os homens fazem a própria vontade, e não a de Deus, quando fazem o que desagrada a Deus).
10. Cf. Anselmo, Cur Deus homo II.4: “Valde alienum est ab eo, ut ullam rationalem naturam penitus perire sinat” (é muito alheio a ele permitir que alguma natureza racional pereça por completo).
11. Literalmente, “o que é razoável em relação a Deus”, isto é, o que está implicado nos seus atributos e na sua relação conosco; cf. Rm 3.26; cf. Anselmo, Cur Deus homo I.12, que restringe um pouco a ideia de Atanásio: “Si peccatum sic dimittitur impunitum, similiter erit apud Deum peccanti et non peccanti, quod Deo non convenit… Inconvenientia autem iniustitia est” (se o pecado é perdoado assim, sem castigo, será igual diante de Deus quem peca e quem não peca, o que não convém a Deus… E a inconveniência é injustiça).
12. Veja a nota anterior.
13. Veja a nota anterior.
14. Cf. seção 6.3.
15. Cf. seção 43.2.
16. Cf. Discursos contra os arianos III.33 e III.31.
17. Cf. Discursos contra os arianos III.33 e III.31.
18. A comparação está invertida. Os homens são a “palha”, a morte é o “fogo”. Cf. seção 44.7.
19. antipsychon.
20. Possivelmente sugerido pelo costume dos imperadores. Constantinopla foi honrada desse modo alguns anos depois (326). Para esta comparação, veja o Sermo maior de fide, cap. 6.
21. Ou: “para pôr fim à morte”.
22. Cf. seção 13.2.
23. Auton pode referir-se aos daimones; nesse caso, compare Contra os gentios 25, no fim.
24. Veja Contra os gentios 25.1, ta homoia tois homoiois (“o semelhante ao semelhante”). Ou o texto pode significar simplesmente “como lhes era devido”.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Archibald Robertson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 4, Nova York, 1892), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os resumos no começo de cada seção e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Atanásio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.