Atanásio, A Encarnação do Verbo · Seções 24 a 35

A cruz, a ressurreição e as profecias

Por que a morte de cruz; a ressurreição ao terceiro dia; os cristãos já não temem a morte; as profecias sobre o nascimento, a paixão e a cruz.

#A03

§24. Outras objeções antecipadas. Ele não escolheu o modo de sua morte, pois devia mostrar-se vencedor da morte em todas as suas formas ou em qualquer delas (comparação com um bom lutador). A morte escolhida para desonrá-lo tornou-se o troféu contra a morte; além disso, preservou o seu corpo sem divisão

Mas precisamos antecipar a resposta àquilo que outros também poderiam dizer. Pois talvez alguém dissesse o seguinte: se era necessário que a sua morte acontecesse diante de todos e com testemunhas, para que também a notícia da sua ressurreição fosse crida, teria sido melhor, ao menos, que ele planejasse para si uma morte gloriosa, nem que fosse só para escapar da ignomínia da cruz. 2. Mas, se tivesse feito até isso, daria motivo a suspeitas contra si mesmo, de que não tinha poder contra toda morte, mas somente contra a morte planejada para ele1; e assim, do mesmo modo, haveria pretexto para descrer da ressurreição. Por isso a morte veio ao seu corpo não por iniciativa dele, mas por conselhos inimigos, a fim de que ele destruísse por completo qualquer morte que oferecessem ao Salvador. 3. E assim como um lutador nobre, grande em habilidade e coragem, não escolhe ele mesmo os seus adversários, para não levantar a suspeita de que tem medo de alguns deles, mas deixa a escolha aos espectadores, e principalmente se estes forem seus inimigos, para que derrube qualquer um que lhe ponham à frente e seja tido por superior a todos; assim também a Vida de todos, nosso Senhor e Salvador, o próprio Cristo, não planejou uma morte para o seu corpo, para não parecer que temia alguma outra morte, mas aceitou na cruz, e suportou, uma morte infligida por outros, e sobretudo pelos seus inimigos, morte que eles julgavam terrível, ignominiosa e insuportável; para que, destruída também essa, ele mesmo fosse crido como a Vida e o poder da morte fosse reduzido inteiramente a nada. 4. Aconteceu, então, algo surpreendente e espantoso: a morte que pensavam infligir-lhe como desonra tornou-se, de fato, um monumento de vitória contra a própria morte. Por isso ele não sofreu a morte de João, que teve a cabeça cortada, nem foi serrado ao meio, como Isaías; para que, mesmo na morte, conservasse o seu corpo sem divisão e em perfeita integridade, e não se desse pretexto aos que querem dividir a Igreja.

§25. Por que a Cruz, entre todas as mortes? (1) ele tinha de carregar a maldição por nós. (2) nela estendeu as mãos para unir todos, judeus e gentios, em si mesmo. (3) derrotou o “príncipe da potestade do ar” na sua própria região, desimpedindo o caminho para o céu e abrindo para nós as portas eternas

Isso basta como resposta aos de fora, que acumulam argumentos para si. Mas, se algum dos nossos também perguntar, não por gosto de discussão, mas por amor ao aprendizado, por que ele sofreu a morte de nenhum outro modo senão na cruz, diga-se também a ele que nenhum outro modo era bom para nós, e que foi bom que o Senhor sofresse isso por nossa causa. 2. Pois, se ele veio para carregar a maldição que pesava sobre nós, de que outro modo poderia “fazer-se maldição” (Gl 3.13), senão recebendo a morte destinada à maldição? E essa é a cruz. Pois é exatamente isto o que está escrito: “Maldito o que é pendurado no madeiro” (Dt 21.23). 3. Além disso, se a morte do Senhor é o resgate de todos, e pela sua morte é derrubada “a parede de separação que estava no meio” (Ef 2.14), e se realiza o chamado das nações, como nos teria chamado a si, se não tivesse sido crucificado? Pois somente na cruz o homem morre com as mãos estendidas. Por isso convinha ao Senhor suportar também isso e estender as mãos, para que com uma atraísse o povo antigo, e com a outra os que vêm dos gentios, e unisse ambos em si mesmo. 4. Pois é isto o que ele mesmo disse, indicando com que espécie de morte havia de resgatar a todos: “E eu, quando for levantado”, diz ele, “atrairei todos a mim” (Jo 12.32). 5. E ainda: se o diabo, o inimigo da nossa raça, tendo caído do céu, vagueia pela nossa atmosfera inferior e ali, dominando os espíritos seus companheiros, como seus iguais na desobediência, não só produz ilusões, por meio deles, nos que são enganados, mas tenta impedir os que estão subindo, e a respeito disso diz o Apóstolo2: “segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2); ao passo que o Senhor veio para derrubar o diabo, purificar o ar e preparar para nós o caminho que sobe ao céu, como disse o Apóstolo: “por meio do véu, isto é, pela sua carne” (Hb 10.20), e isso tinha de se dar pela morte; pois bem, por que outra espécie de morte isso poderia acontecer, senão por uma que se deu no ar, quero dizer, a cruz? Pois somente quem é consumado na cruz morre no ar. Por isso foi muito conveniente que o Senhor sofresse essa morte. 6. Pois, levantado assim, ele purificou o ar3 da malignidade tanto do diabo quanto de demônios de toda espécie, como ele diz: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18); e abriu de novo o caminho que sobe ao céu, como diz ainda: “Ó príncipes, levantem as suas portas; e levantem-se, ó portais eternos” (Sl 24.7). Pois não era o próprio Verbo que precisava de que as portas se abrissem, sendo ele Senhor de todos; nem estava fechada ao seu Criador nenhuma das suas obras; mas éramos nós que precisávamos disso, nós a quem ele levou para o alto por meio do seu próprio corpo. Pois, assim como o ofereceu à morte em favor de todos, assim por meio dele preparou outra vez o caminho que sobe aos céus.

§26. Razões pelas quais ele ressuscitou no terceiro dia. (1) não antes, pois do contrário a realidade da sua morte seria negada; nem (2) depois, para (a) garantir a identidade do seu corpo, (b) não deixar os discípulos por muito tempo na incerteza, nem (c) esperar até que as testemunhas da sua morte se dispersassem ou a lembrança dela se apagasse

A morte na cruz por nós, portanto, mostrou-se adequada e conveniente, e a sua causa foi demonstrada razoável em todos os aspectos; e pode-se com justiça sustentar que não era certo que a salvação de todos se realizasse de nenhum outro modo senão pela cruz. Pois nem mesmo assim, nem mesmo na cruz, ele se deixou ficar oculto; muito ao contrário, enquanto fazia a criação dar testemunho da presença do seu Criador, não permitiu que o templo do seu corpo permanecesse muito tempo assim, mas, tendo apenas mostrado que estava morto pelo contato da morte com ele, logo o ressuscitou ao terceiro dia, levando como sinal de vitória e triunfo sobre a morte a incorruptibilidade e a impassibilidade que resultaram para o seu corpo. 2. Pois ele poderia, logo depois da morte, ter ressuscitado o seu corpo e tê-lo mostrado vivo; mas também isso o Salvador, em sábia previdência, não fez. Pois alguém poderia dizer que ele nem sequer tinha morrido, ou que a morte não chegara a tocá-lo plenamente, se tivesse manifestado a ressurreição imediatamente. 3. Por outro lado, se o intervalo entre a sua morte e a sua ressurreição tivesse sido de apenas dois dias4, a glória da sua incorruptibilidade teria ficado obscura. Assim, para que se provasse que o corpo estava morto, o Verbo esperou ainda um dia intermediário e, no terceiro, mostrou-o incorruptível a todos. 4. Assim, pois, para que a morte na cruz fosse comprovada, ele ressuscitou o seu corpo no terceiro dia. 5. Mas, para não ser desacreditado, caso o ressuscitasse depois de ele ter permanecido muito tempo morto e completamente corrompido, como se o tivesse trocado por algum outro corpo (pois, com o passar do tempo, alguém também poderia desconfiar do que viu e esquecer o que tinha acontecido), por essa causa não esperou mais de três dias; nem deixou por muito tempo na incerteza aqueles a quem tinha falado sobre a ressurreição. 6. Mas, enquanto a palavra ainda ecoava nos ouvidos deles, os seus olhos ainda aguardavam e a sua mente estava em suspenso, e enquanto os que o tinham matado ainda viviam na terra, estavam no local e podiam testemunhar a morte do corpo do Senhor, o próprio Filho de Deus, depois de um intervalo de três dias, mostrou o seu corpo, antes morto, imortal e incorruptível; e ficou manifesto a todos que não foi por alguma fraqueza natural do Verbo que nele habitava que o corpo morrera, mas para que nele a morte fosse destruída pelo poder do Salvador.

§27. A mudança operada pela Cruz na relação da morte com o homem

Pois que a morte foi destruída, que a cruz se tornou a vitória sobre ela e que ela já não tem poder, mas está verdadeiramente morta, disso não é pequena prova, ou antes, é garantia evidente, o fato de ser desprezada por todos os discípulos de Cristo, e de todos eles a atacarem e já não a temerem, mas, pelo sinal da cruz e pela fé em Cristo, pisarem-na como coisa morta. 2. Pois antigamente, antes que acontecesse a vinda divina do Salvador, a morte era terrível até para os santos (cf. Sl 55.4; 89.48; Jó 18.14), e todos choravam os mortos como se estivessem perecendo. Mas agora, que o Salvador ressuscitou o seu corpo, a morte já não é terrível; pois todos os que creem em Cristo a pisam como coisa nenhuma e preferem morrer a negar a sua fé em Cristo. Pois sabem verdadeiramente que, ao morrer, não são destruídos, mas de fato [começam a] viver e se tornam incorruptíveis pela ressurreição. 3. E aquele diabo que outrora exultava maliciosamente na morte, agora que as dores dela foram desatadas (cf. At 2.24), ficou sendo o único verdadeiramente morto. E prova disso é que, antes de crerem em Cristo, os homens veem na morte um objeto de terror e se acovardam diante dela. Mas, quando passam para a fé e o ensino de Cristo, o seu desprezo pela morte é tão grande que chegam a lançar-se a ela com ardor e se tornam testemunhas da ressurreição que o Salvador realizou contra ela. Pois, ainda na tenra idade, apressam-se a morrer; e não só homens, mas também mulheres, exercitam-se contra ela pela disciplina do corpo. Tão fraca ela se tornou que até mulheres, outrora enganadas por ela, agora zombam dela como de coisa morta e paralisada. 4. Pois, assim como, quando um tirano é derrotado por um rei legítimo e amarrado de pés e mãos, todos os que passam riem dele, esbofeteando-o e insultando-o, já sem temer a sua fúria e barbárie, por causa do rei que o venceu; assim também, tendo a morte sido vencida e exposta pelo Salvador na cruz, e amarrada de pés e mãos, todos os que estão em Cristo, ao passar, a pisoteiam e, dando testemunho de Cristo, escarnecem da morte, zombando dela e dizendo o que contra ela foi escrito antigamente: “Onde está, ó morte5, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu aguilhão?” (1Co 15.55).

§28. Este fato excepcional deve ser posto à prova pela experiência. Quem duvida dele, torne-se cristão

É, então, uma prova pequena da fraqueza da morte? Ou é uma pequena demonstração da vitória alcançada sobre ela pelo Salvador, quando os moços e as moças que estão em Cristo desprezam esta vida e se exercitam para morrer? 2. Pois o homem tem, por natureza, medo da morte e da dissolução do corpo; mas há este fato espantosíssimo: quem se revestiu da fé da cruz despreza até o que é naturalmente temível e, por amor de Cristo, não tem medo da morte. 3. E assim como, tendo o fogo a propriedade natural de queimar, se alguém dissesse que existe uma substância que não teme a sua queima, mas, ao contrário, mostra que ele é fraco, como se diz que faz o amianto entre os indianos, quem não acreditasse na história, se quisesse pô-la à prova, ao vestir o material à prova de fogo e tocar o fogo, ficaria certamente convencido da fraqueza atribuída ao fogo6; 4. ou, se alguém quisesse ver o tirano amarrado, indo ao país e ao domínio do seu vencedor, certamente poderia ver reduzido à fraqueza aquele que era o terror dos outros; assim, se alguém continua incrédulo mesmo depois de tantas provas, de tantos que se tornaram mártires em Cristo e do desprezo pela morte mostrado todos os dias pelos que são ilustres em Cristo, e se a sua mente ainda duvida de que a morte foi reduzida a nada e chegou ao fim, faz bem em admirar-se de coisa tão grande; apenas não se mostre obstinado na incredulidade, nem endurecido diante do que é tão claro. 5. Mas, assim como quem tem o amianto sabe que o fogo não tem poder de queimá-lo, e quem deseja ver o tirano amarrado passa para o império do seu vencedor, assim também quem é incrédulo quanto à vitória sobre a morte receba a fé de Cristo e passe para o seu ensino, e verá a fraqueza da morte e o triunfo sobre ela. Pois muitos que antes eram incrédulos e zombadores creram depois, e desprezaram a morte a ponto de se tornarem mártires pelo próprio Cristo.

§29. Eis, pois, efeitos maravilhosos e uma causa suficiente, a Cruz, para explicá-los, assim como o nascer do sol explica a luz do dia

Ora, se pelo sinal da cruz e pela fé em Cristo a morte é pisoteada, deve ser evidente diante do tribunal da verdade que não é outro senão o próprio Cristo quem exibiu troféus e triunfos sobre a morte e a fez perder toda a sua força. 2. E se a morte, que antes era forte e, por isso, terrível, agora, depois da vinda do Salvador e da morte e ressurreição do seu corpo, é desprezada, deve ser evidente que a morte foi reduzida a nada e vencida pelo próprio Cristo que subiu à cruz. 3. Pois, assim como, quando depois da noite o sol nasce e toda a região da terra é iluminada por ele, não há certamente dúvida de que foi o sol, que espalhou a sua luz por toda parte, quem também afastou as trevas e deu luz a todas as coisas; assim, agora que a morte caiu em desprezo e foi pisada aos pés, desde que aconteceram a manifestação salvadora do Salvador na carne e a sua morte na cruz, deve ser bem claro que é o próprio Salvador, que também apareceu no corpo, quem reduziu a morte a nada e quem exibe, dia após dia, nos seus próprios discípulos, os sinais da vitória sobre ela. 4. Pois, quando alguém vê homens fracos por natureza saltando ao encontro da morte, sem temer a sua corrupção nem ter medo da descida ao Hades, mas desafiando-a com alma ardente; e não recuando diante da tortura, mas, ao contrário, escolhendo por amor de Cristo lançar-se à morte em vez de viver na terra; ou mesmo se alguém é testemunha ocular de homens, mulheres e criancinhas correndo e saltando para a morte por causa da religião de Cristo, quem é tão tolo, ou tão incrédulo, ou tão mutilado na mente que não veja e não conclua que Cristo, de quem essas pessoas dão testemunho, ele mesmo concede e dá a cada um a vitória sobre a morte, privando-a de todo o seu poder em cada um dos que guardam a sua fé e trazem o sinal da cruz? 5. Pois quem vê a serpente pisada aos pés, especialmente conhecendo a sua ferocidade de antes, já não duvida de que está morta e perdeu inteiramente a força, a não ser que tenha a mente pervertida e nem sequer os sentidos do corpo sãos. Pois quem, vendo também um leão feito brinquedo de crianças, deixa de ver que ele está morto ou perdeu todo o seu poder? 6. Assim, pois, como é possível ver com os olhos a verdade de tudo isso, assim também, agora que a morte é feita brinquedo e desprezada pelos que creem em Cristo, que ninguém mais duvide, nem se mostre incrédulo, de que a morte foi reduzida a nada por Cristo e de que a corrupção da morte foi destruída e detida.

§30. A realidade da ressurreição provada pelos fatos: (1) a vitória sobre a morte descrita acima; (2) as maravilhas da graça são obra de alguém que vive, de alguém que é Deus; (3) se os deuses são (como se alega) reais e vivos, com muito mais razão está vivo aquele que destrói o poder deles

O que dissemos até aqui, portanto, não é pequena prova de que a morte foi reduzida a nada e de que a cruz do Senhor é sinal de vitória sobre ela. Mas, quanto à ressurreição do corpo para a imortalidade, realizada em seguida por Cristo, o Salvador comum e a verdadeira Vida de todos, a demonstração pelos fatos é mais clara do que os argumentos, para aqueles cuja visão mental é sã. 2. Pois, se, como o nosso argumento mostrou, a morte foi reduzida a nada e, por causa de Cristo, todos a pisam aos pés, muito mais ele próprio a pisou primeiro com o seu próprio corpo e a reduziu a nada. Mas, supondo que a morte foi morta por ele, que poderia ter acontecido senão a ressurreição do seu corpo e a sua exibição como monumento de vitória contra a morte? Ou como se poderia mostrar que a morte foi reduzida a nada, se o corpo do Senhor não tivesse ressuscitado? Mas, se esta demonstração da ressurreição parecer insuficiente a alguém, que ele se certifique do que dizemos até pelo que acontece diante dos seus olhos. 3. Pois, como o homem, depois de morto, não pode exercer poder algum, mas a sua influência dura até o túmulo e daí em diante cessa, e como as ações e o poder sobre os homens pertencem somente aos vivos, veja quem quiser e julgue, confessando a verdade a partir do que se mostra à vista. 4. Pois, agora que o Salvador realiza tão grandes coisas entre os homens, e dia após dia, invisivelmente, persuade uma multidão tão grande, de todos os lados, tanto dos que habitam a Grécia quanto das terras estrangeiras, a passar para a sua fé e a obedecer todos ao seu ensino, alguém ainda terá a mente em dúvida sobre se o Salvador realizou uma ressurreição e se Cristo está vivo, ou melhor, se ele mesmo é a Vida? 5. Ou é próprio de um morto ferir a consciência dos homens, de modo que reneguem as leis herdadas dos pais e se curvem diante do ensino de Cristo? Ou como, se ele já não age (pois isso é próprio de um morto), detém a atividade dos que são ativos e vivos, de modo que o adúltero já não comete adultério, o assassino já não mata, o que praticava injustiças já não é ganancioso e o profano passa a ser religioso? Ou como, se não ressuscitou mas está morto, expulsa, persegue e derruba aqueles falsos deuses que os incrédulos dizem estar vivos, e os demônios que eles adoram? 6. Pois, onde Cristo e a sua fé são nomeados, ali toda idolatria é deposta e toda impostura dos espíritos maus é desmascarada, e nenhum espírito consegue suportar sequer o nome; antes, mal o ouve, foge e desaparece. Mas essa obra não é de um morto, mas de alguém que vive, e especialmente de Deus. 7. Em particular, seria ridículo dizer que, enquanto os espíritos expulsos por ele e os ídolos reduzidos a nada estão vivos, aquele que os afugenta, e com o seu poder impede até que apareçam, e é confessado por todos eles como Filho de Deus, está morto.

§31. Se o poder é sinal de vida, o que aprendemos da impotência dos ídolos, para o bem ou para o mal, e do poder irresistível de Cristo e do sinal da cruz? Com isso fica provado que a morte e os demônios perderam o seu domínio. Concordância desse argumento tirado dos fatos com o argumento tirado da pessoa de Cristo

Mas os que não creem na ressurreição fornecem uma forte prova contra si mesmos, se, em vez de todos os espíritos e deuses adorados por eles expulsarem Cristo, que eles dizem estar morto, é Cristo, ao contrário, quem prova que todos eles estão mortos. 2. Pois, se é verdade que um morto não pode exercer poder algum, enquanto o Salvador realiza diariamente tantas obras, atraindo os homens à religião, persuadindo-os à virtude, ensinando sobre a imortalidade, conduzindo-os ao desejo das coisas celestiais, revelando o conhecimento do Pai, inspirando força para enfrentar a morte, mostrando-se a cada um e desalojando a impiedade da idolatria; e se os deuses e espíritos dos incrédulos não podem fazer nenhuma dessas coisas, mas antes se mostram mortos diante da presença de Cristo, reduzida a sua pompa à impotência e à vaidade; enquanto, pelo sinal da cruz, toda magia é detida, toda feitiçaria é reduzida a nada, todos os ídolos estão sendo abandonados e deixados, todo prazer desregrado é refreado e todos erguem os olhos da terra para o céu: a quem se há de declarar morto? A Cristo, que realiza tantas obras? Mas agir não é próprio de um morto. Ou àquele que não exerce poder algum, mas jaz como sem vida? Isso é propriamente o que convém aos ídolos e aos espíritos, mortos como são. 3. Pois o Filho de Deus é “vivo e eficaz” (Hb 4.12), age dia após dia e realiza a salvação de todos. A morte, porém, mostra-se diariamente privada de todo o seu poder, e os ídolos e os espíritos, mais do que Cristo, mostram-se mortos; de modo que daqui em diante ninguém mais pode duvidar da ressurreição do seu corpo. 4. Mas quem é incrédulo quanto à ressurreição do corpo do Senhor parece ignorar o poder do Verbo e Sabedoria de Deus. Pois, se ele de fato tomou para si um corpo e, com razoável coerência, como o nosso argumento mostrou, o apropriou como seu, que havia o Senhor de fazer com ele? Ou qual deveria ser o fim do corpo, uma vez que o Verbo tinha descido sobre ele? Pois não podia deixar de morrer, sendo mortal e devendo ser oferecido à morte em favor de todos; foi para isso que o Salvador o formou para si. Mas era impossível que permanecesse morto, porque tinha sido feito templo da vida. Por isso, embora tenha morrido como mortal, voltou à vida por causa da Vida que nele havia; e as obras são sinal da sua ressurreição.

§32. Mas quem há de vê-lo ressuscitado, para crer? Ora, Deus é sempre invisível e conhecido somente pelas suas obras; e aqui as obras clamam como prova. Se você não crê, olhe para os que creem e perceba a divindade de Cristo. Os demônios veem isso, ainda que os homens sejam cegos. Resumo do argumento até aqui

Mas, se se descrê de que ele tenha ressuscitado só porque não é visto, já é tempo de os que recusam crer negarem o próprio curso da natureza. Pois é propriedade peculiar de Deus ser invisível e, ao mesmo tempo, ser conhecido pelas suas obras, como já se disse acima. 2. Se, então, as obras não existem, fazem bem em descrer do que não aparece. Mas, se as obras clamam em alta voz e o mostram claramente, por que escolhem negar a vida tão manifestamente devida à ressurreição? Pois, ainda que sejam mutilados na inteligência, mesmo com os sentidos externos os homens podem ver o poder irrefutável e a divindade de Cristo. 3. Pois até um cego, se não vê o sol, mas ao menos sente o calor que o sol emite, sabe que há um sol acima da terra. Assim também os nossos adversários, ainda que não creiam por enquanto, estando ainda cegos para a verdade, ao menos conhecendo o seu poder por meio de outros que creem, não neguem a divindade de Cristo e a ressurreição realizada por ele. 4. Pois é claro que, se Cristo estivesse morto, não estaria expulsando demônios e despojando ídolos; pois os espíritos não teriam obedecido a um morto. Mas, se são manifestamente expulsos quando se pronuncia o seu nome, deve ser evidente que ele não está morto; especialmente porque os espíritos, que veem até o que é invisível aos homens, poderiam saber se Cristo estivesse morto e recusar-lhe toda obediência. 5. Mas, de fato, o que os homens irreligiosos não creem, os espíritos veem: que ele é Deus; e por isso fogem e caem aos seus pés, dizendo exatamente o que diziam quando ele estava no corpo: “Sabemos quem tu és: o Santo de Deus” (cf. Lc 4.34); e: “Ah, que temos nós contigo, Filho de Deus? Peço-te que não me atormentes” (cf. Mc 5.7). 6. Visto, então, que os demônios o confessam e as suas obras lhe dão testemunho dia após dia, deve ser evidente, e que ninguém tenha o descaramento de resistir à verdade, tanto que o Salvador ressuscitou o seu próprio corpo quanto que ele é o verdadeiro Filho de Deus, procedente dele como do seu Pai, o seu próprio Verbo, Sabedoria e Poder, que em tempos posteriores tomou um corpo para a salvação de todos, ensinou ao mundo a respeito do Pai, reduziu a morte a nada e concedeu a todos a incorruptibilidade pela promessa da ressurreição, tendo ressuscitado o seu próprio corpo como primícias dela e o tendo exibido, pelo sinal da cruz, como monumento de vitória sobre a morte e a sua corrupção.

§33. A incredulidade dos judeus e a zombaria dos gregos. Os primeiros são confundidos pelas suas próprias Escrituras. Profecias da sua vinda como Deus e como homem

Sendo assim as coisas, e estando claramente provadas a ressurreição do seu corpo e a vitória alcançada sobre a morte pelo Salvador, vamos agora repreender tanto a incredulidade dos judeus quanto a zombaria dos gentios. 2. Pois são estes, talvez, os pontos em que os judeus mostram incredulidade, enquanto os gentios riem, censurando a inconveniência da cruz e do Verbo de Deus feito homem. Mas o nosso argumento não tardará em enfrentar ambos, especialmente porque as provas de que dispomos contra eles são claras como o dia. 3. Pois os judeus, na sua incredulidade, podem ser refutados pelas Escrituras, que eles próprios leem; pois este texto e aquele e, numa palavra, toda a Escritura inspirada clama a respeito dessas coisas, como as suas próprias palavras mostram abundantemente. Pois os profetas anunciaram de antemão a maravilha da Virgem e do nascimento que dela viria, dizendo: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel”, que quer dizer: “Deus conosco” (Mt 1.23; Is 7.14). 4. E Moisés, o verdadeiramente grande, a quem eles creem que diz a verdade, referindo-se ao Salvador feito homem, julgando importante o que foi dito e certo da sua verdade, registrou-o nestas palavras: “Uma estrela surgirá de Jacó, e um homem de Israel, e ele despedaçará os chefes de Moabe” (Nm 24.17). E ainda: “Como são belas as tuas moradas, ó Jacó, as tuas tendas, ó Israel! São como jardins que dão sombra, como parques junto aos rios, como tendas que o Senhor fixou, como cedros junto às águas. Um homem sairá da sua descendência e dominará muitos povos” (Nm 24.5-7). E também Isaías: “Antes que o menino saiba chamar pai ou mãe, tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria diante do rei da Assíria” (Is 8.4). 5. Que um homem, portanto, haveria de aparecer, isso é predito nessas palavras. Mas que aquele que há de vir é Senhor de todos, eles o predizem ainda da seguinte forma: “Eis que o Senhor está sentado sobre uma nuvem ligeira e virá ao Egito, e as imagens esculpidas do Egito serão abaladas” (Is 19.1). Pois é também de lá que o Pai o chama de volta, dizendo: “Do Egito chamei o meu Filho” (Os 11.1).

§34. Profecias da sua paixão e morte, em todas as suas circunstâncias

Nem mesmo a sua morte é passada em silêncio; ao contrário, é mencionada nas divinas Escrituras, e com extrema clareza. Pois, para que ninguém errasse por falta de instrução sobre os próprios acontecimentos, não temeram mencionar até a causa da sua morte: que ele não a sofre por si mesmo, mas pela imortalidade e salvação de todos; e também os conselhos dos judeus contra ele e os ultrajes que recebeu das mãos deles. 2. Dizem, pois: “Um homem em chagas, que sabe suportar a fraqueza, pois o seu rosto está desviado; foi desonrado e tido em nenhuma conta. Ele carrega os nossos pecados e sofre dores por nossa causa; e nós o julgávamos em sofrimento, em chagas e em maus-tratos; mas ele foi ferido por causa dos nossos pecados e enfraquecido por causa da nossa maldade. O castigo da nossa paz estava sobre ele, e pelas suas chagas fomos sarados” (Is 53.3-5). Ó maravilha do amor do Verbo pelos homens: por nossa causa ele é desonrado, para que nós sejamos levados à honra! “Pois todos nós”, diz, “como ovelhas, andávamos desgarrados; o homem se desviou do seu caminho; e o Senhor o entregou pelos nossos pecados; e ele não abre a boca, porque foi maltratado. Como ovelha foi levado ao matadouro e, como cordeiro mudo diante do seu tosquiador, assim ele não abre a boca; na sua humilhação, o seu julgamento foi tirado” (Is 53.6-8)7. 3. Depois, para que ninguém, por causa do seu sofrimento, o julgasse um homem comum, a Sagrada Escritura antecipa as suposições humanas e declara o poder (que agia) em favor dele8 e a diferença da sua natureza em comparação conosco, dizendo: “Mas quem declarará a sua geração? Pois a sua vida é tirada9 da terra. Pela maldade do povo ele foi levado à morte. E eu darei os ímpios em troca do seu sepultamento, e os ricos em troca da sua morte; pois ele não cometeu maldade, nem se achou engano na sua boca. E o Senhor o purificará das suas chagas” (Is 53.8-10).

§35. Profecias da Cruz. Como essas profecias se cumprem somente em Cristo

Mas talvez, tendo ouvido a profecia da sua morte, você peça para saber também o que se declara a respeito da cruz. Pois nem isso é passado em silêncio: é mostrado pelos santos homens com grande clareza. 2. Pois primeiro Moisés a prediz, e em alta voz, quando diz: “Vocês verão a sua Vida pendurada diante dos seus olhos, e não crerão” (Dt 28.66)10. 3. E em seguida os profetas depois dele dão testemunho disso, dizendo: “Mas eu, como cordeiro inocente levado ao matadouro, não o sabia; tramaram contra mim um mau conselho, dizendo: Vamos, lancemos madeiro sobre o seu pão11 e apaguemo-lo da terra dos viventes” (Jr 11.19). 4. E ainda: “Traspassaram-me as mãos e os pés, contaram todos os meus ossos, repartiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes” (Sl 22.16-18). 5. Ora, uma morte elevada ao alto e que se dá sobre um madeiro não poderia ser outra senão a cruz; e, além disso, em nenhuma outra morte as mãos e os pés são traspassados, a não ser somente na cruz. 6. E, como pela vinda do Salvador entre os homens também todas as nações, de todos os lados, começaram a conhecer a Deus, nem mesmo este ponto deixaram sem menção, mas também deste assunto se fala nas Sagradas Escrituras. Pois “haverá”, diz ele, “a raiz de Jessé, e aquele que se levanta para governar as nações; nele as nações esperarão” (Is 11.10). Eis, portanto, um pouco da prova do que aconteceu. 7. Mas toda a Escritura está repleta de refutações da incredulidade dos judeus. Pois qual dos justos e santos profetas e patriarcas registrados nas divinas Escrituras teve jamais o seu nascimento corporal somente de uma virgem? Ou que mulher bastou sem homem para a concepção do gênero humano? Não nasceu Abel de Adão, Enoque de Jarede, Noé de Lameque, Abraão de Tera, Isaque de Abraão, Jacó de Isaque? Não nasceu Judá de Jacó, e Moisés e Arão de Anrão? Não nasceu Samuel de Elcana, não nasceu Davi de Jessé, não nasceu Salomão de Davi, não nasceu Ezequias de Acaz, não nasceu Josias de Amom, não nasceu Isaías de Amoz, não nasceu Jeremias de Hilquias, não nasceu Ezequiel de Buzi? Não teve cada um deles um pai como autor da sua existência? Quem é, então, aquele que nasceu somente de uma virgem? Pois o profeta deu imensa importância a esse sinal. 8. Ou de quem o nascimento foi precedido por uma estrela no céu, para anunciar ao mundo aquele que nascera? Pois, quando Moisés nasceu, foi escondido pelos seus pais; Davi não era conhecido nem sequer pelos da sua vizinhança, tanto que nem o grande Samuel o conhecia, mas perguntou se Jessé tinha ainda outro filho; Abraão, por sua vez, só se tornou conhecido dos vizinhos como grande homem12 depois do seu nascimento. Mas do nascimento de Cristo a testemunha não foi um homem, mas uma estrela naquele céu de onde ele descia.

Notas

1. Isto é, sugerida como endoxon (acima, subdivisão 1); propôs-se a leitura par’ heautou: (planejada) “por ele mesmo”.

2. Veja as curiosas visões de Antão, Vida de Antão 65, 66.

3. Cf. Lightfoot sobre Cl 2.15; também o fragmento da Carta 22 e a Carta 60.7.

4. Literalmente, “a uma [distância] igual”, em contraste com (a) o mesmo dia (subdivisão 2, acima) e (b) o terceiro dia (en tritaio diastemati, subdivisão 6, abaixo). En iso deve, portanto, equivaler em sentido a deuteraiou. Talvez o sentido literal seja: “[se a ressurreição tivesse ocorrido] a um intervalo igual entre a morte e o [dia efetivo da] ressurreição”.

5. Cf. acima, seção 21.2.

6. Em kata tou puros, kata parece ter o valor predicativo tão comum em Aristóteles. A tradução beneditina, “a fraqueza do fogo diante do amianto”, baseia-se numa conjectura desnecessária.

7. Ou “exaltado”.

8. Ten huper autou dunamin. A versão beneditina simplifica essa expressão difícil ignorando o huper. O sr. E. N. Bennett me sugeriu que a leitura verdadeira talvez seja huperaulon em vez de huper autou (aulos, acima, seção 8.1; huperaulos em Fílon). Eu acrescentaria a sugestão de que autou vinha depois de huperaulon e de que a semelhança das cinco letras no manuscrito fez a segunda palavra cair. O sentido resultante seria “o seu poder excelentemente imaterial”. (Veja Classical Review, 1890, n. 4, p. 182.)

9. Ou “exaltada”.

10. Veja Discursos contra os arianos II.16.

11. Propriamente, “destruamos a árvore com o seu pão” (isto é, o seu fruto). A Septuaginta traduz belahmo por “sobre o seu pão”, o que em si é possível; mas ou entendeu mal o verbo, ou seguiu alguma leitura errada. A sua tradução é seguida por todas as versões latinas. Para um comentário sobre estas, veja Tertuliano, Contra Marcião III.19; IV.40.

12. Ou “só depois de ter crescido”, isto é, chegado à idade adulta.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Archibald Robertson (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 4, Nova York, 1892), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. Os resumos no começo de cada seção e as notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Atanásio cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.