Carta · 1749

Carta a um católico romano

“Fazendo tudo para preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.”

Efésios 4.3

Antes de ler

Wesley escreveu esta carta em Dublin, em julho de 1749, numa Irlanda dividida por profundas hostilidades entre protestantes e católicos. Em vez de polemizar, ele se dirige com respeito a um leitor católico. Expõe o que um verdadeiro protestante crê, seguindo o Credo, e o que procura praticar, e mostra quanto essa fé tem em comum com a de um católico sincero.

Depois Wesley propõe que, sem deixar cada um as suas convicções, os dois se tratem como cristãos: que não se façam mal, não falem mal nem pensem mal um do outro, e se ajudem a caminhar para o Reino. A carta é um exemplo vivo do que ele ensina no sermão “O espírito católico”: o amor que une os que creem em Cristo, mesmo quando as opiniões não se unem.

1. Você já ouviu dez mil histórias a respeito de nós, que somos comumente chamados protestantes; se acreditar em apenas uma em cada mil, certamente fará de nós um juízo muito severo. Mas isso é inteiramente contrário à regra do nosso Senhor: “Não julguem, para que vocês não sejam julgados” (Mt 7.1). E traz muitas consequências ruins, em particular esta: leva-nos a julgar vocês com igual severidade. Daí que, de ambos os lados, estejamos menos dispostos a ajudar uns aos outros e mais prontos a ferir uns aos outros. Daí que o amor fraternal seja inteiramente destruído; e cada lado, olhando para o outro como para monstros, dá lugar à ira, ao ódio, à malícia, a todo sentimento hostil, que muitas vezes irromperam em barbaridades tão desumanas que mal se ouve falar delas entre os pagãos.

2. Pois bem, não se pode fazer nada, mesmo admitindo que de ambos os lados conservemos as nossas próprias opiniões, para abrandar o nosso coração uns para com os outros, para pôr um freio a essa enxurrada de hostilidade e para restaurar ao menos algum pequeno grau de amor entre nossos vizinhos e compatriotas? Você não deseja isso? Não está plenamente convencido de que a malícia, o ódio, a vingança, a amargura, seja em nós, seja em vocês, em nosso coração ou no de vocês, são abominação para o Senhor? Estejam nossas opiniões certas ou erradas, essas disposições são inegavelmente erradas. São o caminho largo que conduz à perdição, ao mais profundo do inferno.

3. Não suponho que toda a amargura esteja do seu lado. Sei que há amargura demais também do nosso lado; tanta que receio que muitos protestantes (assim chamados) fiquem zangados também comigo por lhe escrever desta maneira, e digam: “Isso é mostrar-lhe favor demais; você não merece de nós tal tratamento”.

4. Mas eu penso que merece. Penso que você é digno da mais terna consideração que eu possa demonstrar, ainda que fosse só porque o mesmo Deus levantou a você e a mim do pó da terra e fez a ambos capazes de amá-lo e de desfrutá-lo por toda a eternidade; ainda que fosse só porque o Filho de Deus comprou a você e a mim com o seu próprio sangue. Quanto mais, se você é uma pessoa temente a Deus (como, sem dúvida, muitos de vocês são) e se esforça por ter uma consciência pura diante de Deus e dos homens (At 24.16)!

5. Procurarei, portanto, com toda a brandura e sem ofensa, na medida do possível, remover em parte o motivo da sua hostilidade, declarando com clareza qual é a nossa crença e qual é a nossa prática, para que você veja que não somos de todo os monstros que talvez imaginasse.

Um verdadeiro protestante pode expressar a sua crença nestas palavras ou em outras semelhantes:

6. Assim como estou seguro de que existe um Ser infinito e independente, e de que é impossível que haja mais de um, assim também creio que este único Deus é o Pai de todas as coisas, especialmente dos anjos e dos homens; que ele é, de modo particular, o Pai daqueles a quem regenera pelo seu Espírito, a quem adota em seu Filho como coerdeiros com ele, e a quem coroa com uma herança eterna; mas, num sentido ainda mais elevado, o Pai do seu Filho unigênito, a quem gerou desde a eternidade.

Creio que este Pai de todos não somente é capaz de fazer tudo o que lhe agrada, mas também tem o direito eterno de fazer o que quiser, quando e como quiser, e de possuir e dispor de tudo o que fez; e que ele, por sua própria bondade, criou o céu e a terra e tudo o que neles há.

7. Creio que Jesus de Nazaré foi o Salvador do mundo, o Messias por tanto tempo predito; que, ungido com o Espírito Santo, foi Profeta, revelando-nos toda a vontade de Deus; que foi Sacerdote, que se deu a si mesmo em sacrifício pelo pecado e ainda intercede pelos transgressores; que é Rei, que tem todo o poder no céu e na terra e reinará até que tenha sujeitado a si todas as coisas.

Creio que ele é o próprio e natural Filho de Deus, Deus de Deus, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus; e que é o Senhor de todos, tendo domínio absoluto, supremo e universal sobre todas as coisas; mas, de modo mais particular, é o nosso Senhor, de nós que cremos nele, tanto por conquista como por compra e por compromisso voluntário.

Creio que ele se fez homem, unindo a natureza humana à divina numa só pessoa; concebido pela operação singular do Espírito Santo e nascido da bem-aventurada Virgem Maria, que, tanto depois como antes de dá-lo à luz, continuou virgem pura e imaculada.

Creio que ele sofreu dores inexprimíveis, tanto no corpo como na alma, e por fim a morte, e morte de cruz, no tempo em que Pôncio Pilatos governava a Judeia sob o imperador romano; que o seu corpo foi então posto na sepultura e a sua alma foi para o lugar dos espíritos separados; que ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos; que subiu ao céu, onde permanece no meio do trono de Deus, no mais alto poder e glória, como Mediador até o fim do mundo e como Deus por toda a eternidade; que, no fim, descerá do céu para julgar cada pessoa segundo as suas obras, tanto os que então estiverem vivos como todos os que tiverem morrido antes daquele dia.

8. Creio que o Espírito de Deus, infinito e eterno, igual ao Pai e ao Filho, não somente é perfeitamente santo em si mesmo, mas também é a causa imediata de toda a santidade em nós: ilumina o nosso entendimento, retifica a nossa vontade e os nossos afetos, renova a nossa natureza, une a nossa pessoa a Cristo, dá-nos a certeza da adoção de filhos, conduz-nos em nossas ações, purifica e santifica nossa alma e nosso corpo, para o pleno e eterno gozo de Deus.

9. Creio que Cristo, por meio dos seus apóstolos, reuniu para si uma igreja, à qual continuamente tem acrescentado os que vão sendo salvos; que esta igreja católica, isto é, universal, que se estende a todas as nações e a todas as épocas, é santa em todos os seus membros, que têm comunhão com Deus Pai, Filho e Espírito Santo; que eles têm comunhão com os santos anjos, que constantemente servem a esses herdeiros da salvação; e com todos os membros vivos de Cristo na terra, bem como com todos os que partiram na fé e no temor dele.

10. Creio que Deus perdoa todos os pecados dos que verdadeiramente se arrependem e creem sem fingimento no seu santo evangelho; e que, no último dia, todos os homens ressuscitarão, cada um com o seu próprio corpo.

Creio que, assim como os injustos, depois da ressurreição, serão atormentados no inferno para sempre, assim também os justos desfrutarão de uma felicidade inconcebível na presença de Deus por toda a eternidade.

11. Pois bem, há alguma coisa errada nisto? Há algum ponto em que você não creia tanto quanto nós?

Mas você pensa que deveríamos crer mais. Não vamos entrar agora nessa discussão. Deixe-me apenas perguntar: se um homem crê sinceramente tudo isso e vive de acordo, alguém poderia de algum modo convencer você de que tal homem perecerá eternamente?

12. “Mas ele vive de acordo?” Se não vive, admitimos que toda a sua fé não o salvará. E isso me leva a mostrar a você, em poucas e simples palavras, qual é a prática de um verdadeiro protestante.

Digo um verdadeiro protestante, pois rejeito todos os que juram por hábito, os que profanam o dia do Senhor, os bêbados; todos os devassos, mentirosos, trapaceiros, extorsionários; numa palavra, todos os que vivem em pecado manifesto. Esses não são protestantes; não são cristãos de modo algum. Deem-lhes o nome que lhes cabe: são pagãos declarados. São a maldição da nação, a peste da sociedade, a vergonha do gênero humano, a escória da terra.

13. Um verdadeiro protestante crê em Deus, tem plena confiança na sua misericórdia, teme-o com temor filial e o ama de toda a sua alma. Adora a Deus em espírito e em verdade, em tudo lhe dá graças; invoca-o com o coração e também com os lábios, em todo tempo e em todo lugar; honra o seu santo nome e a sua palavra, e o serve fielmente todos os dias da sua vida.

Ora, você mesmo não aprova isto? Há algum ponto que você possa condenar? Você não pratica isto, além de aprová-lo? Poderá algum dia ser feliz, se não o praticar? Poderá algum dia esperar verdadeira paz neste mundo, ou glória no mundo vindouro, se não crer em Deus por meio de Cristo? Se não temer e amar a Deus desta maneira? Meu caro amigo, considere: não estou tentando persuadi-lo a deixar ou mudar a sua religião, mas a buscar aquele temor e aquele amor de Deus sem os quais toda religião é vã. Não lhe digo uma palavra sobre as suas opiniões ou sobre a sua forma exterior de culto. Mas digo que todo culto é abominação para o Senhor, a menos que você o adore em espírito e em verdade (Jo 4.24); com o coração, e não só com os lábios; com o espírito e também com o entendimento. Seja qual for a sua forma de culto, em tudo dê graças a ele (1Ts 5.18); do contrário, tudo não passa de trabalho perdido. Use quaisquer práticas exteriores que quiser, mas deposite nele toda a sua confiança; honre, porém, o seu santo nome e a sua palavra, e sirva-o fielmente todos os dias da sua vida.

14. Mais ainda: um verdadeiro protestante ama o seu próximo, isto é, todo ser humano, amigo ou inimigo, bom ou mau, como a si mesmo, como ama a sua própria alma, como Cristo nos amou. E, assim como Cristo deu a sua vida por nós, ele também está pronto a dar a vida pelos irmãos (1Jo 3.16). Mostra esse amor fazendo a todos, em todas as coisas, o que gostaria que lhe fizessem (Mt 7.12). Ama, honra e obedece a seu pai e a sua mãe, e os ajuda até o limite das suas forças. Honra e obedece ao rei e a todos os que estão investidos de autoridade sob ele. Submete-se de bom grado a todos os seus governantes, mestres, pastores espirituais e patrões. Comporta-se com humildade e reverência para com todos os seus superiores. Não fere ninguém, nem por palavra nem por obra. É verdadeiro e justo em todos os seus negócios. Não guarda malícia nem ódio no coração. Abstém-se de toda maledicência, mentira e calúnia, e não se acha engano em sua boca. Sabendo que o seu corpo é santuário do Espírito Santo (1Co 6.19), conserva-o em sobriedade, temperança e castidade. Não cobiça os bens alheios, mas se contenta com o que tem; trabalha para ganhar o seu próprio sustento e para fazer toda a vontade de Deus no estado de vida a que aprouve a Deus chamá-lo.

15. Você tem alguma coisa a censurar nisto? Não é você, nisto, tal como ele? Se não é (diga a verdade), não está condenado tanto por Deus como pela sua própria consciência? Pode você deixar de cumprir um só destes pontos sem deixar de ser cristão?

Venha, meu irmão, e vamos discutir a questão (Is 1.18). Você está certo se apenas ama o seu amigo e odeia o seu inimigo? Os pagãos e os publicanos não fazem o mesmo (Mt 5.46-47)? Você é chamado a amar os seus inimigos, a bendizer os que o amaldiçoam e a orar pelos que o maltratam e o perseguem (Mt 5.44; Lc 6.28). Mas não está você desobedecendo à vocação celestial? O seu terno amor por todos, não só pelos bons, mas também pelos maus e ingratos (Lc 6.35), mostra que você é filho do seu Pai que está nos céus (Mt 5.45)? Do contrário, seja o que for que você creia e o que for que pratique, você é do diabo, que é o seu pai (Jo 8.44). Está pronto a dar a vida pelos seus irmãos? E faz a todos o que gostaria que lhe fizessem? Se não, não engane a sua própria alma: você ainda não passa de um pagão. Você ama, honra e obedece a seu pai e a sua mãe, e os ajuda até o limite das suas forças? Honra e obedece a todos os que estão em autoridade? A todos os seus governantes, pastores espirituais e patrões? Comporta-se com humildade e reverência para com todos os seus superiores? Não fere ninguém, nem por palavra nem por obra? É verdadeiro e justo em todos os seus negócios? Tem o cuidado de pagar tudo o que deve? Não sente malícia, nem inveja, nem desejo de vingança, nem ódio, nem amargura contra pessoa alguma? Se sente, é evidente que você não é de Deus, pois todas essas são disposições do diabo. Você fala a verdade de coração a todos, e isso com ternura e amor? É você “um verdadeiro israelita, em quem não existe fingimento algum” (Jo 1.47)? Conserva o seu corpo em sobriedade, temperança e castidade, sabendo que ele é santuário do Espírito Santo e que, “se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá” (1Co 3.17)? Aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação (Fp 4.11)? Trabalha para ganhar o seu próprio sustento, abominando a ociosidade como abomina o fogo do inferno? O diabo tenta os outros homens, mas o homem ocioso tenta o diabo. O cérebro do homem ocioso é a oficina do diabo, onde ele está continuamente tramando o mal. Você não é preguiçoso no trabalho (Rm 12.11)? Tudo o que vem às suas mãos para fazer, você o faz conforme as suas forças (Ec 9.10)? E faz tudo como para o Senhor, como sacrifício a Deus, aceitável em Cristo Jesus?

Esta, e somente esta, é a religião antiga. Este é o verdadeiro cristianismo primitivo. Oh, quando se espalhará ele por toda a terra? Quando será encontrado tanto em nós como em vocês? Sem esperar pelos outros, que cada um de nós, pela graça de Deus, emende um. [N. do T.: alusão ao provérbio inglês segundo o qual, se cada um emendasse um (a si mesmo), todos estariam emendados.]

16. Não estamos, até aqui, de acordo? Agradeçamos a Deus por isso e recebamos este acordo como um novo sinal do seu amor. Mas, se Deus ainda nos ama, nós também devemos amar uns aos outros (1Jo 4.11). Deveríamos, sem essa interminável altercação sobre opiniões, estimular uns aos outros ao amor e às boas obras (Hb 10.24). Deixemos de lado os pontos em que divergimos; há bastantes pontos em que concordamos, bastantes para serem o fundamento de toda disposição cristã e de toda ação cristã.

Ó irmãos, não continuemos a brigar pelo caminho (Gn 45.24)! Espero ver você no céu. E, se eu praticar a religião descrita acima, você não ousará dizer que irei para o inferno. Você não pode pensar assim. Ninguém pode convencê-lo disso. A sua própria consciência lhe diz o contrário. Então, se ainda não podemos pensar igual em todas as coisas, ao menos podemos amar igual. Nisto não podemos de modo algum errar. Pois de um ponto ninguém pode duvidar um só momento: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4.16).

17. Em nome de Deus, pois, e na força de Deus, resolvamos, primeiro, não ferir uns aos outros; não fazer nada que seja hostil ou inamistoso uns para com os outros, nada que não quiséssemos que nos fizessem. Antes, empenhemo-nos por todo gesto de conduta bondosa, amistosa e cristã uns para com os outros.

Resolvamos, em segundo lugar, com a ajuda de Deus, não dizer nada áspero ou hostil uns dos outros. O caminho seguro para evitar isso é dizer todo o bem que pudermos, tanto uns dos outros como uns aos outros: em toda a nossa conversa, seja uns com os outros, seja uns sobre os outros, usar somente a linguagem do amor; falar com toda a brandura e ternura, com a expressão mais afetuosa que seja compatível com a verdade e a sinceridade.

Resolvamos, em terceiro lugar, não abrigar nenhum pensamento hostil, nenhuma disposição inamistosa uns para com os outros. Ponhamos o machado à raiz da árvore (Mt 3.10): examinemos tudo o que surge em nosso coração e não toleremos ali nenhuma disposição contrária ao terno afeto. Então, arrancada a própria raiz de amargura (Hb 12.15), facilmente nos absteremos de ações e palavras hostis.

Em quarto lugar, empenhemo-nos em ajudar uns aos outros em tudo aquilo que concordamos que conduz ao Reino. Tanto quanto pudermos, alegremo-nos sempre em fortalecer as mãos uns dos outros em Deus. Acima de tudo, que cada um de nós cuide de si mesmo (visto que cada um prestará contas de si mesmo a Deus, Rm 14.12), para que não fique aquém da religião do amor; para que não se condene naquilo que ele mesmo aprova (Rm 14.22). Oh, que você e eu (façam os outros o que fizerem) prossigamos para o prêmio da nossa soberana vocação (Fp 3.14)! Para que, justificados mediante a fé, tenhamos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus Cristo (Rm 5.1); para que nos gloriemos em Deus por meio de Jesus Cristo, mediante o qual recebemos a reconciliação (Rm 5.11); para que o amor de Deus seja derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi dado (Rm 5.5). Consideremos tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Jesus Cristo, nosso Senhor; prontos a perder todas as coisas por ele, e a considerá-las como lixo, para ganhar a Cristo (Fp 3.8).

Sou o seu afetuoso servo, por amor de Cristo.

Dublin, 18 de julho de 1749.

Tradução para o português a partir de A Letter to a Roman Catholic (Dublin, 1749), conforme as Works de Wesley nas edições de Nova York de 1826 (vol. IX) e 1856 (vol. V), conferidas entre si; domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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