Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XII

Encarnou-se e se fez homem

Por que o Filho de Deus se fez homem; as profecias do seu nascimento e a virgindade de Maria.

Catequese XII. Sobre as palavras: Encarnou-se e se fez homem

Isaías 7.10-14
“E o Senhor continuou a falar com Acaz, dizendo: Peça um sinal etc.” e “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel etc.”

1. Filhos criados na pureza e discípulos da castidade, ergamos com lábios cheios de pureza o nosso hino ao Deus nascido da Virgem1. Considerados2 dignos de participar da carne do Cordeiro espiritual3, tomemos a cabeça juntamente com os pés (Êx 12.9)4, entendendo-se a divindade como a cabeça e a humanidade como os pés. Ouvintes dos santos Evangelhos, escutemos João, o Teólogo5. Pois aquele que disse: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1), prosseguiu dizendo: “E o Verbo se fez carne” (Jo 1.14). Pois nem é santo adorar o simples homem, nem piedoso dizer que ele é somente Deus, sem a humanidade. Porque, se Cristo é Deus, como de fato é, mas não assumiu a natureza humana, somos estranhos à salvação. Adoremo-lo, pois, como Deus, mas creiamos que ele também se fez homem. Pois não há proveito algum em chamá-lo homem sem a divindade, nem salvação alguma em recusar-se a confessar a humanidade juntamente com a divindade. Confessemos a presença daquele que é ao mesmo tempo Rei e Médico. Pois Jesus, o Rei, quando estava para se tornar o nosso Médico, “cingiu-se com o linho” da humanidade (Jo 13.4) e curou o que estava enfermo. O perfeito Mestre de crianças (Rm 2.20) tornou-se criança entre as crianças, para dar sabedoria aos insensatos. O Pão do céu desceu à terra (Jo 6.32-33, 50) para alimentar os famintos.

2. Mas os filhos dos judeus, desprezando aquele que veio e esperando aquele que vem na iniquidade, rejeitaram o verdadeiro Messias e aguardam o enganador, eles mesmos enganados; também nisso se mostrou verdadeiro o Salvador, que disse: “Eu vim em nome de meu Pai, e vocês não me recebem; se outro vier em seu próprio nome, vocês o receberão” (Jo 5.43; cf. 2Jo 7). É bom também fazer uma pergunta aos judeus. O profeta Isaías, que diz que Emanuel nascerá de uma virgem, é verdadeiro ou falso (Is 7.14)? Se o acusam de mentira, não é de admirar, pois o costume deles é não só acusar de mentira, mas também apedrejar os profetas. Mas, se o profeta é verdadeiro, mostrem o Emanuel e digam: aquele que há de vir, a quem vocês esperam, nascerá de uma virgem ou não? Pois, se não há de nascer de uma virgem, vocês acusam o profeta de mentira; mas, se esperam isso daquele que há de vir, por que rejeitam o que já aconteceu?

3. Que os judeus, então, se desviem, já que assim querem; mas seja glorificada a Igreja de Deus. Pois recebemos Deus, o Verbo, feito homem em verdade; não, como dizem os hereges6, da vontade de homem e mulher, mas da Virgem e do Espírito Santo7, segundo o Evangelho; feito homem8, não em aparência, mas em verdade. E que ele foi verdadeiramente homem, nascido da Virgem, espere o momento próprio do ensino nesta catequese, e você receberá as provas9: pois o erro dos hereges é multiforme. Uns disseram que ele de modo algum nasceu de uma virgem10; outros, que nasceu, não de uma virgem, mas de uma esposa que vivia com o marido. Outros dizem que o Cristo não é Deus feito homem, mas um homem feito Deus11. Pois ousaram dizer que não foi ele, o Verbo preexistente, que se fez homem, mas que certo homem foi coroado por progresso.

4. Mas lembre-se do que foi dito ontem a respeito da sua divindade. Creia que ele, o Filho unigênito de Deus, ele mesmo, foi de novo gerado de uma virgem. Creia no evangelista João quando diz: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Pois o Verbo é eterno, gerado do Pai antes de todos os séculos; mas a carne ele a tomou recentemente, por nossa causa. Muitos contradizem isso e dizem: “Que causa tão grande havia para que Deus descesse à humanidade? E é próprio da natureza de Deus ter trato com os homens? E é possível que uma virgem dê à luz sem homem?” Visto, pois, que há muita controvérsia e que a batalha tem muitas formas, vamos, pela graça de Cristo e pelas orações dos presentes, resolver cada questão.

5. E primeiro investiguemos por que causa Jesus desceu. Não dê atenção aos meus raciocínios, pois talvez você possa ser enganado; mas, se não receber o testemunho dos profetas sobre cada ponto, não creia no que eu digo. Se não aprender das Santas Escrituras a respeito da Virgem, e do lugar, do tempo e do modo, “não receba testemunho humano” (Jo 5.34). Pois quem agora ensina assim pode talvez tornar-se suspeito; mas que homem de bom senso suspeitará de quem profetizou mil anos e mais de antemão? Se você procura, então, a causa da vinda de Cristo, volte ao primeiro livro das Escrituras. Em seis dias Deus fez o mundo; mas o mundo foi feito para o homem. O sol, por mais resplandecente que seja com seus raios brilhantes, foi feito para dar luz ao homem; sim, e todos os seres vivos foram formados para nos servir; as ervas e as árvores foram criadas para o nosso deleite. Todas as obras da criação eram boas, mas nenhuma delas era imagem de Deus, senão somente o homem. O sol foi formado por uma simples ordem, mas o homem, pelas mãos de Deus: “Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26). Se a imagem de madeira de um rei terreno é tida em honra, quanto mais a imagem racional de Deus?

Mas, quando esta, a maior das obras da criação, se recreava no paraíso, a inveja do diabo a expulsou. O inimigo se alegrava com a queda daquele a quem invejara: você gostaria que o inimigo continuasse a se alegrar? Não ousando abordar o homem, por causa da força dele, abordou a mulher, como mais fraca, quando ainda era virgem; pois foi depois da expulsão do paraíso que “Adão teve relações com Eva, a sua mulher” (Gn 4.1).

6. Caim e Abel vieram em seguida, na segunda geração da humanidade; e Caim foi o primeiro homicida. Depois, um dilúvio se derramou por causa da grande maldade dos homens; fogo desceu do céu sobre o povo de Sodoma por causa da sua transgressão. Passado algum tempo, Deus escolheu Israel; mas também Israel se desviou, e a raça escolhida foi ferida. Pois, enquanto Moisés estava diante de Deus no monte, o povo adorava um bezerro em lugar de Deus. Ainda em vida de Moisés, o legislador que dissera: “Não cometa adultério” (Êx 20.14), um homem ousou entrar num lugar de prostituição e transgredir (Nm 25.6). Depois de Moisés, foram enviados profetas para curar Israel; mas, no seu ofício de cura, lamentavam não conseguir vencer a doença, de modo que um deles diz: “Ai de mim! Pois o piedoso desapareceu da terra, e não há entre os homens quem pratique o que é reto” (Mq 7.2); e ainda: “Todos se desviaram e juntamente se tornaram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Sl 14.3; Rm 3.12); e ainda: “Maldição, roubo, adultério e homicídio se derramaram sobre a terra” (Os 4.2). “Sacrificaram seus filhos e suas filhas aos demônios” (Sl 106.37). “Praticavam agouros, encantamentos e adivinhações” (2Cr 33.6). E ainda: “Prendiam as suas vestes com cordas e faziam cortinas presas ao altar” (Am 2.8)12.

7. Muito grande era a ferida da natureza humana: “dos pés à cabeça não havia nela nada são”; ninguém podia aplicar “unguento que a abrandasse, nem azeite, nem ataduras” (Is 1.6). Então, lamentando-se e fatigando-se, os profetas diziam: “Quem dará de Sião a salvação?” (Sl 14.7). E ainda: “Seja a tua mão sobre o homem da tua direita, sobre o filho do homem que fortaleceste para ti; e assim não nos afastaremos de ti” (Sl 80.17-18). E outro dos profetas suplicava, dizendo: “Abaixa, Senhor, os teus céus e desce” (Sl 144.5). As feridas da natureza humana ultrapassam a nossa capacidade de curar. “Mataram os teus profetas e derrubaram os teus altares” (1Rs 19.10). O mal é irreparável para nós e precisa de ti para repará-lo.

8. O Senhor ouviu a oração dos profetas. O Pai não desprezou a perdição da nossa raça: enviou o seu Filho, o Senhor vindo do céu, como médico; e um dos profetas diz: “O Senhor, a quem vocês buscam, vem, e virá de repente” (Ml 3.1). Para onde? “O Senhor virá ao seu templo”, onde vocês o apedrejaram. Então outro dos profetas, ao ouvir isso, lhe diz: Ao falar da salvação de Deus, você fala em voz baixa? Ao anunciar as boas-novas da vinda de Deus para a salvação, você fala em segredo? “Você que leva boas-novas a Sião, suba a um alto monte. Fale às cidades de Judá.” Que hei de falar? “Eis o nosso Deus! Eis que o Senhor vem com poder!” (Is 40.9-10). E de novo o próprio Senhor diz: “Eis que venho e habitarei no meio de você, diz o Senhor. E muitas nações fugirão para o Senhor” (Zc 2.10-11). Os israelitas rejeitaram a salvação por meio de mim: “venho para ajuntar todas as nações e línguas” (Is 66.18). Pois “veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). Tu vens, e o que concedes às nações? “Venho para ajuntar todas as nações, e deixarei sobre elas um sinal” (Is 66.19)13. Pois, do meu combate na cruz, dou a cada um dos meus soldados um selo real para levar na fronte. Também outro dos profetas disse: “Ele baixou os céus e desceu, e teve sob os pés densa escuridão” (Sl 18.9)14. Pois a sua descida do céu não foi conhecida pelos homens.

9. Depois, Salomão, ouvindo seu pai Davi falar estas coisas, edificou uma casa maravilhosa e, prevendo aquele que havia de vir a ela, disse com espanto: “Será que, de fato, Deus habitará com os homens na terra?” (1Rs 8.27; 2Cr 6.18). Sim, diz Davi por antecipação no salmo intitulado “Para Salomão”, no qual se lê: “Ele descerá como chuva sobre o velo” (Sl 72.6): chuva, por causa da sua natureza celestial; e sobre o velo, por causa da sua humanidade. Pois a chuva, descendo sobre o velo, desce sem ruído; de modo que os magos, não conhecendo o mistério da natividade, dizem: “Onde está o recém-nascido Rei dos judeus?” (Mt 2.2); e Herodes, perturbado, informou-se a respeito daquele que nascera e disse: “Onde deve nascer o Cristo?” (Mt 2.4).

10. Mas quem é este que desce? Ele diz em seguida: “E permanece com o sol, e antes da lua, por gerações de gerações” (Sl 72.5). E de novo outro dos profetas diz: “Alegre-se muito, ó filha de Sião! Exulte, ó filha de Jerusalém! Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador” (Zc 9.9). Reis há muitos; de qual deles você fala, ó profeta? Dê-nos um sinal que os outros reis não têm. Se você disser: Um rei vestido de púrpura, a dignidade do traje já foi antecipada. Se disser: Guardado por lanceiros e sentado num carro de ouro, também isso já foi antecipado por outros. Dê-nos um sinal próprio do rei cuja vinda você anuncia. E o profeta responde e diz: “Eis que o seu rei vem até você, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho”, e não num carro. Você tem um sinal único do Rei que veio. Só Jesus, entre os reis, montou num jumentinho que nunca fora atrelado15, entrando em Jerusalém entre aclamações, como rei. E, quando este Rei chega, o que faz? “Também você, pelo sangue da aliança, libertou os seus cativos da cova em que não havia água” (Zc 9.11).

11. Mas talvez ele pudesse até montar num jumentinho; dê-nos antes um sinal de onde estará o Rei que entra. E dê o sinal não longe da cidade, para que não nos seja desconhecido; e dê-nos o sinal claro diante dos olhos, para que, mesmo estando na cidade, possamos contemplar o lugar. E o profeta responde de novo, dizendo: “Naquele dia, os seus pés estarão sobre o monte das Oliveiras, que está em frente de Jerusalém, para o leste” (Zc 14.4)16. Haverá alguém que, estando dentro da cidade, não consiga avistar o lugar?

12. Temos dois sinais e desejamos conhecer um terceiro. Diga-nos o que o Senhor faz quando vem. Outro profeta diz: “Eis o nosso Deus”, e depois: “Ele virá e nos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos, e os ouvidos dos surdos ouvirão; então o coxo saltará como o cervo, e a língua dos gagos falará com clareza” (Is 35.4-6). Mas que ainda outro testemunho nos seja dito. Você diz, ó profeta, que o Senhor vem e faz sinais como nunca houve; que outro sinal claro você nos diz? “O próprio Senhor entra em juízo com os anciãos do seu povo e com os seus príncipes” (Is 3.14). Sinal notável! O Senhor julgado pelos seus servos, os anciãos, e sujeitando-se a isso.

13. Estas coisas os judeus leem, mas não ouvem, pois taparam os ouvidos do coração para não ouvir. Nós, porém, creiamos em Jesus Cristo, que veio na carne e se fez homem, porque de outro modo não poderíamos recebê-lo. Pois, como não podíamos olhar para ele nem desfrutá-lo tal como ele era, ele se tornou o que nós somos, para que assim nos fosse dado desfrutá-lo. Pois, se não podemos olhar de frente para o sol, que foi feito no quarto dia, poderíamos contemplar Deus, o seu Criador17? O Senhor desceu em fogo sobre o monte Sinai, e o povo não o suportou, mas disse a Moisés: “Fale-nos você, e ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êx 20.19); e ainda: “Pois quem há, de toda carne, que tenha ouvido a voz do Deus vivo falar do meio do fogo e continue vivo?” (Dt 5.26). Se ouvir a voz de Deus falando é causa de morte, como a visão do próprio Deus não trará a morte? E que admira? Até o próprio Moisés diz: “Estou apavorado e trêmulo!” (Hb 12.21).

14. Que queria você então? Que aquele que veio para a nossa salvação se tornasse ministro de destruição, porque os homens não poderiam suportá-lo? Ou que ajustasse a sua graça à nossa medida? Daniel não pôde suportar a visão de um anjo, e você seria capaz de ver o Senhor dos anjos? Gabriel apareceu, e Daniel caiu; e de que natureza ou de que aspecto era aquele que apareceu? “O seu rosto parecia um relâmpago” (Dn 10.6), e não o sol; “e os seus olhos, como tochas de fogo”, e não como uma fornalha de fogo; “e a voz das suas palavras, como o barulho de uma multidão”, e não como a voz de doze legiões de anjos; e, no entanto, o profeta caiu. E o anjo vem a ele, dizendo: “Não tenha medo, Daniel, fique em pé; tenha bom ânimo, as suas palavras foram ouvidas” (Dn 10.12). E Daniel diz: “Eu me pus em pé, tremendo” (Dn 10.11); e nem assim respondeu, até que a semelhança de uma mão de homem o tocou. E, quando aquele que aparecia se transformou na aparência de um homem, então Daniel falou; e o que diz? “Meu Senhor, à tua vista as minhas entranhas se revolveram dentro de mim, e não me resta força alguma, nem me ficou fôlego” (Dn 10.16-17). Se um anjo, ao aparecer, tirou ao profeta a voz e a força, a aparição de Deus o teria deixado respirar? “Até que me tocou como que uma visão de homem” (Dn 10.18), diz a Escritura, Daniel não recobrou o ânimo. Assim, pois, depois de comprovada a nossa fraqueza, o Senhor assumiu aquilo de que o homem precisava; pois, como o homem precisava ouvir alguém de semelhante aspecto, o Salvador tomou sobre si a natureza sujeita às mesmas paixões, para que os homens fossem mais facilmente instruídos.

15. Aprenda também outra causa. Cristo veio para ser batizado e santificar o batismo; veio para fazer maravilhas, andando sobre as águas do mar. Visto, pois, que antes da sua manifestação na carne “o mar o viu e fugiu, e o Jordão recuou” (Sl 114.3), o Senhor tomou para si o seu corpo, para que o mar suportasse vê-lo e o Jordão o recebesse sem medo. Esta, então, é uma causa; mas há também uma segunda. Por Eva, ainda virgem, veio a morte; por uma virgem, ou melhor, de uma virgem, devia aparecer a Vida; para que, assim como a serpente enganou uma, assim à outra Gabriel trouxesse as boas-novas18. Os homens abandonaram Deus e fizeram imagens esculpidas de homens. Visto, pois, que uma imagem de homem era falsamente adorada como Deus, Deus se fez verdadeiramente homem, para que a falsidade fosse destruída. O diabo tinha usado a carne como instrumento contra nós; e Paulo, sabendo disso, diz: “Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro” (Rm 7.23), e o resto. Com as mesmíssimas armas, portanto, com que o diabo costumava nos vencer, fomos salvos. O Senhor tomou de nós a nossa semelhança, para salvar a natureza humana; tomou a nossa semelhança, para dar graça maior ao que tinha falta, para que a humanidade pecadora se tornasse participante de Deus. Pois “onde aumentou o pecado, aumentou muito mais ainda a graça” (Rm 5.20). Era preciso que o Senhor sofresse por nós; mas, se o diabo o tivesse conhecido, não teria ousado aproximar-se dele. Pois, “se o tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória” (1Co 2.8). O seu corpo, portanto, foi feito isca para a morte, para que o dragão19, esperando devorá-lo, vomitasse também os que já tinham sido devorados20. Pois “a morte prevaleceu e devorou”; e de novo, “Deus enxugou toda lágrima de todo rosto” (Is 25.8)21.

16. Foi sem razão que Cristo se fez homem? São os nossos ensinos frases engenhosas e sutilezas humanas? Não são as Santas Escrituras a nossa salvação? Não o são as predições dos profetas? Guarde, pois, peço-lhe, este depósito (1Tm 6.20; 2Tm 1.14)22 sem perturbação, e não deixe que ninguém o tire daí: creia que Deus se fez homem. Mas, embora se tenha provado que lhe era possível fazer-se homem, se os judeus ainda não creem, apresentemos-lhes isto: Que coisa estranha anunciamos ao dizer que Deus se fez homem, quando vocês mesmos dizem que Abraão recebeu o Senhor como hóspede (Gn 18.1)? Que coisa estranha anunciamos, quando Jacó diz: “Vi Deus face a face, e a minha vida foi salva” (Gn 32.30)? O Senhor, que comeu com Abraão, comeu também conosco. Que coisa estranha anunciamos, então? Mais ainda: apresentamos duas testemunhas, as que estiveram diante do Senhor no monte Sinai: Moisés esteve “numa fenda da rocha” (Êx 33.22), e Elias esteve certa vez numa fenda da rocha (1Rs 19.8-9); estes, estando presentes com ele na sua transfiguração no monte Tabor, falaram aos discípulos “da sua morte, que ele havia de cumprir em Jerusalém” (Lc 9.30-31)23. Mas, como eu disse antes, provou-se que lhe era possível fazer-se homem; e as demais provas podem ser deixadas para os estudiosos as reunirem.

17. A minha exposição, porém, prometeu declarar24 também o tempo da vinda do Salvador, e o lugar; e não devo ir-me embora convencido de mentira, mas antes despedir bem seguros os neófitos25 da Igreja. Investiguemos, portanto, o tempo em que o nosso Senhor veio, porque a sua vinda é recente e é contestada, e porque “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre” (Hb 13.8)26. Moisés, então, o profeta, diz: “O Senhor, seu Deus, levantará para vocês, dentre os seus irmãos, um profeta semelhante a mim” (Dt 18.15; At 7.37); mas aquele “semelhante a mim” fique reservado por enquanto, para ser examinado27 no lugar próprio. Mas quando vem esse Profeta que se espera? Recorra, diz ele, ao que foi escrito por mim; examine com cuidado a profecia de Jacó dirigida a Judá: “Judá, os seus irmãos o louvarão”, e depois, para não citar tudo: “Não faltará príncipe de Judá, nem chefe dos seus lombos, até que venha aquele para quem está reservado; e ele é a expectativa”, não dos judeus, mas “das nações” (Gn 49.8, 10). Deu, portanto, como sinal da vinda de Cristo o fim do governo judaico. Se agora eles não estão sob os romanos, o Cristo ainda não veio; se ainda têm um príncipe da raça de Judá e de Davi28, ainda não veio aquele que era esperado. Pois tenho vergonha de contar o que fizeram recentemente a respeito dos que agora entre eles são chamados patriarcas29, e qual é a ascendência deles, e quem é a mãe deles; mas deixo isso aos que sabem. Mas aquele que vem como “a expectativa das nações”, que outro sinal tem ele então? Diz em seguida: “Amarrando o seu jumentinho à videira” (Gn 49.11). Você vê aquele jumentinho que foi claramente anunciado por Zacarias (Zc 9.9)30.

18. Mas você ainda pede outro testemunho a respeito do tempo. “O Senhor me disse: Você é meu Filho, hoje eu gerei você” (Sl 2.7); e, poucas palavras adiante: “Você as governará com vara de ferro” (Sl 2.9)31. Já disse antes que o reino dos romanos é claramente chamado “vara de ferro”; mas o que falta sobre isso, tragamos ainda à memória a partir de Daniel. Pois, ao relatar e interpretar a Nabucodonosor a imagem da estátua, ele conta também toda a visão do rei a respeito dela: que uma pedra cortada de um monte sem auxílio de mãos, isto é, não levantada por invenção humana, haveria de dominar o mundo inteiro. E ele fala com toda a clareza assim: “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído e que não passará a outro povo” (Dn 2.44).

19. Mas buscamos com mais clareza ainda a prova do tempo da sua vinda. Pois o homem, difícil de persuadir, se não recebe os próprios anos para um cálculo claro, não crê no que se afirma. Qual é, então, a ocasião, e qual a maneira do tempo? Não é quando, tendo faltado os reis descendentes de Judá, Herodes, um estrangeiro, sucede no reino? Por isso o anjo que conversa com Daniel diz, e preste você agora atenção às palavras: “Saiba e entenda: desde a saída da palavra para dar resposta32 e para edificar Jerusalém, até o Messias, o Príncipe, há sete semanas e sessenta e duas semanas” (Dn 9.25). Ora, sessenta e nove semanas de anos contêm quatrocentos e oitenta e três anos. Ele disse, portanto, que depois da edificação de Jerusalém, passados quatrocentos e oitenta e três anos e tendo faltado os governantes, viria então um rei de outra raça, em cujo tempo o Cristo haveria de nascer. Ora, Dario, o medo33, edificou a cidade no sexto ano do seu reinado, que foi o primeiro ano da 66ª olimpíada, segundo os gregos. Olimpíada é o nome que os gregos dão aos jogos celebrados de quatro em quatro anos, por causa do dia que, a cada quatro anos do curso do sol, se forma com as três34 horas (excedentes) de cada ano. E Herodes é rei na 186ª olimpíada, no 4º ano dela. Ora, da 66ª à 186ª olimpíada há 120 olimpíadas de intervalo, e um pouco mais. Assim, pois, as 120 olimpíadas perfazem 480 anos; quanto aos outros três anos restantes, talvez estejam compreendidos no intervalo entre o primeiro e o quarto ano. E aí você tem a prova segundo a Escritura que diz: “Desde a saída da palavra para que Jerusalém seja restaurada e edificada, até o Messias, o Príncipe, há sete semanas e sessenta e duas semanas” (Dn 9.25). Quanto aos tempos, portanto, você tem por ora esta prova, embora existam também outras interpretações diferentes a respeito das referidas semanas de anos em Daniel.

20. Mas ouça agora o lugar da promessa, como diz Miqueias: “E você, Belém, casa de Efrata, é pequena demais para estar entre os milhares de Judá? Pois de você me sairá um chefe, para governar Israel; e as suas origens são desde o princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2)35. Mas certamente, quanto aos lugares, você, que mora em Jerusalém, conhece também de antemão o que está escrito no Salmo 131: “Eis que ouvimos falar dela em Efrata, nós a achamos nos campos do bosque” (Sl 132.6)36. Pois há poucos anos o lugar era coberto de mata37. Você também ouviu Habacuque dizer ao Senhor: “Quando os anos se aproximarem, tu serás conhecido; quando chegar o tempo, tu serás mostrado” (Hc 3.2)38. E qual é, ó profeta, o sinal da vinda do Senhor? E logo em seguida ele diz: “No meio de duas vidas serás conhecido” (Hc 3.2)39, dizendo claramente isto ao Senhor: “Vindo na carne, tu vives e morres e, depois de ressuscitar dos mortos, vives de novo.” E mais: de que parte da região em torno de Jerusalém ele vem? Do oriente, do ocidente, do norte ou do sul? Diga-nos com exatidão. E ele responde com toda a clareza e diz: “Deus virá de Temã” (Hc 3.3)40 (ora, Temã, interpretado, quer dizer “sul”), “e o Santo, do monte Parã41, sombrio, coberto de mata”; o mesmo que o salmista disse com palavras semelhantes: “Nós a achamos nos campos do bosque.”

21. Perguntamos ainda: de quem ele vem, e como? E isso Isaías nos diz: “Eis que a virgem conceberá no ventre e dará à luz um filho, e lhe chamarão Emanuel” (Is 7.14)42. Isso os judeus contestam, pois desde antigamente é costume deles opor-se perversamente à verdade; e dizem que não está escrito “a virgem”, mas “a moça”. Mas, ainda que eu concorde com o que dizem, mesmo assim encontro a verdade. Pois devemos perguntar-lhes: se uma virgem é violentada, quando é que ela grita e chama por socorro, depois ou antes do ultraje? Se, portanto, a Escritura diz em outro lugar: “A moça que tinha o casamento contratado gritou, e não houve quem a livrasse” (Dt 22.27), não está falando de uma virgem?

Mas, para que vocês aprendam com mais clareza que também uma virgem é chamada “moça” na Santa Escritura, ouçam o Livro dos Reis, que diz de Abisague, a sunamita: “E a moça era muito formosa” (1Rs 1.4)43; pois é ponto pacífico que ela foi escolhida e levada a Davi como virgem.

22. Mas os judeus dizem também: isto foi dito a Acaz a respeito de Ezequias. Pois bem, leiamos a Escritura: “Peça ao Senhor, seu Deus, um sinal, quer seja embaixo, nas profundezas, ou em cima, nas alturas” (Is 7.11). E o sinal certamente tem de ser algo assombroso. Pois foram sinais a água que saiu da rocha, o mar dividido, o sol que voltou atrás e coisas semelhantes. Mas no que vou mencionar há uma refutação ainda mais manifesta dos judeus. (Sei que estou falando muito e que os meus ouvintes estão cansados; mas suportem a extensão das minhas explicações, porque é por amor de Cristo que estas questões se levantam, e elas não tratam de assuntos comuns.) Ora, como Isaías disse isso no reinado de Acaz, e Acaz reinou apenas dezesseis anos, e a profecia lhe foi dita dentro desses anos, a objeção dos judeus é refutada pelo fato de que o rei seguinte, Ezequias, filho de Acaz, tinha vinte e cinco anos quando começou a reinar; pois, estando a profecia contida dentro de dezesseis anos, ele deve ter sido gerado por Acaz uns bons nove anos antes da profecia. Que necessidade havia, então, de proferir a profecia a respeito de alguém que já tinha sido gerado antes mesmo do reinado do seu pai Acaz44? Pois ele não disse “concebeu”, mas “a virgem conceberá”, falando como quem conhece de antemão45.

23. Sabemos, pois, com certeza que o Senhor havia de nascer de uma virgem, mas temos de mostrar de que família era a virgem. “O Senhor jurou a Davi com firme juramento e dele não se desviará: Farei com que no seu trono se assente um dos seus descendentes” (Sl 132.11); e também: “Farei durar para sempre a sua descendência; e o seu trono ficará firme enquanto o céu existir” (Sl 89.29). E depois: “Uma vez jurei por minha santidade que nunca mentiria a Davi. A sua posteridade durará para sempre, e o seu trono, como o sol diante de mim. Ele será estabelecido para sempre como a lua” (Sl 89.35-37). Você vê que o discurso é a respeito de Cristo, não de Salomão. Pois o trono de Salomão não durou como o sol. Mas, se alguém negar isso porque Cristo não se sentou no trono de madeira de Davi, apresentaremos aquela palavra: “Na cadeira de Moisés se assentaram os escribas e os fariseus” (Mt 23.2); pois ela não indica a cadeira de madeira dele, mas a autoridade do seu ensino. Do mesmo modo, então, quero que vocês busquem como trono de Davi não o trono de madeira, mas o próprio reino. Tomem também como minhas testemunhas as crianças que clamavam: “Hosana ao Filho de Davi!” (Mt 21.9), “bendito o Rei de Israel!” (Jo 12.13). E também os cegos dizem: “Filho de Davi, tenha compaixão de nós!” (Mt 20.30). Gabriel também dá claro testemunho a Maria, dizendo: “Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32). Paulo também diz: “Lembre-se de Jesus Cristo, ressuscitado dentre os mortos, descendente de Davi, segundo o meu evangelho” (2Tm 2.8); e no começo da Epístola aos Romanos diz: “o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi” (Rm 1.3). Receba você, portanto, aquele que nasceu de Davi, crendo na profecia que diz: “Naquele dia haverá a raiz de Jessé, aquele que se levanta para governar os gentios; nele os gentios esperarão” (Is 11.10; Rm 15.12).

24. Mas os judeus se perturbam muito com essas coisas. Também isso Isaías previu, dizendo: “E desejarão ter sido queimados no fogo; porque um menino nos nasceu (não a eles), um filho se nos deu” (Is 9.5-6). Note você que primeiro ele era o Filho de Deus, e depois foi dado a nós. E pouco adiante ele diz: “E da sua paz não há limite” (Is 9.7). Os romanos têm limites; do reino do Filho de Deus não há limite. Os persas e os medos têm limites, mas o Filho não tem limite. E em seguida: “sobre o trono de Davi e sobre o seu reino, para o ordenar” (Is 9.7). A santa Virgem, portanto, é de Davi.

25. Pois convinha que aquele que é puríssimo, e mestre da pureza, saísse de um tálamo puro. Pois, se aquele que cumpre bem o ofício de sacerdote de Jesus se abstém de mulher, como o próprio Jesus haveria de nascer de homem e mulher? “Pois tu”, diz ele nos Salmos, “és aquele que me tirou do ventre” (Sl 22.9). Note bem isto: “aquele que me tirou do ventre”, indicando que ele foi gerado sem homem, sendo tirado do ventre e da carne de uma virgem. Pois é diferente o modo dos que são gerados segundo o curso do matrimônio.

26. E não se envergonha de assumir carne de tais membros aquele que é o artífice desses mesmos membros. Mas quem nos diz isso? O Senhor diz a Jeremias: “Antes de formá-lo no ventre materno, eu já o conhecia; e, antes de você nascer, eu o consagrei” (Jr 1.5). Se, então, ao formar o homem, ele não se envergonhou do contato, haveria de se envergonhar ao formar para si mesmo a santa carne, o véu da sua divindade? É Deus quem ainda agora cria as crianças no ventre, como está escrito em Jó: “Por acaso, não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me vestiste e de ossos e tendões me teceste” (Jó 10.10-11). Não há nada de impuro na constituição humana, a não ser que o homem a contamine com a fornicação e o adultério. Aquele que formou Adão formou também Eva, e o macho e a fêmea foram formados pelas mãos de Deus. Nenhum dos membros do corpo, tal como foi formado desde o princípio, é impuro. Fechem-se as bocas de todos os hereges que caluniam os seus corpos, ou melhor, aquele que os formou. Mas lembremo-nos da palavra de Paulo: “Será que vocês não sabem que o corpo de vocês é santuário do Espírito Santo, que está em vocês?” (1Co 6.19). E de novo o profeta falou de antemão na pessoa de Jesus: “A minha carne vem deles” (Os 9.12)46; e em outro lugar está escrito: “Portanto, o Senhor os entregará até o tempo em que a que está em dores tiver dado à luz” (Mq 5.3). E qual é o sinal? Ele nos diz no que segue: “Ela dará à luz, e o restante de seus irmãos voltará” (Mq 5.3). E quais são as arras nupciais da Virgem, a santa esposa? “Farei de você a minha esposa em fidelidade” (Os 2.20). E Isabel, conversando com Maria, fala de modo semelhante: “Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor” (Lc 1.45).

27. Mas tanto os gregos como os judeus nos importunam e dizem que era impossível o Cristo nascer de uma virgem. Quanto aos gregos, taparemos a boca deles com as suas próprias fábulas. Pois vocês, que dizem que pedras atiradas se transformaram em homens47, como dizem que é impossível uma virgem dar à luz? Vocês, que contam a fábula de que uma filha nasceu do cérebro48, como dizem que é impossível um filho ter nascido do ventre de uma virgem? Vocês, que dizem falsamente que Dioniso nasceu da coxa do seu Zeus49, como desprezam a nossa verdade? Sei que estou falando de coisas indignas do presente auditório; mas, para que você, no devido tempo, possa refutar os gregos, apresentamos estas coisas respondendo-lhes com as suas próprias fábulas.

28. Mas aos da circuncisão enfrente você com esta pergunta: o que é mais difícil, uma mulher idosa, estéril e fora da idade, dar à luz, ou uma virgem na flor da juventude conceber? Sara era estéril e, embora já lhe tivesse cessado o costume das mulheres, ainda assim, contra a natureza, deu à luz um filho. Se, então, é contra a natureza que uma estéril conceba, e também uma virgem, ou rejeitem as duas coisas, ou aceitem as duas. Pois é o mesmo Deus50 que realizou uma e determinou a outra. Pois você não ousará dizer que para Deus era possível naquele primeiro caso e impossível neste último. E ainda: como é natural que a mão de um homem, numa só hora, se mude em outra aparência e seja de novo restaurada? Como, então, a mão de Moisés ficou branca como a neve e logo foi restaurada outra vez? Mas você diz que a vontade de Deus operou a mudança. Nesse caso, a vontade de Deus tem poder; e neste outro caso não tem poder nenhum? Além disso, aquele foi um sinal que dizia respeito somente aos egípcios, mas este foi um sinal dado ao mundo inteiro. Mas o que é mais difícil, ó judeus? Uma virgem dar à luz, ou uma vara ser vivificada num ser vivente? Vocês confessam que, no caso de Moisés, uma vara perfeitamente reta se tornou semelhante a uma serpente e foi terrível para quem a lançou ao chão; e aquele que antes segurava firme a vara fugiu dela como de uma serpente, pois serpente de fato ela era. Mas ele não fugiu por temer aquilo que segurava, e sim porque temia aquele que a tinha transformado. Uma vara teve dentes e olhos como uma serpente: então de uma vara brotam olhos que veem, e não pode uma criança nascer do ventre de uma virgem, se Deus quiser? Pois nada digo do fato de que a vara de Arão também produziu numa só noite o que as outras árvores produzem em vários anos. Pois quem não sabe que uma vara, depois de perder a casca, nunca mais brotará, ainda que seja plantada no meio de rios? Mas, como Deus não depende da natureza das árvores, e sim é o Criador das suas naturezas, a vara infrutífera, seca e sem casca brotou, floresceu e deu amêndoas. Aquele, pois, que por causa do sumo sacerdote figurado deu fruto à vara de modo sobrenatural, não haveria de conceder à Virgem, por causa do verdadeiro Sumo Sacerdote, dar à luz uma criança?

29. São excelentes estas sugestões das narrativas; mas os judeus ainda contestam e não cedem às afirmações a respeito da vara, a não ser que se deixem persuadir por nascimentos semelhantes, estranhos e sobrenaturais. Interrogue-os, então, desta maneira: de quem foi gerada Eva, no princípio? Que mãe concebeu aquela que não teve mãe? Mas a Escritura diz que ela nasceu do lado de Adão. Então Eva nasce do lado de um homem, sem mãe, e uma criança não há de nascer sem pai, do ventre de uma virgem? Esta dívida de gratidão era devida aos homens pelo sexo feminino: pois Eva foi gerada de Adão, e não concebida de uma mãe, mas como que dada à luz só pelo homem. Maria, portanto, pagou a dívida de gratidão quando, não por homem, mas só de si mesma, de modo imaculado, concebeu do Espírito Santo pelo poder de Deus.

30. Mas tomemos o que é uma maravilha ainda maior do que esta. Pois que de corpos se concebam corpos, mesmo sendo admirável, é contudo possível; mas que o pó da terra se torne um homem, isto é mais admirável. Que o barro amassado assuma as túnicas e os esplendores dos olhos, isto é mais admirável. Que do pó, de aparência uniforme, se produzam tanto a firmeza dos ossos como a maciez dos pulmões e outras espécies diferentes de membros, isto é admirável. Que o barro seja animado e percorra o mundo movendo-se por si mesmo, e construa casas, isto é admirável. Que o barro ensine, fale, trabalhe como carpinteiro e reine como rei, isto é admirável. De onde, então, ó judeus ignorantíssimos, foi feito Adão? Não tomou Deus o pó da terra e formou esta estrutura admirável? Então o barro se transforma em olho, e uma virgem não pode dar à luz um filho? O que para os homens é mais impossível acontece, e o que é possível jamais há de acontecer?

31. Lembremo-nos destas coisas, irmãos; usemos estas armas em nossa defesa. Não suportemos os hereges que ensinam que a vinda de Cristo foi uma aparência. Detestemos também os que dizem que o nascimento do Salvador foi de marido e mulher; que ousaram dizer que ele era filho de José e Maria, porque está escrito: “e recebeu Maria por esposa” (Mt 1.24). Pois lembremo-nos de Jacó, que, antes de receber Raquel, disse a Labão: “Dê-me a minha mulher” (Gn 29.21). Pois, assim como ela, antes do estado de casada, somente porque havia uma promessa, era chamada mulher de Jacó, assim também Maria, por estar comprometida, era chamada mulher de José. Note também a exatidão do evangelho, que diz: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem que estava comprometida a casar com um homem cujo nome era José” (Lc 1.26-27), e o que se segue. E de novo, quando houve o recenseamento e José subiu para alistar-se, o que diz a Escritura? “José também subiu da Galileia, a fim de alistar-se com Maria, que estava comprometida com ele, a qual estava grávida” (Lc 2.4-5). Pois, embora ela estivesse grávida, não disse “com sua mulher”, mas “com aquela que estava comprometida com ele”. Pois “Deus enviou o seu Filho”, diz Paulo, não nascido de homem e mulher, mas “nascido de mulher” (Gl 4.4) somente, isto é, de uma virgem. Pois que também a virgem é chamada mulher, já o mostramos antes51. Pois aquele que torna as almas virgens nasceu de uma Virgem.

32. Mas você se admira do acontecimento: até mesmo aquela que o deu à luz se admirou disso. Pois ela diz a Gabriel: “Como será isto comigo, se não conheço homem?” Mas ele diz: “O Espírito Santo virá sobre você, e o poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.34-35). Imaculada e sem mancha foi a sua geração; pois onde o Espírito Santo sopra, ali é tirada toda impureza: sem mancha, a partir da Virgem, foi a geração encarnada do Unigênito. E, se os hereges contradisserem a verdade, o Espírito Santo os convencerá; aquele poder do Altíssimo que a cobriu com a sua sombra se indignará; Gabriel se levantará face a face contra eles no dia do juízo; o lugar da manjedoura, que recebeu o Senhor, os cobrirá de vergonha. Os pastores, que então receberam a boa notícia, darão testemunho; e também a multidão dos anjos que cantavam louvores e hinos e diziam: “Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (Lc 2.14); o templo ao qual ele foi então levado no quadragésimo dia; os pares de rolinhas que foram oferecidos por ele (Lc 2.24)52; e Simeão, que então o tomou nos braços, e Ana, a profetisa, que estava presente.

33. Visto, pois, que Deus dá testemunho, e o Espírito Santo se une ao testemunho, e Cristo diz: “Por que vocês procuram me matar, a mim, um homem que lhes disse a verdade?” (Jo 7.19; 8.40), calem-se os hereges que falam contra a sua humanidade, pois falam contra aquele que diz: “Toquem em mim e vejam, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho” (Lc 24.39). Seja adorado o Senhor nascido da Virgem, e reconheçam as virgens a coroa do seu próprio estado; reconheça também a ordem dos solitários a glória da castidade, pois nós, homens, não estamos privados da dignidade da castidade. No ventre da Virgem o Salvador passou o período de nove meses; mas o Senhor foi homem durante trinta e três anos; de modo que, se uma virgem se gloria53 por causa dos nove meses, muito mais nós, por causa dos muitos anos.

34. Mas corramos todos, pela graça de Deus, a carreira da castidade, “rapazes e moças, velhos e crianças” (Sl 148.12), não andando atrás da devassidão, mas louvando o nome de Cristo. Não ignoremos a glória da castidade, pois a sua coroa é angélica, e a sua excelência está acima do homem. Sejamos zelosos dos nossos corpos, que hão de brilhar como o sol; não contaminemos, por um prazer breve, um corpo tão grande e tão nobre, pois breve e momentâneo é o pecado, mas a vergonha dura muitos anos e para sempre. Anjos que andam sobre a terra são os que praticam a castidade; as virgens têm a sua porção com Maria, a Virgem. Seja banido todo adorno vão, todo olhar nocivo, todo andar lascivo, toda veste esvoaçante e o perfume que atrai ao prazer. Mas, em tudo, seja o nosso perfume a oração de suave aroma, a prática54 das boas obras e a santificação dos nossos corpos, para que o Senhor nascido da Virgem diga também de nós, tanto dos homens que vivem em castidade como das mulheres que levam a coroa: “Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (2Co 6.16). A ele seja a glória para todo o sempre. Amém.

Notas

1. Esta passagem fornece resposta completa à suspeita de uma tendência quase nestoriana, mencionada na nota à Catequese XI, 20. Veja X, 19, sobre o título Theotokos.

2. O particípio presente (kataxioumenoi) significa que os candidatos ao batismo já estavam a caminho de ser admitidos à santa comunhão. Compare Catequese I, 1, onde os mesmos candidatos são chamados “participantes dos mistérios de Cristo, por enquanto só pelo chamado, mas em breve também pela graça”.

3. Aubertin observa sobre esta passagem que “este Cordeiro espiritual, composto de cabeça e pés, só pode ser recebido pela boca espiritual”. Essa explicação, por verdadeira que seja em si mesma, não pode com justiça ser tida como expressão plena do pensamento de Cirilo.

4. A mesma interpretação figurada é dada por Eusébio (Hist. Ecl. I, ii, § 1): “Em Cristo há uma natureza dupla; e uma, enquanto ele é pensado como Deus, assemelha-se à cabeça do corpo, ao passo que a outra pode ser comparada aos pés, enquanto ele, por causa da nossa salvação, se revestiu da natureza humana, sujeita às mesmas paixões que a nossa.”

5. Ioanne to Theologo. O título é dado a Moisés por Fílon, o Judeu (Vida de Moisés III, § 11), aos profetas por Eusébio (Demonstr. Evang. ii, 9), aos apóstolos por Atanásio (Sobre a Encarnação, § 10: ton autou tou Soteros theologon andron), e especialmente a São João, porque o propósito principal do seu Evangelho era expor a divindade de Cristo. Veja a nota sobre Apocalipse 1.1 no Speaker’s Commentary e Suicer, Thesaurus, Theologos.

6. Carpócrates, Cerinto, os ebionitas etc. Veja Ireneu (Contra as Heresias I, xxv, § 1; xxvi, §§ 1, 2).

7. O Dr. Swainson (Creeds, cap. vii, § 7), falando do Credo de Cirilo de Jerusalém, diz que “as palavras sarkothenta kai enanthropesanta se encontram nele, mas não se faz referência alguma ao nascimento da Virgem”. A presente passagem, e a da Catequese IV, § 9, “gerado da santa Virgem e do Espírito Santo”, parecem mostrar que tal cláusula fazia parte do Credo que Cirilo estava expondo. A autenticidade de ambas as passagens é atestada por todos os manuscritos, e o Dr. Swainson se enganou ao acusar os editores da Tradução de Oxford de terem deixado de “mencionar que o próprio Touttée duvidava das palavras entre colchetes” [ek Parthenou kai Pneumatos Hagiou]. Os colchetes foram acrescentados pelo próprio Dr. Swainson, e Touttée não tinha dúvida alguma da autenticidade das palavras; ao contrário, julgava-as parte do próprio Credo. A nota dele é a seguinte: “As palavras da Virgem e do Espírito Santo mandei imprimir em letras maiores, como se tiradas do Símbolo, embora faltem no título desta catequese e no § 13, onde se faz referência ao terceiro artigo do Credo. Mas se leem em quase todos os Símbolos latinos e gregos, e são mencionadas na Catequese IV, § 9.”

8. enanthropesanta. A palavra ocorre na verdadeira fórmula nicena, onde, segundo pensa o Dr. Swainson, ela é “pouco ambígua”, “é defeituosa”. Tanto o verbo quanto o substantivo enanthropesis são constantemente usados por Atanásio para designar a encarnação de modo perfeitamente geral, sem nenhum indício de ambiguidade ou defeito. No Credo proposto por Eusébio de Cesareia, em lugar de enanthropesanta encontramos en anthropois politeusamenon (tendo vivido entre os homens); e na Expositio Fidei atribuída a Atanásio, mas de autenticidade um tanto duvidosa, a encarnação é descrita assim: ek tes achrantou parthenou Marias ton hemeteron aneilephen anthropon Christon Iesoun. Na controvérsia apolinarista tentou-se interpretar enenthropesen não no sentido de que “ele se fez homem”, mas de que “assumiu um homem”, isto é, que “o homem foi primeiro formado e depois assumido” (Gregório, Epístola a Cledônio, citado por Swainson, p. 83), ou então apenas que “habitou entre os homens”. Mas o contexto das passagens em que Cirilo usa a palavra (IV, 9; XII, 3) mostra claramente que ele a empregava no sentido perfeitamente ortodoxo que ela tem na fórmula nicena e em Atanásio.

9. Veja abaixo, § 21 ss. Cirilo quer dizer que a prova direta não pode ser dada de imediato, porque há muitos erros a afastar primeiro. Compare o fim do § 4.

10. Veja Catequese IV, 9.

11. Atanásio (Contra os Arianos, Discurso I, § 9) cita, como da Thalia de Ário: “Cristo não é verdadeiro Deus, mas, como os outros, foi feito Deus (etheopoiethe) por participação.” Os eusebianos, na Confissão de Fé chamada Macrostichos (344 d.C.), condenaram essa opinião como sustentada pelos discípulos de Paulo de Samósata, “que dizem que, depois da encarnação, ele foi feito Deus por progresso, tendo sido feito por natureza um simples homem”. O uso ortodoxo da palavra theopoieisthai se vê em Atanásio, Sobre a Encarnação, § 54: autos enenthropesen, hina hemeis theopoiethomen (ele se fez homem para que nós fôssemos divinizados).

12. A R.V. traz: “deitam-se ao lado de qualquer altar sobre roupas tomadas em penhor”.

13. Passagem que os Pais interpretam como referente ao sinal da cruz. Eusébio (Demonstr. Evang. vi, 25): “Quem, vendo que todos os que creram em Cristo usam como selo o símbolo da salvação, não se espantaria com razão ao ouvir o dito do Senhor de outrora: E virão e verão a minha glória, e deixarei sobre eles um sinal?” Compare Catequese IV, 14; XIII, 36.

14. Os “pés”, interpretados alegoricamente, significam a humanidade, e a “escuridão”, o mistério da encarnação. Veja Eusébio, Demonstr. Evang. vi, 1, § 2.

15. asage, palavra rara, formada de sage, “arreio”.

16. “Há uma excelente vista do monte das Oliveiras, que se ergue defronte da cidade, especialmente da altura do Gólgota, onde Cirilo pronunciava as suas catequeses” (Cleopas).

17. Compare a Epístola de Barnabé, § 13: “Pois, se ele não tivesse vindo na carne, como nós, homens, poderíamos ficar a salvo ao contemplá-lo? Pois, ao contemplar o sol, que, sendo obra das suas mãos, deixará de existir, os homens não têm força para fixar nele os olhos.”

18. Justino Mártir (Diálogo com Trifão, § 100): “Eva, quando era virgem e incorrupta, tendo concebido a palavra da serpente, deu à luz a desobediência e a morte; mas a Virgem Maria recebeu fé e alegria quando o anjo Gabriel lhe anunciou as boas-novas.”

19. A morte é aqui chamada “o dragão”, assim como em XIV, 17 é chamada “a baleia invisível”, em alusão ao caso de Jonas.

20. Sobre a descida de Cristo ao Hades, compare IV, 11; XIV, 19; e Eusébio (Demonstr. Evang. x, 50) e Atanásio (Contra os Arianos, Discurso III, 56): “O Senhor, diante de quem os guardas das portas do inferno estremeceram e abriram o inferno. O Senhor, de quem a morte, como um dragão, foge.”

21. A primeira oração, “Ele tragou a morte para sempre” (R.V.), está mal traduzida na Septuaginta.

22. tauten ten parakatatheken.

23. Sobre a tradição de que o monte Tabor foi o lugar da transfiguração, aceita por São Jerônimo e outros Pais, compare Lightfoot (Hor. Hebr. sobre Marcos 9.2).

24. Catequese XII, 5. Em lugar de heurein, os editores recentes, com os mss. A.R.C. e Grodecq, leem erein.

25. neeludas.

26. Supõe-se que Cirilo se refira a duas objeções contra a encarnação: uma fundada no atraso da vinda de Cristo, a outra na imutabilidade divina. Mas o sentido da passagem não é claro, e a construção da segunda frase está incompleta.

27. exetazomenon, exemplo claro do sentido de gerundivo, ou quase futuro, do particípio presente, comum em Cirilo. “Essa intenção não se cumpre no restante destas catequeses” (R.W.C.).

28. Segundo Cirilo (§ 19, abaixo) e outros Pais, a sucessão de governantes judeus cessou com a ascensão de Herodes, idumeu. Compare Justino Mártir (Diálogo com Trifão, §§ 52, 120); Eusébio (Demonstr. Evang. VIII, 1). Sobre as interpretações modernas da passagem, veja Delitzsch (New Commentary on Genesis), Briggs (Messianic Prophecy, p. 93), Cheyne (Isaiah, vol. II, p. 189), Driver (Journal of Philology, n. 27, 1885).

29. Um relato completo e interessante dos patriarcas judeus do Ocidente, estabelecidos em Tiberíades desde o tempo de Antonino Pio até o fim do século IV, encontra-se na History of the Jews do deão Milman, vol. III. Compare Epifânio (Heresias xxx, § 3 ss.).

30. Citado acima, § 10.

31. Cirilo interpreta a passagem (XI, 5) da geração eterna do Filho; aqui ela se refere à sua encarnação, ou talvez queira apenas identificar o Filho de Deus com aquele que “governará com vara de ferro”.

32. Septuaginta: tou apokrithenai, sentido frequente da palavra hebraica, pela qual os tradutores gregos entenderam a resposta de Dario à carta de Tatenai e seus companheiros. A Authorized Version e a Revised Version vertem a palavra por “restaurar”.

33. Dario, o medo (Dn 5.31), sucedeu a Belsazar como rei na Babilônia em 538 a.C., data que Dn 9.1 atribui à profecia dos 70 anos. Mas o “rei Dario” em cujo 6º ano (516 a.C.) o templo foi concluído (Ed 6.15) era Dario Histaspes, rei da Pérsia, que Cirilo aqui confunde com “Dario, o medo”. Ele também não distingue a reconstrução do templo, em 516 a.C., da reconstrução da cidade com a permissão de Artaxerxes Longímano, em 444 a.C. (Ne 2.1).

34. Ao falar de três horas excedentes no ano em vez de quase seis, Cirilo parece seguir a divisão do período diurno em doze partes, e não em vinte e quatro. Os judeus tinham recebido essa divisão ou dos egípcios ou, mais provavelmente, dos babilônios: veja Heródoto, II, 109.

35. Citado também na Catequese XI, 20, onde veja a nota.

36. O salmista se refere à recuperação da arca, mas Cirilo interpreta a passagem misticamente, de Cristo e do lugar do seu nascimento.

37. O editor beneditino pensa que, ao chamar o lugar “coberto de mata”, Cirilo se refere a um bosque plantado por Adriano em honra de Adônis, que tinha sido destruído uns dezesseis anos antes, quando Helena construiu a igreja de Belém: veja Eusébio, Vida de Constantino, III, 43. Mas Cirilo evidentemente quer dizer que o bosque de que fala o salmista tinha permanecido até poucos anos antes. Efrata é o nome antigo de Belém (Gn 35.19; 48.7), e por “os campos do bosque” provavelmente se entende Quiriate-Jearim, “a cidade dos bosques”, onde a arca foi encontrada por Davi (2Sm 6.2; 1Cr 13.6).

38. Na Revised Version: “Ó Senhor, aviva a tua obra no meio dos anos, no meio dos anos faze-a conhecida.” A Septuaginta dá outro sentido: “No meio de duas vidas (ou: de dois seres vivos) serás conhecido; quando os anos se aproximarem, serás reconhecido; quando chegar o tempo, serás mostrado.” As duas últimas orações parecem ser traduções diferentes das mesmas palavras hebraicas.

39. hexes. Esta oração vem antes da citação anterior: Cirilo inverte a ordem. No Códice Vaticano e em outros manuscritos da Septuaginta, e em alguns Pais, encontra-se zoon (“seres vivos”) em lugar de zoon (“vidas”; no grego, as duas formas diferem só no acento); mas esta última leitura é evidentemente exigida pela interpretação que se segue em Cirilo. Orígenes (De Principiis, I, 4), que reconhece as duas leituras (“In medio vel duorum animalium, vel duarum vitarum, cognosceris”, isto é, “serás conhecido no meio ou de dois seres vivos ou de duas vidas”), interpreta os “dois seres vivos” como o Filho e o Espírito. Eusébio (Demonstr. Evang. VI, 15) observa que zoon deve ser lido como perispômeno, do singular zoe, e o interpreta da vida de Cristo junto de Deus e da sua vida na terra. Teodoreto, comentando a passagem, diz: “Parece-me que o profeta não quer dizer ‘seres vivos’ (zoa), mas ‘vidas’ (zoas), a vida presente e a que há de vir, entre as quais está a manifestação do justo Juiz.”

40. Cirilo interpreta a palavra Thaiman como substantivo comum que significa “sul”, e a Vulgata traz aqui “ab Austro veniet” (“virá do sul”). A profecia é assim referida a Belém, que fica ao sul de Jerusalém. Eusébio (Dem. Evang. VI, 15) menciona esta como a tradução de Teodocião na sua versão grega, por volta de 180 d.C. Como nome próprio, Temã designa uma região e uma cidade no sul da Idumeia, assim chamadas por causa de um neto de Esaú (Gn 36.11, 15, 42; Jr 49.7, 20; Ez 25.13; Am 1.12; Ob 9).

41. A nota seguinte é ligeiramente resumida da edição de Alexandrides de Jerusalém: “As edições anteriores leem ex orous Pharan kataskiou daseos. Esta leitura se encontra no Cód. Vat. e em outros manuscritos da Septuaginta, mas Pharan é omitido na edição aldina e em muitas outras cópias, nem era lido nos manuscritos da Septuaginta no tempo de Jerônimo, como se vê claramente pelos seus comentários sobre a passagem. Nos manuscritos de Cirilo, Ottob., R.C.V., Monac. I e II, ele falta. Parã é o nome do deserto ao sul da Palestina, situado entre ela e o Egito (Gn 21.21; Nm 10.12). Havia também um monte Parã (Dt 33.2). Mas, como Cirilo aplica a profecia a Belém, e o ‘monte sombrio e coberto de densa mata’ de Habacuque é identificado com ‘os campos do bosque’ de Davi, podemos concluir com segurança que Cirilo não lia Pharan nas suas cópias da Septuaginta, nem o escreveu na sua catequese: a leitura se infiltrou por obra de copistas posteriores, acostumados à leitura Pharan na Septuaginta.”

42. A objeção dos judeus, de que a palavra hebraica “almah” significa “mulher jovem”, casada ou não, é mencionada por Justino Mártir (Trifão, 43, 67, 71) e por Eusébio (Dem. Evang. VII, i, 315).

43. O argumento de Cirilo é plenamente justificado pelo uso real de “almah”, que certamente se refere a mulheres solteiras em Gn 24.43; Êx 2.8; Ct 1.3. Provavelmente é esse também o sentido em Sl 68.25: “no meio, as moças tocando tamborins”. Não há passagem em que se possa mostrar que a palavra significa mulher casada.

44. Compare Justino Mártir (Trifão, § 77) e Eusébio (Demonstr. Evang. L. VII, c. i, 317).

45. No hebraico a palavra usada é um particípio, e descreve o que Isaías vê numa visão profética: “Eis que a moça está grávida.”

46. Na Revised Version: “Ai também deles, quando eu me afastar deles!” Os Setenta confundiram a palavra hebraica que significa “quando eu me afastar” com a que significa “minha carne”.

47. Veja a história de Pirra e Deucalião em Píndaro, Ol. IX, 69: ater d’ eunas ktesasthan lithinon gonon, e em Ovídio, Metamorfoses, I, 260 ss.

48. Dizia-se que Atena saltou armada da cabeça de Zeus: Píndaro, Ol. VII, 65: koruphan kat’ akran anorousais’ alalaxen hupermakei boa. Cf. Hesíodo, Teogonia, 924.

49. Eurípides, Bacantes, 295; Ovídio, Metamorfoses, IV, 11.

50. Codd. Mon. i, A: ho gar autos Theos. Bened.: ho gar Theos autos.

51. Veja acima, § 21.

52. Em Lv 12.8 prescreve-se um só par de rolinhas, a ser oferecido pela mãe, não pela criança. Mas a leitura ta zeuge em Cirilo é confirmada pela de São Lucas, tou katharismou auton. Veja as autoridades em Tischendorf.

53. semnunetai. Rivet, induzido em erro por um duplo engano da antiga versão latina, “veneratur” (“venera”), acusou Cirilo de aprovar o culto à Virgem Maria.

54. he ton agathon praxis, Cod. A.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.