Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XVI

O Espírito Santo, que falou pelos profetas

O Espírito Santo, um só, que falou pelos profetas; contra as heresias; a sua obra na santificação.

Catequese XVI. Sobre o artigo: E em um só Espírito Santo, o Consolador, que falou nos profetas

1 Coríntios 12.1, 4
Irmãos, não quero que vocês estejam desinformados a respeito dos dons espirituais…. Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo etc.

1. Espiritual, na verdade, é a graça de que precisamos para discorrer sobre o Espírito Santo; não para dizer o que seja digno dele, pois isso é impossível, mas para que, dizendo as palavras das divinas Escrituras, façamos o nosso percurso sem perigo. Pois está escrita nos Evangelhos uma coisa verdadeiramente temível, onde Cristo disse claramente: “Se alguém falar contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no porvir” (Mt 12.32). E muitas vezes há o temor de que alguém receba essa condenação por dizer a respeito dele o que não deve, seja por ignorância, seja por uma pretensa reverência. O Juiz dos vivos e dos mortos, Jesus Cristo, declarou que tal pessoa não tem perdão; se, pois, alguém tropeçar, que esperança lhe resta?

2. Deve, portanto, ser obra da própria graça de Jesus Cristo conceder a nós falar sem deficiência, e a vocês ouvir com discernimento; pois o discernimento é necessário não só aos que falam, mas também aos que ouvem, para que não ouçam uma coisa e entendam mal outra na sua mente. Falemos, pois, a respeito do Espírito Santo, nada senão o que está escrito; e tudo o que não está escrito, não nos ocupemos com isso. O próprio Espírito Santo falou as Escrituras; e falou também a respeito de si mesmo tanto quanto quis, ou tanto quanto podíamos receber. Digamos, portanto, aquilo que ele disse; pois o que ele não disse, nós não ousamos dizer.

3. Há um único Espírito Santo, o Consolador; e, assim como há um só Deus, o Pai, e não um segundo Pai, e assim como há um único Filho unigênito e Verbo de Deus, que não tem irmão, assim também há um único Espírito Santo, e não um segundo espírito igual a ele em honra. Ora, o Espírito Santo é um Poder poderosíssimo, um Ser divino e insondável; pois ele é vivo e inteligente, princípio santificador de todas as coisas feitas por Deus por meio de Cristo. É ele quem ilumina as almas dos justos; ele esteve nos profetas, esteve também nos apóstolos, no Novo Testamento. Abomináveis sejam os que ousam separar a operação do Espírito Santo! Há um só Deus, o Pai, Senhor do Antigo e do Novo Testamento; e um só Senhor, Jesus Cristo, que foi profetizado no Antigo Testamento e veio no Novo; e um só Espírito Santo, que por meio dos profetas pregou a respeito de Cristo e, quando Cristo veio, desceu e o manifestou1.

4. Que ninguém, portanto, separe o Antigo do Novo Testamento2; que ninguém diga que o Espírito em um é um, e no outro é outro; pois assim ofende o próprio Espírito Santo, que é honrado juntamente com o Pai e o Filho e que, no momento do santo batismo, está incluído com eles na Santa Trindade. Pois o Filho unigênito de Deus disse claramente aos apóstolos: “Vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28.19)3. A nossa esperança está no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Não pregamos três deuses4; calem-se os marcionitas; mas, com o Espírito Santo, por meio de um só Filho, pregamos um só Deus. A fé é indivisível; a adoração, inseparável. Nem separamos a Santa Trindade, como alguns, nem fazemos confusão, como Sabélio5. Mas conhecemos, segundo a piedade, um só Pai, que enviou o seu Filho para ser o nosso Salvador; conhecemos um só Filho, que prometeu enviar da parte do Pai o Consolador; conhecemos o Espírito Santo, que falou nos profetas e que, no dia de Pentecostes, desceu sobre os apóstolos em forma de línguas de fogo, aqui, em Jerusalém, na Igreja Superior dos Apóstolos6; pois em tudo os privilégios mais escolhidos estão conosco. Aqui Cristo desceu do céu; aqui o Espírito Santo desceu do céu. E, na verdade, o mais apropriado seria que, assim como discorremos sobre Cristo e o Gólgota aqui no Gólgota, também falássemos sobre o Espírito Santo na Igreja Superior; contudo, já que aquele que desceu lá participa juntamente da glória daquele que foi crucificado aqui, falamos aqui também daquele que desceu lá, pois a adoração deles é indivisível.

5. Queremos agora dizer alguma coisa sobre o Espírito Santo; não para declarar com exatidão a sua substância, pois isso seria impossível, mas para falar dos diversos erros de alguns a respeito dele, a fim de que não caiamos neles por ignorância; e para bloquear os caminhos do erro, a fim de seguirmos viagem pela única estrada real. E, se agora, por precaução, repetirmos alguma afirmação dos hereges, que ela recaia sobre a cabeça deles, e sejamos nós inocentes, tanto nós que falamos como vocês que ouvem.

6. Pois os hereges, que são profaníssimos em tudo, “aguçaram a língua” (Sl 140.3) também contra o Espírito Santo e ousaram proferir coisas ímpias, como escreveu Irineu, o intérprete, nas suas exortações contra as heresias7. Pois alguns deles ousaram dizer que eles mesmos eram o Espírito Santo; e o primeiro destes foi Simão8, o mago de quem se fala nos Atos dos Apóstolos; pois, depois de expulso, ele ousou ensinar tais doutrinas. E os chamados gnósticos, homens ímpios, disseram outras coisas contra o Espírito9, e os perversos valentinianos10, por sua vez, outra coisa ainda; e o profano Mani ousou chamar a si mesmo de o Paráclito enviado por Cristo11. Outros, ainda, ensinaram que o Espírito é um nos profetas e outro no Novo Testamento12. Sim, e grande é o erro deles, ou melhor, a sua blasfêmia. Tenha, pois, horror a tais pessoas, e fuja dos que blasfemam contra o Espírito Santo e não têm perdão. Pois que comunhão você tem com os desesperados, você, que está prestes a ser batizado também no Espírito Santo13? Se quem se junta a um ladrão e consente com ele está sujeito a castigo, que esperança terá quem ofende o Espírito Santo?

7. Sejam abominados também os marcionitas, que arrancam do Novo Testamento as palavras do Antigo14. Pois Marcião, o mais ímpio dos homens, que foi o primeiro a afirmar três deuses15, sabendo que no Novo Testamento estão contidos testemunhos dos profetas a respeito de Cristo, cortou os testemunhos tirados do Antigo Testamento, para que o Rei ficasse sem testemunho. Abomine aqueles gnósticos já mencionados, homens de conhecimento no nome, mas cheios de ignorância, que ousaram dizer a respeito do Espírito Santo coisas tais que eu não ouso repetir.

8. Tenha horror também dos catafrígios16 e de Montano, o chefe deles no mal, e das suas duas chamadas profetisas, Maximila e Priscila. Pois esse Montano, que estava fora de si e realmente louco (pois não teria dito tais coisas se não estivesse louco), ousou dizer que ele mesmo era o Espírito Santo, ele, homem miserável, cheio de toda impureza e lascívia; basta apenas aludir a isso, por respeito às mulheres que estão presentes. E, tendo se apoderado de Pepuza, uma aldeia muito pequena da Frígia, deu-lhe falsamente o nome de Jerusalém; e degolava pobres criancinhas e as retalhava como alimento profano, para os seus chamados mistérios17 (por isso, até há bem pouco tempo, no tempo da perseguição, éramos suspeitos de fazer isso, porque esses montanistas eram chamados, falsamente, sem dúvida, pelo nome comum de cristãos); e, mesmo assim, ousou chamar a si mesmo de Espírito Santo, cheio como estava de toda impiedade e de crueldade desumana, e condenado por uma sentença irrevogável.

9. E foi secundado, como já se disse, também por aquele impiíssimo Mani, que juntou o que havia de mau em todas as heresias18; o qual, sendo o abismo mais profundo da perdição, recolheu as doutrinas de todos os hereges, elaborou e ensinou um erro ainda mais novo, e ousou dizer que ele mesmo era o Consolador que Cristo prometeu enviar. Mas o Salvador, quando o prometeu, disse aos apóstolos: “Permaneçam, pois, na cidade de Jerusalém, até que vocês sejam revestidos do poder que vem do alto” (Lc 24.49). E então? Os apóstolos, que estavam mortos havia duzentos anos, esperaram por Mani “até que fossem revestidos do poder”? E alguém ousará dizer que eles não ficaram imediatamente cheios do Espírito Santo? Além disso, está escrito: “Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo” (At 8.17). Não foi isso antes de Mani, sim, muitos anos antes, quando o Espírito Santo desceu no dia de Pentecostes?

10. Por que foi condenado Simão, o mago? Não foi porque veio aos apóstolos e disse: “Deem também a mim este poder, para que a pessoa sobre a qual eu impuser as mãos receba o Espírito Santo” (At 8.19)? Pois ele não disse “Deem-me também a comunhão do Espírito Santo”, mas “Deem-me o poder”, para vender a outros o que não podia ser vendido e o que ele mesmo não possuía. Ofereceu dinheiro também aos que nada possuíam19; e isso embora visse homens trazendo o preço das coisas vendidas e depositando-o aos pés dos apóstolos. E não considerou que aqueles que pisavam a riqueza trazida para o sustento dos pobres não iriam dar o poder do Espírito Santo em troca de suborno. Mas o que dizem eles a Simão? “Que o seu dinheiro seja destruído junto com você, pois você pensou que com dinheiro poderia adquirir o dom de Deus” (At 8.20); pois você é um segundo Judas, por esperar comprar com dinheiro a graça do Espírito. Se, pois, Simão, por querer obter esse poder a preço de dinheiro, há de perecer, quão grande é a impiedade de Mani, que dizia ser ele mesmo o Espírito Santo? Odiemos os que são dignos de ódio; desviemo-nos daqueles de quem Deus se desvia; digamos também nós mesmos a Deus, com toda a ousadia, a respeito de todos os hereges: “Acaso não odeio os que te odeiam, Senhor? E não me aflijo com os teus inimigos?” (Sl 139.21). Pois há também uma inimizade que é justa, conforme está escrito: “Porei inimizade entre você e a descendência dela” (Gn 3.15); pois a amizade com a serpente produz inimizade com Deus, e morte.

11. Baste, pois, isto a respeito desses rejeitados; e agora voltemos às divinas Escrituras e “bebamos as águas das nossas próprias cisternas” [isto é, dos santos Pais20 ] “e das nossas próprias fontes que jorram” (Pv 5.15). Bebamos da “água viva, que jorra para a vida eterna” (Jo 4.14)21; mas “isso” o Salvador “disse a respeito do Espírito que haviam de receber os que nele cressem” (Jo 7.39). Pois observe o que ele diz: “Quem crer em mim” (não simplesmente isso, mas) “como diz a Escritura” (assim ele o remeteu ao Antigo Testamento) “do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.38); não rios perceptíveis aos sentidos, que apenas regam a terra com os seus espinhos e árvores, mas que trazem as almas à luz. E em outro lugar ele diz: “Mas a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14); um novo tipo de água, viva e que jorra, que jorra para os que são dignos.

12. E por que ele chamou de água a graça do Espírito? Porque pela água todas as coisas subsistem; porque a água produz a erva e os seres vivos; porque a água das chuvas desce do céu; porque desce de uma só forma, mas opera de muitas formas. Pois uma só fonte rega o paraíso inteiro, e uma só e a mesma chuva desce sobre o mundo todo; contudo, ela se torna branca no lírio, vermelha na rosa, púrpura nas violetas e nos jacintos, e diferente e variada em cada espécie; assim, ela é uma na palmeira e outra na videira, e tudo em todas as coisas; e, no entanto, é uma só na natureza, não diferente de si mesma; pois a chuva não muda a si mesma, descendo primeiro como uma coisa e depois como outra, mas, adaptando-se à constituição de cada coisa que a recebe, torna-se para cada uma o que lhe convém22. Assim também o Espírito Santo, sendo um, de uma só natureza e indivisível, distribui a cada um a sua graça “conforme ele quer” (1Co 12.11); e, assim como a árvore seca, depois de receber água, lança brotos, assim também a alma em pecado, quando pelo arrependimento se tornou digna do Espírito Santo, produz cachos de justiça. E, embora ele seja um só na natureza, muitas são as virtudes que, pela vontade de Deus e em nome de Cristo, ele opera. Pois emprega a língua de um para a sabedoria; ilumina a alma de outro pela profecia; a outro dá poder para expulsar demônios; a outro concede interpretar as divinas Escrituras. Fortalece o domínio próprio de um; ensina a outro o modo de dar esmolas; a outro ensina a jejuar e a disciplinar-se; a outro ensina a desprezar as coisas do corpo; a outro prepara para o martírio: diverso em homens diferentes, mas não diverso de si mesmo, como está escrito: “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento. A um é dada, no mesmo Espírito, a fé; a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos. A um é dada a variedade de línguas e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas essas coisas, distribuindo-as a cada um, individualmente, conforme ele quer” (1Co 12.7-11).

13. Mas, como nas divinas Escrituras estão escritas muitas coisas diversas a respeito do espírito em geral, e há o temor de que alguns, por ignorância, caiam em confusão, não sabendo a que tipo de espírito se refere o escrito, será bom agora assegurar a vocês de que natureza a Escritura declara ser o Espírito Santo. Pois, assim como Arão é chamado cristo, e Davi, Saul e outros são chamados cristos23, mas há um só Cristo verdadeiro, assim também, uma vez que o nome de espírito é dado a coisas diferentes, convém ver qual é aquele que de modo distintivo é chamado Espírito Santo. Pois muitas coisas são chamadas espíritos. Assim, um anjo é chamado espírito, a nossa alma é chamada espírito, e este vento que sopra é chamado espírito; também uma grande virtude é designada como espírito; e uma prática impura é chamada espírito; e um demônio, nosso adversário, é chamado espírito. Tenha cuidado, portanto, quando ouvir essas coisas, para não confundir uma com outra por terem um nome comum. Pois a respeito da nossa alma a Escritura diz: “O espírito dele sairá, e ele voltará à sua terra” (Sl 146.4); e da mesma alma diz ainda: “Que forma o espírito do homem dentro dele” (Zc 12.1). E dos anjos se diz nos Salmos: “Que faz dos seus anjos espíritos, e dos seus ministros, uma chama de fogo” (Sl 104.4). E do vento diz: “Com um espírito violento quebrarás as naus de Társis” (Sl 48.7); e: “Como a árvore do bosque é agitada pelo espírito” (Is 7.2); e: “Fogo, granizo, neve, gelo, espírito de tempestade” (Sl 148.8). E da boa doutrina o próprio Senhor diz: “As palavras que eu lhes tenho falado são espírito e são vida” (Jo 6.63); em lugar de “são espirituais”. Mas o Espírito Santo não é pronunciado pela língua; ele é um Espírito vivo, que dá a sabedoria da palavra, ele mesmo falando e discorrendo.

14. E você quer saber que ele discorre e fala? Filipe, por revelação de um anjo, desceu ao caminho que leva a Gaza, quando o eunuco vinha chegando; e o Espírito disse a Filipe: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a” (At 8.29). Você vê o Espírito falando a alguém que o ouve? Também Ezequiel fala assim: “O Espírito do Senhor caiu sobre mim e me disse: Assim diz o Senhor” (Ez 11.5). E ainda: “O Espírito Santo disse” aos apóstolos que estavam em Antioquia: “Separem-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At 13.2). Você contempla o Espírito vivo, separando, chamando e enviando com autoridade? Também Paulo disse: “Exceto que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que prisões e sofrimentos estão à minha espera” (At 20.23). Pois este bom Santificador da Igreja, seu Auxiliador e Mestre, o Espírito Santo, o Consolador, de quem o Salvador disse: “Esse ensinará a vocês todas as coisas” (Jo 14.26), e não disse somente: “Ensinará”, mas também: “Fará com que se lembrem de tudo o que eu lhes disse”, pois os ensinamentos de Cristo e os do Espírito Santo não são diferentes, mas os mesmos; ele, digo, testemunhou de antemão a Paulo as coisas que lhe haviam de acontecer, para que ele tivesse mais coragem, por sabê-las de antemão. Ora, eu disse essas coisas a vocês por causa do texto: “As palavras que eu lhes tenho falado são espírito” (Jo 6.63), para que você entenda isso não da emissão dos lábios24, mas da boa doutrina nessa passagem.

15. Mas também o pecado é chamado espírito, como já disse; só que em outro sentido, oposto, como quando se diz: “Um espírito de prostituição os enganou” (Os 4.12). O nome “espírito” é dado também ao “espírito imundo”, o diabo, mas com o acréscimo de “o imundo”; pois a cada um se junta o seu nome distintivo, para assinalar a sua natureza própria. Se a Escritura fala da alma do homem, diz “o espírito” com o acréscimo “do homem”; se quer dizer o vento, diz “espírito de tempestade”; se o pecado, diz “espírito de prostituição”; se o diabo, diz “um espírito imundo”; para que saibamos de que coisa em particular se fala, e você não suponha que se refere ao Espírito Santo; longe disso! Pois este nome de espírito é comum a muitas coisas; e tudo o que não tem corpo sólido é, de modo geral, chamado espírito25. Ora, como os demônios não têm tais corpos, são chamados espíritos; mas há uma grande diferença. Pois o demônio imundo, quando vem sobre a alma de um homem (que o Senhor livre dele toda alma dos que me ouvem, e dos que não estão presentes), vem como um lobo sobre uma ovelha, sedento de sangue e pronto para devorar. A sua vinda é ferocíssima; a sensação dela, opressiva ao extremo; a mente fica obscurecida; o seu ataque é também uma injustiça, e assim também a sua usurpação da posse alheia. Pois ele usa à força o corpo alheio e os instrumentos alheios como se fossem seus; derruba quem está de pé, pois é parente daquele que “caiu do céu” (Lc 10.18); torce a língua e contorce os lábios; sai espuma em lugar de palavras; o homem fica cheio de trevas; o seu olho está aberto, mas a alma não vê através dele; e o miserável arqueja convulsivamente à beira da morte. Os demônios são, de fato, inimigos dos homens, tratando-os de modo vil e sem misericórdia.

16. Tal não é o Espírito Santo; Deus nos livre! Pois as obras dele tendem para o lado contrário, para o que é bom e salutar. Primeiro, a sua vinda é suave; a percepção dele é perfumada; o seu fardo, levíssimo; raios de luz e de conhecimento brilham à frente da sua vinda26. Ele vem com as entranhas de um verdadeiro guardião: pois vem para salvar, curar, ensinar, admoestar, fortalecer, exortar, iluminar a mente, primeiro de quem o recebe e, depois, também dos outros, por meio dele. E, assim como um homem que antes estava nas trevas e de repente vê o sol tem a vista do corpo iluminada e vê claramente coisas que não via, assim também aquele a quem o Espírito Santo é concedido tem a alma iluminada e vê coisas acima da vista humana, que não conhecia; o seu corpo está na terra, e no entanto a sua alma reflete os céus. Ele vê, como Isaías, “o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono” (Is 6.1); vê, como Ezequiel, aquele que está “acima dos querubins” (Ez 10.1); vê, como Daniel, “milhões de milhões e milhares de milhares” (Dn 7.10); e o homem, tão pequeno, contempla o princípio do mundo, conhece o fim do mundo, os tempos intermediários e as sucessões dos reis, coisas que nunca aprendeu: pois o verdadeiro Iluminador está presente com ele. O homem está dentro das paredes de uma casa; e no entanto o poder do seu conhecimento alcança longe e por toda parte, e ele vê até o que outros homens estão fazendo.

17. Pedro não estava com Ananias e Safira quando venderam os seus bens, mas estava presente pelo Espírito: “Por que você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo?” (At 5.3), diz ele. Não havia acusador; não havia testemunha; de onde ele sabia o que tinha acontecido? “Não é verdade que, conservando a propriedade, seria sua? E, depois de vendida, o dinheiro não estaria em seu poder? Por que você decidiu fazer uma coisa dessas?” (At 5.4). Pedro, homem “iletrado” (At 4.13), aprendeu pela graça do Espírito o que nem os sábios dos gregos tinham conhecido. Você tem algo semelhante também no caso de Eliseu. Pois, depois que ele curou de graça a lepra de Naamã, Geazi recebeu a recompensa, a recompensa pelo feito de outro; tomou o dinheiro de Naamã e o escondeu num lugar escuro. Mas “as trevas” não ficam “ocultas” aos santos (Sl 139.12). E, quando ele chegou, Eliseu o interrogou; e, como Pedro quando disse: “Diga-me: foi por este valor que vocês venderam aquela terra?” (At 5.8), também ele pergunta: “De onde você vem, Geazi?” (2Rs 5.25). Não por ignorância, mas por tristeza pergunto: “De onde você vem?” Das trevas você veio, e para as trevas irá; você vendeu a cura do leproso, e a lepra é a sua herança. Eu, diz ele, cumpri a ordem daquele que me disse: “Vocês receberam de graça; portanto, deem de graça” (Mt 10.8); mas você vendeu esta graça; receba agora a condição da venda. Mas o que Eliseu lhe diz? “Não foi o meu coração com você?” (2Rs 5.26). Eu estava aqui, encerrado pelo corpo, mas o espírito que me foi dado por Deus viu até as coisas distantes e me mostrou claramente o que se fazia em outro lugar. Você vê como o Espírito Santo não só livra da ignorância, mas reveste de conhecimento? Você vê como ele ilumina a alma dos homens?

18. Isaías viveu há quase mil anos; e viu Sião “como uma cabana”. A cidade ainda estava de pé, embelezada com praças públicas e revestida de majestade; e no entanto ele diz: “Sião será lavrada como um campo” (Mq 3.12)27, predizendo o que agora se cumpriu nos nossos dias28. E observe a exatidão da profecia; pois ele disse: “E a filha de Sião será deixada como cabana na vinha, como choupana no pepinal” (Is 1.8)29. E agora o lugar está cheio de pepinais. Você vê como o Espírito Santo ilumina os santos? Portanto, não se deixe arrastar para outras coisas pela força de um nome comum, mas guarde firme o sentido exato.

19. E, se alguma vez, enquanto você esteve sentado aqui, lhe veio à mente um pensamento sobre a castidade ou a virgindade, foi ensino dele. Quantas vezes uma donzela, já no limiar do quarto nupcial30, não fugiu, ensinando-lhe ele a doutrina da virgindade? Quantas vezes um homem de destaque na corte31 não desprezou a riqueza e a posição, sob o ensino do Espírito Santo? Quantas vezes um jovem, à vista da beleza, não fechou os olhos, fugiu da visão e escapou da contaminação? Você pergunta de onde veio isso? O Espírito Santo ensinou a alma do jovem. Muitos são os caminhos da cobiça no mundo; e no entanto os cristãos recusam os bens: por quê? Por causa do ensino do Espírito Santo. Digno de honra é, em verdade, esse Espírito, santo e bom; e com razão somos batizados no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Um homem, ainda revestido de corpo, luta com muitos demônios ferocíssimos; e muitas vezes o demônio que muitos homens não conseguiam dominar com cadeias de ferro foi dominado pelo próprio homem com palavras de oração, pelo poder do Espírito Santo que está nele; e o simples sopro do exorcista32 se torna como fogo para esse inimigo invisível. Um aliado e protetor poderoso, portanto, temos da parte de Deus; um grande Mestre da Igreja, um poderoso Campeão a nosso favor. Não tenhamos medo dos demônios, nem do diabo; pois mais poderoso é aquele que combate por nós. Somente abramos para ele as nossas portas; pois ele “anda por toda parte procurando os que são dignos” (Sb 6.16)33 e buscando a quem possa conceder os seus dons.

20. E ele é chamado Consolador porque nos consola e encoraja e “ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos orar como convém, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26), isto é, intercede junto a Deus. Muitas vezes um homem, por amor de Cristo, foi ultrajado e desonrado injustamente; o martírio está às portas; torturas por todos os lados, e fogo, e espada, e feras selvagens, e o fosso. Mas o Espírito Santo lhe sussurra suavemente: “‘Espere no Senhor’ (Sl 27.14), ó homem; o que agora lhe sobrevém é coisa pequena, a recompensa será grande. Sofra um pouco, e você estará com os anjos para sempre. ‘Os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós’ (Rm 8.18).” Ele retrata ao homem o reino dos céus; dá-lhe um vislumbre do paraíso de delícias; e os mártires, cujo rosto corporal está necessariamente voltado para os seus juízes, mas que em espírito já estão no paraíso, desprezam esses sofrimentos que se veem.

21. E você quer ter certeza de que é pelo poder do Espírito Santo que os mártires dão o seu testemunho? O Salvador diz aos seus discípulos: “Quando levarem vocês às sinagogas ou à presença de governadores e autoridades, não se preocupem quanto à maneira como irão responder, nem quanto às coisas que tiverem de falar. Porque o Espírito Santo lhes ensinará, naquela mesma hora, as coisas que vocês devem dizer” (Lc 12.11-12). Pois é impossível dar testemunho como mártir por amor de Cristo, a não ser que o homem dê testemunho pelo Espírito Santo; pois, se “ninguém pode dizer que Jesus Cristo é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (1Co 12.3)34, como alguém dará a própria vida por amor de Jesus, senão pelo Espírito Santo?

22. Grande, sem dúvida, e todo-poderoso em dons, e admirável é o Espírito Santo. Considere quantos de vocês estão sentados aqui agora, quantas almas nossas estão presentes. Ele age de modo apropriado para cada um e, estando presente no meio, vê a disposição de cada um, vê também o seu raciocínio e a sua consciência, e o que dizemos, pensamos e cremos35. Grande, sem dúvida, é o que acabo de dizer, e no entanto é pequeno. Pois considere, peço, com a mente iluminada por ele, quantos cristãos há em toda esta diocese, e quantos em toda a província36 da Palestina; e leve o seu pensamento adiante, desta província a todo o Império Romano; e, depois disso, considere o mundo inteiro: raças de persas e nações de indianos, godos e sármatas, gauleses e hispanos, e mouros, líbios e etíopes, e os demais para os quais não temos nomes; pois de muitas das nações nem os nomes chegaram até nós. Considere, peço, de cada nação, bispos, presbíteros, diáconos, solitários, virgens e, além deles, os leigos; e então contemple o seu grande Protetor e o Distribuidor dos seus dons: como, pelo mundo inteiro, ele dá a um a castidade, a outro a virgindade perpétua, a outro a esmola, a outro a pobreza voluntária, a outro o poder de repelir os espíritos hostis. E, assim como a luz, com um só toque do seu brilho, derrama claridade sobre todas as coisas, assim também o Espírito Santo ilumina os que têm olhos; pois, se alguém, por cegueira, não é julgado digno da sua graça, não culpe o Espírito, mas a própria incredulidade.

23. Você viu o poder dele, que está no mundo inteiro; não se demore mais na terra, mas suba ao alto. Suba, digo, em imaginação, até o primeiro céu, e contemple ali tantas miríades incontáveis de anjos. Suba em pensamento, se puder, ainda mais alto; considere, peço, os arcanjos, considere também os espíritos; considere as virtudes, considere os principados, considere as potestades, considere os tronos, considere as dominações37: de todos esses o Consolador é, da parte de Deus, o Governante, o Mestre e o Santificador. Dele precisam Elias, Eliseu e Isaías, entre os homens; dele precisam Miguel e Gabriel, entre os anjos. Nada do que foi criado lhe é igual em honra: pois as famílias dos anjos e todas as suas hostes reunidas não têm igualdade com o Espírito Santo. A todos esses cobre com a sua sombra o poder excelentíssimo do Consolador. E eles, de fato, são “enviados para servir” (Hb 1.14), mas ele sonda até as profundezas de Deus, conforme diz o apóstolo: “Porque o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. Pois quem conhece as coisas do ser humano, a não ser o próprio espírito humano, que nele está? Assim, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus” (1Co 2.10-11).

24. Ele pregou acerca de Cristo nos profetas; agiu nos apóstolos; ele até hoje sela as almas no batismo. E o Pai dá ao Filho; e o Filho reparte com o Espírito Santo. Pois é o próprio Jesus, não eu, quem diz: “Tudo me foi entregue por meu Pai” (Mt 11.27); e do Espírito Santo ele diz: “Quando vier o Espírito da verdade”, e o resto… “Ele me glorificará, porque vai receber do que é meu e anunciará isso a vocês” (Jo 16.13-14). O Pai, por meio do Filho, com o Espírito Santo, é o doador de toda graça; os dons do Pai não são outros senão os do Filho e os do Espírito Santo; pois há uma só salvação, um só poder, uma só fé; um só Deus, o Pai; um só Senhor, o seu Filho unigênito; um só Espírito Santo, o Consolador. E nos basta saber essas coisas; mas não investigue com curiosidade a natureza ou a substância dele38: pois, se estivesse escrito, nós teríamos falado disso; o que não está escrito, não nos atrevamos a tratar; basta para a nossa salvação saber que há Pai, Filho e Espírito Santo.

25. Este Espírito desceu sobre os setenta anciãos nos dias de Moisés. (Ora, que a extensão do discurso, amados, não lhes cause cansaço; mas que ele, o próprio assunto do nosso discurso, dê força a cada um, tanto a nós que falamos como a vocês que ouvem!) Este Espírito, como eu dizia, desceu sobre os setenta anciãos no tempo de Moisés; e digo isso a você para provar agora que ele sabe todas as coisas e age “como quer” (1Co 12.11). Os setenta anciãos foram escolhidos; “e o Senhor desceu na nuvem, tirou do Espírito que estava sobre Moisés e o pôs sobre os setenta anciãos” (Nm 11.24-25)39; não que o Espírito tenha sido dividido, mas a sua graça foi distribuída na proporção dos vasos e da capacidade dos que a recebiam. Ora, estavam presentes sessenta e oito, e profetizaram; mas Eldade e Modade não estavam presentes: por isso, para que se mostrasse que não era Moisés quem concedia o dom, mas o Espírito quem agia, Eldade e Modade, que, embora chamados, ainda não tinham comparecido, também profetizaram40.

26. Josué, filho de Num, sucessor de Moisés, ficou espantado; foi até ele e disse: “Você ouviu que Eldade e Modade estão profetizando? Foram chamados e não vieram; ‘meu senhor Moisés, proíba-os’ (Nm 11.28).” “Não posso proibi-los”, diz ele, “pois esta graça vem do céu; ao contrário, longe de proibi-los, eu mesmo sou grato por ela. Não penso, porém, que você tenha dito isso por inveja; ‘você está com ciúmes por mim’, porque eles profetizam e você ainda não profetiza? Espere o tempo próprio; ‘e oxalá todo o povo do Senhor seja profeta, quando o Senhor der o seu Espírito sobre eles’ (Nm 11.29)!” Dizendo também isso profeticamente: “quando o Senhor der”; “pois até então ele ainda não o deu; por isso você ainda não o tem.” Não tinham então isso Abraão, Isaque, Jacó e José? E os antigos, não o tinham? Sim; mas as palavras “quando o Senhor der” significam evidentemente “der sobre todos; por enquanto a graça é parcial, então será dada com abundância”. E ele aludia em segredo ao que havia de acontecer entre nós no dia de Pentecostes; pois ele mesmo desceu entre nós. Mas antes também já tinha descido sobre muitos. Pois está escrito: “Josué, filho de Num, estava cheio do espírito de sabedoria, porque Moisés havia imposto as mãos sobre ele” (Dt 34.9). Você vê que a figura é sempre a mesma no Antigo e no Novo Testamento: nos dias de Moisés, o Espírito era dado pela imposição das mãos; e pela imposição das mãos também Pedro dá o Espírito (At 8.18). E também sobre você, que está para ser batizado, virá a graça dele; mas de que maneira não digo, pois não vou antecipar o tempo próprio.

27. Ele desceu também sobre todos os justos e profetas; quero dizer Enos, Enoque, Noé e os demais; sobre Abraão, Isaque e Jacó; pois, quanto a José, até Faraó percebeu que ele tinha dentro de si “o Espírito de Deus” (Gn 41.38). Quanto a Moisés e às obras maravilhosas realizadas pelo Espírito nos seus dias, você já ouviu muitas vezes. Este Espírito teve também Jó, aquele homem tão paciente, e todos os santos, ainda que não repitamos todos os seus nomes. Ele foi enviado também quando o tabernáculo estava sendo feito, e encheu de sabedoria os homens hábeis de coração que estavam com Bezalel (Êx 31.1-6; 36.1).

28. Na força deste Espírito, como lemos no livro de Juízes, Otniel julgou (Jz 3.10); Gideão se fortaleceu (Jz 6.34); Jefté venceu (Jz 11.29); Débora, uma mulher, fez guerra; e Sansão, enquanto agiu com retidão e não o entristeceu, realizou feitos acima da força humana. E, quanto a Samuel e Davi, temos claramente nos Livros dos Reinos como pelo Espírito Santo eles mesmos profetizaram e foram chefes dos profetas; e Samuel foi chamado “o vidente” (1Sm 9.9); e Davi diz expressamente: “O Espírito do Senhor falou por meio de mim” (2Sm 23.2); e nos Salmos: “E não me retires o teu Santo Espírito” (Sl 51.11); e ainda: “O teu bom Espírito me guiará na terra da retidão” (Sl 143.10). E, como lemos nas Crônicas, Azarias (2Cr 15.1), no tempo do rei Asa, e Jaaziel (2Cr 20.14), no tempo do rei Josafá, participaram do Espírito Santo; e ainda outro Azarias, aquele que foi apedrejado (2Cr 24.20-21). E Esdras diz: “E lhes concedeste o teu bom Espírito, para os ensinar” (Ne 9.20)41. Mas, quanto a Elias, que foi arrebatado, e a Eliseu, aqueles homens portadores do Espírito42 e operadores de prodígios, é evidente, sem que o digamos, que estavam cheios do Espírito Santo.

29. E, se alguém percorrer ainda todos os livros dos profetas, tanto dos Doze como dos outros, encontrará muitos testemunhos acerca do Espírito Santo; como quando Miqueias diz, na pessoa de Deus: “certamente aperfeiçoarei o poder pelo Espírito do Senhor” (Mq 3.8); e Joel clama: “E acontecerá depois disso”, diz Deus, “que derramarei o meu Espírito sobre toda carne” (Jl 2.28), e o resto; e Ageu: “Porque eu estou com vocês, diz o Senhor dos Exércitos” (Ag 2.4); e: “O meu Espírito habita no meio de vocês” (Ag 2.5); e do mesmo modo Zacarias: “Mas recebam as minhas palavras e os meus estatutos, que eu ordeno pelo meu Espírito aos meus servos, os profetas” (Zc 1.6); e outras passagens.

30. Também Isaías, com a sua voz majestosa, diz: “E o Espírito de Deus repousará sobre ele, o espírito de sabedoria e de entendimento, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de conhecimento e de piedade; e o Espírito do temor de Deus o encherá” (Is 11.2-3); mostrando que o Espírito é um e indiviso, mas as suas operações são variadas. Assim também: “Jacó, meu servo… pus sobre ele o meu Espírito” (Is 44.1; 42.1). E ainda: “Derramarei o meu Espírito sobre a sua posteridade” (Is 44.3); e ainda: “E agora o Senhor Todo-Poderoso e o seu Espírito me enviaram” (Is 48.16); e ainda: “Esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor: o meu Espírito, que está sobre você” (Is 59.21); e ainda: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu” (Is 61.1), e o resto; e ainda, na sua acusação contra os judeus: “Mas eles foram rebeldes e contristaram o seu Espírito Santo” (Is 63.10), e: “Onde está aquele que pôs dentro deles o seu Espírito Santo?” (Is 63.11). Você tem também em Ezequiel (se ainda não está cansado de ouvir) o que já foi citado: “E o Espírito caiu sobre mim e me disse: Fale: Assim diz o Senhor” (Ez 11.5). Mas as palavras “caiu sobre mim” devemos entendê-las em sentido bom, isto é, “com amor”; como Jacó, quando encontrou José, caiu sobre o pescoço dele; como também nos evangelhos o pai amoroso, ao ver o filho que voltara do seu desvio, “compadeceu-se dele, correu, caiu sobre o seu pescoço e o beijou” (Gn 46.29; Lc 15.20). E ainda em Ezequiel: “E ele me levou, numa visão pelo Espírito de Deus, à Caldeia, para junto dos exilados” (Ez 11.24). E outros textos você já ouviu antes, no que se disse sobre o batismo: “Então aspergirei água pura sobre vocês” (Ez 36.25)43, e o resto; “eu lhes darei um coração novo e porei dentro de vocês um espírito novo” (Ez 36.26); e logo em seguida: “Porei dentro de vocês o meu Espírito” (Ez 36.27). E ainda: “Veio sobre mim a mão do Senhor, e ele me levou pelo Espírito do Senhor” (Ez 37.1).

31. Ele dotou de sabedoria a alma de Daniel, para que, jovem como era, se tornasse juiz de anciãos. A casta Susana foi condenada como devassa; não havia ninguém para defender a sua causa; pois quem a livraria dos governantes? Foi levada à morte, já estava nas mãos dos executores. Mas o seu Ajudador estava perto, o Consolador, o Espírito que santifica toda natureza racional. Venha cá, diz ele a Daniel; embora você seja jovem, condene os velhos contaminados com os pecados da juventude; pois está escrito: “Deus suscitou o Espírito Santo sobre um rapazinho” (Dn 13.45); e assim (para passar adiante depressa), pela sentença de Daniel aquela senhora casta foi salva. Trazemos isso como testemunho; pois esta não é a ocasião de expor. Também Nabucodonosor sabia que o Espírito Santo estava em Daniel; pois lhe diz: “Ó Beltessazar, chefe dos magos, de quem sei que o Espírito Santo de Deus está em você” (Dn 4.9). Uma coisa ele disse com verdade, e outra com falsidade; pois que ele tinha o Espírito Santo era verdade, mas não era “chefe dos magos”, pois não era mago, mas sábio pelo Espírito Santo. E, antes disso, ele também lhe interpretou a visão da estátua, que o próprio rei, que a vira, não conhecia; pois ele diz: “Conte-me a visão que eu, que a vi, não conheço” (Dn 2.26, 31). Você vê o poder do Espírito Santo: aquilo que os que viram não conhecem, os que não viram conhecem e interpretam.

32. E, de fato, seria fácil reunir muitíssimos textos do Antigo Testamento e discorrer mais longamente acerca do Espírito Santo. Mas o tempo é curto; e devemos cuidar da extensão própria da catequese. Por isso, contentando-nos por ora com as passagens do Antigo Testamento, passaremos, se for do agrado de Deus, na próxima catequese, aos textos restantes do Novo Testamento. E que o Deus da paz, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo e por meio do amor do Espírito, torne todos vocês dignos dos seus dons espirituais e celestes: a ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

Notas

1. No fim desta seção segue-se, no manuscrito coisliniano, uma longa interpolação que consiste em duas partes. A primeira é um trecho tirado palavra por palavra de Gregório de Nissa, Oratio Catechetica, ii: All’ hos Theou Logon akousantes …. sundromon echousan te boulesei ten dunamin. Sobre a segunda passagem, diz o editor beneditino: “Não consegui descobrir quem é o autor. Ninguém pode atribuí-la ao nosso Cirilo, embora a doutrina que contém esteja em pleno acordo com a dele; mas ele explica todos esses mesmos pontos mais extensamente nas suas duas catequeses (XVI, XVII). A passagem é muito antiga e sem dúvida anterior ao século XI, que é a data do Cod. Coislin. Por isso, na controvérsia dos latinos contra os gregos a respeito da processão do Espírito Santo, importa notar o que se ensina nesta passagem, e que também é apresentado como testemunho por santo Tomás (de Aquino): “O Espírito Santo é da divindade do Pai e do Filho (ex Patris et Filii divinitate existere).” A mim, de fato, estas palavras parecem ter inteiramente o sabor não da teologia posterior, mas da mais antiga teologia dos gregos, e ser anteriores às controvérsias dos gregos contra os latinos.” Esta segunda passagem é a seguinte: “Pois o Espírito de Deus é bom. E o teu bom Espírito, diz Davi, me guiará na terra da justiça. Este é, pois, o Espírito de Deus em que cremos: o Espírito bendito, eterno, imutável, inalterável, inefável; que governa e reina sobre todo ser produzido, tanto as naturezas visíveis como as invisíveis; que é Senhor dos anjos e dos arcanjos, das potestades, dos principados, das dominações e dos tronos; o Criador de todo ser, entronizado com a glória do Pai e do Filho, reinando sem princípio e sem fim com o Pai e o Filho, antes das substâncias criadas; que santifica os espíritos ministradores enviados por causa dos que hão de herdar a salvação; que desceu sobre a santa e bem-aventurada Virgem Maria, da qual nasceu Cristo segundo a carne; que desceu também sobre o próprio Senhor, em forma corpórea de pomba, no rio Jordão; que veio sobre os apóstolos no dia de Pentecostes em forma de línguas de fogo; que dá e concede todos os dons espirituais na Igreja; que procede do Pai; que é da divindade do Pai e do Filho; que é da mesma substância que o Pai e o Filho, inseparável e indivisível.”

2. Cf. Catequese IV, 33; VII, 6. Irineu, Haer. III, xxi, 4; IV, ix, 1. Em Eusébio, H.E. V, 13, Ródon diz que Apeles atribuía as profecias a um espírito adverso e as rejeitava como falsas e contraditórias. Blasfêmias semelhantes contra os santos profetas são imputadas a Mani por Epifânio (Haer. LXVI, 30).

3. O mesmo texto é usado com muita força por são Basílio (De Spir. S. cap. xxiv).

4. Veja XI, 4. Veja as notas de Newman sobre Atanásio, Contra Arian. Or. I, viii, 1; Ib. Or. III, xxv, 9; Ib. xxvii, 3. A doutrina de Marcião sobre três primeiros princípios (trion archon logos) é discutida por Epifânio (Haer. XLII, 6, 7). Veja também Tertuliano, Contra Marcion. I, 15; Eusébio, Hist. Eccles. V, 13.

5. sunaloiphen; veja IV, 8; XI, 16; XV, 9.

6. Catequese XVII, 13. Epifânio (De Mensuris et Ponder. c. 14): “E ele (Adriano) encontrou a cidade toda arrasada até o chão, exceto algumas casas e a igreja de Deus, que era pequena, onde os discípulos, ao voltarem depois que o Salvador foi elevado do monte das Oliveiras, subiram ao cenáculo; pois ali ela havia sido construída, isto é, em Sião.” Cf. Stanley, Sinai and Palestine, c. XIV, 3: “Dentro do recinto daquela mesquita (do Túmulo de Davi) há uma sala gótica abobadada, que contém dentro das suas quatro paredes uma confluência maior de tradições do que qualquer outro lugar de dimensões semelhantes na Palestina. É surpreendente ouvir que este é o cenário da última ceia, do encontro depois da ressurreição, do milagre de Pentecostes, da residência e morte da Virgem, do sepultamento de Estêvão.”

7. Irineu é chamado “o intérprete” no mesmo sentido geral que outros autores eclesiásticos (Catequese XIII, 21; XV, 20), por causa dos seus frequentes comentários sobre as Escrituras. O título completo da sua obra era Refutação e subversão do falsamente chamado conhecimento (Eusébio, Hist. Eccles. V, c. 7). A expressão de Cirilo (en tois prostagmasi) é bastante apropriada ao propósito exortativo declarado por Irineu no seu prefácio. Mas o editor beneditino pensa que a palavra prostagmasi pode ser uma interpolação surgida das palavras seguintes, pros tas…. O sentido seria então “nos seus escritos Contra as heresias”, o título abreviado usual da obra.

8. Veja VI, 14.

9. Irineu (I, xxix, § 4; xxx, § 1).

10. Irineu, I, ii, §§ 5, 6.

11. Catequese VI, 25.

12. Catequese IV, 33. Veja § 4, acima.

13. Isto é, além de no Pai e no Filho.

14. Veja Dict. Christ. Biography, Marcion, p. 283; e Tertuliano (Adv. Marcion. IV, 6): “Todo o seu objetivo se concentra nisto: estabelecer uma diversidade entre o Antigo e o Novo Testamento, de modo que o seu próprio Cristo fique separado do Criador, como pertencente ao deus rival, e alheio à Lei e aos Profetas.”

15. Cf. § 4, acima.

16. Frígios, ou catafrígios (hoi kata phrugas), foi o nome dado aos seguidores do frígio Montano. Veja o relato sobre o montanismo em Eusébio, Hist. Eccl. V, xvi.

17. As acusações de luxúria e crueldade levantadas contra os montanistas por Cirilo e Epifânio (Haer. 48) parecem não se apoiar em nenhuma prova digna de confiança e não são mencionadas por Eusébio, inimigo ferrenho da seita.

18. Sobre Mani, veja VI, 20 e seguintes.

19. aktemosi. Cf. § 19: aktemonousi, e § 22: aktemosunen.

20. As palavras hagion pateron não se encontram nos mss. Mon. 1, Mon. 2, Vind., Roe, Casaub., nem em Grodecq. Quer se refiram, como pensa o editor beneditino, aos escritores do Antigo Testamento, quer a autores cristãos, são uma glosa evidente.

21. Citado mais extensamente no fim da seção.

22. Compare uma passagem semelhante sobre a chuva na Catequese IX, 9, 10.

23. Veja X, 11; XI, 1.

24. O Espírito Santo é mais do que palavras pronunciadas pela língua, mais até do que as próprias palavras de nosso Senhor, que ele chamou espírito.

25. Orígenes, De Principiis, I, § 2: “É costume da Santa Escritura, quando quer designar alguma coisa contrária a este corpo mais denso e sólido, chamá-la espírito.”

26. Neste contraste entre o espírito mau e o Espírito de Deus, a linguagem de Cirilo se eleva à verdadeira eloquência, superando em muito uma descrição um tanto semelhante, que talvez ele conhecesse, em Eusébio (Dem. Evang. V, 132).

27. Atribuído por Cirilo a Isaías.

28. Cf. Eusébio (Dem. Evang. VI, 13): “Em nosso próprio tempo vimos com os nossos olhos a Sião de antiga fama sendo lavrada pelos romanos com juntas de bois, e Jerusalém em estado de completa desolação, como diz o próprio oráculo, como choupana no pepinal. Assim como Cirilo viu naquele tempo cumprida a predição do profeta, também nós até o dia de hoje vemos com toda a clareza o cumprimento do oráculo divino, e Sião lavrada diante dos nossos olhos: pois, exceto a Igreja dos Apóstolos, com as casas que estão ao redor dela, e a casa de Caifás e os cemitérios, todo o espaço restante desta colina, situado fora da cidade, está sob o arado.” (Editor de Jerusalém).

29. oporophulakion é a cabana do vigia que guardava a colheita quando amadurecia para a ceifa. Sikuelaton é explicado por Basílio, no seu comentário a essa passagem de Isaías, como “lugar que produz frutos de crescimento rápido e perecíveis”. Isso concorda com o sentido etimológico da palavra, “canteiro de cultivo forçado de pepinos” (Hipócrates, apud Fritzsche, “Der Brief des Jeremia”, v. 70). Sobre a forma sikuerato, veja as notas sobre a Epístola de Jeremias no Speaker’s Commentary.

30. pastadas. Sobre o sentido de pastas, veja as notas a Heródoto II, 148, 169, em Bähr e em Rawlinson. Aqui parece significar o claustro ou a colunata que dava acesso à câmara nupcial, thalamos.

31. en palatiois.

32. Compare Procatequese, 9; Catequese XX, 3.

33. Compare o dito de Clemente de Alexandria (Quis dives salvetur? § 31): auton zetein tous eu peisomenous axious te ontas tou Soteros mathetas. O Editor de Jerusalém cita de Orígenes (Prólogo ao Cântico) uma passagem que Cirilo talvez conhecesse: “Este Consolador, portanto, anda por toda parte procurando se consegue descobrir algumas almas dignas e capazes de recebê-lo, às quais possa revelar a grandeza do amor que há em Deus.”

34. Marturesai, “dar testemunho pela morte”.

35. Os códices Monac., Vind., Roe e Casaub. acrescentam kai ti pisteuomen.

36. Os termos paroikia, a sé de um bispo, e eparchia, a província de um metropolita, foram ambos adotados das divisões correspondentes do Império Romano. Veja Bingham (Antt. livro IX, 1, §§ 2-6).

37. São Basílio (Sobre o Espírito Santo, cap. XVI, § 38), depois de citar a mesma passagem, Cl 1.16, prossegue: eite kuriotetes, kai ei tines eisin heterai logikai phuseis akatonomastoi. A última palavra mostra que Basílio tinha em mente esta passagem de Cirilo, que, depois dos nomes das nações no § 22, acrescenta kai tous loipous akatonomastous hemin.

38. Quanto à cautela com que são Cirilo fala aqui, devemos lembrar que a heresia de Macedônio ainda não tinha dado ocasião à discussão e à definição formal da “natureza e substância” do Espírito Santo.

39. “Modad” é a forma do nome na Septuaginta.

40. O livro apócrifo de Eldade e Modade é mencionado por Hermas (Pastor, Visão II, § 3). São Basílio (Livro sobre o Espírito Santo, cap. 61), referindo-se a Nm 11.26, diz que o Espírito repousou de modo permanente somente sobre Eldade e Modade.

41. Esdras e Neemias formam um só livro, “Esdras”, no cânon hebraico.

42. pneumatophoron, usado só duas vezes na Septuaginta (Os 9.7; Sf 3.4), e em sentido desfavorável. Com o uso que Cirilo faz da palavra, compare Teófilo (A Autólico II, 9): Theou anthropous pneumatophorous Pneumatos hagiou.

43. Veja Catequese III, 16.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.