Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XVIII
A ressurreição da carne, a Igreja católica e a vida eterna; e a recomendação final antes do batismo.
Ezequiel 37.1
Veio sobre mim a mão do Senhor, e ele me levou pelo Espírito do Senhor e me deixou no meio de um vale que estava cheio de ossos.
1. A raiz de todas as boas obras é a esperança da ressurreição; pois a expectativa da recompensa fortalece a alma para as boas obras. Todo trabalhador está pronto a suportar as fadigas se tem a recompensa em vista; mas, quando os homens se cansam por nada, logo lhes desfalece o coração junto com o corpo. O soldado que espera um prêmio está pronto para a guerra; mas ninguém se dispõe a morrer por um rei indiferente aos que servem sob as suas ordens, que não concede honra alguma às suas fadigas. Do mesmo modo, toda alma que crê na ressurreição cuida naturalmente de si mesma; mas, se não crê, entrega-se à perdição. Quem crê que o seu corpo permanecerá para ressuscitar cuida da sua veste e não a mancha com a fornicação; mas quem não crê na ressurreição entrega-se à fornicação e abusa do próprio corpo, como se não fosse seu. A fé na ressurreição dos mortos é, portanto, um grande mandamento e uma grande doutrina da santa Igreja católica; grande e muito necessária, embora contestada por muitos, mas seguramente garantida pela verdade. Os gregos a contradizem (At 17.32; 26.24), os samaritanos1 não creem nela, os hereges2 a mutilam; a contradição é múltipla, mas a verdade é uma só.
2. Ora, gregos e samaritanos argumentam juntos contra nós assim: o morto caiu, desfez-se em pó e virou todo vermes; e os vermes também morreram; tal é a decomposição e a destruição que alcançaram o corpo; como, então, há de ressuscitar? Os náufragos foram devorados pelos peixes, que por sua vez também foram devorados. Dos que lutam com as feras, até os ossos são reduzidos a pó e consumidos por ursos e leões. Abutres e corvos se alimentam da carne dos mortos sem sepultura e depois voam para todas as partes do mundo; de onde, então, se há de reunir o corpo? Pois das aves que o devoraram pode acontecer que umas morram na Índia, outras na Pérsia, outras na terra dos godos. Outros homens ainda são consumidos pelo fogo, e as suas próprias cinzas são espalhadas pela chuva ou pelo vento; de onde se há de juntar outra vez o corpo3?
3. Para você, pobre homenzinho fraco, a Índia está longe da terra dos godos, e a Espanha da Pérsia; mas para Deus, que tem toda a “terra na concha da sua mão” (Is 40.12), todas as coisas estão perto. Não atribua, então, fraqueza a Deus, comparando-o com a sua própria fraqueza; antes, considere o poder dele4. Pois então o sol, pequena obra de Deus, com um só lance dos seus raios aquece o mundo inteiro; o ar, que Deus fez, envolve todas as coisas do mundo; e Deus, que é o Criador tanto do sol como do ar, estaria longe do mundo? Imagine uma mistura de sementes de plantas diferentes (pois, como você é fraco na fé, os exemplos que apresento também são fracos), e que essas diferentes sementes estejam contidas na sua mão; é para você, que é homem, coisa difícil ou fácil separar o que está na sua mão e juntar cada semente segundo a sua natureza, restituindo-a à sua espécie? Você é capaz, então, de separar as coisas que estão na sua mão, e Deus não seria capaz de separar as coisas contidas na mão dele e restituí-las ao seu devido lugar? Considere o que digo: não é ímpio negá-lo?
4. Mas, além disso, atente, peço, para o próprio princípio da justiça, e venha ao seu próprio caso. Você tem servos de diversos tipos: uns bons e outros maus; honra, portanto, os bons e castiga os maus. E, se você é juiz, aos bons concede louvor, e aos transgressores, castigo. Então a justiça é observada por você, homem mortal, e em Deus, o Rei de todos, sempre imutável, não haveria justiça retributiva5? Não; negá-lo é ímpio. Pois considere o que digo. Muitos assassinos morreram em suas camas sem castigo; onde está, então, a justiça de Deus? Sim, muitas vezes um assassino culpado de cinquenta homicídios é decapitado uma só vez; onde, então, sofrerá o castigo pelos outros quarenta e nove? Se não há um juízo e uma retribuição depois deste mundo, você acusa Deus de injustiça. Não se admire, porém, da demora do juízo; nenhum lutador é coroado ou desonrado antes de terminar a disputa; e nenhum presidente dos jogos coroa os homens enquanto ainda estão lutando, mas espera até que todos os competidores terminem, para então, decidindo entre eles, distribuir os prêmios e as coroas6. Assim também Deus, enquanto dura a luta neste mundo, socorre os justos só em parte, mas depois lhes dará plenamente as suas recompensas.
5. Mas, se segundo você não há ressurreição dos mortos, por que você condena os violadores de sepulturas? Pois, se o corpo perece e não há ressurreição a esperar, por que o violador do túmulo sofre castigo? Você vê que, embora o negue com os lábios, permanece em você um instinto indestrutível da ressurreição.
6. Além disso, uma árvore, depois de cortada, floresce de novo, e o homem, depois de cortado, não florescerá mais? E o trigo semeado e colhido fica guardado para a eira, e o homem, ceifado deste mundo, não ficará guardado para a debulha? E os brotos da videira ou de outras árvores, cortados rente e transplantados, revivem e dão fruto; e o homem, por causa de quem tudo isso existe, cairá na terra e não ressuscitará? Comparando os esforços, o que é maior: modelar desde o princípio uma estátua que não existia, ou fundir de novo na mesma forma a que tinha caído? Deus, então, que nos criou do nada, não seria capaz de ressuscitar os que existem e caíram7? Mas você, sendo grego, não crê no que está escrito sobre a ressurreição; então considere estas coisas pela analogia da natureza e compreenda-as pelo que se vê até hoje. Semeia-se, por exemplo, o trigo ou algum outro tipo de grão; e, quando a semente cai, morre e apodrece, e daí em diante não serve mais para alimento. Mas aquilo que apodreceu brota verdejante; e, embora pequeno quando semeado, brota belíssimo. Ora, o trigo foi feito para nós; pois o trigo e todas as sementes foram criados não para si mesmos, mas para o nosso uso; então as coisas que foram feitas para nós são vivificadas quando morrem, e nós, para quem foram feitas, não ressuscitaremos depois da nossa morte8?
7. A estação é o inverno9, como você vê; as árvores estão agora como se estivessem mortas: pois onde estão as folhas da figueira? Onde estão os cachos da videira? No inverno estão mortos, mas na primavera verdejam; e, chegada a estação, é-lhes restituída uma vivificação como que de um estado de morte. Pois Deus, conhecendo a sua incredulidade, opera ano após ano uma ressurreição nestas coisas visíveis, para que, vendo o que acontece com as coisas inanimadas, você creia a respeito das coisas animadas e racionais. Além disso, moscas e abelhas muitas vezes se afogam na água e, depois de algum tempo, revivem10; e certas espécies de arganazes11, depois de ficarem imóveis durante o inverno, voltam à vida no verão (pois aos seus pensamentos pequenos se oferecem exemplos semelhantes); e aquele que concede vida, acima da natureza, a criaturas irracionais e desprezadas não a concederá a nós, por causa de quem as fez?
8. Mas os gregos pedem uma ressurreição dos mortos ainda mais manifesta; e dizem que, mesmo que essas criaturas revivam, não se tinham desfeito por completo; e exigem ver claramente alguma criatura ressuscitar depois de completa decomposição. Deus conhecia a incredulidade dos homens e providenciou para esse fim uma ave chamada fênix12. Esta ave, como escreve Clemente e como contam muitos outros, sendo a única da sua espécie13, chega à terra dos egípcios a intervalos de quinhentos anos, mostrando a ressurreição, não em lugares desertos, para que o acontecimento do mistério não ficasse desconhecido, mas aparecendo numa cidade notável14, para que os homens pudessem até tocar com as mãos o que de outro modo não se creria. Pois ela faz para si um ataúde15 de incenso, mirra e outras especiarias e, entrando nele quando se completam os seus anos, morre visivelmente e se decompõe. Então, da carne decomposta da ave morta gera-se um verme, e esse verme, depois de crescido, transforma-se numa ave. E não duvide disso, pois você vê também a cria das abelhas formada assim a partir de vermes16, e de ovos que são inteiramente líquidos você já viu sair asas, ossos e tendões de aves. Depois, a referida fênix, cobrindo-se de penas e tornando-se uma fênix adulta, igual à anterior, eleva-se no ar tal como era quando morreu, mostrando aos homens uma ressurreição dos mortos evidentíssima. A fênix é, de fato, uma ave maravilhosa, mas é irracional e nunca cantou louvores a Deus; voa pelo céu, mas não sabe quem é o Filho unigênito de Deus. Foi dada, então, uma ressurreição dentre os mortos a esta criatura irracional, que não conhece o seu Criador, e a nós, que damos glória a Deus e guardamos os seus mandamentos, não será concedida ressurreição alguma?
9. Mas, como o sinal da fênix é remoto e incomum, e os homens ainda não creem na nossa ressurreição, tome de novo a prova disto naquilo que você vê todos os dias. Cem ou duzentos anos atrás, todos nós, os que falam e os que ouvem, onde estávamos? Não conhecemos o fundamento da substância dos nossos corpos? Você não sabe de que elementos fracos, informes e simples17 somos gerados, e como daquilo que é simples e fraco se forma um homem vivo? E como aquele elemento fraco, feito carne, se transforma em tendões fortes, olhos brilhantes, nariz sensível, ouvidos que ouvem, língua que fala, coração que pulsa, mãos ativas, pés velozes e membros de toda espécie18? E como aquele elemento outrora fraco se torna construtor de navios, pedreiro, arquiteto, artesão de várias artes, soldado, governante, legislador e rei? Deus, então, que nos fez de materiais imperfeitos, não pode nos ressuscitar quando tivermos caído em decomposição? Aquele que assim forma um corpo do que é vil não pode ressuscitar de novo o corpo caído? E aquele que forma o que não existe não ressuscitará o que existe e caiu?
10. Tome ainda uma prova manifesta da ressurreição dos mortos, testemunhada mês após mês no céu e nos seus luzeiros19. O corpo da lua desaparece por completo, de modo que nenhuma parte dela se vê mais; e, no entanto, enche-se de novo e é restituída ao seu estado anterior20; e, para demonstração perfeita da questão, a lua, em certas revoluções dos anos, sofrendo eclipse e transformando-se visivelmente em sangue, recupera mesmo assim o seu corpo luminoso: Deus providenciou isso para que também você, homem formado de sangue, não recuse crer na ressurreição dos mortos, mas creia a respeito de si mesmo o que vê acontecer com a lua. Use, portanto, estes argumentos contra os gregos; pois, com os que não recebem o que está escrito, lute com armas não escritas, só com raciocínios e demonstrações; porque esses homens não sabem quem é Moisés, nem Isaías, nem os Evangelhos, nem Paulo.
11. Volte-se agora para os samaritanos, que, recebendo só a Lei, não admitem os Profetas. Para eles, o texto de Ezequiel lido há pouco parece sem força, pois, como eu disse, não admitem Profeta algum; de onde, então, persuadiremos também os samaritanos? Vamos aos escritos da Lei. Ora, Deus diz a Moisés: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (Êx 3.6)21; isto há de significar daqueles que têm existência e subsistência. Pois, se Abraão chegou ao fim, e Isaque e Jacó também, então ele é o Deus dos que não existem. Quando foi que um rei disse: Eu sou o rei dos soldados, se não os tinha? Quando foi que alguém exibiu riquezas que não possuía? Portanto, Abraão, Isaque e Jacó têm de subsistir, para que Deus seja o Deus dos que existem; pois ele não disse: “Eu era o Deus deles”, mas: “Eu sou”. E que há um juízo, Abraão o mostra ao dizer ao Senhor: “Será que o Juiz de toda a terra não faria justiça?” (Gn 18.25).
12. Mas a isso os insensatos samaritanos objetam de novo, dizendo que as almas de Abraão, Isaque e Jacó talvez continuem, mas que os seus corpos não podem de modo algum ressuscitar. Foi então possível que a vara do justo Moisés se tornasse serpente, e é impossível que os corpos dos justos vivam e ressuscitem? E aquilo foi feito contra a natureza, e eles não serão restaurados segundo a natureza? Também a vara de Arão, embora cortada e morta, brotou “sem o cheiro das águas” (Jó 14.9) e, embora debaixo de um teto, rebentou em flores como nos campos; e, embora posta em lugar seco, produziu numa só noite as flores e os frutos de plantas regadas por muitos anos. A vara de Arão ressuscitou, por assim dizer, dentre os mortos, e o próprio Arão não será ressuscitado? E Deus fez maravilhas na madeira para lhe garantir o sumo sacerdócio, e não concederá a ressurreição ao próprio Arão? Também uma mulher foi transformada em sal, contra a natureza; e a carne foi convertida em sal; e a carne não será restituída à carne? A mulher de Ló foi feita estátua de sal, e a mulher de Abraão não será ressuscitada? Por que poder foi transformada a mão de Moisés, que no espaço de uma só hora ficou branca como a neve e foi restaurada de novo? Certamente pela ordem de Deus. A sua ordem teve força naquele tempo e agora não tem força?
13. E de onde, no princípio, veio o homem a existir, ó samaritanos, os mais insensatos de todos os homens? Vão ao primeiro livro da Escritura, que até vocês recebem: “E Deus formou o homem do pó da terra” (Gn 2.7). O pó se transforma em carne, e a carne não será restituída de novo à carne? Também é preciso perguntar a vocês: de onde os céus tiveram a sua existência, e a terra, e os mares? De onde o sol, a lua e as estrelas? Como das águas foram feitos os seres que voam e os que nadam? E como da terra todos os seus seres vivos? Tantas miríades foram trazidas do nada à existência, e nós, homens, que trazemos a imagem de Deus, não seremos ressuscitados? Verdadeiramente, esse caminho está cheio de incredulidade, e os incrédulos são muito dignos de condenação: quando Abraão se dirige ao Senhor como “Juiz de toda a terra”, os que aprendem a Lei não creem; quando está escrito que o homem é da terra, os que o leem não o creem22.
14. Essas questões são, portanto, para eles, os incrédulos; mas as palavras dos Profetas são para nós, que cremos. Mas, como alguns que também fizeram uso dos Profetas não creem no que está escrito e alegam contra nós aquela passagem: “Os ímpios não se levantarão no juízo” (Sl 1.5)23, e: “Pois, se alguém desce à sepultura, jamais voltará a subir” (Jó 7.9), e: “Os mortos não te louvarão, ó Senhor” (Sl 115.17), pois do que foi bem escrito fizeram mau uso, será bom, de passagem e na medida do possível agora, responder-lhes. Se se diz que “os ímpios não se levantarão no juízo”, isso mostra que se levantarão, não para o juízo, mas para a condenação; pois Deus não precisa de longo exame, mas logo após a ressurreição dos ímpios vem também o seu castigo. E, se se diz: “Os mortos não te louvarão, ó Senhor”, isso mostra que, sendo só nesta vida o tempo marcado para o arrependimento e o perdão, pelo qual os que o desfrutam “louvarão o Senhor”, não resta depois da morte, aos que morreram em pecados, louvar como quem recebe um benefício, mas lamentar-se; pois o louvor pertence aos que dão graças, mas aos que estão sob o açoite, a lamentação. Por isso, os justos então oferecem louvor; mas os que morreram em pecados já não têm tempo para a confissão24.
15. E, a respeito daquela passagem: “Se alguém desce à sepultura, jamais voltará a subir”, observe o que vem a seguir, pois está escrito: “Jamais voltará a subir. Nunca mais voltará para a sua casa” (Jó 7.9-10). Pois, como o mundo inteiro passará e toda casa será destruída, como voltará ele para a sua casa, havendo dali em diante uma terra nova e diferente? Mas deveriam ter ouvido Jó, que diz: “Porque há esperança para a árvore, pois, mesmo cortada, voltará a brotar, e não cessarão os seus rebentos. Ainda que as suas raízes envelheçam na terra, e o seu tronco morra no chão pedregoso, ao cheiro das águas brotará e dará fruto como a planta nova. Mas o homem, quando morre, se vai; e, quando o mortal cai, já não existe?” (Jó 14.7-10). Como que protestando e repreendendo (pois é assim que devemos ler as palavras “já não existe”, com interrogação25), ele diz: se a árvore cai e revive, o homem, para quem todas as árvores foram feitas, não reviverá ele mesmo? E, para que você não suponha que estou forçando as palavras, leia o que vem a seguir; pois, depois de dizer em forma de pergunta: “Quando o mortal cai, já não existe?”, ele diz: “Pois, se o homem morrer, viverá de novo” (Jó 14.14)26; e logo acrescenta: “Esperarei até que eu seja feito de novo” (Jó 14.14)27; e de novo em outro lugar: “Quem levantará sobre a terra a minha pele, que suporta estas coisas?” (Jó 19.26)28. E o profeta Isaías diz: “Os mortos ressuscitarão, e os que estão nos sepulcros despertarão” (Is 26.19). E o profeta Ezequiel, que temos agora diante de nós, diz com toda a clareza: “Eis que abrirei as sepulturas de vocês e os farei sair delas” (Ez 37.12). E Daniel diz: “Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para a vergonha eterna” (Dn 12.2).
16. E há muitas Escrituras que testemunham a ressurreição dos mortos; pois há muitas outras palavras sobre esse assunto. Mas agora, só a modo de lembrança, faremos uma menção de passagem à ressurreição de Lázaro no quarto dia; e apenas aludiremos, por causa da brevidade do tempo, ao filho da viúva, que também foi ressuscitado; e, só para lembrar a vocês, mencionarei a filha do chefe da sinagoga, as rochas que se partiram e como “ressuscitaram muitos corpos de santos que dormiam” (Mt 27.52), abertos os seus túmulos. Mas lembremos especialmente que “Cristo ressuscitou dentre os mortos” (1Co 15.20). Falo só de passagem de Elias e do filho da viúva que ele ressuscitou; e também de Eliseu, que ressuscitou mortos duas vezes: uma em vida e outra depois da sua morte. Pois, quando vivo, operou a ressurreição por meio da sua própria alma (2Rs 4.34); mas, para que não fossem honradas só as almas dos justos, mas se cresse que também nos corpos dos justos reside um poder, o cadáver que foi lançado no sepulcro de Eliseu, ao tocar o corpo morto do profeta, foi vivificado; e o corpo morto do profeta fez a obra da alma, e aquilo que estava morto e sepultado deu vida ao morto e, embora desse vida, continuou ele mesmo entre os mortos. Por quê? Para que, se Eliseu ressuscitasse, a obra não fosse atribuída só à sua alma; e para mostrar que, mesmo sem a presença da alma, reside uma virtude no corpo dos santos, por causa da alma justa que por tantos anos habitou nele e o usou como seu ministro29. E não sejamos tolos a ponto de não crer, como se isto não tivesse acontecido; pois, se lenços e aventais, que vêm de fora, ao tocarem os corpos dos doentes, levantaram os enfermos, quanto mais o próprio corpo do profeta deveria ressuscitar os mortos?
17. Sobre esses exemplos poderíamos dizer muito, relatando em detalhe as circunstâncias maravilhosas de cada acontecimento; mas, como vocês já estão cansados tanto pelo jejum superposto da Preparação30 como pelas vigílias31, baste por ora o que foi dito de passagem sobre eles; estas palavras foram como que semeadas de modo esparso, para que vocês, recebendo a semente como terra riquíssima, a multipliquem dando fruto. Mas lembrem-se de que também os apóstolos ressuscitaram mortos: Pedro ressuscitou Tabita em Jope, e Paulo ressuscitou Êutico em Trôade; e assim fizeram todos os outros apóstolos, ainda que os prodígios realizados por cada um não tenham sido todos escritos. Lembrem-se, além disso, de todas as palavras da primeira Epístola aos Coríntios, que Paulo escreveu contra os que diziam: “Como é que os mortos ressuscitam? E com que corpo virão?” (1Co 15.35). E de como ele diz: “Porque, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou” (1Co 15.16); e de como chamou “insensatos” (1Co 15.36) os que não criam; e lembrem-se de todo o seu ensino ali a respeito da ressurreição dos mortos, e de como escreveu aos tessalonicenses: “Irmãos, não queremos que vocês ignorem a verdade a respeito dos que dormem, para que não fiquem tristes como os demais, que não têm esperança” (1Ts 4.13), e tudo o que se segue; mas sobretudo aquilo: “E os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro” (1Ts 4.16).
18. Mas observem sobretudo isto: com que precisão32 Paulo diz: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade” (1Co 15.53). Pois este corpo ressuscitará, não permanecendo fraco como agora; mas ressuscitará o mesmíssimo corpo, ainda que, revestindo-se da incorruptibilidade, será transformado33, como o ferro que, unindo-se ao fogo, se torna fogo, ou antes, como sabe aquele que nos ressuscita, o Senhor. Este corpo, portanto, ressuscitará, mas não permanecerá tal como é agora, e sim um corpo eterno; já não precisará, para a sua vida, de alimento como agora, nem de escadas para subir, pois será feito espiritual, coisa maravilhosa, da qual não somos capazes de falar dignamente. “Então”, como está dito, “os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13.43), e a lua, “e como o fulgor do firmamento” (Dn 12.3). E Deus, prevendo a incredulidade dos homens, concedeu a pequenos vermes, no verão, lançar raios de luz do seu corpo34, para que, a partir do que se vê, se creia naquilo que se espera; pois quem dá em parte é capaz de dar também o todo, e quem fez o verme resplandecer de luz iluminará muito mais o homem justo.
19. Ressuscitaremos, portanto, todos com corpos eternos, mas não todos com corpos semelhantes: pois, se alguém é justo, receberá um corpo celestial, para que possa conversar dignamente com os anjos; mas, se alguém é pecador, receberá um corpo eterno, apto a suportar as penas dos pecados, para que arda eternamente no fogo sem jamais ser consumido35. E com justiça Deus atribuirá essa porção a cada um dos dois grupos; pois nada fazemos sem o corpo. Com a boca blasfemamos, e com a boca oramos. Com o corpo cometemos fornicação, e com o corpo guardamos a castidade. Com a mão roubamos, e com a mão damos esmolas; e assim por diante. Já que o corpo foi o nosso servidor em todas as coisas, ele também partilhará conosco, no futuro, os frutos do passado36.
20. Portanto, irmãos, cuidemos dos nossos corpos e não abusemos deles como se não fossem nossos. Não digamos, como os hereges, que esta veste do corpo não nos pertence; mas cuidemos dela como nossa, pois teremos de prestar contas ao Senhor de todas as coisas feitas por meio do corpo. Não diga: Ninguém me vê; não pense que não há testemunha do ato. Muitas vezes não há testemunha humana; mas aquele que nos formou, “testemunha” infalível, permanece “fiel no céu” (Sl 89.37) e vê o que você faz. E as manchas do pecado também permanecem no corpo; pois, como quando uma ferida penetrou fundo no corpo, ainda que tenha havido cura, a cicatriz permanece, assim o pecado fere a alma e o corpo, e as marcas das suas cicatrizes permanecem em todos; e só são removidas dos que recebem o banho do batismo. As feridas passadas da alma e do corpo, portanto, Deus as cura pelo batismo; contra as futuras guardemo-nos todos juntos, para que conservemos pura esta veste do corpo e não percamos a salvação do céu por praticar a fornicação e a sensualidade, ou qualquer outro pecado, por um breve tempo, mas herdemos o reino eterno de Deus; do qual Deus, por sua própria graça, torne dignos todos vocês.
21. Isso basta como prova da ressurreição dos mortos; e agora deixem-me recitar-lhes de novo a profissão da fé, e vocês, com toda a diligência, pronunciem-na enquanto eu falo37, e guardem-na na memória.
22. A fé que recitamos contém, em ordem, o seguinte: “E num só batismo de arrependimento para a remissão dos pecados; e numa só santa Igreja católica; e na ressurreição da carne; e na vida eterna.” Ora, sobre o batismo e o arrependimento falei nas primeiras catequeses; e as minhas observações presentes sobre a ressurreição dos mortos foram feitas em referência ao artigo “Na ressurreição da carne”. Agora, então, deixem-me completar o que ainda resta a dizer sobre o artigo “Numa só santa Igreja católica”, sobre o qual, embora se pudesse dizer muitas coisas, falaremos apenas brevemente.
23. Ela é chamada católica, então, porque se estende por todo o mundo, de uma extremidade à outra da terra; e porque ensina universalmente e completamente todas as doutrinas, sem exceção, que devem chegar ao conhecimento dos homens, a respeito das coisas visíveis e invisíveis, celestiais e terrenas38; e porque submete à piedade todo o gênero humano, governantes e governados, instruídos e iletrados; e porque trata e cura universalmente todo tipo de pecado cometido pela alma ou pelo corpo, e possui em si toda forma de virtude que se possa nomear, tanto em obras como em palavras, e em toda espécie de dons espirituais.
24. E ela é com razão chamada Igreja (Ecclesia), porque convoca39 e reúne todos os homens, conforme o Senhor diz no Levítico: “E reúna em assembleia toda a congregação à porta da tenda do testemunho” (Lv 8.3)40. E é de notar que a palavra “reunir em assembleia” é usada pela primeira vez nas Escrituras aqui, no tempo em que o Senhor institui Arão no sumo sacerdócio. E no Deuteronômio também o Senhor diz a Moisés: “Reúna o povo diante de mim, e que ouçam as minhas palavras, a fim de que aprendam a temer-me” (Dt 4.10). E ele menciona de novo o nome da Igreja quando diz, a respeito das tábuas: “E nelas estavam escritas todas as palavras que o Senhor falou com vocês no monte, do meio do fogo, no dia da assembleia” (Dt 9.10)41; como se dissesse mais claramente: no dia em que vocês foram chamados e reunidos por Deus. Também o salmista diz: “Renderei graças a ti, Senhor, na grande congregação; eu te louvarei no meio de muito povo” (Sl 35.18; Hb 2.12).
25. Antigamente o salmista cantava: “Bendigam a Deus nas congregações, o Senhor, (vocês que são) das fontes de Israel” (Sl 68.26)42. Mas, depois que os judeus, pelas conspirações que tramaram contra o Salvador, foram rejeitados da sua graça, o Salvador edificou dentre os gentios uma segunda Igreja santa, a Igreja de nós, cristãos, a respeito da qual disse a Pedro: “E sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). E Davi, profetizando sobre ambas, disse claramente da primeira, que foi rejeitada: “Detesto a assembleia dos malfeitores” (Sl 26.5); mas da segunda, que é edificada, diz no mesmo salmo: “Senhor, eu amo a beleza da tua casa” (Sl 26.8)43; e logo depois: “Nas congregações te bendirei, Senhor” (Sl 26.12). Pois agora que a única Igreja da Judeia foi rejeitada, as Igrejas de Cristo se multiplicam por todo o mundo; e delas se diz nos Salmos: “Cantem ao Senhor um cântico novo; cantem o seu louvor na assembleia dos santos” (Sl 149.1). De acordo com isso, também o profeta disse aos judeus: “Eu não tenho prazer em vocês, diz o Senhor Todo-Poderoso” (Ml 1.10); e logo depois: “Pois desde o nascente do sol até o poente, o meu nome é glorificado entre as nações” (Ml 1.11). A respeito desta santa Igreja católica, Paulo escreve a Timóteo: “Para que você saiba como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” (1Tm 3.15).
26. Mas, como a palavra Ecclesia se aplica a coisas diferentes (como também está escrito a respeito da multidão no teatro dos efésios: “E, havendo dito isto, dissolveu a assembleia” (At 19.41)), e como se poderia dizer com propriedade e verdade que existe uma Igreja dos malfeitores, quero dizer, as reuniões dos hereges, marcionitas, maniqueus e os demais, por isso a fé agora lhe entregou com segurança o artigo “E numa só santa Igreja católica”, para que você evite as reuniões miseráveis deles e permaneça sempre com a santa Igreja católica, na qual você foi regenerado. E, se alguma vez estiver de passagem por cidades, não pergunte simplesmente onde é a casa do Senhor (pois também as outras seitas dos profanos tentam chamar os seus próprios antros de casas do Senhor), nem apenas onde é a igreja, mas onde é a Igreja católica. Pois este é o nome próprio desta santa Igreja, mãe de todos nós, que é a esposa de nosso Senhor Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus (pois está escrito: “Como também Cristo amou a igreja e se entregou por ela” (Ef 5.25), e todo o resto), e é figura e cópia da “Jerusalém lá de cima, que é livre e é a mãe de todos nós” (Gl 4.26); a qual antes era estéril, mas agora tem muitos filhos.
27. Pois, quando a primeira Igreja foi rejeitada, na segunda, que é a Igreja católica, Deus “estabeleceu”, como diz Paulo, “primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedade de línguas” (1Co 12.28), e toda espécie de virtude, quero dizer, sabedoria e entendimento, temperança e justiça, misericórdia e bondade, e paciência invencível nas perseguições. Ela, “pelas armas da justiça à direita e à esquerda, por honra e por desonra” (2Co 6.7-8), em dias passados, em meio a perseguições e tribulações, coroou os santos mártires com as coroas variadas e floridas da paciência; e agora, em tempos de paz, pela graça de Deus, recebe as honras que lhe são devidas dos “reis e dos que estão em posição de autoridade” (1Tm 2.2), e de toda espécie e linhagem de homens. E, enquanto os reis de cada nação têm limites postos à sua autoridade, somente a santa Igreja católica estende o seu poder sem limite sobre o mundo inteiro; pois “Deus”, como está escrito, “estabeleceu a paz em seu território” (Sl 147.14). Mas eu precisaria de muitas horas mais para o meu discurso, se quisesse falar de todas as coisas que lhe dizem respeito.
28. Recebendo instrução nesta santa Igreja católica e procedendo de modo virtuoso, alcançaremos o reino dos céus e herdaremos a vida eterna; pela qual também suportamos todas as fadigas, para que sejamos feitos participantes dela da parte do Senhor. Pois o nosso alvo não é coisa pequena, mas o nosso esforço é pela vida eterna. Por isso, na profissão da fé, depois das palavras “E na ressurreição da carne”, isto é, dos mortos (sobre a qual discorremos), somos ensinados a crer também “na vida eterna”, pela qual, como cristãos, estamos lutando.
29. A vida real e verdadeira, então, é o Pai, que, por meio do Filho, no Espírito Santo, derrama como de uma fonte os seus dons celestiais sobre todos; e, pelo seu amor aos homens, as bênçãos da vida eterna são prometidas sem falta também a nós, homens. Não devemos duvidar de que isso seja possível, mas, olhando não para a nossa fraqueza e sim para o poder dele, devemos crer; pois “para Deus todas as coisas são possíveis” (Mt 19.26). E que isso é possível, e que podemos esperar a vida eterna, Daniel declara: “E dentre os muitos justos, brilharão como as estrelas para todo o sempre” (Dn 12.3). E Paulo diz: “E, assim, estaremos para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17); pois “estar para sempre com o Senhor” implica a vida eterna. Mas, mais claramente que todos, o próprio Salvador diz no Evangelho: “E estes irão para o castigo eterno, porém os justos irão para a vida eterna” (Mt 25.46).
30. E muitas são as provas a respeito da vida eterna. E, quando desejamos alcançar essa vida eterna, as Sagradas Escrituras nos indicam os caminhos para alcançá-la; deles, por causa da extensão do nosso discurso, os textos que agora lhes apresentamos serão poucos, ficando os demais para a investigação dos diligentes. Elas declaram, às vezes, que é pela fé; pois está escrito: “Quem crê no Filho tem a vida eterna” (Jo 3.36), e o que se segue; e de novo ele mesmo diz: “Em verdade, em verdade lhes digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna” (Jo 5.24), e o resto. Outras vezes, é pela pregação do evangelho; pois ele diz: “Quem colhe recebe a recompensa e ajunta o seu fruto para a vida eterna” (Jo 4.36). Outras vezes, pelo martírio e pela confissão no nome de Cristo; pois ele diz: “E aquele que odeia a sua vida neste mundo irá preservá-la para a vida eterna” (Jo 12.25). E ainda, por preferir Cristo às riquezas ou aos parentes: “E todo aquele que tiver deixado irmãos ou irmãs” (Mt 19.29), e o resto, “herdará a vida eterna”. Além disso, é por guardar os mandamentos: “Não cometa adultério, não mate” (Mt 19.16-18), e os demais que se seguem; como ele respondeu àquele que veio a ele e disse: “Bom Mestre, que farei para ter a vida eterna?” (Mc 10.17). E mais, é por afastar-se das más obras e, daí em diante, servir a Deus; pois Paulo diz: “Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, o fruto que vocês colhem é para a santificação, e o fim é a vida eterna” (Rm 6.22).
31. E os caminhos para encontrar a vida eterna são muitos, embora eu os tenha deixado de lado por causa do seu número. Pois o Senhor, na sua bondade, abriu não uma ou duas portas apenas, mas muitas, pelas quais se entra na vida eterna, para que, no que dependesse dele, todos pudessem desfrutá-la sem impedimento. Isso é o que, por ora, dissemos em resumo a respeito da vida eterna, que é a última das doutrinas professadas na fé, e o seu termo; vida da qual possamos todos, mestres e ouvintes, desfrutar pela graça de Deus!
32. E agora, amados irmãos, a palavra de instrução exorta todos vocês a preparar as suas almas para a recepção dos dons celestiais. Quanto à santa e apostólica fé que lhes foi entregue para professar, fizemos, pela graça do Senhor, tantas catequeses quantas foi possível nestes dias passados da Quaresma; não que isso seja tudo o que deveríamos ter dito, pois muitos são os pontos omitidos; e esses talvez sejam mais bem pensados por mestres mais excelentes. Mas agora está próximo o santo dia da Páscoa, e vocês, amados44 em Cristo, vão ser iluminados “pelo banho da regeneração” (Tt 3.5). Vocês serão, portanto, ensinados de novo no que for necessário, se Deus quiser: com quanta devoção e ordem devem entrar quando forem chamados, para que fim é realizado cada um dos santos mistérios do batismo, e com que reverência e ordem devem ir do batismo ao santo altar de Deus e desfrutar dos seus mistérios espirituais e celestiais; para que as suas almas, iluminadas antes pela palavra da doutrina, descubram em cada detalhe a grandeza dos dons que Deus lhes concedeu.
33. E, depois do santo dia de salvação da Páscoa, vocês virão em cada dia seguido, começando pelo segundo dia da semana, depois da reunião, ao lugar santo da Ressurreição45, e ali, se Deus permitir, ouvirão outras catequeses; nelas serão ensinados de novo as razões de tudo o que foi feito, e receberão as provas disso do Antigo e do Novo Testamento: primeiro, das coisas feitas imediatamente antes do batismo; depois, de como vocês foram purificados dos seus pecados pelo Senhor, “por meio da lavagem de água pela palavra” (Ef 5.26); e de como, à semelhança de sacerdotes, vocês se tornaram participantes do nome de Cristo; e de como lhes foi dado o selo da comunhão do Espírito Santo; e a respeito dos mistérios do altar da Nova Aliança, que tiveram o seu princípio neste lugar, tanto o que as divinas Escrituras nos transmitiram, como qual é o poder desses mistérios, e como vocês devem se aproximar deles, e quando e como recebê-los; e, no fim de tudo, como, daqui em diante, devem se comportar de modo digno desta graça, tanto em palavras como em obras, para que todos possam desfrutar da vida eterna. E estas coisas serão ditas, se for do agrado de Deus.
34. “Finalmente, meus irmãos, alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se”, porque “a redenção de vocês se aproxima” (Fp 3.1; 4.4; Lc 21.28), e o exército celestial dos anjos aguarda a salvação de vocês. E agora há “a voz do que clama no deserto: Preparem o caminho do Senhor” (Is 40.3); e o profeta clama: “Ah! Todos vocês que têm sede, venham às águas” (Is 55.1); e logo depois: “Ouçam-me, e comerão o que é bom, e a alma de vocês se deleitará com coisas boas” (Is 55.2). E dentro de pouco tempo vocês ouvirão aquela excelente leitura que diz: “Resplandeça, resplandeça, ó nova Jerusalém, porque a sua luz já veio” (Is 60.1). Desta Jerusalém o profeta disse: “E depois disso você será chamada cidade da justiça, Sião, a mãe fiel das cidades” (Is 1.26); “por causa da lei que saiu de Sião, e da palavra do Senhor, de Jerusalém” (Is 2.3), palavra que daqui foi derramada como chuva sobre o mundo inteiro. A ela também o profeta diz a respeito de vocês: “Levante os olhos ao redor e veja os seus filhos reunidos” (Is 49.18); e ela responde, dizendo: “Quem são estes que voam como uma nuvem, e como pombas com os seus filhotes, até mim?” (Is 60.8) (nuvens, por causa da sua natureza espiritual, e pombas, por causa da sua pureza). E ainda ela diz: “Quem conhece coisas assim? Ou quem viu algo assim? Será que uma terra deu à luz num só dia? Ou será que uma nação nasceu de uma só vez? Pois, logo que Sião sentiu as dores, deu à luz os seus filhos” (Is 66.8). E todas as coisas se encherão de alegria indizível por causa do Senhor, que disse: “Eis que eu crio Jerusalém para ser regozijo, e o seu povo para ser alegria” (Is 65.18).
35. E que estas palavras sejam ditas agora de novo também sobre vocês: “Cantem, ó céus, e exulte, ó terra”; e depois: “porque o Senhor teve misericórdia do seu povo e consolou os humildes do seu povo” (Is 49.13). E isso acontecerá pela bondade de Deus, que diz a vocês: “Eis que desfaço como uma nuvem as suas transgressões, e como uma nuvem espessa os seus pecados” (Is 44.22). Mas vocês, que foram considerados dignos do nome de fiéis (dos quais está escrito: “Sobre os meus servos será invocado um nome novo, que será bendito sobre a terra” (Is 65.15)), dirão com alegria: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nas regiões celestiais em Cristo” (Ef 1.3); “no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça, que ele derramou abundantemente sobre nós” (Ef 1.7-8), e o que se segue; e de novo: “Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo” (Ef 2.4-5), e o resto. E de novo, do mesmo modo, louvem o Senhor de todos os bens, dizendo: “Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pelos homens, ele nos salvou, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que, justificados por sua graça, nos tornemos herdeiros, segundo a esperança da vida eterna” (Tt 3.4-7). E que o próprio Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, “o Pai da glória, conceda a vocês espírito de sabedoria e de revelação no pleno conhecimento dele, iluminados os olhos do entendimento de vocês” (Ef 1.17-18), e que os guarde sempre em boas obras, palavras e pensamentos; a ele sejam a glória, a honra e o poder, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, com o Espírito Santo, agora e sempre, e por todos os séculos sem fim da eternidade. Amém46.
1. Cf. § 12, abaixo.
2. Tertuliano (De Resurr. carnis, cap. 2): “Eles reconhecem meia ressurreição, isto é, só a da alma.” Compare Ireneu (I. xxiii. 5), sobre a afirmação de Menandro de que os seus discípulos alcançam a ressurreição sendo batizados nele, e já não podem morrer, mas conservam uma juventude imortal; ib. xxiv. 5. Basílides ensinava que “a salvação pertence só à alma”. Sobre as outras formas de heresia a respeito da ressurreição, veja Suicer, Thesaurus, Anastasis.
3. As objeções lembradas no § 2 são discutidas por Atenágoras (De Resurr. capp. ii, iv-viii), Taciano (Or. ad Graecos, cap. vi) e Tertuliano (De Resurr. Carn. cap. 63).
4. Sobre o argumento tirado do poder de Deus, compare Atenágoras (De Resurr. c. ix), Justino Mártir (De Resurr. c. v), Teófilo (ad Autolyc. c. xiii) e Ireneu (V. iii. 2).
5. O argumento tirado da justiça de Deus é tratado por Atenágoras (De Resurr. c. x e xx-xxiii) e Justino Mártir (De Resurr. c. viii).
6. ten stephanephorian. Roe, Cas. A. Cf. Píndaro (Ol. viii. 13); Eurípides (Electra, 862).
7. Atenágoras (De Resurr. c. iii): “Se, quando não existiam, ele fez na primeira formação os corpos dos homens e os seus elementos originais, há de ressuscitá-los com a mesma facilidade quando se dissolverem, de qualquer modo que isso aconteça.” Lactâncio (Institt. VII. 23, no fim); Constituições Apostólicas (V. 7).
8. Uma exposição eloquente do argumento a favor da ressurreição tirado das analogias da natureza aparece em Tertuliano (De Resurr. c. xii). Que não era desconhecida de Cirilo parece provável pela frase final: “E certamente, se todas as coisas ressurgem para o homem, para quem foram providenciadas (mas não para o homem, senão também para a sua carne), como pode perecer de todo a própria carne, por causa e a serviço da qual nada se permite perecer?” O próprio Tertuliano provavelmente dependia, como sugere o bispo Lightfoot, de Clemente de Roma (Epist. ad Corinth. xxiv). Cf. Lactâncio (Div. Inst. vii. 4).
9. Cf. Catequese IV, 30. Essas passagens mostram que as catequeses foram pronunciadas num ano em que a Páscoa caiu cedo, como foi o caso em 348 d.C.
10. Nesses casos, naturalmente, não há morte de fato.
11. O editor beneditino supõe que o muoxos seja o sapo (“Inventusque cavis bufo”, Virgílio, Georg. i. 185); outros, a marmota (mus Alpinus). Mais provavelmente é o arganaz (myoxis glis), que armazena provisões para o inverno, embora durma durante boa parte dessa estação.
12. A história da fênix, tal como a conta Heródoto (II. 73), é a seguinte: “Têm também outra ave sagrada, chamada fênix, que eu mesmo nunca vi, a não ser em pinturas. De fato, é grande raridade até no Egito, e só vem para lá (segundo os relatos do povo de Heliópolis) uma vez a cada quinhentos anos, quando morre a velha fênix…. Contam uma história do que esta ave faz, que não me parece digna de crédito: que ela vem desde a Arábia e traz a ave genitora, toda emplastrada de mirra, ao templo do Sol, e ali sepulta o corpo.” As muitas variações e os acréscimos fabulosos da história são expostos por Suicer (Thesaurus, Phoinix) e pelo bispo Lightfoot, numa nota longa e interessante sobre Clemente de Roma (Epist. ad Cor. xxv). Cirilo toma a história de Clemente quase palavra por palavra, mas não sem algumas variações, que serão notadas abaixo. A lenda, com todos os seus traços miraculosos, é contada por Ovídio (Metamorph. xv. 392), por Claudiano (Phoenix) e pelo Pseudo-Lactâncio num poema elegíaco, Phoenix, incluído no Corpus Poetarum Latinorum de Weber e traduzido literalmente na Ante-Nicene Library de Clark. Veja também Tertuliano (De Resurr. Carn. c. xiii).
13. monogenes huparchon (sendo único), Clemente de Roma, no lugar citado. Cf. Orígenes (contra Celsum, iv. 98); Constituições Apostólicas (V. 7): “uma ave única na sua espécie, que dizem não ter par, e a única na criação”. Pseudo-Lactâncio (v. 30): “Hoc nemus hos lucos avis incolit unica, phoenix, Unica, sed vivit morte refecta suâ” (Este bosque, estes arvoredos, habita uma ave única, a fênix; única, mas vive refeita pela própria morte).
14. “De dia, à vista de todos” (Clemente de Roma). A cidade era Heliópolis, segundo Heródoto e os outros autores antigos. Mas Milton, “Paraíso Perdido, V. 272: ‘Uma fênix contemplada por todos, como aquela ave única, quando, para guardar as suas relíquias no templo resplandecente do Sol, voa para a Tebas egípcia.’ Por que Milton despacha a sua ave para Tebas, e não para Heliópolis?” (Lightfoot).
15. Ovídio (Met. xv. 405): “Fertque pius cunasque suas patriumque sepulcrum” (e, piedoso, leva o seu berço e o sepulcro do pai). Veja os comentários sobre Jó 29.18: “Morrerei no meu ninho e multiplicarei os meus dias como a areia.” À margem da R.V.: “Ou, a fênix.”
16. Aristóteles considerava misterioso o modo de reprodução das abelhas, que teria em si algo de sobrenatural (theion): De Generatione Animal. III. 10. 1, 27. Na história da fênix, Heródoto não menciona o “verme”.
17. monoeides.
18. Para um argumento semelhante, veja Lactâncio (De Resurr. c. xvii).
19. Clemente de Roma (Epist. ad Cor. xxiv): “O dia e a noite nos mostram a ressurreição. A noite adormece, e o dia se levanta; o dia se vai, e a noite chega.”
20. Tertuliano (de Resurr. Carnis, xii): “Reenfeitam-se também os espelhos da lua, que o seu curso mensal tinha desgastado.”…”Toda esta ordem giratória das coisas dá testemunho da ressurreição dos mortos.”
21. Cf. Mt 22.32: “Ele não é Deus de mortos, e sim de vivos.”
22. A construção anômala hotan gegraptai … kai apistosin pode ser explicada pela consideração de que a incerteza expressa em hotan se liga só ao último verbo. Veja a Grammar of N.T. Greek de Winer (P. III, sect. xlii. 5).
23. Na R.V.: “Os perversos não subsistirão no juízo.”
24. Quanto ao alcance desta passagem sobre a doutrina do purgatório e da oração pelos mortos, veja a nota sobre XXIII, 10.
25. Não há indicação de pergunta na versão da Septuaginta da passagem, que no hebraico significa: e onde está ele? (A.V. e R.V.); Vulg.: ubi, quæso, est? (onde, pergunto, está?).
26. Na A.V. e na R.V.: “Se um homem morrer, tornará a viver?” Ao omitir aqui a interrogação e inseri-la acima, no v. 10, Cirilo inverte exatamente o sentido.
27. Na A.V.: “Todos os dias do meu tempo determinado (R.V.: da minha luta) esperarei, até que venha a minha mudança (R.V.: libertação).”
28. Na R.V.: “e que ele se levantará por fim sobre a terra; e, depois que a minha pele tiver sido assim destruída” etc. Cirilo, como de costume, segue a Septuaginta.
29. “O culto das relíquias, e a crença nelas como remédios e proteção contra o mal, teve origem no século IV. Aparecem primeiro (?) em escritos, nenhum dos quais é anterior ao ano 370; mas prevaleceram rapidamente depois de terem lançado raiz” (Scudamore, Dict. Chr. Antiq., “Relics”, p. 1770). Bingham (Ant. xxiii. 4, § 7) cita uma lei de Teodósio: “que ninguém removesse de um lugar para outro um corpo morto que estivesse sepultado; que ninguém vendesse ou comprasse as relíquias dos mártires; mas, se alguém quisesse construir sobre a sepultura onde estava enterrado um mártir uma igreja que se chamasse martyrium, em honra dele, tivesse liberdade de fazê-lo.” A lei falhou inteiramente em suprimir uma superstição que era sancionada por homens como Cirilo, Basílio, Crisóstomo, Ambrósio e Agostinho.
30. ek tes hupertheseos tes nesteias tes paraskeues, o editor beneditino: “O termo eclesiástico tes hupertheseos nós o traduzimos, segundo a interpretação recebida entre os latinos, pela palavra ‘superpositio’. Os antigos entendiam por ele um jejum continuado por dois ou três dias sem alimento. Além disso, como a grande semana era guardada com jejuns mais severos, havia muitos que passavam ou a semana inteira, ou quatro, três ou dois dias, a saber, a Preparação e o Santo Sábado (a véspera da Páscoa), inteiramente em jejum, como testemunham Santo Ireneu (Eusébio, Hist. V, 24) e outros. A continuação do jejum durante a sexta-feira e o sábado era muito aprovada, como se pode ver nas Constituições Apostólicas, V, 18.” A passagem referida é a seguinte: “Jejuem, pois, nos dias da Páscoa, começando do segundo dia da semana até a Preparação e o sábado, seis dias, usando apenas pão, sal, ervas e água como bebida; mas abstenham-se nesses dias de vinho e de carne, pois são dias de lamentação e não de jejum. Vocês que puderem, jejuem inteiramente durante a Preparação e o sábado, sem provar nada até o cantar do galo à noite; mas, se alguém não puder unir os dois, guarde ao menos o sábado.”
31. O jejum do Grande Sábado devia continuar durante a noite, como prescrevem as Constituições Apostólicas, V, 19: “Continuem até o cantar do galo e quebrem o jejum ao raiar do primeiro dia da semana, que é o dia do Senhor, permanecendo acordados desde a tarde até o cantar do galo; e, reunindo-se na igreja, vigiem, orem e supliquem a Deus na vigília que dura a noite inteira, lendo a Lei, os Profetas e os Salmos, até o cantar dos galos; e, depois de batizarem os seus catecúmenos e lerem o Evangelho com temor e tremor, e de falarem ao povo as coisas que dizem respeito à salvação, cessem assim o seu luto.” Uma razão principal da vigília era que se esperava que Cristo voltasse na mesma hora em que ressuscitou. Sobre o sentido de “superposição”, veja a nota de Routh sobre a Epístola Sinodal de Ireneu a Vítor de Roma (Rell. Sac. ii, p. 45 ss.), e a passagem de Dionísio de Alexandria ali citada.
32. mononouchi daktulodeikton.
33. metapoieitai. O sentido desta palavra, aplicada aos elementos da Eucaristia, é discutido amplamente, e ilustrado pelo seu uso em Cirilo e em outros Pais, pelo Dr. Pusey (Real Presence, p. 189).
34. Cirilo se refere ao vaga-lume (pugolampis, Aristóteles, Hist. Animal. V, 19, 14), ou a alguma outra espécie de Lampyris (Aristóteles, De Partibus Animal. I, 3, 3).
35. Cf. Catequese IV, 31.
36. ton genomenon. Com a leitura ginomenon (Codd. Monn. Vind.), o sentido será: “partilhará conosco, no futuro, o que então nos acontecer.” Sobre o argumento desta seção, compare as passagens citadas no § 4.
37. Catequese V, 12. Cf. Platão (Teeteto, 204 C): eph’ hekastes lexeos, “cada vez que falamos”.
38. O bispo Lightfoot (Inácio, Aos Esmirniotas, viii) traça muito amplamente o sentido original e os sentidos posteriores da palavra “católica”. “Nos seus usos mais antigos, portanto, como epíteto variável de ekklesia, ‘católica’ significa ‘universal’, em oposição a ‘individual’, ‘particular’. No seu sentido posterior, como atributo fixo, implica ortodoxia em oposição à heresia, conformidade em oposição à dissidência.” Comentando esta passagem de Cirilo, o bispo acrescenta que “estas duas últimas razões, que ela (a Igreja) é abrangente na doutrina e que é universal na aplicação, só podem ser consideradas glosas secundárias”.
39. ekkaleisthai. Cf. Hb 12.23.
40. ekklesiason.
41. ekklesias.
42. en ekklesiais.
43. Septuaginta: euprepeian. A R.V. e a A.V.: “habitação”.
44. tes humeteras en Christo agapes. Cf. Catequese XVII, 1. Atanásio (Epist. ad Epict. § 2): para te se theosebeia; (Ad Serap. IV, 1): para tes ses eulabeias.
45. O lugar indicado não é a igreja da Ressurreição, na qual se realizara o culto, mas a Anástasis, isto é, a própria gruta da Ressurreição, que Constantino tinha ampliado com obras adicionais a tal ponto que ali se podia fazer um discurso ao povo; pois Jerônimo (Epist. 61) relata que Epifânio pregara naquele lugar, diante do sepulcro do Senhor, ao clero e ao povo, na presença do bispo João (o editor beneditino).
46. “No fim desta catequese, no mais antigo dos manuscritos de Munique, há o seguinte acréscimo: Muitas outras catequeses foram pronunciadas ano após ano, tanto antes do batismo como depois que os neófitos foram batizados. Mas somente estas foram anotadas enquanto eram faladas, e escritas por alguns dos estudiosos zelosos, no ano 352 da vinda de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. E nelas vocês encontrarão, em parte, discussões de todas as doutrinas necessárias da fé, que devem ser conhecidas pelos homens, e respostas aos gregos, aos da circuncisão e às heresias, e os preceitos morais dos cristãos de todo tipo, pela graça de Deus. O ano 352, segundo o cômputo dos gregos, é o ano 360 da era cristã” (Rupp). A data em que as catequeses foram pronunciadas não pode de modo algum ser tão tardia quanto aqui se afirma.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.