Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XX
O despojamento, a unção, a tríplice imersão e o sentido do batismo como morte e ressurreição com Cristo.
Romanos 6.3-14
Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? etc….. pois vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça.
1. Estas iniciações diárias nos mistérios1 e estas novas instruções, que são o anúncio de novas verdades, nos são proveitosas; e sobretudo a vocês, que foram renovados de um estado velho para um novo. Por isso, é necessário que eu ponha diante de vocês a continuação da catequese de ontem, para que aprendam do que eram símbolo aquelas coisas que foram feitas por vocês na câmara interior2.
2. Logo que entraram, pois, vocês tiraram a túnica; e isso era imagem do “despir-se do velho homem com os seus atos” (Cl 3.9). Uma vez despidos, ficaram nus; imitando também nisso a Cristo, que foi despido na cruz e, pela sua nudez, “despojou de si mesmo os principados e as potestades e triunfou abertamente sobre eles no madeiro” (Cl 2.15)3. Pois, como os poderes adversos faziam o seu covil nos membros de vocês, vocês não podem mais usar aquela veste velha; não me refiro de modo algum a esta visível, mas ao “velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano” (Ef 4.22). Que a alma que uma vez se despiu dele nunca mais o vista, mas diga com a Esposa de Cristo no Cântico dos Cânticos: “Já tirei a minha túnica! Como posso vesti-la outra vez?” (Ct 5.3). Ó coisa maravilhosa! Vocês estavam nus à vista de todos e não se envergonhavam4; pois de fato traziam a semelhança do primeiro Adão formado, que estava nu no jardim e não se envergonhava.
3. Depois, quando estavam despidos, vocês foram ungidos com óleo exorcizado5, desde os próprios cabelos da cabeça até os pés, e se tornaram participantes da boa oliveira, Jesus Cristo. Pois foram cortados da oliveira brava6 e enxertados na boa, e passaram a participar da seiva da verdadeira oliveira. O óleo exorcizado era, portanto, símbolo da participação na seiva de Cristo, sendo um amuleto para afastar todo vestígio de influência inimiga. Pois, assim como o sopro dos santos e a invocação do nome de Deus, como chama ardentíssima, queimam e expulsam os espíritos maus, assim também este óleo exorcizado recebe tal virtude pela invocação de Deus e pela oração, que não só queima e purifica os vestígios dos pecados, mas também afugenta todos os poderes invisíveis do maligno.
4. Depois dessas coisas, vocês foram conduzidos à santa piscina7 do divino batismo, assim como Cristo foi levado da cruz ao sepulcro que está diante dos nossos olhos. E cada um de vocês foi interrogado se cria no nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; e vocês fizeram aquela confissão salvadora, e desceram três vezes à água, e subiram de novo; também aqui indicando, por um símbolo, o sepultamento de Cristo durante três dias8. Pois, assim como o nosso Salvador passou três dias e três noites no coração da terra (Mt 12.40), assim também vocês, na primeira subida da água, representaram o primeiro dia de Cristo na terra, e na descida, a noite; pois, como quem está na noite já não vê, mas quem está no dia permanece na luz, assim na descida, como na noite, vocês nada viam, mas, ao subir de novo, estavam como no dia. E no mesmo instante vocês morriam e nasciam; e aquela água da salvação foi ao mesmo tempo o seu sepulcro e a sua mãe. E o que Salomão disse de outros servirá também para vocês; pois ele disse, naquele caso: “Há tempo de dar à luz e tempo de morrer” (Ec 3.2); mas para vocês, na ordem inversa, houve tempo de morrer e tempo de nascer; e um único e mesmo tempo realizou ambas as coisas, e o seu nascimento andou de mãos dadas com a sua morte.
5. Ó coisa estranha e inconcebível! Não morremos realmente, não fomos realmente sepultados, não fomos realmente crucificados e ressuscitados; mas a nossa imitação foi em figura, e a nossa salvação, em realidade. Cristo foi de fato crucificado, e de fato sepultado, e verdadeiramente ressuscitou; e todas estas coisas ele nos concedeu gratuitamente, para que nós, participando dos seus sofrimentos pela imitação, alcançássemos a salvação em realidade. Ó amor imenso pelos homens! Cristo recebeu cravos nas suas mãos e pés imaculados e sofreu angústia; e a mim, sem dor nem fadiga, pela comunhão do seu sofrimento, ele concede gratuitamente a salvação.
6. Ninguém, pois, suponha que o batismo é apenas a graça da remissão dos pecados, ou ainda a da adoção, como o batismo de João9 conferia apenas a remissão dos pecados; ao passo que sabemos muito bem que, assim como ele purifica os nossos pecados e nos concede10 o dom do Espírito Santo, assim também é o antítipo11 dos sofrimentos de Cristo. Por isso Paulo há pouco exclamou e disse: “Ou será que vocês ignoram que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos sepultados com ele na morte pelo batismo” (Rm 6.3-4)12. Estas palavras ele as disse a alguns que estavam dispostos a pensar que o batismo nos concede a remissão dos pecados e a adoção, mas não tem também, além disso, a comunhão, por representação, dos verdadeiros sofrimentos de Cristo.
7. Para que aprendêssemos, pois, que tudo o que Cristo suportou, por nós e pela nossa salvação13, ele o sofreu em realidade e não em aparência, e que nós também nos tornamos participantes dos seus sofrimentos, Paulo exclamou com toda a exatidão da verdade: “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na semelhança da sua morte, também o seremos na semelhança da sua ressurreição” (Rm 6.5). Bem disse: “plantados juntamente”14. Pois, como a verdadeira videira foi plantada neste lugar, também nós, participando do batismo da morte, fomos “plantados juntamente” com ele. E fixe a sua mente com muita atenção nas palavras do apóstolo. Ele não disse: “Porque, se fomos plantados juntamente com ele na sua morte”, mas: “na semelhança da sua morte”. Pois, no caso de Cristo, houve morte real, porque a sua alma foi realmente separada do corpo, e sepultamento real, porque o seu santo corpo foi envolvido em linho puro; e tudo lhe aconteceu realmente; mas no caso de vocês houve apenas uma semelhança de morte e de sofrimentos, ao passo que da salvação não houve semelhança, mas realidade.
8. Tendo sido suficientemente instruídos nestas coisas, guardem-nas, eu lhes peço, na memória; para que também eu, indigno como sou, possa dizer de vocês: “Agora eu os amo15, porque sempre se lembram de mim e retêm as tradições que eu lhes transmiti” (1Co 11.2). E Deus, que os apresentou “como vivos dentre os mortos” (Rm 6.13), é poderoso para conceder-lhes “que andem em novidade de vida” (Rm 6.4); porque dele são a glória e o poder, agora e para sempre. Amém.
1. mustagogiai.
2. A renúncia e a profissão de fé eram feitas na câmara exterior, ou vestíbulo, do batistério.
3. A aplicação que Cirilo faz desta passagem concorda melhor com a interpretação de que Cristo, tendo sido revestido da semelhança da carne do pecado durante a sua vida na terra, submeteu-se nela aos assaltos dos poderes do mal, mas na cruz lançou de si tanto ela como eles.
4. Veja Dictionary of Christian Antiquities, “Baptism”, § 48: O despir dos catecúmenos; Bingham, Antiguidades XI, xi, 1: Todas “as pessoas eram batizadas nuas, ou em imitação de Adão no paraíso, ou do nosso Salvador na cruz, ou para significar o despir-se do corpo do pecado e do velho homem com os seus atos.”
5. Constituições Apostólicas VII, 22: “Mas tu ungirás antes a pessoa com óleo santo (elaio), e depois a batizarás com água, e no fim a selarás com o unguento (muro), para que a unção (chrisma) seja participação do Espírito Santo, e a água, símbolo da morte, e o unguento, o selo das alianças. Mas, se não houver nem óleo nem unguento, a água basta tanto para a unção como para o selo, e para a confissão daquele que morreu, ou antes, que morre conosco.” A unção anterior “com óleo santificado pela oração” é mencionada nas Recognições Clementinas, III, c. 67, e no Pseudo-Justino, Quaestiones ad Orthodoxos, q. 137. Não era, porém, universal, e parece ter sido desconhecida na África, pois não é mencionada por Clemente de Alexandria (Pedagogo II, c. viii, sobre o uso dos unguentos), nem por Tertuliano, nem por Agostinho.
6. Sobre o significado da oliveira brava, veja Ireneu, V, 10.
7. kolumbethran. A piscina era funda o bastante para a imersão total e grande o bastante para que muitos fossem batizados ao mesmo tempo. Cf. Bingham, Antiguidades VIII, vii, 2; XI, xi, 2, 3. Para gravuras dos antiquíssimos batistérios de Aquileia e de Ravena, que mostram a forma da fonte ou piscina, veja Dictionary of Christian Antiquities, “Baptistery”.
8. O mesmo significado é atribuído à imersão tríplice por muitos Padres, mas Tertuliano dá outra explicação (Adv. Praxean, c. xxvi): “Não uma só vez, mas três vezes, somos imersos nas Pessoas, uma a uma, à menção dos seus nomes, um a um.” Gregório de Nissa (Sobre o batismo de Cristo) junta as duas razões: “Fazendo isto três vezes, representamos para nós mesmos aquela graça da ressurreição que foi operada em três dias; e isto fazemos não recebendo o sacramento em silêncio, mas enquanto se pronunciam sobre nós os nomes das três sagradas Pessoas em quem cremos etc.” Cf. Constituições Apostólicas VIII, § 47, Cânon 50: “Se algum bispo ou presbítero não realizar as três imersões de uma só iniciação, mas uma só imersão feita na morte de Cristo, seja deposto.” Milles, na sua nota sobre esta passagem, menciona que “esta forma de batismo ainda é usada na Igreja grega. Veja Eucholog. p. 355, ed. Jac. Goar, e as suas notas, p. 365.”
9. Tertuliano (De Baptismo, c. 10) nega que o batismo de João valesse para a remissão dos pecados: “Se o arrependimento é coisa humana, o seu batismo deve necessariamente ser da mesma natureza; senão, se fosse celestial, teria dado tanto o Espírito Santo como a remissão dos pecados.” A doutrina de Cirilo está mais de acordo com a linguagem dos Padres em geral, e com a de Mc 1.4 e Lc 3.3.
10. proxenon.
11. antitupon. O “antítipo” é aqui o sinal ou memorial daquilo que já passou e não está mais realmente presente: veja XXI, 1. Cf. Hb 9.24.
12. Na frase seguinte, vários manuscritos têm uma leitura diferente: “Estas coisas talvez ele as disse a alguns que estavam dispostos a pensar que o batismo concede só a remissão dos pecados, e não a adoção, e que além disso não tem a comunhão etc.” Contra esta leitura, aprovada por Milles, o editor beneditino argumenta que em Rm 6.3-4 não há referência à adoção, mas só à comunhão na paixão de Cristo, e que Cirilo cita a passagem só para provar esta última, sendo o dom da adoção geralmente admitido e, portanto, fora de questão.
13. Esta cláusula está contida no Credo de Niceia e naquele que Eusébio apresentou ao concílio como o antigo Credo de Cesareia. Provavelmente fazia parte do Credo de Jerusalém, embora não se encontre nos títulos das catequeses nem seja explicada em particular.
14. Cirilo dá à expressão “plantados juntamente” uma aplicação especial aos que tinham sido batizados no mesmo lugar onde Cristo fora sepultado.
15. Em Paulo: “Agora eu os elogio” etc.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.