Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Catequese XXII
O corpo e o sangue de Cristo sob a forma do pão e do vinho.
1 Coríntios 11.23
Porque eu recebi do Senhor o que também lhes entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, pegou um pão etc.
1. Por si só1, o ensino do bem-aventurado Paulo é suficiente para lhes dar plena certeza a respeito daqueles mistérios divinos dos quais vocês foram julgados dignos, tornando-se “do mesmo corpo”2 e do mesmo sangue que Cristo. Pois vocês acabaram de ouvi-lo dizer claramente: “Que o nosso Senhor Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, o partiu e o deu aos seus discípulos, dizendo: Tomem, comam, isto é o meu corpo; e, tendo tomado o cálice e dado graças, disse: Tomem, bebam, isto é o meu sangue” (1Co 11.23-25)3. Visto, pois, que ele mesmo declarou e disse a respeito do pão: “Isto é o meu corpo”, quem ousará ainda duvidar? E, visto que ele mesmo afirmou e disse: “Isto é o meu sangue”, quem jamais hesitará, dizendo que não é o seu sangue?
2. Ele, certa vez, em Caná da Galileia, transformou a água em vinho, que é afim ao sangue4; e será incrível que tenha transformado o vinho em sangue? Chamado a um casamento corporal, ele realizou milagrosamente5 aquela obra admirável; e não se há de reconhecer, com muito mais razão, que concedeu aos “filhos da câmara nupcial” (Mt 9.15) o gozo do seu corpo e do seu sangue6?
3. Por isso, com plena certeza, participemos como do corpo e do sangue de Cristo; pois na figura7 do pão lhe é dado o seu corpo, e na figura do vinho, o seu sangue, para que você, participando do corpo e do sangue de Cristo, se torne do mesmo corpo e do mesmo sangue que ele. Pois assim nos tornamos portadores de Cristo8, porque o seu corpo e o seu sangue se distribuem9 pelos nossos membros; é assim que, segundo o bem-aventurado Pedro, “nos tornamos coparticipantes da natureza divina” (2Pe 1.4).
4. Certa vez, Cristo, discorrendo com os judeus, disse: “Se vocês não comerem a minha carne e não beberem o meu sangue, não terão vida em vocês” (Jo 6.53). Eles, não tendo ouvido a sua palavra em sentido espiritual, escandalizaram-se e se retiraram, supondo que ele os estivesse convidando a comer carne.
5. Também no Antigo Testamento havia os pães da proposição; mas estes, por pertencerem ao Antigo Testamento, chegaram ao fim. No Novo Testamento, porém, há o pão do céu e o cálice da salvação, que santificam a alma e o corpo; pois, assim como o pão corresponde ao nosso corpo, assim o Verbo10 é apropriado à nossa alma.
6. Considere, portanto, o pão e o vinho não como simples elementos, pois eles são, segundo a declaração do Senhor, o corpo e o sangue de Cristo; pois, ainda que os sentidos lhe sugiram isso, que a fé o firme. Não julgue a coisa pelo paladar, mas, pela fé, tenha plena certeza, sem hesitação, de que o corpo e o sangue de Cristo lhe foram concedidos.
7. Também o bem-aventurado Davi lhe dará a conhecer o sentido disto, dizendo: “Preparas uma mesa diante de mim na presença dos que me afligem” (Sl 23.5). O que ele diz equivale a isto: Antes da tua vinda, os espíritos malignos prepararam para os homens uma mesa11 poluída, contaminada e cheia de influência diabólica12; mas, desde a tua vinda, ó Senhor, “preparas uma mesa diante de mim”. Quando o homem diz a Deus: “Preparas diante de mim uma mesa”, que outra coisa indica senão aquela mesa mística e espiritual que Deus preparou para nós “em frente”, isto é, contrária e em oposição aos espíritos malignos? E com toda a verdade; pois aquela tinha comunhão com os demônios, mas esta, com Deus. “Ungiste a minha cabeça com óleo” (Sl 23.5). Com óleo ele ungiu a sua cabeça, na sua fronte, pelo selo de Deus que você tem, para que você se torne “a gravura do sinete: Santidade a Deus” (Êx 28.36; Eclo 45.12)13. “E o teu cálice me embriaga, como fortíssimo” (Sl 23.5)14. Você vê aqui mencionado aquele cálice que Jesus tomou nas mãos, deu graças e disse: “Isto é o meu sangue, que é derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26.28).
8. Por isso também Salomão, aludindo a esta graça, diz no Eclesiastes: “Venha cá, coma o seu pão com alegria” (isto é, o pão espiritual; “Venha cá”, ele chama com o chamado para a salvação e a bênção), “e beba o seu vinho com o coração alegre” (isto é, o vinho espiritual); “e que o óleo seja derramado sobre a sua cabeça” (você vê que ele alude até à crisma mística); “e que as suas vestes sejam sempre brancas, pois o Senhor se agrada das suas obras” (Ec 9.7-8); pois, antes de você vir ao batismo, as suas obras eram “vaidade de vaidades” (Ec 1.2)15. Mas agora, tendo despido as suas vestes velhas e vestido as que são espiritualmente brancas, você deve andar continuamente vestido de branco. Naturalmente, não queremos dizer com isso que você deva sempre usar roupa branca; mas você deve estar vestido com as vestes que são verdadeiramente brancas, resplandecentes e espirituais, para que possa dizer com o bem-aventurado Isaías: “A minha alma se alegrará no meu Deus, pois ele me vestiu com uma veste de salvação e pôs ao meu redor um manto de alegria” (Is 61.10).
9. Tendo aprendido estas coisas e tendo plena certeza de que o pão aparente não é pão, ainda que seja sensível ao paladar, mas o corpo de Cristo; e de que o vinho aparente não é vinho, ainda que o paladar assim o queira, mas o sangue de Cristo; e de que disto Davi cantou outrora, dizendo: “E o pão fortalece o coração do homem, para fazer brilhar o seu rosto com óleo” (Sl 104.15), “fortaleça o seu coração”, participando dele como de algo espiritual, e “faça brilhar o rosto da sua alma”. E assim, tendo-o descoberto com uma consciência pura, possa você “refletir como espelho a glória do Senhor” e avançar “de glória em glória” (2Co 3.18), em Cristo Jesus, nosso Senhor: a quem sejam a honra, o poder e a glória para todo o sempre. Amém.
1. aute, que se encontra em todos os manuscritos, é mudado para pior em haute pelo editor beneditino.
2. A palavra sussomoi tem sentido diferente em Ef 3.6, onde é aplicada aos gentios por terem sido feitos membros do corpo de Cristo, a Igreja.
3. A oração “e o deu aos seus discípulos” é um acréscimo tirado de Mt 26.26. A parte relativa ao cálice não corresponde exatamente nem às palavras de São Paulo nem às dos evangelistas.
4. oikeion haimati: Cod. Scirlet. (Grodecq), Mesm. (Morel), Vindob.; o editor beneditino, oikeio neumati, com os Codd. Monac. 1, 2, Genovef. Vatt. (Prevot.). Rupp. Toda a passagem é omitida nos Codd. Coisl. R. Casaub., por causa da repetição de haima. A leitura oikeio neumati, “pela sua própria vontade”, introduz um pensamento supérfluo e destrói o próprio ponto do argumento de Cirilo, no qual a mudança anterior da água num elemento tão diferente como o vinho é considerada como dando uma probabilidade a fortiori à mudança daquilo que já é “afim ao sangue” no próprio sangue. Se Cirilo parece assim ensinar uma mudança física do vinho, deve-se lembrar que não somos obrigados a aceitar a sua opinião, mas apenas a expô-la com exatidão.
5. ethaumatourgese ten paradoxopoiian. Cf. Crisóstomo, Epist. I ad Olympiad. de Deo, § 1: tote thaumatourgei kai paradoxopoiei.
6. O editor beneditino: “Para que se entenda melhor a força do argumento de Cirilo, devemos observar que no batismo se celebra o casamento de Cristo com a alma cristã, e que a consumação desse casamento se completa pela união dos corpos no mistério da Eucaristia. Leia-se a Homilia XX de Crisóstomo sobre Efésios.” As palavras de Crisóstomo são: “Do mesmo modo, portanto, tornamo-nos uma só carne com Cristo pela participação (metousias).” Mas a participação expressa por metousia não se refere necessariamente à Eucaristia. Pelo uso da palavra na Catequese XXIII, 11, e em Atanásio (Contra Arianos, Or. I; de Synodis, 19, 22, 25), o sentido parece antes ser que somos uma só carne com Cristo, não por natureza, mas por dom seu.
7. Veja Waterland, On the Eucharist, cap. VII.
8. Christophoroi ginometha. Procatequese, 15.
9. O editor beneditino: “Anadidomenou. Os Codd. Coisl. Roe, Casaub. Scirlet. Ottob. 2, Genovef. têm anadedegmenoi, que não concorda bem com os genitivos tou somatos e tou haimatos. É evidente que se trata de uma emenda mal arranjada de anadidomenou, porque os copistas se escandalizaram com a distribuição do corpo de Cristo pelos nossos membros. Mas Cirilo usa a mesma palavra na Catequese XXIII, 9: Houtos ho artos …. eis pasan sou ten sustasin anadidotai, ‘Este pão se distribui por todo o seu organismo, para proveito do corpo e da alma.'” Anadidomenou é a leitura de Milles e de Rupp. Para linguagem semelhante, veja Justino Mártir, Apol. I, 66; Ireneu, V, II, 2.
10. O editor beneditino: “Aqui devemos entender (por ho Logos) o Verbo divino, não o simples discurso de Deus, mas a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o próprio Cristo, o pão do céu, como ele testemunha de si mesmo em Jo 6.51. A ele Cirilo contrapõe os pães terrenos da proposição do Antigo Testamento; do contrário, não poderia legitimamente inferir desta frase, pela partícula oun, “portanto”, que a Eucaristia é verdadeiramente o corpo e o sangue de Cristo. E, visto que ele diz, na Catequese XXIII, 15, que o alimento eucarístico é “destinado à substância da alma”, para proveito dela, isso não se pode dizer do corpo de Cristo nem da sua alma, mas somente do Verbo, que está unido a ambos. Além disso, que o Verbo divino é o alimento dos anjos e da alma é um modo comum de falar entre todos os Pais. Muitas vezes eles jogam com a ambiguidade desta palavra (logos), dizendo ora que o Verbo divino, ora que a palavra e os oráculos de Deus são o alimento das nossas almas: ambas as afirmações são verdadeiras. Pois todo o poder vivificante da Eucaristia deriva do Verbo de Deus unido à carne que ele assumiu; e todo o proveito do comer eucarístico consiste na união da nossa alma com o Verbo, na meditação dos seus mistérios e das suas palavras e na conformidade com eles.”
11. elisgemenen, boa restauração de Milles, com os Codd. Roe, Casaub. Coislin. Os textos impressos anteriores traziam elugismenen, “ensombrada”. Cf. Ml 1.7: artous elisgemenous …. Trapeza Kuriou elisgemene estin.
12. Cirilo se refere aos banquetes idólatras, que São Paulo chama “a mesa dos demônios” (1Co 10.21).
13. A lâmina de ouro puro na frente da mitra de Arão levava gravado o lema: “Santo ao Senhor”. Cirilo transfere este simbolismo para a crisma sacramental, na qual a fronte é assinalada com unguento, e a alma, com o selo de Deus.
14. “O meu cálice transborda.” Eusébio (Dem. Evang. I, cap. 10, § 28) aplica o Salmo, como Cirilo, à Eucaristia.
15. Em lugar de proselthes (beneditino), que é o subjuntivo aoristo, com eta e iota subscrito na terminação, devemos ler proselthes, o indicativo aoristo, com eta na sílaba do meio, ou, com o Monac. 1, proselthein.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.