Cirilo de Jerusalém, Catequeses · Procatequese

O que é preciso para chegar ao batismo

A introdução às catequeses: a pureza de intenção, o exemplo de Simão Mago e do convidado sem veste nupcial, os exorcismos, a assiduidade e o segredo dos mistérios.

Procatequese, ou Prólogo às Catequeses do nosso santo pai Cirilo, arcebispo de Jerusalém

1. Já há sobre vocês um perfume de bem-aventurança, ó vocês que em breve serão iluminados1: já estão colhendo as flores espirituais2 para tecer coroas celestes; já a fragrância do Espírito Santo soprou sobre vocês; já se reuniram ao redor do vestíbulo do palácio do Rei3. Que sejam também conduzidos para dentro pelo Rei! Pois agora as flores apareceram nas árvores4; que também o fruto se ache perfeito! Até aqui houve a inscrição dos seus nomes5, o chamado ao serviço, as tochas6 do cortejo nupcial, o anseio pela cidadania celeste, um bom propósito e a esperança que o acompanha. Pois não mente quem disse que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Deus é generoso em fazer o bem, mas espera a vontade sincera de cada um; por isso o apóstolo acrescentou: “daqueles que são chamados segundo o seu propósito”7 (Rm 8.28). É a sinceridade do propósito que faz de você um chamado; pois, se o seu corpo está aqui, mas não a sua mente, de nada lhe aproveita.

2. Até Simão, o mago, chegou certa vez ao banho (At 8.13): foi batizado, mas não foi iluminado; embora mergulhasse o corpo na água, não iluminou o coração com o Espírito. O corpo desceu e subiu, mas a alma não foi sepultada com Cristo, nem ressuscitada com ele (Rm 6.4; Cl 2.12). Menciono os relatos8 das quedas (dos homens) para que você não caia; pois estas coisas aconteceram com eles para servir de exemplo e “foram escritas como advertência” (1Co 10.11) aos que até hoje se aproximam. Que nenhum de vocês seja achado tentando a graça de Deus, “para que nenhuma raiz de amargura, brotando, cause perturbação” (Hb 12.15). Que nenhum de vocês entre dizendo: “Vamos ver o que os fiéis9 estão fazendo; vou entrar e ver, para saber o que se faz ali.” Você espera ver e não espera ser visto? E pensa que, enquanto você investiga o que está acontecendo, Deus não está investigando o seu coração?

3. Certo homem, nos Evangelhos, foi uma vez espiar a festa de casamento10: vestiu uma roupa imprópria, entrou, sentou-se e comeu, pois o noivo o permitiu. Mas, ao ver todos vestidos de branco11, deveria ele mesmo ter tomado uma veste da mesma espécie; ao contrário, participou da mesma comida, mas era diferente deles na aparência e no propósito. O noivo, porém, embora generoso, não era desatento; e, passando por cada um dos convidados e observando-os (pois o seu cuidado não era com o que comiam, mas com o seu comportamento decente), viu um estranho “sem veste nupcial” e lhe disse: “‘Amigo, como você entrou aqui’ (Mt 22.12)? Com que cor12! Com que consciência! E daí que o porteiro não o impediu, por causa da generosidade de quem oferecia o banquete? E daí que você não soubesse com que traje devia entrar no banquete? Você entrou e viu os trajes resplandecentes dos convidados: não deveria ter aprendido ao menos com o que estava diante dos seus olhos? Não deveria ter-se retirado a tempo, para entrar de novo a tempo? Mas agora você entrou fora de tempo, para ser lançado fora fora de tempo.” Então ele ordena aos serventes: “‘Amarrem-lhe os pés’, que ousaram intrometer-se; ‘amarrem-lhe as mãos’, que não souberam vesti-lo com uma roupa luminosa; ‘e atirem-no nas trevas de fora’ (Mt 22.13), pois é indigno das tochas nupciais13.” Você vê o que aconteceu àquele homem: ponha em segurança a sua própria condição.

4. Pois nós, os ministros de Cristo, admitimos a todos e, ocupando por assim dizer o lugar de porteiros, deixamos a porta aberta; e é possível que você tenha entrado com a alma enlameada de pecados e a vontade contaminada. Você entrou, e foi permitido; o seu nome foi inscrito. Diga-me: você contempla esta venerável ordem da Igreja? Observa a sua organização e disciplina14, a leitura das Escrituras15, a presença dos ordenados16, o curso de instrução17? Envergonhe-se diante do lugar e aprenda com o que vê18. Saia agora, no momento oportuno, e entre amanhã, no momento mais oportuno.

Se o traje da sua alma é a avareza, vista outro traje e entre. Tire o traje anterior, não o encubra. Tire, eu lhe peço, a prostituição e a impureza, e vista a veste resplandecente da castidade. Dou-lhe esta ordem antes que Jesus, o Noivo das almas, entre e veja os seus trajes. Um longo prazo19 lhe é concedido: você tem quarenta dias para o arrependimento; tem toda a oportunidade de tirar a roupa, lavar-se, vestir-se e entrar. Mas, se você persistir num propósito mau, quem fala fica sem culpa, e você não deve esperar a graça; pois a água o receberá, mas o Espírito não o aceitará20. Se alguém tem consciência da sua ferida, tome o unguento; se alguém caiu, levante-se. Que não haja entre vocês nenhum Simão, nenhuma hipocrisia, nenhuma curiosidade vã a respeito do assunto.

5. Talvez você tenha vindo também por outro pretexto. É possível que um homem queira cortejar uma mulher e tenha vindo aqui por esse motivo21. O mesmo vale, por sua vez, para as mulheres. Talvez também um escravo queira agradar ao seu senhor, e um amigo ao seu amigo. Aceito esta isca para o anzol e acolho você, embora tenha vindo com um propósito mau, como alguém que há de ser salvo por uma boa esperança. Talvez você não soubesse aonde vinha, nem em que espécie de rede foi apanhado. Você entrou nas redes da Igreja (Mt 13.47): deixe-se apanhar vivo, não fuja; pois Jesus está pescando você, não para matar, mas para, matando, dar a vida; pois é preciso que você morra e ressuscite. Pois você ouviu o apóstolo dizer: “Mortos, de fato, para o pecado, mas vivos para a justiça” (Rm 6.11, 14). Morra para os seus pecados e viva para a justiça; viva a partir de hoje mesmo.

6. Veja, eu lhe peço, quão grande dignidade Jesus lhe concede. Você era chamado catecúmeno enquanto a palavra ecoava22 ao seu redor, de fora: ouvindo falar de esperança, sem conhecê-la; ouvindo mistérios, sem entendê-los; ouvindo as Escrituras, sem conhecer a sua profundidade. O eco já não está ao seu redor, mas dentro de você; pois “o Espírito que em você habita” (Rm 8.9, 11) faz, daqui em diante, da sua mente uma casa de Deus. Quando você tiver ouvido o que está escrito a respeito dos mistérios, então entenderá coisas que não conhecia. E não pense que recebe pouca coisa: embora seja um miserável, você recebe um dos títulos de Deus. Ouça S. Paulo dizer: “Fiel é Deus” (1Co 1.9). Ouça outra Escritura dizer: “Deus é fiel e justo” (1Jo 1.9). Prevendo isso, porque os homens haveriam de receber um título de Deus, o salmista falou assim na pessoa de Deus: “Eu disse: Vocês são deuses; todos vocês são filhos do Altíssimo” (Sl 82.6). Mas tome cuidado para não ter o título de “fiel” e a vontade de infiel. Você entrou numa competição: esforce-se até o fim da corrida; outra oportunidade como esta você não pode ter23. Se você tivesse diante de si o dia do seu casamento, não deixaria de lado todo o resto para se dedicar aos preparativos da festa? E, às vésperas de consagrar a sua alma ao Noivo celeste, não deixará as coisas carnais para ganhar as espirituais?

7. Não podemos receber o batismo duas ou três vezes; do contrário, alguém poderia dizer: “Se falhei uma vez, acertarei da segunda.” Mas, se você falhar uma vez, a coisa não tem remédio; pois há “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Ef 4.5). Só os hereges são rebatizados24, porque o batismo anterior não era batismo.

8. Pois Deus não busca de nós outra coisa senão um bom propósito. Não diga: “Como os meus pecados são apagados?” Eu lhe digo: querendo, crendo25. Que pode haver de mais breve? Mas, se os seus lábios se declaram dispostos e o seu coração se cala, aquele que o julga conhece o coração. Deixe, a partir de hoje, toda obra má. Que a sua língua não fale palavras indecentes, que os seus olhos se abstenham do pecado e de vaguear26 atrás de coisas inúteis.

9. Que os seus pés se apressem para as catequeses; receba com empenho os exorcismos: seja você soprado ou exorcizado, o ato é para você salvação. Suponha que você tenha ouro bruto e com liga, misturado com várias substâncias, cobre, estanho, ferro e chumbo: queremos ter só o ouro; pode o ouro ser purificado das substâncias estranhas sem fogo? Assim também, sem exorcismos, a alma não pode ser purificada; e esses exorcismos são divinos, pois foram reunidos das divinas Escrituras. O seu rosto foi coberto com um véu para que a sua mente fique livre daqui em diante, e para que os olhos, vagueando, não façam vaguear também o coração. Mas, quando os seus olhos estão cobertos, os seus ouvidos não ficam impedidos de receber os meios da salvação. Pois, assim como os peritos na arte do ourives sopram sobre o fogo por meio de certos instrumentos delicados e, avivando o ouro escondido no cadinho, agitam a chama que o envolve e assim acham o que procuram, assim também, quando os exorcistas infundem terror pelo Espírito de Deus e põem a alma, por assim dizer, em fogo no cadinho do corpo, o demônio inimigo foge, e permanecem a salvação e a esperança da vida eterna, e a alma, daí em diante, fica purificada dos seus pecados e tem a salvação. Permaneçamos, pois, irmãos, na esperança, entreguemo-nos e esperemos, para que o Deus de todos veja o nosso propósito, nos purifique dos nossos pecados, nos dê boas esperanças quanto ao nosso estado e nos conceda o arrependimento que traz a salvação. Deus chamou, e o seu chamado é para você.

10. Preste muita atenção às catequeses e, mesmo que prolonguemos o nosso discurso, não deixe a sua mente se cansar. Pois você está recebendo armas contra o poder adversário, armas contra as heresias, contra os judeus, os samaritanos27 e os gentios. Você tem muitos inimigos; tome muitos dardos, pois tem muitos contra quem lançá-los; e precisa aprender a abater o grego, a lutar contra o herege, contra o judeu e o samaritano. As armas estão prontas, e prontíssima “a espada do Espírito” (Ef 6.17); mas também você deve estender a mão direita com boa resolução, para combater o combate do Senhor, vencer os poderes adversários e tornar-se invencível diante de toda investida herética.

11. Deixe-me dar-lhe também esta recomendação. Estude os nossos ensinos e guarde-os para sempre. Não pense que são as homilias comuns28; pois, embora também elas sejam boas e dignas de confiança, se as negligenciarmos hoje, poderemos estudá-las amanhã. Mas, se o ensino sobre o banho da regeneração, transmitido num curso contínuo, for negligenciado hoje, quando será corrigido? Suponha que seja a estação de plantar árvores: se não cavarmos, e cavarmos fundo, quando mais se poderá plantar bem o que uma vez foi mal plantado? Suponha, por favor, que a catequese seja uma espécie de construção: se não amarrarmos a casa com ligações regulares na construção, para que não se ache nenhuma brecha e o edifício não fique defeituoso, até o nosso trabalho anterior será inútil. Mas é preciso que pedra siga pedra em ordem, e canto se ajuste a canto, e que, aplainando as desigualdades, o edifício se eleve assim por igual. Do mesmo modo estamos trazendo a você pedras, por assim dizer, de conhecimento. Você precisa ouvir sobre o Deus vivo, precisa ouvir sobre o juízo, ouvir sobre Cristo e sobre a ressurreição. E há muitas coisas a tratar em sequência, que agora são lançadas uma a uma, mas depois hão de ser apresentadas em conexão harmoniosa. Mas, se você não as ajustar num só todo e não se lembrar do que vem primeiro e do que vem em segundo lugar, o construtor pode construir, mas você achará o edifício defeituoso.

12. Quando, pois, a catequese for pregada, se um catecúmeno lhe perguntar o que os mestres disseram, não conte nada a quem está de fora. Pois nós lhe entregamos um mistério e uma esperança da vida futura. Guarde o mistério para aquele que dá a recompensa. Que ninguém jamais lhe diga: “Que mal lhe faz se eu também souber?” Assim também os doentes pedem vinho; mas, se for dado na hora errada, provoca delírio, e surgem dois males: o doente morre e o médico é culpado. Assim é também com o catecúmeno, se ouvir alguma coisa do fiel: o catecúmeno delira (pois não entende o que ouviu, critica a coisa e zomba do que foi dito), e o fiel é condenado como traidor. Mas você agora está na fronteira: tome cuidado, por favor, para não contar nada; não que as coisas ditas não sejam dignas de ser contadas, mas porque o ouvido dele é indigno de recebê-las. Você mesmo foi um dia catecúmeno, e eu não lhe descrevi o que estava à sua frente. Quando tiver aprendido pela experiência quão elevadas são as matérias do nosso ensino, então saberá que os catecúmenos não são dignos de ouvi-las.

13. Vocês que foram inscritos tornaram-se filhos e filhas de uma só Mãe. Quando entrarem antes da hora dos exorcismos, que cada um de vocês fale de coisas que conduzem à piedade; e, se algum de vocês não estiver presente, procurem-no. Se você fosse chamado a um banquete, não esperaria o seu companheiro de mesa? Se tivesse um irmão, não procuraria o bem do seu irmão?

Depois, não se ocupe com assuntos inúteis: nem com o que fez a cidade, nem a aldeia, nem o Rei29, nem o bispo, nem o presbítero. Olhe para o alto; é disso que a sua hora presente precisa. “Aquietem-se30 e saibam que eu sou Deus” (Sl 46.10). Se você vê os fiéis servindo sem mostrar preocupação, é que eles gozam de segurança: sabem o que receberam, estão de posse da graça. Mas você está agora mesmo no fiel da balança, para ser recebido ou não: não imite os que estão livres de ansiedade, mas cultive o temor.

14. E, quando o exorcismo tiver sido feito, até que cheguem os outros que estão sendo exorcizados31, fiquem os homens com os homens e as mulheres com as mulheres. Pois agora preciso do exemplo da arca de Noé, na qual estavam Noé e seus filhos, e sua mulher e as mulheres de seus filhos. Pois, embora a arca fosse uma só e a porta estivesse fechada, as coisas tinham sido dispostas convenientemente. Se a igreja está fechada e vocês estão todos dentro, haja contudo uma separação, homens com homens e mulheres com mulheres32, para que o pretexto da salvação não se torne ocasião de perdição. Mesmo que haja um belo pretexto para se sentarem perto uns dos outros, afastem-se as paixões. Além disso, que os homens, quando sentados, tenham um livro útil; e que um leia e o outro escute; e, se não houver livro, que um ore e o outro fale alguma coisa útil. E também o grupo das moças se sente junto do mesmo modo, cantando ou lendo em voz baixa, de modo que os lábios falem, mas os ouvidos dos outros não captem o som; pois “não permito que a mulher fale na igreja” (1Co 14.34; 1Tm 2.12). E a mulher casada siga também o mesmo exemplo e ore; que os seus lábios se movam, mas a sua voz não se ouça, para que venha um Samuel33 (1Sm 1.13, 20), e a sua alma estéril dê à luz a salvação de “Deus que ouviu a sua oração”; pois este é o significado do nome Samuel.

15. Observarei o empenho de cada homem e a reverência de cada mulher. Que a mente de vocês seja refinada como pelo fogo para a reverência; que a sua alma seja forjada como metal; que a dureza da incredulidade seja batida a martelo; que caiam as escamas supérfluas do ferro e fique o que é puro; que a ferrugem do ferro seja raspada e fique o metal verdadeiro. Que Deus um dia lhes mostre aquela noite, a escuridão que brilha como o dia, da qual se diz: “As trevas não te serão escondidas, e a noite brilhará como o dia”34 (Sl 139.12). Então, que a porta do paraíso se abra para cada homem e cada mulher de vocês. Então, que vocês desfrutem das águas portadoras de Cristo, em sua fragrância35. Então, que recebam o nome de Cristo36 e o poder das coisas divinas. Desde já, eu lhes suplico, levantem os olhos da mente; desde já imaginem os coros dos anjos, e Deus, o Senhor de todos, ali sentado, e o seu Filho unigênito sentado com ele à sua direita, e o Espírito presente com eles; e os Tronos e Dominações prestando serviço, e cada homem e cada mulher de vocês recebendo a salvação. Desde já ressoe, por assim dizer, nos seus ouvidos aquele som glorioso, quando, sobre a salvação de vocês, os anjos cantarem: “Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades são perdoadas e cujos pecados são cobertos”37 (Sl 32.1); quando, como estrelas da Igreja, vocês entrarem, resplandecentes no corpo e radiantes na alma.

16. Grande é o batismo que está diante de vocês38: resgate dos cativos; remissão das ofensas; morte do pecado; novo nascimento da alma; veste de luz; selo santo e indissolúvel; carruagem para o céu; delícia do paraíso; acolhida no reino; dom da adoção! Mas há uma serpente à beira do caminho, vigiando os que passam: tome cuidado para que ela não o morda com a incredulidade. Ela vê tantos recebendo a salvação e anda “procurando alguém para devorar” (1Pe 5.8). Você vai entrar à presença do Pai dos espíritos, mas vai passar por aquela serpente. Como, então, poderá passar por ela? Tenha “os pés calçados com a preparação do evangelho da paz” (Ef 6.15), para que, mesmo que ela morda, não lhe faça mal. Tenha a fé habitando em você, uma esperança firme, uma sandália forte, para passar pelo inimigo e entrar na presença do seu Senhor. Prepare o seu próprio coração para receber a doutrina, para a comunhão nos santos mistérios. Ore com mais frequência, para que Deus o torne digno dos mistérios celestes e imortais. Não cesse nem de dia nem de noite; mas, quando o sono fugir dos seus olhos, que a sua mente fique livre para a oração. E, se você perceber algum pensamento vergonhoso surgindo na sua mente, volte-se para a meditação no juízo, que lhe lembre a salvação. Entregue a sua mente inteiramente ao estudo, para que esqueça as coisas vis. Se encontrar alguém que lhe diga: “Então você vai entrar para descer na água? A cidade não tem banhos neste momento?”, saiba que é “o dragão do mar” (Is 27.1) que está armando essas ciladas contra você. Não preste atenção aos lábios de quem fala, mas a Deus, que opera em você. Guarde a sua própria alma, para não ser apanhado no laço, a fim de que, permanecendo na esperança, você se torne herdeiro da salvação eterna.

17. Nós, de nossa parte, como homens, assim lhes recomendamos e ensinamos; mas não façam da nossa construção “feno, palha” e restolho, para que não “soframos dano”, “queimando-se a nossa obra”; antes, façam da nossa obra “ouro, prata e pedras preciosas” (1Co 3.12, 15)! Pois a mim cabe falar, a você aplicar a mente39 ao que ouve, e a Deus aperfeiçoar. Fortaleçamos a nossa mente, revigoremos a nossa alma e preparemos o nosso coração. A corrida é pela nossa alma; a nossa esperança é de coisas eternas; e Deus, que conhece o coração de vocês e observa quem é sincero e quem é hipócrita, é capaz tanto de guardar o sincero como de dar fé ao hipócrita; pois até ao incrédulo, contanto que ele entregue o coração, Deus é capaz de dar fé. Que ele, assim, “apague o escrito de dívida que é contra vocês” (Cl 2.14) e lhes conceda o perdão das suas transgressões passadas; que os plante na sua Igreja, os aliste no seu próprio serviço e os revista das “armas da justiça” (2Co 6.7; Rm 6.13); que os encha das coisas celestes da nova aliança e lhes dê o selo do Espírito Santo, indelével por todos os séculos, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem seja a glória para todo o sempre! Amém.

(Ao leitor40.)

Estas catequeses aos que vão ser iluminados, você pode emprestá-las, para que as leiam, aos candidatos ao batismo e aos fiéis já batizados; mas de modo nenhum41 as dê aos catecúmenos, nem a quaisquer outros que não sejam cristãos, como há de responder ao Senhor. E, se fizer uma cópia, escreva isto no começo, como diante do Senhor.

Notas

1. A “bem-aventurança” é a graça do batismo, cuja esperança chega aos candidatos como um perfume que já os alcança. Estes já não eram chamados catecúmenos, mas photizomenoi, por já estarem a caminho de “ser iluminados”. Compare XVI, 26, a última frase.

2. noeta. A palavra é muito usada por Platão para distinguir as coisas que só a mente pode discernir dos objetos da vista e dos sentidos. Aqui “as flores espirituais (ou mentais)” são as verdades divinas nas quais sopra “a fragrância do Espírito Santo”.

3. Por “vestíbulo” entende-se “o átrio exterior do batistério” (XIX, 2), e por “palácio do Rei” o próprio batistério, que Cirilo chama “a câmara interior” (XX, 1) e “a câmara nupcial” (III, 2; XXII, 2). Aqui os termos de lugar têm também um sentido alegórico, pois o batismo é considerado o casamento da alma com Cristo.

4. Outra alegoria, tirada da primavera, estação em que as catequeses foram pregadas.

5. onomatographia.

6. Que os candidatos, ao serem admitidos pela primeira vez, levassem tochas ou velas acesas em procissão é uma conjectura baseada nesta passagem e na Catequese I, 1: “Vocês que acabam de acender as tochas da fé, conservem-nas acesas nas mãos.”

7. No argumento de S. Paulo, o “propósito” é o eterno propósito de Deus de salvar por meio de Cristo (Ef 1.11; 3.11); mas Cirilo o aplica aqui à sinceridade de propósito de quem vem ao batismo.

8. Em grego, hupographe, que significa ou uma “acusação formal”, ou um “esboço” descritivo. Para o primeiro sentido, veja Platão, Teeteto 172 E: hupographen …hen antomosian kalousin.

9. “Os fiéis” são os que já foram batizados e instruídos naqueles mistérios da fé cristã que eram reservados aos iniciados.

10. A mesma passagem é aplicada ao batismo na Catequese III, 2.

11. Veja Catequese XXII, 8.

12. A palavra grega (chroma) é usada por Inácio, no início de sua Epístola aos Romanos, para uma mancha que tira a cor.

13. Compare § 1.

14. A palavra grega (episteme), que comumente significa “conhecimento” ou “entendimento”, aplica-se aqui e em VI, 35 à inteligência e à habilidade demonstradas na organização dos cultos públicos da Igreja. Compare Constituições Apostólicas, II, 57, onde o bispo é exortado a ordenar as assembleias meta pases epistemes.

15. Na mesma passagem das Constituições Apostólicas dão-se instruções precisas para a leitura de uma lição do Antigo Testamento, o canto dos Salmos e a leitura da Epístola e do Evangelho.

16. Por “os ordenados” (kanonikon) entendem-se todos aqueles cujos nomes estavam registrados como portadores de ofício na Igreja: sacerdotes, diáconos, diaconisas, monges, virgens, viúvas, todos com seu lugar designado e seus deveres próprios. Cânones Apostólicos, 70: ei tis episkopos, e presbuteros, e diakonos, e holos tou katalogou ton klerikon, k.t.l.

17. Compare as Constituições Apostólicas, no lugar citado: “Que os presbíteros exortem o povo um por um, e não todos juntos; e o bispo por último, como comandante.”

18. S. Agostinho, A Cidade de Deus, II, 28: “Embora alguns venham zombar de tais advertências, toda a sua insolência é ou humilhada por uma súbita conversão (immutatio), ou reprimida pelo medo ou pela vergonha.”

19. Em grego, prothesmia. Compare Gl 4.2: “o tempo predeterminado pelo pai”. Em Atenas significava um “prazo de prescrição”, isto é, um período fixo dentro do qual uma dívida devia ser cobrada ou paga, ou uma ação iniciada.

20. Compare XVII, 36.

21. S. Ambrósio, sobre o Salmo 119, Sermão XX, § 48, fala de alguns que fingiam ser cristãos para se casar com uma moça cujos pais não a dariam em casamento a um pagão.

22. S. Cirilo faz um jogo com a palavra “catecúmeno”, que tem a mesma raiz de “eco”.

23. Compare XVII, 36.

24. Esta frase falta num manuscrito (Paris, 1824), mas provavelmente só por causa da repetição da palavra “batismo”. Sobre as leis da Igreja contra a repetição do batismo e sobre o rebatismo dos hereges, veja Tertuliano, Sobre o batismo, cap. XV; Constituições Apostólicas, XV; Bingham, XII, 5; Hefele, Concílios, livro I, cap. 2; Dictionary of Christian Antiquities, I, p. 167 a.

25. Rufino, na Exposição do Credo, sobre a remissão dos pecados: “Os pagãos costumam dizer, zombando de nós, que nos enganamos ao pensar que crimes cometidos por atos podem ser lavados com palavras.”

26. A leitura da edição beneditina, mede ho nous sou rhembestho, tem pouca autoridade e é de todo inadequada. Veja abaixo, to blemma rhembomenon.

27. Os samaritanos são mencionados com frequência por Epifânio e outros escritores do século IV entre os principais adversários do cristianismo. “Em sua humilde sinagoga, ao pé do monte (Gerizim), os samaritanos ainda adoram, a seita mais antiga e menor do mundo.” (Stanley, Sinai and Palestine, p. 240.)

28. Veja acima, § 4.

29. O título “Rei” (Basileus) é usado nas liturgias gregas e pelos Padres para designar o imperador romano, como na Liturgia Clementina: huper tou basileos, kai ton en huperoche, expressão tomada de 1Tm 2.2. Compare Catequese XIV, 14 e 22: Konstantinou tou basileos.

30. Na Septuaginta, scholasate, “dediquem-se livremente”.

31. Por S. Agostinho, Sobre o Símbolo, I, 1 (Migne, t. VI, p. 930), sabemos que os candidatos eram levados um a um diante da congregação para o exorcismo; e assim, como Cirilo mostra aqui, tinham de esperar do lado de fora até que os outros voltassem.

32. Crisóstomo, Homilias sobre Mateus, LXXIV, § 3: “Vocês deveriam ter dentro de si o muro que os separa das mulheres; mas, como não querem, os nossos pais acharam necessário separá-los ao menos por estas tábuas; pois ouvi dos mais velhos que antigamente não havia estes muros.” Essas barreiras ainda não tinham sido introduzidas em Jerusalém, do contrário a advertência de Cirilo seria desnecessária. Compare Constituições Apostólicas, II, 57.

33. Sobre as várias interpretações do nome Samuel, veja o Dictionary of the Bible, “Samuel”, e Driver sobre a passagem. Cirilo adota o sentido “ouvido por Deus”.

34. Na véspera da Páscoa a igreja ficava cheia de luzes que se mantinham acesas a noite toda, e os recém-batizados levavam tochas. Gregório de Nissa, pregando sobre a ressurreição (Oração IV), descreve a cena: “Esta noite brilhante, misturando as chamas das tochas com os raios matinais do sol, fez um só dia contínuo, não dividido pela interposição das trevas.”

35. Ou, conforme a conjectura do editor beneditino, “as águas que têm uma fragrância portadora de Cristo (christophoron)”. Sobre o epíteto christophoros, veja a nota do bispo Lightfoot sobre Inácio, Aos Efésios, § 1 e § 9. O seu sentido, assim como o de Theophoros, é definido na resposta de Inácio a Trajano: Ho Christon echon en sternois (Martyrium Ignatii Antiochenum, § 2).

36. Catequese XXI, 1: “feitos, pois, participantes de Cristo, vocês são com razão chamados cristos”.

37. Versículo que ainda é cantado na Igreja grega logo que se completa o batismo.

38. S. Basílio tem uma passagem em louvor do batismo quase idêntica a esta, palavra por palavra. É mais provável que Basílio e outros Padres a tenham tomado de Cirilo do que se trate aqui de uma interpolação posterior.

39. Em grego, prosthesthai; na Septuaginta, Dt 13.4, “apegar-se a ele”. Compare Js 23.12; Sl 62.10, “não ponham nelas o coração”.

40. É duvidoso se esta advertência veio do próprio Cirilo, ao publicar uma cópia escrita das suas catequeses, ou de algum editor posterior. Eusébio (História Eclesiástica, V, 20) conservou uma adjuração de Irineu no fim do seu tratado Sobre a Ogdóade: “Eu conjuro você, que vier a copiar este livro, por nosso Senhor Jesus Cristo e pela sua gloriosa vinda, quando vier julgar os vivos e os mortos, a conferir o que escreveu e corrigi-lo cuidadosamente por esta cópia, da qual o transcreveu; e esta adjuração também você escreverá do mesmo modo e a porá na cópia.”

41. Em grego, to sunolon. Platão, Leis 654 B; Sofista 220 B.

Tradução para o português a partir da versão inglesa de Edwin Hamilton Gifford (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 7, Nova York, 1894), conferida com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são do tradutor inglês. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Cirilo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita de outro modo, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.