Seguem alguns dos principais sentidos do verbo que traduzimos por “justificar”:
1. Significa declarar ou pronunciar alguém justo ou reto; ou, em outras palavras, declarar que ele é o que realmente é: “foi justificado em espírito” (1Tm 3.16). 2. Estimar devidamente uma coisa (Mt 11.19). 3. Significa aprovar, louvar e recomendar (Lc 7.29; 16.15). 4. Inocentar de todo pecado (1Co 4.4). 5. Diz-se que um juiz justifica não só quando condena e castiga, mas também quando defende a causa do inocente. Por isso a palavra é tomada em sentido forense e significa ser achado ou declarado justo, inocente etc. (Mt 12.37). 6. Significa libertar, ou escapar de (At 13.39). 7. Significa também receber alguém no favor, perdoar o pecado (Rm 8.30; Lc 18.14; Rm 3.20; 4.2; 1Co 6.11 etc.). Em todos esses textos, a palavra “justificar” é tomada no sentido da remissão dos pecados pela fé em Cristo Jesus, e não significa tornar a pessoa justa ou reta, mas tratá-la como se o fosse, tendo-lhe já perdoado os pecados.
A justificação, ou o perdão do pecado, tem de preceder a santificação. A consciência tem de ser purificada ou limpa da culpa, de toda a culpa, e de toda a culpa de uma só vez. Em parte nenhuma das Escrituras somos orientados a buscar a remissão dos pecados seriatim, um agora, outro depois, e assim por diante.
A doutrina da justificação pela fé é uma das maiores manifestações da misericórdia de Deus para com a humanidade. É tão clara que todos podem compreendê-la e tão gratuita que todos podem alcançá-la. O que há de mais simples que isto? Você é pecador e, em consequência, está condenado à perdição e é totalmente incapaz de salvar a sua própria alma. Todos estão no mesmo estado que você, e ninguém pode pagar o resgate pela alma do seu próximo (Sl 49.7). Deus, na sua misericórdia, providenciou um Salvador para você. Como a sua vida estava condenada à morte por causa das suas transgressões, Jesus Cristo resgatou a sua vida dando a dele. Ele morreu no seu lugar, fez expiação a Deus pela sua transgressão e oferece a você o perdão que assim comprou, com a simples condição de que você creia que a morte dele é sacrifício, resgate e oblação suficientes pelo seu pecado, e de que a leve como tal, com fé confiante, ao trono de Deus e a apresente ali em seu próprio favor. Quando você fizer isso, a sua fé nesse sacrifício lhe será atribuída como justiça; isto é, será o meio de receber a salvação que Cristo comprou com o seu sangue.
A doutrina da justiça imputada de Cristo, como muitos a sustentam, não será facilmente encontrada em Romanos 4, onde se supôs que ela estivesse com todas as suas provas. Diz-se ali repetidas vezes que a fé é atribuída como justiça (Rm 4.3,5), mas em lugar nenhum que a obediência de Cristo à lei moral seja imputada a alguém. A verdade é que a lei moral tinha sido quebrada e já não exigia obediência. Exigia-a antes de ser quebrada; mas, depois de quebrada, exigia a morte. Ou o pecador tinha de morrer, ou alguém no seu lugar. E não havia ninguém cuja morte pudesse ser equivalente às transgressões do mundo, senão Jesus Cristo. Jesus, portanto, morreu pelo ser humano, e é pelo seu sangue, pelo mérito da sua paixão e morte, que temos redenção, e não pela sua obediência à lei moral em nosso lugar. A nossa salvação foi obtida por um preço muito mais alto. Jesus não podia deixar de ser justo e obediente; isso é consequência da pureza imaculada da sua natureza. Mas a sua morte não era consequência necessária. Como a lei de Deus só pode reclamar a morte de um transgressor (pois só estes perdem o direito à vida), o maior de todos os milagres é que Cristo pudesse morrer, ele cuja vida nunca foi perdida por culpa alguma. Aqui vemos o demérito indescritível do pecado, que exigiu tal morte; e aqui vemos a misericórdia estupenda de Deus, que providenciou o sacrifício exigido. É, portanto, pela morte de Jesus Cristo, ou pela sua obediência até a morte (Fp 2.8), que somos salvos, e não por ele ter cumprido alguma lei moral. Sabemos que ele cumpriu a lei moral, sem o que não poderia ter sido qualificado para ser o nosso Mediador. Mas devemos tomar cuidado para não atribuir à obediência (que era consequência necessária da sua natureza imaculada) o que pertence à sua paixão e morte. Estas foram ofertas voluntárias da Bondade eterna, e nem sequer uma consequência necessária da sua encarnação.
Essa doutrina da justiça imputada de Cristo presta-se a grandes abusos. Dizer que a justiça pessoal de Cristo é imputada a todo verdadeiro crente não é bíblico. Dizer que ele cumpriu toda a justiça por nós, em nosso lugar, se com isso se quer dizer que ele cumpriu todos os deveres morais, não é bíblico nem verdadeiro. Que ele morreu em nosso lugar é uma verdade grande, gloriosa e bíblica; que não há redenção senão pelo seu sangue é afirmado, sem contradição possível, nos oráculos de Deus. Mas há uma multidão de deveres que a lei moral exige que Cristo nunca cumpriu em nosso lugar, nem poderia cumprir. Temos vários deveres de natureza doméstica que pertencem só a nós, nas relações de pais, maridos, esposas, empregados etc., relações em que Cristo nunca esteve. Ele não cumpriu nenhum desses deveres por nós, mas dá graça a todo verdadeiro crente para cumpri-los, para a glória de Deus, a edificação do próximo e o seu próprio proveito eterno. A salvação que recebemos da livre misericórdia de Deus, por meio de Cristo, nos obriga a viver em estrita conformidade com a lei moral, a lei que prescreve os nossos costumes e o espírito pelo qual devem ser regulados e no qual devem ser vividos. Quem não vive no devido cumprimento de cada dever cristão, seja qual for a fé que professe, é ou um hipócrita vil ou um antinomiano escandaloso.
Diz-se que Deus “não trata as pessoas com parcialidade” (At 10.34; Rm 2.11) por esta razão, entre muitas outras: sendo infinitamente justo, tem de ser infinitamente imparcial. Ele não pode preferir um a outro, porque não tem nada a esperar nem a temer de nenhuma das suas criaturas. Todas as parcialidades entre os seres humanos brotam de um ou de outro destes dois princípios, a esperança ou o medo. Deus não pode sentir nenhum dos dois e, por isso, não pode tratar as pessoas com parcialidade. Ele aprova ou desaprova as pessoas segundo o seu caráter moral. Tem compaixão de todos e providencia salvação para todos, mas ama os que se parecem com ele na sua santidade, e os ama na proporção dessa semelhança. Isto é: quanto mais da sua imagem vê em alguém, mais o ama, e vice-versa. E a obra de cada um será a evidência da sua conformidade ou não conformidade com Deus, e segundo essa evidência Deus o julgará. Aqui, portanto, não há parcialidade. O juízo de Deus será segundo as obras de cada um (1Pe 1.17), e as obras ou a conduta de cada um serão segundo o estado moral da sua mente. Nenhum favoritismo pode prevalecer no dia do juízo; ali nada passará senão a santidade de coração e de vida. Uma justiça imputada, e não possuída e praticada, de nada valerá onde Deus julga segundo as obras de cada um. Seria bom que esses pecadores e falsos crentes, que se imaginam seguros e completos na justiça de Cristo enquanto são impuros e ímpios em si mesmos, pensassem neste testemunho do apóstolo.1
Como a vida eterna é dada NO Filho de Deus, segue-se que não pode ser desfrutada SEM ele. Ninguém pode tê-la sem ter Cristo. Por isso, “quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida” (1Jo 5.12). É inútil esperar a glória eterna se não temos Cristo no coração. O Cristo que habita em nós dá tanto o direito a ela quanto a aptidão para ela. Este é o testemunho de Deus (1Jo 5.11). Que ninguém se engane aqui. Cristo habitando em nós, e glória; Cristo não habitando em nós, nenhuma glória. O testemunho de Deus tem de permanecer.
Quem são o rebanho de Cristo? Todos os verdadeiros penitentes; todos os verdadeiros crentes; todos os que seguem obedientemente o seu exemplo, abstendo-se de toda forma de mal (1Ts 5.22) e proclamando, numa vida e num procedimento santos, as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (1Pe 2.9). “As minhas ovelhas ouvem a minha voz […] e elas me seguem” (Jo 10.27). Mas quem não é do seu rebanho? Nem o desviado de coração; nem o antinomiano vil, que pensa que, quanto mais pecar, mais a graça de Deus será engrandecida ao salvá-lo; nem os que supõem tolamente estar cobertos com a justiça de Cristo enquanto vivem no pecado; nem a multidão dos indiferentes e descuidados; nem o imenso bando dos preguiçosos laodicenses (Ap 3.16); nem os fanáticos inflamados que excluiriam do céu todos, menos a si mesmos e ao partido dos que creem como eles. A estes a Escritura compara a porcos, cães, bodes, estrelas sem rumo (Jd 13), raposas, leões, fontes sem água (2Pe 2.17) etc. Que nenhum deles se adiante para comer deste pasto ou tomar o pão dos filhos (Mt 15.26). Jesus Cristo é o Bom Pastor, o Pastor que, para salvar o seu rebanho, deu a própria vida (Jo 10.11).
Abandonar tudo sem seguir a Cristo é a virtude de um filósofo. Seguir a Cristo na profissão, sem abandonar tudo, é o estado da maioria dos cristãos. Mas seguir a Cristo e abandonar tudo é a perfeição de um cristão.
Falar de Cristo, da sua justiça, dos seus méritos e da sua expiação, enquanto a pessoa não está conformada à sua palavra e ao seu Espírito, não é outra coisa senão um engano solene.
As vestes brancas dos santos não podem significar a justiça de Cristo, porque esta não pode ser lavada e alvejada no sangue dele mesmo (Ap 7.14). Diz-se que esse linho branco é a justiça dos santos (Ap 19.8). E é nessa justiça que eles estão diante do trono. Portanto, não é a justiça de Cristo, mas uma justiça operada neles pelo mérito do seu sangue e pelo poder do seu Espírito.
Devemos tomar cuidado com o antinomianismo, isto é, com a suposição de que, porque Cristo foi obediente até a morte, não há necessidade da nossa obediência aos seus justos mandamentos. Se fosse assim, a graça de Cristo tenderia à destruição da lei, e não à sua confirmação (Rm 3.31). Só é salvo dos seus pecados quem tem a lei de Deus escrita no coração e vive uma vida inocente, santa e útil. Onde quer que Cristo viva, ele age; e a sua obra de justiça aparecerá aos seus servos, e o seu efeito será repouso e segurança, para sempre (Is 32.17). A vida de Deus na alma humana é o princípio que salva e preserva eternamente.
A adoção.2 Adoção significa o ato de receber um estranho numa família e de lhe conferir todos os direitos, privilégios e benefícios que pertencem a um filho natural ou legítimo; receber o filho de um estranho numa família onde não havia filhos.
Isso não existia na lei judaica. Era propriamente um costume romano e, entre os romanos, era regulado por lei. E é à adoção, tal como era praticada entre os romanos, que o apóstolo alude aqui, em Gálatas 4.5, assim como em vários outros lugares das suas cartas.
Entre os antigos romanos, cada casa tinha o seu altar, os seus ritos religiosos e os seus deuses domésticos. Como tudo isso era considerado sacratíssimo, devia continuar para sempre naquela família. Por isso, se a família corria o risco de se extinguir por falta de filhos, admitia-se a adoção, para que a família, os seus ritos sagrados e os seus deuses fossem preservados. Essa era uma das leis das antiquíssimas “doze tábuas”, tão célebres na história da Roma antiga.
Quando, então, uma criança ia ser adotada numa família estranha, o seu pai a tomava e, apresentando-se com o filho diante do magistrado e de cinco testemunhas que fossem romanas, dizia: “Emancipo a ti este meu filho”. Então o pai adotivo, segurando uma moeda na mão e tomando ao mesmo tempo o filho, dizia: “Declaro que este homem é meu filho segundo a lei romana, e ele é comprado com este dinheiro”. E então a dava ao pai como preço do filho etc.
Todo romano tinha direito de vida e de morte sobre os filhos, assim como sobre os escravos. No caso da adoção, esse direito era entregue pelo pai natural ao pai adotivo, e o adotado entrava na nova família como se fosse a sua por natureza. Tomava o nome do pai adotivo e adquiria direito legal não só ao alimento, à roupa e a todos os confortos da vida, mas também à herança. Todos os parentes da nova família tinham com o adotado a mesma relação que teriam se ele fosse deles por natureza; e, em todos os privilégios, direitos e atos legais, ele era o mesmo que seria se tivesse nascido naquela família.
Mas ele continuava sujeito às leis e devia ser obediente em tudo, atento à honra e aos interesses da família. Em caso de rebelião contra o pai, podia ser morto, porque o pai adotivo tinha sobre o filho adotado a mesma autoridade que o seu pai natural tinha.
Assim como um pai podia deserdar o filho, também o pai adotivo podia deserdar o adotado. Pois deve-se considerar que o filho adotado, embora estivesse na condição e nos privilégios de filho natural, não tinha nenhum privilégio além dos deste.
Sem estender o paralelo além do estritamente necessário, podemos observar:
1. Que, como o ser humano tinha perdido todos os privilégios da sua filiação natural, para recuperá-los tinha de ser recebido na família por meio de adoção. Esse era o único modo.
2. Essa adoção supõe que ele está inteiramente separado da antiga família, sem mais nenhuma relação legal nem ligação com ela.
3. Que ele é recebido na nova família para ficar inteiramente sob o domínio e o governo de quem o adotou, para ser empregado como este quiser e para estar inteiramente à sua disposição, em corpo, alma e espírito.
4. Que, assim como por esse ato ele se torna herdeiro na nova família, também deve gozar desses privilégios enquanto agir de acordo com a lei estabelecida para esse caso e com as regras e a constituição da casa do pai.
5. Que o seu antigo parentesco de sangue agora mudou: ele é considerado do mesmo sangue da nova família e já não está em relação filial com nenhuma outra.
6. Que ele toma o próprio nome do pai adotivo e deve se conformar em tudo com aquela família.
Aplicando isso mais particularmente:
1. O ser humano, tendo pecado contra Deus, deixou de ser seu filho, pois, para constituir a filiação, é essencial que o filho partilhe a mesma natureza do pai. Como a natureza de Deus é santa, pura e perfeita, quando o ser humano pecou perdeu a sua conformidade com essa natureza; perdeu a imagem de Deus na qual foi criado e se tornou ímpio, impuro e imperfeito.
2. Para restaurá-lo, só restava o caminho da adoção. E isso não poderia ter acontecido se antes não tivesse havido outra adoção, a saber, a adoção da natureza humana por Jesus Cristo.
3. Essa adoção, portanto, supõe e exige absolutamente que ele seja cortado do antigo tronco e enxertado no novo, deixando para trás todos os seus pecados, hábitos pecaminosos, companhias pecaminosas e disposições pecaminosas. Ele já não é do seu antigo pai, o diabo (Jo 8.44), e em nada satisfaz os desejos dele, cumpre a sua vontade ou se associa aos seus seguidores. E, como o antigo parentesco mudou, ele agora está em relação apenas com Deus, com os santos anjos e com os santos homens, e é obrigado a manter em tudo a honra, a dignidade e o respeito da Família divina em que foi adotado.
4. Sendo adotado por Deus, já não pertence a si mesmo: é propriedade de Deus. Corpo, alma e espírito pertencem ao seu Pai celestial. Deve sentir-se sempre absolutamente à disposição de Deus e é obrigado, se quiser gozar dos privilégios da família, a tomar a palavra de Deus como regra da sua vida e o Espírito de Deus como regulador do seu coração e dos seus afetos.
5. E essa obediência à vontade do Pai, e essa conformidade com o Governador da família, se fundam no estado de salvação a que ele foi levado e nos privilégios inefáveis a que agora tem direito: ele é herdeiro de Deus e coerdeiro com Cristo Jesus (Rm 8.17).
6. Que, assim como por essa adoção ele adquire uma nova natureza, também tem um novo nome: é chamado pelo nome de Deus; filho de Deus, filho da família de Deus, herdeiro de Deus. Mas o nome próprio da família é Santo: todos os filhos adotivos são chamados para ser santos (1Co 1.2), porque à casa e à família de Deus convém a santidade, para todo o sempre (Sl 93.5). Onde não há santidade, não há adoção e, por consequência, não há qualidade de herdeiro nem herança.
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Millbrook, Prescot, 21 de janeiro de 1823.
Meu caro irmão Dunn,
Ontem à noite recebi a sua carta do dia 19 do mês passado e fiquei muito contente em ter notícias suas, e mais contente ainda em saber de tão boas novas. Vejo claramente que tudo está correndo como Deus costuma conduzir a sua obra. Não lamento que lhe tenham fechado as igrejas: para elas Deus nunca nos deu chamado, nem devemos edificar sobre fundamentos alheios. Temos uma obra a fazer que é só nossa. Conhecemos as nossas próprias dores na sua realização, e nenhum estranho se mete na nossa alegria. Não me admiraria ouvir em seguida que vocês são denunciados dos púlpitos como enganadores e hereges. Proclame com ousadia toda a verdade. Pregue-a com todas as suas provas e evidências, e deixe aquela matéria perversa que faz coro com as Onze Cartas tão completamente ignorada como se nunca tivesse existido. Penso exatamente como o sr. Wesley, que um dia ‘nos inclinamos demais para o calvinismo’, especialmente ao admitir, em qualquer sentido, a doutrina antibíblica da justiça imputada de Cristo. Nunca uso a distinção entre justiça imputada, justiça comunicada e justiça praticada. Em parte nenhuma do Livro de Deus se diz que a justiça de Cristo nos é imputada para a nossa justificação. E duvido muito que a doutrina da obediência ativa de Cristo na nossa justificação não diminua o mérito infinito da sua morte sacrificial; e se, por interpretação justa e dedução legítima, ela não acabaria provando, se admitida como acima, que não existia nenhuma necessidade absoluta da morte de Cristo. Pois, se os atos da sua vida justificam em parte, ou em conjunto, poderiam, num Personagem tão glorioso, ter justificado separadamente e por inteiro. E, por consequência, a sua agonia e o seu suor de sangue, a sua cruz e paixão, a sua morte, o seu sepultamento e a sua ascensão teriam sido totalmente inúteis, considerados como atos, e consequências de atos, chamados expiatórios. A nossa grande doutrina é: ‘Nele temos a redenção, pelo seu sangue’ (Ef 1.7). E nunca poderemos consolar com êxito os aflitos senão proclamando Cristo crucificado, que ‘foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou para a nossa justificação’ (Rm 4.25). Ele não é representado no céu realizando atos de justiça para a nossa justificação, mas como o Cordeiro recém-imolado diante do trono. Há muito tempo penso que a doutrina da justiça imputada, como certas pessoas a sustentam, é composta em partes iguais de farisaísmo e antinomianismo; e certamente eu teria muito pouco trabalho, por análise ou por síntese, para demonstrar isso, por menos que os seus defensores pensem no assunto. Mas siga o seu caminho, pregando todas as nossas doutrinas, mas não de modo polêmico. E, se em algum momento você for obrigado a repelir ataques, faça-o na mansidão de Cristo. As nossas grandes doutrinas do testemunho do Espírito e da perfeição cristã se opõem a todas as más disposições, assim como às más palavras e obras.
A paz de Deus esteja com você. Escreva com frequência ao
seu afetuoso irmão e amigo,
A. Clarke.”
[N. do T.: a frase de Wesley citada por Clarke vem das Atas da Conferência Metodista de 1770, que retomam uma afirmação de 1744: “We said in 1744, We have leaned too much towards Calvinism”. As Onze Cartas são provavelmente as Eleven Letters de James Hervey a John Wesley, publicadas depois da morte de Hervey (1765), em defesa da justiça imputada; Clarke não as identifica melhor.]
1. “As ideias contidas na carta seguinte merecem a atenção do leitor. ↩
2. “Como a adoção não é tanto um ato distinto de Deus, mas está incluída na nossa justificação, não julguei necessário dar-lhe um capítulo separado. S. D.” ↩