Capítulo XI

O Espírito Santo

Páginas 158 a 195 da edição de 1835

O testemunho do Espírito. Assim como toda alma piedosa que cria no Messias vindouro, por meio dos sacrifícios oferecidos sob a lei, se tornava participante do mérito da sua morte, assim também toda alma piedosa que crê em Cristo crucificado se torna participante do Espírito Santo. É por esse Espírito que o pecado se dá a conhecer, e é por ele que o sangue da aliança é aplicado. Na verdade, sem ele, não se pode descobrir a necessidade da salvação, nem avaliar devidamente o valor do sangue da aliança.

Desde a fundação da igreja de Deus, os seus seguidores sempre creram que havia certos sinais infalíveis pelos quais ele mostrava aos verdadeiros crentes que os aceitava, a eles e ao seu culto. Às vezes isso se fazia por um fogo do céu que consumia o sacrifício; às vezes, por uma comunicação oracular ao sacerdote ou ao profeta; e, outras vezes, segundo a tradição judaica, mudando de escarlate para branco a faixa ou pano preso à cabeça do bode emissário. Mas, mais comumente, e sobretudo na dispensação do evangelho, ele dá essa certeza aos verdadeiros crentes pelo testemunho do seu Espírito na consciência deles, de que lhes perdoou as iniquidades, as transgressões e os pecados por amor daquele que tomou sobre si as suas enfermidades e levou sobre si as suas dores (Is 53.4).

“O próprio Espírito” (Rm 8.16): esse mesmo Espírito, o Espírito de adoção, isto é, o Espírito que testemunha essa adoção. Não pode ser outro senão o próprio Espírito Santo, e certamente não pode significar alguma disposição ou afeto da mente que a pessoa adotada possa sentir. Pois tal disposição teria de nascer do conhecimento dessa adoção, e a adoção não pode ser conhecida por nenhum meio humano ou terreno; esse conhecimento tem de vir do próprio Deus. “Ao nosso espírito”: no nosso entendimento, o lugar ou receptáculo da luz e da informação, o lugar ou a faculdade a que tal informação pode ser devidamente levada. Isso se faz para que tenhamos a maior evidência possível da obra que Deus realizou. Assim como a janela é o meio próprio para deixar entrar nos nossos aposentos a luz do sol, o entendimento é o meio próprio para levar à alma a influência do Espírito. Temos, portanto, a maior evidência que podemos ter do fato da nossa adoção: temos a palavra e o Espírito de Deus, e a palavra selada no nosso espírito pelo Espírito de Deus. E não é um influxo momentâneo. Se tivermos o cuidado de andar com Deus e não entristecer o Espírito Santo, teremos um testemunho permanente. Enquanto permanecermos fiéis ao nosso Pai adotivo, o Espírito que testemunha essa adoção continuará a testemunhá-la, e assim saberemos que somos de Deus pelo Espírito que ele nos deu (1Jo 3.24).

“O próprio Espírito”, isto é, o Espírito que testemunha a nossa adoção e filiação, intercede por nós (Rm 8.26). Certamente, se o apóstolo quisesse nos ensinar que por “Espírito” entendia o nosso próprio senso e entendimento, nunca teria falado de um modo que o simples bom senso jamais compreenderia. Além disso, como se pode dizer que o nosso próprio espírito, a nossa disposição filial, confirma ao nosso próprio espírito; que o nosso próprio espírito ajuda as fraquezas do nosso próprio espírito; que o nosso próprio espírito ensina ao nosso próprio espírito aquilo que ele ignora; e que o nosso próprio espírito intercede pelo nosso espírito com gemidos inexprimíveis? Isso seria incoerente e absurdo. Devemos, portanto, entender essas passagens como referentes à ajuda e à influência que os seguidores de Deus recebem do Espírito Santo e, por consequência, ao cumprimento das várias promessas que o nosso Senhor fez aos seus discípulos sobre esse ponto.

O Espírito Santo é enviado para confirmar ao espírito deles. Ele deve dar o seu testemunho onde isso é absolutamente necessário, onde pode ser devidamente percebido, onde pode ser plenamente entendido e onde não pode haver engano, a saber, no coração deles; ou, como diz São Paulo, “O próprio Espírito confirma ao nosso espírito” (Rm 8.16). O Espírito de Deus com o espírito do ser humano: Espírito com espírito, inteligência com inteligência; o testemunho dado e recebido pela mesma espécie de agente. Um agente espiritual numa substância espiritual.

Esse testemunho não é dado nas paixões deles, nem em impressões feitas na imaginação, pois isso seria, por sua própria natureza, duvidoso e passageiro. É dado no entendimento deles, não por uma manifestação transitória, mas continuamente, a menos que alguém, por pecados de omissão ou de ação, entristeça esse Espírito divino e o leve a retirar o seu testemunho (que é o mesmo que a aprovação divina). E Deus não pode continuar a dar à alma o senso da sua aprovação quando ela se afastou do santo mandamento que lhe foi dado. Mas, mesmo nesse caso, a pessoa pode voltar a Deus pelo arrependimento e pela fé, por meio de Cristo, e então o perdão será concedido e o testemunho restaurado.

Onde quer que esse Espírito venha, ele dá testemunho de si mesmo. Mostra pela sua própria luz que é o Espírito divino, e quem o recebe fica perfeitamente convencido disso. Ele traz uma luz, um poder e uma convicção mais plenos, mais claros e mais convincentes para o entendimento e o juízo do que eles jamais tiveram, ou podem ter, de qualquer circunstância ou fato apresentado ao intelecto. A pessoa sabe que é o Espírito divino e sabe e sente que ele testemunha o estado de graça em que ela se encontra.

Esse testemunho é tão convincente e satisfatório que quem o recebe se torna capaz de chamar Deus de seu Pai com a maior confiança filial. Surpreso e convencido, clama imediatamente: “Aba, Pai! Meu Pai! Meu Pai!”, com uma consciência de ser filho de Deus tão plena quanto a que o filho mais ternamente amado tem da sua filiação ao seu pai natural. Tem a plena certeza da fé, a evidência meridiana, que põe em fuga todas as dúvidas.

E isso, como se observou acima, continua, porque é a própria voz do Espírito que habita em nós. Pois o termo traduzido por “clama” (gr. krázon) não é só um particípio presente, que indica a continuação da ação; sendo neutro, concorda com “o Espírito de seu Filho”, de modo que é o Espírito divino que continua a clamar “Aba, Pai!” no coração do verdadeiro crente (Gl 4.6). [N. do T.: Clarke comenta o grego krázon, particípio neutro que concorda com pneuma, “Espírito”.] E é sempre digno de nota que, quando alguém foi infiel à graça recebida, ou caiu em qualquer espécie de pecado, não tem poder para soltar esse clamor. O Espírito se entristeceu e se retirou, e o clamor se perdeu! Nenhum poder da razão, da fantasia ou da imaginação humanas pode restaurar esse clamor. Se a pessoa pronunciasse as palavras com os lábios, o seu coração as desmentiria. Mas, por outro lado, enquanto ela permanece fiel, o testemunho continua; a luz, a convicção e o clamor se mantêm. A glória dessa graça é que ninguém pode produzir esse clamor por ordem própria, e ninguém pode fingi-lo. Onde ele está, é a testemunha fiel e verdadeira; onde não está, tudo é incerteza e dúvida.

As pessoas mencionadas em Romanos 8.15-16 tinham a evidência mais forte da excelência do estado em que se encontravam. Sabiam que tinham sido adotadas assim, e sabiam isso pelo Espírito de Deus, que lhes foi dado na sua adoção. E, permitam-me dizer, não poderiam sabê-lo por nenhum outro meio. O Pai que as adotara não podia ser visto por nenhum olho mortal, e o ato, sendo de natureza puramente espiritual e realizado no céu, só pode ser conhecido pelo testemunho sobrenatural de Deus a respeito dele na terra. É assunto de tão solene importância para toda alma cristã que Deus, na sua misericórdia, quis não deixá-lo à conjectura, à suposição ou ao raciocínio indutivo, mas o atesta pelo seu próprio Espírito na alma da pessoa que ele adota por meio de Cristo Jesus. É o caso grande e mais notável em que se mantém a comunicação entre o céu e a terra. E o verdadeiro crente em Cristo Jesus não fica entregue às sutilezas ou à casuística dos teólogos polêmicos ou dos críticos, mas recebe a coisa, e o testemunho dela, diretamente do próprio Deus. Se o testemunho desse estado não fosse dado assim, ninguém poderia ter nenhuma certeza da sua salvação capaz de gerar confiança e amor. Se para alguém a sua aceitação diante de Deus é hipotética, a sua confiança também tem de ser. O seu amor a Deus tem de ser hipotético, a sua gratidão hipotética, e também a sua obediência. Se Deus me perdoou os pecados, então eu o amaria, seria grato e mostraria essa gratidão pela obediência. Mas quem não vê que tudo isso depende necessariamente do “se” do primeiro caso? Toda essa incerteza, e as perplexidades que necessariamente resultam dela, Deus as excluiu ao enviar ao nosso coração o Espírito de seu Filho, pelo qual clamamos “Aba, Pai!”. E assim a nossa adoção na família celestial nos é testemunhada e confirmada do único modo em que isso pode ser feito, pela influência direta do Espírito de Deus. Tire-se isso do cristianismo, e ele é letra morta.

O fato a ser testemunhado está além do conhecimento humano. Nenhum poder ou astúcia humana pode alcançá-lo; se for obtido, tem de vir do alto. Nisso o engenho e a habilidade humanos não podem fazer nada. Trata-se de nos dizer que estamos reconciliados com Deus, que os nossos pecados foram apagados, que fomos adotados na família do céu. O apóstolo nos diz que isso é testemunhado pelo Espírito de Deus. Só Deus pode dizer quem ele aceitou, de quem apagou os pecados, quem pôs entre os seus filhos. E ele dá isso a conhecer pelo seu Espírito no nosso espírito, de modo que temos (não por indução ou inferência) uma convicção completa e um sentimento interior de que somos filhos dele.

Entre isso e o conhecimento obtido por argumentação lógica há tanta diferença quanto entre hipótese e experiência. A hipótese afirma que uma coisa pode ser assim; só a experiência prova se a hipótese é verdadeira ou falsa. Pela primeira, pensamos que a coisa é possível ou provável; pela segunda, sabemos, experimentamos ou provamos, por teste prático, que a coisa é verdadeira, ou falsa, conforme o caso.

Eu nunca teria procurado o “testemunho do Espírito” se não tivesse encontrado numerosas passagens das Escrituras que o afirmam da maneira mais positiva, ou o apresentam por inferência necessária; e se não tivesse verificado que todas as pessoas verdadeiramente piedosas, de toda seita e partido, possuíam essa bênção, uma bênção que é o direito de nascença comum a todos os filhos e filhas de Deus. Onde quer que eu fosse entre pessoas profundamente religiosas, encontrava essa bênção. Todos os que tinham se afastado da injustiça para o Deus vivo, e buscado a redenção pela fé no sangue da cruz, exultavam nessa graça. Nunca a viam como um privilégio concedido a algumas almas especialmente favorecidas; sabiam, pelas Escrituras e pela experiência, que era a porção comum do povo de Deus. Não eram pessoas de um temperamento particular que a possuíam; todos os verdadeiramente religiosos a tinham, fossem de disposição natural sanguínea, melancólica ou mista. Encontrei-a em toda parte, e entre os mais simples e iletrados, assim como entre os que tinham todas as vantagens que a alta cultura e o profundo saber podiam conceder. Talvez eu pudesse dizer, com a mais estrita verdade, que, durante os quarenta anos em que estou no ministério, encontrei pelo menos quarenta mil pessoas que tinham uma evidência clara e plena de que Deus, por amor de Cristo, lhes perdoara os pecados, confirmando o próprio Espírito ao espírito delas que eram filhos e filhas de Deus.

Nunca confundimos o conhecimento da salvação pela remissão dos pecados com a perseverança final. Essa doutrina não tem nada a ver com uma posse futura. A alma que crê de verdade tem agora o testemunho em si mesma (1Jo 5.10), e conservá-lo depende da sua fidelidade à luz e à graça recebidas. Se ceder a algum pecado conhecido, perde esse testemunho e tem de vir a Deus por meio de Cristo como veio da primeira vez, para obter o perdão da culpa da transgressão e a restauração da luz do rosto de Deus. Pois a justificação que uma alma recebe não se refere ao perdão futuro do pecado, já que Deus declara a sua justiça “para a remissão dos pecados passados” (cf. Rm 3.25). [N. do T.: forma da King James; a NAA diz “deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”.] E ninguém pode conservar a evidência da sua aceitação diante de Deus por mais tempo do que conserva a fé que atua pelo amor (Gl 5.6). O estado presente é um estado de provação. Nele uma pessoa pode se levantar, cair ou se recuperar, e com isso a doutrina do “testemunho do Espírito” não tem nada a ver. Quando alguém é justificado, todos os seus pecados passados são perdoados; mas essa graça não alcança nenhum pecado que venha a ser cometido em qualquer momento seguinte.

Mas pode-se objetar: “A mente humana cai facilmente sob o domínio da superstição e da imaginação, e então vários sentimentos aparentemente divinos podem ser explicados por princípios naturais”. A isso respondo: 1. Nunca se viu a superstição produzir paz e felicidade estáveis; em geral ela é mãe de apreensões sombrias e medos irracionais. Mas certamente não se pode supor que esteja sob a influência da superstição o homem que quebrou as leis do seu Criador e viveu em rebelião aberta contra ele, quando teme a ira de Deus e receia cair nas dores amargas de uma morte eterna. Tais temores são tão racionais quanto bíblicos, e o coração quebrantado e contrito é sempre considerado, em todos os Oráculos de Deus, essencialmente necessário para encontrar a redenção em Cristo. Portanto, esses temores, sentimentos e apreensões não são filhos de uma superstição sombria, mas fruto e evidência de um arrependimento genuíno e bíblico. 2. A imaginação não consegue sustentar por muito tempo um engano da mente. Persuadir a alma de que passou das trevas para a luz, de que está no favor de Deus, de que é herdeira da glória etc. exigiria de fato uma excitação forte; e, quanto mais forte a causa excitante, ou estímulo, mais depressa se esgotam a excitabilidade e os seus efeitos. Uma pessoa pode imaginar por um momento que é rei, ou que é filho de Deus; mas esse devaneio, onde não há uma perturbação radical da mente, tem de ser passageiro. A pessoa logo tem de acordar e voltar a si. 3. Mas é impossível que a imaginação tenha algo a ver com este caso, mais do que qualquer outra faculdade da mente na sua atividade natural. Pois a pessoa tem de andar como a palavra de Deus a orienta, detestando o mal e apegando-se ao bem. E o senso da aprovação de Deus na sua consciência não dura mais do que o tempo em que ela age no espírito de obediência, já que Deus continua a dar à sua consciência a evidência da sua aprovação enquanto ela anda em novidade de vida. A imaginação já produziu alguma vez uma vida de piedade? Ora, há multidões que tiveram esse testemunho sem interrupção durante muitos anos seguidos. Poderia a imaginação produzir isso? Se pudesse, seria um caso único, pois não há outro em que uma excitação da imaginação tenha sustentado a impressão com tal permanência. E todas as operações dessa faculdade provam que ela é totalmente incapaz de um efeito dessa espécie. Se, então, ela pode sustentar impressões em assuntos espirituais durante anos seguidos, isso tem de ser inteiramente sobrenatural, efeito de uma operação miraculosa; e seria preciso recorrer a esse milagre para descartar uma doutrina que alguns, porque eles mesmos não a experimentam, negam que outros possam experimentar.

Mas poderia eu, sem ofender, dizer uma palavra a meu próprio respeito? Os que me conhecem sabem que não sou fanático; que não dei prova de imaginação forte; que estou longe de ser sujeito a esperanças ou medos repentinos; que preciso de razões fortes e argumentação clara para me convencer da verdade de qualquer proposição que eu não conhecia antes. Ora, declaro ter recebido, pela eterna misericórdia de Deus, uma evidência clara da minha aceitação diante dele. Ela me foi dada depois de uma noite dolorosa de aflição espiritual, e exatamente da maneira em que as Escrituras prometem essa bênção. Foi acompanhada também de poder sobre o pecado, e eu a conservo, pela mesma misericórdia, tão explícita, tão clara e tão satisfatoriamente quanto antes. Nenhuma obra da imaginação poderia ter produzido ou mantido um sentimento como esse. Posso, portanto, afirmar com segurança, por todas essas razões, que não entendemos mal nem aplicamos mal as passagens das Escrituras em questão.

Quanto à doutrina da certeza da salvação (ou do conhecimento da nossa salvação pela remissão dos pecados; ou, em outras palavras, de que quem é justificado pela fé em Cristo Jesus sabe que o é, confirmando o Espírito ao seu espírito que ele é filho de Deus), contra a qual se levantou um clamor tão terrível, peço licença para perguntar: o que é o cristianismo sem ela? Um simples sistema de ética, uma história autêntica, uma letra morta. É pelas operações do Espírito Santo na alma dos crentes que se mantém a ligação entre o céu e a terra. O grande princípio da religião cristã é reconciliar as pessoas com Deus por Cristo Jesus; trazê-las de um estado de ira para a reconciliação e o favor de Deus; quebrar o poder, cancelar a culpa e destruir o próprio ser do pecado, pois Cristo se manifestou para destruir as obras do diabo (1Jo 3.8). E pode isso acontecer em alguma alma humana sem que ela saiba nada a respeito, a não ser por inferência e conjectura? Miserável estado do cristianismo, de fato, onde ninguém sabe que nasceu de Deus! Essa certeza do amor de Deus é o direito de nascença e o privilégio comum de todos os seus filhos. É uma experiência geral entre as pessoas verdadeiramente religiosas: descansam, levantam-se, trabalham e vivem sob a sua influência. Por ela são levadas com consolo por todos os males da vida, produzem os frutos do Espírito, triunfam na graça redentora e morrem exultando naquele que sabem e sentem ser o Deus da sua salvação. E isso não se limita a mulheres de idade avançada, como o sr. Southey caridosamente espera que fosse a sra. Wesley quando declarou ter recebido o conhecimento da salvação pela remissão dos pecados. Também homens tão eruditos quanto o sr. Badcock, tão filosóficos quanto o sr. Southey, tão versados nos homens e nas coisas quanto o bispo Lavington, e pelo menos tão sãos teólogos quanto o reitor de Manaccan, exultaram nesse mesmo testemunho, andaram com toda a boa consciência diante de Deus, ilustraram a doutrina com uma conduta condizente e morreram cheios da alegre expectativa da glória eterna! [N. do T.: Clarke responde a críticos do metodismo: Robert Southey, autor de uma Vida de Wesley (1820); George Lavington, bispo de Exeter, que atacou os metodistas como fanáticos; e Richard Polwhele, pároco de Manaccan, na Cornualha, outro crítico; Samuel Badcock (1747-1788) escreveu de modo depreciativo sobre a família Wesley. A “sra. Wesley” é Susanna Wesley, mãe de John e Charles, que recebeu a certeza do perdão já idosa.] Ai, que história triste contam esses homens, que não só procuram argumentar contra a doutrina, mas se esforçam por ridicularizá-la! Contam-nos que não estão reconciliados com Deus!

Nenhuma salvação por indução ou inferência pode satisfazer uma consciência culpada, que sente a ira de Deus permanecendo sobre ela. Só o testemunho do Espírito de Deus ao nosso espírito, de que somos filhos de Deus, pode acalmar os terrores de um pecador despertado, dar descanso a um coração perturbado ou servir de fundamento sobre o qual a alma possa construir uma esperança racional e bíblica da vida eterna.

O Espírito Santo na alma do crente é o selo de Deus, posto no seu coração para testificar que ele é propriedade de Deus e que deve estar inteiramente empregado no serviço de Deus.

Assim como Cristo é representado como o embaixador do Pai, o Espírito Santo é representado como o embaixador do Filho, vindo revestido da sua autoridade, como intérprete e executor da sua vontade.

Sabemos, pelo Espírito que ele nos deu, que permanecemos em Deus e Deus em nós (1Jo 4.13). Não era por conjectura ou inferência que os cristãos de outrora sabiam que estavam no favor de Deus; era pelo testemunho do próprio Espírito de Deus no coração deles. E esse Espírito não era dado de modo passageiro, mas constante e permanente, enquanto eles continuavam sob a influência da fé que atua pelo amor. Toda pessoa boa é templo do Espírito Santo, e onde quer que ele esteja é luz e poder. Pelo seu poder ele age; pela sua luz ele dá a conhecer tanto a si mesmo quanto a sua obra. A paz de consciência e a alegria no Espírito Santo têm de proceder da habitação desse Santo Espírito, e quem tem essas bênçãos tem de saber que as tem, porque não podemos ter paz celestial e alegria celestial sem saber que as temos. Mas esse Espírito na alma do crente não só se manifesta pelos seus efeitos, como dá o seu próprio testemunho da sua própria habitação. De modo que a pessoa não só sabe que tem o Espírito pelos frutos do Espírito, mas sabe que o tem pelo seu testemunho direto. Pode-se perguntar: “Como podem ser essas coisas?”. E pode-se responder: “Pelo poder, pela luz e pela misericórdia de Deus”. Mas que essas coisas são assim, as Escrituras atestam uniformemente, e a experiência de toda a verdadeira igreja de Cristo e de toda alma verdadeiramente convertida o prova suficientemente. “O vento sopra onde quer”, e não sabemos “de onde ele vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). A coisa é certa e plenamente conhecida pelos seus efeitos; mas como esse testemunho é dado e confirmado é inexplicável. Toda pessoa boa o sente e sabe que é de Deus pelo Espírito que Deus lhe deu.

Na experiência de multidões de pessoas simples, que pela pregação do evangelho foram convertidas do erro dos seus caminhos, podemos ver um testemunho tão forte em favor da obra de Deus no coração, e do seu ensino eficaz na mente, que é capaz de calar, ou reduzir ao silêncio, tudo, menos o fanatismo e o preconceito, nenhum dos quais tem olhos ou ouvidos. Esse ensino e essas influências que mudam ou convertem vêm de Deus. Não se adquirem pelo saber humano, e os que põem esse saber no lugar do ensino divino nunca se tornam sábios para a salvação. Para entrar no Reino dos Céus, a pessoa tem de se tornar como criança (Mt 18.3).

Não há nada mais comum, mesmo entre os membros mais instruídos e esclarecidos da sociedade metodista, do que um conhecimento distinto do tempo, do lugar e das circunstâncias em que foram profundamente convencidos do pecado e depois tiveram um senso claro da misericórdia de Deus para com a sua alma, perdoando-lhes os pecados e dando-lhes em si mesmos o testemunho de que tinham nascido de Deus.

Os metodistas, para provar a doutrina do testemunho do Espírito, não se referem a homem nenhum, nem mesmo ao sr. John Wesley. Não apelam para ninguém: apelam para a Bíblia, onde essa doutrina está tão inexpugnável quanto as colunas do céu. Nem precisam de casos isolados como fatos para provar que, nesse ponto, não entenderam mal a Bíblia, já que, pela misericórdia de Deus, têm milhares de testemunhos da sua verdade todos os anos e sabem que ela é o direito de nascença comum de todos os filhos e filhas de Deus. Sem ela, toda a vida de fé seria hipotética. E, se alguém não tem as consolações do Espírito Santo e uma evidência bíblica e satisfatória do seu próprio interesse em Cristo e do seu direito, por meio dele, ao Reino dos Céus, o Alcorão, pelo que ele sabe, pode ser tão verdadeiro quanto a Bíblia. Ninguém pode herdar a não ser que seja filho: “E, se somos filhos, somos também herdeiros” (Rm 8.17). E aos que são filhos “Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: Aba, Pai!” (Gl 4.6). Estas são as verdadeiras palavras de Deus, e todo o seu povo as conhece.

Os que sentem pouco ou nada da obra de Deus no próprio coração não estão dispostos a admitir que ele opere nos outros. Muitos negam as influências do Espírito de Deus simplesmente porque nunca as sentiram. Isso é fazer da experiência de alguém a regra pela qual toda a palavra de Deus deve ser interpretada e, por consequência, não deixar na Bíblia mais divindade do que a que se encontra no coração de quem se propõe explicá-la.

Quando efeitos morais, os mais puros, os mais notáveis e os mais benéficos para a sociedade, são atribuídos a causas naturais, às paixões humanas e às inquietações da vaidade, e não ao Autor de todo bem, o Pai das luzes (Tg 1.17), podemos afirmar com segurança que quem os vê assim é um daqueles insensatos de quem fala o salmista. Ele exclui Deus da sua própria obra; dá à natureza o que pertence à graça, às paixões humanas o que pertence ao Espírito divino e às causas secundárias o que tem de proceder necessariamente da Causa Primeira de todas as coisas.

Se o assunto não fosse tão grave, seria suficiente para provocar mais que um sorriso ver homens de capacidade e de saber, ao discutir assuntos espirituais que nunca examinaram a fundo, porque nunca os sentiram por experiência, se esforçarem para explicar todos os fenômenos do arrependimento, da fé e da santidade excluindo o Espírito de Deus da sua própria obra; e, para descrédito do seu entendimento e desonra da religião e da boa filosofia, procurarem em algumas das piores paixões do coração humano o princípio que produz o amor a Deus e a toda a humanidade, com todos os frutos de uma vida santa.

O Espírito Santo satisfaz de tal modo as almas que o recebem que elas não têm mais sede de bens terrenos (Jo 4.14). Ele também purifica de toda contaminação espiritual, razão pela qual é chamado enfaticamente Espírito Santo; e torna os que o recebem fecundos em toda boa palavra e obra.

Produzir a espiritualidade interior é tarefa do Espírito de Deus, e só dele. Por isso ele é representado sob a imagem do fogo, porque deve iluminar e fortalecer a alma, penetrar todas as suas partes e assemelhar o todo à imagem do Deus da glória.

Tão verdadeiramente quanto o Deus vivo habitou no tabernáculo mosaico e no templo de Salomão, o Espírito Santo habita na alma dos verdadeiros cristãos.

Ninguém que não tenha ajuda divina pode encontrar o caminho do céu, ou andar nele depois de encontrado. Assim como Cristo, pela sua oferta sacrificial, abriu o reino de Deus a todos os crentes e, como Mediador, trata dos negócios desse reino diante do trono, assim o Espírito de Deus é o grande Agente aqui embaixo, para iluminar, vivificar, fortalecer e guiar os verdadeiros discípulos de Cristo. Todos os que nascem desse Espírito são conduzidos e guiados por ele, e ninguém pode pretender ser filho de Deus sem ser guiado assim.

Para purificar a alma, para refinar e sublimar todas as paixões e todos os apetites, é prometida a operação do Espírito Santo. Só o espírito pode agir com êxito sobre o espírito. E esse Espírito é chamado Espírito Santo não só porque é santo em si mesmo, mas porque é o Autor da santidade nos que o recebem. Por isso é representado sob a figura do fogo, porque ilumina, aquece, refina e purifica. É próprio do fogo ou consumir e destruir, ou assemelhar a si tudo aquilo com que entra em contato. Ele penetra todas as coisas, difunde-se por todas as partes, destrói ou decompõe tudo o que não resiste à sua ação e comunica as suas propriedades essenciais a tudo o que suporta a sua prova. Assim o Espírito Santo, o “Espírito de ardor”, destrói a contaminação do coração e torna puras e divinas todas as suas forças e faculdades. [N. do T.: Clarke segue a King James em Is 4.4, spirit of burning; a NAA traz “Espírito purificador”.]

“A comunhão do Espírito Santo esteja com todos vocês” (2Co 13.13). Que esse Espírito Santo, essa Energia divina e eterna que procede do Pai e do Filho, esse fogo celestial que dá luz e vida, que purifica e refina, sublima e exalta, consola e fortalece, faça todos vocês participantes dele mesmo. Isso mostra os privilégios espantosos dos verdadeiros crentes. Eles têm comunhão com o Espírito de Deus; participam de todos os seus dons e graças; andam na sua luz; por meio dele têm a mais plena confiança de que são de Deus, de que ele é o seu Pai e Amigo e apagou todas as suas iniquidades. Isso eles sabem pelo Espírito que ele lhes deu. E é possível que alguém seja participante do Espírito Santo e não o saiba? Que esteja cheio de luz e de amor e não o saiba? Que tenha o Espírito de adoção pelo qual pode clamar “Aba, Pai!” e, ainda assim, não saiba nada da sua relação com Deus senão por inferência de provas indiretas? Numa palavra, que tenha consigo a graça do nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo e, o tempo todo, não saiba nada de certo sobre a graça, quanto à sua porção nela; não sinta nada que o aqueça no amor, quanto à parte deste nele; e nada de vigoroso na comunhão, quanto à sua participação nos dons e nas graças dessa Energia divina? Tudo isso é tão absurdo quanto impossível. Todo cristão verdadeiro que anda em estreita comunhão com Deus pode ter uma evidência tão plena da sua aceitação diante de Deus quanto tem da sua própria existência. E a doutrina que descarta esse privilégio, ou o abranda até reduzi-lo a nada, tornando o estado mais gracioso e seguro compatível com inúmeras dúvidas, medos e incerteza geral, não é de Deus. É um evangelho espúrio que, sob a aparência de humildade voluntária, não só rebaixa, mas quase aniquila o padrão do cristianismo.

Uma comunicação desse Espírito sempre abre caminho e prepara para outra. Nem apóstolo nem cristão comum pode subsistir na vida divina sem influências frequentes do alto.

Quando reconciliados com Deus, e assim aproximados pelo sangue de Cristo, recebemos o dom do Espírito Santo, que é fruto da morte, da ressurreição e da ascensão do nosso Senhor. E esse Espírito, que é chamado enfaticamente Espírito Santo porque não só é infinitamente santo na sua natureza, mas o seu grande ofício é tornar santos os filhos dos homens, é dado aos verdadeiros crentes não só para “confirmar ao seu espírito que são filhos de Deus”, mas também para purificar o coração deles. E assim ele derrama na alma deles a sua própria santidade e pureza, de modo que a imagem de Deus na qual foram criados, e que pela transgressão tinham perdido, agora é restaurada. E, por essa santidade, eles ficam preparados para o gozo da bem-aventurança eterna, em perfeita união com aquele que é o Pai e o Deus da glória e a Fonte da santidade.

Deus promete o seu Santo Espírito para santificar e purificar o coração, de modo a destruir completamente todo orgulho, ira, vontade própria, impaciência, ódio, malícia e tudo o que é contrário à sua própria santidade.

O próprio Espírito que lhes é dado quando creem em Cristo Jesus é o Espírito de santidade, e eles só podem conservar esse Espírito enquanto vivem no espírito de obediência.

É ofício do Espírito Santo testemunhar à consciência humana a aliança e as suas condições, aplicar o sangue da aspersão (Hb 12.24) e receber das coisas de Cristo e anunciá-las às pessoas (Jo 16.14). E é tarefa dele testemunhar ao coração do penitente que crê que, por esse sangue derramado, a sua consciência é purificada “de obras mortas” para servir ao Deus vivo (cf. Hb 9.14). Ele é também o Espírito santificador, o Espírito de juízo e o Espírito de ardor. Como tal, condena à destruição completa toda a inclinação da carne e purifica os próprios pensamentos do coração pela sua inspiração, capacitando o verdadeiro crente a amar a Deus perfeitamente e a engrandecer dignamente o seu santo nome. E esse mesmo Espírito, habitando na alma do crente, sela-o como herdeiro da glória eterna.

O Espírito Santo é chamado Advogado porque trata conosco da causa de Deus e de Cristo: explica-nos a natureza e a importância da grande Expiação, mostra a sua necessidade, aconselha-nos a recebê-la, instrui-nos sobre como tomar posse dela, defende o nosso direito a ela e intercede em nós com gemidos inexprimíveis.

O nosso Senhor intercede por nós negociando e administrando, como nosso Amigo e Procurador, todos os assuntos que dizem respeito à nossa salvação. E o Espírito de Deus intercede pelos santos (Rm 8.26-27) não suplicando a Deus em favor deles, mas dirigindo e moldando as suas súplicas de maneira adequada, pela sua ação e influência no coração deles, o que, segundo o plano do evangelho, é a obra e o ofício próprios do Espírito Santo. De modo que Deus, de quem é o Espírito e que conhece a mente do Espírito, sabe o que ele quer dizer quando leva os santos a se expressar em palavras, desejos, gemidos, suspiros ou lágrimas. Em cada um deles, Deus lê a linguagem do Espírito Santo e prepara a resposta segundo o pedido.

Esse Espírito não é enviado a troncos, pedras ou máquinas, mas a seres humanos dotados de alma racional. Por isso não deve agir sobre eles com aquela energia irresistível que tem de exercer sobre a matéria inerte para vencer a vis inertiae, ou disposição de permanecer eternamente imóvel, que é o estado de todos os seres inanimados. Ele age sobre o entendimento, a vontade, o juízo, a consciência etc., para iluminar, convencer e persuadir. Se, apesar de tudo, o entendimento, que é o olho da mente, se recusa a contemplar a luz; se a vontade decide permanecer obstinada; se o juízo se propõe tirar conclusões falsas; e se a consciência se endurece contra toda advertência e repreensão (e tudo isso é possível a uma alma racional, que tem de ser tratada de modo racional), então o Espírito de Deus, resistido assim, se entristece, e o pecador é deixado a colher o fruto das suas obras. Forçar a pessoa a ver, sentir, arrepender-se, crer e ser salva seria alterar os princípios essenciais da sua criação e a natureza da mente e reduzi-la à condição de uma máquina, cuja vis inertiae teria de ser vencida e conduzida por certa quantidade de força física, superior à resistência que seria o efeito natural da quantidade de vis inertiae possuída pelo objeto sobre o qual e pelo qual esse agente teria de operar. Ora, o ser humano não pode ser tratado desse modo, porque isso é contrário às leis da sua criação e da sua natureza; nem o Espírito Santo pode tratar como máquina aquele que ele mesmo fez agente livre. O ser humano, portanto, pode resistir ao Espírito Santo, e em geral resiste; e toda a revelação de Deus dá testemunho inequívoco dessa possibilidade terrível e dessa verdade tremenda. É brincar com o texto sagrado dizer que resistir ao Espírito Santo, aqui, significa “resistir às leis de Moisés, às exortações, ameaças e promessas dos profetas” etc. Essas coisas, é verdade, o ouvido incircunciso pode resistir; mas é só ao coração incircunciso que fala o Espírito que deu as leis, as exortações, as promessas etc. E, assim como a matéria resiste à matéria, o espírito resiste ao espírito. Aqueles eram incircuncisos não só de ouvidos, mas também de coração, e por isso resistiam ao Espírito Santo, não só nas suas declarações e instituições, mas também nas suas operações reais e poderosas sobre a mente deles. [N. do T.: o trecho comenta At 7.51: “Homens teimosos e incircuncisos de coração e de ouvidos, vocês sempre resistem ao Espírito Santo”.]

“Não entristeçam o Espírito Santo de Deus” (Ef 4.30), cedendo a alguma disposição má, palavra profana ou ação injusta. Mesmo os que já têm uma medida da luz e da vida de Deus, ambas trazidas pelo Espírito Santo e mantidas pela sua habitação constante, podem ceder ao pecado e entristecer de tal modo esse Espírito Santo que ele retire tanto a sua luz quanto a sua presença. E, na medida em que ele se retira, instalam-se a dureza e as trevas e, o que é ainda pior, o resultado é um estado de insensibilidade, porque as trevas impedem que o estado de queda seja visto, e a dureza impede que seja sentido.

O amor. O amor é uma preferência soberana dada a alguém acima de todos os outros, presentes ou ausentes; uma concentração de todos os pensamentos e desejos num único objeto, que é preferido a todos os outros. Ora, aplique-se essa definição ao amor que Deus exige das suas criaturas, e se terá a visão mais correta do assunto. Vê-se assim que, por esse amor, a alma se apega a Deus, o admira com afeto e, por consequência, descansa nele, supremamente contente e satisfeita com ele como sua Porção; que age a partir dele, como seu Autor, para ele, como seu Senhor, e em direção a ele, como seu Fim; que por ele todas as forças e faculdades da mente se concentram no Senhor do universo; que por ele o ser humano inteiro se entrega de boa vontade ao Altíssimo; e que por meio dele se adquire uma identidade, ou semelhança de espírito, com o Senhor, tornando-se a pessoa participante da natureza divina (2Pe 1.4), tendo em si o modo de pensar de Cristo (Fp 2.5) e, assim, permanecendo em Deus, e Deus nela (1Jo 4.16).

Ama a Deus de todo o coração quem não ama nada em comparação com ele, e nada senão em relação a ele; quem está pronto a abrir mão de tudo, fazer tudo ou sofrer tudo para agradá-lo e glorificá-lo; quem não tem no coração nem amor nem ódio, nem esperança nem medo, nem inclinação nem aversão, nem desejo nem prazer, senão na medida em que se relacionam com Deus e são regulados por ele. Tal amor, aquele Ser que é infinitamente perfeito, bom, sábio, poderoso, benfazejo e misericordioso merece e exige das suas criaturas inteligentes. E, cumprindo esse dever, a alma encontra a sua perfeição e a sua felicidade, porque descansa na Fonte da bondade e é penetrada por influências incessantes daquele que é a Essência e o Centro de tudo o que é amável, pois ele é o Deus de toda a graça.

Ama a Deus de toda a alma, de toda a vida, quem está pronto a dar a vida por amor dele; quem está pronto a suportar toda espécie de tormentos e a ser privado de toda espécie de confortos antes que desonrar a Deus; quem emprega a vida, com todos os seus confortos e conveniências, para glorificá-lo em tudo, por tudo e através de tudo; para quem a vida e a morte não são nada, senão enquanto vêm de Deus e levam a Deus; quem trabalha para promover no mundo a causa de Deus e da verdade, negando-se a si mesmo, tomando a sua cruz todos os dias; não comendo, bebendo, dormindo, descansando, trabalhando ou labutando senão em vista da glória de Deus, da sua própria salvação e da salvação do mundo perdido.

Ama a Deus de todo o entendimento, de todo o intelecto, quem se aplica somente a conhecer a Deus e a sua santa vontade; quem recebe com submissão, gratidão e prazer as verdades sagradas que ele revelou à humanidade; quem não estuda arte nem ciência senão na medida em que é necessário ao serviço de Deus, e as usa sempre para promover a glória dele; quem não forma projetos nem planos senão em relação a Deus e aos interesses da humanidade; quem afasta, quanto possível, do entendimento e da memória todo pensamento inútil, tolo e perigoso, junto com toda ideia que tenda a contaminar a sua alma, ou a desviá-la por um momento do centro do repouso eterno; quem usa todas as suas capacidades, naturais e adquiridas, para crescer na graça de Deus e cumprir a sua vontade da maneira mais aceitável. Numa palavra, quem vê Deus em todas as coisas, pensa nele em todo tempo, tendo a mente continuamente fixa em Deus; quem o reconhece em todos os seus caminhos; quem começa, continua e termina todos os seus pensamentos, palavras e obras para a glória do seu nome, planejando, projetando e inventando continuamente como servir a Deus e à sua geração com mais eficácia, com a cabeça, o intelecto, indo à frente, e o coração, os afetos e desejos, vindo atrás.

Ama a Deus de toda a força quem emprega todas as forças e faculdades do corpo e da alma no serviço de Deus; quem, para a glória do seu Criador, não poupa trabalho nem despesa; quem sacrifica o corpo, a saúde, o tempo e o descanso pela honra do seu divino Senhor; quem emprega no serviço dele todos os seus bens, os seus talentos, o seu poder, o seu crédito, a sua autoridade e a sua influência, fazendo o que faz com intenção pura, coração amoroso e com toda a sua força; em cuja conduta se vê sempre a operosidade da fé, a firmeza da esperança e a dedicação do amor (1Ts 1.3).

Ó estado glorioso daquele que deu a Deus todo o seu coração, e no qual Deus sempre vive e reina! Estado glorioso de bem-aventurança na terra, triunfo da graça de Deus sobre o pecado e Satanás! Estado de santidade e felicidade muito além desta descrição, que abrange uma união e comunhão inefáveis entre a sempre bendita Trindade e a alma humana! Ó Deus, “aos teus servos apareçam as tuas obras”, e “confirma sobre nós as obras das nossas mãos”! “Sim, confirma a obra das nossas mãos!” (Sl 90.16-17). Amém. Amém.

Esse amor é a fonte de todas as nossas ações; é o motivo da nossa obediência; é o princípio pelo qual amamos a Deus. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19), e o amamos com um amor digno dele, porque procede dele: é dele mesmo, e cada chama que sobe desse fogo puro e vigoroso tem de ser agradável aos seus olhos. Consome o que é profano, refina cada paixão e cada apetite, sublima o todo e assemelha tudo a si mesmo. E sabemos que este é o amor de Deus: difere muito de tudo o que é terreno e sensual. O Espírito Santo vem com ele; pela sua energia ele se difunde e penetra todas as partes, e pela sua luz descobrimos o que ele é e conhecemos o estado de graça em que estamos. Assim somos habilitados para toda boa palavra e obra; é produzido em nós o modo de pensar que havia em Cristo; somos capacitados a obedecer à lei pura do nosso Deus no seu sentido espiritual, amando-o de todo o coração, alma, entendimento e força, e ao nosso próximo, a todo ser humano, como a nós mesmos. Esta é, ou deveria ser, a experiência comum de todo crente.

O amor de Cristo se opõe à nossa inimizade, e por ele o nosso ódio a Deus e ao bem é vencido. O amor contraria toda a inclinação da carne, atrai o coração num apego afetuoso a Deus e é o incentivo de toda obediência, já que é o cumprimento da lei (Rm 13.10). Tal pessoa não é obrigada a tirar o princípio da sua obediência de nada exterior. A lei moral está diante dos seus olhos, mas o amor de Deus derramado no seu coração (Rm 5.5) é o princípio pelo qual ela a obedece. Ela não faz nada simplesmente como dever; tem a lei de Deus escrita no coração, e isso sempre a dispõe a fazer o que é reto aos olhos do seu Juiz. Ainda que não fosse infalivelmente verdade que uma vida de pecado tem de terminar numa miséria sem fim, mesmo assim ela detestaria o caminho dos ímpios. Já experimentou o caminho da desobediência e viu que é a estrada da ruína; agora conhece o caminho da justiça e vê que é o caminho da paz e da felicidade. Satanás, o escravizador do mundo, ela o achou um senhor duro durante o longo tempo em que trabalhou acorrentada na casa da sua servidão. Deus, o Salvador do mundo, ela o acha um Pai benfazejo, e o seu serviço, liberdade perfeita. [N. do T.: “cujo serviço é liberdade perfeita” é expressão da Oração pela Paz, no Livro de Oração Comum anglicano.] Ela tem prazer na obediência; é o elemento em que a sua alma vive, prospera e é feliz.

O amor é propriamente a imagem de Deus na alma, porque “Deus é amor” (1Jo 4.8). Pela fé recebemos do nosso Criador; pela esperança esperamos um bem futuro e eterno; mas pelo amor nos parecemos com Deus, e só por ele ficamos habilitados a desfrutar o céu e a ser um com ele por toda a eternidade. A fé e a esperança dizem respeito só a nós mesmos; o amor abrange Deus e o próximo. A fé nos ajuda e a esperança nos sustenta; mas o amor a Deus e ao próximo nos torna obedientes e úteis.

O amor é o meio de preservar todas as outras graças. Na verdade, propriamente falando, ele as inclui todas, e todas recebem dele a sua perfeição. Não se pode dispensar o amor a Deus e ao próximo. Ele é essencial à vida social e religiosa; sem ele não se pode manter comunhão com Deus, nem pode alguém estar preparado para a glória eterna se o seu coração e a sua alma não estiverem profundamente impregnados dele. Sem ele nunca houve verdadeira religião, nem pode haver; e ele não só é necessário durante a vida, como existirá por toda a eternidade. O que seria um estado de bem-aventurança que não abrangesse o amor a Deus e aos espíritos humanos nos graus mais delicados, refinados e perfeitos?

Não é cristão quem só se preocupa com a própria felicidade e não se importa com o rumo do mundo, contanto que ele mesmo esteja bem.

Quanto bem se deixa de fazer, quantos males se causam, quantos deveres se negligenciam, quantos inocentes se abandonam, quantas boas obras se destroem, quantas verdades se suprimem e quantos atos de injustiça se autorizam por aquelas previsões medrosas do que pode acontecer e por aquelas apreensões sem fé a respeito do futuro!

Onde está o nosso zelo por Deus? Onde está a comoção das nossas entranhas pelas nações que perecem e que ainda não vieram ao jugo do evangelho (cf. Is 63.15)? Multidões delas não estão debaixo do jugo porque nunca ouviram falar dele; e não ouviram falar dele porque os que gozam das bênçãos do evangelho de Jesus não sentiram (ou não obedeceram ao que sentiram) o dever imperioso de repartir o seu pão celestial com os que estão morrendo de fome e de dar a água da vida aos que estão morrendo de sede! Como hão de comparecer naquele grande dia, quando as conquistas do Leão da tribo de Judá (Ap 5.5) estiverem terminadas, quando o reino mediador for entregue ao Pai (1Co 15.24) e o Juiz dos vivos e dos mortos se assentar no grande trono branco (Ap 20.11) e disser aos que estiverem à sua esquerda: “Tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e vocês não me deram de beber” (Mt 25.42)? Pergunto: como hão de comparecer os que não fizeram nenhum esforço para dizer às nações perdidas da terra que é necessário se preparar para encontrar o seu Deus, e para lhes mostrar os meios de fazê-lo, levando-lhes as bênçãos do evangelho da graça de Deus? Tomemos cuidado para que a pedra que atingiu a estátua heterogênea e a despedaçou não caia sobre nós e nos reduza a pó (Dn 2.34-35; Mt 21.44)!

Uma religião cuja própria essência é o amor não pode tolerar nos seus altares um coração vingativo e sem caridade, ou que não se esforça ao máximo para reacender o amor no coração do outro.

A união entre os seguidores de Cristo é fortemente recomendada. Como podem irmãos espirituais brigar pelo caminho? Não têm todos um só Pai, uma só Cabeça? Não formam um só corpo, e não são todos membros uns dos outros? Não seria monstruoso ver as unhas arrancando os olhos, as mãos arrancando a carne do corpo, os dentes cortando a língua etc. etc.? E é menos monstruoso ver os membros de uma sociedade cristã se morderem e se devorarem uns aos outros até se destruírem mutuamente (Gl 5.15)?

Deus tem muitos imitadores do seu poder, da sua independência, da sua justiça etc., mas poucos do seu amor, da sua condescendência e da sua bondade.

Deus é misericordioso, e quer que o ser humano se pareça com ele. Na medida em que alguém é misericordioso, tem um coração compassivo e usa uma mão benfazeja, ele se parece com o seu Criador; e a misericórdia que mostra aos outros, Deus mostrará a ele. Mas não é uma impressão repentina diante de uma pessoa em aflição, que leva alguém a dar alguma coisa para aliviar o sofredor, que constitui o caráter misericordioso. É quem considera os pobres; quem procura encontrá-los; quem examina a sua situação; quem tem o hábito de fazer isso; e quem, de fato, segundo o seu poder e os seus meios, anda por toda parte fazendo o bem; é esse o misericordioso de quem Deus fala com tão alta aprovação e a quem promete uma rica recompensa (cf. Sl 41.1).

Em 1 Coríntios 16.2, o apóstolo prescreve o método mais conveniente e apropriado de fazer coletas para o socorro dos pobres. 1. Cada um devia sentir que era seu dever socorrer os irmãos em aflição. 2. Devia fazer isso segundo a capacidade que Deus lhe dava. 3. Devia fazer isso no fim da semana, depois de somar os ganhos semanais e ver quanto Deus tinha feito prosperar o seu trabalho. 4. Devia então trazê-lo no primeiro dia da semana, muito provavelmente à igreja ou assembleia, para que fosse posto no tesouro comum. 5. Aprendemos disso que a contribuição semanal não podia ser sempre a mesma, já que cada um devia separar conforme Deus o fizera prosperar: em algumas semanas ganharia mais; em outras, menos. 6. Do conjunto, fica claro que o primeiro dia da semana, que é o dia de descanso cristão (o domingo), era o dia em que se faziam as suas principais reuniões religiosas em Corinto e nas igrejas da Galácia e, por consequência, em todos os outros lugares onde o cristianismo tinha prevalecido. Esse é um forte argumento para a guarda do domingo como dia de descanso cristão. 7. Podemos observar que o apóstolo segue aqui a regra da sinagoga. Era costume regular entre os judeus fazer as suas coletas para os pobres no dia de sábado, para que não lhes faltasse o necessário à vida e não fossem impedidos de vir à sinagoga. 8. Para fazer essa provisão, tinham uma bolsa que se chamava “a bolsa das esmolas”, ou o que chamaríamos “a caixa dos pobres”. É isso que o apóstolo parece querer dizer quando diz “separe uma quantia […] e vá juntando”: ponha-a na bolsa das esmolas, ou na caixa dos pobres. 9. Era também uma máxima entre eles que, se achassem algum dinheiro, não deviam pô-lo na bolsa particular, mas na que pertencia aos pobres. 10. Os judeus piedosos criam que, assim como o sal tempera a comida, as esmolas temperam as riquezas; e que, se alguém não desse esmolas do que tinha, as suas riquezas seriam dispersas. A traça estragaria as bolsas, e a ferrugem corroeria o dinheiro, a menos que o conjunto fosse santificado dando-se uma parte aos pobres (cf. Tg 5.2-3).

Seja qual for o amor que professemos ter pela humanidade, se não formos caridosos e benevolentes, desmentimos a nossa profissão. Se não temos entranhas de compaixão, não temos em nós o amor de Deus; se fechamos o coração aos pobres, fechamos Cristo fora do nosso coração e a nós mesmos fora do céu (cf. 1Jo 3.17).

Quem é chamado a praticar algum ato de compaixão ou misericórdia para com os miseráveis faça-o não com tristeza ou por necessidade (2Co 9.7), mas com um espírito de pura benevolência e simpatia. Os pobres muitas vezes são ao mesmo tempo maus e sem valor, e, se os que são chamados a servi-los como administradores, supervisores etc. não tomarem cuidado, terão o coração endurecido pelas provas frequentes de engano, mentira, preguiça etc. que encontrarão. É por isso que tantos dos que foram chamados a servir os pobres nas paróquias, nos asilos e nas sociedades religiosas, quando deixam o cargo, descobrem que muitos dos seus sentimentos morais ficaram consideravelmente embotados, e talvez a única recompensa que recebem pelos seus serviços seja a fama de terem o coração duro. Se tudo o que se faz desse modo não for feito para o Senhor, nunca poderá ser feito com alegria.

As obras de caridade e misericórdia devem ser feitas tão em particular quanto for compatível com o avanço da glória de Deus e o socorro eficaz dos pobres.

Aquele a quem Deus empregou numa obra de misericórdia precisa voltar ao seu Criador pela oração o mais depressa que puder, para não ser tentado a se valorizar por aquilo em que não tem mérito nenhum. Pois o bem que se faz na terra, só o Senhor o faz.

O amor eleva as menores ações e lhes dá um valor que elas não podem ter sem ele.

O amor nunca supõe que uma boa ação possa ter um mau motivo. Dá crédito a cada pessoa pela sua profissão de religião, retidão, zelo piedoso etc., enquanto não se vê na sua conduta ou no seu espírito nada incompatível com essa profissão.

Procure ter uma mente compassiva ou solidária. Que o seu coração sinta pelos aflitos; entre nas suas tristezas e carregue uma parte dos seus fardos. É um fato atestado pela experiência universal que, pela simpatia, uma pessoa pode receber nos próprios sentimentos afetuosos uma medida da aflição do seu amigo, e que o amigo se sente aliviado na mesma proporção em que o outro entrou nas suas dores. “Mas como você explica isso?” Não explico de modo algum. Depende de certas leis da natureza cujos princípios ainda não foram devidamente desvendados.

Não negue a ninguém os serviços da misericórdia e da bondade. Você foi inimigo de Deus, e, mesmo assim, Deus o alimentou, vestiu e conservou com vida. Faça ao seu inimigo o que Deus fez a você. Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber (Rm 12.20). Assim Deus tratou você. E não foi o senso da bondade e da longanimidade dele para com você o meio de derreter o seu coração em compunção, gratidão e amor por ele? Como sabe se uma conduta semelhante para com o seu inimigo não terá sobre ele a mesma influência graciosa em relação a você? A sua bondade pode ser o meio de gerar nele o senso da sua culpa; e, de inimigo cruel, ele pode se tornar seu amigo verdadeiro.

Quem ama só os amigos não faz nada por amor de Deus. Quem ama por prazer ou por interesse paga a si mesmo.

Um inimigo moral é vencido mais facilmente pela bondade do que pela hostilidade. Contra esta ele se arma, e todas as más paixões do seu coração se concentram em oposição àquele que se esforça por retribuir com violência os danos que recebeu dele. Mas, quando o ofendido se empenha em lhe fazer bem pelo mal, em pagar as suas maldições com bênçãos e orações, as más paixões do outro já não têm motivo nem incentivo; a sua mente se descontrai; a turbulência das suas paixões se acalma; a razão e a consciência podem falar; ele é desarmado, ou, em outras palavras, descobre que não tem uso para as suas armas. Vê no ofendido um amigo magnânimo, cuja mente está acima de todos os insultos e danos que recebeu e que está decidido a nunca permitir que o princípio celestial que move a sua alma se curve diante do espírito miserável, mesquinho e desprezível da vingança. Esse homem amável vê no seu inimigo um espírito que contempla com horror, e não pode consentir em receber no próprio peito uma disposição que vê ser destrutiva para outro. E sabe que, no momento em que começar a se vingar, se põe no mesmo nível do homem sem princípios cuja conduta tem tanta razão para condenar e cujo espírito tem tantos motivos para abominar. Quem se vinga recebe no próprio coração todas as paixões más e vergonhosas que tornam o seu inimigo miserável e desprezível. Há a voz da razão eterna em “não façam justiça com as próprias mãos” e “vença o mal com o bem” (Rm 12.19,21), assim como a alta autoridade e o mandamento do Deus vivo.

As palavras perversas e as ações pecaminosas podem ser vistas como o transbordamento de um coração mais que cheio do espírito da maldade; e as palavras santas e as obras justas podem ser vistas como o transbordamento de um coração cheio do Espírito Santo e que transborda de amor a Deus e ao próximo.

“Amem os seus inimigos” (Mt 5.44). Este é o preceito mais sublime jamais dado ao ser humano. Uma religião falsa não ousaria dar um preceito dessa natureza, porque, sem influência sobrenatural, ele seria para sempre impraticável. Nessas palavras do nosso bendito Senhor vemos a ternura, a sinceridade, a extensão, o desinteresse, o modelo e o resultado do amor de Deus habitando no ser humano. Uma religião que tem por fundamento a união de Deus e do homem na mesma pessoa e a morte desse Ser augusto pelos seus inimigos; que consiste, na terra, numa reconciliação do Criador com as suas criaturas e que deve subsistir, no céu, só na união dos membros com a Cabeça: poderia uma religião assim tolerar o ódio na alma humana, mesmo contra os seus inimigos mais ferrenhos?

Não devemos supor que o amor de Deus lance fora da alma toda espécie de medo. Ele só lança fora o medo que traz tormento (cf. 1Jo 4.18). [N. do T.: Clarke segue a King James, fear hath torment; a NAA diz “o medo envolve castigo”.] Um temor filial é compatível com os graus mais altos de amor, e até necessário à preservação dessa graça. Ele é propriamente o seu guardião, e, sem ele, o amor logo degeneraria em indiferença ou em ousadia presunçosa.

Nem lança fora o medo tão necessário à preservação da vida, o medo que leva a pessoa a fugir do perigo para que a sua vida não seja destruída.

Nem lança fora o medo que pode ser gerado por um susto repentino. Todos esses são necessários ao nosso bem-estar. Mas destrói: 1. o medo da penúria; 2. o medo da morte; e 3. o medo ou terror do juízo. Todos esses medos trazem tormento e são incompatíveis com esse perfeito amor.

A paz. Cristo guarda em paz o coração em que habita e reina. Essa paz excede todo entendimento (Fp 4.7). É de natureza muito diferente de tudo o que pode nascer dos acontecimentos humanos. É uma paz que Cristo comprou e que Deus distribui; é sentida por todos os verdadeiramente piedosos, mas não pode ser explicada por ninguém; é comunhão com o Pai e com o seu Filho Jesus Cristo, pelo poder e pela influência do Espírito Santo. Viver em paz com os vizinhos, os amigos e até a família muitas vezes é muito difícil. Mas quem ama a Deus tem de se esforçar por isso, porque é indispensável até para o seu próprio bem. Ninguém pode ter brigas e desentendimentos com os outros sem que a sua própria paz seja seriamente perturbada. Para ser feliz, tem de estar em paz com todos, queiram eles estar em paz com ele ou não. O apóstolo sabia que seria difícil alcançar e manter esse estado de paz, e as suas próprias palavras o provam amplamente: “Se possível, no que depender de vocês, vivam em paz com todas as pessoas” (Rm 12.18). Ainda que seja apenas possível, esforce-se por isso.

Na sociedade civil, para provar a tranquilidade, as pessoas têm de se decidir a suportar alguma coisa dos vizinhos. Têm de sofrer, perdoar e abrir mão de muitas coisas; sem isso, viverão num estado de agitação contínua que tornará a própria vida insuportável. Sem esse espírito de dar e perdoar, não haverá na sociedade civil, e mesmo nas congregações cristãs, senão divisões, suspeitas malignas, conversas ofensivas, ultrajes, ira, vingança e, numa palavra, a dissolução total do corpo místico de Cristo. Assim, o nosso interesse nos dois mundos nos chama em alta voz a dar e a perdoar.

A maior parte das disputas entre os cristãos tem sido sobre pontos não essenciais. Ritos e cerimônias, mesmo na religião simples de Cristo, contribuíram com a sua parte para promover as animosidades que dividiram os cristãos. Formas de culto e vestes sacerdotais não deixaram de ter a sua influência nessa perturbação geral.

Tal é o fanatismo e a estreiteza naturais do coração humano que mal conseguimos admitir que alguém além de nós possua a verdadeira religião. Alimentar uma disposição dessas é altamente censurável. A verdadeira religião não está confinada a um só lugar nem a um só povo; está espalhada, em várias formas, por toda a terra. Aquele que enche a imensidade deixou um testemunho de si mesmo em toda nação e entre todos os povos debaixo do céu. Cuidado com o espírito de intolerância, porque o fanatismo produz a falta de caridade, e a falta de caridade, o julgamento severo. E, num espírito assim, alguém pode pensar que presta serviço a Deus quando tortura, ou faz holocausto de, uma pessoa que a sua mente estreita e o seu coração duro desonraram com o nome de herege. Esse espírito não está confinado a nenhuma comunidade, embora tenha predominado mais em umas que em outras. Mas essas coisas desagradam muito a Deus. Ele, como Pai dos espíritos de toda a carne, ama cada ramo da sua família tão amplamente estendida; e, na medida em que amamos uns aos outros, não importa de que seita ou partido, nessa medida nos parecemos com ele.

É espantoso que algum dos que professam o nome cristão alimente amargura de espírito. Os censuradores, os que não têm misericórdia das falhas alheias, os que fixaram um certo padrão pelo qual medem todas as pessoas em todas as circunstâncias e descristianizam todo aquele que não chega a esse padrão, esses têm a amargura contra a qual o apóstolo fala (Ef 4.31). No século passado havia um remédio composto de várias drogas drásticas e acres e de bebidas alcoólicas, que se chamava Hiera Picra, o amargo santo. Esse remédio era ministrado numa multidão de casos, em que fazia um mal imenso, e talvez em quase nenhum fizesse bem. Sempre me pareceu fornecer um epíteto apropriado para a disposição acima mencionada, o amargo santo, porque os censuradores religiosos agem sob o pretexto de uma santidade superior. Conheci pessoas assim que fizeram muito mal numa sociedade cristã, mas nunca soube de um caso em que fizessem algum bem.

Cuidado com as contendas na religião. Se discutir sobre alguma das suas doutrinas, que seja para encontrar a verdade, e não para sustentar uma opinião já concebida e estabelecida. Evite todo ardor e todo rancor polêmicos; eles provam a ausência da religião de Cristo. Tudo o que não leva você a amar mais a Deus e ao próximo vem, com toda a certeza, de baixo. O Deus da paz é o Autor do cristianismo, e o Príncipe da paz é o seu Sacerdote e o seu Sacrifício. Portanto, amem uns aos outros e desistam antes que surja o conflito (Pv 17.14).

A alegria. A alegria religiosa, devidamente temperada com a dependência contínua da ajuda de Deus, com mansidão de espírito e com desconfiança de si mesmo, é um meio poderoso de fortalecer a alma. Nesse estado, todo dever é praticável e todo dever é agradável. Nessa disposição de espírito, ninguém jamais caiu.

Todos fogem da tristeza e buscam a alegria; e, no entanto, a verdadeira alegria tem de ser necessariamente fruto da tristeza.

Não é comum que pessoas interessadas se alegrem com os êxitos de uma guerra injusta e sanguinária, com o saque e o incêndio de cidades e vilas? E não é a alegria sempre proporcional à matança que se fez dos inimigos? E essas pessoas se chamam cristãs? Então podemos esperar que Moloque e os seus subdemônios não estejam tão atrás desta espécie de cristãos a ponto de tornar o seu caso totalmente desesperado. Se tais cristãos podem ser salvos, os demônios não precisam desesperar!

A esperança. A esperança é uma espécie de bênção universal, e uma das maiores que Deus concedeu ao ser humano. Para a humanidade em geral, a vida seria intolerável sem ela, e ela é tão necessária quanto a fé, mesmo para os seguidores de Deus.

Todo ser humano espera a felicidade, e é essa esperança que o sustenta em todos os males da vida. Ele vê e sente o mal, mas espera o bem. O desespero é o oposto da esperança. Onde ele se instala, segue-se uma desordem total de todas as faculdades mentais e, em geral, se não for logo aliviado, o infeliz morre ou põe fim à vida.

Qual é a definição própria da esperança? A seguinte é a mais comum e provavelmente a melhor: “A expectativa de um bem futuro”, uma expectativa que, além disso, nasce do desejo. Tem de ser um bem, senão não poderia ser desejado; tem de ser futuro, senão não seria objeto de expectativa. O bem possuído exclui a esperança. “Ora, esperança que se vê” (possuída) “não é esperança. Pois quem espera o que está vendo? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos” (Rm 8.24-25). Uma coisa que um dia foi objeto de esperança pode ter sido alcançada; e, se foi, a esperança em relação a ela chegou ao fim. A esperança nunca se exerce senão onde há a convicção, mais ou menos profunda, da possibilidade de alcançar o seu objeto. Como a esperança implica desejo, o seu objeto tem de ser um bem natural ou moral, pois não se pode desejar nada que se sabe ser mau. Só o que é bom pode contentar o coração, e contentar é agradar, satisfazer e saciar. Quando Milton põe na boca de Satanás o seguinte discurso:

Original Tradução
“So farewell hope, and with hope farewell fear, “Adeus, pois, esperança, e com a esperança, adeus, medo;
Farewell remorse: All good to me is lost; adeus, remorso: todo bem para mim está perdido;
Evil be thou my good:” mal, sê tu o meu bem”,

o poeta não quer dizer que a natureza ou a operação do mal possa ser mudada, mas que o coração diabólico poderia se agradar, se satisfazer por algum tempo e se contentar com ele, como meio de satisfazer a vingança e a malícia, já que todo bem estava então para ele fora do alcance e da esfera da esperança. [N. do T.: Paraíso Perdido, livro IV.] Só o diabo poderia ter feito tal discurso, assim como só aquele arcanjo arruinado poderia pôr em ação bem-sucedida a malícia e a vingança mais cruéis, a ponto de desejar satisfação com o resultado. Se Satanás pudesse tomar o mal no lugar do bem, de modo a ficar satisfeito com ele, naquele momento a natureza do mal teria mudado para ele, e o inferno deixaria de ser lugar de tormento. Mas é uma bravata diabólica, e não tem nela nem verdade nem razão.

Examinando mais este grande assunto, eu observaria que a esperança pode ser considerada em três sentidos: 1. Esperança simples. 2. Esperança morta. 3. Esperança viva.

1. A ESPERANÇA considerada simplesmente em si mesma, segundo a definição acima, a expectativa de um bem futuro. Isso mostra a existência da coisa, sem atividade em si mesma nem operação em relação ao seu objeto. Ela existe, mas num estado de descuido e despreocupação. Essa espécie é quase comum a todas as pessoas. Não só não lhes traz proveito, porque não é usada, como em geral, nos seus voos dentro do peito, é como o fogo-fátuo, que, em vez de guiar corretamente, desvia, fazendo o seu possuidor descansar numa simples expectativa, inoperante e indefinida, sem tempo para começar nem lugar para agir: um princípio que, pelo seu mau uso, mais engana do que ajuda a alma. Por isso tem sido chamada esperança ilusória, falsa esperança, vã esperança etc. Mas a esperança em si, que é um dom de Deus, não é enganosa, falsa nem vã. É o seu mau uso, ou abuso, que engana, desvia, enche de vaidade etc. Se for devidamente usada e aplicada, pode até se tornar a âncora da alma, e é a força ou o princípio sobre o qual a graça de Deus age para produzir, no fim, aquela fé pela qual até os montes são removidos. Um ímpio pode ter essa esperança simples, e também um hipócrita, sem que nenhum dos dois tire proveito dela; sim, podem abusar dela para seu dano eterno. E assim toda faculdade da alma, e todo dom de Deus, pode ser mal usado; e, a esse respeito, podemos aplicar os versos simples mas expressivos do velho Francis Quarles:

Original Tradução
“Thus God’s best gifts, usurp’d by wicked ones, “Assim os melhores dons de Deus, usurpados pelos ímpios,
To poison turn by their con-ta-gi-ons.” em veneno se tornam pelo seu con-tá-gi-o.”

2. A ESPERANÇA MORTA. Não quero dizer com isso a esperança extinta, porque então ela deixaria de ser esperança, ou qualquer outra coisa. Nem quero dizer a esperança inteiramente inativa, que por isso pode ser considerada moralmente morta. Mas quero dizer a esperança que tem por objeto bens futuros depois de terminada a vida; uma esperança que espera a posse dos objetos da sua atenção quando o estado presente das coisas se fechar para sempre sobre o seu possuidor. Também não me refiro à esperança que tem por objeto as glórias do mundo invisível, mas à esperança que desloca os seus objetos, que transfere para um estado futuro as coisas que pertencem ao estado presente do ser, como faz com as coisas que deveriam ser recebidas aqui, a fim de preparar para a glória depois. É uma espécie de esperança religiosa: tem a ver com assuntos religiosos, como o perdão do pecado, a santificação da alma e a aquisição das graças que constituem “o modo de pensar de Cristo”; numa palavra, aquela santificação “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Ela não espera nada disso nesta vida, e acha que nenhuma consciência de ter recebido o perdão pode acontecer antes da morte, se é que então; nem pode alguém, segundo essa esperança, ser salvo dos seus pecados antes que o corpo e a alma se separem. Por isso todas as suas operações se referem à morte e ao estado separado que vem logo em seguida. Essa esperança, ou essa perversão da esperança simples, paralisa o espírito cristão e, na prática, entristece o Espírito de Deus. Ninguém jamais recebe bem algum dela. Serve, sim, para entreter a mente e, no sentido próprio da palavra, para distrair a alma: desvia-a de buscar as bênçãos presentes, porque o seu dono decidiu que nenhuma dessas bênçãos pode ser recebida antes da morte e, por isso, não as busca nem as espera. Tem a forma, mas é a ruína, de todo bem. Em muitos, essa espécie de esperança, ou esse abuso da esperança, está associada a muita incerteza e às vezes a um certo grau de desespero, mesmo em relação às coisas que diz ter por objeto, até que, por fim, a pessoa duvida da imortalidade da alma e da ressurreição do corpo, e afinal as alegrias do céu se tornam problemáticas! Esta é a “esperança morta”: a esperança que não procura nenhum bem espiritual antes da morte e que em geral parece inativa e despreocupada até mesmo com eles. É a habitante de uma alma morta, de um professo do cristianismo sem vida, descuidado e sem Cristo; de alguém que tem fama de estar vivo, mas está morto (Ap 3.1); e que descobrirá, quando chegar àquela fronteira onde se espera que a sua esperança aja e se realize, que é como entregar o espírito: ele entrega o espírito e a esperança ao mesmo tempo. É também a esperança dos ímpios: eles esperam encontrar a misericórdia de Deus quando vierem a morrer. Mas “quando morre o ímpio, morre a sua esperança” (Pv 11.7). De pessoas assim, ninguém pode ter esperança senão elas mesmas.

3. A ESPERANÇA VIVA: a esperança que vive e floresce esperando! É a esperança simples na sua maior atividade e operação; a esperança que tem diante dos olhos, na sua expectativa e no seu desejo, todo o alcance do bem possível. Os seus objetos são necessariamente futuros; mas é futuro tudo o que está minimamente afastado do presente, de modo que o futuro, propriamente falando, toca o tempo que agora é. As bênçãos necessárias agora, ela as vê à mão; deseja possuí-las, crê na possibilidade de alcançá-las imediatamente, reivindica a graça de Deus por meio de Cristo e assim realiza o seu objeto. Recebida essa bênção, ela se fortalece para sair em busca de mais; vê, deseja e reivindica a seguinte; recebe-a e assim realiza outro bem que pouco antes era futuro e que continua sendo futuro para todos os que não agem desse modo.

Essa esperança vive sempre recebendo. O perdão e a santidade, o perdão de todo pecado e a purificação de toda injustiça, têm de ser alcançados aqui. Ela vê isso, está convencida disso, e essas bênçãos são os primeiros objetos da sua atenção. Reivindica-as com uma energia viva, pela fé, porque a esperança não pode existir nem agir sem a fé, e pela fé a sua obra é aperfeiçoada. Assim ela está sempre recebendo. Todas as bênçãos futuras que pertencem ao estado humano de provação, que vai do berço ao túmulo, ao se aproximarem em toda a sua sequência e se tornarem presentes, são realizadas na sua ordem; e a força interior da última recebida serve para sustentar a que foi recebida antes, e assim sobre toda a glória que cresce há uma proteção (cf. Is 4.5).

Essa esperança toma todas as bênçãos de Deus nos seus lugares e na sua devida sequência. Há alguns dos seus objetos, como se disse acima, que pertencem necessariamente a esta vida; outros, que pertencem necessariamente ao mundo vindouro. Ela não transfere para o estado depois da morte as bênçãos que devem ser obtidas aqui, nem tenta antecipar no estado presente as bênçãos que pertencem à eternidade. É uma graça que discerne, porque está sempre apoiada no conhecimento e na fé. Anda com retidão e, por isso, com segurança.

Original Tradução
“Grace is in all its steps, heaven in its eye: “A graça está em todos os seus passos, o céu nos seus olhos;
In every gesture, dignity and love.” em cada gesto, dignidade e amor.”

[N. do T.: adaptação dos versos em que Milton descreve Eva, no Paraíso Perdido, livro VIII.]

A esperança da vida eterna é representada como a âncora da alma (Hb 6.19). O mundo é o mar agitado e perigoso; a carreira cristã, a viagem; o porto, a felicidade eterna; e o véu, ou ancoradouro interior, a doca real em que essa âncora foi lançada. As tempestades da vida duram pouco tempo. A âncora, que é a esperança, se for fixada pela fé no mundo eterno, impedirá infalivelmente todo naufrágio. A alma pode ser sacudida de várias maneiras por várias tentações, mas não será arrastada, porque a âncora está em terreno firme e é segura em si mesma: não garra e não se quebra. A fé, como o cabo, é o meio que liga o navio à âncora, ou a alma à sua esperança do céu. A fé vê o porto, a esperança deseja e antecipa o descanso; a fé trabalha, e a esperança segura firme; e logo a alma entra no porto do repouso eterno.

Uma esperança que não tem fundamento racional verá as suas expectativas cortadas, e então a vergonha e a confusão serão a porção do seu possuidor. Mas a nossa esperança é de outra espécie: está fundada na bondade e na verdade de Deus, e a nossa experiência religiosa nos mostra que não a aplicamos mal nem a exercemos em objetos errados ou impróprios.

A mansidão. Anda com mais segurança quem tem menos confiança em si mesmo. A verdadeira magnanimidade mantém Deus continuamente em vista. Ele lhe designa a sua obra e lhe dá discernimento e poder, e a sua principal excelência consiste em ser cooperadora resoluta com ele (1Co 3.9). O orgulho sempre afunda onde a humildade flutua, porque Deus exaltará aquele que se humilha (Lc 14.11). Saber que somos criaturas dependentes é bom; senti-lo e agir de acordo é ainda melhor.

O orgulhoso é especialmente odioso aos olhos de Deus; e, aos olhos da razão, que absurdo! Um pecador, um espírito caído, um herdeiro da miséria e da corrupção, orgulhoso! Orgulhoso de quê? De um demônio que habita nele! Pois bem: essas pessoas serão recompensadas com fartura. Receberão o que lhes é devido, todo o devido e nada além do devido.

O presunçoso imagina que pode fazer tudo, e não pode fazer nada; pensa que pode superar a todos, e não se destaca em nada; promete tudo, e não cumpre nada. O humilde age de modo totalmente contrário.

O Deus sábio e justo muitas vezes, no curso da sua providência, permite que grandes defeitos se associem a grande eminência, para esconder do ser humano o orgulho e levá-lo a pensar com moderação de si mesmo e das suas conquistas (cf. Rm 12.3). “Aquele que está mais firmemente em pé tome cuidado para não cair!” (cf. 1Co 10.12) [N. do T.: tradução do próprio Clarke; a NAA traz “aquele que pensa estar em pé veja que não caia”.] E quem está em posição de honra porte-se com mansidão, para que Deus não lhe abata no pó o chifre, isto é, o poder; porque Deus concede os seus dons não para que a criatura seja engrandecida, mas para que ele mesmo o seja. [N. do T.: Clarke usa a imagem de Jó 16.15 na King James, defiled my horn in the dust; o chifre é símbolo bíblico do poder.]

Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.
Texto original em domínio público: Adam Clarke, Christian Theology, selecionada e organizada por Samuel Dunn (Londres, Thomas Tegg and Son, 1835), exemplar digitalizado pelo Google (Universidade de Illinois). Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).