Estudos do Bispo Ildo · Escatologia · Segunda Vinda e Arrebatamento
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Graça e paz, meus irmãos.
Hoje eu quero conversar com vocês sobre um único versículo da Bíblia. É um versículo curto, cabe numa linha, mas carrega uma das perguntas que mais inquietam a igreja quando o assunto é o fim dos tempos. Está em Apocalipse 3.10. Jesus fala à igreja de Filadélfia e diz assim:
“Você guardou a palavra da minha perseverança. Por isso, também eu o guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para pôr à prova os que habitam sobre a terra.”
Talvez você já tenha ouvido esse versículo citado como prova de que a igreja será arrebatada antes da grande tribulação. É uma leitura muito difundida. Muitos de nós crescemos ouvindo que, quando os dias ficassem realmente difíceis, a igreja já não estaria mais aqui. Livros, filmes e pregações repetiram essa ideia durante décadas, e este versículo aparece quase sempre como um dos seus pilares.
Então eu começo com algumas perguntas, e talvez você mesmo já as tenha feito. A igreja vai passar pela grande tribulação ou será retirada antes dela? Quando Jesus promete “eu o guardarei da hora da provação”, ele está prometendo tirar a igreja do mundo ou guardar a igreja dentro do mundo? Qual é a diferença entre sofrer tribulação e sofrer a ira de Deus? E, no fim das contas, por que isso importa? Não seria só uma discussão de calendário profético, interessante para os teólogos e sem efeito na vida da igreja?
Quero responder a essa última pergunta logo de início. Isso importa, e importa muito, porque a maneira como entendemos esse versículo prepara ou desprepara a igreja para o sofrimento. Se eu ensino a uma congregação que ela nunca vai enfrentar a perseguição do fim, posso estar entregando a ela um consolo que a Bíblia não oferece. E, quando o sofrimento vier, essa igreja pode se perguntar se Deus falhou com ela. Mas, se eu ensino o que o texto realmente promete, entrego à igreja um consolo muito mais firme: Cristo guarda os seus no meio da prova.
E quero dizer uma coisa desde já, para que ninguém se assuste: esta aula não nega o arrebatamento. A Bíblia ensina que os crentes serão arrebatados para encontrar o Senhor, e eu creio nisso de todo o coração. A pergunta que vamos fazer é outra: quando isso acontece, e se Apocalipse 3.10 fala disso.
Vamos fazer esse caminho juntos, com calma. Primeiro, vou situar a carta à igreja de Filadélfia e apresentar com honestidade a leitura que ensina que a igreja será arrebatada antes da grande tribulação. Ela é chamada de pré-tribulacionista, e irmãos sérios, que amam a Palavra, a defendem. Depois, vamos olhar as palavras do próprio versículo e lê-lo dentro das cartas, dentro do Apocalipse e dentro do Novo Testamento. No final, deixo clara a conclusão e o que ela significa para a nossa vida.
Filadélfia era uma cidade da província da Ásia, na região onde hoje fica a Turquia. O nome quer dizer “amor fraterno”. Era uma cidade conhecida pelos terremotos. No ano 17 da nossa era, um terremoto derrubou doze cidades da Ásia numa só noite, e Filadélfia estava entre elas. Os tremores continuaram por muito tempo. Um geógrafo daquela época escreveu que em Filadélfia os muros rachavam todos os dias, que poucos moravam dentro da cidade e que a maioria preferia viver no campo. E, depois da reconstrução, a cidade chegou a mudar de nome, em honra ao imperador que a ajudou: passou a se chamar, por algum tempo, Neocesareia, a nova cidade de César. Guarde essas duas informações, os terremotos e o nome novo, porque elas vão iluminar o final da carta.
A igreja de Filadélfia não era forte. Jesus diz a ela, no versículo 8: “Sei que você tem pouca força, mas guardou a minha palavra e não negou o meu nome.” Era uma igreja de pouca força, mas fiel. E ela sofria oposição. No versículo 9, Jesus fala dos que “se declaram judeus e não são, mas mentem”, e os chama de “sinagoga de Satanás”. Havia ali hostilidade, acusação e pressão para que aqueles cristãos negassem o nome de Jesus. E eles não negaram.
Há um detalhe que eu quero que você note desde já. Entre as sete igrejas do Apocalipse, só duas não recebem nenhuma repreensão de Jesus: Esmirna e Filadélfia. E só nessas duas cartas aparece a expressão “sinagoga de Satanás”. São como duas igrejas irmãs, fracas aos olhos do mundo, perseguidas e fiéis. Nós vamos voltar a Esmirna daqui a pouco, porque o que Jesus diz a Esmirna é uma chave para entender o que ele diz a Filadélfia.
A essa igreja fiel, Jesus faz uma promessa. E começa com um jogo de palavras que o português consegue preservar muito bem: “Você guardou a palavra da minha perseverança. Por isso, também eu o guardarei.” Você guardou, eu guardarei. A fidelidade da igreja é respondida pela fidelidade de Cristo. A igreja guardou a palavra; Cristo guardará a igreja.
“A palavra da minha perseverança” pode ser entendida como a mensagem sobre a perseverança do próprio Jesus, que suportou a oposição até a cruz, ou como a palavra em que ele chama os discípulos a perseverar. Nos dois casos, é uma palavra que ensina a permanecer firme debaixo da pressão. Os irmãos de Filadélfia tinham guardado essa palavra. Por isso, receberiam uma proteção especial numa hora de prova que estava por vir.
A pergunta toda é esta: que tipo de proteção?
Antes de responder, quero apresentar com justiça a outra leitura. Não é honesto refutar uma posição sem antes mostrá-la no seu melhor.
A leitura pré-tribulacionista diz o seguinte. No fim da história haverá um período de grande tribulação, geralmente entendido como sete anos. Antes que esse período comece, Cristo virá nos ares, sem descer à terra, para buscar a igreja, e os crentes serão arrebatados ao céu. Depois dos sete anos, Cristo voltaria de modo visível, com a igreja, para julgar o mundo. Nessa leitura, Apocalipse 3.10 seria a promessa desse primeiro arrebatamento.
E quais são os argumentos? São basicamente estes, e eu os apresento como os próprios defensores os apresentam.
Primeiro: Jesus não diz apenas “eu o guardarei da provação”; ele diz “eu o guardarei da hora da provação”. A proteção, então, seria do próprio período de tempo. E, argumenta-se, a única maneira de ser guardado de um período de tempo é não estar presente nele.
Segundo: a pequena preposição grega que traduzimos por “da” pode significar “fora de”, e nem sempre indica que a pessoa estava dentro de alguma coisa e saiu dela.
Terceiro: essa hora vem “sobre o mundo inteiro”. Se a prova é universal, dizem, não há lugar na terra onde se esconder, e a única saída seria sair da terra.
Quarto: a hora vem “para pôr à prova os que habitam sobre a terra”. Como a igreja não é o alvo dessa prova, ela não precisaria estar ali.
E há um argumento mais amplo, que talvez seja o mais forte de todos: a Bíblia diz que Deus não nos destinou para a ira. Em 1 Tessalonicenses 5.9, Paulo escreve: “Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo.” Se a grande tribulação é o tempo da ira de Deus, então a igreja não poderia estar nela.
São argumentos que merecem resposta séria. E vale registrar uma coisa, por honestidade: os defensores mais cuidadosos dessa leitura reconhecem que Apocalipse 3.10 não descreve um arrebatamento. Eles o deduzem, a partir dessas expressões. É essa dedução que vamos examinar agora.
Sei também que outros textos costumam entrar nessa conversa, como o de Mateus 24 que fala de dois homens no campo, ou a pergunta sobre de onde vêm os sete anos. Esses merecem uma aula própria. Hoje vamos ficar com Apocalipse 3.10, começando pelas palavras do próprio versículo.
Comecemos pelo verbo. A palavra que Jesus usa para “guardar” é, no grego, teréo. É um verbo de vigilância, de proteção, de custódia. É verdade que tirar alguém do perigo também é uma forma de proteger, e os irmãos pré-tribulacionistas diriam que a retirada é justamente o modo de guardar. Por isso não vou apoiar a conclusão só no verbo. Vamos ver como o próprio Novo Testamento usa esse verbo junto com essa preposição.
Em todo o Novo Testamento, essa combinação exata, o verbo guardar seguido dessa preposição, aparece só duas vezes. Uma é aqui, em Apocalipse 3.10. A outra está em João 17.15, na grande oração de Jesus pelos seus discípulos, na noite em que foi traído.
Antes dessa oração, no capítulo 16, Jesus tinha avisado os discípulos de que uma hora difícil viria sobre eles. Ele disse: “chegará a hora em que todo aquele que os matar pensará que, com isso, está prestando culto a Deus.” E encerrou aquela conversa com estas palavras: “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.” É logo depois de anunciar essa hora de aflição que Jesus se volta para o Pai e ora. E o que ele pede? Ouça com atenção:
“Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal.”
No grego, “do mal” também pode ser entendido como “do Maligno”, isto é, do próprio diabo. Nos dois casos, o sentido é proteção contra um inimigo que continua ativo no mundo.
Percebeu? Jesus coloca lado a lado as duas possibilidades. Uma é tirar do mundo. A outra é guardar do mal. Tirar é o verbo da remoção, e Jesus usa esse verbo para dizer: não peço isso. O que ele pede é o guardar, com o mesmo verbo e a mesma preposição que aparecem em Apocalipse 3.10.
Alguém dirá que, naquela oração, Jesus não falava do fim dos tempos, e é verdade. Dirá também que os discípulos nunca estiveram dentro do Maligno; foram guardados fora do alcance dele. Também é verdade, e esse é justamente o ponto: eles ficaram fora do alcance do Maligno sem sair do mundo onde o Maligno age. É isso que a mesma construção quer dizer, na boca do mesmo Senhor.
Jesus diz isso com todas as letras no versículo 11 da mesma oração: “Já não estou no mundo, mas eles continuam no mundo, enquanto eu vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome.” E, no versículo 12: “Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome, que me deste; eu os protegi e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura.” Que tipo de proteção era essa? Os discípulos não seriam poupados do sofrimento. O livro de Atos conta que eles foram presos e açoitados, e que Tiago foi morto à espada. O que Jesus pede ao Pai é que continue a guardá-los como ele os guardou, para que não se percam. E a lembrança de Judas mostra que essa guarda é real e, ao mesmo tempo, pede a fidelidade de quem é guardado. Vamos voltar a isso na carta a Filadélfia.
Há uma coincidência preciosa entre os dois textos. Em João 17.6, Jesus diz ao Pai: “eles têm guardado a tua palavra”. Em Apocalipse 3.10, ele diz à igreja: “Você guardou a palavra da minha perseverança. Por isso, também eu o guardarei.” É a mesma linguagem e a mesma lógica: os que guardam a palavra são guardados por Deus, enquanto continuam no mundo.
Há também um exemplo muito pessoal disso no Evangelho de Lucas, capítulo 22. Jesus diz a Pedro: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu para peneirar vocês como trigo! Eu, porém, orei por você, para que a sua fé não desfaleça.” Jesus não pediu que Pedro fosse poupado da peneira. Pedro foi peneirado. Caiu, e negou o Senhor naquela mesma noite. Mas a oração de Jesus foi atendida: a fé de Pedro não se apagou. Ele voltou, chorou, foi restaurado e fortaleceu os seus irmãos. Isso é ser guardado na hora da provação.
A mesma ideia está na oração que o Senhor nos ensinou. No Pai Nosso, em Mateus 6.13, dizemos: “e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal”. A palavra traduzida ali por “tentação” é a mesma que em Apocalipse 3.10 foi traduzida por “provação”: peirasmós. Literalmente, o pedido é que Deus não nos conduza à provação. E, no entanto, a igreja faz essa oração todos os dias, aqui, no meio das provas, e nunca entendeu que estivesse pedindo para sair do mundo. Pedimos que a prova não nos vença e que sejamos livres do mal que pode destruir a nossa fé e a nossa alma.
Agora, uma parte um pouco mais técnica, mas com uma conclusão simples. Talvez você já tenha ouvido que aquela pequena preposição grega, que traduzimos por “da”, significa “de dentro para fora”, e que, portanto, para sair de dentro da hora da provação a igreja teria de estar lá dentro. Esse argumento tem o seu valor, mas eu quero ser honesto com você: sozinho, ele não resolve a questão. Os defensores do arrebatamento antes da tribulação lembram, com razão, que essa preposição às vezes aparece sem que a pessoa estivesse dentro da coisa. Em João 12.27, Jesus pergunta: “Pai, salva-me desta hora?”, e ali está a mesma preposição. Por isso, eu não vou apoiar a nossa conclusão numa regra de gramática que não é absoluta.
E, mesmo nesse exemplo, veja o que Jesus responde à própria pergunta: “Não, pois foi precisamente com este propósito que eu vim para esta hora.” Jesus não foi poupado daquela hora. Ele entrou nela e a atravessou até a cruz.
Então, a preposição sozinha não decide a questão, nem para um lado nem para o outro. O que decide é o conjunto: o verbo guardar; o paralelo de João 17, onde a mesma construção significa proteção dentro do mundo; e, como vamos ver agora, o próprio Apocalipse.
Vamos à expressão “a hora da provação”. O que é essa hora?
A palavra “provação”, como eu disse, é peirasmós: teste, prova, tentação. E o próprio texto diz a finalidade dessa hora: “para pôr à prova os que habitam sobre a terra”. Essa expressão, “os que habitam sobre a terra”, é muito importante no Apocalipse. Ela não significa simplesmente as pessoas que moram no planeta. No livro, ela funciona quase como um nome técnico para os que rejeitam a Deus e perseguem o seu povo. Em Apocalipse 6.10, as almas dos mártires clamam: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” E, em Apocalipse 13.8, a besta “será adorada por todos os que habitam sobre a terra, aqueles que, desde a fundação do mundo, não tiveram os seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto”. Os que habitam sobre a terra são os que derramam o sangue dos santos e adoram a besta.
Isso nos ensina algo importante. A hora da provação tem um alvo principal: os incrédulos. Para eles, ela é juízo. E aqui eu concordo com os irmãos pré-tribulacionistas: a igreja não é o alvo desse juízo. Mas o fato de a igreja não ser o alvo não significa que ela esteja ausente. Significa que Deus sabe fazer distinção entre o seu povo e os seus inimigos, mesmo quando estão no mesmo lugar.
A Bíblia tem um exemplo clássico disso: o Egito. Quando Deus enviou as pragas, Israel ainda morava no Egito. Deus não retirou o seu povo antes das pragas. E, a partir da quarta praga, o texto faz questão de mostrar que ele o guardava no meio delas. Em Êxodo 8, Deus diz ao faraó: “Naquele dia, separarei a terra de Gósen, onde mora o meu povo, para que nela não haja enxames de moscas.” E acrescenta: “Farei distinção entre o meu povo e o seu povo.” Em Êxodo 9.26, lemos: “Somente na terra de Gósen, onde estavam os filhos de Israel, não houve chuva de pedras.”
Ora, o Apocalipse descreve os seus juízos com as cores das pragas do Egito. Nas trombetas há chuva de pedras e fogo, águas que se tornam sangue, trevas e gafanhotos. Nas taças há úlceras, águas em sangue, trevas, espíritos semelhantes a rãs e, outra vez, chuva de pedras. O Apocalipse apresenta esses juízos como um novo Êxodo. E, como no primeiro Êxodo, o povo de Deus está lá, e é guardado.
O próprio livro mostra isso. Em Apocalipse 7, antes que os ventos do juízo soprem, um anjo diz: “Não danifiquem nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até marcarmos com um selo a testa dos servos do nosso Deus.” O selo é a marca de propriedade e de proteção de Deus sobre o seu povo que está na terra. E, em Apocalipse 9, quando a quinta trombeta soa e os gafanhotos sobem do abismo, a ordem que eles recebem é esta: “que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma, e tão somente às pessoas que não têm o selo de Deus na testa”. Isso é Gósen de novo. Os selados estão na terra durante a trombeta, e aquele juízo não os atinge. Da mesma forma, quando a primeira taça é derramada, em Apocalipse 16, as úlceras aparecem “nas pessoas que tinham a marca da besta e que adoravam a sua imagem”. A ira de Deus tem endereço certo.
Alguém dirá que esses selados são os 144 mil das tribos de Israel, e não a igreja. Repare, primeiro, que João ouve o número das tribos e, quando olha, vê uma grande multidão de todas as nações. Repare também que o livro chama de servos, desde o primeiro versículo, os seus próprios destinatários: a revelação foi dada “para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer”. E, mesmo para quem entende que os selados são israelitas, o ponto continua de pé: o próprio Apocalipse mostra servos de Deus na terra, marcados e guardados durante o juízo, e não retirados antes dele.
Isso responde também a dois argumentos que ouvimos no começo: o de que ser guardado da hora exige não estar nela, e o de que a prova vem sobre o mundo inteiro. Guardar da hora é guardar daquilo que a hora traz. Israel foi guardado das pragas morando no Egito. E a prova é universal? Sim. Mas as pragas também caíram sobre o Egito, e Gósen ficava no Egito. Universal não quer dizer indiscriminado. Deus não precisa esvaziar a terra para proteger os seus.
Há ainda uma observação sobre essa hora. A mesma prova tem efeitos diferentes, conforme o coração de quem passa por ela. No livro de Daniel, capítulo 12, o mensageiro de Deus diz ao profeta, falando do tempo do fim: “haverá tempo de angústia, como nunca houve, desde que existem nações até aquele tempo. Mas, naquele tempo, o povo de Deus será salvo, todo aquele que for achado inscrito no livro.” Repare: o povo de Deus é salvo naquele tempo. E, no versículo 10: “Muitos serão purificados, limpos e provados, mas os ímpios continuarão na sua impiedade.” O mesmo fogo que purifica o ouro queima a palha. A hora da provação é juízo para os que habitam sobre a terra e purificação para os que pertencem a Cristo.
Então, o que Cristo promete à igreja de Filadélfia? Se eu tivesse de explicar o versículo numa frase, diria assim: eu guardarei você de tudo o que, nessa hora, é juízo de Deus, e de tudo o que nela poderia arrancar a sua fé. A besta pode ferir o corpo, mas a ira de Deus não toca nos que são dele, e a fé dos fiéis não será arrancada. É uma promessa grande: a mesma guarda que Jesus pediu ao Pai para os seus discípulos.
Ainda sobre essa hora, é bom saber que intérpretes sérios não concordam inteiramente sobre quando ela acontece. Há três leituras principais. Alguns entendem que era uma prova próxima, que atingiu o mundo romano pouco tempo depois da carta. Houve até intérpretes de séculos passados, inclusive da nossa tradição wesleyana, que a ligaram à perseguição sob o imperador Trajano, no começo do século II. Outros entendem que é a intensificação final da tribulação, pouco antes da volta de Cristo. E há quem entenda que a hora é o próprio juízo que acompanha a vinda do Senhor.
O interessante é que nenhuma dessas três leituras exige um arrebatamento separado, sete anos antes da volta de Cristo. Nas duas primeiras, a igreja é guardada aqui, dentro da história. Na terceira, é guardada do juízo no mesmo dia em que o Senhor volta para buscá-la. Em nenhuma delas o texto pede uma volta de Cristo em duas etapas.
Agora eu volto à igreja de Esmirna, como prometi. Lembre-se: Esmirna e Filadélfia são as duas igrejas que não recebem repreensão, e as duas enfrentam a “sinagoga de Satanás”. O que Jesus diz a Esmirna? Em Apocalipse 2.9, ele começa assim: “Conheço a tribulação pela qual você está passando, a sua pobreza.” E, no versículo 10, continua:
“Não tenha medo das coisas que você vai sofrer. Eis que o diabo está para lançar alguns de vocês na prisão, para que vocês sejam postos à prova, e passem por uma tribulação de dez dias. Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida.”
Repare na expressão “para que vocês sejam postos à prova”. É o mesmo verbo grego que aparece na carta a Filadélfia, na expressão “para pôr à prova”, e é da mesma família da palavra provação. Esmirna seria provada. E a promessa vem logo depois do anúncio da prisão: “Seja fiel até a morte, e eu lhe darei a coroa da vida.” E, em seguida: “O vencedor de modo nenhum sofrerá o dano da segunda morte.”
Aí está o ponto. O perigo verdadeiro não é a prisão, nem mesmo a morte do corpo. O perigo verdadeiro é a segunda morte, a perda eterna. É disso que Cristo guarda os seus. Jesus já tinha dito, em Mateus 10.28: “Não temam os que matam o corpo, mas não podem matar a alma.”
Agora pense comigo. Se “eu o guardarei”, em Filadélfia, significasse “vou tirar você da terra para que não sofra”, teríamos duas igrejas igualmente fiéis recebendo tratamentos opostos: uma retirada, e a outra com alguns de seus membros lançados na prisão e chamados a ser fiéis até a morte. Alguém dirá que a prova de Esmirna era local e breve, e a de Filadélfia, mundial. É verdade, a escala é outra. Mas o modo como Cristo guarda os seus não muda com o tamanho da prova. E repare: a própria igreja de Filadélfia, que recebeu a promessa, continuou na terra. Como vamos ver mais adiante, pouco tempo depois havia irmãos de Filadélfia entre os mártires.
As outras cartas confirmam esse caminho. À igreja de Pérgamo, Jesus diz, em Apocalipse 2.13: “Sei que você conserva o meu nome e não negou a fé que tem em mim, mesmo nos dias de Antipas, minha testemunha, meu fiel, que foi morto na cidade de vocês, aí onde Satanás habita.” Antipas não foi arrebatado; foi morto. E Jesus o chama de “minha testemunha, meu fiel”. À igreja de Tiatira, ele diz: “tão somente conservem o que vocês têm, até que eu venha.”
Há um detalhe que atravessa as sete cartas. Todas elas trazem a mesma frase: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.” Às igrejas, no plural. Isso quer dizer que cada carta é para todas. A promessa feita a Filadélfia é para nós, e o chamado feito a Esmirna, “seja fiel até a morte”, também é para nós. Não podemos ficar com a promessa de uma carta e deixar de lado o chamado da outra. As promessas do Apocalipse são feitas ao vencedor, àquele que persevera. Nenhuma delas fala em ser levado embora para não sofrer.
E olhe, na carta a Filadélfia, o versículo 11: “Venho sem demora. Conserve o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa.” Por que Jesus precisaria dizer “conserve o que você tem” a uma igreja que estivesse para ser retirada antes da prova? A exortação só faz sentido se houver pressão, ameaça, alguém tentando tomar a coroa. A promessa do versículo 10 e a exortação do versículo 11 andam juntas: eu vou guardar você, e você, conserve o que tem. A graça de Cristo guarda, e o crente persevera. É assim que a nossa tradição wesleyana lê a Escritura: é a graça de Deus que torna possível a nossa resposta fiel.
Alguém pode lembrar que, depois do capítulo 3, a palavra “igreja” desaparece do Apocalipse, e perguntar se isso não indica que a igreja já foi retirada. É verdade que a palavra não aparece nos capítulos que descrevem os juízos. Mas o argumento não se sustenta, por dois motivos.
O primeiro é que o livro inteiro foi escrito para as igrejas. Em Apocalipse 1.11, João recebe esta ordem: “Escreva num livro o que você vê e mande-o às sete igrejas.” O livro todo, e não apenas os capítulos 2 e 3. E, no último capítulo, em Apocalipse 22.16, Jesus diz: “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar testemunho destas coisas a vocês nas igrejas.” Tudo o que está entre o começo e o fim, os selos, as trombetas, a besta e a Babilônia, foi enviado às igrejas, para que soubessem o que iam enfrentar e como vencer.
O segundo motivo é que o povo de Deus aparece o tempo todo nos capítulos do meio, com outros nomes: santos, servos de Deus, testemunhas, irmãos. E veja como eles são descritos. Em Apocalipse 12.17, o dragão vai “travar guerra com o restante da descendência dela, ou seja, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”. Em Apocalipse 14.12: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.” Os que guardam: é o mesmo verbo que Jesus usou para Filadélfia, “você guardou a palavra da minha perseverança”. E a palavra “perseverança” também é a mesma. São pessoas com as mesmas marcas que Jesus elogiou em Filadélfia: guardam a palavra e perseveram.
E como esse povo aparece no livro? Sofrendo e vencendo. Em Apocalipse 6.11, as almas dos mártires ouvem que devem repousar “ainda por pouco tempo, até que também se completasse o número dos seus conservos e seus irmãos que iam ser mortos como eles tinham sido”. Ainda haveria mártires. Em Apocalipse 12.11: “Eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo diante da morte, não amaram a própria vida.” E, em Apocalipse 13, a besta recebe permissão para lutar contra os santos e vencê-los, e o texto conclui: “Se alguém tiver de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém tiver de ser morto pela espada, pela espada morto será. Aqui está a perseverança e a fidelidade dos santos.” Em todos esses textos, o povo de Deus passa pela perseguição e permanece fiel.
Alguém dirá que esses santos são outro grupo, pessoas que se converteram depois que a igreja foi arrebatada. Mas quem afirma uma troca de povo no meio do livro precisa mostrá-la no texto, e o texto não a mostra. Pelo contrário, as promessas feitas ao vencedor nas cartas às igrejas se cumprem, no fim do livro, para esse mesmo povo. À igreja de Éfeso, Jesus prometeu a árvore da vida. No último capítulo lemos: “Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestes, para que tenham direito à árvore da vida.” São os mesmos que, no capítulo 7, “lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro”. A Filadélfia, Jesus prometeu gravar o seu nome no vencedor. No último capítulo, os seus servos “contemplarão a sua face, e na sua testa terão gravado o nome dele”. E, no capítulo 21: “O vencedor herdará estas coisas.” É um só povo, do começo ao fim do livro.
Há ainda dois versículos que eu considero muito fortes. Em Apocalipse 16, ainda na cena da sexta taça, antes da sétima, Jesus interrompe a narrativa e diz: “Eis que venho como vem o ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes.” A quem ele diria isso, no meio das taças, se os seus já não estivessem na terra? E isso responde a outra objeção, a de que uma vinda precedida de sinais deixa de ser iminente. É no meio das taças, com sinais por toda parte, que Jesus ainda diz: venho como vem o ladrão. Vigiar é estar pronto a qualquer hora. E, em Apocalipse 18, quando a Babilônia está para cair, uma voz do céu diz: “Saiam dela, povo meu, para que vocês não sejam cúmplices em seus pecados e para que os seus flagelos não caiam sobre vocês.” O povo de Deus ainda está na terra, e é chamado a se separar da Babilônia.
Agora precisamos responder àquele argumento que eu deixei por último, e que talvez seja o mais forte da posição pré-tribulacionista: Deus não nos destinou para a ira. Isso é verdade, e eu creio nisso de todo o coração. Em Romanos 5.9, lemos: “sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira”. Em 1 Tessalonicenses 1.10, Jesus é aquele “que nos livra da ira vindoura”.
Mas a Bíblia distingue duas coisas que a leitura pré-tribulacionista tende a juntar: a tribulação que a igreja sofre e a ira de Deus. Quando o Novo Testamento fala da tribulação que a igreja fiel enfrenta, fala da aflição que o mundo, a besta e o diabo lançam contra o povo de Deus. A mesma palavra, às vezes, descreve o castigo de Deus sobre os que perseguem a igreja, como vamos ver em segunda Tessalonicenses. Mas o Novo Testamento não chama o sofrimento dos fiéis de ira de Deus. A igreja é poupada da ira, e isso não a isenta da tribulação. Jesus disse, em João 16.33: “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo.” A palavra traduzida ali por “aflições” é a mesma que o Apocalipse usa para “tribulação”. Paulo e Barnabé, em Atos 14.22, fortaleciam os discípulos, “mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus”. E o próprio João, logo no início do Apocalipse, em Apocalipse 1.9, se apresenta assim: “Eu, João, irmão e companheiro de vocês na tribulação, no reino e na perseverança em Jesus.” Ele estava exilado na ilha de Patmos e se via companheiro dos irmãos dentro da tribulação.
No Apocalipse, a ira de Deus é derramada sobre os que adoram a besta. Em Apocalipse 14.9-10: “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na testa ou na mão, também esse beberá do vinho do furor de Deus.” A tribulação que a igreja enfrenta vem de outra fonte: é a guerra da besta contra os santos, é a fúria do diabo, que, como diz Apocalipse 12.12, desceu à terra “cheio de fúria, sabendo que pouco tempo lhe resta”. Deus não derrama a sua ira sobre os seus filhos. Permite que eles sofram nas mãos dos inimigos, e os guarda, e os recompensa.
Veja como Paulo descreve a ordem das coisas em 2 Tessalonicenses 1. A igreja de Tessalônica estava sofrendo. Paulo diz, no versículo 4, que se orgulha “da perseverança e da fé que vocês demonstram em todas as perseguições e tribulações que estão suportando”. E quando virá o alívio? Nos versículos 6 a 8: “é justo para com Deus que ele retribua com tribulação aos que causam tribulação a vocês e que dê a vocês, que estão sendo atribulados, alívio juntamente conosco, quando do céu se manifestar o Senhor Jesus com os anjos do seu poder, em chama de fogo”. O alívio da igreja atribulada vem quando Jesus se manifesta do céu, em chama de fogo, com os seus anjos, para julgar os ímpios. O dia do alívio para os santos é o mesmo dia da retribuição para os perseguidores.
No capítulo 2 da mesma carta, Paulo trata exatamente do que ele chama de “vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” e da “nossa reunião com ele”. No versículo 2, ele pede que ninguém pense que o Dia do Senhor já chegou. E, no versículo 3, diz: “isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade”. Alguém dirá que, a partir do versículo 2, Paulo fala do Dia do Senhor, e não da reunião. Mas foi a vinda e a nossa reunião com ele que Paulo anunciou como assunto, logo no versículo 1. E, se os tessalonicenses fossem ser reunidos com Cristo antes daquele dia, o jeito mais simples de acalmá-los seria dizer: vocês ainda estão aqui, então esse dia não chegou. Paulo não diz isso. Ele diz que a apostasia e o homem da iniquidade viriam primeiro.
Isso não significa negar o arrebatamento. Como eu disse no começo, o arrebatamento é bíblico. Paulo escreve em 1 Tessalonicenses 4.16-17: “o Senhor mesmo, dada a sua palavra de ordem, ouvida a voz do arcanjo e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles, entre nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares”. É uma vinda com palavra de ordem, voz de arcanjo e trombeta de Deus. O arrebatamento é o encontro da igreja com o Senhor quando ele desce dos céus, na sua vinda gloriosa. E o Novo Testamento anuncia uma só segunda vinda.
Os apóstolos falam do sofrimento do crente dessa mesma maneira, em mais de uma carta. Em Romanos 8.35, Paulo pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será a tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo ou a espada?” E responde: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” Repare: é em todas estas coisas que somos mais que vencedores. Em Filipenses 1.29, ele escreve: “vocês receberam a graça de sofrer por Cristo, e não somente de crer nele”. Sofrer por Cristo é chamado de graça. E Pedro, em 1 Pedro 4.12, escreve: “Amados, não estranhem o fogo que surge no meio de vocês, destinado a pô-los à prova, como se alguma coisa extraordinária estivesse acontecendo.”
Paulo, em 1 Coríntios 10.13, diz que Deus é fiel e que, “juntamente com a tentação proverá livramento, para que vocês a possam suportar”. Repare na finalidade desse livramento, que o próprio versículo explica: é para que possamos suportar a prova.
Ele mesmo viveu isso. Em 2 Timóteo 3.11, lembrando o que sofreu em Antioquia, Icônio e Listra, escreveu: “Quantas perseguições sofri! Porém o Senhor me livrou de todas elas.” E logo acrescentou: “Na verdade, todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.” Paulo foi livrado de todas as perseguições depois de passar por elas.
Pedro também escreveu, em 2 Pedro 2.9, que “o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e manter os injustos sob castigo, para o Dia do Juízo”. Os exemplos que ele dá são Noé e Ló. Noé não foi tirado do mundo antes do dilúvio; atravessou o dilúvio dentro da arca, enquanto o juízo caía sobre o mundo dos ímpios. E Ló? Ló foi tirado da cidade antes do fogo, é verdade. Mas Pedro diz que ele “atormentava a sua alma justa, dia após dia”, morando no meio daquela gente. Ló viveu a provação durante anos, dentro de Sodoma, e foi livrado do juízo que caiu sobre a cidade. Ele foi tirado de uma cidade, não do mundo. Deus sabe livrar. Às vezes guarda dentro da arca; às vezes abre uma porta de saída; e sempre distingue os seus do juízo que cai sobre os ímpios.
A história da igreja também nos ajuda aqui. Quando Jesus profetizou a destruição de Jerusalém, disse que aquilo viria sobre aquela geração. Em Mateus 24.34, ele diz: “Em verdade lhes digo que não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.” E, no mesmo discurso, registrado por Lucas no capítulo 21, deu aos discípulos uma instrução muito prática: “Quando, porém, vocês virem Jerusalém sitiada de exércitos, saibam que está próxima a sua devastação. Então os que estiverem na Judeia fujam para os montes.” E acrescentou: “esses dias são de vingança”, porque “haverá grande aflição na terra e ira contra este povo”.
No ano 70, os exércitos romanos destruíram Jerusalém e o templo. Foi uma tribulação terrível, e foi um juízo de Deus contra a cidade que rejeitou o Messias. E o que aconteceu com os cristãos? Segundo uma tradição registrada pelos historiadores antigos da igreja, a comunidade cristã de Jerusalém, advertida por Deus, deixou a cidade antes da guerra e se refugiou na cidade de Pela, do outro lado do rio Jordão. Deus guardou a sua igreja daquela ira. Mas como? Por meio de uma palavra de advertência e de uma obediência prática: eles fugiram. Foram guardados na terra.
Talvez isto surpreenda você, mas eu entendo que a grande tribulação de que Jesus fala em Mateus 24, o mesmo discurso que Lucas registra e chama de “grande aflição”, se cumpriu ali, em Jerusalém, naquela geração. Nem todos os irmãos pensam assim, e a conclusão desta aula não depende desse ponto. Mas isso não quer dizer que a igreja esteja livre de tribulação daqui para a frente. O Apocalipse descreve uma tribulação de alcance universal, que vai além de Jerusalém e do povo judeu. A grande multidão de Apocalipse 7 vem “de todas as nações, tribos, povos e línguas”. Essa tribulação é a perseguição da besta contra os santos, em todas as nações. A ira de Deus fica reservada para os adoradores da besta, e a igreja enfrenta a fúria da besta e de todos os inimigos de Cristo. Tudo isso acontece debaixo da vontade soberana de Deus, que reina sobre tudo e sobre todos. Em Apocalipse 13, a linguagem é “foi-lhe permitido”, “foi-lhe dada”. Nem a besta age sem a permissão do trono.
Há mais alguns dados da história que vale a pena conhecer. O primeiro diz respeito à própria Filadélfia. Policarpo, bispo de Esmirna, morreu como mártir por volta do ano 155. O relato antigo do seu martírio conta que ele foi o décimo segundo mártir de Esmirna, e que, entre esses doze, havia irmãos que tinham vindo de Filadélfia. Esse relato não comenta o nosso versículo, mas mostra que a promessa feita a Filadélfia não impediu que cristãos daquela mesma igreja, poucas gerações depois, dessem a vida por Cristo.
O segundo dado é mais amplo. Nos primeiros séculos, os cristãos que escreveram sobre o fim esperavam enfrentar o anticristo. Um dos escritos cristãos mais antigos depois do Novo Testamento, um pequeno manual de ensino chamado Didaquê, diz assim: “Então a humanidade entrará no fogo da provação; muitos tropeçarão e se perderão, mas os que perseverarem na sua fé serão salvos.” Outros escritores daquele tempo repetem que o anticristo perseguiria a igreja, e um deles chega a dizer que ela fugiria de cidade em cidade e se esconderia nos desertos, e continuaria no mundo. A ideia de uma vinda de Cristo para retirar a igreja antes da tribulação, organizada como sistema, só aparece no século XIX. Antes disso, é possível encontrar uma ou outra frase isolada, mas não um ensino da igreja. Isso, sozinho, não prova que a ideia esteja errada, porque o que decide é a Escritura, e não a idade de uma ideia. Mas nos convida a ouvir com atenção o que a igreja dos primeiros séculos, que sofreu tanto, entendia sobre a sua própria esperança.
Então, meus irmãos, vamos juntar tudo.
Apocalipse 3.10 não promete a retirada da igreja antes da tribulação. Promete que Cristo guardará os seus na hora da prova. O verbo guardar fala de proteção diante de um perigo real. Em João 17, Jesus não pede que os discípulos sejam tirados do mundo, mas que sejam guardados do Maligno enquanto permanecem nele. A hora da provação é juízo para os que habitam sobre a terra e purificação para o povo de Deus. Como Israel em Gósen, os servos de Deus são selados e protegidos no meio do juízo. A carta a Esmirna chama os irmãos a serem fiéis até a morte. A igreja é salva da ira e, mesmo assim, passa pela tribulação. E o seu alívio vem no dia da vinda gloriosa do Senhor, quando os mortos em Cristo ressuscitam e os vivos são arrebatados para encontrá-lo.
Essa é a minha convicção, e eu quero deixá-la clara: a igreja de Jesus Cristo permanecerá no mundo até a volta do seu Senhor, dando testemunho, sofrendo quando for preciso, guardada pela graça, e será reunida com ele numa única vinda gloriosa, visível e final.
E o que isso significa para nós? Deixo cinco aplicações.
A primeira: precisamos preparar a igreja para a prova, para que ela não seja pega de surpresa. Uma igreja que acredita que será retirada antes da perseguição do fim pode se escandalizar quando o sofrimento chegar. Jesus disse, em João 16.1: “Falo essas coisas para que vocês não se escandalizem.” Ele avisou para que não fôssemos surpreendidos. Ensinar a verdade sobre a tribulação é um ato de amor pastoral.
A segunda: a nossa segurança está em Cristo. O crente está seguro porque nada, nem a tribulação, nem a espada, nem a morte, poderá separá-lo do amor de Deus que está em Cristo Jesus, como Paulo diz em Romanos 8. Esse consolo é mais firme do que qualquer promessa de fuga.
A terceira: devemos lembrar da igreja perseguida. Enquanto conversamos sobre isso, há irmãos em vários lugares do mundo que estão presos, expulsos das suas casas ou sendo mortos por causa de Jesus. Para eles, Apocalipse 3.10 é uma promessa para hoje: eu guardarei você. Pedro escreveu, em 1 Pedro 5.9, que os irmãos, “espalhados pelo mundo, estão passando por sofrimentos iguais aos de vocês”. O Apocalipse foi escrito, antes de tudo, para consolar igrejas que sofriam.
A quarta: conserve o que você tem. A promessa de Cristo não nos dispensa de vigiar. A graça que guarda é a mesma graça que nos chama a perseverar. “Venho sem demora. Conserve o que você tem, para que ninguém tome a sua coroa.” Guardar a palavra, não negar o nome, perseverar: foi isso que Jesus elogiou em Filadélfia, e é isso que ele espera de nós.
E a quinta: olhe para o fim da promessa. Lembra dos terremotos de Filadélfia? Uma cidade onde os muros rachavam todos os dias e onde muita gente tinha medo de morar dentro dos muros. A essa igreja Jesus diz, no versículo 12: “Ao vencedor, farei com que seja uma coluna no santuário do meu Deus, e dali jamais sairá.” Uma coluna que nenhum terremoto derruba, num lugar de onde ninguém mais vai precisar fugir. E lembra do nome novo que a cidade recebeu em honra a César? Jesus continua: “Gravarei sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome.” Os nomes que os impérios dão passam. Os que hoje não negam o nome de Jesus levarão para sempre o nome de Jesus.
Essa é a esperança da igreja: ser guardada no meio da luta e chegar ao fim como coluna no santuário de Deus, para nunca mais sair de lá.
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas.
Nota: as citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Recomendo ler cada passagem por inteiro, no seu contexto, durante o estudo.
Bispo Ildo Mello