História da Igreja Metodista Livre · Volume I · Capítulo XXXII

A Igreja Metodista Livre organizada

Já vimos o papel importante que as Convenções dos Leigos tiveram nos passos providenciais que prepararam o caminho para a formação da Igreja Metodista Livre. Os leigos foram também em grande parte instrumentos da sua organização final. O Rev. A. A. Phelps, que esteve presente e participou dos trabalhos, deu o seguinte breve relato:

De acordo com as disposições da última Convenção dos Leigos, convocou-se uma Convenção de delegados em Pekin, condado de Niágara, N. Y., em 23 de agosto de 1860, para deliberar sobre o melhor modo de estender a obra que Deus começara entre eles com tanta graça. A convenção foi chamada à ordem e aberta com exercícios devocionais. Isaac M. Chesbrough, de Pekin, foi eleito presidente, e o Rev. A. A. Phelps, secretário. O corpo, devidamente organizado, compunha-se de sessenta membros: quinze pregadores e quarenta e cinco leigos. [B. T. Roberts, num relato editorial da convenção no Earnest Christian, dá o número de “oitenta leigos e quinze pregadores”. W. T. H.] A maior parte dos trabalhos se fez no terreno do acampamento, um lugar recém-consagrado pelo derramamento do Espírito de Deus e pela salvação de almas preciosas. As deliberações da convenção resultaram na organização da Igreja Metodista Livre e na adoção da sua primeira Disciplina.1

A convocação dessa convenção dizia o seguinte:

Realizar-se-á em Pekin uma convenção com o fim de adotar uma Disciplina para a Igreja Metodista Livre, a começar no encerramento do acampamento, em 23 de agosto. Todas as sociedades e Grupos que julgarem necessário, para promover a prosperidade e a permanência da obra da santidade, organizar uma Igreja Metodista Livre sobre a base seguinte são convidados a enviar delegados:

1. As doutrinas e os usos do metodismo primitivo, como o testemunho do Espírito, a inteira santificação como estado de graça distinto da justificação, alcançável instantaneamente pela fé; assentos gratuitos e canto congregacional, sem música instrumental em nenhum caso; simplicidade no vestir.

2. Representação igual de ministros e leigos em todos os conselhos da igreja.

3. Nenhuma posse de escravos e nenhuma ligação com sociedades secretas ligadas por juramento.

Cada sociedade ou Grupo terá direito a enviar pelo menos um delegado, e mais um para cada quarenta membros.

Havia sérias dúvidas na mente de alguns dos que participaram dessa convenção quanto à conveniência de organizar uma nova igreja naquela ocasião. O assunto foi discutido livremente, porém, e depois disso uma maioria considerável votou a favor de prosseguir com a obra de organização. O Rev. S. K. J. Chesbrough, que até então tivera papel destacado nas Convenções dos Leigos, exprimiu a sua atitude naquela ocasião na seguinte declaração:

Na época da convenção, eu não tinha clareza na minha mente de que chegara o tempo de nos organizarmos e, por isso, recusei-me a ser delegado nessa convenção. Não tomei parte nenhuma nos trabalhos. Na verdade, não estive presente na convenção no terreno do acampamento. Tudo o que me lembro dela é isto: antes de a convenção ser convocada, B. T. Roberts e vários outros (não me lembro com clareza quem eram, mas eram os principais pregadores e leigos ativos no assunto) reuniram-se debaixo de uma macieira bem atrás da nossa cozinha. Eu estava sentado à porta da cozinha, olhando para eles. Estavam quase todos sentados na grama debaixo da árvore, e votou-se que procederiam à organização da igreja. Depois se levantaram e foram para o bosque, onde se realizou a convenção e onde a criança nasceu e recebeu o nome. Isso explica a minha falta de lembrança do assunto. Pouco tempo depois senti que a sabedoria dos irmãos era melhor do que a minha e, em poucas semanas, me filiei à organização.2

Em outro lugar o Sr. Chesbrough diz: “Lembro-me bem do domingo depois da organização, quando a minha esposa e mais dezoito pessoas responderam às perguntas da Disciplina, que o irmão Roberts escrevera num pedaço de papel, e formaram a primeira classe metodista livre jamais formada segundo a Disciplina.”

Um relato mais completo das diferenças de opinião entre os irmãos nessa convenção quanto à conveniência de se organizarem naquela ocasião, e também do seu resultado, foi dado pelo Rev. M. N. Downing, que esteve presente e terminou a sua carreira terrena em 1913. Diz o Sr. Downing:

Fui delegado na convenção de Pekin, N. Y., em que se decidiu a Disciplina. Nessa convenção, o Rev. Joseph McCreery, W. Cooley, Alanson Reddy e, creio, um Rev. Sr. Farnsworth, e vários leigos se opuseram à organização imediata de uma nova denominação, porque criam que seria prematura; mas que ela viria [mais tarde] com um enxame maior saído da Igreja Metodista Episcopal. Nesse meio-tempo, poriam Grupos em seu lugar.

O Dr. Redfield estava presente para representar o Oeste. Levantou-se e disse: “Irmãos, quando a fruta está madura, é melhor colhê-la, para que não se machuque ao cair. No Oeste estamos prontos para uma organização. Se no Leste vocês não estão prontos, esperem até estarem.” O Sr. Roberts levantou-se e observou: “Nós estamos prontos, e o Oeste e o Leste devem agir nesse assunto ao mesmo tempo.” A maioria prevaleceu, e fez-se a organização, com o nome de Igreja Metodista Livre.

A minoria se retirou e foi conhecida depois como a facção nazarita do movimento de salvação, embora o nome nazarita fosse bem conhecido entre nós antes de chegar essa crise. [O autor entende que os que se retiraram preferiram aceitar o nome de “Grupos Nazaritas”.] A facção nazarita degenerou completamente num acampamento em East Shelby, N. Y. O Rev. W. Cooley e a esposa estavam nesse acampamento e, vendo entrar o fanatismo em alguns dos seus traços mais desvairados, fugiram para a Igreja Metodista Livre em busca de refúgio e foram obreiros úteis nela. Depois, o irmão McCreery se filiou em experiência; mas nunca pareceu estar em plena simpatia com a igreja.

O irmão L. Stiles desejava que se inserisse na Disciplina uma cláusula favorável tanto à visão gradualista como à instantânea da inteira santificação. O Dr. Redfield levantou-se e disse, em substância: “Irmãos, eu não quero fazer ameaças, mas, se não formos retos na questão da santidade na Disciplina, é melhor pararmos onde estamos. A teoria gradualista é o que tem feito tanto mal. Somos metodistas de John Wesley. Não devemos fugir desse ponto.” Essa opinião prevaleceu.

Efetuada a organização da Igreja Metodista Livre, a convenção passou a eleger o Rev. B. T. Roberts como o seu superintendente geral. O trecho seguinte do seu diário particular é interessante pela luz que lança sobre os trabalhos, além do que dizem as citações acima:

23 de agosto de 1860. Convenção em Pekin para formar uma Igreja Metodista Livre. Estavam presentes delegados da Conferência de Genesee; um, Daniel Lloyd, de St. Louis; e o Dr. Redfield, do Oeste. O Rev. J. McCreery era muito contrário a formar uma organização fechada de igreja. Disse que muitas das ovelhas do aprisco metodista tinham sido tão esfomeadas pelos pregadores da Regência que não conseguiam pular a cerca, e ele queria ficar numa posição em que pudesse lhes dar sal através das tábuas. O irmão William Cooley também era contrário a organizar uma igreja formal; mas a maioria dos delegados pensava que os interesses da causa de Deus exigiam uma organização. A votação foi de quarenta e cinco a favor da organização e sete contra. Pelas seguintes razões, senti que era melhor organizar uma igreja:

1º. Nós, seis pregadores, tínhamos sido perversamente expulsos da Igreja Metodista Episcopal, e dois outros pregadores tinham sido tornados estabelecidos do mesmo modo. Muitos membros piedosos tinham sido expulsos e lidos fora por simpatizarem conosco. A Conferência Geral, embora lhe tivessem feito petição mil e quinhentos membros, recusou-se a nos dar qualquer reparação, ou mesmo a investigar as nossas queixas.

A. W., que foi expulso por conduta licenciosa com várias moças, foi restaurado pela mesma Conferência Geral, embora o seu caráter seja considerado mau há pelo menos catorze anos. Em quase todos os lugares em que pregou nesse tempo, seguiram-no notícias semelhantes de conduta licenciosa.

O Sr. ____, da Conferência de New York East, que admitiu que o marido de uma das suas fiéis, chegando em casa inesperadamente, o encontrou escondido debaixo da cama, estando a esposa do irmão no quarto, também foi restaurado. Mas a Conferência Geral não quis ouvir as nossas apelações.

Apresentou-se a eles um memorial expondo as nossas queixas, mas, até onde podemos apurar, nem sequer foi lido. Esse memorial foi assinado pelo Rev. Asa Abell, por John P. Kent e por outros membros da Conferência de Genesee.

2º. A Igreja Metodista Episcopal se afastou tanto da sua posição original e se envolveu tanto no formalismo, na influência das sociedades secretas e no escravagismo que não há esperança da sua recuperação.

3º. Não há nenhuma igreja existente que faça da salvação das almas a sua obra principal e mais destacada. Tínhamos de formar uma nova igreja, ou viver fora de qualquer uma e não ter lugar onde pôr os que Deus converte por meio de nós.

A forma de Disciplina que eu preparara, sob a influência, como creio, do Espírito de Deus, foi adotada com apenas pequenas alterações. Propus que houvesse uma Comissão Permanente que tivesse a supervisão geral de todos os interesses da igreja. Mas a convenção julgou melhor ter um superintendente geral. Para minha surpresa, a escolha recaiu sobre mim. Senhor, dá-me sabedoria celestial para me guiar! Foi uma cruz pesada aceitar a nomeação, mas não ousei recusar, por causa da convicção de que Deus me chamava a esse trabalho, a esse opróbrio e a essa responsabilidade. Contudo, ah, a que calúnias isso me exporá! Senhor, tomarei a cruz e a vergonha. Dá-me a tua presença e a tua ajuda, ó Deus de poder.3

Se a proposta do Sr. Roberts de uma Comissão Permanente para supervisionar os assuntos da igreja em geral tivesse prevalecido, sem dúvida a história da Igreja Metodista Livre teria sido muito diferente do que foi, em vários aspectos. Ele parece ter-se convencido plenamente, por fim, de que a decisão da convenção foi sábia.

Do capítulo anterior se vê que, durante um ou dois anos antes da Conferência Geral, os membros que foram “lidos fora” ou expulsos da Igreja Metodista Episcopal por causa da sua simpatia pelos ministros proscritos vinham se organizando ou em Grupos ou em igrejas independentes. Formaram-se Grupos em numerosos lugares, e tinham-se organizado igrejas em Albion, Nova York; St. Charles, Illinois; St. Louis, Missouri; e talvez em mais dois ou três lugares. Esses perseguidos, excluídos da igreja que tanto amavam, passavam por um estado de transição quanto à sua condição de membros de igreja, embora não soubessem para onde. Saíam com alegria “fora do acampamento, levando a mesma desonra que ele [Cristo] suportou” (Hb 13.13); e, não tendo certeza de um lar eclesiástico permanente, passaram a gostar de chamar a si mesmos “peregrinos”, nome bastante comum entre eles, até na sua vida denominacional, até hoje. A organização dessas pequenas sociedades parece ter sido ordenada pela Providência, tanto para a sua própria preservação na unidade como pelas melhores condições que lhes deu para trabalhar com eficácia pela salvação dos outros e pela promoção geral da obra de Deus.

[N. do T.: “do capítulo anterior” está assim no original; os fatos referidos estão nos Caps. XXVI a XXX.]

Os que formaram igrejas independentes tomaram nomes variados, mas em vários deles entraram as palavras Igreja Metodista Livre. Não conseguimos apurar quem originou esse nome. O leitor há de lembrar, porém, que a pequena sociedade que o Sr. Roberts encontrou em Buffalo, N. Y., depois da sua expulsão, cultuando num prédio da rua Treze, cujo uso lhes fora concedido por um irmão congregacional, era então conhecida como Igreja Metodista Episcopal Livre. Era uma igreja em que todos os assentos eram gratuitos e que defendia a liberdade em vários outros aspectos. Presume-se que o nome Igreja Metodista Livre seja uma adaptação do nome da Igreja Metodista Episcopal Livre de Buffalo, com a omissão da palavra Episcopal, por se ter adotado a forma democrática, e não a episcopal, de governo. O Sr. Stiles também organizara uma Igreja Congregacional Metodista Livre em Albion, Nova York, um ou dois anos antes da formação da nova denominação. Duzentos membros da Igreja Metodista Episcopal o seguiram na nova organização.

Como característica final da nova denominação, o nome Igreja Metodista Livre é significativo. Em primeiro lugar, o termo Igreja indica que esse povo, desde o início, cria na organização eclesiástica e não era mera sociedade contra as seitas, organização de reforma ou associação de santidade. Organizaram-se como ramo permanente da igreja militante e se propuseram, tanto quanto possível, a honrar tanto o nome Igreja como aquilo que ele representa.

Depois, adotou-se o nome Metodista porque afirmavam ser metodistas, do tipo original, na doutrina, nos usos, na experiência e na prática. Eram e são metodistas de John Wesley.

Por fim, o prefixo Livre significava liberdade do domínio episcopal, de que tinham sofrido na igreja que os lançara fora; liberdade do governo ou da interferência das lojas, que tinham agido de modo tão desastroso nas dificuldades que levaram à sua expulsão; liberdade das discriminações a favor dos ricos e aristocratas na casa de Deus, geradas pelo aluguel ou venda dos bancos; a liberdade do Espírito na experiência pessoal, acompanhada da liberdade de todos, no culto público a Deus, para dar a expressão exterior a uma profunda emoção religiosa que o Espírito Santo inspirar ou suscitar.

Pouco mais de um ano depois de o Sr. Stiles organizar a sua igreja em Albion, Nova York, o Rev. C. D. Brooks retirou-se da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal, e com ele cento e sessenta dos seus membros. Mais tarde se uniram à Igreja Metodista Livre. Esse foi o maior número que jamais se uniu à Igreja Metodista Livre de uma só vez, exceto quando o Sr. Stiles e a sua igreja recém-organizada se uniram em bloco.

Depois de escrito o parágrafo acima, recebemos do Sr. Brooks a seguinte carta, que lança luz adicional sobre a origem do nome Igreja Metodista Livre:

Geneva, N. Y., 19 de maio de 1913.

Prezado irmão:

Tenho pensado ultimamente que devia escrever-lhe e mencionar um fato sobre a organização da Igreja Metodista Livre. Como suponho que o senhor pretende publicar uma história da nossa igreja, talvez queira incluir o pormenor sobre o qual agora lhe escrevo.

Tenho agora quase oitenta e oito anos e sou o único ministro ainda vivo da velha Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal que passou por aqueles julgamentos injustos que prepararam o caminho para a organização da igreja que ainda faz uma obra fiel e vê muitas almas claramente salvas todos os anos.

Agora, o pormenor: o nome dado etc. No segundo ano das expulsões, em Brockport, em 1859, o Rev. Loren Stiles foi o primeiro dos quatro a ser excluído. De fato, uma hora depois que o partido maçônico da Conferência votou a sua exclusão da Conferência e da condição de membro da igreja, aquele nobre homem, de preciosa memória, proclamou publicamente, com grande ênfase: “Levarei a minha apelação a Deus e ao povo.” Logo partiu e voltou a Albion, onde fora pastor dois anos. Previ então que provavelmente ele organizaria uma nova igreja; e, depois de pensar no assunto um ou dois dias, escrevi-lhe que, caso organizasse uma nova igreja, um bom nome para ela seria

IGREJA METODISTA LIVRE.

E sugeri ainda que esperava que a posição da nova igreja incorporasse os seguintes princípios, a saber:

Livre da escravidão,
livre das sociedades secretas,
assentos livres em todas as igrejas,
livre dos enfeites exteriores do orgulho, e
livre em Cristo.

Logo soube que o irmão Stiles organizou imediatamente uma nova igreja em Albion, que quase 200 pessoas se filiaram a ela e que o nome e os princípios foram adotados como eu os tinha dado.

E, além disso, quando quase um ano depois, em 1860, em Pekin, N. Y., se organizou a igreja geral, em 23 de agosto, o mesmo nome e os mesmos princípios foram incorporados na Disciplina da igreja; e um capítulo da Disciplina, como adotada em Pekin, estava com a minha letra, embora eu ainda fosse membro da Conferência de Genesee da Igreja Metodista Episcopal.

Talvez o senhor nunca tenha sabido antes que o seu humilde servo teve tal parte na formação das coisas naqueles tempos difíceis.

Seu companheiro de muitas batalhas durante os últimos cinquenta anos, ainda atrás das almas,

C. D. Brooks.

Mal a organização infante nasceu e recebeu o nome, os restos dispersos do metodismo, dispersos pela mão da tirania e do despotismo eclesiásticos, começaram a voltar-se para a nova igreja como lugar de refúgio contra a opressão e como organização especialmente comprometida com a obra para a qual, como disse John Wesley, as primeiras sociedades metodistas foram levantadas: “espalhar a santidade bíblica por estas terras”. Um após outro, os Grupos, sociedades e igrejas que tinham sido organizados aqui e ali como expediente temporário uniram-se à nova denominação pela adoção da sua Disciplina, não mais como grupos fragmentários e isolados, mas como sociedades de uma igreja cristã regularmente constituída, unidas num só corpo, trabalhando juntas pelo avanço do reino de Deus sob uma só e a mesma organização eclesiástica.

A Disciplina adotada baseou-se em grande parte na Disciplina da Igreja Metodista Episcopal. Foram adotados todos os seus “Artigos de Religião”, menos quatro. Os artigos XIV, XIX, XXI e XXIII foram omitidos com propriedade, e acrescentaram-se dois outros: um sobre a “Inteira santificação” e outro sobre as “Recompensas e castigos futuros”. Como a Igreja Metodista Episcopal tomou emprestados os seus “Artigos de Religião”, em grande parte, da Igreja da Inglaterra, que tão recentemente rompera com o romanismo, diz o Dr. Bowen, não é estranho que se precavesse contra os erros do papismo, à imitação do credo materno, conservando os “Artigos” sobre o “Purgatório”, as “Obras de supererrogação”, o “Casamento dos ministros” e semelhantes; mas quem não se surpreende de que tenha deixado de introduzir a doutrina da “inteira santificação” e das “recompensas e castigos futuros”, que sempre considerou fundamentais, ao menos até há pouco tempo? Essas doutrinas, tão claramente ensinadas nos padrões da velha igreja e feitas parte da confissão dos seus ministros, sobretudo a primeira, na sua admissão à plena conexão, a Igreja Metodista Livre as incorporou com toda a propriedade ao seu credo, e a sua vida e o seu ensino lhes correspondem eminentemente.4

[N. do T.: nos 25 Artigos metodistas, o XIV trata do purgatório, o XIX da Ceia em ambas as espécies, o XXI do casamento dos ministros e o XXIII dos governantes dos Estados Unidos. A lista de Bowen menciona também as “obras de supererrogação”, mas esse artigo (XI) foi conservado na Disciplina de 1860; ver a nossa tradução do Cap. I.]

A Igreja Metodista Livre adotou também, na sua organização, as “Regras Gerais” da denominação-mãe sem modificação, exceto que, onde a regra sobre a escravidão da Disciplina metodista episcopal era absurdamente ambígua, a regra sobre o assunto na Disciplina metodista livre proibia claramente “comprar, vender ou possuir um ser humano como escravo”. Isso, convém lembrar, foi adotado quando a escravidão americana ainda existia. “A ‘regra’, como adotada pela Igreja Livre, é plena e explícita demais na sua linguagem para ser evitada de qualquer modo; e é, em suma, como pretendia ser, o próprio sinônimo do antiescravagismo em todos os seus modos e tempos.”

Pouco depois da sua organização, a Igreja Metodista Livre modificou também a regra contra “a moleza e a autoindulgência desnecessária”, com o acréscimo de uma cláusula que a fazia aplicar-se especialmente ao “uso do tabaco para a satisfação de um apetite depravado”; e, mais tarde ainda, foi de novo modificada para proibir “o cultivo, a venda ou a fabricação” desse produto.

Outro traço da Disciplina da nova igreja que a distinguia da igreja-mãe eram as condições para ser membro. Na Igreja Metodista Episcopal, as pessoas sempre foram recebidas em experiência com a profissão de “o desejo de fugir da ira vindoura”. Em consequência, imensas multidões entraram assim na condição de membros em experiência que, se alguma vez tiveram tal desejo, deixaram de mostrá-lo por muito tempo guardando as Regras Gerais e prosseguindo até se converterem de fato; mas, ao fim do período de experiência, foram recomendadas para a plena condição de membro e recebidas; e assim a igreja ficou em grande parte cheia de membros não convertidos, que amam o mundanismo e o pecado tanto quanto antes, que desprezam as restrições das regras eclesiásticas e pretendem fartar-se de prazer na mesa de jogo, no salão de baile, no teatro ou onde mais lhes agradar, e em toda espécie de conformidade com o mundo que for do seu gosto.

Advertida por isso, a Igreja Metodista Livre, desde o início, só recebeu pessoas em experiência quando davam respostas afirmativas às seguintes perguntas: 1. “Você tem a certeza dos pecados perdoados?” 2. “Consente em ser governado pelas nossas Regras Gerais?”

[N. do T.: a Disciplina de 1860, na nossa tradução (Cap. I, Seção III), formula a condição para o período de experiência como “prova satisfatória de conversão bíblica” e recomendação de um membro; as duas perguntas citadas por Hogue não aparecem ali com essas palavras.]

O objetivo era impedir que pessoas não convertidas se tornassem membros da igreja. Se as barreiras não forem mantidas nesse ponto, há toda a probabilidade de que, mais cedo ou mais tarde, algumas das igrejas, se não a igreja em geral, caiam inteiramente sob o controle de homens não salvos e sejam dirigidas meramente como clubes ou centros sociais, com pouca ou nenhuma consideração pelas coisas espirituais. Quem de nós não viu repetidamente o resultado prático desse princípio nos corpos que recebem membros em experiência com a simples profissão do “desejo de fugir da ira vindoura”?

Pode-se perguntar, porém: “O Sr. Wesley não recebia pessoas em experiência com essa condição?” Respondemos: sim, nas suas “Sociedades Unidas”, mas não na igreja. As “sociedades” do metodismo primitivo não formavam uma igreja, no sentido técnico, mas eram “sociedades” dentro da igreja nacional, destinadas a ajudar os que desejavam escapar da ira de Deus a encontrar a paz e a certeza e, depois, a edificá-los naquela “santificação sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). O Sr. Wesley não reconhecia o metodismo do seu tempo como igreja, mas simplesmente como uma união de “sociedades” dentro da Igreja da Inglaterra, da qual ele mesmo era sacerdote regularmente ordenado e da qual nunca se separou. Nem as “sociedades” metodistas se separaram da Igreja da Inglaterra senão algum tempo depois da morte do Sr. Wesley. Deve-se lembrar também que dos que continuavam nessas sociedades sob a superintendência do Sr. Wesley se esperava e se exigia que guardassem as Regras Gerais como prova do seu desejo de “fugir da ira vindoura”. Sob esse regime, ou experimentavam uma conversão genuína, ou logo deixavam de pertencer às “sociedades” metodistas.

Os membros só seriam recebidos em plena conexão na Igreja Metodista Livre se dessem respostas afirmativas às seguintes perguntas, e com o consentimento de pelo menos três quartos de todos os membros presentes numa reunião da sociedade:

1. Você tem o testemunho do Espírito de que é filho de Deus?

2. Você tem aquele perfeito amor que lança fora o medo? Se não tem, buscará com diligência até alcançá-lo?

3. É seu propósito dedicar inteiramente o resto da sua vida ao serviço de Deus, fazendo o bem ao próximo e desenvolvendo a sua própria salvação com temor e tremor?

4. Você deixará para sempre todos os enfeites supérfluos e se vestirá com roupa modesta, com decência e bom senso, não com tranças no cabelo, ouro, pérolas ou roupas caras, mas como convém aos que professam ser piedosos, com boas obras?

5. Você se absterá de ligação com todas as sociedades secretas, mantendo-se livre para seguir a vontade do Senhor em todas as coisas?

6. Você subscreve os nossos Artigos de Religião, as nossas Regras Gerais e a nossa Disciplina, e está disposto a ser governado por eles?

7. Você tem comunhão cristã e amor pelos membros desta sociedade, e os ajudará, conforme Deus lhe der capacidade, a levar adiante a obra do Senhor?

[N. do T.: as perguntas seguem a redação da nossa tradução da Disciplina de 1860 (Cap. I, Seção III), onde estão as referências bíblicas (Rm 8.16; 1Jo 4.18; Fp 2.12; 1Tm 2.9-10).]

Vê-se pelo exposto que os candidatos à plena condição de membro da Igreja Metodista Livre têm de declarar publicamente que têm o testemunho do Espírito de que são filhos na família de Deus; que experimentaram o perfeito amor, ou inteira santificação, ou que o buscarão com diligência até experimentá-lo; que se conformarão ao conselho apostólico sobre o vestuário; e que se absterão de ligação com todas as sociedades secretas: quatro coisas que não estavam substancialmente cobertas pelas condições para ser membro da Igreja Metodista Episcopal.

Foi uma grande ousadia para a igreja infante erguer um padrão de membresia como esse, e tal caminho jamais teria sido ditado pela política mundana. Os que foram instrumentos do início do novo movimento foram levados a adotar tais medidas pelas coisas que tinham visto e experimentado sob a política mais liberal da igreja-mãe. Tinham aprendido muito pelas coisas que sofreram. A sabedoria das suas medidas era problemática na época, e há multidões que hoje questionam a sensatez de tal política. Durante cinquenta e cinco anos, porém, a Igreja Metodista Livre manteve esse padrão diante de dificuldades terríveis e, embora o seu crescimento tenha sido lento, tem sido constante, e a sua influência para o bem se estendeu de muitas maneiras muito além dos seus próprios limites, sendo largamente sentida por praticamente todos os corpos eclesiásticos do país.

O resumo editorial seguinte dos trabalhos da convenção em que se organizou a Igreja Metodista Livre, publicado no Earnest Christian de setembro de 1860, mostra que a adoção de uma Disciplina não se fez sem consideração e dá também algumas das razões que levaram os irmãos a adotar algumas das novas disposições:

Cerca de oitenta leigos e quinze pregadores reuniram-se em convenção em Pekin, condado de Niágara, N. Y., em 23 de agosto, para considerar a adoção de uma Disciplina para a “Igreja Metodista Livre”. Houve uma boa discussão sobre a conveniência de fazer, no momento, uma organização formal. Quando se votou, todos, menos sete (cinco pregadores e dois leigos), se puseram de pé a favor de organizar imediatamente.

Ao considerar as disposições da Disciplina apresentadas pela comissão, cada novo traço foi examinado da maneira mais atenta e crítica. O profundo interesse e o exame cuidadoso dos leigos inteligentes presentes como delegados devem ter convencido a todos de que perde muito a igreja que os exclui dos seus conselhos. Depois de um exame cuidadoso, item por item, a Disciplina acordada foi adotada com singular unanimidade. Foi tão surpreendente quanto agradável notar a semelhança de opiniões de homens que pensam por si mesmos e vinham de diferentes partes do país.

As doutrinas acordadas são as que os metodistas sustentam em geral em todo o mundo. Adotou-se um artigo sobre a santificação, tirado dos escritos de Wesley. Como a diferença de opiniões sobre esse assunto é uma das causas das dificuldades ocorridas na Conferência de Genesee, julgou-se melhor ter uma expressão definida da nossa crença.

O apoio dado ultimamente pelos ministros metodistas desta região aos universalistas, associando-se a eles, ocupando os seus púlpitos e participando da comunhão deles sem repreensão, tornou necessário, a juízo da convenção, ter um artigo, tirado da Bíblia, sobre as recompensas e castigos futuros.

As Convenções Anuais e Quadrienais devem compor-se de igual número de leigos e ministros. O episcopado e o cargo de presbítero presidente são abolidos. Os líderes de classe e os ecônomos são escolhidos pelos membros, e o direito sagrado de todo acusado a um julgamento imparcial e à apelação é cuidadosamente protegido.

Várias perguntas penetrantes, relativas à experiência pessoal e ao propósito de levar uma vida dedicada a Deus, devem ser feitas a cada pessoa que se oferecer para entrar na igreja; e, com resposta afirmativa, ela será admitida com o consentimento de três quartos dos membros presentes numa reunião da sociedade.

Não temos a intenção de tentar promover uma secessão. Pelo contrário, “no que depender de nós”, viveremos “em paz com todas as pessoas” (Rm 12.18). A expulsão perversa de vários ministros por nenhum outro crime senão o de procurar simplesmente cumprir os seus votos de ordenação, a cruel recusa da Conferência Geral em nos conceder a audiência das nossas apelações, que nos fora garantida da maneira mais solene pela Constituição e pelas leis da Igreja Metodista Episcopal, e a expulsão violenta da igreja de muitos dos seus membros piedosos e dedicados, cuja única ofensa era simpatizar conosco enquanto procuramos suportar “os sofrimentos a favor do evangelho” (2Tm 1.8), tornaram necessário providenciar um abrigo humilde para nós mesmos e para os pobres peregrinos andarilhos que quiserem viajar conosco para o céu.

Estamos muito firmes na convicção de que é vontade do Senhor que estabeleçamos igrejas livres, com os assentos para sempre gratuitos, onde o evangelho possa ser pregado aos pobres. Temos esta consolação, e é grande: se o nosso esforço não for para a glória de Deus e não receber a sua aprovação, não poderá ter êxito. E, se não for para a sua glória, oramos com toda a devoção para que fracasse logo no seu começo. Preferimos ser cobertos de qualquer quantidade de desonra a ver sofrer a causa de Deus. Não temos homens de grande capacidade e influência para ajudar o empreendimento: nem riqueza, nem simpatia de poderosas sociedades eclesiásticas, políticas ou secretas; mas tudo isso contra nós, de modo que, se tivermos êxito, há de ser pelas bênçãos do céu sobre os nossos fracos esforços. Não podemos valer-nos de nenhuma excitação popular a favor de uma reforma do governo da igreja, ou contra a escravidão; mas estamos empenhados na obra, sempre impopular, e especialmente nesta época, de procurar persuadir os nossos semelhantes a trilhar o caminho da abnegação, o caminho apertado que conduz para a vida (Mt 7.14).

[N. do T.: “Convenções Anuais e Quadrienais” traduz “Annual and Quadrennial Conventions”, os nomes adotados em 1860 para as Conferências (ver a nossa tradução da Disciplina, Cap. II).]

Que os fundadores da Igreja Metodista Livre eram dedicadamente ligados ao metodismo se evidencia pelo fato de que os Artigos de Fé que adotaram foram todos tomados dos da Igreja Metodista Episcopal, exceto dois: o da inteira santificação, que reproduz as palavras de Wesley e é reafirmado nas principais obras doutrinárias da Igreja Metodista; e o das recompensas e castigos futuros, que também está em pleno acordo com o ensino dos padrões doutrinários do metodismo. Evidencia-se também pelo fato de que adotaram a maior parte dos usos do metodismo primitivo e tanto da organização da Igreja Metodista Episcopal quanto se podia aproveitar de modo coerente com o seu propósito de proteger mais plenamente os direitos dos leigos nos procedimentos eclesiásticos. Descartou-se o caráter vitalício do episcopado, mas pôs-se no seu lugar uma superintendência eletiva, limitada a quatro anos, a menos que prorrogada por reeleição. Não se conservou o cargo de presbítero presidente, mas adotou-se em seu lugar o de presidente de distrito, que incluía a mesma ideia de supervisão do distrito, embora com menos autoridade. O título de presidente de distrito (District Chairman) foi mudado para presbítero de distrito (District Elder) pela Conferência Geral de 1894. O poder do ministério na Conferência Geral, e também nas Conferências Anuais, foi reduzido pela adoção da delegação leiga, antecipando em quase cinquenta anos a decisão da Igreja Metodista Episcopal de admitir leigos na sua Conferência Geral. A Igreja Metodista Livre, desde o início, admitiu delegados leigos nas Conferências Anuais, assim como na Conferência Geral, na proporção de um delegado leigo para cada pregador regularmente nomeado ou suplente. Quanto à sua admissão na Conferência Anual, a igreja-mãe ainda não seguiu o exemplo dado pela sua filha, embora o pedido esteja no ar e ainda possa se concretizar.

Na Igreja Metodista Livre, como no corpo de origem, há uma Conferência Geral, que se reúne de quatro em quatro anos; há também Conferências Anuais, Conferências Trimestrais e Juntas Oficiais; e os vários oficiais da igreja têm, na maior parte, os mesmos nomes. Para o ministério, conservam-se as duas ordenações, de diácono e de presbítero. A Igreja Metodista Livre conservou também o sistema metodista de pregadores locais, exortadores, reuniões de classe e líderes de classe. Os seus métodos nos procedimentos judiciais são muito semelhantes aos da Igreja Metodista, exceto que são um tanto mais simples e que se procurou proteger de modo mais sagrado e seguro os direitos de cada membro. Quanto à economia temporal, aos assuntos de educação, ao ritual e a outras coisas de menor importância, a nova igreja foi em grande parte modelada segundo o padrão daquela de que nasceu. Estas diferenças, porém, a caracterizaram desde o início: assentos gratuitos em todas as suas igrejas; simplicidade e economia na construção de templos; nenhum tipo de entretenimento permitido para levantar fundos para fins religiosos; nem música instrumental nem canto de coro permitidos no culto público.

Ver-se-á facilmente, portanto, que os fundadores da Igreja Metodista Livre estavam muito mais desejosos de edificar uma igreja de almas sérias, humildes, abnegadas e dedicadas do que de buscar o patrocínio dos ricos ou de conseguir a adesão das multidões que, embora professem a piedade, caem na classificação apostólica: “mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus” (2Tm 3.4).

Notas do autor

  1. Origin of the Free Methodist Church, de Bowen, pág. 220. ↩
  2. Life of B. T. Roberts, págs. 230-231. ↩
  3. Life of Roberts, págs. 233-235. ↩
  4. Origin of Free Methodist Church. ↩

Tradução para o português a partir de Wilson T. Hogue, History of the Free Methodist Church of North America (Chicago: Free Methodist Publishing House, 1915), 2 vols., no exemplar de 1918 da Universidade Emory digitalizado pelo Internet Archive; domínio público. O volume I foi conferido também com a transcrição do Holiness Data Ministry. Do volume II foram traduzidos os capítulos de alcance geral (XIII a XXI). As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA). Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.