Irineu de Lião · Contra as Heresias, Livro V (continuação)
Os reinos do fim, o Anticristo e o número do nome; a separação final; o reino dos justos depois da ressurreição.
1. Com luz ainda mais clara João, no Apocalipse, indicou aos discípulos do Senhor o que há de acontecer nos últimos tempos, e falou dos dez reis que então surgirão, entre os quais será repartido o império que agora governa [a terra]. Ele nos ensina o que serão os dez chifres que Daniel viu, contando-nos que assim lhe fora dito: “Os dez chifres que você viu são dez reis, que ainda não receberam reino, mas receberão autoridade como reis, durante uma hora, com a besta. Estes têm um mesmo propósito e oferecem à besta a sua força e o seu poder. Estes lutarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, porque ele é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis”.1 É manifesto, portanto, que daqueles [soberanos] o que há de vir matará três e sujeitará os demais ao seu poder, e que ele mesmo será o oitavo entre eles. E eles devastarão Babilônia e a queimarão com fogo, entregarão o seu reino à besta e porão a Igreja em fuga. Depois disso serão destruídos pela vinda do nosso Senhor. Pois que o reino deve ser dividido e assim chegar à ruína, o Senhor [o declara quando] diz: “Todo reino dividido contra si mesmo ficará deserto, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”.2 É necessário, portanto, que o reino, a cidade e a casa sejam divididos em dez; e por isso ele já prefigurou a partilha e a divisão [que hão de acontecer]. Também Daniel diz expressamente que o fim do quarto reino consiste nos dedos dos pés da estátua vista por Nabucodonosor, sobre a qual veio a pedra cortada sem auxílio de mãos; e, como ele mesmo diz: “Os pés eram em parte de ferro e em parte de barro, até que a pedra foi cortada sem auxílio de mãos e atingiu a estátua nos pés de ferro e de barro e os despedaçou até o fim”.3 Depois, ao interpretar isso, ele diz: “E, como você viu os pés e os dedos, em parte de barro e em parte de ferro, o reino será dividido, e haverá nele uma raiz de ferro, como você viu o ferro misturado com o barro cozido. E os dedos eram em parte de ferro e em parte de barro”.4 Os dez dedos, portanto, são esses dez reis entre os quais o reino será repartido; alguns deles serão fortes e ativos, ou enérgicos; outros, ao contrário, serão indolentes e inúteis, e não estarão de acordo, como também diz Daniel: “Uma parte do reino será forte, e outra parte será quebrada dele. Como você viu o ferro misturado com o barro cozido, haverá misturas no gênero humano, mas não coesão de um com o outro, assim como o ferro não pode ser soldado à louça de barro”.5 E, como haverá um fim, ele diz: “E, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que jamais se corromperá, e o seu reino não será deixado a outro povo. Ele despedaçará e esmagará todos os reinos, e ele mesmo será exaltado para sempre. Assim como você viu que a pedra foi cortada do monte sem auxílio de mãos e despedaçou o barro cozido, o ferro, o bronze, a prata e o ouro, Deus mostrou ao rei o que há de acontecer depois destas coisas; e o sonho é verdadeiro, e a interpretação é digna de confiança”.6
2. Se, portanto, o grande Deus mostrou as coisas futuras por meio de Daniel e as confirmou por meio do seu Filho; e se Cristo é a pedra cortada sem auxílio de mãos, que destruirá os reinos temporais e introduzirá um reino eterno, que é a ressurreição dos justos, como ele declara: “O Deus do céu levantará um reino que jamais será destruído” (Dn 2.44), então que voltem a si, assim refutados, os que rejeitam o Criador (Demiurgum) e não admitem que os profetas foram enviados de antemão pelo mesmo Pai de quem também veio o Senhor, mas afirmam que as profecias se originaram de potências diversas. Pois aquilo que foi predito pelo Criador, de igual modo, por meio de todos os profetas, Cristo o cumpriu no fim, servindo à vontade do seu Pai e completando as suas dispensações em relação ao gênero humano. Que aqueles, portanto, que blasfemam contra o Criador, seja com palavras abertamente expressas, como os discípulos de Marcião, seja pela perversão do sentido [da Escritura], como os de Valentino e todos os falsamente chamados gnósticos, sejam reconhecidos como agentes de Satanás por todos os que adoram a Deus; por meio deles Satanás agora, e não antes, foi visto falar contra Deus, contra aquele mesmo que preparou o fogo eterno para toda espécie de apostasia. Pois ele não se atreveu a blasfemar contra o seu Senhor abertamente, por si mesmo, assim como também no princípio desviou o homem por meio da serpente, escondendo-se, por assim dizer, de Deus. Com razão observou Justino:7 antes da manifestação do Senhor, Satanás nunca ousou blasfemar contra Deus, porque ainda não conhecia a sua própria sentença, que estava contida em parábolas e alegorias; mas, depois da manifestação do Senhor, quando soube claramente, pelas palavras de Cristo e dos seus apóstolos, que o fogo eterno foi preparado para ele, por ter apostatado de Deus por sua livre vontade, e igualmente para todos os que, sem arrependimento, permanecem na apostasia, agora ele blasfema, por meio de tais homens, contra o Senhor que traz o juízo [sobre ele], como quem já está condenado, e atribui a culpa da sua apostasia ao seu Criador, e não à sua própria disposição voluntária. É exatamente como acontece com os que violam as leis: quando o castigo os alcança, lançam a culpa sobre os que fazem as leis, e não sobre si mesmos. Do mesmo modo esses homens, cheios de um espírito satânico, levantam inúmeras acusações contra o nosso Criador, que nos deu o espírito de vida e estabeleceu uma lei adequada a todos; e não querem admitir que o juízo de Deus é justo. Por isso também se põem a imaginar algum outro Pai, que nem se importa com as nossas coisas nem exerce providência sobre elas, e que até aprova todos os pecados.
1. Se, então, o Pai não exerce o juízo, [segue-se] que o juízo não lhe pertence, ou que ele consente em todas as ações que acontecem; e, se ele não julga, todos serão iguais e considerados na mesma condição. A vinda de Cristo será, portanto, sem propósito, e até absurda, visto que [nesse caso] ele não exerce nenhum poder judicial. Pois “ele veio causar divisão entre o homem e o seu pai, entre a filha e a mãe e entre a nora e a sogra”;8 e, quando dois estiverem numa cama, tomar um e deixar o outro; e, de duas mulheres moendo no moinho, tomar uma e deixar a outra;9 [também] no tempo do fim, ordenar aos ceifeiros que ajuntem primeiro o joio, o amarrem em feixes e o queimem com fogo inextinguível, mas recolham o trigo no celeiro;10 e chamar os cordeiros ao reino preparado para eles, mas mandar os cabritos para o fogo eterno, preparado por seu Pai para o diabo e os seus anjos.11 E por que isso? Veio o Verbo para a ruína e para a ressurreição de muitos? Para a ruína, certamente, dos que não creem nele, aos quais também ameaçou com uma condenação, no dia do juízo, maior do que a de Sodoma e Gomorra;12 mas para a ressurreição dos que creem e dos que fazem a vontade do seu Pai que está nos céus. Se, então, a vinda do Filho alcança de igual modo a todos, mas tem o propósito de julgar e de separar os que creem dos que não creem, visto que os que creem fazem a sua vontade por sua própria escolha, e os desobedientes, [também] por sua própria escolha, não consentem na sua doutrina, é manifesto que o seu Pai fez todos em condição semelhante, cada um com escolha própria e entendimento livre; e que ele atenta para todas as coisas e exerce providência sobre todos, “fazendo o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos”.13
2. E aos que permanecem no seu amor para com Deus ele concede a comunhão consigo. Mas a comunhão com Deus é vida e luz, e o gozo de todos os bens que ele tem reservados. Já aos que, por sua própria escolha, se afastam de Deus, ele impõe a separação de si mesmo que eles escolheram por sua própria vontade. Mas a separação de Deus é morte, e a separação da luz é trevas; e a separação de Deus consiste na perda de todos os bens que ele tem reservados. Aqueles, portanto, que pela apostasia rejeitam as coisas acima mencionadas, estando de fato privados de todo bem, experimentam toda espécie de castigo. Deus, porém, não os castiga diretamente por si mesmo, mas esse castigo cai sobre eles porque estão privados de tudo o que é bom. Ora, os bens que estão junto de Deus são eternos e sem fim, e por isso a perda deles também é eterna e sem fim. Nisto acontece como no caso de uma torrente de luz: os que cegaram a si mesmos, ou foram cegados por outros, ficam para sempre privados do gozo da luz. Não é, [porém], que a luz lhes tenha infligido a pena da cegueira, mas é a própria cegueira que lhes trouxe a desgraça; e por isso o Senhor declarou: “Quem crê em mim não é condenado”,14 isto é, não está separado de Deus, pois está unido a Deus pela fé. Por outro lado, ele diz: “O que não crê já está condenado, porque não creu no nome do unigênito Filho de Deus”, isto é, separou-se de Deus por sua própria vontade. “Pois a condenação é esta: a luz veio a este mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz. Pois todo aquele que pratica o mal detesta a luz e não se aproxima da luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade se aproxima da luz, para que as suas obras se manifestem, que foram feitas em Deus.”
1. Visto, então, que neste mundo (aioni) algumas pessoas se voltam para a luz e pela fé se unem a Deus, mas outras fogem da luz e se separam de Deus, o Verbo de Deus vem e prepara para ambos uma habitação adequada: para os que estão na luz, a fim de que desfrutem dela e dos bens que nela se contêm; mas para os que estão nas trevas, a fim de que participem das suas desgraças. E por isso ele diz que os que estão à direita são chamados ao reino dos céus, mas os da esquerda ele os mandará para o fogo eterno, pois privaram a si mesmos de todo bem.
2. E por isso o apóstolo diz: “Porque não acolheram o amor de Deus para serem salvos, por isso Deus também lhes enviará a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos os que não creram na verdade, mas consentiram na injustiça”.15 Pois, quando ele (o Anticristo) vier e, por sua própria vontade, concentrar na sua pessoa a apostasia, e realizar tudo o que fizer segundo a sua própria vontade e escolha, assentando-se também no templo de Deus, para que os seus enganados o adorem como o Cristo, por isso também ele será merecidamente “lançado no lago de fogo”;16 [isso acontecerá segundo a determinação divina,] pois Deus, pela sua presciência, prevê tudo isso e, no tempo próprio, envia tal homem, “para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos os que não creram na verdade, mas consentiram na injustiça”. A sua vinda João a descreveu assim no Apocalipse: “E a besta que eu tinha visto era semelhante a leopardo, com pés como de urso e boca como de leão; e o dragão lhe conferiu o seu próprio poder, o seu trono e grande autoridade. E uma das suas cabeças parecia ter sido golpeada de morte; e a sua ferida mortal foi curada, e todo o mundo se maravilhou, seguindo a besta. E adoraram o dragão porque deu poder à besta; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante a esta besta, e quem pode lutar contra ela? E foi-lhe dada uma boca que proferia grandes coisas, e foi-lhe dada blasfêmia e autoridade durante quarenta e dois meses. E ela abriu a boca em blasfêmia contra Deus, para blasfemar o seu nome e o seu tabernáculo e os que habitam no céu. E foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação. E todos os que habitam sobre a terra a adoraram, [todo aquele] cujo nome não estava escrito no livro do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo. Se alguém tem ouvidos, ouça. Se alguém levar para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém matar à espada, à espada deve ser morto. Aqui está a perseverança e a fé dos santos”.17 Depois disso descreve igualmente o seu escudeiro, a quem também chama falso profeta: “Falava como dragão, exercia todo o poder da primeira besta na sua presença e fazia com que a terra e os que nela habitam adorassem a primeira besta, cuja ferida mortal havia sido curada. E fará grandes prodígios, de maneira que até pode fazer descer fogo do céu sobre a terra diante dos homens, e desviará os habitantes da terra”.18 Que ninguém imagine que ele realiza esses prodígios por poder divino, mas pela operação da magia. E não devemos nos surpreender se, estando os demônios e os espíritos apóstatas a seu serviço, ele realiza por meio deles prodígios com que desvia os habitantes da terra. João diz ainda: “E mandará fazer uma imagem da besta, e dará fôlego à imagem, de modo que a imagem fale; e fará matar os que não a adorarem”. Diz também: “E fará que se ponha uma marca na testa e na mão direita, para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tem a marca do nome da besta ou o número do seu nome; e o número é seiscentos e sessenta e seis”,19 isto é, seis vezes cem, seis vezes dez e seis unidades. [Ele dá isso] como uma recapitulação de toda aquela apostasia que ocorreu durante seis mil anos.
3. Pois em quantos dias este mundo foi feito, em tantos milhares de anos ele será concluído. E por isso a Escritura diz: “Assim foram acabados os céus e a terra e todo o seu ornamento. E Deus concluiu no sexto dia as obras que tinha feito; e Deus descansou no sétimo dia de todas as suas obras”.20 Isto é um relato das coisas criadas anteriormente, como é também uma profecia do que está por vir. Pois o dia do Senhor é como mil anos;21 e em seis dias as coisas criadas foram completadas: é evidente, portanto, que elas chegarão ao fim no sexto milênio.
4. E por isso, ao longo de todo o tempo, o homem, tendo sido modelado no princípio pelas mãos de Deus, isto é, pelo Filho e pelo Espírito, é feito segundo a imagem e semelhança de Deus: a palha, que é a apostasia, sendo lançada fora; mas o trigo, isto é, os que dão fruto para Deus na fé, sendo recolhido no celeiro. E por essa causa a tribulação é necessária para os que são salvos, a fim de que, tendo sido de certo modo triturados, reduzidos a farinha fina e umedecidos pela paciência do Verbo de Deus, e postos ao fogo [para purificação], se tornem aptos para o banquete do rei. Como disse um dos nossos, quando foi condenado às feras por causa do seu testemunho a respeito de Deus: “Sou o trigo de Cristo, e sou moído pelos dentes das feras, para que seja achado pão puro de Deus”.22
1. Nos livros anteriores expus as causas pelas quais Deus permitiu que essas coisas fossem feitas, e mostrei que todas elas foram criadas em benefício da natureza humana que é salva, amadurecendo para a imortalidade aquilo que é [dotado] de livre-arbítrio e de poder próprio, e preparando-o e tornando-o mais apto para a eterna sujeição a Deus. E por isso a criação é adequada [às necessidades] do homem; pois o homem não foi feito por causa dela, mas a criação por causa do homem. Aquelas nações, porém, que por si mesmas não ergueram os olhos para o céu, nem deram graças ao seu Criador, nem quiseram contemplar a luz da verdade, mas foram como ratos cegos escondidos nas profundezas da ignorância, a palavra com justiça as considera “como a água que escorre de um ralo e como o contrapeso de uma balança, na verdade, como nada”;23 úteis e proveitosas aos justos apenas na medida em que o restolho contribui para o crescimento do trigo, e a sua palha, pela combustão, serve para trabalhar o ouro. E por isso, quando no fim a Igreja for repentinamente arrebatada daqui, está dito: “Haverá tribulação tal como não houve desde o princípio, nem haverá”.24 Pois este é o último combate dos justos, no qual, quando vencem, são coroados com a incorruptibilidade.
2. E há, portanto, nessa besta, quando ela vier, uma recapitulação de toda espécie de iniquidade e de todo engano, a fim de que todo o poder apóstata, afluindo para ela e nela encerrado, seja lançado na fornalha de fogo. Com razão, portanto, o seu nome terá o número seiscentos e sessenta e seis, visto que ele recapitula na sua própria pessoa toda a mistura de maldade que houve antes do dilúvio, por causa da apostasia dos anjos. Pois Noé tinha seiscentos anos quando o dilúvio veio sobre a terra, varrendo o mundo rebelde, por causa daquela geração infame que viveu nos tempos de Noé. E [o Anticristo] recapitula também todo o erro dos ídolos inventados desde o dilúvio, juntamente com a matança dos profetas e o extermínio dos justos. Pois aquela estátua erguida por Nabucodonosor tinha sessenta côvados de altura e seis côvados de largura; por causa dela Ananias, Azarias e Misael, por não a adorarem, foram lançados numa fornalha de fogo, indicando profeticamente, pelo que lhes aconteceu, a ira contra os justos que se levantará perto do [tempo do] fim. Pois aquela estátua, tomada no seu conjunto, foi uma prefiguração da vinda desse homem, que decretará que só ele seja, sem dúvida, adorado por todos os homens. Assim, pois, os seiscentos anos de Noé, em cujo tempo ocorreu o dilúvio por causa da apostasia, e o número dos côvados da estátua pela qual aqueles justos foram lançados na fornalha ardente, indicam o número do nome daquele homem em quem se concentra toda a apostasia de seis mil anos, e a injustiça, e a maldade, e a falsa profecia, e o engano; por causa dessas coisas também virá um cataclismo de fogo [sobre a terra].
1. Sendo esta, pois, a situação, e encontrando-se este número em todas as cópias mais aprovadas e antigas25 [do Apocalipse], e dando testemunho [dele] aqueles homens que viram João face a face, enquanto também a razão nos leva a concluir que o número do nome da besta, [calculado] segundo o modo grego de contar pelo [valor das] letras nele contidas, somará seiscentos e sessenta e seis, isto é, o número das dezenas será igual ao das centenas, e o número das centenas igual ao das unidades (pois esse número, que [exprime] o algarismo seis mantido do começo ao fim, indica as recapitulações daquela apostasia, tomada em toda a sua extensão, que ocorreu no princípio, durante os períodos intermediários, e que ocorrerá no fim), não sei como alguns erraram seguindo o modo comum de falar e viciaram o número do meio do nome, subtraindo-lhe cinquenta, de modo que, em vez de seis dezenas, pretendem que haja apenas uma. [Inclino-me a pensar que isso ocorreu por culpa dos copistas, como costuma acontecer, já que também os números se exprimem por letras; de modo que a letra grega que exprime o número sessenta foi facilmente desdobrada na letra iota dos gregos.]26 Outros, então, receberam essa leitura sem exame; alguns, na sua simplicidade e por sua própria conta, usando esse número que exprime uma só dezena; enquanto outros, na sua inexperiência, se aventuraram a procurar um nome que contivesse o número errôneo e espúrio. Ora, quanto aos que fizeram isso com simplicidade e sem má intenção, podemos supor que Deus lhes concederá perdão. Mas quanto aos que, por vanglória, dão por certo que se devem aceitar nomes que contêm o número espúrio e afirmam que esse nome, achado por eles mesmos, é o daquele que há de vir, essas pessoas não sairão sem prejuízo, porque levaram ao erro tanto a si mesmas como aos que nelas confiaram. Ora, em primeiro lugar, é prejuízo desviar-se da verdade e imaginar que é assim o que não é; depois, como não haverá castigo leve [infligido] a quem acrescentar ou tirar alguma coisa da Escritura,27 nesse castigo tal pessoa há de necessariamente cair. Além disso, outro perigo, nada pequeno, alcançará os que falsamente presumem conhecer o nome do Anticristo. Pois, se esses homens supõem um [número], e esse [Anticristo] vier com outro, serão facilmente arrastados por ele, julgando que não é aquele que se espera e de quem é preciso guardar-se.
2. Esses homens, portanto, devem aprender [qual é realmente a situação] e voltar ao verdadeiro número do nome, para não serem contados entre os falsos profetas. Mas, conhecendo o número seguro declarado pela Escritura, isto é, seiscentos e sessenta e seis, aguardem, em primeiro lugar, a divisão do reino em dez; depois, quando esses reis estiverem reinando e começando a pôr em ordem os seus negócios e a fazer avançar o seu reino, [aprendam] a reconhecer que aquele que vier reivindicando o reino para si e aterrorizar os homens de quem temos falado, tendo um nome que contém o referido número, é verdadeiramente a abominação da desolação. Isto também o apóstolo afirma: “Quando disserem: Paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição”.28 E Jeremias não só aponta a sua vinda repentina, mas indica até a tribo da qual ele virá, quando diz: “Desde Dã ouviremos a voz dos seus cavalos velozes; toda a terra será abalada pela voz do relincho dos seus cavalos a galope; ele também virá e devorará a terra e a sua plenitude, a cidade também e os que nela habitam”.29 Esta é também a razão por que essa tribo não é contada no Apocalipse entre as que são salvas.30
3. É, portanto, mais seguro e menos arriscado aguardar o cumprimento da profecia do que ficar fazendo conjeturas e procurando quaisquer nomes que se apresentem, visto que se podem encontrar muitos nomes que possuem o número mencionado; e, afinal, a mesma questão continuará sem solução. Pois, se se encontram muitos nomes que possuem esse número, perguntar-se-á qual deles levará aquele que há de vir. Não digo isto por falta de nomes que contenham o número daquele nome, mas por temor de Deus e zelo pela verdade: pois o nome Evanthas (EUANThAS) contém o número exigido, mas nada afirmo a respeito dele. Também Lateinos (LATEINOS) tem o número seiscentos e sessenta e seis; e é uma [solução] muito provável, por ser este o nome do último reino [dos quatro vistos por Daniel]. Pois os latinos são os que atualmente dominam; não me vangloriarei, porém, por causa dessa [coincidência]. Também Teitan (TEITAN), escrita a primeira sílaba com as duas vogais gregas e e i, é, entre todos os nomes que se encontram entre nós, antes digno de crédito. Pois tem em si o número predito e compõe-se de seis letras, cada sílaba com três letras; e [a palavra em si] é antiga e afastada do uso comum; pois entre os nossos reis não encontramos nenhum com este nome, Titã, nem nenhum dos ídolos adorados publicamente entre os gregos e os bárbaros tem essa designação. Também para muitas pessoas este nome é tido por divino, de modo que até o sol é chamado “Titã” pelos que agora detêm [o poder]. Esta palavra contém ainda certa aparência exterior de vingança e de quem inflige um castigo merecido, porque ele (o Anticristo) finge que vinga os oprimidos.31 E, além disso, é um nome antigo, digno de crédito, de dignidade real e, mais ainda, nome próprio de um tirano. Visto, então, que este nome, “Titã”, tem tanto a seu favor, há um forte grau de probabilidade de que, dentre os muitos [nomes sugeridos], concluamos que talvez aquele que há de vir se chamará “Titã”. Não correremos, porém, o risco de nos pronunciar de modo positivo quanto ao nome do Anticristo; pois, se fosse necessário que o seu nome fosse revelado claramente no tempo presente, teria sido anunciado por aquele que viu a visão do Apocalipse. Pois ela foi vista não há muito tempo, mas quase em nossos dias, perto do fim do reinado de Domiciano.
4. Mas ele indica agora o número do nome para que, quando esse homem vier, o evitemos, sabendo quem ele é; o nome, porém, é omitido, porque não é digno de ser proclamado pelo Espírito Santo. Pois, se tivesse sido declarado por ele, ele (o Anticristo) talvez permanecesse por longo tempo. Mas agora, assim como “era e não é, e há de subir do abismo, e vai para a perdição”,32 como quem não tem existência, assim também o seu nome não foi declarado, pois não se proclama o nome daquilo que não existe. Mas, quando esse Anticristo tiver devastado todas as coisas neste mundo, reinará por três anos e seis meses e se assentará no templo em Jerusalém; e então o Senhor virá do céu nas nuvens, na glória do Pai, lançando esse homem e os que o seguem no lago de fogo, mas trazendo para os justos os tempos do reino, isto é, o descanso, o sétimo dia santificado, e restituindo a Abraão a herança prometida, reino no qual, como declarou o Senhor, “muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugar à mesa com Abraão, Isaque e Jacó”.33
1. Visto, além disso, que alguns que são contados entre os ortodoxos ultrapassam o plano preestabelecido para a exaltação dos justos e ignoram os modos pelos quais estes são disciplinados de antemão para a incorruptibilidade, acabam por sustentar opiniões heréticas. Pois os hereges, desprezando a obra das mãos de Deus e não admitindo a salvação da sua carne, enquanto também tratam com desprezo a promessa de Deus e ultrapassam inteiramente a Deus nas opiniões que formam, afirmam que, logo depois da morte, passarão acima dos céus e do Demiurgo e irão para a Mãe (Acamote) ou para aquele Pai que inventaram. Aqueles, portanto, que rejeitam uma ressurreição que alcance o homem inteiro (universam reprobant resurrectionem) e, quanto deles depende, a removem do meio [do plano cristão], que admira que também nada saibam sobre o plano da ressurreição? Pois não querem entender que, se as coisas são como eles dizem, o próprio Senhor, em quem professam crer, não ressuscitou ao terceiro dia, mas, logo que expirou na cruz, partiu sem dúvida para o alto, deixando o seu corpo à terra. Mas o que aconteceu foi que durante três dias ele habitou no lugar onde estavam os mortos, como diz o profeta a respeito dele: “E o Senhor se lembrou dos seus santos mortos, que outrora dormiam na terra da sepultura; e desceu até eles para os resgatar e salvar”.34 E o próprio Senhor diz: “Assim como Jonas permaneceu três dias e três noites no ventre da baleia, assim o Filho do Homem estará no coração da terra”.35 Também o apóstolo diz: “Mas, quando ele subiu, que é isso senão que também desceu às regiões inferiores da terra?”36 Isto também Davi diz, profetizando a respeito dele: “E livraste a minha alma do inferno mais profundo”;37 e, ao ressuscitar no terceiro dia, ele disse a Maria, que foi a primeira a vê-lo e a adorá-lo: “Não me toque, porque ainda não subi para o Pai; mas vá até os discípulos e diga a eles: Subo para o meu Pai e o Pai de vocês”.38
2. Se, então, o Senhor observou a lei dos mortos, para se tornar o primogênito dentre os mortos, e permaneceu até o terceiro dia “nas regiões inferiores da terra”;39 e depois, ressuscitando na carne, de modo que até mostrou aos discípulos a marca dos cravos,40 subiu assim ao Pai, [se todas essas coisas aconteceram, digo eu,] como não serão confundidos esses homens que alegam que “as regiões inferiores” se referem a este nosso mundo, e que o seu homem interior, deixando aqui o corpo, sobe ao lugar supraceleste? Pois, assim como o Senhor “foi para o meio da sombra da morte”,41 onde estavam as almas dos mortos, e depois ressuscitou no corpo e, depois da ressurreição, foi elevado [ao céu], é manifesto que também as almas dos seus discípulos, por causa dos quais o Senhor passou por essas coisas, irão para o lugar invisível que Deus lhes destinou e ali permanecerão até a ressurreição, aguardando esse acontecimento; depois, recebendo os seus corpos e ressuscitando na sua integridade, isto é, corporalmente, assim como o Senhor ressuscitou, virão assim à presença de Deus. “Pois nenhum discípulo está acima do Mestre, mas todo aquele que for perfeito será como o seu Mestre.”42 Assim como o nosso Mestre, portanto, não partiu imediatamente, levantando voo [para o céu], mas aguardou o tempo da sua ressurreição prescrito pelo Pai, que também fora mostrado por meio de Jonas, e, ressuscitando depois de três dias, foi elevado [ao céu], assim também nós devemos aguardar o tempo da nossa ressurreição prescrito por Deus e predito pelos profetas, e assim, ressuscitando, ser elevados, todos quantos o Senhor considerar dignos deste [privilégio].43
1. Visto, portanto, que as opiniões de alguns [ortodoxos] derivam de discursos heréticos, eles ignoram tanto as dispensações de Deus como o mistério da ressurreição dos justos e do reino [terreno], que é o começo da incorruptibilidade, reino por meio do qual os que forem dignos se acostumam gradualmente a participar da natureza divina (capere Deum44); e é necessário dizer-lhes, a respeito dessas coisas, que convém que os justos recebam primeiro a promessa da herança que Deus prometeu aos pais, e reinem nela, quando ressuscitarem para contemplar a Deus nesta criação renovada, e que o juízo aconteça depois. Pois é justo que naquela mesma criação em que trabalharam ou foram afligidos, sendo provados de todos os modos pelo sofrimento, recebam a recompensa do seu sofrimento; e que na criação em que foram mortos por causa do seu amor a Deus, nela sejam revivificados; e que na criação em que suportaram a servidão, nela reinem. Pois Deus é rico em todas as coisas, e todas as coisas são dele. Convém, portanto, que a própria criação, restaurada à sua condição primitiva, esteja sem restrição sob o domínio dos justos; e o apóstolo deixou isso claro na Epístola aos Romanos, quando assim fala: “Pois a expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Pois a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou na esperança; visto que a própria criação também será libertada do cativeiro da corrupção para a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”.45
2. Assim, pois, a promessa que Deus fez a Abraão permanece firme. Pois ele disse assim: “Erga os olhos e olhe deste lugar onde você está agora para o norte e o sul, o leste e o oeste. Pois toda a terra que você vê, eu a darei a você e à sua descendência, para sempre”.46 E diz ainda: “Levante-se e percorra a terra no seu comprimento e na sua largura, porque eu a darei a você”;47 e [contudo] ele não recebeu nela herança, nem sequer o espaço de um pé, mas foi sempre estrangeiro e peregrino nela.48 E, quando morreu Sara, sua mulher, e os heteus se dispuseram a lhe dar um lugar onde a sepultasse, ele recusou recebê-lo como presente, mas comprou o lugar da sepultura (pagando por ele quatrocentos talentos de prata) de Efrom, filho de Zoar, o heteu.49 Assim aguardou com paciência a promessa de Deus, e não quis parecer receber dos homens o que Deus lhe prometera dar, quando de novo lhe disse o seguinte: “Darei esta terra à sua descendência, desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates”.50 Se, então, Deus lhe prometeu a herança da terra, e ele não a recebeu durante todo o tempo da sua peregrinação ali, é necessário que, juntamente com a sua descendência, isto é, os que temem a Deus e creem nele, ele a receba na ressurreição dos justos. Pois a sua descendência é a Igreja, que recebe a adoção para Deus por meio do Senhor, como disse João Batista: “Pois Deus pode fazer com que destas pedras surjam filhos a Abraão”.51 Assim também o apóstolo diz na Epístola aos Gálatas: “Mas vocês, irmãos, são filhos da promessa, como Isaque”.52 E de novo, na mesma Epístola, declara claramente que os que creram em Cristo recebem Cristo, a promessa feita a Abraão, dizendo assim: “As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência. Não diz: E às descendências, como [falando] de muitas, mas como de uma só: E à sua descendência, que é Cristo”.53 E de novo, confirmando as suas palavras anteriores, diz: “Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi atribuído para justiça. Saibam, portanto, que os que têm fé é que são filhos de Abraão. Ora, tendo a Escritura previsto que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou de antemão a Abraão: Em você serão abençoados todos os povos. De modo que os que têm fé são abençoados com o fiel Abraão”.54 Assim, pois, os que têm fé serão abençoados com o fiel Abraão, e esses são os filhos de Abraão. Ora, Deus fez a Abraão e à sua descendência a promessa da terra; contudo, nem Abraão nem a sua descendência, isto é, os que são justificados pela fé, recebem agora nela herança alguma; mas a receberão na ressurreição dos justos. Pois Deus é verdadeiro e fiel; e por isso disse: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”.55
1. Ap 17.12-14.
2. Mt 12.25.
3. Dn 2.33-34.
4. Dn 2.41-42.
5. Dn 2.42-43.
6. Dn 2.44-45.
7. O texto grego está aqui conservado por Eusébio, História Eclesiástica, iv. 18; mas não se nos diz de que obra de Justino Mártir foi extraído. A obra está hoje perdida. Uma antiga catena continua o texto grego por mais algumas linhas.
8. Mt 10.35.
9. Lc 17.34-35.
10. Mt 13.30.
11. Mt 25.33-41.
12. Lc 10.12.
13. Mt 5.45.
14. Jo 3.18-21.
15. 2Ts 2.10-12.
16. Ap 19.20.
17. Ap 13.2-10.
18. Ap 13.11-14.
19. Ap 13.14-18.
20. Gn 2.1-2.
21. 2Pe 3.8.
22. Isto é citado da Epístola de Inácio aos Romanos, 4. Encontra-se nas duas recensões gregas das suas obras e também na siríaca. A carta está traduzida neste site, em Os Pais Apostólicos. Segue-se aqui a tradução latina: o grego de Inácio diria “o trigo de Deus” e omite “de Deus” perto do fim, como o cita Eusébio.
23. Is 40.15.
24. Mt 24.21.
25. en pasi tois spoudaiois kai archaiois antigraphois. Esta passagem é interessante, porque mostra quão cedo devem ter perecido os autógrafos do Novo Testamento, e quão cedo variantes de leitura se infiltraram nos manuscritos dos livros canônicos.
26. Isto é, X em EI, segundo Harvey, que considera toda esta oração uma evidente interpolação. Ela não ocorre no texto grego aqui conservado por Eusébio (História Eclesiástica, v. 8).
27. Ap 22.19.
28. 1Ts 5.3.
29. Jr 8.16.
30. Ap 7.5-7.
31. Massuet cita aqui Cícero e Ovídio para provar que o sol era chamado Titã. Os titãs fizeram guerra contra os deuses, para se vingarem de Saturno.
32. Ap 17.8.
33. Mt 8.11.
34. Irineu cita esta mesma passagem no livro III (xx. 4) como de Isaías e no livro IV (xxii. 1) como de Jeremias. Não se encontra em nenhum dos dois profetas, embora Justino Mártir, no Diálogo com Trifão, a apresente como argumento e acuse diretamente os judeus de a terem retirado fraudulentamente do texto sagrado. Também não se encontra em nenhuma versão antiga do Targum judaico, o que pode ser considerado prova decisiva de que é espúria.
35. Mt 12.40.
36. Ef 4.9.
37. Sl 86.13.
38. Jo 20.17.
39. Ef 4.9.
40. Jo 20.20, 27.
41. Sl 23.4.
42. Lc 6.40.
43. Os cinco capítulos seguintes foram omitidos nas edições anteriores, mas acrescentados por Feuardent. A maior parte dos manuscritos também não os continha. É provável que os copistas da Idade Média os tenham rejeitado por inculcarem noções milenaristas, que havia muito estavam extintas na Igreja. Citações destes cinco capítulos foram reunidas por Harvey a partir de manuscritos siríacos e armênios recentemente descobertos.
44. Ou: “compreender gradualmente a Deus”.
45. Rm 8.19-21.
46. Gn 13.14-15.
47. Gn 13.17.
48. At 7.5; Hb 11.13.
49. Gn 23.11.
50. Gn 15.18.
51. Lc 3.8.
52. Gl 4.28.
53. Gl 3.16.
54. Gl 3.6-9.
55. Mt 5.5.
Tradução para o português a partir das versões inglesas de J. Armitage Robinson (The Demonstration of the Apostolic Preaching, Londres, SPCK, 1920, traduzida do armênio) e de Alexander Roberts e W. H. Rambaut (Against Heresies, Livro V, Ante-Nicene Fathers, vol. 1, Buffalo, 1885), conferidas com as imagens das páginas; domínio público. É, portanto, tradução de tradução. As notas são dos tradutores ingleses; as do editor americano da coleção foram omitidas. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Irineu cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Septuaginta ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.