Jerônimo, Cartas pastorais · Carta 107
Apresentação do editor inglês
Leta, nora de Paula, escrevera de Roma a Jerônimo perguntando como deveria criar a filha pequena (também chamada Paula) como virgem consagrada a Cristo. Jerônimo agora a instrui em pormenores sobre a formação e a educação da menina. Tendo, porém, alguma dúvida sobre se o plano que propõe será praticável em Roma, aconselha Leta, em caso de dificuldade, a mandar Paula para Belém, onde ficará aos cuidados da avó e da tia, Paula, a mais velha, e Eustóquia. Leta acabou por aceitar o conselho de Jerônimo e mandou a criança para Belém, onde ela, com o tempo, sucedeu a Eustóquia à frente do convento de virgens fundado pela avó. A carta é do ano 403 d.C.
1. O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios e instruindo na sagrada disciplina uma igreja ainda pouco ensinada em Cristo, estabeleceu, entre outros mandamentos, também este: “A mulher que tem marido descrente, se ele consente em morar com ela, não o abandone. Porque o marido descrente é santificado pela esposa crente, e a esposa descrente é santificada pelo marido crente; do contrário, os filhos de vocês seriam impuros, mas agora são santos.”1 Se alguém até agora supôs que os laços da disciplina estão demasiado frouxos e que o mestre concede indulgência excessiva, olhe para a casa de seu pai, homem da mais alta distinção e erudição, mas que ainda anda nas trevas; e perceberá, como resultado do conselho do apóstolo, um fruto doce nascido de um tronco amargo e bálsamos preciosos exalados de caniços comuns. Você mesma é fruto de um casamento misto; mas os pais de Paula, você e meu amigo Toxócio, são ambos cristãos. Quem poderia acreditar que ao pontífice pagão Albino nasceria, em resposta aos votos de uma mãe, uma neta cristã; que um avô encantado ouviria dos lábios balbuciantes da pequena o Aleluia de Cristo, e que, na velhice, embalaria no colo uma das virgens do próprio Deus? Nossas expectativas foram plenamente satisfeitas. O único descrente é santificado por sua família santa e crente. Pois, quando um homem está cercado por uma multidão crente de filhos e netos, é praticamente um candidato à fé. De minha parte, penso que, se ele tivesse tido tantos parentes cristãos quando era jovem, poderia ter sido levado então a crer em Cristo. Pois, ainda que ele cuspa nesta carta e ria dela, e ainda que me chame de tolo ou de louco, o genro dele fez o mesmo antes de vir a crer. Os cristãos não nascem; fazem-se. Com todo o seu dourado, o Capitólio começa a parecer encardido. Todos os templos de Roma estão cobertos de fuligem e teias de aranha. A cidade é sacudida até os alicerces, e o povo passa diante de seus santuários meio arruinados para visitar os túmulos dos mártires. A crença que não foi concedida pela convicção pode acabar sendo arrancada pela própria vergonha.
2. Falo-lhe assim, Leta, minha devotíssima filha em Cristo, para ensiná-la a não desesperar da salvação de seu pai. Minha esperança é que a mesma fé que lhe deu a filha possa ganhar também o seu pai, e que você possa assim alegrar-se com as bênçãos concedidas a toda a sua família. Você conhece a promessa do Senhor: “O que é impossível para o ser humano é possível para Deus” (Lc 18.27). Nunca é tarde para emendar-se. O ladrão passou da própria cruz para o paraíso (cf. Lc 23.42-43). Também Nabucodonosor, rei da Babilônia, recobrou o juízo, mesmo depois de ter sido feito semelhante aos animais no corpo e no coração e de ter sido obrigado a viver com as feras no deserto (Dn 4.33-37). E, para deixar de lado histórias tão antigas, que aos descrentes bem podem parecer incríveis, não foi o seu próprio parente Graco, cujo nome revela a origem patrícia, quem, há poucos anos, quando ocupava a prefeitura da Cidade, derrubou, despedaçou e desmantelou a gruta de Mitra2 e todas as imagens terríveis que nela havia? Refiro-me àquelas pelas quais os adoradores eram iniciados como Corvo, Noivo, Soldado, Leão, Perseu, Sol, Caranguejo e Pai. Não foi ele, repito, quem as destruiu e depois, mandando-as à sua frente como reféns, obteve para si o batismo cristão?
Até na própria Roma o paganismo ficou na solidão. Os que antes eram os deuses das nações permanecem sob seus tetos solitários, com corujas e aves noturnas. Os estandartes do exército trazem estampado o sinal da cruz. O manto de púrpura do imperador e seu diadema cintilante de joias são ornados com representações do patíbulo vergonhoso, mas salvador. O egípcio Serápis já se tornou cristão;3 enquanto em Gaza, Marnas4 chora em seu confinamento e espera a todo momento ver o seu templo derrubado. Da Índia, da Pérsia, da Etiópia acolhemos diariamente monges em multidões. O arqueiro armênio depôs a aljava, os hunos aprendem o saltério, os gélidos citas são aquecidos pelo ardor da fé. Os getas,5 ruivos e de cabelos louros, levam igrejas em tendas junto com os seus exércitos; e talvez o seu êxito em lutar contra nós se deva ao fato de crerem na mesma religião.
3. Quase me desviei para um assunto novo e, enquanto mantinha a roda girando, minhas mãos foram modelando um jarro quando o meu propósito era formar uma bilha.6 Pois, atendendo às suas orações e às da santa Marcela, desejo dirigir-me a você como mãe e instruí-la sobre como criar a nossa querida Paula, que foi consagrada a Cristo antes de nascer e votada ao seu serviço antes de ser concebida. Assim, em nossos dias, vimos repetir-se a história que os Profetas7 nos contam de Ana, que, a princípio estéril, depois se tornou fecunda. Você trocou uma fecundidade ligada à dor por uma descendência que jamais morrerá. Pois estou confiante de que, tendo dado ao Senhor a sua primogênita, você será mãe de filhos homens. É o primogênito que se oferece sob a Lei (Êx 13.2). Samuel e Sansão são exemplos disso, como também João Batista, que saltou de alegria quando Maria entrou (Lc 1.41). Pois ele ouviu o Senhor falando pela boca da Virgem e desejou romper o ventre da mãe para ir ao seu encontro. Assim, uma vez que Paula nasceu em resposta a uma promessa, seus pais devem dar-lhe uma formação adequada ao seu nascimento. Samuel, como você sabe, foi criado no Templo, e João foi formado no deserto. O primeiro, como nazireu, usava cabelos compridos, não bebia vinho nem bebida forte e, já na infância, conversava com Deus. O segundo evitava as cidades, usava um cinto de couro e tinha por alimento gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.4). Além disso, para figurar a penitência que haveria de pregar, vestia-se com os despojos do camelo corcunda.8
4. Assim deve ser educada uma alma que há de ser templo de Deus. Ela deve aprender a não ouvir nada e a não dizer nada que não pertença ao temor de Deus. Não deve entender palavras impuras nem conhecer as canções do mundo. Sua língua, ainda tenra, deve ser embebida na doçura dos salmos. Os meninos, com seus pensamentos levianos, devem ser mantidos longe de Paula; até as suas criadas e acompanhantes devem ser separadas de companhias mundanas. Pois, se aprenderam algum mal, podem ensinar ainda mais. Arranje para ela um jogo de letras feitas de buxo ou de marfim, cada uma chamada pelo seu nome próprio. Deixe-a brincar com elas, de modo que até a brincadeira lhe ensine alguma coisa. E não só faça com que ela apreenda a ordem correta das letras e cuide de que forme com os nomes delas uma cantiga, mas desarrume constantemente essa ordem e ponha as últimas letras no meio e as do meio no começo, para que ela as conheça todas tanto pela vista quanto pelo som. Além disso, assim que ela começar a usar o estilete na cera, quando a mão ainda estiver vacilante, guie os seus dedos macios pondo a sua mão sobre a dela, ou então mande gravar numa tabuinha modelos simples; de modo que os seus esforços, confinados a esses limites, sigam as linhas traçadas para ela e não se desviem delas. Ofereça prêmios por soletrar bem e atraia-a com pequenos presentes, como os que encantam as crianças da sua idade. E que ela tenha companheiras nas lições, para despertar nela a emulação, a fim de que se sinta estimulada ao vê-las elogiadas. Você não deve repreendê-la se for lenta para aprender, mas usar o elogio para despertar a sua mente, de modo que ela se alegre quando superar as outras e se entristeça quando for superada por elas. Acima de tudo, tome cuidado para não tornar as lições desagradáveis para ela, para que a aversão concebida na infância não continue nos anos mais maduros. As próprias palavras que ela tenta, pouco a pouco, juntar e pronunciar não devem ser casuais, mas nomes escolhidos de propósito e reunidos para esse fim, por exemplo, os dos profetas ou dos apóstolos, ou a lista dos patriarcas a partir de Adão, como a dão Mateus e Lucas. Desse modo, enquanto a língua dela é bem exercitada, a memória também será desenvolvida. Além disso, você deve escolher para ela um mestre de idade, vida e saber comprovados. Um homem culto não se envergonhará, penso eu, de fazer por uma parenta ou por uma virgem de nobre linhagem o que Aristóteles fez pelo filho de Filipe quando, descendo ao nível de um simples mestre-escola, consentiu em ensinar-lhe as letras.9 Não se devem desprezar como de pouca importância as coisas sem as quais não se podem alcançar grandes resultados. Os próprios rudimentos e primeiros começos do saber soam diferentes na boca de um homem instruído e na de um ignorante. Por isso, cuide para que a criança não seja levada pelos tolos afagos das mulheres a criar o hábito de encurtar palavras longas ou de enfeitar-se com ouro e púrpura. Desses hábitos, um estragará a sua fala, e o outro, o seu caráter. Ela não deve, portanto, aprender em criança o que depois terá de desaprender. Diz-se que a eloquência dos Gracos se deveu em grande parte ao modo como a mãe lhes falava desde os primeiros anos.10 Hortênsio11 tornou-se orador quando ainda estava no colo do pai. As primeiras impressões são difíceis de arrancar da mente. Uma vez tingida de púrpura a lã, quem pode devolver-lhe a brancura anterior? Um jarro novo conserva por muito tempo o gosto e o cheiro daquilo com que foi enchido pela primeira vez.12 A história grega nos conta que o imperioso Alexandre, senhor do mundo inteiro, não conseguiu livrar-se dos trejeitos de maneira e de andar que adquirira na infância de seu aio Leônidas.13 Estamos sempre prontos a imitar o que é mau; e os defeitos se copiam depressa, quando as virtudes parecem inalcançáveis. A ama de Paula não deve ser dada ao vinho, nem leviana, nem mexeriqueira. A criada que a carrega deve ser respeitável, e o seu pai de criação, de porte grave. Quando ela vir o avô, deve saltar-lhe ao peito, pôr os braços em volta do pescoço dele e, queira ele ou não, cantar-lhe Aleluia aos ouvidos. Pode ser acariciada pela avó, pode sorrir para o pai para mostrar que o reconhece, e pode fazer-se tão querida de todos que a família inteira se alegre por possuir tal botão de rosa. Deve-se dizer-lhe logo quem ela tem por outra avó e quem tem por tia; e ela deve também aprender em que exército está alistada como recruta e qual é o Capitão sob cuja bandeira é chamada a servir. Que ela anseie por estar com as ausentes, e incentive-a a fazer, brincando, ameaças de deixar você para ir ter com elas.
5. Que a própria roupa e o traje dela lhe lembrem a Quem está prometida. Não lhe fure as orelhas nem pinte com alvaiade ou ruge o rosto consagrado a Cristo. Não lhe pendure ouro ou pérolas ao pescoço nem lhe carregue a cabeça de joias, nem, tingindo-lhe de vermelho os cabelos, faça que eles lembrem os fogos da geena. Que as pérolas dela sejam de outro tipo, e tais que ela possa vendê-las mais tarde e comprar em seu lugar a pérola “de grande valor” (Mt 13.46). Tempos atrás, uma senhora de posição, chamada Pretextata, por ordem do marido Himécio, tio de Eustóquia, alterou o vestido e a aparência dessa virgem e arrumou à moda do mundo os seus cabelos descuidados, querendo vencer a resolução da própria virgem e a vontade expressa da mãe dela. Mas eis que, naquela mesma noite, aconteceu-lhe que um anjo veio a ela em sonhos. Com olhar terrível, ameaçou-a de castigo e rompeu o silêncio com estas palavras: “Você ousou pôr as ordens do seu marido acima das de Cristo? Ousou pôr mãos sacrílegas na cabeça de uma virgem de Deus? Essas mãos vão secar imediatamente, para que você saiba pelo tormento o que fez, e ao fim de cinco meses você será levada para o inferno.14 E, além disso, se persistir ainda na sua maldade, será privada tanto do marido quanto dos filhos.” Tudo isso aconteceu no devido tempo, e uma morte rápida assinalou a penitência, por demais adiada, da infeliz mulher. Tão terrivelmente Cristo castiga os que violam o seu templo (cf. 1Co 3.17), e com tanto zelo defende as suas joias preciosas. Contei aqui esta história não por algum desejo de exultar com as desgraças dos infelizes, mas para adverti-la de que você deve, com muito temor e cuidado, cumprir o voto que fez a Deus.
6. Lemos que o sacerdote Eli se tornou desagradável a Deus por causa dos pecados de seus filhos (1Sm 2.27-36); e nos é dito que não se pode fazer bispo um homem cujos filhos sejam dissolutos e desregrados (1Tm 3.4). Por outro lado, está escrito da mulher que “será salva tendo filhos, se permanecerem em fé, amor e santidade, com castidade”.15 Se, pois, os pais são responsáveis pelos filhos quando estes já estão em idade madura e são independentes, quanto mais devem ser responsáveis por eles quando, ainda não desmamados e fracos, não sabem, nas palavras do Senhor, “distinguir entre a mão direita e a mão esquerda” (Jn 4.11), isto é, quando ainda não sabem distinguir o bem do mal? Se você toma precauções para salvar a sua filha da picada de uma víbora, por que não tem o mesmo cuidado em protegê-la do “martelo de toda a terra”?16 em impedi-la de beber do cálice de ouro da Babilônia? em impedi-la de sair com Diná para ver as filhas de uma terra estranha (Gn 34)? em salvá-la da dança saltitante e do vestido de cauda? Ninguém ministra drogas sem antes untar de mel a borda do cálice;17 assim, para melhor nos enganar, o vício assume o porte e a aparência da virtude. Por que então, dirá você, lemos: “O filho não pagará pela iniquidade do pai, nem o pai pagará pela iniquidade do filho”, mas “a pessoa que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20)? A passagem, respondo, refere-se aos que têm discernimento, como aquele de quem os pais disseram no evangelho: “já tem idade… poderá falar por si mesmo” (Jo 9.21). Enquanto o filho é criança e pensa como criança, e até chegar aos anos do discernimento para escolher entre os dois caminhos a que aponta a letra de Pitágoras,18 os pais são responsáveis pelas ações dele, sejam boas ou más. Mas talvez você imagine que, se não forem batizados, os filhos dos cristãos respondem pelos próprios pecados, e que nenhuma culpa recai sobre os pais que privam do batismo aqueles que, pela tenra idade, não podem opor-lhe objeção. A verdade é que, assim como o batismo garante a salvação da criança, isto por sua vez traz proveito aos pais. Oferecer ou não a sua filha estava na sua escolha, mas, agora que a ofereceu, você a negligencia por sua conta e risco. Falo em termos gerais, pois no seu caso você não tem escolha, já que ofereceu a sua filha antes mesmo de concebê-la. Quem oferece uma vítima coxa, mutilada ou marcada por algum defeito é considerado culpado de sacrilégio (cf. Dt 15.21). Quanto mais será castigada aquela que prepara para os abraços do rei uma porção do seu próprio corpo e a pureza de uma alma sem mancha, e depois se mostra negligente com essa sua oferta?
7. Quando Paula ficar um pouco mais velha e crescer, como o seu Esposo, em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens (Lc 2.52), que vá com os pais ao templo do seu verdadeiro Pai, mas que não saia do templo com eles. Que eles a procurem pela estrada do mundo, entre as multidões e o ajuntamento dos parentes, e não a encontrem em parte alguma senão no santuário das Escrituras (cf. Lc 2.43-46), interrogando os profetas e os apóstolos sobre o sentido daquele casamento espiritual ao qual está votada. Que imite o recolhimento de Maria, que Gabriel encontrou sozinha no seu quarto e que se assustou (Lc 1.29), ao que parece, por ver ali um homem. Que a menina imite aquela de quem está escrito que “a filha do rei é toda gloriosa por dentro” (Sl 45.13). Ferida pela flecha do amor, que ela diga ao seu amado: “O rei me introduziu nos seus aposentos” (Ct 1.4). Que em tempo algum saia de casa, para que não a encontrem os guardas que rondam a cidade, e para que não a espanquem e a firam e lhe tirem o véu da sua castidade (Ct 5.7) e a deixem nua no seu sangue (cf. Ez 16.1-10). Antes, quando alguém bater à sua porta (Ct 5.2), que ela diga: “Eu sou uma muralha, e os meus seios, como as suas torres (Ct 8.10). Já lavei os pés! Como voltar a sujá-los?” (Ct 5.3)
8. Que ela não tome as refeições com os outros, isto é, à mesa dos pais, para que não veja pratos que possa desejar. Alguns, eu sei, consideram virtude maior desdenhar um prazer que está de fato diante deles; mas eu penso que é um domínio próprio mais seguro evitar aquilo que forçosamente atrai. Certa vez, quando menino na escola, deparei com estas palavras: “É difícil censurar aquilo que se deixa virar hábito”.19 Que ela aprenda desde já a não beber vinho, “no qual há excesso” (Ef 5.18). Mas, como antes de as crianças chegarem a uma idade robusta a abstinência é perigosa e penosa para os seus corpos tenros, que ela tome banhos se precisar, e que tome um pouco de vinho por causa do estômago (1Tm 5.23). Que seja também sustentada com uma dieta de carne, para que os pés não lhe faltem antes de começarem a percorrer a sua carreira. Mas digo isto por concessão, não por mandamento; porque temo enfraquecê-la, e não porque deseje ensinar-lhe a satisfazer-se. Além disso, por que uma virgem cristã não haveria de fazer por inteiro o que outros fazem em parte? Os judeus supersticiosos rejeitam certos animais e produtos como alimento, enquanto entre os indianos os brâmanes e entre os egípcios os gimnosofistas vivem inteiramente de mingau, arroz e maçãs. Se o simples vidro compensa tanto trabalho, não há de valer ainda mais trabalho uma pérola?20 Paula nasceu em resposta a um voto. Que a vida dela seja como a vida dos que nasceram nas mesmas condições. Se a graça concedida é a mesma em ambos os casos, o esforço empregado também deve sê-lo. Que ela seja surda ao som do órgão e não conheça sequer os usos da flauta, da lira e da cítara.
9. E que seja tarefa dela trazer-lhe todos os dias as flores que colheu nas Escrituras. Que aprenda de cor certo número de versos em grego, mas que seja instruída também no latim. Pois, se os lábios tenros não forem moldados para isso desde o começo, a língua se estraga com um sotaque estrangeiro e a fala nativa se corrompe com elementos alheios. Você mesma deve ser a mestra dela, um modelo pelo qual ela possa formar a sua conduta infantil. Nunca, nem em você nem no pai dela, deixe-a ver aquilo que ela não possa imitar sem pecado. Lembrem-se ambos de que são pais de uma virgem consagrada e de que o exemplo de vocês a ensinará mais do que os seus preceitos. As flores murcham depressa, e um vento funesto logo seca a violeta, o lírio e o açafrão. Que ela nunca apareça em público a não ser acompanhada por você. Que nunca visite uma igreja ou um santuário de mártir a não ser com a mãe. Que nenhum rapaz a cumprimente com sorrisos; que nenhum janota de cabelos frisados lhe faça galanteios. Se a nossa pequena virgem for às vigílias solenes e às noites inteiras de oração, que não se afaste um fio de cabelo do lado da mãe. Ela não deve escolher uma das criadas para fazer dela sua favorita especial ou confidente. O que ela diz a uma, todas devem saber. Que escolha por companheira não uma moça bonita e bem-vestida, capaz de gorjear uma canção com notas límpidas, mas uma pálida e séria, vestida com sobriedade e com o tom da melancolia. Que tome por modelo alguma virgem idosa de fé, caráter e castidade comprovados, apta a instruí-la pela palavra e pelo exemplo. Ela deve levantar-se à noite para recitar orações e salmos; cantar hinos de manhã; às horas terceira, sexta e nona, tomar o seu lugar na fileira para combater por Cristo; e, por fim, acender a sua lâmpada e oferecer o seu sacrifício vespertino.21 Nessas ocupações, que ela passe o dia, e, quando a noite chegar, que a encontre ainda entregue a elas. Que a leitura siga a oração, e a oração por sua vez suceda à leitura. O tempo parecerá curto quando empregado em tarefas tão numerosas e variadas.
10. Que ela aprenda também a fiar lã, a segurar a roca, a pôr o cesto no colo, a girar a roda de fiar e a moldar o fio com o polegar. Que rejeite com desdém os tecidos de seda, os velos da China22 e os brocados de ouro: a roupa que fizer para si deve proteger do frio, e não expor o corpo que pretende cobrir. Que o alimento dela sejam verduras e pão de trigo,23 com, de vez em quando, um ou dois peixinhos. E, para não gastar mais tempo dando preceitos para a regulação do apetite (assunto que tratei mais longamente em outro lugar),24 que as suas refeições sempre a deixem com fome e capaz de começar no mesmo instante a ler ou a salmodiar. Desaprovo fortemente, sobretudo para os de tenra idade, os jejuns longos e imoderados em que se acrescenta semana a semana e se proíbem como alimento até o azeite e as maçãs. Aprendi por experiência que o burro que se arrasta pela estrada procura uma estalagem quando está cansado.25 A nossa abstinência pode virar glutonaria, como a dos adoradores de Ísis e de Cibele, que devoram faisões e rolinhas bem quentes para que os seus dentes não violem os dons de Ceres.26 Se se permite o jejum perpétuo, ele deve ser regulado de tal modo que os que têm longa viagem pela frente possam aguentar até o fim; e devemos tomar cuidado para não cair no meio do caminho depois de ter começado bem. Contudo, na Quaresma, como já escrevi antes, os que praticam a renúncia devem soltar todo o pano das velas, e o cocheiro deve, por uma vez, afrouxar as rédeas e aumentar a velocidade dos cavalos. Ainda assim, haverá uma regra para os que vivem no mundo e outra para as virgens e os monges. O leigo, na Quaresma, consome as paredes do próprio estômago e, vivendo como um caracol do seu próprio suco, prepara uma pança para as comidas fartas e os banquetes que virão. Mas, com a virgem e o monge, o caso é diferente; pois, quando estes soltam as rédeas aos seus corcéis, têm de lembrar que, para eles, a corrida não conhece intervalo. Um esforço feito só por tempo limitado pode bem ser severo, mas um que não tem tal limite deve ser mais moderado. Pois, enquanto no primeiro caso podemos recobrar o fôlego quando a corrida termina, no último temos de prosseguir continuamente e sem parar.
11. Quando você for por pouco tempo ao campo, não deixe a sua filha para trás. Não lhe deixe poder nem capacidade de viver sem você, e que ela sinta medo quando for deixada sozinha. Que não converse com gente do mundo nem conviva com virgens indiferentes aos seus votos. Que não esteja presente aos casamentos dos seus escravos e não tome parte nos jogos barulhentos da casa. Quanto ao uso do banho, sei que alguns se contentam em dizer que a virgem cristã não deve banhar-se junto com eunucos ou com mulheres casadas: com os primeiros, porque ainda são homens, pelo menos na mente; com as segundas, porque as mulheres grávidas oferecem um espetáculo repugnante. De minha parte, porém, desaprovo totalmente os banhos para uma virgem em idade adulta. Uma tal virgem deve corar e sentir-se perturbada à ideia de ver-se despida. Com vigílias e jejuns, ela mortifica o corpo e o reduz à servidão. Com uma castidade fria, procura apagar a chama da concupiscência e extinguir os desejos ardentes da juventude. E, por um desleixo deliberado, apressa-se a estragar a sua beleza natural. Por que, então, haveria ela de acrescentar lenha a um fogo adormecido tomando banhos?
12. Que os tesouros dela não sejam sedas ou gemas, mas manuscritos das Sagradas Escrituras; e, nestes, que ela pense menos no dourado, no pergaminho babilônico e nos arabescos27 do que na correção do texto e na pontuação exata. Que comece aprendendo o saltério e depois recolha regras de vida dos provérbios de Salomão. Do Pregador, que adquira o hábito de desprezar o mundo e as suas vaidades.28 Que siga o exemplo de virtude e de paciência dado em Jó. Depois, que passe aos evangelhos, para nunca mais os pôr de lado depois de tomá-los nas mãos. Que absorva também de bom grado os Atos dos Apóstolos e as Epístolas. Assim que tiver enriquecido o depósito da mente com esses tesouros, que confie à memória os profetas, o heptateuco,29 os livros dos Reis e das Crônicas, e também os rolos de Esdras e de Ester. Quando tiver feito tudo isso, poderá ler com segurança o Cântico dos Cânticos, mas não antes; pois, se o lesse no começo, não perceberia que, embora escrito em palavras carnais, é um canto nupcial de um casamento espiritual. E, não entendendo isso, sofreria dano com ele. Que evite todos os escritos apócrifos e, se for levada a lê-los, não pela verdade das doutrinas que contêm, mas por respeito aos milagres neles narrados, que entenda que não foram realmente escritos por aqueles a quem são atribuídos, que muitos elementos defeituosos foram introduzidos neles e que é preciso infinita prudência para procurar ouro no meio da lama. Os escritos de Cipriano, que ela os tenha sempre nas mãos. As cartas de Atanásio30 e os tratados de Hilário31 ela pode percorrer sem medo de tropeçar. Que tenha prazer nas obras e no engenho de todos aqueles em cujos livros não se descuida da devida consideração pela fé. Mas, se ler as obras de outros, que seja antes para julgá-las do que para segui-las.
13. Você responderá: “Como poderei eu, mulher do mundo, vivendo em Roma, cercada de gente, observar todas essas prescrições?” Nesse caso, não tome sobre si um fardo para o qual não tem forças. Quando tiver desmamado Paula, como Isaque foi desmamado, e a tiver vestido como Samuel foi vestido, mande-a para a avó e a tia; entregue esta preciosíssima entre as gemas, para que seja posta no quarto de Maria e repouse no berço onde o menino Jesus chorou. Que seja criada num mosteiro, que seja uma entre os grupos de virgens, que aprenda a evitar o juramento, que considere a mentira um sacrilégio, que ignore o mundo, que viva a vida angélica, que, estando na carne, seja sem a carne, e que suponha que todos os seres humanos são como ela. Para não falar das outras vantagens, esse caminho a livrará da difícil tarefa de vigiá-la e da responsabilidade da tutela. É melhor lamentar a ausência dela do que viver tremendo por ela para sempre. Pois você não pode deixar de tremer enquanto observa o que ela diz e a quem o diz, a quem cumprimenta e quem mais gosta de ver. Entregue-a a Eustóquia enquanto ainda é apenas uma criancinha e cada choro seu é uma oração por você. Assim, a menina se tornará agora companheira dela na santidade e, no futuro, sua sucessora. Que ela contemple e ame, que “desde os primeiros anos admire”32 aquela cuja linguagem, porte e vestido são uma educação na virtude (cf. Eclo 19.30). Que se sente no colo da avó, e que esta repita à neta as lições que outrora deu à própria filha. Uma longa experiência ensinou Paula a criar, a guardar e a instruir virgens; e, todos os dias, entretece-se na sua coroa o místico cento que significa a castidade mais elevada.33 Ó feliz virgem! Feliz Paula, filha de Toxócio, que, pelas virtudes da avó e da tia, é mais nobre na santidade do que na linhagem! Sim, Leta: se lhe fosse possível ver com os próprios olhos a sua sogra e a sua cunhada, e compreender as almas poderosas que animam os seus pequenos corpos, tal é a sua sede inata de castidade que não posso duvidar de que você iria ter com elas até antes da sua filha, e se emanciparia do primeiro decreto de Deus na Lei (Gn 1.28) para pôr-se sob a sua segunda dispensação, a do Evangelho (1Co 7.1). Você teria por nada o seu desejo de outros filhos e se ofereceria a si mesma ao serviço de Deus. Mas, porque há “tempo de abraçar e tempo de deixar de abraçar” (Ec 3.5), e porque “a esposa não tem poder sobre o seu próprio corpo” (1Co 7.4), e porque o apóstolo diz: “Cada um permaneça na vocação em que foi chamado” (1Co 7.20) no Senhor, e porque quem está sob o jugo deve correr de tal modo que não deixe o companheiro no atoleiro, aconselho-a a pagar por inteiro, na sua descendência, o que por ora adia pagar na sua própria pessoa. Quando Ana ofereceu no tabernáculo o filho que tinha consagrado a Deus, nunca mais o tomou de volta; pois achava impróprio que aquele que havia de ser profeta crescesse na mesma casa com quem ainda desejava ter outros filhos. Por isso, depois de concebê-lo e dá-lo à luz, não ousou ir ao templo sozinha nem aparecer de mãos vazias diante do Senhor, mas primeiro pagou-lhe o que devia; e então, depois de oferecer aquele grande sacrifício, voltou para casa e, porque tinha gerado o seu primogênito para Deus, recebeu cinco filhos para si (1Sm 2.21). Você se admira da felicidade daquela santa mulher? Imite a sua fé. Além disso, se você apenas mandar Paula, prometo ser eu mesmo para ela tanto preceptor quanto pai de criação. Velho como estou, eu a carregarei nos ombros e formarei os seus lábios balbuciantes; e a minha tarefa será muito mais grandiosa que a do filósofo do mundo;34 pois, enquanto ele apenas ensinou um rei da Macedônia que um dia havia de morrer de veneno babilônico, eu instruirei a serva e esposa de Cristo, que um dia há de ser oferecida ao seu Senhor no céu.
1. 1Co 7.13-14; a palavra “crente” é inserida duas vezes por Jerônimo.
2. O deus-sol persa, naquela época uma das divindades mais populares do panteão romano. Graco parece ter feito isso como pretor urbano, no ano de 378.
3. No ano de 389 d.C., o templo de Serápis em Alexandria fora demolido e, em seu lugar, construída uma igreja cristã.
4. Em outro lugar (Vida de Hilarião, § 20), Jerônimo relata uma história extraordinária sobre a derrota desse demônio.
5. Conhecida tribo trácia, que não se deve confundir com os godos.
6. Cf. Horácio, Arte poética, 21-22: “Começou-se a fazer uma ânfora: por que, girando a roda, sai uma bilha?”
7. Os livros de Josué, Juízes, Samuel e Reis são chamados, na Bíblia hebraica, Profetas Anteriores.
8. Cf. Carta 79, § 3. Jerônimo aparentemente quer dizer que a dificuldade da penitência é tão grande quanto a de um camelo passar pelo fundo de uma agulha. Ao vestir-se de pelos de camelo, dá a entender, João mostra que venceu essa dificuldade.
9. Quintiliano, Instituição oratória, I, 1.
10. Quintiliano, Instituição oratória, I, 1.
11. Contemporâneo e rival de Cícero.
12. Horácio, Epístolas, I, 2, 69.
13. Quintiliano, Instituição oratória, I, 1.
14. Inferna.
15. 1Tm 2.15. A Versão Autorizada inglesa traz “sobriedade” em vez de “castidade”, mas Jerônimo prefere deliberadamente a segunda palavra.
16. A Babilônia, a potência mundial. Jr 50.23.
17. Lucrécio, I, 936 e seguintes.
18. A letra Y, usada por Pitágoras para simbolizar os caminhos divergentes do bem e do mal. Cf. Pérsio, III, 56.
19. Citado de novo na Carta 128, § 4.
20. Cf. Carta 79, § 7. O sábio pagão é o vidro; a virgem cristã, a pérola.
21. Veja a nota à Carta 22, § 37.
22. Expressão virgiliana, Geórgicas, II, 121.
23. Simila; mas, como em outro lugar (Carta 52, § 6) isso é mencionado como um luxo, talvez devamos ler similia, isto é, “e coisas semelhantes”.
24. Jerônimo refere-se ao seu segundo livro contra Joviniano.
25. Cf. as palavras de São Francisco ao morrer (que têm referência semelhante): “Pequei contra meu irmão, o asno”.
26. Isto é, tendo feito voto de abster-se de pão, compensam-se com carne.
27. Vermiculata pictura.
28. Jerônimo nos conta que leu o livro com Blesila com esse propósito.
29. Isto é, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué e Juízes.
30. Delas, um grande número ainda existe. Mais de vinte são “cartas festais”, que anunciavam às igrejas o dia correto em que se devia celebrar a Páscoa.
31. Entre eles há comentários sobre muitas partes da Escritura e uma obra sobre a Trindade.
32. Virgílio, Eneida, VIII, 507.
33. O número 100 significa a virgindade, à qual Paula, em sua própria pessoa, não podia ter pretensão. Veja a nota à Carta 48, § 2.
34. A alusão é a Aristóteles, que foi preceptor de Alexandre, rei da Macedônia.
Tradução para o português a partir da versão inglesa de W. H. Fremantle (Nicene and Post-Nicene Fathers, 2ª série, vol. 6, Nova York, 1893), conferida com as imagens das páginas; domínio público. O original é latino: esta é, portanto, tradução de tradução. O parágrafo de apresentação de cada carta é de Fremantle; os números de seção são os da edição dele. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA) quando Jerônimo cita o texto bíblico tal como o conhecemos; quando cita pela Bíblia latina ou de memória, segue-se a redação dele. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.